sexta-feira, maio 16, 2014

INGEBORG BACHMANN, SOFI OKSANEN, GURINDER CHADHA, ALICE PAUL & ROSA

 


A DANÇA DE ROSA NA ÓPERA DO CAVALO – ATO 1 – A DANÇA - Imenso salão e lá está ela em pé de costas, com seu vestido negro, ao som da Sonata para Violino nº 3 – Melodia e nº 4 Presto, de Béla Bártók. Fita as velas acesas. De repente tira os sapatos e descalça transita pelo espaço enorme. Então se deita sobre o frio piso, rola o chão, levanta-se e rodopia, braços abertos com passos firmes desenvolve uma coreografia inspirada em Anne Teresa De Keersmaeker. E lá chego na carreira para encontrá-la Fumiyo Ikeda pro nosso pas de deux. E dançamos e rolamos pelo chão e crescemos juntos e pulo no voo, tiro o paletó e faço o solo para que tenhamos o nosso momento de ir embora. ATO 2 – A ÓPERA DO CAVALO –  Lá estava ela jogadora de tênis acendendo o cigarro enquanto as bolas rolavam no piso ao som dos arcordes de Andriessen. O amante à luz noturna seguia firme, outros acompanhavam enquanto o balé pelas tábuas do piso rastejava o matadouro sob os olhos da investigadora. Ela expõe o glúteo rebolador sob a saia curta ao pegar o isqueiro, acendeu o cigarro em tragadas oníricas, sob o olhar dos supostos jogadores que passavam giz no taco imaginando-a caçapa da sinuca. À invasão de intrusos ela se desfez da peruca, largou os óculos e as vestes, seguiu ao estrado para adorar o cavalo do amante. Foi desmascarada e completamente desnudada sacudiram-na ao sofá. Ajeitou-se aboletando-se às tragadas: pensava naquele que preferia o cavalo, ignorando-a, enquanto desejava que ele a fizesse sua égua, adorando-a com o mesmo fervor que dedicava àquela montaria. O sonho dela nua sob as investidas certeiras do amo reverberava entre bailarinos e figurantes engalfinhados promiscuamente, todos fodiam como cachorrinhos ao som dos acordes da Im Sommerwind de Webern. Ele então se aproxima e espanca-a até tê-la Conchita, a estendê-la às palmadas nas nádegas, ela sorridente deliciosa, revirando-a a afagar-lhe violentamente os seios e a possuí-la inclemente. Abruptamente abandona-a e solitária ela unta o corpo nu com óleo negro provocando-o para estrupá-la por trás ao dedilhado do piano. E a trota dançante enquanto beija a partitura e a distribui aos demais presentes para que todos os cavalos trotem e possam galopar sob as ordens do ufano cavaleiro de todos os mandos, enquanto ela supliciada chora abandonada abundantemente. Fez-se égua ao seu cavaleiro. E ele cavalgava pelos desertos distantes e amava seus cavalos que escravizavam índios, caras-pálidas, dançarinos, beberrões, campesinos, abastados, o poderoso fazendeiro com seus capangas no galope. Entristecida com todas as lágrimas como se fosse a de Hiroshima do Vinícius, girava na cadeira. O trem passava tronitruante com as notícias das mortes de Bucket, Arcadio, Zick, Marseil, Juan Manuel, Butlizer, Fallthuis, Felixchange & Lennon. Ela bêbada fumando os tiros do assassinato é levada ao sacrifício, torturada, sevidiada, abusada, até ser deitada sobre o morto a chamá-lo, ambos aprisionados pela turba. Mais estupram-na e é a festa popular correndo solta, o morto enfim crucificado e ela com ele, para sempre na chuva e no fogaréu, sucumbem. Ela não sabia que renasceu no meu coração e me trouxe a sorte como se fosse a dos Ventos e se fez Amarela como presente de Afrodite a Eros e, por isso, a louvarei como se fosse a de Pixinguinha, celebrando Esmeralda com a morte do compositor. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Nunca haverá uma nova ordem mundial até que as mulheres façam parte dela. Nunca duvidei que a igualdade de direitos fosse a direção certa. A maioria das reformas, a maioria dos problemas são complicados. Mas para mim não há nada complicado na igualdade comum. Quando você coloca a mão no arado, você não consegue largá-lo até chegar ao final da linha. Pensamento da ativista feminista e sufragista estadunidense Alice Paul (1885-1977).

