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segunda-feira, junho 09, 2025

FRANÇOISE VERGÈS, MARIELLA TORANZOS, LEONOR SILVESTRI & MÁRCIA GEBARA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Claudio Almeida (1998), Alma pernambucana (2003) e Despretensioso (2018), do violonista, compositor, arranjador e produtor, Claudio Almeida.

 

Dois semblantes & um diálogo de Janus... - Um banco de praça qualquer, dois mundos dessemelhantes. O primeiro: a face de ontem, chorosa, melancólica, perdida na memória a divagar pelas mais adoráveis recordações do tempo de antanho. As reminiscências regurgitavam dos álbuns de fotografias, como se ruminassem caricaturas dos versos de Casimiro – um melô do saudosismo às voltas com uma quase noite esquálida. Destilava nostalgias das coisas pregressas, as saudades na ferrugem dos suspiros e pesares, das perdas e quedas, taciturnidades - os bons tinham ido faz tempo, findava com o beiço virado: o que era doce acabou-se. O mundo hoje é uma desgraça. E lá não sabia onde um pipoco! O que foi? E o segundo: empolgada efígie do amanhã, sorridente pelos cotovelos de quem tomou água de chocalho, persuasivo como homem da cobra, ansiava com todos os desejos do futuro, esperando Godot com a certeza de um dia Deus daria a sorte grande com uma bolada na loteria e seguir os passos de Asimov, com os regalos da fortuna de apertar o pitoco na hora certa, o deleite de toda ventura e o porvir na coleção de amuletos egípcios como o Olho de Hórus, o Escaravelho e Ankh; e o sortilégio do Olho Grego, a Mão Hamsá, os olhos do alabastro mesopotâmico, moedas chinesas com fita vermelha, desenhos de elefantes indianos, as pedras verdes dos muiraquitãs, as bandeiras de Cirebon e otomana com a oração de Zulfiqar, o Selo Salomão, o texto do túmulo de Nida, uma figa, um pergaminho talismânico do califado fatimida dos ancestrais da família islâmica Abemayor, uma reprodução do astrológico Uraniborg, cristais de turmalina negra, trevos de 4 folhas, piritas, citrinos, uma Mezuzá, um Maneki-neko, Dreamcatchers, escapulários, cruzes, pimentas, berloques, uma ferradura e patuás, sal grosso e dentes de alho. Tudo no meio de outros estalidos! Disparos. O que houve? E não viram passar a dança legal de Eunomia, nem o balanço pacífico de Irene, muito menos os requebros justos de Dice, sequer os meneios florescentes de Auge. Cabum! O que foi isso? Entre o que passou e o que virá, olhos para onde a escolha por todas as direções, uma só alternativa e quem preferia de volta tudo o que viveu: só se sente falta quando perde. E ser lembrado, jamais esquecido. E no outro, o passado de Belchior era o que valia e nada de viver o que morreu e jamais voltará, naquela do se meu dinheiro desse ou achasse o ovo de ouro na micula da galinha, mudaria de vida, uma casa na praia, o carro novo, um foguete para ir morar na lua: para mim já foi, outro virá. Bum! Um estampido ensurdecedor. O que é que há? Outras tantas passaram desapercebidas, como o rebolado amanhecedor de Anatole, os remexidos dançantes da Musique, o bailado atlético da Ginastique, os pulos lavadores de Ninfe, os saltitantes remelexos de Mesembria, o arrasta-pé libador de Esponde, a folia oratória de Elete, a coreografia do repasto de Acte, o ritmado entardecer de Hesperis, os giros crepusculares de Disis, o naufrágio serpenteador de Arctos, nem mesmo se deram conta do jogo de Chronos e Kairós. Tudo passou. E um estouro avassalador! De novo? E caíram de joelhos na arenga pelos segundos de poucas horas, a revanche do relógio, eita, tô atrasado, verá o que é bom pra tosse: o revide temporal. Um estrondo retumbante e estarrecedor! Que é que está havendo? Para quem passado ou futuro, tudo é feito agora, presente. Eles não percebiam o que acontecia ao redor, foram tragados pela explosão. Era uma vez, tarde demais: tudo se repete, uns e outros. Até mais ver.

