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domingo, janeiro 18, 2015

HITOMI KANEHARA, SARAH DUNANT, DIANE DI PRIMA, CÉCILE CHAMINADE & LOUELLA PARSONS

 


A SOLIDÃO DE CÉCILE, A VESTAL MUSICAL – Era Cécile a terceira filha de seis irmãos duma familia burguesa parisiense. Suas primeiras aulas de piano foram ministradas por sua mãe, enquanto que seu pai reprovava que ela estudasse no conservatório. Mesmo assim, estudos particulares levaram-na, aos 8 anos de idade, a tocar Bizet que era seu vizinho e ficara muito impressionado com sua habilidade de composição. Com isso, conseguiu convenceu seu pai a ter aulas no conservatório. Aos 18 anos ela dava seu primeiro concerto, ganhando reputação de compositora e pianista. Escreveu uma ópera cômica em um ato, La Sevillane. Depois vieram a Suite d'orchestre op. 20, o Balé Sinfônico Callirhoe op. 37, o Concertstuck op. 40 para piano e orquestra, estreando triunfalmente nos Estados Unidos, ao reger a Orquestra de Filadélfia. Mais vieram: Les Amazons, que um drama sinfônico, e seu famoso Concertino para flauta e orquestra, que tornou-se popularíssima e bastante executada. Como também era Louise, ela compôs obras curtas e simples, com melodias letras ricas e cativantes aceitas por seus então fiéis e apaixonados público. E mais: obras para piano, música de câmara e melodias para voz e piano. Como ainda era também Stephanie foi pioneira com sucesso na França, Alemanha e Inglaterra. Quando morreu seu pai ela foi uma das primeiras a fazer uma turnê pelos Estados Unidos e Inglaterra. Tornou-se uma celebridade musical e sendo cultuada por clubes fundados por mulheres progressistas favoráveis ao movimento sufragista, com suas melodias líricas e seu talento avassalador. Mesmo se considerando uma vestal da música, ela casou-se com um editor musical idoso, 20 anos mais velho que ela, tendo de enfrentar a calúnia de casamento por conveniência. Mas, logo enviuvou: É difícil conciliar a vida doméstico com o artístico... Quando uma mulher talentosa se casa com um homem que aprecia esse lado dela, tal casamento pode ser idealmente feliz para ambos... Ela levantou a cabeça e enfrentou o mundo, tornando-se bem sucedida na carreira, sucesso de audiência sem precedentes. Insistiu em ser vestal da criação com mais de 400 composições musicais, também foi pioneira artista, tendo sido contemplada com a Legião de Honra Francesa, bem como a Medalha do Jubileu dada pela Rainha Vitória, e o Chefekat, dado pelo Sultão de Türkiye. Óperas, peças teatrais, obras para orquestra, obras de câmara, muitas obras para piano e muitas outras melodias para voz e piano. Sua Sonata para Piano Op. 211, seu Etude symphonique op. 28, a Dança do Lenço (Scenes de Ballet Callirhoë op. 37, no. 3), a Flattery 199 op. 50 e sua Sérénade espagnole op. 150, fazem parte de sua prodigiosa produção musical. Depois da primeira grande guerra, tanto sua música como ela caíram no esquecimento repentino. Exilou-se para escapar da segunda grande guerra em Monte Carlo. Além disso, vieram as críticas do excesso de feminilidade, destrutivas pela definição do círculo social da vida pública destinado aos homens, a competição entre artistas, além de ser acusada de que suas peças eram de sala de estar. Nadava contra a corrente com enormes pressões sociais relativas ao paradigma que o seu tempo exerceu de excessiva misoginia. Indubitavelmente ela era uma compositora original, inovadora e talentosa, adaptando poesia e música como sua assinatura nas melodias encantadoras, demonstrando técnica compositiva excepcional, um talento incrivelmente fértil. Mesmo assim foi insultada e desprezada, relegada à obscuridade e teve, para piorar, o pé esquerdo amputado por conta duma descalcificação de seus ossos, incapacitando-a. Viu-se sozinha e esquecida, era a sua dura realidade. Viva Cécile Louise Stéphanie Chaminade (1857-1944). Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Nascimento, acasalamento, morte. Quanto mais ela pensa nisso, mais parece que isso é tudo que existe: uma roda girando e girando, movendo-se tão rápido que às vezes você nem consegue distinguir os raios. É uma maravilha que haja espaço para poesia. Quando há medo em relação ao futuro, é reconfortante descontá-lo em pessoas de fora que podem ser responsabilizadas pelo passado. O que antes era a linguagem do segredo agora é a linguagem do poder. A falta deixa a alma em carne viva. Pensamento da escritora, jornalista, radialista e crítica britânica Sarah Dunant, que no seu livro The Birth of Venus (Random House Trade, 2004), expressa que: […] O Diabo pode levar os imprudentes, mas os bons certamente morrerão de tédio. Tédio e frustração. [...] Há mais glória na paz do que na guerra [...] A morte era, afinal, um ponto de parada temporário numa jornada mais longa [...].

 

ALGUÉM FALOU: A primeira pessoa com quem me importei profunda e sinceramente foi: eu mesmo. A única forma de aliviar a fome é comendo. Pensamento da escritora e jornalista estadunidense Louella Parsons (Louella Rose Oettinger - 1881-1972). Veja mais aqui.

 

COBRAS & BRINCOS - [...] Deus tem que ser sádico para dar vida às pessoas. [...] Eu caí no chão e me desmanchei em lágrimas. Dane-se. Vão para o inferno, seus filhos da puta. Eu queria ter um vocabulário maior para expressar completamente a extensão da minha dor e ódio. Mas eu não tenho. Eu sou simplesmente patética. É tudo o que eu sou. [...] Tudo o que eu podia fazer era escapar da realidade, mas toda vez que eu tentava escapar da dor, essa mesma dor me dizia que eu provavelmente estava me apaixonando por ele. [...] O silêncio da sala foi quebrado por um lamento de dor vindo de dentro de mim. [...]. Trechos extraídos da obra Snakes And Earrings (Vintage Books, 2005), da escritora japonesa Hitomi Kanehara, que no seu livro Autofiction (Vintage Books, 2008), expressou que: […] Enquanto danço, começo a me sentir aquecido e desligo o aquecedor. Fico pensando por que sou uma pessoa tão difícil e olho para o aquecedor e penso na minha teimosia. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, mas continuo dançando [...]. Sobre a vida ela também expressou que: Tudo o que eu queria era fazer parte de um mundo subterrâneo onde o sol não brilha, não há canções de amor e o som do riso das crianças nunca, jamais, é ouvido.

