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sábado, maio 23, 2015

LAGERKVIST, STRINDBERG, SAINT-SAËNS, TORQUATO NETO, BLOCH, NYMAN, LUCY GORDON & WALTRAUD MEIER.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – EM MIM: Estou com o sentimento do mundo porque tudo translada tudo está em mim querendo explodir as larvas magnas da criação. Já não tenho nada meu em mim “sou todo coração” e vivo todo transluz que o clímax de viver emite; Sou todos os rostos em mim; Sou todos os acenos alegres e tristes, todo enterro e toda festa, todo frêmito e toda decepção. Já não sou individual, sou eu e um milhão de gente dentro de mim clamando gemendo gritando sorrindo cantando as muitas existências e já não sigo só. Em mim as vozes ecoam. E minha sombra não está embaixo do meu sapato. Está no espetáculo da vida. (Primeira reunião – Bagaço, 1992). Vamos aprumar a conversa? Aprume aqui ou aqui.

Imagem: Woman at her Toilette (1882), do pintor dinamarquês Carl Heinrich Bloch (1834-1890)

Curtindo Samson et Dalila, Op. 47 (1877 – EMI, 1993), do compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921), com a mezzo soprano alemã Waltraud Meier & Myung-Wha Chung/Orchestre et choeurs de l'Opéra-Bastille

O ANÃO – O livro O anão (1944 – Antígona, 2013), do escritor sueco e Prêmio Nobel de 1951, Pär Lagerkvist (1891-1974), conta a história de um anão na corte italiana renascentista, que foi rejeitado pela mãe e vendido por ela ao príncipe para servir de bobo da corte, assim atuando com seu desprezo pela espécie humana. Da obra destaco os seguintes trechos: Tenho vinte e seis polegadas de altura, mas sou perfei­tamente constituído e proporcionado, salvo no que res­peita à cabeça, que é um pouco grande. Os meus cabelos são ruivos, em vez de negros como os da maior parte das pessoas, e além disso muito espessos e crespos; uso‑os repuxados para trás nas fontes e ao alto da testa, que se evidencia mais pela largura do que pela altura. O meu rosto é imberbe; afora isso, parece‑se com o de todos os homens. As minhas sobrancelhas unem‑se. Tenho uma força física considerável, sobretudo se me enco­lerizo. Quando me obrigaram a lutar com Josaphat, alcei‑o sobre as minhas costas, ao fim de vinte minutos, e estrangulei‑o. Desde então, sou o único anão da corte. [...] O meu destino é odiar as criaturas da minha espécie. A minha própria estirpe é-me execrável.Mas também me odeio a mim mesmo. Devoro a minha carne embebida de fel. Bebo o meu sangue envenenado. Sombrio bispo do meu povo, cumpro todos os dias o meu riso solitário. [...] Tenho notado que por vezes inspiro temor. Mas cada um sente sobretudo medo de si próprio. Os homens supõem sem razão que é por minha causa que andam inquietos. O que na realidade os aterroriza é o anão que se esconde neles, a caricatura humana de rosto simiesco que ergue por vezes a cabeça fora das profundezas do seu ser. Sentem-se tanto mais horrorizados quanto ignoram a sua existência. Espanta-os ver surgir à superfície esse desconhecido que lhes parece nada ter de comum com a sua verdadeira vida. Quando nada aparece acima dos esconsos, sentem a alma em paz. Seguem, de cabeça alta, impassíveis, com rostos lisos, sem expressão. Mas há sempre neles qualquer coisa de diferente, que fingem ignorar; podem viver diversas vidas ao mesmo tempo sem o saber. São estranhamente reservados e incoerentes. E são disformes, embora isso não seja visível. [...] Ser homem é uma coisa grande e maravilhosa, mas deveremos regozijar-nos por sê-lo? Ser homem é uma coisa destituída de sentido, mas deveremos afligir-nos, cheios de desespero? Como responder a tais perguntas? [...] Louco de excitação, contemplava os resultados inauditos da minha obra. Assim, eu exterminara aquela raça execrável, que só merecia ser destruída. Assim, a minha arma poderosa e vingadora, exigindo uma punição completa, sem piedade os ceifava. Assim, eu enviava-os para as chamas do Inferno por toda a eternidade. Pudessem eles arder lá todos! Todos aqueles seres que a si mesmos dão o nome de homens e nos enchem de nojo! Porque existem eles? Porque se fartam de risos e de amor e reinam tão orgulhosamente sobre a Terra? Sim, porque existem eles, esses hipócritas e esses charlatães, esses seres lascivos, sem sombra de vergonha, cujas virtudes são piores que os vícios? Possam todos arder no Inferno! Eu sentia-me como o próprio Satanás, rodeado pelos espíritos infernais que eles invocavam nas suas reuniões noturnas e que nesse momento, voltando para eles a cara trocista, arrebatavam dos seus corpos as almas ainda quentes e nauseabundas, para as levar para o reino da morte. Com uma volúpia que jamais experimentara antes e cuja violência quase me fez perder os sentidos, eu saboreava o meu poder sobre a Terra. [...]. Veja mais aqui.