 

Hélène Cixous: Eu também transbordo; meus desejos inventaram novos desejos, meu corpo conhece canções inéditas... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Anuna De Wever: Eu acredito na humanidade... Veja mais aquí.

Joyce Carol Oates: Fui criada para ter compaixão pelos outros... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

VINHETAS DE UM ESPELHO QUEBRADO

Imagem: Acervo ArtLAM.

I - Ontem rasguei minhas asas. Rasguei suas dobras translúcidas com a borda do bidê. Atirei-me contra elas, chicoteando-as contra a borda como uma louca, gemendo de prazer e desgosto ao vê-las desmembradas, despedaçadas, repetidamente, até que me esvaziei. Não venha mais aqui. Estou cansado de adorar sua forma como um templo.

II - Descalço, caminho por um deserto de espelhos. Piso no vidro até que ele rache e corte meus pés. No rastro de sangue, desenhei o retrato da minha mãe. Meu coração dobrou enquanto eu dormia; agora ele não cabe no meu peito.

III - Hoje quero morrer mil mortes em seus braços. Sussurrarei em seu ouvido as palavras que inventei para chamá-lo. Feche os olhos enquanto te beijo e deixe minhas lágrimas escorrerem por suas pálpebras. Deixarei na pinta do seu rosto as tardes que amei ao seu lado. Amanhã seremos estranhos novamente. Até a próxima.

IV - Durante o mês que você levou para me deixar. Enchi o tanque de gasolina com trinta e três dólares e trinta e três centavos. Eu disse que era um presente porque era seu número favorito. Eu organizei nossas coisas. 'Amor, aqui estão os suéteres', "Aqui está seu pincel." Como se chamássemos as coisas de 'nossas' poderia me incluir no que você chamou de "lar". Comprei flores de um morador de rua. Eu queria trazê-los para você, murchos e feios, para mostrar que eu poderia devolvê-los vida.

V - Há uma cicatriz no formato dos seus dedos logo acima do meu peito esquerdo, que ficou como um resquício de todas as noites que você me segurou como apenas algo segura que escorrega. Agora há seis províncias entre nós, entre a última vez que nos beijamos e hoje, guardadas como flores murchas dentro de um livro. Às vezes ainda sinto você como um ruído preso na minha garganta.

Poemas da poeta e jornalista equatoriana Mariella Toranzos.

 