 

UM EXERCÍCIO DE AMOR - Meu amigo usa meu lenço na cintura\ Eu dou a ele pedras da lua\ Ele me dá conchas e algas\ Ele vem de uma cidade distante e eu o conheço\ Plantaremos berinjela e aipo juntos\ Ele me tece pano\ Muitos trouxeram os presentes\ Eu uso para o prazer dele\ seda e colinas verdes\ & garça da cor do amanhecer\ Meu amigo anda suave como uma tecelagem ao vento\ Ele ilumina meus sonhos\ Ele construiu altares ao lado da minha cama\ Acordo com o cheiro do cabelo dele e não consigo me lembrar\ o nome dele ou o meu. Poema da poeta estadunidense Diane di Prima (1934-2020). Veja mais aqui e aqui.

 

SACADOUTRAS

 

NOVELAS DE APRENDIZADO – Explorando os aspectos psicológicos da vida humana, o escritor, advogado e jornalista Autran Dourado (1926-2012) traz na apresentação do livro o texto Começo de aprendizado, reunindo as obras A teia (1947) e Sombra e Exílio (1950), expressando que: “Não sei precisar direito quando foi que primeiro me deu a sapituca de escrever, que viria a me seguir a vida inteira e espero venha a me abandonar afinal, para que eu possa me entregar ao puro gozo da leitura, o vicio impune de que falava Valéry Larbaud se valendo duns versos ingleses. Do que gosto mesmo é de ler, escrever é mais uma questão de querer. Acrtedito que tenha sido quando peguei um lápis e um caderino para livremente escrever, sem ordem ou obrigação, a não ser a minha vontade, um texto qualquer, produto do puro gosto e da imaginação. O que era, não me lembro; sei que não se tratava de exercício escolar. [...] Se na frente veio Herculano me inseminar o germe narrativo, então estarei certo de que escrever é um ato mimético de preservação e astúcia, de desejo e apropriação. Ou como queria a minha saudosa amiga e grande escritora Clarice Lispector: A gente escreve pelo mesmo motivo com que um menino, diante de um objeto de outro, diz “eu também quero um”. [...] Se algum apressado psicanalista de galinheiro atribuir a paixão da leitura e o gosto de escrever à libido, estará cometendo despudorado atrevimento. [...] Às vezes, em dia de pessimismo, acho que devia ter continuado um aprendiz, matéria que deixo aos meus leitores de caderno e ao possível leitor novo”. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: Silence, da artista plástica Irina Vitalievna Karkabi. Veja mais aqui. 

Ouvindo: Obertura Festiva (1919), op. 21, do compositor, musicólogo, professor e arquiteto chileno Juan Orrego-Salas, com a Indianapolis Symphony Orchestra, Izler Solomon, conductor.

CULTURA DA DOENÇA: ONDE A SAÚDE? – Em 1900, registra do antropólogo Darcy Ribeiro, no seu livro Aos trancos e barrancos: como o Brasil deu no que deu, que: “É lançado o Biotônico Fontoura, prometendo vigor incomparavel em seus reclamantes. Com ele, cresce a industria farmacêutica nacional, produzindo o Elixir de Inhame, a Saúde da Mulher, o Regulador Gesteira, o Xarope Bromil, que davam fortunas antes da invasão da Emulsão de Scott, do Bristol Pills, da Cafiaspirina. Mais tarde, vieram as multinacionais farmacêuticas que tomaram tudo. Hoje, doentes, doemos em dólares”. Pois é, desde então, essa política da medicalização requer de forma premente uma humanização da medicina no Brasil. Afinal, onde a saúde, hem? Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.



O FILÓSOFO DESCONHECIDO - O filósofo, advogado, pensador e místico francês Loius Claude de Saint-Martin (1743-1803), publicou diversos livros sob o pseudônimo de Filósofo Desconhecido, influenciado por Martinez de Pasqually e Jacob Boehme, e criou a sociedade iniciática Sociedade dos Filósofos Desconhecidos, trabalhando a sua ideia teosófica do “homem de desejo”, significando esse desejo a miséria e a grandeza humana, um sentimento doloroso daquilo que separa a existência da essência e a necessidade de as unir. O seu livro O Homem de Desejo foi publicado pela primeira vez em 1790, composto por litânias no estilo do salmista, nas quais a alma humana evolui para o seu primeiro estágio, num caminho que o Espírito pode ajudá-la a percorrer, tendo por objeto mostrar que o homem deve confiar na Regeneração, chamando sua atenção para a necessidade de retorno ao Mundo Divino de onde saiu e ao trabalho que deverá realizar para alcançar esse objetivo, isto é, concentrando suas forças pelo desejo ardente de aperfeiçoar-se e tornar-se um homem de vontade forte. O seu livro Ecce Homo, traz a advertência acerca do perigo de buscar a excitação das emoções das experiências mágicas de baixo nível, das premonições, dos diversos fenômenos que não passam de expressões de estado psicofísicos anormais do ser-humano. No livro O Novo Homem, o autor traz o pensamento como um órgão de renascimento que permite penetrar no mais profundo do ser humano e descobrir a verdade eterna de sua natureza: a alma do homem é um pensamento de Deus. No livro Do Espírito das Coisas, ele declara que o homem, criado à semelhança de Deus, pode penetrar no seio do Ser que está oculto por toda a Criação e que, graças a sua clara visão interior, ele é capaz de ver e reconhecer as verdades de Deus depositadas na Natureza. No livro O Ministério do Homem Espírito, ele complementa todas as indicações precedentes, apresentando um objetivo que não é diferente, qual seja, o da ascensão de uma alta montanha: o homem escala impelido por uma necessidade interior e no antegozo da vitória, que traz a liberdade após tribulações e sofrimentos. Outros dos seus livros são a inacabada Dos Números, o poema épico O Crocodilo e importante Nova Revelação. Outras obras póstumas foram publicadas na confirmação de que toda a sua existência foi dedicada à ideia de um grande renascimento da humanidade e ele desencadeou um eco profundo, não somente na França mas também no Oeste e no Leste da Europa. Veja mais aqui e aqui.

