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terça-feira, junho 08, 2021

BERGMAN, WILLIAM ZADIG, NOBUKO IMAI, TRILUSSA & RECIFE


  

TRIPTICO DQP – Uma: a morte no espelho... - Ao som da Harold in Italy - Symphony in Four Parts with Viola Obbligato (1834), op. 16, H. 68, do compositor francês Hector Berlioz (1803 - 8 de março de 1869), na interpretação da violista japonesa Nobuko Imai & London Symphony Orchestra, regência de Kazuki Yamada. – Que coisa! Anteontem foi um general, ontem um ladrão e hoje, imagine: a morte. Pode? Agora deu. Logo me vi naquela antológica cena do Sétimo selo - Det sjunde inseglet, do Bergman: era nada mais que Bengt Ekerot, disfarçado de monge da morte: presente por todo lado no cadáver do pastor e na dança macabra do afresco da igreja numas imagens que flutuavam por trás dele. Tinha outro espelho para invadir não? E logo me tratou como se eu fosse o quixote Block, na verdade, um ladrão de joias dos mortos, sem a presença do fiel escudeiro Jons, e que havia encabeçado a procissão dos flagelados, convencido por um decadente de que devia partir para a cruzada, agora retornando para dar de cara com o quadro desolador da sindemia: a violência nas ruas, a ira dos religiosos imprimindo medo e cura, a fumegante tortura e o desespero dos flagelados, o hecatombe com todos os malefícios da humanidade: todos matam e enriquecem em nome de um deus que nunca reconheci. Por trás dele vi o voo da águia e, logo em seguida, o som das guerras, bombas, discórdias, genocidas do agronegócio, o holocausto. Deus está longe, mas o diabo está por todo lado – foi o que ele sussurrou. O meu interlocutor sorria e diante das suas sombrias predições, propus um jogo de xadrez. Depôs o tabuleiro na hora, enquanto imaginava a minha antipatia com a escatologia cristã porque alguém - sabe-se lá quem - desatou os seus sete selos apocalípticos: a morte está caçando os vivos e algo me diz que o mundo será dizimado gradualmente pela peste. Ouvia lá longe não sei quem, nem onde e muito menos pra quê, alguém se manifestava pregando a punição em nome do sagrado. Ora, bolas! O que há de moribundo e desespero: o agouro implacável. Enquanto jogávamos falou-me do sentido da vida e da morte, como se eu fosse o cavaleiro que voltou da cruzada da fé e havia encontrado o sétimo selo e o medo: um visitante inesperado com a personificação mortal para vencê-la. Foi na vida, a experiência para enfrentá-la. Encarou, então, meu destemor como um escárnio e me expôs a imagem daquela escultura de um túmulo do Poblenou, em Barcelona: El Beso de La Muerte (1930), atribuída a Jaume Barba ou Joan Fontbernat, com um epitáfio de Jacint Verdaguer: E seu jovem coração não pode ajudar; / Em suas veias o sangue para e congela / E o encorajamento perdido a fé abraça / Cai sensível aos braços da morte. Ao recitá-lo a música me envolveu com a imagem e senti que alguém se aproximava. Era Berlioz: Na vida de um artista, às vezes um trovão segue-se rapidamente a outro... Eu acabara de receber as sucessivas revelações de Shakespeare e Weber. Agora, noutro ponto no horizonte, vi surgir a forma gigantesca de Beethoven. O choque foi quase tão grande quanto o de Shakespeare. Beethoven abriu diante de mim um mundo novo da música, tal como Shakespeare revelara um novo universo de poesia. Hem? Virei-me para vê-lo e era Bergman com um meio sorriso: Quando eu era jovem, eu tinha muito medo de morrer, mas agora penso que é muito, muito sábio se preparar. É como uma luz que se extingue. É preciso aprender a viver. Eu treino todos os dias. Todos precisam aprender a viver. A cada dia, me esforço um pouquinho. A dificuldade principal está em saber quem eu sou e onde estou. É como procurar na escuridão. Se alguém me amasse como sou, talvez, finalmente, me pudesse encontrar. Era como se toda cena fosse ao final, no qual só o casal de atores da trupe mambembe escapava, tudo o mais estava perdido: apenas o Sol brilhava no horizonte abrindo caminho para a vida. Sei não.

