sexta-feira, março 23, 2018

MARINA COLASANTI, MARITAIN, JUDITH SCOTT, CICERO MELO, EDSON NATALE & SHARON BEZALY, AMOR & PAIXÕES

SOBRE MIM MESMO, ACHO - Imagem: arte da escultora estadunidense Judith Scott (1943-2005). - Ao espelho, a estrada largestreita que sou de mim, palavras, pensamentos, ações. Nada. De mim mesmo sou, de um lado, o glamouroso mundo das vitrines com o estardalhaço dos quereres na sedução das sereias; de outro, a pútrida aquosidade da miséria que me disfarço em desespero e desolação. Sou assaltado de um lado a outro e a minha face, de um lado desfigurada pelos pesadelos que saem dos sonhos para vingarem nas ruas do invisível compulsório, arrancando máscaras e engodos para serem poeira e lamaçal; na outra, as marcas da grosseria que estarrece e assombra, como se vítima de bala perdida, ou metralhada na esquina do meio dia em nome da lei da covardia. Aos meus olhos, sou de um lado atento, atônito, tudo é efêmero nas luzes da festa; no outro, os desapontamentos ao flagrante das desproporções, do grotesco, das deformações que a lágrima lava ao sentimento de se perder. Às minhas narinas os aromas das flores e os olores higiênicos que não conseguem encobrir a repugnante catinga dos deserdados sobre frascos vazios de perfumes granfinos. Ao paladar os cardápios das mesas suntuosas com o feitiço dos seus condimentos que não conseguem disfarçar o gosto de sangue na saliva, os vômitos e os excrementos das avenidas, corredores, palácios. Os meus ombros, de um lado para todos os lamentos das cabeças que não tenham onde se escostar; o outro, o peso das dores de todos os arrasados à espera da tardia justiça dos humanos. Os meus braços, o dieito como uma mãe que segura o filho a oferecer abraço solidário a quem chegar; o esquerdo, tímido em empunhar a bandeira de quem perdeu a guerra e se esconde do momento indesejável. As minhas mãos, uma à oferta do que sou mendigando afeto como quem esmola pelo amor de deus; a outra decepada em nome da sanção do não ter. As minhas pernas, uma claudica como quem não tem para onde ir; a outra, vergada pela impenitência das torturas. Os pés andejos crucificados no centro das encruzilhadas, solados no chão quente. Sou o que me resta e meu corpo arrastado no asfalto sob a engrenagem do automóvel em alta velocidade que me nega o socorro e me larga roto desfalecido e a minha carne desfiada enovela-se em gente que me rejeita e decepa meus fios e me faz enredar nas pedras, restos, folhas, insetos, santinhos, grãos, lodo, orações, esterco, capsulanas, areia, ossos, filigranas, abotoaduras, lama, pus, anéis, farelos, tampas, fiapos, seixos, galhos, graxas, retalhos, larvas, detritos, charcos, escarros e cusparadas, condenados e cadáveres, o meu ininterrupto processo na infinita estranha beleza de ser-me apenas embrulho tão inútil quanto o cúmulo da inutilidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, compositor, escritor e jornalista Edson Natale: Dharana, Pequena canção para uma mulher nua & Viajante; da flautista israelente Sharon Bezaly: Hungarian Fantasy Doppler, Flute Sonata Schulhoff & Flute Sonata Prokofiev; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Numa colméia ou num formigueiro, cada regra é imposta pela natureza, é necessária; ao passo que na sociedade humana só uma coisa é natural: a necessidade de uma regra. [...] Pensamento extraído da Introdução geral à filosofia (Agir, 1970), do filosofo francês Jacques Maritain (1882-1972). Veja mais aqui e aqui.

DE AMOR & PAIXÕES, SERÁ? - [...] Quando, por uma razão qualquer, a relação amorosa se desfaz, o que se desfaz de fato é só a relação amorosa e não as vidas e a integridade de cada um. E o que se tem observado é que, por mais denso que tenha sido o amor, quando ele se desfaz nas relações sadias (suplementares), surgem logo novos encontros, novos namoros e seduções; o amor pode se refazer. É outro, original, porém com intensidade e qualidade semelhante ao anterior [...]. Trecho extraído da obra Utopia e paixão (Rocco, 1988), de Roberto Freire e Fausto Brito. Veja mais aqui, aqui e aqui.