DONDE ME RAZA MUERE - [...] Tenho dificuldade em entender por que as pessoas continuam a apostar contra todas as evidências sobre o que é bom para o corpo, em termos do que aumenta sua potência ou até mesmo em posições mais apocalípticas como o fim do mundo. Neste ponto, considero isso um ato de egoísmo que incentiva o famoso "exército de reserva " de que o marxismo clássico já falava, o que me parece ter uma reviravolta na eugenia atual, onde também é necessária a seleção de pessoal, não apenas trazendo descendentes a este mundo, mas também a seleção prévia de pessoal, que envolve escolher os aptos, os saudáveis, e abortar os outros, os deficientes. [...]. Trecho da entrevista concedida ao Parole de Queer (2022), concedida pela escritora, ensaísta e professora argentina Leonor Silvestri, autora de obras como Donde me raza muere (Guarra, 2022), Acerca de las costumbres de los animales (Infamia Trascendental, 2012), El Don de Creer (Curcuma, 2010), entre outros livros publicados. Ela também se expressa: Quem vive contando mortos não quer você vivo... Sempre acreditei que devemos expandir os limites do que é concebível: envelhecer não é terrível, nem adoecer, não poder trabalhar, não poder participar deste mundo são bênçãos, vantagens. Assim como as mulheres são solicitadas a reproduzir material humano, a se incorporarem ao capitalismo com eficiência (como boas cidadãs: do aparato repressivo a uma operária ou funcionária de escritório, passando por pesquisadora universitária ou médica), elas também são solicitadas a se encarregar de selecionar pessoal adequado para tais fins. Tudo por nada mais do que amor em troca. É aí que reside o verdadeiro proxenetismo. A sociedade capitalista heterossexual patriarcal é o nosso grande proxenetismo. O trabalho sexual é apenas um exemplo de que sexo, companheirismo e afeto não precisam ser dados em troca de nada, pelo que este mundo chama de amor. O feminismo branco, hegemônico, vitimista, desempoderador, acadêmico, mercantilista, de histórias em quadrinhos (e isso também é interseccional: nem todo acadêmico é eurobranco, por exemplo) não só foi completamente incapaz de desenvolver uma teoria radical da sexualidade, como também foi completamente incapaz de desenvolver uma práxis vital empática de apoio mútuo e autodefesa. É autora do poema Pentesileia: Boa demais para ser mulher.\ Inteligente demais. \ Hábil demais. Demais. \ Demais. \ Esse arco \ Essa flecha \ que se crava \ que se crava bem fundo em \ Mim \ no momento da tua morte, \ Pentesileia. \ Preciso te matar para que você não morra. \ Preciso te matar para que eu possa te fazer minha. \ Você gostaria de compartilhar seu corpo virginal de guerreira comigo de alguma outra forma? \ Você não sabe, Pentesileia, que em épicos não há mulheres que amem mulheres? \ Eu vejo você cair \ como uma pena \ Leve sua graça de engolir \ Ferido \ Morrendo \ Agonizando. \ Mesmo assim, você resistirá \ como a leoa Penélope diante dos pretendentes. \ Terei que tomá-la à força, \ pois tudo é tomado nesta guerra, \ assim como as mulheres são tomadas nesta guerra. \ Você não sabe, Pentesileia? \ Você será minha \ mesmo que eu tenha que te matar.

 

