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quinta-feira, outubro 05, 2023

NELLY SACHS, MALIKA MOKEDDEM, WENDY BROWN & UBQUB

 

Imagem: AcervoLAM.

Ao som de The House of Bernarda Alba (Festival Ballet Providence, 2016), Band of Sisters (2012), Spinning Plates (2012), The Boat Builder (2015) e The Witcher (2019), da pianista e compositora russa Sonya Belousova.

 

O QUE DA VIDA SENÃO O OUTRO – Quisera não houvesse clamores e alheios padecimentos orbitando a minha solitude, outro seria o ânimo na louca gangorra das horas tão minguantes quanto abissais. Quase desencorajado sigo anônimo a inspecionar o que ninguém levaria a sério na manducação de sonhos, quem dera a minha vida ínfima, inexplicável e sem sentido entre nomes estranhos e a serendipidade. Para quem acha solidão, nunca se está verdadeiramente sozinho, vai que cai das nuvens altiva Leila Guerriero: Aqui estou, mais uma vez longe de casa, esperando por alguém que não conheço numa esquina que nunca mais verei. E esta é exatamente a vida que quero ter... Sorrir foi a nossa repectiva saudação, era o que me restara àquela hora e, diante dela, longe de mim a modorra audaciosa e insana de liquidar, esmagar ou mesmo repelir, enquanto paramixovírus & Nipah & e sei lá mais o quê anunciam de longe a tragédia anunciada. Necessário encará-la com um misto de entusiasmo e perplexidade, isso para dizer o mínimo, melhor me arriscar provocador e sem qualquer pretexto, melhor ouvir aquela ali ao meu lado tal Anne Rice: Nenhum de nós realmente muda com o tempo. Nós só nos tornamos mais o que somos... Poucas pessoas realmente procuram o conhecimento neste mundo. Mortais ou imortais, poucas perguntas de fato. Pelo contrário, eles tentaram arrancar à força do desconhecido as respostas que já formaram em suas mentes… justificativas, confirmações, fórmulas de consolo sem as quais não podem continuar. A pergunta de fato é abrir uma porta para um furacão. A resposta pode aniquilar a pergunta e quem fez... Ouvi-la ladeando seus passos e atravessamos a noite de uma rua erma irreconhecível, talvez à beira do inferno, ninguém sabe – melhor seria fosse ali um istmo crepuscular, passeio plácido pelo arrebol estival, ou coisa que valha, sintoma houvesse para outro esperançar. Ela, então, duma sofreada e um punhado de palavras não deixou por menos Violeta Parra: São teus olhos que busco, não os encontro. São teus lábios que eu quero ver sorrir, mas eles são tão ingratos comigo, mais eles zombam de mim. O ser humano é formado por um espírito e um corpo, por um coração que bate ao som dos sentimentos. O amor é um turbilhão de pureza original... Não fosse calor para lá de 50 graus, o colapso oceânico, o enfraquecimento de Amoc e a glacialização humana, bastaria viver tão simples como um beijo de amor, um abraço terno e um coração batendo mútuo. Sonhar vale a pena, talvez mais que a vida. Até mais ver.

 

POVOS DA TERRA

Imagem: AcervoLAM.

Povos da Terra \ vocês, com a força do desconhecido\ firmamento, envoltos como rolos de fios, \ vocês, que costuram e de novo desfazem o cosido,\ vocês, que adentram o embaraçado das línguas \ como em colmeias, \ para picar o açúcar\ e ser picados –\ Povos da Terra, \ não destrocem o universo das palavras,\ nem retalhem com as facas do ódio\ o som, que nasceu com o sopro.\ Povos da Terra, \ ah, que ninguém pense em morte ao dizer vida – \ e não em sangue, ao falar berço –\ Povos da Terra,\ fiquem as palavras na origem,\ pois são elas que podem\ aproximar os horizontes dos céus verdadeiros\ e, pelo seu avesso,\ como a noite bocejando atrás da máscara,\ ajudar as estrelas a nascer –.