POR FALAR EM AMOR - [...] namoram muito e não namoram nada. Namoram muito porque têm sempre um namorado/a em campo, alguém em quem estão interessados, alguém que estão “azarando”. Mas ao mesmo tempo não namoram nada, porque essas relações são muito inconsistentes. O casal se junta e se separa com a mesma facilidade. Não há amor, não há envolvimento. Há desejo, epidérmico. Na verdade não são bem namoros, são casualidades. [...] Naquele tempo faltava uma coisa, hoje falta outra. Eu não podia me dar ao sexo. Eles não conseguem se dar o amor. [...] A tendência imediata é achar que não param em nenhum/a porque podem ter todos/as. Mas por outro lado, existe a facilidade maior de parar em um parceiro, agora que ele pode ser completo, reunindo sexo e sentimento. [...] Acontece também que são filhos diretos da baixa do amor, do descrédito da relação, e da ênfase nas emoções tonitruantes. Enquanto deixam o amor de lado, procuram terremotos emocionais no “som”, no “brilho”, nos riscos. Mas uma ideia me ocorre que me parece mais acertada. A de que os jovens estejam, de forma inconsciente, fugindo do amor justamente porque podem ter o sexo. Explico melhor: o amor é uma emoção importante, o sexo também; mas só o amor somado ao sexo constitui a emoção fundamental do ser humano. Ora, nem todos os jovens têm um mesmo grau de amadurecimento. E nem todos eles se sentem prontos para chegar ao topo do seu universo emocional. Antes todos podiam ter amor, e só os mais maduros – ou os mais inconscientes – se lançavam na completude amor/sexo. Agora acontece exatamente o oposto: tendo o sexo, evitam somá-lo ao amor, adiando a sobrecarga emocional que não se sentem capazes de enfrentar. [...] Trechos extraídos da obra E por falar em amor (Salamandra, 1984), da escritora e jornalista ítalo-brasileira Marina Colasanti. Veja mais aqui.

DOIS POEMASRETORNANDO A ÍTACA - A nave singra os sonhos nus do mármore, / Cruzando a solidão e sempre célere. / Carrega cuidadosa o nauta célebre,/ E aquele transformado em pétrea árvore. / Um lutou, desdobrou a rota bárbara / Dos dias que da vida exigem têmpera; / O outro, tecendo de ondas sua têmpora, / Transmudou-se de mundos, sempre máscara. / O primeiro se fez, de acasos, íntegro; / O segundo buscou, em rumos trôpegos, / Desvendar o inefável do seu íntimo. / Mas, ambos se perderam: mar adúltero./ Hoje, mudo, acompanho, olhos sôfregos, / Ulisses retornando ao mátrio útero. PENÉLOPE - Retornando do mar que me emoldura, / Ancoro em teus segredos, cidadelas. / De desvelos me nutres, me aquartelas / Desnudado do nauta e de procura. / Eternamente desejada e pura, / Em ti repouso rotas, amaino velas. / Dos perigos dos mares me encastelas / Em tuas celas de amor e de ternura. / Maravilhas que, meiga, me compensas / Depois de navegar, aventureiro, / Ocasos aleatórios, vagas densas, / Retorno sempre ao cais do amor primeiro, / Para recomeçar, feridas pensas, / Outras navegações, sempre janeiro. Poemas extraídos da obra O verbo sitiado (Bagaço, 1986), poeta, ensaísta e crítico alagoano Cicero Melo, selecionados pelo poeta e jornalista Iremar Marinho. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ARTE DE JUDITH SCOTT
A arte da renomada escultora estadunidense Judith Scott (1943-2005), documentada no curta-metragem Outsider: The Art and Life of Judith Scott (2006), dirigido por Betsy Bayha.
2º Congresso Internacional Paulo Freire: O Legado Global & muito mais na Agenda aqui.
&
O certo & o errado no reino das ideologias, a poesia de Hélio Pellegrino, a música de Nobuo Uematsu, a arte de Mat Collishaw & Raoul Dufy, Danicleci Matias Souza & Park kids Locadora aqui.
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Versos à flor da pele na prosa de um poema, o cinema de Jean-Luc Godard, a música de Sharon Corr, a escultura de Bertel Thorvaldsen, a poesia de Elke Lubitz & a arte de Luciah Lopez aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, março 22, 2018

QUINTANA, PAULA FOX, CASAIS MONTEIRO, ÍNDIO CACHOEIRA & KATHRYN STOTT, ROHMER, HÉLIO OITICICA & EDUARDO PRADO DE MENDONÇA