 


Dois beijos na princesa do escultor de Trilussa - Imagem: a polêmica escultura O idílio ou Beijo eterno (1922), do escultor sueco William Zadig (1884-1952), recolhida em 1936; instalada depois em 1956, no Largo do Cambuci e, depois, reinstalada na entrada do túnel 9 de Julho, e, finalmente, em 1966, no Largo de São Francisco, em frente à Faculdade de Direito, em São Paulo, representando um francês e uma índia, em referência à obra de Olavo Bilac. – Sardenilza é uma daquelas moças que nasceu com a bunda pra lua e para admiração de todos. Desde a hora que nasceu, seus familiares apelidaram logo de priquituda, devido descomunal desenvolvimento do seu capô de fusca: Essa menina é só boceta, gente! Mas com o tempo, ela foi tomando jeito e, na adolescência, as suas proporções corporais foram distribuídas, removendo de vez o apelido de infância. Com o tempo passou a ser a gostosuda da cidade, ganhando a simpatia dos marmanjos e se ajeitando na vida com a sua própria beleza. Muitos pretendentes gastaram fortunas para serem contemplados com o seu sim num casório, enquanto ela permanecia solteiríssima e cobiçada. Um dia lá, desfilava no seu conversível, quando perdeu o controle e achou de esfregar a face num poste. Ficou desfigurada. Era uma vez uma beldade: tornou-se a coisa mais feia do mundo. E agora? Sai pra lá, jaburu! Um admirador, o Jadonaldo, que não tinha nem onde cair morto, foi a salvação: cedeu seus glúteos para reembelezá-la numa cirurgia de horas. Em compensação, o desbundado foi contratado como seu motorista particular. Ao reaparecer, filas e alvoroços para a banda dela. Sem saber o que acontecia, procurei saber do primeiro que encontrei: Hehehehe! É fila dos machos que querem beijar a boazuda. Não havia entendido a risada dele, só com relato que coincide com a história contada pelo Trilussa – na verdade, o escritor satírico italiano Carlos Alberto Salustri (1871-1950) -, no seu conto O beijo do escultor: Fui submetido a uma operação delicada e dolorosa. Devo dizer que sofri tudo de boa vontade, para agora ter a compensação de haver retribuído pessoalmente com a conservação da beleza do rosto da minha senhora. Pois é, é do sofrimento de um que aparece a felicidade de outro e finda tudo empatado. Vá entender.

 


Três sustos nos semáforos do Recife... – Imagem de Heraldo Cunha ao som de Luiz Bandeira: Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço... - Sempre transitei pela Pracinha do Diário, era meu caminho ao largar do trabalho no Cais do Apolo, rumo à Livro 7. Isso até os anos 1990, mais ou menos, quando arribei estrada mundo afora. Não sabia eu que 30 anos depois, a coisa mudara, e muito. A cada passada pela faixa de pedestres nos semáforos, refazendo o itinerário, eu tinha um susto. Certas abordagens não chegaram a ser de fato, mas bem que passaram para premiar outro transeunte, cuidava para estar pronto na minha hora. Hoje não tem mais a livraria predileta, nem condição de se andar certas horas pelo itinerário que eu costumava fazer todos os dias do final dos anos 1970 até quando fui embora. Para minha sorte nunca fui assaltado. Consegui chegar ileso no nono andar do Pernambuco, aboletando-me no sofá e pegando o primeiro livro que estava ao alcance: era o volume Trabalho precário no meio urbano: semáforos do Recife (Fundaj/Massangana, 2007), coordenado por Tarcísio Patrício de Araújo, flagrando esta parte do texto: [...] uma ideia das condições de vida das pessoas que trabalham nos semáforos de Recife, um contingente que tem crescido [...] uma alternativa à impossibilidade de inserção no mercado formal [...] consequência direta da insuficiência de absorção de mão-de-obra pelo mercado de trabalho formal. [...]. Fui até a janela, olhei pros lados, todos os prédios antes reconhecidos de grande movimento, todos abandonados. Bem, a Guararapes não é mais a mesma, nem a Boa Vista. Outros tempos, até mais ver.

