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terça-feira, janeiro 21, 2020

ORWELL, GENEZIO GOMES, FEBRE DO RATO, MESSALINA & ARTE DE PERNAMBUCO

UM BRINDE, VALMESSA - Brindemos a primeira taça por sede e honra da imperatriz, aquela poderosa a quem tudo queria e em todos mandava. Salve, Valmessa, dona da noite e do dia. Que a temessem ou respeitassem, só a mim ela viveria. Quantos não a queriam deposta, subjugada, revoltados insones. Brindemos a segunda taça pela alegria da feliz dama que pela nobreza de estirpe, saiu do pedestal para diversão dos seus mortais súditos. Salve a senhora majestade, digna dos mais respeitosos cerimoniais e sacramentos. Que a exaltassem ou desejassem, só para mim ela se despia. Quantos não a queriam ultrajada, vencida e andrajosa. Tanto queriam, só a mim ela serviu. Brindemos a terceira taça pelo prazer da meretriz que é uma dríade enamorada e obscena, com sua extrema beleza, seios fartos, mãos feiticeiras, belas formas, ninguém jamais seria insensível aos seus encantos, a luxúria desenfreada de nascença. Salve a rainha destronada, a deusa dessacralizada, a mulher honrada que se fez puta e mais devassada. Que a maldissessem ou apenassem, só a mim ela se entregava. Brindemos a quarta taça pela felatriz de loucura escandalosa, dias doces de carnavalizante orgia, o ritmo louco das Mênades no rito de Baco e a lascívia de costumes. Éramos nós, eu e ela, e só. Salve aquela que me engoliu na noite sem fim e desmaiou na tarde com o meu gozo e que se comprazia em me abocanhar em todas as horas dos dias e meses a mais de ano e a vida toda. Que a condenassem ou sacrificassem, só a mim ela nua me levava. Quantos entraram na alcova e dela saíram mortos e ela radiante. Brindemos mais por Valmessa, a Valéria, Messalina, aquela a quem acusavam de muitos subjugar, quantos foram substituídos, desacreditados, quantos foram traídos, executados, todos os cadáveres que zanzavam atraídos por sua imponência e exuberância. Se amou, ela os consumiu e domou, preteriu e dispensou na primeira curva, todos odiavam, só eu a amei de verdade. E veneraram, apesar de a tratarem por pérfida, imaculada, preferida, mal afamada, louca devassa, e ela com todas as manobras de quem faz a guerra, deserta para se aventurar depravada na penumbra, impudica na noite para que os fluxos astrais trouxessem destino sorridente no jogo dos sentimentos e na vacuidade dos sonhos. De tanto amar, dissimulou e morreu. Apesar de tudo, ela foi o meu amor, o único amor, e tiramos todos os proveitos das duas mil e uma noites de nossos safaris eróticos, festa no nosso salão nupcial, e ríamos pelo que víamos e ouvíamos dos anais de Tácito e Suetônio, gargalhávamos com as narrativas patafísicas de Jarry, as cenas fílmicas de Guazzoni, Cottafavi e Gallone; e a sua morte consternada nas cenas dramáticas de Averkiev ou Cossa, com os acordes musicais de Pallavicino. Nus e embriagados, brindamos todos os goles, dançamos mais que a música dos orgasmos. Quase perdíamos a respiração, nos achamos entre um fôlego e outro, e nos perdemos sem saber como. A morte teve sua hora. Ela se foi na poeira da madrugada, ninguém jamais a amou. Só a mim esta graça e sina. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Um dia, descobriu que o governo, diante da falta de quadros para cargos de importância intermediária, pretendia promover alguns pequenos funcionários como ele. A notícia iria se tornar pública dali a uma semana, mas uma das qualidades de Po Kyin era sempre conseguir as informações uma semana antes de todo mundo. Ele viu ali sua oportunidade, e denunciou todos os seus cúmplices antes que eles pudessem se precaver. A maioria foi mandada para a prisão, e Po Kyin acabou nomeado supervisor assistente municipal como recompensa por sua honestidade. Desde então, nunca mais deixou de subir. Agora, aos cinquenta e seis anos, era magistrado subdivisional, e tudo indicava que seria promovido ainda mais e nomeado comissário assistente, tendo ingleses como seus iguais e até mesmo sob suas ordens. Como magistrado, seus métodos eram simples. Mesmo pela maior dos subornos, ele jamais vendia a decisão de um caso, pois sabia que um magistrado que emite julgamentos errados acaba sendo descoberto mais cedo ou mais tarde. Seu modo de agir, muito mais seguro, era aceitar suborno dos dois lados e, depois, resolver o caso estritamente de acordo com a lei. O que ainda lhe valia uma muito proveitosa reputação de imparcialidade. Além da renda que auferia junto aos litigantes, U Po Kyin extorquia um tributo permanente, uma espécie de taxação particular, de todas as aldeias submetidas à sua jurisdição. Se alguma aldeia deixava de pagar seus tributos, U Po Kyin adotava medidas punitivas - bandos de dacoits atacavam a aldeia, os moradores mais importantes eram presos com base em falsas acusações, e assim por diante -, e não demorava muito a soma devida acabava sendo paga. Ele também recebia uma parte de todos os roubos de maior porte que ocorriam no distrito. Quase todo mundo, claro, sabia disso, menos os superiores de U Po Kyin (nenhuma autoridade britânica jamais acreditaria numa acusação feita contra seus próprios homens), só que todas as tentativas de denunciá-lo sempre fracassavam; os homens que o apoiavam e cuja lealdade era alimentada por uma parte do butim eram numerosos demais. Toda vez que alguma acusação era feita contra ele, U Po Kyin se limitava a desacreditá-la lançando mão de uma série de testemunhas subornadas, disparando em seguida contra acusações que o deixavam numa posição mais forte do que nunca. Era praticamente invulnerável, tal sua eficiência em julgar o caráter alheio e assim jamais escolher um intermediário errado, e também porque se entregava à intriga com tanta concentração que jamais cometia um erro por descuido ou ignorância. Podia-se dizer, quase com certeza, que ele nunca seria apanhado, que seguiria em frente, de sucesso em sucesso, e que por fim haveria de morrer coberto de honrarias, com uma fortuna de vários lakhs de rupias. E mesmo no além-túmulo seu triunfo haveria de continuar. De acordo com a crença budista, os que praticam o mal na vida passam à encarnação seguinte na forma de um rato, um sapo ou algum outro animal inferior. U Po Kyin era um bom budista e estava decidido a se prevenir contra esse risco. Havia de dedicar seus últimos anos a boas causas, graças às quais acumularia mérito suficiente para sobrepujar o que ocorrera no restante de sua vida. É provável que suas boas obras tomassem a forma da construção de pagodes. Quatro pagodes, cinco, seis, sete - os monges lhe diriam quantos - com adornos de pedra esculpida, toldos de orla dourada e sinetas que tocavam ao vento, cada toque uma prece. E ele voltaria à terra em forma humana e masculina - pois a mulher tinha mais ou menos a mesma importância hierárquica de um rato ou um sapo - ou, na pior das hipóteses, na forma de algum animal digno, como um elefante. Todos esses pensamentos corriam rapidamente pelo espírito de U Po Kyin, e quase sempre em imagens. Seu cérebro, embora astucioso, era bastante bárbaro, e só funcionava para determinadas finalidades; a mera meditação estava além de seus hábitos. [...]. Trecho extraído da obra Dias na Birmânia (Companhia das Letras, 2008), do escritor e jornalista britânico George Orwell (Eric Arthur Blair – 1903-1950). Veja mais aqui & aqui.