UMA FILÓSOFA NO ILUMINISMO - A filósofa inglesa Damaris Cudworth Masham (1659-1708) defendia a educação das mulheres. Apesar dos problemas com sua visão e falta de acesso a recursos educacionais mais elevados, ela publicou duas obras filosóficas, o Discurso sobre o amor de Deus (1696) e Pensamentos para uma virtuosa vida cristã (1705), que foram publicados de forma anônima para evitar críticas por ser escritos por uma mulher e baseados nos pensamentos de Locke e enfatizando a importancia da moralidade prática e da educação. Ele teve intensa correspondência com o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz e, também, com seu futuro mentor, o filósofo inglês John Locke de quem recebeu rasgados elogios, além de muitos outros filósofos do Iluminismo. Na sua visão: “o catolicismo romano, com sua ênfase sobre os externos da religião é, em grande parte superstição”, defendendo, como Locke, que uma vida virtuosa é mais importante do que um cerimonial religioso e argumentando que a conduta moral é fundamental para a prática religiosa. Para ela a educação é a chave certa para inculcar a virtude, que é a de ser aprendido não através de preceito, mas através do desenvolvimento de uma compreensão racional de princípios morais. Com relação à educação inferior dada às mulheres, ela argumenta que deixa-os impróprios para ser capaz de dar a seus filhos uma educação adequada, como a maioria das crianças durante este período de tempo quando são dadas educação infantil por suas mães e porque a educação ainda é muito reservada a aqueles nas classes de elite, defendendo o acesso das mulheres ao ensino superior, uma vez que lhes teria permitido para melhor educar seus filhos e filhas, e em razão do avanço na sociedade. Além disso, as mulheres devem ter acesso à educação para o bem-estar espiritual, não apenas de seus filhos, mas para o seu próprio bem. Veja mais aqui.


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O pensamento de Erich Fromm aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

E mais:
A poesia de Cruz e Souza aqui, aqui e aqui.
Amém e amem, Naná Vasconcelos & Lucélia D’ Roquet aqui.
O coração de Iaravi, Manifesto Appellatio, Edgar Degas, Ewa Kienko Gawlik & J. Lanzellotti aqui.
Stéphane Mallarmé, John Updike, César Guerra-Peixe, Luc Besson, Frank Frazetta, Ingrid Koudela, Scarlett Johansson & Brincarte do Nitolino aqui.
Pesquisa & Cia, Fernando Sabino, Eliane Elias, Marcelo Gleiser, Minna Canth, Juno/Hera, Bigas Luna, Alonso Cano & Francesca Neri aqui.
Papa Highirte de Oduvaldo Vianna Filho aqui.
Alexander Scriabin, Cássia Kiss, Denise Georg, Gustave Doré, Mr. Bean, Zé Edu Camargo, Gabi Alves, Márcia Poesia de Sá & Programa Tataritaritatá aqui.
A arte de Darel Valença Lins, A árvore do conhecimento de Humberto Maturana & Francisco Varela, A terra oca de Raymond Bernard, Luiz Melodia & Lady Francisco aqui.
Holística, Claude Debussy & Laurindo Almeida, Carl Rogers, Emily Greene Balch & Pierre Bonnard aqui.
Cassandra, Horácio, Christa Wolf, Woody Allen, Cassandra Wilson, Milena Moraes. Cassandra Peterson, Doro & Fidelia Cassandra aqui.
Sou da terra alma Caeté, a lenda indígena do Sol & Lua Ofaié de Darcy Ribeiro, Yasushi Akutagawa, Kent Williams & Renate Dartois aqui.
Dos desmantelos que deixam qualquer um de cangalha pro ar, John Ross Macduff, Salvador Dali, Stan Getz & Despina Stokou aqui.
A dança tangará festeja a pletora do amor, Robert Gibson, Kleiton & Kledir, Lenda do Itararé & Luciah Lopez aqui.
No reino do Fecamepa nada pode dar certo, Betty Friedan, Celia Mara, Peter Klashorst & OsGêmeos aqui.
Como as coisas são e como podem ser, Lou Andreas-Salomé, Enrica Cavallo, Antoni Tàpies & Misty Copeland aqui.
Marquinhos Cabral, Sandra Fayad, Paulo Profeta, Gisele Lemos/Diana Balis, Carlos Gildemar Pontes, Rita Shimada Coelho, Luís Inácio Araújo & Helena Cristina Buarque aqui.
Wilson Monteiro & Cantarolando pé-de-serra, Legislação & Ambiental Virtual, Acidentes de Trânsito & Psicologia da Saúde aqui.
Zé Linaldo & a pernambucanidade renovada, Apropriação indébita previdenciária, Abuso Sexual, Psicologia & Sociologia aqui.
A Educação Superior aqui.
Os crimes de sonegação aqui.
Entrevista com uma estudante de Cacoal-Rondônia aqui.
Aprumando a conversa que o negócio não está pra brincadeira, João Guimarães Rosa, Poetas dos Palmares, Vera Indignada & Ascenso Ferreira, Antuerpio Pettersen Filho, Fecamepa & Vapapu aqui.
As trelas do Doro: no fuzuê da munheca aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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domingo, novembro 09, 2008

TERRA, DIREITOS INDIVIDUAIS, SAINT-MARTIN, BAZARIAN, ETTORE, TELES JUNIOR & MUITO MAIS!

Curtindo o álbum Imaginário (Córtazar, 2011), da pianista Lidia Bazarian. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE – [...] o homem era o único livro escrito pela mão de Deus [...] que dessa forma a nossa tarefa fundamental, e de primeira necessidade, era ler o homem, ou esse livro escrito pela própria mão de Deus, extraído da obra do filósofo, advogado, pensador e místico francês Louis Claude de Saint-Martin (1743-1803). Veja mais aqui e aqui.

Imagem A arte do artista plástico chinês Xue Yanqun. Veja mais aqui.