 

ALGUÉM FALOU: Eu sei que parece muito estranho, mas somos todos crianças que buscamos a aprovação de nossos pais. Quando lhe dizem que, como cineasta negra, as histórias que você quer contar não são comerciais o suficiente, você começa a pensar: 'Vou contá-las de qualquer maneira.' Quanto mais faço filmes, mais me sinto menos inclinada a falar sobre eles e apenas deixar as pessoas assisti-los. Sinto que as fotos contam a história e não posso acrescentar nada, exceto apenas falar sobre os detalhes técnicos do que aconteceu naquele dia. Pensamento da cineasta e roteirista queniana Gurinder Chadha.

 

ROSA – O curta-metragem Rosa (1992), dirigido por Peter Greenaway, apresenta o encontro de um casal de bailarino durante dois movimentos da Sonata para Violino, de Béla Bartók, foi filmado na Gent Opera House com coreografias de Anne Teresa De Keersmaeker. Já o longa-metragem Rosa, A Horse Drama (1994), é uma ópera em 12 cenas do compositor holandês Louis Andriessen com libreto da série Death of a Composer de Peter Greenaway, que explora as mortes de dez compositores do século 20, dois reais, nos casos de Webern e Lennon, e os demais fictícios, contando a história do compositor argentino fictício Juan Manuel de Rosa, que escreve trilhas sonoras para faroestes e é assassinado no Uruguai. Sua noiva Esmeralda inveja o cavalo de Rosa, porque ele o ama mais do que ela. Rosa se apaixona por seu cavalo enquanto maltrata sua noiva, Esmeralda Boscano, que escreve constantemente para a mãe sobre esses acontecimentos. Num movimento desesperado para atrair a atenção de Rosa, ela se despe e se cobre com tinta preta, na tentativa de se parecer com o cavalo de Rosa, uma égua preta. Enquanto isso, dois cavaleiros, possivelmente irmãos de Esmeralda, avançam sobre Rosa enquanto ele cavalga e o matam a tiros. Eles então realizam o casamento de Esmeralda com o cadáver de Rosa. Acontece que Rosa deixou um testamento com uma frase "Quando eu morrer, mate meu cavalo e queime-o". A ópera termina com o cadáver nu de Rosa montado em seu cavalo morto que foi eviscerado e agora contém Esmeralda e todo o dinheiro de Rosa. Tudo é então queimado. A ação se passa em um matadouro abandonado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

JANE - [...] Bem, você quer fazer alguma coisa? - Eu acho que não. - Acho que você quer ir a algum lugar, ver gente? - Na verdade. Não tenho nada a ver com ninguém. Não há nada para conversar com ninguém. Não há o que conversar quando você não vê ninguém, não faz nada, não vai a lugar nenhum. - Você deveria ir a algum lugar e fazer alguma coisa? - Por que? - Bem, havia algo para conversar. - Mas você não sabe se quero falar com alguém. Por que eu falaria? [...]. Trecho extraído da obra Baby Jane (WSOY, 2005), da escritora e dramaturga finlandesa Sofi Oksanen, que da sua arte expressa: Escrever é como representar, a questão é que está no papel, escrever um ato político e os livros são importantes para criar opinião.

 

SEM DELICADEZAS - Nada mais me agrada. \ Devo\ guarnecer uma metáfora\ com uma flor de amêndoa?\ crucificar a sintaxe\ sobre um efeito de luz?\ Quem despedaçará o crânio\ por coisas tão superficiais —\ Aprendi a levar em consideração\ as palavras\ que lá estão\ (para a classe mais baixa)\ fome\ vergonha\ lágrimas\ e\ escuridão.\ Saberei lidar\ com o soluço impuro,\ com o desespero\ (e ainda me desespero de desespero)\ com a muita miséria,\ o estado dos doentes, o custo de vida.\ Não desprezo a escrita,\ mas a mim.\ Os outros sabem\ sabe Deus\ se entender com as palavras\ Não sou meu assistente.\ Devo\ aprisionar uma ideia,\ conduzi-la até uma célula iluminada da frase?\ alimentar olho e ouvido\ com bocados \de palavras da melhor qualidade? \ analisar a libido de uma vogal,\ investigar o valor erótico de nossas consoantes?\ Tenho que\ com a cabeça destruída por granizo,\ com a cãibra por escrever com esta mão,\ sob a pressão da tricentésima noite,\ rasgar o papel,\ varrer as tramas de palavras operísticas,\ destruindo assim: eu tu e ele ela isso\ nós vós?\ (Devo, sim. Devem os outros.)\ Minha parte, que se perca. Poema da da poeta e filósofa austríaca Ingeborg Bachmann (1926-1973). Veja mais aqui.