MESSALINA – Imagem do escultor francês Eugène Cyrille Brunet (1828-1921) – Valéria Messalina (17-48dC), foi uma imperatriz-consorte romana, poderosa e influente. A sua família possuía casamentos entre parentes próximos e, segundo Tácito e Suetônio, ela possuía uma reputação de promíscua e predadora sexual insaciável, conspirando contra o marido e executada com a descoberta desse seu plano. Há o hipotético de que o viés político com suas intrigas e conspirações, tenha sido a supremacia para sanções e vingança dos envolvidos contra ela, muito embora haja relatos de Plínio, o Velho, em sua História Natural, de uma competição sexual em que ela teve 25 parceiros diferentes, o que é reiterado pelo poeta Juvenal em sua sexta sátira, das noites dela no bordel Loba. Seu nome ficou na história por séculos de páginas e cenas artísticas. Veja mais aqui.

FEBRE DO RATO
FEBRE DO RATO – O premiado filme Febre do Rato (2012), dirigido por Cláudio de Assis, trata de uma expressão popular no Recife que se refere a perda completa de controle, contando a história de um poeta anarquista que publica um jornal que tem o mesmo nome do filme, e ele se interessa por uma jovem que o rejeita. Entre os destaques que são muitos, especialmente para a atriz, cantora e compositora Nanda Costa. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e artista plástico Genezio Gomes Barbosa, que possui licenciatura em Desenho e Artes Plásticas pela Universidade de Pernambuco (UFPE), Escultura e Modelagem (UFPE), Fundição de Metais pela Escola Técnica Federal de Pernambuco e História da Arte Barroca, em Minas Gerais. É especialista em esculturas de resina, concreto armado, gesso, cerâmica, sucata e pedra-sabão. Participou de inúmeras exposições coletivas e individuais, com ativa participação como curador e expositor. Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A música de Lucinha Guerra aqui e aqui.
A poesia & texto de Tony Antunes aqui, aqui, aqui & aqui.
A literatura de Gerusa Leal aqui, aqui, aqui & aqui.
A realidade social da ficção do sociólogo Sebastião Vila Nova aqui.
A arte do artista plástico José Duran y Duran aqui, aqui, aqui & aqui.
A xilogravura de Erik Lima aqui.
&
O município de Gameleira aqui e aqui.


segunda-feira, novembro 23, 2015

MULHER DA SOMBRINHA, CELAN, ALAMOA, SANTORO, SAVALLA, MESSALINA, VIDRÁGUAS & TATARITARITATÁ!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A MULHER DA SOMBRINHA – Naquela segunda feira tomei conhecimento de que corria um boato de décadas e décadas de que uma linda mulher dava sumiço nos trabalhadores da Usina Catende. Ela andava sensualmente bela pelas ruas, mas ninguém via. Só se davam conta quando desaparecia uma pessoa, entre os homens e funcionários da usina canavieira, para logo atribuírem a ela o seu desaparecimento. Todos falavam, porém, jamais tinham sequer visto. Só se sabia que apenas os escolhidos enxergavam a sua sedução. Anos e anos se passaram e a cada safra, sempre às sextas-feiras, desapareciam os homens. Fizeram vigilância na cidade para flagrar seus passos e parar com esses desaparecimentos, todas investidas foram infrutíferas. No final de semana, sempre havia o alvoroço de acontecimentos similares. E todos logo diziam: - Foi a mulher da sombrinha. Certa feita, acertando uma apresentação minha naquela cidade, pude detectar a presença de um rosto de mulher inenarravelmente bonita que se destacava na multidão. Tinha certeza de que já vira aquelas fascinantes faces outras vezes. Aliás, sempre que eu visitava a localidade, me deparava com aquele ser que logo impactava no meu íntimo trazendo-me sensações desconhecidas. Qualquer volta que eu desse por quaisquer das vias dali, eu me pegava com a sua presença a me provocar. Até que no dia marcado para minha apresentação no Leão XIII, do palco pude vê-la na plateia, dando-me a sensação