Poema da escritora alemã Nelly Sachs (1891-1970). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

A MULHER PROIBIDA - […] Eu não gostaria de ser uma mulher aqui. Não gostaria de carregar constantemente o peso desses olhares, da sua violência múltipla, alimentada pela frustração. Pela primeira vez, percebo que o ato mais banal de uma mulher na Argélia é imediatamente carregado de símbolos e heroísmo porque a animosidade masculina é tão grande e pouco saudável. [...]. Trecho extraído da obra The Forbidden Woman (University of Nebraska Press, 1998), da escritora argelina Malika Mokeddem, autora de obras como: estão Os homens que caminham (1990), O século das lagostas (1992), Sonhos e assassinos (1995), La nuit de la lézarde (1998), N'zid (2001) e La transe des insoumis (2006).

 

TEMPOS NIILISTAS – [...] A sabedoria popular contemporânea de que a educação em artes liberais está obsoleta só é verdadeira na medida em que a igualdade social, a liberdade e o desenvolvimento mundano da mente e do carácter estão obsoletos e foram substituídos por outro conjunto de métricas: fluxos de rendimento, rentabilidade, inovação tecnológica. [...] À medida que o neoliberalismo trava uma guerra contra os bens públicos e contra a própria ideia de um público, incluindo a cidadania para além da adesão, ele reduz dramaticamente a vida pública sem matar a política. As lutas permanecem pelo poder, pelos valores hegemónicos, pelos recursos e pelas trajetórias futuras. Esta persistência da política no meio da destruição da vida pública e especialmente da vida pública educada, combinada com a mercantilização da esfera política, é parte do que torna a política contemporânea peculiarmente desagradável e tóxica – cheia de discursos e posturas, esvaziada de seriedade intelectual, favorecendo a um eleitorado sem instrução e manipulável e uma mídia corporativa faminta por celebridades e escândalos. O neoliberalismo gera uma condição de política sem instituições democráticas que apoiariam um público democrático e tudo o que esse público representa no seu melhor: paixão informada, deliberação respeitosa, soberania aspiracional, forte contenção de poderes que o poderiam anular ou minar. [...] Trechos extraídos da obra Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth Revolution (Zone Books, 2015), da professora e pesquisadora estadunidense Wendy L. Brown, que no estudo Nihilistic Times: Thinking with Max Weber (Belknap Press, 2023), expressou que: […] a vida política formal é um teatro do niilismo: a esfera política é onde o niilismo é representado em sua forma bruta e também um local para superar ou resistir ao niilismo através da busca de causas mundanas. Em nossa época, ambos os potenciais estão presentes e colidem rotineiramente. [...]. Dela também a frase: Não há nada que valha mais a pena fazer do que tentar ser humano num mundo cada vez mais desumanizado. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

TTTTT & ATELIÊ VIRTUAL GENTAMIGA NO UBQUB

&

Luiza (Ases da Literatura, 2023), da jovem escritora Ana Júlia Pereira Carneiro & Una & Unari: a saga (Rascunhos, 2023), da escritora e professora Rute Costa. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