 


DO INDIVIDUALISMO POSSESSIVO AO UMBIGOCENTRISMO DA FUTILIDADE – Já dizia o filósofo e político italiano, um dos expoentes da pós-modernidade, Gianni Vattimo: “[...] significa que hoje temos laços comunitários menos fortes, enraizamentos menos profundos na família e com a comunidade do território, não acreditamos mais na raça”. Veja mais do Umbigocentrismo. Veja mais do autor aqui. 


A MULHER E A SORTE PARA SÖREN AABYE KIERKEGAARD (1813-1855) – “[...] A sorte não nos bafeja muitas vezes, devemos pois aproveitá-la o mais possível quando se apresenta; o mal está em que não é de modo algum difícil seduzir uma jovem, mas sim encontrar uma que valha a pena ser seduzida”. (Diário de um sedutor, Kierkegaard). Veja mais Filosofia. Veja mais do autor aqui.

A VIDA SEMPRE POR UM TRIZ – Já dizia Baudelaire: “Felizmente, essa imaginação interminável só durou um minuto, pois num intervalo de lucidez, às custas de um grande esforço, você conseguiu olhar para o relógio. Mas já outra corrente de ideias o está levando; por mais um minuto o fará rolar no seu redemoinho vivo, e esse outro minuto será uma eternidade. Pois as proporções do tempo e do ser estão totalmente distorcidas pela quantidade e intensidade das sensações e das ideias. Parece que se está vivendo várias vidas de homem no espaço de uma hora”. (Charles Baudelaire, O poema do haxixe. Rio de Janeiro: Newton Compton, 1996). Veja mais aqui. 

TRIBO IK – Por força de uma determinação governamental, a tribo Ik caçadores das montanhas do norte de Uganda, foi transferida das suas terras de caça para um território com solo árido e rochoso. O resultado dessa decisão provocou a fome entre esse povo montês, definhando por falta de alimento e deteriorando sua estrutura social. A fome predominava e, por causa disso, uns se voltaram contra os outros, abandonando os sentimentos de amor e afeição que havia entre eles. As crianças da tribo que não conseguiam encontrar comida eram deixadas em cercados à espera da morte, juntamente com os avós deixados à míngua.


ANTÍPODAS TROPICAIS, DE ADRIANO NUNES – Já tem data marcada para o lançamento do segundo livro do poeta alagoano Adriano Nunes, Antípodas Tropicais, pelo selo da Editora Vidráguas, da poetamiga e editora Carmen Presotto. Em Maceió, o lançamento ocorrerá no próximo dia 28/05, às 11hs, na Editora/Livraria Edufal, no campus da Ufal. Imperdível. Veja mais Adriano Nunes.


Veja mais sobre:
Da semente ao caos, Lasciva na Ginofagia & a arte de Vanice Zimerman aqui.

E mais:
Toni Morrison & A Filosofia de Schelling aqui.
O Princípio Federativo de Proudhon & a poesia de Ione Perez aqui.
A obra de Hermes Trismegistos & o cinema de István Szabó aqui.
Aleister Crowley & Regina Spektor aqui.
Alan Watts & O Sétimo Selo de Ingmar Bergman & Bibi Anderson aqui.
O Novo Organum de Francis Bacon & a poesia de Marinez Novaes aqui.
A Filosofia de Deleuze & Guattari, O Umbigo de Rubens Rewald & Anna Cecília Junqueira aqui.
Clarice Lispector & Helena Blavatsky aqui.
Duplo engano aqui.
André Breton, Marlos Nobre, Nikos Kazantzákis, Toni Morrison, Milos Forman, Adolf Ulrik Wertmüller, Natalie Portman & Tanussi Cardoso aqui.
Carson McCullers, Nicolau Copérnico, Max Klinger, Rogério Tutti, José Carlos Capinam, Alberto Dines, István Szabó & Krystyna Janda aqui.
Crença: pelo direito de viver e deixar viver aqui.
A injustiça braba de todo dia aqui.
Musa Tataritaritatá aqui.
As trelas do Doro: o bacharel das chapuletadas aqui.
William James & Roubaram a tenda de Sherlock Holmes aqui.
Três poemínimos de amor pra ela aqui.
A Ilha Deserta de Deleuze & Guattari, a piada Será que tá morto aqui.
O consolo da paixão aqui.
O nome dela é amor aqui.
O Seminário do Inconsciente de Lacan & O Caso Schreber de Freud aqui.
Saúde no Brasil aqui.
A rapidinha pro prazer dela aqui.
Fernando Melo Filho, o primeiro parceiro na música aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.