 

Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


terça-feira, dezembro 11, 2018

CAMILLE CLAUDEL, HECTOR BERLIOZ, JOÃO BETHENCOURT & VEM DANADO PRA CATENDE


AMOR DE CAMILLE - Imagem da escultora francesa Camille Claudel (1864-1943) - A vida nos olhos de céu da menina guardavam as paisagens de Villeneuve com a pedra e a terra. Nas mãos o brinquedo e o impossível saiam-lhe ao jeito dos dedos para fazer de conta que fugia de casa, porque ali tudo era possível na infância de todas as quimeras. Era da menina a descoberta de todos os véus com o jeito de todas as coisas nas mãos, o que quisesse na magia manual, até esbarrar quase moça nas escolas que barravam as mulheres. Viu-se viajante do deserto e não fosse um gesto de abrigo, não saberia da gratidão a Alfred, apenas de antemão que seu mundo não era aquele, um tempo estrangeiro em que aprendia nas faces as dores futuras de tamanha desilusão: as dores de saber que ao redor todos só lhe dariam as costas e ter de sozinha construir seu próprio momento. O padecimento surgia de todos os lados, inclusive com o amor, a entrega e a solidão. Viu-se vitimada do castigo no abandono da mãe: deveria ter nascido menino e jamais se envolvesse com artes. Jamais preveria outras injustas sanções: de Paul, de Auguste, de todos os que fabricaram seu abandono e loucura. Para quem só saberia do amor nas faces de outra moeda: a dos amantes e rivais. Era cada vez mais íntima da dor, um aborto e o rompimento. Quase se salva com o apoio de Claude, foi maior o sofrimento da ausência do pai que se fora sem dizer adeus. Desconhecia a tragédia porque seu gênio maldito queria dançar a La Valse com o beijo enfeitiçado de Sakountala de Kalidasa. Ousou demais e a incompreensão levou-lhe ao confinamento no estúdio: aprendia o amargo da solidão, um passo para a miséria de roupas esfarrapadas, o esgotamento e a destruição. Não restava mais nada e se entregou ao cárcere da obscuridade do mundo no universo de seus sonhos em Montdevergues, abandonada por trinta anos, para enterrar toda vida e arte numa vala comum. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] LOCUTOR I – E as guerras prosseguem: o homem continuará a matar o homem para sempre, até o fim dos tempos. [...] SARA (Começa a bater nele com os punhos. Sam procura segurar-lhe as mãos) – Mas você é um doido, um doido de pedra! Todo ano você faz uma loucura para desgraçar a minha família. No ano passado você jogou a minha avó, que tem noventa anos, na piscina, para ver se ela boiava. No aniversário do meu pai, você ficou nu em pelo, em cima do bolo. Depois desfilou com os hippies e tirou as calças para protestar contra Biafra. Quando eu estava grávida de oito meses, com uma barriga deste tamanho, você me apresentava como “minha noiva”! SAM – Escuta aqui... SARA – Você enche o jardim de explosivos e diz que são minas contra a formiga. Você tira as calças no prédio da Dupont, para protestar contra a poluição. [...] SARA – Ah, como minha mãe tinha razão! Ah, como o meu pai tinha razão! Um louco! Não casa com Samuel Leibowitz, porque ele é louco. Todo mundo sabe que ele é louco. Desde criança que ele só faz coisas diferentes, que ele é diferente de todo mundo! É pacifista! Desfila com negros! Tira as calças na ONU. Mata formiga com explosivos! Mas não! Eu tive que ir atrás da minha fixação sexual. Eu tive que ir atrás desta minha maldita libido. Toma, pra aprender, toma! (Se esbofeteia.). [...] SARA – Primeiro um Papa, depois um Cardeal. Só falta Jesus Cristo descer pra tomar sopa com a gente. [...] SARA – Seremos crucificados. [...].
Trechos extraídos da peça teatral O dia em que raptaram o papa, do dramaturgo, diretor, ator e tradutor João Bethencourt (1924-2006), uma crítica à sociedade em um momento de trégua para as mazelas da humanidade.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora francesa Camille Claudel (1864-1943). Veja mais aqui, aqui e aqui.