A TERRA – O astrônomo grego Heraclides do Ponto (388-315aC) ensinava que a Terra girava em redor do seu eixo. O astrônomo grego Aristardo de Samos (310-230aC) asseverava que a Terra girava em torno do Sol. Tais ideias foram rejeitadas por Hiparco, no sec IIaC e, posteriormente, por Ptolomeu, no sec. IIdC, fundador do sistema geocêntrico, que preferiram retomar a concepção primitiva da rotação dos céus para explicar o movimento diurno dos astros. Seguiram-se com a mesma ideia o astrônomo e matemático grefo Theon de Alexandria (sec. IV) e o astrônomo alemão Johan Müller (1436-1476), dito Regiomontanus. Entre os árabes essas ideias foram pouco discutidas, sendo que o astrônomo árabe al-Farghiani, dito Alfagamus, no sec. IX, a menciona para se opor a qualquer noção do movimento da Terra. O matemático e astrônomo e filósofo alemão Nikolas Krebs, dito Nicolau de Cusa (1401-1464), além de não admitir o geocentrismo, não aceitava que a imobilidade da Terra fosse possível em um mundo onde o movimento parece ser a qualidade natural de todas as coisas. Mais tarde, Nicolau Copernico (1473-1543), depois de confrontar teorias e experiências, faz renascer, de forma definitiva, as velhas ideias dos astrônomos gregos sobre a mobilidade da Terra, que alguns gênios isolados da Idade Média já aceitavam como verdadeira. A primeira demonstração experimental do movimento de rotação da Terra foi obtida, em 1851, pelo físico francês Leon Foucault (1819-1868). Veja mais aqui e aqui.
 
 QUANDO O CU ENTRA PRA HISTÓRIA - Teles Júnior era um artista múltiplo: poeta, artista plástico, entalhador e incentivador cultural. Sua enormidade de gesto não condizia com o seu tope: baixinho, bigodinho meio hitlerista, malcriado e sabichão. Tanto sabia muito bem aplaudir como botar gosto ruim no que julgasse impróprio. Não se continha: quando elogiava, rasgava a seda; quando detestava, arreava a lenha de pocar o tampo.
Sempre respeitei e respeito até hoje a memória de Teles Júnior. Grande figura: polêmico, sarcástico e duma convicção inarredável.
Conheci primeiro o seu texto na antologia "Poetas de Palmares", publicada em 1972. Depois sua pintura, sua talha e todo seu trabalho. O texto poético, principalmente quando recitava suas poesias, inacreditável a potência de sua voz caber num tamaínho daquele: um pouco mais de metro e meio e um vozeirão enfático de mexer com as estruturas. Mas como aprendi que tamanho num é documento e que a verdadeira altura está acima da cabeça, tive, pois que admirá-lo, a ele e ao Grupo Cultural dos Palmares - GRUCALP, que resiste até hoje em Palmares, tendo a frente seu filho, Jaorish Gomes Teles.
Não era ele daqueles casacudos, não. Simples e altivo como jamais vira. Talqualmente personificara Luiz Berto no seu "Romance da Besta Fubana".
Uma vez, eu ainda estudante de ginasial, resolvi com alguns amigos, comemorar o dia da poesia, já que a cidade passava por vigência o cognome de "Terra dos Poetas". Fiz o convite e ele foi o primeiro a chegar no ginásio. A meninada de todas as classes estava lá e todos se arrepearam com seu jeito de sapecar interpretação poética na récita emotiva e enfática. Foi uma festa.
Lembro-me bem quando publiquei em 1982, o meu primeiro livro com poesias escritas na adolescência, "Para viver o personagem do homem". Lá estava ele na primeira fila prestigiando o lançamento na Biblioteca Pública Fenelon Barreto. Três dias depois, ele me chega com um poema que me emocionou bastante.
A sua talha era um sucesso, não parava de fazer. Gente de muitos outros estados vinha para adquirir sua obra. Os quadros onde exibia um cubismo místico abusavam das cores e figuras geométricas.
Certa vez quando deram a ele para fazer o símbolo da cidade, um Zumbi, ele caprichou tanto que o afrodescendente saiu um pintudo viril do tamanho da liberdade que se almejava. Mas a negada não via a arte, via a pêia saliente da efígie, isso não poupando alguns aborrecimentos.
A partir daí dividimos uma convivência estreita, tomando umas e outras, até que ao havermos fundado as Edições Bagaço e já publicado dois títulos, chegara a vez do terceiro. Reunimo-nos no conselho editorial e resolvemos publicar "Assim falou Teles Júnior", um livro hermético, com poemas e textos esfíngicos, como ele próprio o era. Ele nos entregou os originais, tudo bem, tudo certo, fizemos o lançamento, mas ao que parece, o livro era mágico: quanto mais enviávamos para bibliotecas, para escolas, para instituições, mais exemplares aparecia. De trezentos volumes impressos cada dia que se passava o monturo ao invés de baixar, aumentava. Eu mesmo achava que a edição não tinha fim. Deu cria? Parece. Ainda hoje mesmo tenho certeza que existe ainda um bocado de exemplares da obra, isso se não aumentou a quantidade de esborrar pelo prédio. Eu que tinha uns dois exemplares, toda vez que arrumo minha biblioteca encontro mais. Constato: estão dando cria mesmo. Possivelmente, alguma magia que ele deva ter deixado por herança para intrigar a gente. E isso ele sabia fazer bem: do nada, tirava figuras, expressões, versos impresionantes.
Acontece que uma vez num dia de alinhamento dos planetas me encontro com ele numa praça da cidade. E, durante uma conversada longa que não parecia mais ter fim, fiz o convite para tomarmos uma cerveja. Ele aceitou desde que fosse fora da cidade. Havia, então, na epoca, um bar interessante em Japaranduba, bairro afastado da cidade. Lá nos aboletamos sob uma condição: que o garçom conseguisse para ele somente cerveja quente. Era. Tinha que ser daquela saída da grade na hora. Então, era uma quente para ele e uma geladíssima para mim. Coisa estranha, mas relevei. Assim, começamos a conversar sobre ocultismo, esoterismo, Gilberto Freire, Nietzschie, Gershwin, cosmogonia, Camus, Murilo Mendes, Palmares. Lá para as tantas, chegaram mais alguns amigos poetas, músicos, artistas plásticos, atores, e a conversa ficou acalorada. Essa é fogo. No meio da madrugada, álcool mandando mais que a razão, a discussão findou girando qual seria o órgão mais importante do corpo humano. E cada um defendia com unhas e dentes o que havia escolhido. Teles só recolhendo as impressões de todos. A roda girando, cerveja enchendo o quengo, a coisa se avolumando, quando deprecaram a posição de Teles. Ele, como sempre, deu um risinho para si, preparou aquela surpresa de que todos estavam errados com um discurso inflamado e sentenciando depois de seiscentos versos tirado de improviso a resposta.
- É o cu!
A coisa pegou fogo. Foi renhenhém para lá e para cá, cada qual reprovando e querendo prova por "a+b" que Teles estava sacaneando com todo mundo. E ele sério:
- Reitero, o mais importante do corpo humano é o cu!
Verdadeira azáfama fechou o tempo. Isso ele gostava, se deliciava com uma polêmica.
Depois de muita zoada deixaram ele explicar melhor na sua doctíloquia sapiência.
- Olhem, meus preclaros amigos, no dia que o cu se revoltar, que o procto, o sigmóide, o ponto crítico de Sudeck, a fita cólica distal, o colo ileopélvico, a cloaca, que o anel anoretal fechar, o quiba, ou como vocês vaníloquos chamam de ânus, quando ele se revoltar vamos ver todas as desgraças que o mundo já presenciou, tudo de novo.
Maior zoada no pé do ouvido, desaforos, xingamentos, repulsas, ele lá, tranqüilo só esperando a poeira baixar.
- Repito e vou fazer uma breve abordagem história a respeito. Por exemplo, Nero só tocou fogo em Roma porque estava com prisão de ventre. E por isso, mandava matar gente, esfolar nego, leão devorar presos e, numa dessas aperturas crônicas, a bosta num saía e ele tocou fogo em Roma e, só depois disso, teve uma caganeira de infestar tudo.
As gaitadas eclodiram desbragadamente ele tome acontecimentos históricos para cima e para baixo, explicações detalhadas com teor científico e esotérico, afirmando veementemente que Deus começou a criação do homem pelo cu e por aí vai.
A mundiça se ouriçou e ninguém se continha as gargalhadas segurando o bucho. E ele isse mais:
- O homem só faz a guerra quando está com prisão de ventre, com a tripa gaiteira entupida, só. Quando o cu funciona bem excretando as ruindades que sobram no estômago, a paz reina. Porém, quando não, o tempo fecha. Agora, digam-me, o cu é ou não é a parte mais importante do corpo humano? Palmas para Teles Júnior!!!!