sábado, maio 10, 2014

AGNÈS VARDA, DIANA GABALDON, GABRIELA WIENER, NGŨGĨ WA THIONG'O & NANDO LAURIA

 


QUEM É ELA DAS 5 ÀS 7 – Ela era Florence, a menina no quintal da primavera. Quando era verão ela tinha sonhos na brisa onírica, o espelho a fazer-lhe protagonista para transformar-se em Cléo Victorie. E se viu como Níkē tes Samothrakes, moldada pelos deuses para ser simplesmente a deusa Nice nas ruínas do santuário. Bailava pra si como se fosse a Cléo de Mérode, reinava como se fosse Cleópatra aos egípcios, era como se entoasse Caetano, pronta pra cantar. E sabia: enquanto bonita viveria para sempre. A beleza estonteante, um misto entre angelical e demoníaco, envolventemente sedutora a atrair além dos olhares mais cobiçosos e até desavisados. O talento abundante na voz magnética tocando fundo o coração alheio, o jeito elegante do canto, os meneios do corpo, o olhar penetrante, as poses da magia atrativa cativando reféns nos quatro cantos do mundo. Ninguém poderia mais saber de sua infância e nem de sua adolescência inquieta. Fez-se apenas bela apagando o passado pra um futuro mais que promissor e agora, o apogeu da glória e todos aos seus pés. A vida lhe dera a maior das grandezas, redimindo o que vivera, tudo de mal sucedido ficara apenas pra trás, devidamente enterrado para nunca mais. O tempo se fez outro: tons e danças, dias e sucesso, glamour e êxito, tudo dava certo e pra sempre dará. O mundo todo é a plateia a mimá-la com bens e aplausos, ampliando a consquita por novos espaços e caminhos além das gratidões. Sabia: quando se cai na graça, tudo só pode dar certo. Há sempre uma mão pra servir, há sempre quem queira colaborar, há sempre um ombro e nenhuma dificuldade, todos os entraves são removidos num instante, etapas que apagam os óbices superados. A vida é um mar aberto, nada a deter. A vitória vira constume de tão usual, basta estalar o dedo e tudo se transforma. O mundo é feliz e é para todos, o seu sorriso em todas as direções, o seu olhar para todos os admiradores, o seu dom além das fronteiras. A vida é magia. Lá se vão décadas, o espelho é outro, orbitam as cartas da cartomante e não fosse um simples exame aplacar essa onírica situação, suspeitando-se de doença terminal que aterroriza sua beleza suprema, que enfrenta seu canto enfeitiçante, que coage seu corpo sedutor, que ameaça seu jeito cativante, que alarma sua vida vitoriosa. A jovem falante que lhe diz do futuro, ela se via e era vista. A impaciência e o choro com Angèle no café e se vê condenada no que de frívola se fez como o chapéu de pele preto em plena terça-feira, pelo qual será admoestada que não é de bom alvitre. Observa os olhars e são todos distantes, sabia: amam a deusa, nunca a mulher porque pode ser vencida por um malefício qualquer. Amam a sedutora artista, a magnífica cantora, a estonteante fêmea no palco, nunca a que foi vencida ou na precisão. A que sempre está na predileção, não a que pode ser surpreendida por infortunios, mas a imagem vitoriosa. O trânsito e a vida giram, insinuam suicídio. O táxi direto pro ensaio em casa – o rádio a tocar uma de suas músicas enquanto a guerra retumba na Argélia. Isso causa-lhe enjoo, dificuldades pra respirar, quase ao desespero. Um beijo apenas e o amor se vai com promessa pra sexta: Sans toi. Atormentada por ser apenas explorada como uma marionete no esquema industrial. Melhor sair e dar de cara com o artista de rua engolindo sapos, uma ficha no jukebox: a sua música, nenhuma reação dos presentes. Melhor Dorothée expondo-se nua pra escultores. Jamais se permitiria esta exposição, seria imortalizada acaso fosse a Florence de Botticelli. O passeio de carro pelas ruas de Paris, a cena dos beijos de Godard & Ana Karina, a morte é só vista pelos óculos escuros, a realidade é outra: é só tirá-los. O espelho quebrado não quer dizer nada, ora. Apenas um homem morto no café. O Parc Montsouris: a vida é uma escadaria com declive interminável. Agora ela vê e não é vista. Lá está Antoine no dia mais longo do ano, enquanto muitos são mortos por nada na guerra. Ela canta e se sente só. Fugir para onde não há, agora é como se Corinne Marchand tivesse consciência de si própria: o cartaz do filme com seu nome e efígie. Sentam-se no banco dos jardins do hospital, aguardam o resultado da biópsia: a angústia da enfermidade. Enfim, o medo de morrer desaparece e até pode dizer que está feliz, aceitou sua mortalidade. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Você tem que inventar a vida. Se abrissemos as pessoas para cima, encontraríamos paisagens. A ferramenta de cada autorretrato é o espelho. Você se vê nele. Transforme-se para o outro lado, e você vê o mundo. Humor é uma arma tão forte, uma resposta tão forte. As mulheres têm que fazer piadas sobre si mesmas, rirem sobre si mesmas, porque elas não têm nada a perder. Pensamento da cineasta, roteirista, fotógrafa e artista belga Agnès Varda (1928-2019), diretora de filmes como Cléo de 5 a 7 ‘(1962), Les demoiselles ont eu 25 ans (1988) e Quelques Veuves de Noirmoutier (2006), entre muitos outros documentários, curtas e longas. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Palavras escritas também podem cantar. A condição das mulheres numa nação é a medida real do seu progresso. Se a pobreza fosse vendida hoje por três centavos, não posso comprá-la. Comigo, é melhor nunca do que tarde... Pensamento do escritor e dramaturgo queniano Ngũgĩ wa Thiong'o.