APELO À PAZ, AO AMOR E À ALEGRIA - Irmãs e irmãos, camaradas e amigos, aqueles que conheço e aqueles que não conheço, todos aqueles que são meus companheiros na humanidade, venho a vocês com uma demanda considerável. Vocês me pediram para falar sobre a liderança de que precisamos agora. Mas o que é "agora" senão o nome da história como catástrofe? Da violência sistêmica e estrutural? Para viver, precisamos respirar, sermos acolhidos e acolhidos, amar e ser amados, criar laços familiares e comunidades. Sim, amar e ser amados. Muitas vezes esquecemos que nascemos indefesos e que essa indefesa não é uma fraqueza, mas um lembrete de que a interdependência é fundamental para a nossa sobrevivência. Essa interdependência é uma fonte de alegria em vez de angústia, de conforto em vez de desespero. Somos feitos de tantos emaranhados… Disseram-nos não apenas que o individualismo é o passo mais alto em direção ao progresso humano, mas que deveríamos desconfiar da interdependência e nos preparar para a luta pela sobrevivência do mais apto. Isto significa guerra, nada mais. De fato, temos vivido em um tempo de guerra sem fim, de guerra contra isto, guerra contra aquilo, guerra, guerra, guerra. A guerra foi normalizada, naturalizada. Não seria então a palavra guerra mais adequada para descrever o nosso mundo do que paz? Guerra contra povos indígenas, contra mulheres e crianças no Sul Global, contra queer, contra trans, contra inválidos, contra gays, guerra contra animais, florestas, rios, mares, oceanos. Capitalismo é guerra; racismo é guerra. Seus gritos por guerra são altos e constantes. Suas leis de extração e exaustão impõem o uso da violência e da força. E suas guerras são acompanhadas pelas do patriarcado. Em seu mundo, tratar corpos como resíduos, como excedentes, como lixo, foi banalizado. Nada disso é natural; tudo isso são consequências de escolhas políticas. E, como presidente, estou clamando por outras escolhas. Contra o estado de guerra permanente, eu os exorto, eu os exorto a lutar pela paz! Paz?, ouço vocês dizendo. Quando foi a última vez que falamos de paz como algo que não é excepcional, que não é um breve interlúdio entre duas guerras, o resultado de um acordo em um pedaço de papel no qual homens que nunca demonstraram interesse pela paz afixam suas assinaturas? Paz para eles é uma palavra que fala de ingenuidade e credulidade. Mas estes não são tempos de indiferença e neutralidade. Irmãos e irmãs, camaradas e amigos, isso não nos salvará. Em vez de celebrar guerras em nossos livros didáticos, em vez de encher nossas cidades com estátuas de soldados e generais, convido-nos a aprender com aqueles que lutaram por justiça e nunca abandonaram sua aspiração de humanizar o mundo. Durante séculos, comunidades imaginaram maneiras de proteger aqueles que são vulneráveis e fragilizados pelo racismo e sexismo, maneiras de proteger a terra, os animais, as plantas e o conhecimento de mãos ávidas e avarentas. Ao fazê-lo, deixaram-nos um vasto arquivo de poemas, canções, artes, manifestos, práticas e conhecimento. Houve momentos em que suas mensagens precisaram ser invisíveis para aqueles no poder, mas sua riqueza e abundância permanecem impressionantes: forjando sinais que indicam rotas de liberdade e abrigos, mantendo narrativas de resistência nas memórias, tecendo mensagens no cabelo e na terra, construindo santuários e refúgios, falsificando documentos, aprendendo a evitar as armadilhas da vigilância, ensinando como estar na clandestinidade, a mentir ao poder e a dizer a verdade ao poder, construindo escolas onde aprendemos coletivamente, ensinando o poder das plantas medicinais, a diversidade de receitas. Embora nos tenham dito que mulheres, crianças, povos indígenas, pessoas trans, queer, migrantes, refugiados, pobres, não tinham nada a contribuir para a "civilização", sabemos que é uma mentira. Sabemos que o que se chama riqueza nada mais é do que o resultado da exploração e da devastação. Nossos ancestrais, que são todos os oprimidos do mundo, jamais renunciaram ao sonho de um dia serem livres. Apesar da guerra travada contra eles, eles disseram: " Um dia, seremos livres! Sim, um dia seremos livres! " É esse amor inabalável pela liberdade e igualdade que deve ser nossa canção. Irmãs e irmãos, camaradas e amigos, precisamos aprender com este arquivo e exercitar nossa imaginação. Precisamos nos libertar dos grilhões do que se tornou normal e natural — a violência e a guerra — e que ameaça a vida de muitos em troca da riqueza de poucos. Precisamos libertar nossos espíritos, nossos corpos, nossos sentidos para imaginar a paz, coletivamente. Vamos desaprender para aprender, para que possamos reaprender. Vamos restaurar o pleno significado do toque, de segurar a mão de um estranho. Vamos abolir as prisões! Vamos abolir o patriarcado! Vamos abolir o capitalismo! Vamos abolir o racismo! Acabe com a guerra! Este não é um apelo ingênuo, estúpido ou pretensioso! A paz não é fácil. Imaginar a paz, lutar pela paz, é uma tarefa árdua. Exige liderança coletiva e horizontal. Cultivemos o amor revolucionário, o amor feminista radical. Há alegria na luta coletiva. Há alegria na justiça restaurativa. Imaginemos uma utopia, uma que nos dê a força para contestar, que seja um convite a sonhos emancipatórios. Um dia seremos livres! Por toda parte, vozes se elevam, cheias de esperança e significados. Imaginemos um espaço aberto e terrestre, uma linha temporal ascendente. Reivindiquemos o direito de sermos inacabados e contraditórios. Redefinimos criativamente a escrita de nossas múltiplas histórias. Criemos um estado permanente de curiosidade. Guardemos na memória a força, a coragem, a esperança, a força e a energia que sempre estiveram presentes. Vamos lembrar do futuro. Depoimento da cientista política, historiadora, educadora, cineasta e ativista decolonial francesa, Françoise Vergès, autora do Programme de désordre absolu: Décoloniser le musée (La Fabrique Editions, 2023), no qual expressa: [...] O universal que o museu reivindica é uma arma de dominação colonial [...]. A respeito de sua obra em uma entrevista concedida ao Observatoire d'éthique universitaire (2023), ela expressou que: [...] Quando se trabalha como eu sobre a escravidão e suas "sobrevivências" (afterlives), ou seja, a ligação entre a escravidão e o racismo antinegro hoje, interessam-nos as representações pictóricas e narrativas dos negros. Estas nunca são ilustrações. Essas imagens são constitutivas do regime de exploração e desapropriação racial. [...] Descolonização, para mim, é o que Frantz Fanon definiu como: "A descolonização, que visa mudar a ordem mundial, é um programa de desordem absoluta. Podemos ver claramente que aplicar a proposição "mudar a ordem mundial" à instituição museológica vai além da diversificação da programação. [...] É por isso que práticas e teorias em torno de um programa de desordem absoluta para atrapalhar e sabotar a máquina do capitalismo racial, fazendo a ligação entre as lutas de ontem e as de hoje e desenvolvendo especulações sobre os mundos vindouros carregam uma esperança radical. [...] O estado de guerra permanente põe o planeta em perigo. A guerra contra as mulheres, os negros, as pessoas trans, as pessoas queer, os pobres, está se intensificando. O militarismo mais implacável está de volta. Contra essa destruição programada, temos o direito de nos defender. [...].