de presença familiar e que eu já me dava por obsessivo por encontrá-la, ou pelo menos vê-la de qualquer forma. E ela estava ali, linda como sempre. Mais uma vez ela estava ali e eu não sabia como fazer para tê-la mais de perto ou ao meu alcance, isso eu já tentara diversas vezes sem êxito, sempre que vinha prali. Era, inclusive, vigente que todo homem palmarense que fosse macho de verdade, tinha de ter uma amante em Catende, senão sua homência era posta em dúvida. Pois, aquela pacata cidade parecia mais reduto da macharia palmarense, do que mesmo dos daquele lugar. Havia também o ditado de que naquela cidade os habitantes eram majoritariamente femininos, na proporção de trinta por um. Ou seja, trinta mulheres para um homem só. E isso devido ao desaparecimento costumeiro das sextas dos marmanjos por mais de cinquenta anos ou mais. Pois bem, quando entrei no camarim durante o intervalo em que a banda mandava ver num momento instrumental, mal entrei e dei de cara com aquela bela mulher que, de sopetão, encheu-me de vida e prazer. Então, agarrou-me num beijo inesquecivelmente demorado. Senti seu hálito de flor, seu perfumado corpo elegantemente assimétrico com curvas e saliências estonteantemente sedutoras, e sua respiração ofegante de fatal e exuberante mulher insaciável. Remexeu-me as entranhas, o sexo e todas as veias do meu corpo, dominando-me num beijo para lá de anímico e sideral. Era como se estivesse voando pelo universo agarrado às carnes suculentas de um ser sobrenatural. Foi demais, tão demais, de eu me perder de tudo, quando, depois do beijo, ela fitou-me, passou as mãos ternas e requerentes por meus cabelos, faces, pescoço, tórax, até descer até o meu sexo rijo e acariciá-lo deliciosamente. Suspirou e me disse: - Mais tarde quero vê-lo. Venha ao meu encontro. E saiu tal como entrou. Tive que passar um certo tempo para me recompor, vez que a banda já repetia a introdução da música que me convidava a retornar ao palco. Embalado por aquele momento, cantei até o final e não consegui, depois de tudo, me recompor daquele encontro fortuito que fincara forte sua marca por todo meu corpo e alma. Quando saí do palco para o camarim, imaginei reencontrá-la. Nada, ninguém ali. Vasculhei todos os cantos da sala, nenhum sinal dela. Atendi os que chegaram para autógrafos e felicitações, e logo arribei com a banda para o jantar comemorativo. Mal chegamos no restaurante, eu me encaminhava para o sanitário, quando uma mão delicada me pegou pelo braço. Era ela. E disse: - Venha, estava lhe esperando. Puxou-me e seguimos andando pelas ruas, até darmos no cemitério da cidade. Ela virou-se agarrada ainda à minha mão, encarou-me com o olhar mais sensual que já vira e me disse: - Venha, preciso da sua ajuda. Venha me salvar. E me levou entre as catacumbas até atrás de uma capela onde havia uma gruta que se iluminara de repente, até que me deparei com uma alcova cujo perfume inebriante me dominava e ao chegar à sua cama, ela de forma materna e amante, me deitou e fez-se tudo a maior escuridão. A partir daí o maior prazer do universo me contemplou num gozo de orgasmo infindável. Viajei céus, infernos e paraísos, até ver-me restituído à vida como se vivendo num sonho perene que nunca mais me deixara acordar. Quando dei por mim, passei a ter a sensação de que ela vivia em mim, dentro de mim, acariciando meu coração e fazendo o meu ser sentir-se para sempre ao seu comando. Ela nunca mais saiu de dentro de mim, morando comigo em meu próprio corpo para nunca mais sair nem atormentar a cidade com desaparecimentos. Só as sextas pré-carnavalescas que ela foge um tantinho de mim, para desfilar impune pelas ruas da cidade e com a madrugada já sábado, ela volta pros meus sonhos para retomar os seus domínios. E isso até o dia em que... depois eu conto e vamos aprumar a conversa aquiaqui.