 

VIAJANTE DO TEMPO – [...] Pois onde está todo amor, falar é desnecessário [...] Não tenha medo. Somos nós dois agora. [...] Vós sois Sangue do meu Sangue e Osso dos meus Ossos, Entrego-vos o meu Corpo, para que nós Dois possamos ser Um. Eu lhe dou meu Espírito, até que nossa vida seja concluída. [...] Eu mesmo posso suportar a dor, ele disse suavemente, mas não poderia suportar a sua. Isso exigiria mais força do que eu tenho. [...] Eu tive uma última tentativa. "Incomoda você que eu não seja virgem?" Ele hesitou por um momento antes de responder. "Bem, não", disse ele lentamente, "desde que não te incomode o fato de eu estar." Ele sorriu diante da minha expressão de queixo caído e recuou em direção à porta. “Acho que um de nós deveria saber o que está fazendo”, disse ele. A porta fechou-se suavemente atrás dele; claramente o namoro havia acabado. [...] Há coisas que não posso lhe contar, pelo menos ainda não. E não pedirei nada de você que não possa me dar. Mas o que eu gostaria de pedir a você é que quando você me disser algo, que seja a verdade. E eu prometo a você o mesmo. Não temos nada entre nós agora, exceto respeito, talvez. E acho que o respeito talvez tenha espaço para segredos, mas não para mentiras. Você concorda? [...] E eu pretendo ouvir você gemer assim novamente. E gemer e soluçar, mesmo que você não queira, pois não pode evitar. Pretendo fazer você suspirar como se seu coração fosse se partir, e gritar de desejo, e finalmente gritar em meus braços, e saberei que o servi bem. [...]. Trechos extraídos da obra Outlander (Arqueiro, 1991), da escritora estadunidense Diana Gabaldon. Veja mais aqui.