PASSANDO A LIMPO - Imagem: To Organize Delirium, do pintor, escultor, artista plástico e performático de aspirações anarquistas Hélio Oiticica (1937-1980). - Já fui xodó de mãe, avós, tias, isso quando bolotinho mimado imitando os olhos de peixe, de soslaio, até ser destronado adolescente magro seco, envergado, barbicha rala no queixo, desengonçado com a revolta de tudo na corcunda de avexado, e me incomodando com o que pensavam que eu queria ser quando crescesse. Desde que botei a perna no mundo jamais fui o mesmo: coisas de ir e voltar, troca de pele, ritos de passagem, epifanias. Nunca fui de virar casaca, nem seguir ao pé da letra, ou cumprindo à risca, afinal de contas, nunca soube o xis do problema e, na horagá, adeus, minhas encomendas. Já fui fanático por futebol, hoje não mais, não há graça nenhuma na competitividade das retrancas. Não tenho mais pressa pra nada, pois já corri tanto e ao chegar a minha vez nunca era – o sistema saiu do ar, deu pane no equipamento, só depois ou deus dará. Nunca fui de cortar caminho por atalhos nem tirar proveito do desleixe de outro, se tenho de ir vou até o fim, nunca desisti no meio do caminho. Nunca subestimei a inteligência ou a ignorância alheia, indignado com a estupidez e com os tantos desatinos. Já não ligo pro noticiário, há tempo que as noticias são mesmas de sempre e se repetem infinitamente. Não professo nenhuma fé, sou da espiritualidade, embora nutre simpatias pelos taoístas, quackers e zen-budistas. Nunca me levei tão a sério, nem aprendi a andar na linha porque me precavenho, tudo tende a piorar. Sei que existo pelos documentos ao bolso, assim que me reconhecem, mesmo que me chamem pelo apelido. Pelejo que só e nutro a esperança de que um dia eu chego lá, só não sei onde. Como todo mundo, atravesso na faixa e respeito o sinal. Reconheço nenhuma coerência nos meus atos, quase sempre sou assaltado pela paradoxalidade. Já não enxergo lá muito bem – antes por completa ausência de tino e formação, hoje por deficiência promovida pelos anos de vistas apregadas nos livros. Chego quase sempre atrasado porque só tomo conhecimento das coisas quando não tem mais nem graça. Só chego adiantado porque ou foi adiado ou já cancelado. Tem horas que até eu mesmo nem me reconheço no espelho. Vou de cara pro Sol já que não tem mais sombra pra refrescar, arrancaram as árvores das calçadas e a violência grassa nas praças. Hoje prefiro ouvir, porque quando falo ninguém entende. Por mais que eu me esmere em fazer tudo certo a minha vida toda, dá sempre tudo errado. Ainda bem que só passo aperto quando estou sozinho, o que é recorrente, ninguém sabe, mesmo com as melhores intenções, sempre piso na bola. E me revolto por não ter a resposta certa na ponta da língua na hora exata, só quando chego em casa, tarde da noite e lastimo por ter perdido a oportunidade. Vou sempre adiante mesmo que pareça não ter saído um mínimo centímetro do lugar. Acredito na vida porue ela não pode estar reduzida apenas a uma convenção científica, nem a masturbação intelectual da indiferente racionalidade. Hoje pouco importa, não dou a mínima pro que pensam a meu respeito e tranquilizo a todos dizendo que tudo é verdade, nada mais nem demais. Se estou sempre sozinho, não há de ser nada, cultivo a utopia de que o mundo pode ser bem melhor e que, com certeza, a gente ainda possa ser feliz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violeiro Índio Cachoeira: Viola de Ouro, Solos de Viola Caipira & Prelúdio dos Pássaros; da pianista britânica Kathryn Stott: Suite Bergamasque Debussy, Valsa da dor Villa-Lobos & com Janine Jansen Sonata for violin and piano Cesar Franck; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Paixão não tem significado de cegueira, nem de demência, mas indica precisamente aquela força comunicativa que se propõe ao frio raciocínio. O frio raciocínio nunca poderia levar um critico a tomar partido, porque o caracteriza precisamente aquela presunção de objetividade à qual se deve por uma grande parte a má fama de que goza a crítica pelos seus repetidos malogros [...]. Extraído da obra Clareza e mistério da crítica (Fundo de Cultura, 1961), do poeta, ensaísta, crítico literário e professor universitário português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Veja mais aqui.

OS LIMITES DA LIBERDADE – [...] Quando se diz que liberdade de um acaba quando começa a liberdade do outro, o que se procura no fundo é evitar o questionamento do que deva ser a liberdade. A posição limita-se a considerar o seu exercício, sem maiores especulações sobre oq eu efetivamente possa ser considerado como liberdade. Nestas condições, admite-se como direito de liberdade de um individuo ele realizar tudo quanto queira desde que suas ações não venham a interferir na vida do outro. O que não se admitem são os choques, os conflitos. Deste modo, teria eu o direito de fazer tudo quanto quisesse desde que não perturbasse a vida de outra pessoa. [...] O homem é de fato um animal social. Desta forma, não podemos esperar que realize o plano de sua liberdade a não ser dentro de um contexto social. A sua liberdade é na verdade uma co-liberdade. Ele constrói a sua liberdade em espírito de comunidade, dentro de um sentido de co-participação. [...] Extraído da obra A construção da liberdade (Comvivio, 1977), do filósofo, professor e escritor Eduardo Prado de Mendonça (1924-1978).

DESESPERADOS – [...] Otto entrou na sala. "O que você vai vestir?" "Aquele vestido Pucci", ela disse, "só que eu acho que engordei demais para ele." Ela se levantou. "Otto, por que ele me mordeu? Eu estava fazendo um carinho nele." "Achei que você disse que ele tinha arranhado." "Seja lá o que for... mas por que ele me atacou assim?" Subiram a escada. O corrimão de mogno brilhava na luz oleosa e macia do globo de vidro soprado que pendia do teto. Ela e Otto tinham trabalhado uma semana para remover a tinta preta velha do corrimão. Foi a primeira coisa que fizeram juntos depois de comprar a casa. "Porque ele é selvagem", disse ele. "Porque o que ele queria de você era só comida." Ao pôr o pé no primeiro degrau, disse, como se fosse para si mesmo, "Vou me dar melhor sozinho". "Você sempre teve seus próprios clientes", ela disse, irritada, abrindo e fechando a mão machucada. "Não entendo por que não podiam continuar juntos." "Aquele melodrama todo... Não consigo conviver com aquilo. E ele não conseguia parar. Se eu não estivesse a favor dele, estava contra. Não estou querendo dizer que não havia causa. Não estou querendo dizer que o mundo seja justo. Mas eu conheço o Charlie. Ele está usando essas pessoas e os casos delas. Ele só não quer ficar de fora. E eu quero ficar de fora. Ah... estava na hora de acabar. Nós dois nos usamos até onde deu. A verdade é que eu não gosto mais dele." "Me pergunto como ele deve estar se sentindo." "Como Paul Muni, defendendo os não-amáveis e não-amados. Nunca existiu advogado assim. Lembra? Aqueles filmes todos dos anos trinta? Os jovens médicos e advogados indo para o interior para edificar os caipiras." "Paul Muni! Charlie tem razão", disse ela. "Você não está no século certo." "É verdade." "Mas Charlie não éruim!", ela exclamou. "Eu não disse que ele é ruim. Ele é irresponsável, vaidoso, histérico. Não tem nada a ver com ruindade." "Irresponsável! O que você quer dizer com irresponsável?" Fique quieta!", disse Otto. E passou os braços em torno de Sophie. "Cuidado!", disse ela. "Vai se sujar de sangue!" [...]. Trecho extraído da obra Desesperados (Companhia das Letras, 2007), da escritora estadunidense Paula Fox (1923-2017).