PARA SER CANTADA EM MINHA NOITE – Entre os poemas do poeta, dramaturgo e romancista catalão Salvador Espriu (1913-1985), destaco a poesia Para ser cantada em minha noite: Perdido na água / calada do meu sonho. / Só eu, e a sombra / dos ciprestes, que espera / detro o espelho de água / do meu sonho. / Pedra, vento: vírilis / me afastar do continuo / fluir do cristal de água / do meu sonho? / Além de uma profunda / noite sem voz, afogo-me / no sofrimento de água / do meu sonho. Veja mais aqui.


ALZIRA POWER – Em 2005, tive a oportunidade de assistir no auditório Cultura Inglesa, em São Paulo, à montagem da peça teatral Alzira Poower, de Antonio Bivar, com Cissa Carvalho Pinto e Cesar Figueredo, contando a história de uma mulher reolvoltada com a condição de aposentada e soltária, aprisiona no apartamento um distraído vendedor de livros, e que ela o acua com sua ironia raivosa até leva-lo a uma reação. Veja mais aqui.

FEIOS, SUJOS E MALVADOS – O filme Feios, sujos e malvados (1976), dirigido por Ettore Scola, traz episódios cômicos, dramáticos e grotescos da vioda de Giachino Mazzatella, que mora num barraco na perfiferia de Roma com a mulher e dez filhos, dos quais tenta defender o dinheiro que recebeu como indenização pela perda de um olho. Entre os destaques do filme, uma delas é a marcante presença da lindíssima atriz italiana Adriana Russo. Veja mais aqui.