AGENDA:
Estação do Bem – Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
Palmares, sonhos & ventos, Tamara Kamenszain, Hermann Broch, Jennifer Rubell, Bertoldo Kruse, Alberto Passos Guimarães, Primavera, Orquestra Armorial & Quinteto Armorial aqui.
&
Começar, recomeçar & dois milhões de beijabrações, James Joyce, Joaquim Cardozo, Gilles Deleuze, Giorgio Agamben, Alexandre Buisse, Rodolfo Amoedo, Bezerros, Show de Calouros & Genésio Cavalcanti, Arrigo Barnabé & Vânia Bastos aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do compositor francês Hector Berlioz (1803-1869): Symphonie Fantastique, Dream of a witches Sabbath, Requiem & Te Deum & muito mais nos mais de 2 milhões & 970 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Foto de Andréa Rêgo Barros/PCR. Veja mais aqui, aqui e aqui.


sexta-feira, dezembro 11, 2015

RAJNEESH, MUSSET, SOLJENÍTSIN, BERLIOZ, WALLENSTEIN, DRICA & MUITO MAIS!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? MINHA VOZ (Imagem arte de Meimei Corrêa)– Escrevi esse poema na segunda metade dos anos 1980, incluindo-o no meu livro Paixão legendária (Bagaço, 1991) e, posteriormente, na minha antologia Primeira Reunião (Bagaço, 1992). Foi a partir de então que ele ganhou o mundo, sendo publicado em suplementos literários, alternativos e zines do país inteiro. Deu-se, então, da cantora Sônia Mello colocar sua maravilhosa interpretação e inseri-lo juntamente com a minha música Aurora, no seu álbum Desejo. Com a gravação veio, então, um belíssimo clipe feito pro poema e canção realizado pela saudosa e inesquecível Derinha Rocha. Depois, no meio de uma parceria de quatro anos, ganhei um clipe do poema feito pela arte da adorável poeta e radialista Meimei Corrêa – um belíssimo clipe, diga-se de passagem, publicando-o, inclusive, no seu maravilhoso blog Baú de Ilusões. Ao longo dos anos acumulei muitas alegrias com este poema e, agora, foi a vez da poetamiga, jornalista e cantora Gal Monteiro, emprestar sua voz ao meu poema, com música da dupla Arnaud Borges e Gama Júnior. Confesso que tudo isso me faz mais que um premiado da vida. Restando, portanto, a minha eterna gratidão a todos que fizeram deste poema, a sua própria voz, a sua arte. Obrigado, obrigado, obrigado. Por isso ele vem aqui: Minha voz é a coragem de amar no ultraje dos desencontros e eu sou navio com rota esquecida e naufrágios muitos. Quando minha voz é torrente de dor no exagero sombrio de uma canção, não é nada, é tempestade que passou e deixou danos. Quando minha voz é a coragem de amar, não é a sombra de um vendaval. É a sujeição de um eterno pavio que aceso nunca apagará. (Minha voz, Primeira Reunião. Bagaço, 1992). E veja mais aqui. 

 Imagem: Female Nude (1927), do pintor do Expressionismo alemão Karl Hofer (1878-1955)

 Curtindo: Symphonie Fantastique, op. 14 (1830 – Decca Eloquence, 1972), do compositor francês Hector Berlioz (1803-1869), with Chicago Symphony Orchestra/Sir Georg Solti.

TERCEIRO DISCURSO – No livro Nem água, nem lua: dez discursos sobre histórias zen (Pensamento, 1975), do filósofo místico indiano Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990), destaco os trechos do Terceiro discurso: [...] Um homem inocente não sabe quem é Deus e quem é o demônio. Um homem inocente vive de sua inocência, não de seu calculo. Não é astuto, é simples. Vive cada momento. O passado e o futuro não significam nada. Cada momento é suficiente em si mesmo [...] Como uma avaliação pode tornar-se inocente? E sem se tornar inocente – inocente como as árvores, inocente como os animais, inocente como os bebês – como pode a pureza ser sentida? Não é algo que você possa controlar. Se controlar, estará se reprimindo e o oposto permanecerá presente. Se você se tornar um celibatário, o sexo permanecerá escondido no seu inconsciente, esperando pelo momento de se declarar, de se rebelar. Se você se tornar não-violento, a violência permanecerá em seu interior. O oposto não pode ser jogado fora. Se existir escolha, o não-escolhido permanecerá em forma de repressão. E é só isso que você consegue fazer. Apenas numa mente inocente o oposto desaparece porque nada foi escolhido. O oposto não pode existir sem a escolha. [...] Não escolha, apenas compreenda. Não escolha nem mesmo a não-escolha. Simplesmente compreenda toda a situação. Observe como tudo o que escolhe, tudo o que faz, bem da sua mente calculadora, não da realidade. Sua mente produz apenas sonhos, não produzir verdade. A verdade não pode ser produzida por ninguém. Ela está aí! Basta vê-la. Não existe nada para ser feito, somente um olhar é necessário, um olhar sem qualquer preconceito, um olhar sem qualquer escolha, um olhar sem qualquer distinção. [...] Um homem puro não é um soldado, é um santo. Um homem de moral é um soldado, não um santo. Naturalmente, sua briga é interna, não externa. Sua briga não é com os outros, é consigo mesmo. Mas continua existindo. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