DE GRAMÁTICA E DE LINGUAGEM - E havia uma gramática que dizia assim: / "Substantivo (concreto) é tudo quanto indica / Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta". / Eu gosto das cousas. As cousas sim !... / As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. Multiplicam-se em excesso. / As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém. / Uma pedra. Um armário. Um ovo, nem sempre, / Ovo pode estar choco: é inquietante...) / As cousas vivem metidas com as suas cousas. / E não exigem nada. / Apenas que não as tirem do lugar onde estão. / E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta. / Para quê? Não importa: João vem! / E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão, / Amigo ou adverso...João só será definitivo / Quando esticar a canela. Morre, João... / Mas o bom mesmo, são os adjetivos, / Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto. / Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. luminoso. / Sonoro. Lento. Eu sonho / Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos / Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais. / Ainda mais: / Eu sonho com um poema / Cujas palavras sumarentas escorram / Como a polpa de um fruto maduro em tua boca, / Um poema que te mate de amor / Antes mesmo que tu saibas o misterioso sentido: / Basta provares o seu gosto... Poema do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui.

PAULINE NA PRAIA
A comédia Pauline na Praia (1983), do cineasta, crítico de arte, roteirista e professor francês Eric Rohmer (1920-2010), conta a viagem em férias de verão de uma adolescente para as praias da Normandia, com uma prima adulta que está se divorciando e reencontra uma antiga paixão. Durante essas férias a adolescente orgulhosa e sensível descobre os jogos do amor com um jovem que está à procura de uma garota da sua idade. As duas vão se envolver com seus amigos aproveitando a vida e as situações, independentemente das consequências. Veja mais aqui.
IV Congresso Internacional de Literatura e Ecocrítica & muito mais na Agenda aqui.
&
O cordão dos a favor & os do contra, a música de Jorge Ben Jor, a arte de Hélio Oiticica, Vampirella de Forrest J. Ackerman, Eliane Queiroz Auer & Lia Kosta aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, março 21, 2018