DIREITOS FUNDAMENTAIS E GARANTIAS CONSTITUCIONAIS - Os direitos individuais são vistos como aqueles direitos assegurados pelas constituições políticas a todo indivíduo, como parte da coletividade, objeto do amparo da lei e das instituições sociais e inerente à dignidade humana. Tais direitos surgiram com as grandes revoluções burocrático-burguesas do final do século XVIII, mudando, portanto, a concepção do mundo. Exemplo disso está a Declaração de Virgínia, de 12/06/1776 que trouxe a independência das treze colônias britânicas situadas na América do Norte; a Constituição dos Estados Unidos da América, de 17/09/1787, que fez a união de todos os estados num Estado Federal, que passaram a ser seus Estados – membros; e a Revolução francesa, de 1789, que pôs fim ao Antigo Regime. Estes movimentos ocorreram exatamente quando se desenvolviam os movimentos constitucionalistas que transformaram o formato clássico na inovação dos ideais liberais e democráticos. Um dos seus caracteres fundamentais desses acontecimentos é o individualismo, porque só consagra as liberdades dos indivíduos, sem mencionar a liberdade de associação nem a liberdade de reunião, preocupando-se apenas com defender o indivíduo contra o Estado. Por esta razão, os direitos individuais estão previstos no corpo constitucional referindo-se à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade, como a igualdade perante a lei, a liberdade de locomoção, de manifestação do pensamento, de culto, de reunião, de segurança pessoal, inviolabilidade da propriedade, do domicílio, dentre outros. E exatamente sobre esta relação do direito individual assegurados pela Constituição, que será desenvolvido o presente trabalho de pesquisa, no sentido de, modestamente, contribuir para o debate e amplitude da temática, tão fundamental no presente momento. O constitucionalismo foi um movimento no sentido de fazer dotar todo Estado de uma constituição suficiente para caraterizar o poder e a ação dos governos, colocando-os sob determinados limites e sobre determinados fundamentos. Este movimento, portanto, somente foi sedimentado com o racionalismo e o iluminismo, dos séculos XVII e XVIII, que trouxeram a dessacralização da cultura e o individualismo burguês, permitindo o advento da transição revolucionária para a ordem liberal. Neste contexto, localiza-se a continuação do humanismo renascentista, com suas tendências imanentistas e antropocêntricas, a emersão de uma cultura urbana e dessacralizada e de uma sociedade individualista com a crescente mobilidade interna. A evolução do constitucionalismo se firmou com a Revolução Francesa de 1789 que assinalou um passo para a frente na libertação humana, orientada pelos princípios de liberdade, igualdade, fraternidade, como uma famosa trilogia constitucional, conforme assinala Coutinho (2002:66): " O movimento constitucionalista deflagrado no século XVIII, e que teve como marcos a Revolução Francesa e a Consituição norte-americana, estabelece a primeira geração de direitos do homem, calcados em premissas individuais e no liberalismo". É preciso entender, portanto, que o constitucionalismo possui dois períodos distintos: o clássico, compreendido entre 1787 e 1918, e o moderno, compreendido a partir de 1918. O Constitucionalismo clássico começa com as constituições revolucionárias do século XVIII., no qual se enquadra a Constituição Americana de 1787, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão francesa de 1789, entre outros documentos importantes. Logo após, vem as constituições napoleônicas autoritárias do início do século XIX, seguidas, pelas constituições da restauração, como a dos Bourbons, de 1814, um ciclo que se estende até 1830, consagrando as monarquias limitadas, mas também se caracteriza por conter constituições outorgadas, feitas sob um processo autoritário de elaboração, como a do Império do Brasil de 1824. Depois vem as constituições liberais, como a francesa de 1830 e a belga de 1831, essa última muito importante por trazer uma inovação que marca o Constitucionalismo: incorpora a declaração dos direitos à Constituição e não os dispondo marginalmente. E por fim, as constituições democráticas, iniciadas em 1848. Nesse período, Lassalle (apud Ferreira, 1977), em meados do século XIX, doutrina a teoria de uma Constituição baseada nos fatores reais do poder. Isto quer dizer que uma Constituição só teria sua real efetividade quando declarasse as relações de poder dominantes, ou seja, poder militar, poder social, poder intelectual, poder econômico, entre outros. Segundo essa concepção política, a capacidade de regular está limitada à sua compatibilidade com a sua Constituição real, levando Jellinek (apud Moraes, 1999) a afirmar que "(...) o desenvolvimento das Constituições demostra que regras jurídicas não se mostram em condições de controlar questões de poder. As questões políticas mover-se-iam por si". Em função dessa inclinação política, o Constitucionalismo clássico pretendeu garantir os direitos individuais apenas no corpo legislativo resultado da divisão de poderes. A partir disso, percebe-se uma efetividade muito reduzida dos direitos individuais e políticos. Primeiro porque as declarações na maior parte das Constituições do século XIX não estavam no corpo da Lei Fundamental. Observa Malberg (apud Silva, 2002) que tais declarações não eram mais do que documentos filosóficos, não-dotados de eficácia jurídica. Além disso, há de se destacar duas características fundamentais do liberalismo clássico que contribuíram na doutrina da construção política da Constituição: a supremacia da lei reduziria o poder de atuação do judiciário e, como a Constituição era essencialmente política, a garantia dos direitos cabia quase que somente à separação dos poderes. Já o Constitucionalismo moderno também é compreendido a partir da tipologia democrática-racionalizada destacada da Constituição de Weimar de 1919 que tem como grande mérito a incorporação dos direitos sociais ao corpo constitucional e as "Constituições dos professores", como a austríaca de 1920, sob acentuada influência de Kelsen. Depois disso, vem a social-democrática das Constituições francesas de 1946, italiana de 1947 e a alemã de 1949. Esse ciclo é muito importante pela ênfase nos direitos sociais e econômicos. Ele se estende até os nossos dias e compreende também as Constituições portuguesa de 76, a espanhola de 78 e a brasileira de 88. O "estado social" é elevado na sua máxima expressão. Carrion (apud Kelly, 1977) considera que uma concepção política de Constituição pode ser obtida do próprio artigo 16 da DDHC de 1789: "Toda a sociedade na qual a garantia dos direitos não é assegurada e nem a separação dos poderes determinada não tem Constituição". A partir da entrada do século XX, foram sendo buscadas outras alternativas de garantias. Já com a Constituição belga de 1831, tem-se uma evolução no sentido das declarações de direitos serem incorporadas ao texto constitucional. Mas é efetivamente no Constitucionalismo moderno que ocorrem as maiores modificações. Modificações essas, que asseguram os direitos individuais constitucionalmente. O estudo desses direitos e deveres deve remontar aos tempos mais remotos da humanidade, épocas marcadas pela luta entre a liberdade individual e o poder estatal, ou, para usar a linguagem mais apropriada àqueles tempos, luta entre súditos e governo. Governo este exercido normalmente por um homem, tribo ou casta que conquistavam o poder pela força ou pela hereditariedade. Nesta concepção, o indivíduo comum não assentia