UMA PALAVRA DE VERDADE – No livro Uma palavra de verdade... (Hemus, 1972), do escritor, dramaturgo e historiador russo Alexander Soljenítsin (1918-2008), destaco o trecho: Como um selvagem que, perplexo, apanha algo estranho – trazido pelo oceano?- ou aflorando na areia? – ou então um objeto esquisito, caído dos céus? – todo enredado de curvas, que no começo reluz suavemente e depois brilha com um claro lampejo; da mesma forma em que ele o revolve entre as mãos, girando-o em todas as direções, tentando adivinhar o que fazer com ele, tentando descobrir nele alguma utilidade mundana ao seu próprio alcance, sem perceber sua função mais importante: assim somos nós, quando seguramos a Arte em nossas mãos e acreditamos, confiantes, ser seus amos; mandamos nela audaciosamente, renovamo-la, reformamo-la e manifestamo-la; vendemo-la por dinheiro, usamo-la para agradar aos poderosos; desfrutamos dela, a um certo ponto, por nossa diversão – até nas canções populares e nas boates – e em outros momentos, agarram0-la como a arma mais próxima, para reprimir ou ferir – em prol das necessidades passageiras da politica ou de mesquinhas finalidades sociais. Apesar de nossos esforços a Arte, porém, não se torna poluída e nem se afasta de sua própria natureza, mas todas as ocasiões e em toda aplicação ela nos proporciona uma parte de sua secreta luz interior. Será que jamais compreenderemos essa luz em sua totalidade? Quem ousara afirmar ter definido a Arte, enumerado todas as suas facetas? Talvez em tempos idos alguém compreendeu e nos explicou, mas não conseguimos satisfazer-nos com isso por muito tempo; ouvimos e fomos negligentes, afastando logo a explicação, ansiosos como sempre em trocar até o melhor que tínhamos – simplesmente por algo que fosse novo! E quando alguém nos contar mais uma vez a antiga verdade, não nos lembraremos que já houve um em que a possuímos. [...] Veja mais aqui.