NAIPAUL, ROBERT FROST, DEWEY, POPPER, CLARICE & NELSON, ANA LUIZA REGO, GUSTAVO SANTAOLALLA & LISBETH SCOTT

A CABEÇA NA BANDEJA - Imagem: arte da artista visual Ana Luiza Rego. – Quando eu estava para nascer, havia uma expectativa. O que será que será? Ninguém previa o que pudesse surgir ali, naquela hora, se um monstro, um duende, um et, um vampiro, ou o saci Pererê, coisa que valha das abusões e terrores do mundo. Estavam todos prontos para tudo, eu poderia ser qualquer coisa, inclusive um aleijão, ou uma maldição, ou a besta do apocalipse. Fisionomias graves se confundiam com as da minha mãe que não sabia ao certo se estava com oito ou dez meses, atrapalhada com a contagem. A parteira lá a postos, conferindo as dilatações, as contrações, dizia: O bregueço vai nascer já já. Está quase na hora dele se mostrar! E tome espera. Ninguém ali dos presentes, parentes e aderentes sabiam se três da madrugada, dez da manhã ou cinco da tarde, sabe-se, apenas, que de repente pinotei do ventre da minha mãe pras mãos da parteira, com um berreiro macho de quem queria mesmo era azucrinar o mundo. Pronto, disse a parteira toda ancha, conferindo tudo: Dois olhos, dois buracos no nariz, uma boca, dois ouvidos, pescoço, dois braços, duas mãos e cinco dedos, dois pés e cinco dedos, duas pernas, virou, revirou, desvirou, tudo parece perfeito, pelas aparências não é bicho, nem coisa de outro mundo, parece mesmo que é gente, nunca se sabe. Pode ser que vire coisa ruim, vai depender das circunstâncias. Mas tem um detalhe! Ao dizer isso todos ficaram apreensivos. O detalhe é que esse menino será a perdição do mundo se não cortarem o mal pela raiz. Como assim? Esse menino será os pés da doida e se derem manha para ele, tudo estará perdido. Por quê? Se não cortarem logo as asas dele, esse menino quando crescer vai dar muito trabalho, vejam! Aí ela me futucou, eu dei um espirro e a terra tremeu caindo uma chuva torrencial. Como é? Ela buliu e eu arrotei. Nessa hora tudo virou de pernas pro ar. Ôôôô! Deu outra cutucada e eu peidei, pronto, trovões e relâmpagos abriam serras e morros! Ôôô! Estão prestando a atenção, né? Sim, todos afirmativamente. Pois bem, quando esse menino sorrir tudo vai desequilibrar, quando ele chorar os rios transbordarão a ponto das barragens romperem, quando ele tossir vai mudar a cor das coisas, quando estalar os dedos vai causar catabis que assustarão todo mundo, quando cagar as placas tectônicas se reacomodarão, quando ele mijar vai soltar sacarose de virar açúcar cristalizado, quando ele correr vai sumir, porque vai ficar invisível e só voltará quando bem quiser, mas não deixem ele cantar, será bastante desafinado, prefira as mentiras que ele conte porque será um grande mentiroso, mas nunca, sob hipótese alguma, deixe-o cantar, pois causará um desastre imprevisível. Estão avisados. Muitas outras coisas esse menino pode proporcionar para prejuízo de todos. Muitas mesmo. Cuidem dele em cima da risca, não deixem que viva solto, qualquer descuido será tarde demais, qualquer brecha ele foge, qualquer desatenção ele bota fogo na casa, tem de ser vigiado vinte e quatro horas por dia. Entendido? Sim, tudo nos conformes. Só não esperavam que eu começasse ali naquela hora a armar das minhas até hoje, premiado com a cabeça exposta na bandeja. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor argentino Gustavo Santaolalla: Pajaros, Biutifull & The Best; a cantora e compositora armênia Lisbeth Scott: Desert song, Globus Preliator & The Best; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Temos de reconhecer que a consciência ordinária do homem comum [...] é uma criatura de desejos e não de estudo intelectual, investigação e especulação. O homem vive num mundo de sonhos antes que de fatos, e um mundo de sonhos organizado em tono de desejos cujo sucesso ou frustração constitui sua própria essência. [...]. Pensamento extraído da obra Reconstrucion in philosophy (Beacon, 1962), do filósofo e pedagogo estadunidense John Dewey (1859-1952). Veja mais aqui.

A CIÊNCIA & A VERDADE - [...] A ciência não é um sistema de declarações certas e bem estabelecidas, nem tampouco um sistema que avança para um estado final. Nossa ciência não é conhecimento (episteme): ela nunca pode pretender haver atingido a verdade, nem mesmo um substituto para ela, como a probabilidade [...]. Trecho extraído da obra The logic scientific discovery (Harper & Bow, 1968), do filósofo austríaco Karl Popper (1902-1994).

SOBRE AMIGOS & AMIZADEVocê se sente um homem só? Do ponto de vista amoroso, encontrei Lúcia [...] Mas, diante do resto do mundo, sou um homem maravilhosamente só. Uma vez fiquei gravemente doente, doente para morrer. Recebi em três meses de agonia três visitas, uma por mês. Note-se que minha doença foi promovida em primeiras páginas. Aí eu sofri na carne e na alma esta verdade intolerável: o amigo não existe. [...]. Trechos da entrevista realizada por Clarice Lispector com Nelson Rodrigues, extraído da obra Clarice Lispector: entrevistas (Rocco, 2007).

O NASCIMENTO & O FUTURO DA CRIANÇA – [...] - O que é?, pergunta o velho. Menino ou menina? – Menino, menino, gritou a parteira. R wur mrnino! Tem seis dedos e nasceu virado! [...] Em primeiro lugar, falemos dos traços dessa infeliz criança. Ele terá bons dentes, mas muito largos e espaçados. Suponho que vocês saibam o que isso significa. O menino será devasso e pródito. Talvez, também, mentiroso. É difícil reconhecer tudo isso com precisão, com todos esses buracos entre os dentes. Eles podem pressagiar uma dessas coisas, ou todas as três ao mesmo tempo. – E os seis dedos, pandit? – Um sinal pavoroso, não é mesmo? Tudo o que posso aconselhar é que o mantenham longe das árvores e da água. Sobretudo da água. [...]. Trecho extraído da obra Uma casa para o Sr. Biswas (Companhia das Letras, 2010), do escitor britânico nascido em Trinidad e Tobago, Prêmio Nobel de 2001, Vidiadhar Surajprasad Naipaul. Veja mais aqui.

DOIS POEMASCONHECIDO DA NOITE – Da noite sou conhecido / sob a chuva vou e venho / além das luzes que tenho ido. / Visto os tristes becos tenho. / Mas, sem ver, passo o rondante / fechado em seu sobrecenho. / Paro, e para o passo errante. / Quando interrompido grito / vem de outra rua distante / não para chamar-me ou aflito / dar adeus. No ceu, polido / relógio, o tempo descrito / tem, sem bo, nem mau, sentido. / Da noite sou conhecido. FOGO E GELO – Alguns dizem que o mundo acaba em fogo / outros dizem que em gelo acabará / pelo que do desejo já provei / favoreço a versão da ignescência. / Mas se houver de acabar-se duas vezes / eu penso conhecer o ódio bastante / para afirmar que nessa destruição / o gelo também serve / e é mesmo suficiente. Poemas do poeta estadunidense Robert Frost (1874-1963).