 

VOLTE PARA A PRAIA DA ALMA LATINA - América do Sul. \ Verão. \ Ano Novo. \ No dia 31 de dezembro, \ os mais jovens acampam nas praias, \ queimando bonecos \ com os rostos de seus governantes em fogueiras. \ Aqueles que migraram para o hemisfério norte \ verão suas vidas mudarem \ à medida que as datas dos solstícios forem invertidas. \ Seu verão se transformará em inverno \ e, com muita sorte e determinação, \ seu inverno se transformará em verão. \ Enquanto do outro lado do oceano \ suas famílias, \ tudo o que antes chamavam de raízes, \ celebram o Inti Raymi, \ a festa do sol para o mundo andino, \ na Europa chega o ano novo, \ mas também a longa e dura \ estação fria \ que nem merece um foguete no céu. \ É por isso que a festa de San Juan \ é a coisa mais próxima \ que um latino-americano encontrará na Catalunha \ daquele cativante ritual pagão \ de mudança de ano. \ Espanha. \ São João. \ Junho de 2010. \ Eles cruzam os trilhos do trem \ para encontrar esse novo começo. \ As praias de Castelldefels lembram muito \ as amplas planícies costeiras do Pacífico. \ Saíram de lá \ nesse mesmo trem desesperado. \ Doze pessoas de origem sul-mexicana. \ As pessoas acreditam que nascer no Sul da América \ é como ser adolescente \ em um vagão de trem à meia-noite. \ Repita a definição de migrar: \ Atravesse e morra. \ Atravesse ou morra.\ Nos jornais chamavam-nos de \ latinos imprudentes, latinos tolos, incivilizados, inconscientes.\ Menores \ com menos de 25 anos \ atropelados por um trem \ no festival de San Juan \ Vou na próxima \ Com Jéssica (18), Peruana, Daniela (16), Colombiana, \ Melanie (19), Equatoriana, Diana (17), Espanhola, \ Leslie (17), Equatoriana e Chamaquito (18), Equatoriana. \ E um bebê em um carrinho, \ a filha de Melanie \ mamando entre cigarros. \ Tit de seu top adolescente sexy. \ A festa é em Castelldefels, \ em El Gran Caymán, \ salsa e reggaeton. \ Chamaquito conta que um amigo de um amigo vai ter a perna amputada. \ Nessa idade você corre com uma perna só. \ Nós os assustamos, Bili me disse quando chegamos. \ Eu não tinha percebido: \ Temos medo deles \ Israel tem medo deles \ Jéssica tem medo deles \ Chamaquito tem medo \ deles Eu tenho medo deles \ Cripta de Israel O Filósofo, \ o único que pensa, \ aquele que canta a desgraça. \ As mãos de Israel: \ pequenas armas que disparam para o alto. \ Correntes, bonés e tênis brancos sob os trilhos. \ Eles já cruzaram os trilhos de um trem? \ Isso está claro. \ Mas não é apenas uma coisa latina, mijita. \ Chineses, negros, brancos e crianças violam a lei. \ Crypt raps: \ “A vida sempre continua / o tempo não para / não importa quantas coisas digam / não adianta para você. \ Agora meus amigos estão presos. Não sei quando voltarão / mas aqui no meu coração / estão guardados.” \ O bebê cai mas não chora: \ “Essa menina nunca chora, é incrível”. \ País subdesenvolvido \ Pessoa subdesenvolvida \ Incompleto. \ O pai de Israel é cozinheiro e sua mãe limpa casas. \ Os pais de David estão desempregados. \ William não sabe o que seus pais fazem. \ O pai de Chamaquito em uma casa de repouso. \Somos filhos de quem limpa sua avó \ Somos filhos de quem coloca sua filha para dormir \ Somos filhos de quem constrói sua casa \ Somos filhos de quem anda seu pai. \ Próxima parada: \ praia de Castelldefels. \ “Temos que pintar nossos lábios.” \ A parada escura, \ pequeno altar de flores. Poema da jornalista e poeta peruana Gabriela Wiener.

 


 Foto: Nando Li.

NANDO LAURIA – Desde menino fui levado a sempre buscar e me surpreender com novidades musicais, uma lição aprendida com meu guru Afonso Paulo Lins. E isso era além do que se convenciona pelo senso comum de oito a oitenta, vez que abrangia muito além desses limites: o horizonte. Foi exatamente a partir disso que comecei a me antenar com o que se fazia de música e literatura fora dos circuitos comerciais e, ainda por cima, numa cidadezinha do interior de Pernambuco. 

Já quase adolescente me tornei vizinho do Tininho que, além de ser o meu professor de Matemática no Ginásio Municipal, era um audiófilo de primeira. Para minha maior satisfação, era a casa de Tininho o ponto de reencontro com o Afonso. Foi daí que começou: todos os sábados, seja na casa de um ou de outro, ouvíamos as novidades que cada um tinha para mostrar: discos, livros e muito bate papo. 