sábado, dezembro 21, 2019

FRITJOF CAPRA, CHLOÉ TREVOR, MAURÍCIO MELO JÚNIOR, PAMELA FACCO, RUTE COSTA & CARTA DE DEZEMBRO



CARTA DE DEZEMBRO - O que fiz da vida resta o que sou: um menino da beira do rio aos mil e tantos quantos olhos dos dias e noites, nada mais. Sou inconcluso e não me atormentam os devires. Ademais, não tenho mais que desejos, tudo o mais se desfez, sobraram rugas e males que são agudos na madrugada. Daqui a cidade é repleta de monstros esqueléticos inertes com suas vísceras desbotadas à mostra e morro abaixo, terror à vista: as garras parabólicas segurando o entardecer sem demoras, já outra escuridão de inferno em pleno verão. Das matas só lembranças: seus resquícios no matagal carregado de murmúrios, a gritaria de todos na minha boca feita de apócrifo e proscrito, nunca me vi apto para julgar, tudo me ocorre de duas maneiras: verdadeira, se oriundas do coração; falsas, se do cérebro, afinal, não são minhas, mas dos outros que li e estudei. Não lembro mais o primeiro verso escrito na página extraviada, muito menos a estreante canção juvenil esquecida com ar de quem seria feliz como recompensa pela fogueira dos meus tormentos. Muitos morreram há tempos entre o concreto armado e um nó na garganta, como se padecesse de janeiro a dezembro, vou só até chegar a minha hora. Dizem que quem não fez jamais fará, e eu que nunca prevariquei digo que nunca é tarde e ainda nem acabou de chover os anos acinzentados, o tempo indestrutível na nódoa dos telhados: um inferno em festa com plangentes acordes, dolências, langores que garantem erosões, corrosões, esvanecimentos. Eu voo entre os que não dizem mais que amam e se perderam do amor nas bocas secas homiziadas cobertas do ridículo e a se afrontarem hostis e inclementes, a se exibirem às minhas custas. Só me resta ganir e ronronar sílabas indizíveis como um deserdado na brisa amena de um céu carregado de nuvens. A vida é tão breve e não descobri por inteiro nem sei meus pecados. Peco porque foi dia e mais ainda porque a noite chega e não sei onde estou, estrangeiro de tudo. Não tenho mais nenhum verso, perdi todos os acordes e tons, desafino e corrijo, ainda não sei ao certo, peço perdão a quem me feriu por alguma razão, fiz o que pude e nunca é demais. Nenhum milagre, um sequer pude ver, sou quem vai só e órfão, a mim me basta o inútil, qualquer coisa como um sorriso ou uma lágrima nos desvãos da alma. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] a forma atual do capitalismo global é insustentável dos pontos de vista social e ecológico. O chamado “mercado global” nada mais é do que uma rede de máquinas programadas para atender a um único princípio fundamental: o de que ganhar dinheiro deve ter precedência sobre os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental e qualquer outro valor. [...] O grande desafio do século XXI é da mudança do sistema de valores que está por trás da economia global, de modo a torná-lo compatível com as exigências da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. [...] É verdade que a transição para um mundo sustentável não será fácil. Mudanças graduais não serão suficientes para virar o jogo; vamos precisar também de algumas grandes revoluções. A tarefa parece sobre-humana, mas, na verdade, não é impossível. Nossa nova concepção dos sistemas biológicos e sociais complexos nos mostrou que perturbações significativas podem desencadear múltiplos processos de realimentação que podem produzir rapidamente o surgimento de uma nova ordem. [...]. Trechos extraídos da obra As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável (Cultrix/Amana-Key, 2005), do físico e escritor austríaco Fritjof Capra. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

DESCOBRINDO HERMILOMuitas vezes contei essa crônica da descoberta. Para vencer o tédio anunciado de uma viagem, fui à única livraria da cidade. Um livro me chama a atenção pelo título, Os Ambulantes de Deus (1976), de um autor para mim desconhecido: Hermilo Borba Filho. A leitura me provocou um susto, eu tinha intimidade com as ruas descritas, desenhadas com tintas oníricas e reais. Senti-me irmão daqueles navegantes que atravessaram o rio Una. Descobri, encantado, que a literatura pode estar em meu quintal. Não sei a largura do rio Una, mas lembro bem da jangada num ancoradouro ao lado da prefeitura. Nos servia de transporte às terras do engenho Paul. Era uma travessia curta, não mais que cinco minutos. Li o livro surpreso e encantado com aqueles seis personagens – a prostituta Dulce Mil-Homens, o poeta cordelista Cachimbinho-de- Coco, o cego pedinte Nô-dos- Cegos, o bicheiro Amigo-Urso, o calunga de caminhão Recombelo e o barqueiro Cipoal – torrando cinco longos anos para fazer o mesmo caminho fluvial. Cada um dos cinco anos começa no carnaval e termina no Natal – o ciclo dos folguedos nordestino – e tem sua própria condicionante. [...]. Trecho da crônica Descobrindo Hermilo (Casa da Palavra de Hermilo, 2017), do escritor, jornalista e crítico literário Maurício Melo Júnior. Veja a entrevista que ele concedeu pra gente aqui & mais dele aqui, aqui & aqui.