 

TRATOS DA ARTE DE PERNAMBUCO, DE JOSÉ CLÁUDIO

[...] Quero prevenir o leitor de que abrirei um espaço enorme para citações, intervindo às vezes, inclusive, com mais citações. Pode me chamar de compilador. Já dizia Buda que mostrar vale mais do que explicar cem vezes. Não há também da minha parte a preocupação de não ser enfadonho: ninguém vai começar a gostar deste assunto a partir deste simulacro [...].

Trecho extraído da obra Tratos da arte de Pernambuco (STCE, 1984), do pintor, desenhista, gravador, escultor, crítico de arte e escritor José Cláudio (1932-2023), um dos criadores do Ateliê Coletivo da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), do qual publicou a obra Memória do Ateliê Coletivo (1978). Veja mais aqui & aqui.

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ENTRE LINHAS & CORES A LUZ VIBRA NA SAUDADE – A ARTE DE MÁRCIA GEBARA

Veja a entrevista de Márcia Gebara aqui e mais de sua arte aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

&

Arte na Escola aqui.

Diário TTTTT aqui.

Palmares – 09 de junho & Poemagens aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.


 


quinta-feira, julho 27, 2023

SILVINA OCAMPO, VIOLA DAVIS, FRÉDÉRIC GROS, LEONARDO DA VINCI & ARTE VISUAL NA ESCOLA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns I Just Want To Sing (Hard Bop, 1995), Sophisticated (Hard Bop, 1991), I Walk Along (Hard Bop, 1989) e do DVD Dorothy Donegan: Pandemonium (Arkadia, 2008), da pianista estadunidense Dorothy Donegan (1922-1998).

 

UM SOLILÓQUIO A MAIS VEZOUTRA – Mãos e pernas trocadas levei a vida: cuspe na cara que só. As graças femininas e a ranzizice dos marmanjos davam o tom da coisa: leve a sério ou se estrepe! Da primeira, já era (nunca!); na segunda, me lasquei: caí no território de Têmis e fui capturado por ela. A sua balança inexorável foi muito severa comigo, o que não reclamo. Afinal, se ela mantinha a firmeza e não me perdoava, pelo menos me guardou em sua cama a me ensinar desnuda os segredos da vida embaixo dos lençóis. Foi ela, inclusive, quem me disse de Ludvík Vaculík. A liberdade só existe onde não é invocada... Nem prestei a atenção direito porque, logo após, chutou-me a bunda: Agora volta pra vida e aprenda. Eita! Não foi fácil, nem poderia: na vida tudo é imprevisível, haja paradoxo. E eu que nunca tive certeza de nada, simplesmente singrava as aporias pelos devires. Não fosse a viúva Tereza de Benguela se achegar ao meu claustro, não saberia eu: domínio só serve para si, auto. Revelações surgem de lá e além. Mil maneiras de cantar o silêncio. Facúndia é coisa pra enrolão. Sol brilha em todas as direções. Há sempre outros caminhos e lá se vão os anos e os anéis, quase os dedos. Sílaba não é só assoletrar, tem de sentir. Ora, para quem uma biografia sujeita ao sujeirômetro: o culpado no espelho, assustei meus muitos fantasmas e não sei se me tornei melhor ou pior depois disso. Descalço pela espessura das pegadas e ciladas bumerangues faço o melhor que posso. Sou reles feliz vagalume, beiro a quase nada: pego um sorriso e vou adiante. Até mais ver.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível. A pintura é a poesia que é mais vista do que sentida, e a poesia é a pintura que é mais sentida do que vista. Um pintor deve começar cada tela com uma camada de preto, porque todas as coisas na natureza são escuras, exceto quando expostas à luz. O pintor tem o Universo na mente e nas mãos. A lei suprema da arte é a representação do belo. Tudo o que é belo morre no homem, mas não na arte. O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma.