nessa ascensão ao poder e nem possuíam condições para se insurgir contra a autoridade que lhe comandava e oprimia com mão de ferro. Neste estado de coisas, a luta do indivíduo, do ser humano, se dirigia ao caminho de conquistar alguma liberdade, uma proteção contra a tirania do governante. Este primeiro movimento de reivindicação dos direitos individuais pugnava, portanto, por um não-fazer do Estado, ou, mais precisamente, pelas denominadas Liberdades Públicas, as quais efetivamente foram sendo garantidas ao longo da história. Porém, com o tempo, outros direitos foram sendo postulados e paulatinamente conquistados pelo homem, envolvendo nessa outra fase um atuação positiva do Estado na garantia dos mesmos. Isto quer dizer, portanto, que no início, existiam liberdades públicas de direitos humanos ou individuais que eram prerrogativas que tem o indivíduo em face ao Estado. Num primeiro momento, a liberdade pública diz respeito a uma inibição do poder estatal. Os direitos individuais clássicos, ao menos, são satisfeitos por meio de uma mera omissão do Estado. Omissão para que certos interesses como o interesse à vida, à liberdade è à propriedade não sejam agredidas. Percebendo-se que o poder estatal era ilimitado, o direito à liberdade foi requerido. E o cristianismo, com a idéia de que cada pessoa é criada a imagem e semelhança de Deus, teve uma contribuição grande. Assim, no século XVIII, então, foram feitas conquistas substanciais e definitivas. Depois da guerra entre o rei e o parlamento, confirmavam-se os privilégios deste último e em consequências enfraqueceu-se o poder régio. Em 1688, entrou em vigor a Petição de Direitos. Mas para a compreensão do surgimento das liberdades públicas, é necessário fazer especial referência a duas outras fontes primordiais: Pensamento Iluminista da França, século XVIII e a Independência Americana. A Revolução Francesa e sua Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, Rousseau na sua obra Contrato Social e Montesquieu, sentiram a necessidade de estipular como fim da sociedade o asseguramento da liberdade natural do homem, assim como a idéia de que a lei, expressão da vontade geral, não pode, por natureza, ser um instrumento de opressão. Esse pensamento dominou todo pensamento liberal, inspirou direito positivo que reserva ao legislador, com exclusão do Executivo, a elaboração do estatuto das liberdades públicas. Além dos filósofos citados, a Declaração Francesa se inspirou em Loocke, autores diversos, economistas, fisiocratas e Voltaire. Por fim, é conveniente observar que o lema revolucionário do século XVIII, esculpido pelo gênio político francês, exprimiu em três princípios cardeais todo o conteúdo possível dos direitos fundamentais, profetizando até mesmo a seqüência histórica de sua gradativa institucionalização: liberdade, igualdade e fraternidade. Assim, os direitos fundamentais passaram na ordem institucional a manifestar-se em três gerações sucessivas, a saber, direitos da primeira, da segunda e da terceira geração, ou seja, respectivamente, direitos da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Então, os direitos da primeira geração são os direitos da liberdade, os primeiros a constarem do instrumento normativo constitucional, ou seja, os direitos civis e políticos, que correspondem em grande parte, àquela fase inaugural do constitucionalismo ocidental. Os direitos de primeira geração ou direitos da liberdade têm por titular o indivíduo, são oponíveis ao Estado, e traduzem-se com faculdade ou atributos da pessoa e ostentam uma subjetividade que é seu traço mais característico. Enfim, são direitos de resistência ou de oposição perante ao Estado. Entram na categoria do status negativus da classificação de Jellineck e ressaltam na ordem dos valores políticos a nítida separação entre Sociedade e o Estado. Essa separação é fundamental para aquilatar o caráter anti-estatal dos direitos de liberdade. Valorizam primeiro o homem-singular, o homem das liberdades abstratas. Para melhor entendimento, considera-se que os direitos individuais são aqueles do indivíduo isolado e que é terminologia usada na Constituição, para exprimir o conjunto dos direitos fundamentais concernentes à vida, à igualdade, à liberdade, à segurança e à propriedade. Segundo Silva (2002:188) direitos e garantias individuais “(...) são aqueles que reconhecem autonomia aos particulares, garantindo a iniciativa de independência aos indivíduos diante dos demais membros da sociedade política e do próprio Estado. Por isso, a doutrina (francesa, especialmente) costuma englobá-los na concepção de liberdade autonomia.” As Constituições Brasileiras sempre inscreveram uma declaração dos direitos do homem brasileiro e estrangeiro no país, e foi a Constituição do Império do Brasil em 1824 anterior portanto a da Bélgica de 1831, a que se tem dado tal primazia. A Constituição de 1891, abria a Seção II. do Título IV com uma Declaração de Direitos onde assegurava a brasileiros e estrangeiros no país a inviolabilidade dos direitos concernernentes à liberdade, à segurança e à propriedade nos termos dos 31 parágrafos do art 72. Basicamente pois a Declaração de Direitos na Constituição de 1891 contém só os chamados direitos e garantias individuais. Essa metodologia modificou-se a partir da Constituição de 1934 que, como as sucessiva, fora a Carta Ditatorial de 1937, abriu-se um Título Especial para a Declaração de Direitos e Garantias Individuais mas também os de nacionalidade e os políticos. Já no caput do art 133 que arrola os tradicionais direitos e garantias individuais à inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, a segurança individual e a propriedade adita também a inviolabilidade dos direitos a subsistência, elevando, pôr conseguinte esta também a categoria dos direitos do homem. A ela sucedeu a Carta de 1937 ditatorial na forma, no conteúdo e na aplicação com integral desrespeito aos direitos do homem, especialmente os concernentes as relações políticas. A Constituição de 1946 trouxe o Título IV sobre a Declaração dos direitos com 2 capítulos: um sobre a Nacionalidade e a Cidadania e outro sobre os Direitos e Garantias Individuais que não incluíra o direito à subsistência. Em seu lugar colocara o direito à vida. O direito a subsistência se achava inscrito no Parágrafo único do Art 145, onde se assegurava a todos trabalho que possibilitasse existência digna. A Constituição de 1988 adota técnica mais moderna. Abre-se com um Título sobre os princípios fundamentais e logo introduz o Título II. – Dos Direitos e Garantias Fundamentais nele incluindo os Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, os Direitos Sociais, os Direitos de Nacionalidades, os Direitos Políticos e os Partidos Políticos. Na Carta Magna de 1988, que consagrou os princípios basilares que demarcam os fundamentos e, entre esses fundamentos, a cidadania e a dignidade da pessoa humana, encontra-se os direitos individuais explícitos, os enunciados explicitamente no artigo 5º; os direitos individuais implícitos, os subentendidos nas regras de garantias, como o direito à identidade pessoal, certos desdobramentos do direito à vida, o direito à atuação geral, assinalado no art. 5º, II; e os direitos individuais decorrentes do regime e de tratados internacionais subscritos pelo Brasil, os quais não são nem explícita nem implicitamente enumerados. Assim, os direitos e deveres individuais e coletivos encontram-se no primeiro capítulo do Título II da Constituição brasileira, inseridos, portanto, dentro do contexto dos Direitos Fundamentais. Com 77 incisos, o artigo 5º é um dos mais importantes da Constituição e trouxe grandes avanços em relação à Carta Magna anterior. Sua redação, em determinados momentos, traduz uma reação contra abusos ocorridos no período ditatorial. A estrutura deste artigo é mais ou menos a seguinte: os primeiros trinta incisos tratam, entre outras coisas, de liberdades diversas, como a liberdade de pensamento, de culto, de expressão, de locomoção, de reunião e de associação, o direito à propriedade, à herança, direito autoral, etc. Após estes incisos, são apresentadas disposições diversas sobre o Poder Judiciário. Segue-se então uma longa parte destinada ao Direito Penal, cerca de 30 incisos. Por fim, são apresentados os chamados "remédios constitucionais" (habeas corpus, mandado de segurança, mandado de injunção, etc.) e mais alguns incisos, versando sobre o Poder Judiciário e alguns direitos civis. Observe-se, também, que o art. 5.