OS ÚLTIMOS DIAS DE PAUPÉRIA – Do livro Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro (M. Limonad, 1982), do poeta, jornalista, letrista e experimentador da contracultura, Torquato Neto (1944-1972), destaco inicialmente o poema O Poeta é a mãe das armas: O Poeta é a mãe das armas / & das Artes em geral — / alô, poetas: poesia no país do carnaval; / Alô, malucos: poesia / não tem nada a ver com os versos / dessa estação muito fria. / O Poeta é a mãe das Artes / & das armas em geral: / quem não inventa as maneiras do corte no carnaval / (alô, malucos), é traidor / da poesia: não vale nada, lodal. / A poesia é o pai da artimanha / de sempre: quente / ura no forno quente / do lado de cá, no lar / das coisas malditíssimas; / alô poetas: poesia! / poesia poesia poesia poesia! / O poeta não se cuida ao ponto / de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo / já sabe: não está cortando nada / além da MINHA bandeira ////////// = / sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar. / Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. / Ar: em primeiríssimo, o lugar. / poetemos pois. Também o poema A rua: A rua / Toda rua tem seu curso / Tem seu leito de água clara / Por onde passa a memória / Lembrando histórias de um tempo / Que não acaba / De uma rua, de uma rua / Eu lembro agora / Que o tempo, ninguém mais / Ninguém mais canta / Muito embora de cirandas / (Oi, de cirandas) / E de meninos correndo / Atrás de bandas / Atrás de bandas que passavam / Como o rio Parnaíba / O rio manso / Passava no fim da rua / E molhava seus lajedos / Onde a noite refletia / O brilho manso / O tempo claro da lua / Ê, São João, ê, Pacatuba / Ê, rua do Barrocão / Ê, Parnaíba passando / Separando a minha rua / Das outras, do Maranhão / De longe pensando nela / Meu coração de menino / Bate forte como um sino / Que anuncia procissão / Ê, minha rua, meu povo / Ê, gente que mal nasceu / Das Dores, que morreu cedo / Luzia, que se perdeu / Macapreto, Zé Velhinho / Esse menino crescido / Que tem o peito ferido / Anda vivo, não morreu / Ê, Pacatuba / Meu tempo de brincar já foi-se embora / Ê, Parnaíba / Passando pela rua até agora / Agora por aqui estou com vontade / E eu volto pra matar esta saudade / Ê, São João, ê, Pacatuba / Ê, rua do Barrocão. Veja mais aqui.