Imagem: Dessert, da artista plástica Suzy Smith.

 Curtindo Sinfonia (Festa, 1958), do compositor e maestro Cláudio Santoro (1919-1989) & Orquestra Sinfônica Brasileira.

COMO SAIR DA MARGINALIDADE – O livro A mulher do pai: essa estranha posição dentro das novas famílias (Summus, 2007), de Fernanda Carlos Borges, aborda sobre a mulher do pai na família, parentesco, visita ou da casa, madrasta, relação civilizada, emergência mítica, marginalidade, questão de identidade, harmonia pela assimetria, bruxa não vira fada, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: Os mitos (razões de ser) que orientam a trajetória humana na cultura estão enraizados em ritos (modos de fazer). Os modos de fazer são organizados nas formas do corpo, e estas são sustentadas na postura do corpo: nos músculos e no esqueleto. Comecemos com uma situação concreta: quando lidamos com algum objeto-força, primeiro nos posicionamos. Se vamos empurrar um guarda-roupa, primeiro nos posicionamos com relação a ele. Essa posição determinará os parâmetros do espaço para a ação que realizaremos. Depois, a posição transforma-se em atitude, que é a preparação do corpo para a ação. Tudo isso é organizado na postura do corpo. [...] As atitudes do corpo são organizações psicomotoras que nos fazem lidar com determinadas situações de certo modo característico. Precisamos preparar o corpo para lidar com situações pessoais, com forças humanas e sociais. É assim que identificamos o jeito de alguns personagens sociais mais característicos. Nossas atitudes existenciais são modos como sustentamos as forças do mundo significativamente por meio do nosso corpo e como manipulamos e direcionamentos o que nos afeta. As atitudes existenciais – como forma do corpo – mais comuns da cultura e da experiência humana podem ser entendidas como arquétipos que orientam a experiência coletiva. Tudo acontece no corpo significativo e no corpo significador. [...]. Veja mais aqui.