º, está pautado no princípio de isonomia, considerando que todos são iguais perante a lei, além dos direitos individuais de que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos da Constituição; o princípio da legalidade, onde se prevê que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei nem será submetido a tortura ou tratamento desumano ou degradante; o princípio da inafastabilidade do Judiciário: lesão ou ameaça de direito - art. 5º, XXXV, onde o Judiciário será sempre chamado a intervir desde que haja ameaça ou lesão a direito, aplicando a lei ao caso concreto ou declarando existente ou inexistente uma dada relação jurídica de direito; o direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada - art. 5º, XXXVI, onde a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, e que o  constituinte não os definiu, deixando à cargo do legislador ordinário e da doutrina tal atribuição; bem como os princípios do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, da não culpabilidade, dentre outros. Uma leitura superficial, do inciso IV, § 4º, do art. 60 da Constituição Federal poderia levar ao entendimento de que só seriam cláusulas pétreas os direito elencados no artigo 5º, da Constituição Federal. De fato, o artigo 5º é a norma onde se encontram plasmados a maior parte dos direitos individuais, mas estes podem ser encontrados em outras capítulos da Constituição Federal. Na realidade, para que se possa classificar um direito como individual, não se deve ater tão somente a sua topografia mas, principalmente, às suas características intrínsecas. Como bem acentuado por Silva (2002), a principal característica dos direitos individuais é o fato deles serem exercidos em face do Estado, se consubstanciando em verdadeiras liberdade negativas. E a tendência do moderno direito constitucional brasileiro é encartar, no elenco das cláusulas pétreas não só os direitos individuais, mas todos os direitos fundamentais, o que englobariam os direitos sociais, os direitos de nacionalidade e os direitos políticos, dentre outros. Neste sentido, Moraes(1999:127) considera que os direitos e garantias individuais não são apenas aqueles previstos no artigo 5º da Constituição Federal, cujo rol é meramente exemplificativo (confome artigo 5º, parágrafo 2º, da Constituição Federal). Portanto, os direitos individuais e coletivos não se restringem ao artigo 5º , acham-se difusamente nas ordens constitucional e infraconstitucional, bem como  em tratados internacionais, estes últimos desde que compatíveis com a nossa ordem interna. Os destinatários da norma prevista no artigo 5º da CF, são todas as pessoas naturais, brasileiros ou estrangeiros que se acham em território nacional, bem como as pessoas jurídicas. Merece destaque o fato de que o Supremo Tribunal Federal já ter proferido decisão, no sentido de que os direitos individuais não encontram-se todos contidos no artigo 5º da CF, ressaltando que alguns Ministros proferiram voto no sentido de que os direitos individuais englobariam outros direitos fundamentais que, conforme Moraes (1999), observou quando da decisão da Adin nº 939-7/DF. Assim observa-se que existem direitos individuais que encontram-se fora do artigo 5º, descritos ao longo da Constituição. Hoje, quando se faze referência aos direitos individuais, este termo deve ser entendido como expressão de variados direitos e garantias do indivíduo, e não somente aqueles relacionados à liberdade. Ou seja, os direitos individuais são aqueles que asseguram aos brasileiros a sua integridade física e moral e que garantem os direitos dos indivíduos em grupo e que se caracterizam pela autonomia e oponibilidade ao Estado, tendo por base a liberdade, sendo considerada um atributo inerente as faculdades pessoais e a seus bens. E são eles, o direito à vida, vez que ninguém pode ser condenado à pena de morte, no Brasil e o Estado tem que proteger a saúde da pessoa humana, para lhe garantir a vida, através de Assistência Médica Gratuita; o direito à liberdade, vez que ninguém pode ser preso, por delegado ou policial, sem ordem escrita do juiz, a não ser em caso de flagrante delito e que ninguém pode fazer ou deixar de fazer alguma coisa, senão em virtude da Lei; o direito à igualdade, não se pode tratar diferentemente mulheres e homens, negros e brancos, velhos e moços e que a Lei é igual para todos; o direito à segurança, porque ninguém pode entrar à noite na casa do cidadão sem sua autorização, a não ser em caso de acidente ou flagrante delito e que o Estado tem o dever de garantir a ordem pública, impedindo a prática do terrorismo; o direito à propriedade, porque as pessoas têm direito a comprar uma casa para morar e que a pequena propriedade rural, que é trabalhada por uma família, não pode ser usada para pagamento de dívidas decorrentes de dinheiro empregado em sua atividade produtiva. Mais modernamente, o objeto de proteção do Direito passou também a englobar os direitos considerados coletivamente, e, por uma outra face da mesma moeda, estabeleceram-se os deveres das pessoas e dos governantes. No Brasil, a Constituição de 1988 foi a primeira a estabelecer direitos não só de indivíduos, mas também de grupos sociais, os denominados direitos coletivos. As pessoas passaram a ser coletivamente consideradas. Por outro lado, pela primeira vez, junto com direitos foram estabelecidos expressamente deveres fundamentais. Tanto os agentes públicos como os indivíduos têm obrigações específicas, inclusive a de respeitar os direitos das demais pessoas que vivem na ordem social. Pode-se, portanto, afirmar que o artigo 5° da Constituição da República Federativa do Brasil é um verdadeiro "manual de convívio" entre o Estado e os cidadãos que o complementam. Devendo reconhecer o empenho do Estado para fazer com que estes "mandamentos" sejam cumpridos. Porém, às vezes, o próprio Estado desconhece suas normas e acaba ferindo preceitos basilares de sua própria legislação. Assim sendo, hodiernamente, em nosso direito pátrio, ao falarmos do tema dos direitos e deveres individuais e coletivos, estamos a tratar de uma gama bastante ampla de institutos jurídicos, que exigem uma incursão considerável sobre os diversos campos do direito, uma vez que este visa proteger e garantir um elenco variado de bens da pessoa, física e também jurídica, do cidadão e do estrangeiro. Veja mais aqui, aqui e aqui.
REFERÊNCIAS
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TEIXEIRA, José Horácio Meirelles. Curso de Direito Constitucional. Rio de Janeiro: Forense, 1991.


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