A MAIS FORTE – A peça teatral A mais forte (1888), do dramaturgo, escritor e ensaísta sueco August Strindberg (1849-1912), conta a história na qual a paixão, amor, ódio e medo se confundem, formando um enredo em que cada olhar; cada gesto tem um significado muito mais profundo do que deixa transparecer. Na peça, cabe ao espectador resolver, com sua imaginação e história pessoal, o desentrelaçar do drama. Através de um conflito aparentemente trivial, vivido por duas mulheres que disputam o amor do mesmo homem, o espectador é levado a se indagar sobre os fatos que são ou não são importantes na vida ou quando se escolhe um caminho a seguir. Da obra destaco o trecho: Cenário: uma casa de chá, duas mesas de canto, uma sofá forrado de veludo vermelho, várias cadeiras. Miss Y sentada no canto do café à sua frente uma garrafa vazia ale (espécie de cerveja). Ela lê uma revista, que mais tarde troca por outras. Mrs. X entra vestida com roupas de inverno, chapéu, capote, carregando uma sacola de compras, de desenho estranho. Mrs X: Amélie querida, como vai? O que é isto? Sentada ai sozinha, numa noite de Natal. Até parece uma solteirona. Miss Y: (olha-a sobre a revista, cumprimentando-a com a cabeça e para de ler). Mrs.X: Ora, não gosto de vê la aqui, tão só, e como se não bastasse, logo numa noite de Natal. Faz-me sentir tão mal, como no dia em que assisti uma festa de casamento num restaurante de Paris: a noiva lia histórias em quadrinhos, enquanto o noivo jogava bilhar com os outros convidados. Uf, então pensei: se no primeiro dia é assim,o que lhes espera no futuro? Ele, jogando bilhar na sua noite de núpcias e ela, sentada, lendo aquele jornalzinho. Que me diz disto? Bem, a comparação não foi das melhores, não é? Entra uma garçonete com uma xícara de chocolate e coloca-a em cima da mesa, em frente a Mrs. X. Mrs X: Sabe, Amelie, acho que teria sido melhor para você, se tive se casado com ele...Lembra-se bem quando insisti com você para desculpa-lo? Lembre-se? Hoje, poderia ser sua esposa, ter seu próprio lar...Recorda-se de como você se gabava de gostar da vida domestica, desejando, verdadeiramente, abandonar sua carreira teatral? Sim, Amélie querida – depois do teatro – a melhor coisa é um lar, crianças, você sabe...Não, acho que não entenderia isto! Miss Y: (expressando desdém). Mrs X: (prova algumas colheradas de chocolate, abre a sacola de compra e tira alguns presentes de Natal) – Ah, deixe-me mostrar-lhe o que comprei para meus filhos. (Mostra uma boneca) Olhe só, que graça! É para Lisa...Veja como fecha os olhos e vira a cabeça! Vê? E esta espingarda é para Maja (Arma a espingarda e atira em direção de Miss Y). Miss Y: Faz um gesto medroso. Mrs. X: Não me diga que a assustei! Não pensou que eu fosse realmente atirar, pensou? Há? Nossa, pelo visto acho que sim! Se você quisesse atirar em mim, eu não ficaria surpresa. Afinal, eu me intrometi na sua vida – e acho que jamais se esquecerá disto – mesmo assim, não tive culpa...Ainda acredita que contribui para o seu afastamento do Grande Teatro – não é mesmo? Pode pensar o que quiser, mas não tive nada a ver com aquilo! No entanto, vejo que não importa o que diga, ainda assim você imaginará sempre que a responsabilidade foi toda minha! (Tira um par de chinelos da sacola). E estes são para minha cara metade. Eu mesma os enfeitei – com tulipas. Eu as detesto, sabe, mas meu marido tem quer ter tulipas em tudo que é seu. Miss Y: (Olha sobre a revista, com curiosidade e ironia) [...] Veja mais aqui e aqui.

GAINSBOURG – O filme Gainsbourg: o homem que amava as mulheres (2010), do diretor Joann Sfar, retrata a vida do músico, cantor e compositor francês Serge Gainsbourg (1928-1991), uma biografia que conta desde suas aptidões para as artes, como o desenho e música, sua imaginação fértil retratando personagens com variações de sua própria personalidade, até se tornar um doas artistas mais populares da França. O destaque desse filme é da saudosa atriz e modelo britânica qie foi encontrada enforcada cometendo suicídio antes do lançamento da película, Lucy Gordon (1980-2009) que interpretou a atriz e cantora Jane Birkin. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Hoje é dia da atriz sueca de teatro e cinema Lena Nyman (1944-2011)


Veja mais sobre:
Maria Esperantina, orgasmo de uma noite & nunca mais, a poesia de Ascenso Ferreira, O sexo na história de Reay Tannahill, a literatura de Ulrike Marie Meinhof, Oropa, França & Bahia de Alceu Valença, Trem das Alagoas de Guazzelli & a arte de Xenia Hausner aqui.