Pensamento do polímata italiano Leonardo di Ser Piero da Vinci (1452-1519), mais conhecido como Leonardo da Vinci. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

DESENHO, PINTURA, ARTE VISUAL – Sempre apreciei artes plásticas e tive desde tenra idade muitas predileções pelas obras de muitos pintores. Nunca me vi desenhando nem pintando, mas depois de sessentão e sob a solidão da pandemia, não deu outra. Confesso, ao longo da minha vida cometi umas e outras sapecadas de tintas em tela e feito algumas colagens, nada que se salvasse. Já bulia com música, teatro e literatura, sempre inquieto inventei de fazer umas colagens e percebi minha limitação. Foi então que participei durante a pandemia de um curso de desenho e pintura no IbaValeUna. Aí me surpreendi com a possibilidade de desenhar e pintar, graças os incentivos e ensinamentos iniciais dos amigos Paulo Profeta e José Durán y Durán. Parti então para um curso de Artes Visuais, ministrado por professores da USP/MAC, ocasião em que fui mais ainda tentado a cometer meus garranchos agora visuais. Foi um longo e aprazível curso. Depois outro curso na mesma área pela Fundação Stickel (RJ) e não parei mais. Exemplo disso: nas ilustrações daqui do blog do Acervo ArtLAM. Se já levava a música, o teatro e a literatura para a área da educação, acrescentei mais essa. E fui levado inicialmente pela leitura da obra Fundamentos estéticos da educação (Papirus, 2002), do professor João Francisco Duarte Júnior que me ensinou: [...] A arte está com o homem desde que este existe no mundo – ela foi tudo o que restou das culturas pré-históricas. Apenas a constatação deste fato elementar – a universalidade e permanência do impulso estético – já é razão suficiente para que se reconheça a importância da arte na constituição do humano. [...]. Foi dessa que fui pra outra leitura do estudo sobre Artes visuais (Artes II-MG, 2008), da professora Maria Eugênia Albinati: Uma obra de arte não é a representação de uma coisa, mas a representação da relação do artista com aquela coisa. [...]. Quanto mais se avança na arte, mais se conhece e demonstra autoconfiança, independência, comunicação e adaptação social. [...]. Desse estudo fui pra obra Para gostar de aprender arte: sala de formação de professores (Artmed, 2003), da professora Rosa Iavelberg que me esclareceu: [...] A arte promove o desenvolvimento de competências, habilidades e conhecimentos necessários a diversas áreas de estudos; entretanto, não é isso que justifica sua inserção no currículo escolar, mas seu valor intrínseco como construção humana, como patrimônio comum a ser apropriado por todos. [...].