O POETA – No livro Les Nuits (Nuits de mai, d'août, d'octobre, de décembre) (1835-1837), do poeta, novelista e dramaturgo francês Alfred Musset (1810-1857), destaco o poema O poeta: Quando eu ainda era escolar, / Estava uma noite a velar / Em nossa sala, em solidão. / Veio-me à mesa, àquele instante, / Vestido de negro, um infante / Tão semelhante como irmão. / Sua face era triste e bela; / E pela luz de minha vela / Veio ler o livro que eu lia. / Sobre u’a mão pendeu a fronte, / Pensativo, de mim defronte, / E, na manhã, ainda sorria. / Quando fazia quinze anos, / Eu caminhava, sem enganos, / Na floresta, por um desvão. / E a um arbusto me veio, em paz, / Vestido de negro, um rapaz / Tão semelhante como irmão. / Indaguei por onde seguira; / Numa das mãos, portava a lira; / Na outra, um buquê de eglantina. / Ele saudou-me como amigo / E após, sem mais se abrir comigo, / Mostrou-me com o dedo a colina. / Na idade em que se crê no amor, / Chorava em meu quarto o amargor / Da primeira desilusão. / E me veio, junto ao braseiro, / Vestindo negro, um estrangeiro, / Tão semelhante como irmão. / Ele era triste e andava ao léu; / Com u’a mão apontava o céu / E, na outra, um gládio portava. / De minha pena se doía, / Mas só suspiros emitia / E se esvaiu como uma larva. / Na idade da libertinagem, / Para um brinde, nessa voragem, / Ergui meu copo num salão. / E veio a mim, feição altiva, / Vestido de negro, um conviva, / Tão semelhante como irmão. / Ele agitava sob o trajo / Trapos de púrpura, um andrajo; / Sobre a cabeça um mirto estéril. / Seu braço procurava o meu; / E meu copo, ao tocar o seu, / Quebrou-se na minha mão débil. / Um ano após, eu em respeito / Dentro da noite, junto ao leito / Onde meu pai morrera então, / Veio postar-se do meu lado, / Vestindo negro, um deserdado / Tão semelhante como irmão. / Os olhos imersos em pranto; / E, como anjos, de desencanto, / De espinho a testa coroada. / A sua cítara, caída; / A sua púrpura, roída; / E, no seu peito, a sua espada. / Lembra-me bem tudo isso aí. / Desde sempre o reconheci, / A todo instante desta vida. / E esta é uma visão de sonho. / Entretanto, ou anjo ou demônio, / Via em tudo a sombra querida. / Quando, cansado de sofrer, / Pra renascer ou pra morrer / Pretendi me exilar da França; / Quando, impaciente por mudar, / Eu quis partir e procurar / Os vestígios de uma esperança; / Junto aos Apeninos, em Pisa; / Em Nice, numa encosta lisa; / Em face do Reno, em Colônia; / Em Florença, num régio abrigo; / Em Brigues, num castelo antigo; / Nos Alpes, de neve tristonha; / Em Gênova, nos arvoredos; / Em Vevey, nos pomares quedos; / Em face do Atlântico, em Havre; / Em Veneza, no horrendo Lido, / Onde, num túmulo florido, / O Adriático sucumbe, grave; / Por toda parte onde, no chão, / Deitei olhos e coração, / Sangrando de um eterno peso; / E sempre aonde o manco Tédio, / Com uma fadiga sem remédio, / Me levava como se preso; / Por toda parte onde, crispado / À sede de um mundo ignorado, / Segui a sombra das quimeras; / E sempre onde, sem dar por isto, / Revi o que já tinha visto, / A face humana e suas misérias; / A noite de dezembro / Por toda parte, nos desvãos / Onde pus a fronte nas mãos, / Como uma mulher soluçando; / E sempre onde, como um carneiro / Que larga a lã pelo espinheiro, / Senti minh’alma fraquejando; / E sempre onde só quis dormir, / E sempre onde só quis sumir, / E sempre onde toquei o chão, / Sempre sentou-se do meu lado, / Vestindo negro, um desgraçado / Tão semelhante como irmão. / Quem és então, ó tu, que nesta vida / Eu vejo sempre em meu caminho? / Não posso, pela face tão dorida, / Crer que sejas meu mau Destino. / Teu sorriso tem muito de clemência; / Teu pranto, muito de piedade. / Só em te ver, eu amo a Providência; / Tua dor é irmã da minha na insistência: / Ela parece com a Amizade. / Quem és então? Não és meu guardião, / Pois nunca me vens prevenir. / É muito estranho: vês minha aflição / E me contemplas sem agir. / Há vinte anos, vens por minha via, / E sequer sei te nomear. / Quem és então? Será Deus quem te envia? / Sorris sem partilhar minha alegria, / Lamentas sem me consolar. / Ainda esta noite, triste, eu te revia. / Era outra noite de aflição. / O vento na janela me batia. / E eu preso ao leito, em solidão. / Contemplava uma praça tão querida, / Ainda morna de um beijo quente. / E então sonhei como a mulher olvida, / E senti que u’a porção de minha vida / Se destroçava lentamente. / Cartas, cabelos – eu me abandonava / A essas ruínas da alegria. / E o passado aos ouvidos me gritava / Eternas juras de um só dia. / Fitava essas relíquias consagradas, / A me fazer tremer a mão. / Lágrimas d’alma, n’alma devoradas; / E que os olhos, que as tinham derramadas, / Depois não reconhecerão! / Envolvi esses restos de ventura / Como num manto imaculado. / E me disse que aqui tudo que dura / É uma mecha do passado. / Como um mergulhador num mar profundo, / Eu me perdi, de abandonado. / Procurava um caminho mais fecundo; / E chorava, tão só, longe do mundo, / Meu pobre amor amortalhado. / Eu ia pôr um selo, um negro círio / Neste caro e frágil tesouro. / E devolvê-lo; mas, em tal martírio, / Hesitei, afogado em choro. / Pobre mulher, de orgulho e fingimento. / Pesar de tudo, hás de lembrar! / Por que, meu Deus, mentir ao pensamento? / E por que este pranto, este tormento, / Estes soluços, sem amar? / Sim, tu definhas, sofres, e ainda choras / Mas tua quimera está aqui. / Adeus! Adeus! Tu contarás as horas / Que me separarão de ti. / Podes partir. E em tua alma gelada / Carrega o orgulho satisfeito. / Eu sinto a minha ainda motivada, / E podem muitos males ter morada / Em torno ao mal que me tens feito. / Podes partir. A imortal natureza / Não pretendeu tudo te dar. / Pobre criança, sonhas com a beleza / Porém não sabes perdoar. / Podes partir. E segue a estrada infinda. / Quem te perde, não perde o mais. / Atira ao vento esta ilusão já finda. / Ó Deus eterno! E tu, que eu amo ainda, / Como me amavas, se te vais? / Súbito, deslizou, na noite oculto, / Um espectro, sem um rumor. / Passou pela cortina um negro vulto / Que no meu leito se assentou. / Mas quem és, morna e pálida miragem, / Réplica de preto vestida? / Que me queres, triste ave de passagem? / É um sonho vão? É minha própria imagem / Por este espelho refletida? / Quem, espectro da minha mocidade, / Aventureiro sem cansaço. / Diz-me por que essa sombra sempre invade / Qualquer lugar por onde passo. / Quem és, ó viajor da solidão, / Hóspede do meu desencanto? / Por que na terra hás de seguir-me tanto? / Quem és tu, quem és tu, ó meu irmão, / Que só surges nos dias de pranto? Veja mais aqui.