A ARTE DE ANA LUIZA REGO
A arte da artista visual Ana Luiza Rego.
IV Colóquio Internacional de Literatura e Gênero & muito mais na Agenda aqui.
&
A lição de cada amanhecer, Lendas da Amazônia, a música de Anne Schneider, Edla Fonseca, a arte de Alice Soares & a escultura de Lorenzo Quinn aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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terça-feira, março 20, 2018

HESSE, CECÍLIA MEIRELES, PÓLYA, MEAD, XANGAI & JOANNA MACGREGOR & MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA

E CAETANA ALÇOU VOO – Imagem: El passeante invisible, da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). - Dia e noite, noitedia, a vida passa, a cidade dilacerada como os corações carentes almejando o abraço para ser feliz, súplicas e angustias que faziam Caetana levantar voo e os cães em roldão atrapalhassem o salto inicial e caísse do palco pela primeira vez, sem humilhação, às risadagens, zombando da derrocada. Não havia de ser nada. Era a lição de novo aprendizado e a esperança se desdobrava no gesto, ela alçava novo voo e, novamente, os cães que ansiavam voar com ela, atrapalharam mais uma vez e Caetana caiu pela segunda vez do palco, como se fosse o inevitável e o irreversível, o encontro avassalador entre o corpo e a alma. Mais uma vez sorriu para se defender das ameaças escondidas na escuridão, enfrentando-as, ignorando-as, até insuportáveis para a fuga na imigração da noite, como não se quisesse a presença da morte e da solidão, não era a hora delas, mesmo entre tremores de terra, relâmpagos, trovões, terremotos. Era um rebuliço sem precedentes, do qual se falava de sonhos, viagens, confissões e tudo era nada vezes tudo, noves fora nada e isso pouco importava nas estrelas do céu da boca, o hálito da interação – as bocas se confundiam na distância, tanto fosse meia noite ou meio dia, porque tudo rodopiava noitedia até o mundo esquecer que existiam em algum lugar perdido do mundo tão próximo do paraíso que fosse instaurado. Caetana sorria e era tão bela quanto nunca fora. E a noite fosse a festa de um carnaval exclusivo, fantasia foliã pra quem perdera todos os limites por transgressões explosivas de frevos inauditos, de maracatus em polvorosa, e não soubesse a lua entregando o amanhecer ao Sol e a manhã preparasse a tarde do sono evadido para passar a noite em claro e perder a completa noção do tempo. Caetana reticenciava, ouvia desatenta, falava pelos cotovelos até perder a voz porque quase havia dito da perda da identidade que dançava embrigada vulcões explosivos e, apesar dos passos capengas, as dores dos ossos, a carne destroçada, como se gêmeos fundidos em um, Caetana alçou seu voo para ser cada vez mais linda do que sempre fora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o cantor, compositor e violeiro Xangai: Estampas de eucalol, Qué que tu tem canário & ABC do preguiçoso; a pianista, maestro e compositora britânica Joanna MacGregor: Antiphonies for piano & orchestra, Messian Turanganlila Sumphony & Bacchanale de John Cage; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A investigação científica não termina com seus dados; ela se inicia com eles. O produto final da ciência é uma teoria ou hipótese de trabalho e não os chamados fatos. [...] Pensamento extraído de The Philosophy of the act (Charles Morris, 1938), do filósofo estadunidense George Herbert Mead (1863-1931), integrante da corrente do pragmatismo e do interacionismo simbólico, e militante da Escola de Chicago e que desenvolveu estudos para a sociologia e psicologia cosial.

A CIÊNCIA & A VIDA - [...] É tolo tentar responder uma questão que você não entende. É triste ter de trabalhar para um fim que você não deseja. Coisas tristes e tolas como estas frequentemente acontecem, dentro e fora da escola, mas o professor deve evitar que ocorram em classe. O estudante deve entender o problema. Mas não basta que ele o entenda. É necessário que ele deseje sua solução. [...] O professor, para ajudar o estudante de forma efetriva e sem atrapalhar sua iniciativa individual, deve levantar as mesmas perguntas e indicar os mesmos passos, uma vez atrás da outra. Assim, em problemas inumeráveis temos de levantar a questão: o que é o desconhecido? Podemos varias as palavras e perguntar a mesma coisa de formar diferentes: o que é necessário e exigido? O que é que você quer encontrar? O que é que você deve procurar? O objetivo dessas perguntas é fazer com que o estudante focalize sua atenção no desconhecido. [...]. Trecho extraído da obra How to solve it: a new aspect of mathematical method (Doubleday, 1957), do professor e matemático húngaro George Pólya (1887-1985). Veja mais aqui.