E mais:
A função do orgasmo de Wilhelm Reich, La rebelión de las masas de José Ortega y Gasset, a poesia de Ascenso Ferreira, a música de Alexander Scriabin, a pintura de Renato Alarcão, a arte de Pablo Garat, Orgazmo & O orgasmo de Esperantina aqui.
O suicídio de Karl Marx, As caçarolas de Tolinho & Bestinha, A primavera de Ginsberg & Padre Bidião aqui.
Salmo da Cana, Os doze trabalhos de Peisândro de Rodes, Os trabalhos e os dias de Hesíodo, Germinal de Émile Zola, O operário em construção de Vinicius de Moraes, a gravura de Cândido Portinari, O informe de Brodie de Jorge Luis Borges, a escultura de Auguste Rodin, a música de Chico Buarque, o teatro de Nelson Rodrigues, Tempos modernos de Chaplin, a arte de Magda Mraz & Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL aqui.
Quando ela dança tangará no céu azul do amor, A condição pós-moderna de Jean-François Lyotard, A estética da desaparição de Paul Virilio, a música de Anna-Sophia Mutter, a pintura de Eloir Junior & Alex Alemany, David Peterson, Luciah Lopez, a arte de Carlos Zemek & Magnum Opus de Isabel Furini aqui.
Elucubrações das horas corrida, O pensamento comunicacional de Bernard Miège, O outro por si mesmo de Jean Baudrillard, a pintura de Vicente Romero Redondo & Edilson Viriato, a coreografia de Doris Uhlich, a arte de Efigênia Rolim, Meu delírio de Érica Christieh, a música de Sarah Brasil, a arte de David Lynch & Sandra Hiromoto aqui.
Se não vai de um jeito, vai de outro, A marcha da insensatez de Barbara Tuchman, A educação com carinho de Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, a música de Kyung-Wha Chung, a pintura de Joan Miró & Eugène Leroy, a arte de Anna Dart & Eugene J. Martin, Remando no éden de Bárbara Lia, a fotografia de Faisal Iskandar, Revista Poética Brasileira & Mhario Lincoln aqui.
Palco da vida, A terceira mulher de Gilles Lipovetsky, A vida mística de Jesus de Harvey Spencer Lewis, Toda palavra de Viviane Mosé, a música de Andersen Viana, a pintura de Maria Szantho & Maxime des Touches, a arte de Katia Kimieck & Vavá Diehl, Roseli Rodrigues & Balé Teatro Guaíra aqui.
Do raiar do dia aos naufrágios crepusculares, A metafísica da realidade virtual de Michael R. Heim, História dos hebreus de Flavio Josefo, a música de Milton Nascimento & Fernando Brant, a poesia de Helena Kolody, a fotografia de André Brito, a arte de Rollandry Silvério, a pintura de George Grosz & Fernando Rosa, Estilhaços da catarse de Carla Torrini aqui.
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quarta-feira, outubro 31, 2007