 

ARTES VISUAIS NA EDUCAÇÃO – Foi, então, que resolvi me aprofundar do tema e partir para a leitura da obra A imagem no ensino da arte (Perspectiva, 1994), da professora Ana Mae Barbosa que sempre defendeu que: [...] Temos que alfabetizar para a leitura da imagem. Através da leitura das obras de artes plásticas, estaremos preparando a criança para a decodificação da gramática visual, da imagem fixa e móvel, através da leitura do cinema e da televisão, a prepararemos para aprender a gramática da imagem em movimento. Essa decodificação precisa ser associada ao julgamento da qualidade do que está sendo visto aqui e em relação ao passado. [...]. Dos seus ensinamentos fui a obra Sintaxe da linguagem visual (Martins Fontes, 1997), de Donis Dondis, ensinando que: [...] Ao aprender a ler e a escrever, começamos sempre pelo nível elementar e básico, decorando o alfabeto. Esse método tem uma abordagem correspondente no ensino do alfabetismo visual. Cada uma das unidades mais simples da informação visual, os elementos, deve ser explorada e aprendida sob todos os pontos de vista de suas qualidades e de seu caráter e potencial expressivo. [...] Os educadores devem corresponder às expectativas de todos aqueles que precisam aumentar sua competência em termos de alfabetismo visual. Eles próprios precisam compreender que a expressão visual não é nem um passatempo, nem uma forma esotérica e mística de magia. Haveria então, uma excelente oportunidade de introduzir um programa de estudos que considerasse instruídas as pessoas que não apenas dominassem a linguagem verbal, mas também a linguagem visual. [...]. Foi daí que tive acesso ao livro Arte na educação escolar (Ibpex, 2008), de Bernadete Zagonel: [...] apesar de o ensino de Arte ser parte obrigatória do currículo, não há interesse, por parte de muitas escolas e de seus diretores, em que esse ensino se faça com qualidade e seriedade [...] No entanto, alguns princípios devem nortear o ensino de Arte no mundo contemporâneo, que vão desde a postura do professor até os conteúdos por ele selecionados, devendo-se considerar, de todo modo, aquilo que se espera que os alunos desenvolvam [...] despertar o indivíduo para a experiência estética e sensibilizá-lo para as artes é mais importante do que lhe transmitir informações teóricas a respeito delas [...] O que podemos esperar, sim, e almejar, é um professor sensível e disposto a enfrentar desafios. Um professor apaixonado pelo que faz, pelos seus alunos e pela arte. Um professor disposto a buscar sempre novos caminhos, disposto a interagir, disposto a aprender. [...]. Noutra obra Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte (Cortez, 2003), a professora Ana Mae Barbosa arrematou: [...] Somente a ação inteligente e empática do professor pode tornar a Arte ingrediente essencial para favorecer o crescimento individual e o comportamento de cidadão como fruidor de cultura e conhecedor da construção de sua própria nação [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

SEU NOME - Ninguém pode pronunciar seu nome. \ Só eu conheço a inflexão perfeita. \ Falta-lhes a ternura em que flui \ e a doçura nas consoantes. \ Eles não sabem distinguir a cor \ da nota musical exata. \ É por isso que a cada dia respondo \ inventando um nome: \ azul, pássaro, brisa, luz. \ Palavras comuns \ que podem ser ditas simplesmente \ mesmo sem te conhecer, sem te amar.

EM TODAS AS DIREÇÕES - Vamos deixando-nos em todas as direções, \ nas camas, nos quartos, nos campos, nos mares, nas cidades, \ e cada um desses fragmentos \ que deixou de ser nós, continua sendo \ como sempre nós, tornando-nos \ ciumentos e hostis. \ "O que isso fará que eu gostaria de fazer?" \ nós pensamos. "Quem verá que eu gostaria de ver?" \ Muitas vezes recebemos notícias casuais \ dessa criatura... \ Entramos em seus sonhos \ quando ele sonha conosco, \ amando-o \ como aqueles a quem mais amamos; \ batemos às suas portas \ com as mãos ardentes, \ pensamos que voltará na ilusão de nos pertencer \ equivocados como antes\ mas continuará sendo traiçoeiro e inalcançável. \ Tal como acontece com nossos rivais, nós o mataríamos. Só o poderemos \ vislumbrar em fotografias. Deve sobreviver a nós.