A LENDA DE ALAMOA – No livro Sob o céu dos trópicos (José Olympio, 1038), de Olavo Dantas, encontro a narrativa A lenda de Alamoa, descrita a seguir: Em Fernando de Noronha, em tempos muito recuados, um lindo reino encantado. Havia na ilha uma rainha loura, de beleza deslumbrante. Seu palácio magnifico, situado no alto de uma colina verde, era um eterno deslumbramento. Todos os dias, a rainha de cabelos da cor douradas das manhãs de sol passava pelos esplendidos domínios, que seu poder cobria de palácios, e a primavera, de flores. O seu reino era uma permanente festa de noivado. Nunca faltavam, pendentes das ramadas, a policromia das inflorescências e a abundância das bagas amadurecidas. A renda das espumas do mar bordava continuamente em torno da ilha venturosa uma teia delicada, que se fazia e se desfazia. Mas as quilhas das caravelas entraram de sulcar as águas do Atlântico, aquém da linha do Equador. O Cruzeiro do Sul começava a ser avistado por estranha gente. O reino encantado devia desaparecer. Os palácios foram convertidos em massas negras de basalto. As galeras foram transformadas em rochedos. Mas a alma errante da rainha loura ainda mora na ilha. Seu palácio soberbo foi metamorfoseado no Pico. E hoje a sua sombra vaga pelos montes e praias da ilha. Por vezes, os montados – cães selvagens que vivem nos altos montes, como o morro Francês, e o monte do Espinhaço do Cavalo – soltam longos e sinistros uivos. É a Alamoa que vai passando. Às sextas-feiras, a pedra do Pico se fende, e na chamada da Porta do Pico aparece uma luz. A Alamoa vaga pelas redondezas. A luz atrai sempre as mariposas e os viandantes. Quando um deles se aproxima da Porta do Pico, vê uma mulher loura, nua, com o corpo mal encoberto pelos cabelos que descem quase ao chão. Os habitantes de Fernando chamam-na Alamoa – corruptela de alemã. A Alamoa parece ter sido feita para satisfazer a volúpia dos homens. O passante incauto são resiste à fascinação daquela mulher sedutora que o chama com a voz quente das grandes apaixonadas. O enamorado viandante transpõe a Porta do Pico, crente de ter entrado num palácio, para fruir as delícias daquele corpo fascinante. Ele, entretanto, é infeliz. A Alamoa se transforma de repente numa caveira. Os seus lindos olhos, que tinham o brilho das estrelas, são dois buracos horripilantes. E a pedra logo se fecha, novamente, atrás do louco apaixonado. Ele desaparece para sempre. A angustia de seus últimos gritos ressoa ainda durante muitos dias pelos flancos do Pico, escapando-se das fendas profundas do monte e misturando-se ao uivo dos montados e ao silvo dos ventos do sueste. Veja mais aqui.

QUANDO ME ABANDONEI EM TI & OUTROS POEMAS – No livro Selected Poems, do poeta ucraniano-francês Paul Celan (1920-1970), destaco inicialmente o poema Quando me abandonei em ti: eras pensamento, / algo / murmura entre nós dois: / do mundo a primeira / das últimas / asas, / em mim cresce / a pele sobre / tempestuosa / boca,  tu não chegas até ti. Também o poema Como te extingues em mim: ainda no último / e gasto / nó de ar / estás lá com uma / faísca / de vida. Ainda o poema Errático: As noites se fixam / sob teu olho. As sílabas re- / colhidas pelos lábios — belo, / silencioso círculo — / ajudam a estrela rastejante / em seu centro. A pedra, / um dia perto da fronte, abre-se aqui: / ante todos os / espalhados / sóis, alma, / estavas, no éter. O poema Cristal: Não procura nos meus lábios tua boca, / não diante da porta o forasteiro, / não no olho a lágrima. / Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho, / sete corações abaixo bate a mão à porta, / sete rosas mais tarde rumoreja a fonte. Por fim a Canção de uma dama na sombra: Quando vem a taciturna e poda as tulipas: / Quem sai ganhando? / Quem perde? / Quem aparece na janela? / Quem diz primeiro o nome dela? / É alguém que carrega meus cabelos. / Carrega-os como quem carrega mortos nos braços. / Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em / que amei. / carrega-os assim por vaidade. / E ganha. / E não perde. / E não aparece na janela. / E não diz o nome dela. / É alguém que tem meus olhos. / Tem-nos desde quando portas se fecham. / Carrega-os no dedo, como anéis. / Carrega-os como cacos de desejo e safira: / era já meu irmão no outono; / conta já os dias e noites. / E ganha. / E não perde. / E não aparece na janela. / E diz por último o nome dela. / É alguém que tem o que eu disse. / Carrega-o debaixo do braço como um embrulho. / Carrega-o como o relógio a sua pior hora. / Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora. / E não ganha. / E perde. / E aparece na janela. / E diz primeiro o nome dela. / E é podado com as tulipas. Veja mais aqui.