Segui a trilha dos dois por uma estrada renovada todos os sábados, regadas por muita literatura, boa música e bom papo no meio dumas cervejinhas que se estendia desde manhazinha até tarde adentro.

Depois disso, consegui manter esses encontros adolescentes lá em casa com os meus amigos Luciano Azevedo, Jaorish Telles e Tomé. O mote era: novidades musicais todos os sábados. 

Mesmo na minha vida andeja de sempre, morando aqui e acolá, mantive esse hábito de sempre procurar por novidades. 

Muito depois, numa dessas tarde de mil novecentos e noventa e tanto, tive a grata satisfação de ser presenteado por meu amigo Luciano Azevedo com dois DVDs do Pat Metheny. Que presentaço! Foi o que me fez reouvir os CDs desse grande músico. Foi exatamente por causa desse presente que apareceu o nome de Nando Lauria. Graças ao Luciano, pude desviar minha atenção para o talento desse músico. Pronto, bastou a menção do meu amigo e, curioso como sempre, passei a ouvir mais atentamente esse excelente talento. 

Primeiro me chegou Episode, uma música digna de nota. Belíssima. 

Na levada veio Thinking of Recife, quando fui levado a reviver minha infância e adolescência, bordejando peralta na bicicleta do primo Wadson pelas areias Boa Viagem, ou embalado e com olhos vidrados nos passeios com Tia Nadeje e Tio Zezé, ou nos encontros fortuitos com a prima Jane, ou me perdendo noite alta nas esquinas do Pina procurando por Tia Lourdes, ou mergulhando nas estantes da Livro 7, de olhos pregados nas sessões de arte da AIP, até me perder no meio das biritadas com Gulu e Fernando Bigodinho na Imbiribeira. 

Quando ouvi Sonho (Dream), If I Fell e Dreaming of you, fui obrigado a admitir: esse Nando Lauria é bom demais. 

Aí músicas como Back Home, Lyle Mays Saudade (Longing), Que xote (What a rhythm), Take Two e Shall We passaram a ser a trilha sonora preferida das audições. 

Não me contive e vasculhei a discografia do rapaz e colei o ouvido nos Passion, Points of View, Novo Brasil e Narada Decade.
 
Foi aí que soube se tratar do violonista e compositor pernambucano que, ainda em Recife, estudou no conservatório de música. Depois se graduou no Boston´s Berklee College of Music, fez parte do Pat Metheny Group ao lado do baixista argentino Pedro Aznar e do percussionista pernambucano NanáVasconcelos, além de participar do grupo Special EFX.
Mas uma coisa eu digo: melhor que ler sobre Nando Lauria é ouvi-lo. E eu convido você a conhecer sua música no Itunes ou mesmo singrando os muitos clipes dele no YouTube. Podem conferir e constatem. Parabéns, Nando Lauria, aplausos de pé!


Veja mais sobre:
O viúvo do padre aqui.

E mais:
Max Weber & Norah Jones aqui.
John Keats & Bárbara Lia aqui.
Mario Quintana, Wang Tu, Tácita, Eduardo Souto Neto, Carlito Lima, Mike Leight & Vera Drake, Suzan Kaminga & Ansel Adams aqui.
Humanismo e a Educação Humanista aqui.
Yoram Kaniuk, Thelonious Monk, Robert E. Daniels, Eugene de Blaas, Meir Zarchi,, Luciana Vendramini, Camille Keaton, Tono Stano, Eliane Auer, Prefeituras do Brasil, Juizados Especiais & Responsabilidade civil das instituições bancárias aqui.
Crepúsculo dos Ídolos de Nietzsche & Projeto Tataritaritatá aqui.
Dicionário Tataritaritatá aqui.
O mal-estar na civilização de Freud & Coisas de antonte e dantanho aqui.
Nomes-do-pai de Lacan & BBB & Outras tacadas no toitiço do momento aqui.
A ilusão da alma de Eduardo Giannetti & A poesia veio dos deuses aqui.
Troço bulindo nas catracas do quengo, Fernando Fiorese & Abel Fraga aqui.
O mistério da consciência de Antonio Damásio &Nó na Garganta de Eduardo Proffa & Jan Claudio aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tatariaritatá!
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.




GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...