Poemas da escritora argentina Silvina Ocampo (1903-1994). Veja mais aqui.

 

ENCONTRANDO-ME - [...] Minha maior descoberta foi que você pode literalmente recriar sua vida. Você pode redefini-lo. Você não precisa viver no passado. Eu descobri que não só tinha luta em mim, eu tinha amor [...] As memórias são imortais. Eles são imortais e precisos. Eles têm o poder de lhe dar alegria e perspectiva em tempos difíceis. Ou, eles podem estrangulá-lo. Defina você de uma maneira que se baseie mais nas percepções exageradas de outras pessoas do que na verdade. [...] Perdoar é abrir mão de toda esperança de um passado diferente. Eles dizem que a terapia bem-sucedida é quando você tem a grande descoberta de que seus pais fizeram o melhor que puderam com o que receberam. [...] Agora entendo que a vida, e vivê-la, é mais sobre estar presente. Agora estou ciente de que as memórias não tão felizes estão à espreita; mas a esperança e a alegria também estão à espreita. [...] Eu sabia que minha vida seria uma luta e percebi isso: eu tinha isso em mim [...]. Trechos extraídos da obra Finding Me: An Oprah's Book Club Pick (HarperOne, 2022), da premiada atriz e produtora estadunidense Viola Davis.

 

DESOBEDECER – [...] A democracia é algo muito diferente de uma forma institucional caracterizada por “boas” práticas ou procedimentos, inspirada pela defesa das liberdades, a aceitação da pluralidade, o respeito pelas disposições majoritárias. Mesmo se ela deve ser isso, a democracia designa também uma tensão ética no íntimo de cada pessoa, a exigência de reinterrogar a política, a ação pública, o curso do mundo a partir de um si político que contém um princípio de justiça universal e, sobretudo, não é a simples “imagem pública” de si, em oposição ao eu interno. É preciso parar de confundir o público e o exterior. O si público é nossa intimidade política. É, em nós, poder de juízo, capacidade de pensar, faculdade crítica. É com base nesse ponto em nós que nasce a recusa das evidências consensuais, dos conformismos sociais, das ideias pré-fabricadas. Esse recurso ao si político, no entanto, será inútil, improdutivo, se não for sustentado por um coletivo, se não se articular sobre uma ação de conjunto, decidida em comum acordo, portadora de um projeto de futuro. Mas, sem ele, os movimentos de desobediência correm o risco constante de instrumentalização, de aliciamento, de sufocamento sob as palavras de ordem e a mudança dos chefes. Esse movimento por meio do qual o sujeito político se descobre em estado de desobedecer é o que chamaremos de “dissidência cívica”. A insurreição não se decide. Apodera-se de um coletivo, quando a capacidade de desobedecer juntos volta a ser sensível, contagiosa, quando a experiência do intolerável se adensa até se tornar uma evidência social. Supõe a experiência prévia compartilhada – mas que ninguém se pode dispensar de viver em, por e para si mesmo – de uma dissidência cívica e de seu apelo. Desde Sócrates (“Cuida de ti mesmo!”) e desde Kant (“Ouse saber!”), ela é também o regime filosófico do pensamento, sua interioridade intempestiva. Numa época em que as decisões dos “especialistas” se orgulham de ser o resultado de estatísticas anônimas e insensíveis, desobedecer é uma declaração de humanidade. [...]. Trecho extraído da obra Desobedecer (Ubu, 2018), do filósofo francês Frédéric Gros. Veja mais aqui.

 

ARTISTAS DE PERNAMBUCO

[...] Desse esforço uma parte – talvez o melhor – não transparece aqui: o de vencer barreiras insuperáveis, a primeira das quais o tempo. Eu preferiria trabalhar no tempo de reinado – pelo menos como a gente imagina – com o prazo da vida toda para fazer o serviço [...].

Trecho do posfácio da obra Artistas de Pernambuco (Recife, 1982) escrito, organizado e prefaciado pelo pintor, desenhista, gravador, escultor, crítico de arte e escritor José Cláudio. Veja mais aqui e aqui.

 


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...