PIGMALEOA & FRIZILEIA – A trajetória de mais quarenta anos de carreira da atriz de teatro, cinema e televisão Elizabeth Savalla iniciou quando indicada pela atriz Lourdes de Moraes para a Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, quando estudava no Liceu Eduardo Prado. Tudo começa quando ela assiste no teatro a peça A Moreninha, baseada no romance de Joaquim Manuel de Macedo, quando tinha apenas treze anos e se apaixonou pela arte dramática desde então. Profissionalmente iniciou a carreira com Pigmaleão (1975), seguindo-se Barreado (1981), Lua Nua (1987/90), Ações ordinárias (1991/93), Mimi, uma adorável doidivanas (1993/95), É... (1996=2003), e Frizileia – uma esposa à beira de um ataque de nervos (2004/2008). No cinema, ela participou filme Pra frente Brasil (1982) e dedicou grande parte do seu trabalho para a televisão. Veja mais aqui.

MESSALINA – O filme Messalina (1951) dirigido pelo cineasta italiano Carmine Gallone (1885-1973), traz a história de uma mulher sedenta por poder e prazer, que possuía diversos amantes, atuando de forma eficiente com seus interesses e caprichos. No livro Transtornos de preferência sexual (Del Rey, 1996), do médico psiquiatra e professor Renato Posteli, encontro que messalinismo ou ninfomania é a parafilia mais agressiva da mulher, lembrando a imperatriz romana Messalina, que foi a quarta mulher de Claudio I, famosa por seus excessos. Por transladação do tempo, do ponto de vista semântico ou semasiológico e histórico, Messalina passou a significar mulher extremamente lasciva, libertina, dissoluta, devassa. Trata-se da mulher que é preocupada com ideias eróticas a todo momento e que sente permanentemente desejo sexual e a cópula, por mais repetida que seja, não a acalma. Em virtude do exemplo dessa imperatriz romana, que copulava dezenas de vezes seguidas, que saía à tarde para correr as tabernas à procura de homens rudes e atléticos e que regressava ao palácio de madrugada, cansada, mas não saciada. Por isso, houve então o aparecimento de casas de prostituição de homens em Roma, nas quais os homens robustos e viris eram mantidos sob vigilância para atenderem às damas romanas. Cada homem era propriedade de determinada dama e só a ela podia atender, embora pudesse ela manter vários homens. Quando a dama romana retirava-se após o ato sexual, mandava selar aquele homem, colocando em sua cintura e pênis uma cinta com cadeado para impossibilitá-lo de manter relações com outra mulher. A ninfomania era tão difundida na antiga Roma que havia festas e reuniões de mulheres ninfomaníacas, as quais faziam entre si concursos sobre quem seria capaz de despertar nos homens mais sensações voluptuosas. Escritores daquela época deixaram descrições vivas dessas orgias, que se realizavam nos templos ou nos palácios dos nobres. A ninfomania é uma hiperestesia sexual acentuadíssima, é libido insatiabilis e seus sinônimos são andromania, histeromania, metromania, uteromania, furor uterino. Em um relato, certa ninfomaníaca explicou: Não sou prostituta, só sou ninfomaníaca. As prostitutas não sentem prazer; eu, cada vez que faço amor, tento sentir prazer. O destaque do filme é para a belíssima e sempre charmosa atriz mexicana Maria Félix (1914-2002), a famosa La Doña, Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA

A arte do pintor francês Pierre-Paul Prud'hon (1758-1823)

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à editora e poetamiga Carmen Silvia Presotto & Vidráguas. Veja aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!
Veja mais aqui.


SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...