O CERCO À CIDADE DE CREMMA - [...] De uma pequena casa, em cujo térreo um entalhador tinha sua oficina, saiu, quando o bando acabara de desfilar, uma jovem alta e bela que levava uma ânfora ao ombro. Hefaisto que cavalgava por último, botou o olhar surpreendido da formosa donzela, que logo lhe agradou e muito, e dirigiu-lhe uma vênia cortês, acompanhada de um sorriso tranquilizador, a que juntou os versos finais de um antigo madrigal jônico. [...] Hefaisto, porém, alojara-se em casa daquele entalhador, logrando a simpatia dessa humilde família com algumas moedas de prata. Fechado o trato, dirigiu-se animadamente e sem pressas ao encontro de seu chefe, tendo ambos passado a tarde sozinhos a discutir planos e estudar deliberações. À noite, oferecia vinho aos anfitriões, tocava lira e lhe entoava canções alegres, falava de outros países por onde andara e tinha sentada a seus pés a moça esbelta de olhos castanhos, cuja cabeça repousava no colo do astuto grego, enquanto ele corria os dedos pela sua longe e sedosa cabeleira. Seu nome era Febe. Tarde da noite, Febe recusou-se a acompanha-lo à alcova mas prometeu que o faria no dia seguinte, com o que Hefaisto se conformou. [...]. Trechos extraídos da obra O livro das fábulas (Civilização Brasileira, 1975), do escritor alemão Hermann Hesse (1877 – 1962). Veja mais aqui.

DUAS ELEGIAS1 - Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos./ Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído. / No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva, / modelada pela noite, pelas estrelas, pelas, minhas mãos. / Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma / claridade da lua. / Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas / pálpebras, e a voz dos pássaros e das águas correr / -sem que a recolhessem teus ouvidos inertes./ Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos imóveis? / no teto? / Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho, / E tristemente te procurava. / Mas também isso foi inútil, como tudo mais.- 2 - Neste mês, as cigarras cantam / e os trovões caminham por cima da terra, / agarrados ao sol. / Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas, / e depois a noite é mais clara, / e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão. / Mas tudo é inútil, / porque os teus ouvidos estão como conchas vazias, / e a tua narina imóvel / não recebe mais notícia / do mundo que circula no vento. / Neste mês, sobre as frutas maduras cai o beijo áspero / das vespas… / -e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra, / como água que borbulha. / Neste mês, abrem-se cravos de perfume profundo e obscuro; / a areia queima, branca e seca. / junto ao mar lampejante; / de cada fronte desce uma lágrima de calor. / Mas tudo é inútil, / porque estás encostada à terra fresca, / e os teus olhos não buscam mais lugares / nesta paisagem luminosa, / e as tuas mãos não se arredondam já / para a colheita nem para a carícia. / Neste mês, começa o ano, de novo, / e eu queria abraçar-te. / Mas tudo é inútil: / eu e tu sabemos que é inútil que o ano comece. Poemas da obra Mar absoluto (Globo, 1942), da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964). Veja mais aqui.

A ARTE DE MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA
A arte da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992).


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Solilóquio na viagem noturna do sol, Educação no Brasil, o pensamento de Sêneca, a música de Maria Esther Pallares, a arte de Paula Águas, a pintura de Terry Miura & Amenaide Lima aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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segunda-feira, março 19, 2018