A MÚSICA DE CHLOÉ TREVOR
A música é uma das melhores maneiras pelas quais você pode aprender e expandir sua mente; portanto, uma das melhores coisas que os humanos podem fazer é ouvir música ao vivo. Por isso, é muito importante que as novas gerações desenvolvam uma afinidade musical, pois através dela você pode comunicar sentimentos e expressões.
CHLOÉ TREVOR – A arte da violinista britânica Chloé Trevor, tendo se apresentado como solista para orquestra em todo mundo e vencedora do Grande Prêmio nos concursos Lynn Harrell de 2006 e Lennox de 2005. Dedicada à educação e divulgação musical, ela se conecta regularmente com alunos e professores através de apresentações interativas, masterclasses e palestras, pessoalmente e online. Em 2018 ela criou a Chloé Trevor Music Academy, um programa intensivo de duas semanas para músicos e pianistas que oferece instruções individuais, treinamento em música de câmara, masterclasses, treinamento de orquestra e orientação de carreira pelos principais solistas do mundo, professores e condutores. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Eu sou a fotógrafa do projeto Poesia com Elos [...] Meu projeto tem como objetivo inicial evitar a objetificação do nu e assim libertar o corpo da mulher do lugar de objeto. Carrega também uma discussão de fundo sobre padrões estéticos e a fragilidade masculina. Esse projeto teve início em novembro de 2016 e começou apenas fotografando mulheres. Minha ideia foi mostrar minha visão enquanto artista mulher, não erótica e empoderadora sobre o corpo feminino. [...] Até então eu usava meu Instagram pessoal para publicar todos meus trabalhos e os separava apenas pelas tags. Quando fui descolada da rede senti a necessidade de abrir um Instagram próprio para o projeto. [...] É uma vitória e tanto para toda a classe de artistas. Eu queria que essa história fosse apenas a primeira de muitas, eu queria servir de exemplo de teimosia e autovalorização: porque não tem nada mais importante do que a própria autora entender que lutar pelo seu trabalho e voz é se dar valor enquanto MULHER. Queria que todas as pessoas que sofrerem injustiça naquela plataforma e tiverem seus trabalhos prejudicados e interrompidos olhassem para essa história e acreditassem que faz sentido sim lutar. Porque a minha utopia pessoal não é apenas ter a minha conta livre, mas sim que a arte como um todo o seja, e para isso é preciso que essa política cruel e leviana mude, mas a gente sabe que as coisas nesse universo capitalista só mudam quando começam a dar prejuízo para as empresas. Gostaria muito que isso realmente se espalhasse para que uma mudança real acontecesse. Só eu ganhar não me basta. Minha luta sempre foi por algo maior.
PAMELA FACCO – A arte da fotógrafa, designer gráfica e ilustradora Pamela Facco, é criadora do projeto Poesia com Elos, o qual foi bloqueado e censurado pelo Instagram, fazendo com que a artista recorresse à Justiça, obtendo ganho de causa contra a rede social. A decisão judicial inédita abre precedente para ações similares com essa jurisprudência, obrigando a rede social não só devolver a sua conta, como também está proibida de bloquear ou deletar novas fotos da fotógrafa. Veja mais aquiaqui.

RUTE COSTA: POEMAS, ENTREVISTA & LEITURA NA PRAÇA
Entrevista, Poemas & Leitura na Praça da escritora e professora Rute Costa aqui & aqui.
&
CRÔNICAS NATALINAS
&
Aprendendo com a lição do Natal aqui.
Renascendo das cinzas na véspera de natal aqui.
Então, é natal aqui.
Crônica natalina aqui.
Feliz Natal & Próspero Ano Novo.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...