DE HÉRCULES ATÉ GETÚLIO – A trajetória da premiadíssima atriz de teatro, cinema e televisão Drica Moraes começou quando ela fazia teatro ainda no colegial, passando aos treze anos de idade a estudar no Tablado, atuando já no teatro infantil, em 1983, nas montagens de Os doze trabalhos de Hércules, seguindo-se Nossa cidade (1984) e Chapeuzinho vermelho (1985). Profissionalmente ela estreou em 1985 com o espetáculo O segredo de Cocachim, ganhando o primeiro Prêmio Coca-Cola, seguindo-se A Bao A Qu (1990), A morta (1992), Só eles sabem (1992), Pianíssimo (1992), Pixinguinha (1992), O crime de Dr. Alvarenga (1999), Melodrama (1999), O rei da vela (2000), Vitor ou Vitoria (2001), Mamãe não pode saber (2002), Notícias cariocas (2004), A ordem do mundo (2008) e À primeira vista (2012). No cinema ele começou com o curta Vaidade (1990), depois atuando na produção americana Manôushe (1992), seguindo-se Mandarim (1995), As meninas (1995), Traição (1998), Bossa Nova (2000), Amores possíveis (2001), Onde anda você (2004), Os normais 2 (2009), O bem-amado (2010), Bruna Surfistinha (2011) e Getúlio (2014). Também fez muito sucesso na televisão em novelas e séries, arrebatando prêmios e mais prêmios. Veja mais aqui.

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA – O premiado filme Singularidades de uma rapariga loura (2009), dirigido pelo cineasta português Manoel de Oliveira, é baseado no conto homônimo do livro Contos (1902), do escritor português Eça de Queiroz, contando a história de uma viagem de comboio para o Algarve, trazendo as atribulações da vida amorosa de um certo cidadão a uma desconhecida senhora. Ocorre que ele se apaixona perdidamente por uma rapariga loura que é vizinha do armazém do seu tio em Lisboa. Por conta disso ele é expulso de casa pelo tio, porém recebe seu consentimento para casar-se com ela, descobrindo, então, a singularidade do caráter dela. O destaque do filme vai para a atriz portuguesa Catarina Wallenstein que arrebatou o prêmio de melhor atriz no Globo de Ouro de 2011. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 
A arte do desenhista, ilustrador e artista plástico japonês Namio Harukawa.
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à poetamiga, cantora e jornalista Gal Monteiro, como gesto de gratidão pelo apoio e amizade de sempre dispensada desde quando editora do caderno de cultura de O Jornal, como no Vida de Artista na Educativa FM e TV Educativa. Obrigado Gal, você é um amor de gente, beijabrações. Veja aqui. 

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...