KAFKA, LELOUP, GISELA PANKOW, COUNTEE CULLEN, EUMIR DEODATO & BJÖRK, HUANG YAN, CYANE PACHECO, LAMPIOA & ZÉ BUNITO

LAMPIOA & ZÉ BUNITO – Tudo começou quando ela encarou os matutos pais: Vou perder a virgindade! Teibei. E pra que vocês não sofram a desonra, a partir de agora sou Lampeoa, sem eira nem beira. Ocultarei minha identidade e seguirei errante. Juntou seus trapos num alforje com tudo dentro, inclusive o Asdrubal, seu sapo cururu de estimação e esperança dela de um dia se transformar num príncipe encantado. Tanto é que todo dia beijava o batráquio, tratado com rapadura, cuscuz, rolete de cana e coisas dessas da culinária sertaneja. Foi pro terreiro, amontou-se no toitiço do jumento Aderaldo, que ao rinchar tanto anunciava as horas, como anunciava a hora do ataque; e deu um assobio convocando o guenzo Cheira-peido, a sua principal arma para desancar reputações, pois, vivia de encostar o focinho no furico de qualquer algoz e aí tirava a prova dos nove; e saiu sem rumo com sua trupe. Lá adiante, ainda voltou-se e acenou pros pais que pranteavam sua partida pra nunca mais. No meio do caminho, achou de ajustar umas contas com o coronel Caga-raio: Quais as suas intenções? O homem deitava olhares libidinosos pra cima dela, estalou o dedo e juntou a capangada toda: Agora você vai ver, sua danada! Deu ordem pros cheleleus aprisioná-la, sem esperar pelo ataque do guenzo, das duas uma: ou acendia a fluorescente, ou ia ser desmoralizado pra sempre. Deu a segunda. Do alforje dela, sob a batuta do Asdrubal, saiu uma nuvem com um bando de muriçocas carniceiras, com todo tipo de lacrau, dengue e o escambau. Embate vencido em dois tempos, todo mundo rendido. Chegava a hora do teste: Ou virava rancolho, ou passava para eunuco, era a escolha. Qual que é, hem? Mais da maioria já assumida bandeou pro seu lado, missão cumprida. Foi ter com o coronel Treme-Terra, esse tinha uma conta das grandes por ser responsável pelo descabaçamento de muita donzela: Vamos ver se ele é homem de mesmo! Não era, cagou na vela. E assim foi ela fazendo justiça contra os maiorais abastados de todo lugar. Sua fama chegou longe, em muitas paragens era sinônimo de justiceira, a ponto de anunciar lá vem Lampioa, toda macharia saía com o pé na bunda. E assim era, entrava de sopetão num bar lotado, não ficava ninguém, escapoliam, envultavam-se. De tanto pegar os cabras de surpresa, certo dia, quando entrou pra pegar pra capar, teve um que ficou: Pelo jeito, esse é macho! Como é a sua graça? Engrolando a língua, meio lá, meio cá, disse: Sou Zé Bunito, o pueta do sertão! Mostre cá seus versos! E quanto mais ele virava o copo, mais abusava das estrofes, ela virando os olhos. Não era o que ela esperava, mas dava pro gasto: assentou o bebo na sela do jumento e saiu pra lugar incerto e não sabido pra dar conta da virgindade. Numa das curvas do destino, escondeu-se com o seu amado e ficou esperando que o cara reagisse. Não deu, foi então que a cobra Zefinha entrou em cena, deixou o cabra em ponto de bala, mas de tão bebaço não acertava o lugar, foi preciso que o Cheira-peido desse uma mãozinha, toim, e a muriçoca rainha desse uma ferroada no testículo esquerdo dele, toim, pronto, era uma vez um cabaço e ela no maior vuque-vuque, a coisa pegou no tranco. Não sei direito, nunca mais soube nada deles, mas dizem que foram felizes para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o pianista, arranjador e produtor Eumir Deodato: Europa Xpress, Super Strut Live, Rapsody In Blue; a cantora, compositora, atriz, instrumentista e produtora islandesa Björk: Live at Royal Opera House, Vulnicultura Live & Voltaic Paris Live; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Uma igrejinha na ilha de Aran, na Irlanda... me lembrou um koan japonês: “Minha casa pegou fogo, nada mais me oculta a Lua deslumbrante”. Minha vida está em ruinas, não há mais obstáculo à visão daquilo que é. À pergunta: “Se sua casa pegasse fogo, o que você salvaria?” – Jean Cocteau respondeu: “O fogo!”. Se o mundo pegasse fogo, o que eu salvaria? Esta chama! Esta centelha de amor, a única coisa que jamais nos será tirada. O amor é o único Deus que não é um ídolo; só o possuímos quando o damos... se minha vida pegasse fogo, o que eu salvaria? Para o céu, nada se leva... a não ser o que se deu. [...]. Pensamento extraído da obra Se minha casa pegasse fogo, eu salvaria o fogo (EdUnesp/UEPA, 2002), do PhD em Psicologia Transpessoal, doutor em Teologia e professor de Filosofia, Jean-Yves Leloup. Veja mais aqui.

O HOMEM & SEU ESPAÇO – [...] Toda dualidade desprovida de ligação entre as duas partes leva à destruição. A partir do momento em que uma parte é rejeitada e que a outra se transforma em todo absoluto, toda e qualquer “comunicação” se torna impossível: resta apenas a destruição, para que o mundo do absoluto seja o único universo [...] Como e por que este homem, tão duramente castigado no corpo e tão fortemente tomado por um pensamento filosófico abstrato, não caiu no abismo do absoluto [...] Utilizar a razão, ter a coragem de pensar sempre foi muito perigoso. [...] Quem quiser viver em paz deve se esforçar por não pensar [...]. Trechos extraídos da obra O homem e seu espaço vivido (Papirus, 1988), da neuropsiquiatria e psicanalista francesa Gisela Pankow (1914-1998).

A METAMORFOSE – [...] Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas inúmeras pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. – O que aconteceu comigo?, pensou. Não era um sonho. Seu quarto, um autentico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se esplhava, desempacotado, um mostruário de tecidos – Samsa era caixeiro viajante -, pendia a imagem que ele havia recortado fazia pouco tempo de uma revista ilustrada e colocado numa bela moldura dourada. Representava uma dama de chapéu de pele que, sentada em posição ereta, erguia ao encontro do espectador um pesado manguito de pele, no qual desaprecia todo o seu antebraço. [...]. Trecho extraído da obra A metamorfose (Brasiliense, 1985), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui.

CERTA SENHORA QUE CONHEÇOEla imagina que no céu da sua classe / vão dormir tarde e roncam enquanto os pobres / e pretos querubins acordam às sete / para arrumar a casa celestial. Poeta do poeta estudunidense Countee Cullen (1903-1946).

A ARTE DE HUANG YAN
A arte do artista taoísta multimídia Huang Yan.


Festival de Invento de Garanhuns – FIG 2018 & muito mais na Agenda aqui.
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Aos quatro cantos e ventos minha vida, o pensamento de Jacob Boehme, a música de Esther Scliar, a escultura de Jo Ansell, a pintura de Tamara de Lempicka, a fotografia de Jonathan Charles & Dene Ramos aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da poeta e artista visual Cyane Pacheco aquiaquiaqui, aqui,  aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. aqui, aqui e aqui.
 

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...