SARAMAGO, VALÉRY, TORQUATO NETO, MARTIN-BARBERO, PEDRO DEMO, SIMONE FERRAZ, FECAMEPA: A CANA, CORONÉIS & MAMOEIROS


A CANA: DOS CORONEIS AOS MAMOEIROS -  Imagem: Ivonaldo.-  Gente, é sério mesmo, o que se parece uma broquice da maior risadagem, não tem graça nenhuma. Verdade, se olhar direitinho vai ver que enquanto os de lá saboreavam a doçura no paladar dos privilégios, a amargura pegava pesado numa tragédia que se fincava na touceira de cana dos daqui até hoje. Para se ter idéia, o cenário da época era de que a coisa fervia virada na porra por aqui e pras bandas de lá dos invasores, estava faltando terreno com áreas cultiváveis para a cana-de-açúcar, uma gramínea perene, do gênero Saccharum, cujo produto estava escasso e custando os olhos da cara deles. Só luxo mesmo. Originária possivelmente do Sudeste da Ásia e desenvolvida mais precisamente na Nova Guiné, a cana "crioula" chegou aqui quase meados dos século XVI e foi explorada até o início do século XIX, quando passou a apresentar variedades híbridas, tratadas hoje com fungicidas, herbicidas e fertilizantes, cultivada na base das queimadas e que constitui a principal fonte primária para fabrico do açúcar, do álcool, aguardente, papel e de outros produtos, além de ser a responsável pela patriarcal, escravocrata e latifundiária realidade brasileira desde então. Cultivada então desde antes de 1500 quando já era utilizada de forma sólida por árabes e chineses em épocas bastante remotas, ela foi trazida por Colombo para as Américas e, logo depois, os portugueses adotaram seu cultivo nas ilhas de Cabo Verde, Açores e Madeira. Em 1532 ela chegou em Pindorama por causa da expedição de Martim Afonso de Souza. E como aqui, solos aluviais de massapé e eluviais de barro vermelho, clima tropical quente e úmido, em se plantando tudo dá e, ainda, contando com o privilégio da mão-de-obra escrava dos índios e, depois, dos negros africanos, claro que não podia dar mais certo, né não? Quer mais moleza, ora! Fomentada pelas capitanias hereditárias, a cana foi desmatando a mata atlântica por toda costa litorânea, se estabelecendo em São Vicente - São Paulo, e São Tomé - Rio de Janeiro, mas só teve seu esplendor com Duarte Coelho, em Pernambuco, inaugurando o primeiro centro açucareiro daqui. Foi aí que o olho gordo foi crescendo para nossa banda, a ponto dos batavos apoiados pela Companhia das Índias Ocidentais, empresa fundada em 1621, e pelos Estados Gerais das Províncias unidas – a Holanda de então, descerem aqui de mala e cuia em 1630, ficando por 24 anos até serem expulsos em 1654, talvez uma das maiores senão a maior cagada de toda nossa história. Pois é, bronca da peste. Se pros estrangeiros a coisa não ia boa, pior ainda para quem era tratado como figurante nessa história. Quem? Quem? É, nos engenhos de açúcar, conforme relato encontrado do padre Antonio Vieira, do século XVII: “Quem via na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes (...) o ruído das rodas, da gente toda de cor da mesma noite, e gemendo tudo, sem trégua e descanso (...) toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia não poderá duvidar, ainda que tenha visto Étnas e Vesúvios, que é uma semelhança do inferno”. Essa denúncia é feita em 1532 e se perpetuou até os dias hoje, isto porque a jornada dos escravos da cana-de-açúcar sempre foi de sol a sol, como ainda é feito pelos “Andorinhas” – os itinerantes clandestinos bóias-frias –, que migram invisíveis pendurados no pau-de-arara por todo território nacional onde ocorrem safras e entresafras nas grandes propriedades canavieiras. Eita, boba-torreiro da peste mesmo, hem? É. No desenrolar do carretel histórico, chega-se ao surgimento no século XIX dos engenhos centrais e, logo após, as usinas produtoras de açúcar demerara e de açúcar branco. Os engenhos começam a desaparecer depois de meados do século XX, lá pelos anos 60/70, tudo engalobado pela usina, restando alguns que resistem no tempo. É importante frisar que a cana também fez surgir primeiro de tudo a figura do coronel, o oligárquico senhor de engenho que tinha poder total sobre todos os moradores de sua propriedade e sobre a sua região com sua escravaria: "os escravos são as mãos e os pés do senhor do engenho, sem eles no Brasil, não é possível fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente". Tais senhores cagavam-raio e eram donos dos currais eleitorais com a sua arrogância usurpando todas as barreiras para conter as tensões e conflitos, tangendo o povo e determinando o destino de tudo, caracterizando o tipo sanguinolento de sociedade autoritária, aristocrata e violenta no paraíso do açúcar. Bastava ele puxar um fiapo do bigode e tudo se estropiava ao seu mando, pois quando o homem roncava valentia, era de se aviar pois o mundo se desvirava todo. Depois, vieram os usineiros, os donos cheios das bufunfas dos complexos industriais sustentados pelo trabalho clandestino de bóias-frias esbagaçados no eito, que carregam aqueles antiquados preceitos tradicionais de rigidez, verticalização, burocracia e montados naquele secular e decadente paradigma mecanicista que vige na alegria dos seus lucros: vinhos novos em odres velhos. Pois é, esses eram os desconfiados e sabidos, faziam tudo circular no ciclo que vai da festa na botada e da tristeza tumular na pejada. A roncadeira não era menor: quando queriam, faziam, pintavam e bordavam. E ainda freiam tudo, não se engane. Indagorinha mesmo aprontaram e continuam aprontando até sabe-se lá quando. Pois é, o coronel vivia da escravaria enquanto que o usineiro vive da itinerância do bóia-fria. E esses dois tipos empestados protagonizaram a rede de mamatas e nebulosidades que enriqueceram demais o anedotário do país. O anedotário só não, os índices de violência e a desgraça brasileira. Eles sempre foram festejados e mantidos sob um proselitismo que enoja com a babada da claque de seus lambecús e puxa-saco, e tidos por todos como deus no céu e eles na terra. São sempre condecorados como patronos, paraninfos, cidadãos exemplares e até pela Abrinq como "Amigos da criança", mesmo que eles queimem a vida e as carteiras profissionais de trabalhadores e promovam subempregos com pífios salários; que mijem nos copos dos bares e obriguem seus freqüentadores a ingerirem sua urina deificada como aperitivo; que estuprem virgens em nome de sua extravagância; que rasguem leis e tenham todas as ordens sob o seu mando; que pisem com todos os seus mais descabidos caprichos e cuspam na cara de qualquer sujeito - para eles, uma qualquer bosta de cavalo do bandido -; que quando contrariados mudam o rumo dos ventos só para serem paparicados pela covardia subserviente de todas as autoridades federais, estaduais e municipais; isso tudo e meio mundo de coisa mais intragável, inconcebível e injustificável. Esses caras são nó-cego mesmo, num duvide! Além do mais, são eles detentores daquela ultrapassadíssima política autocrática, caracterizada pela postura rígida e impositiva de sua figura mandonista, agindo de modo arbitrário e legalista, somente fazendo concessões se as leis e os acordos atenderem seus próprios interesses. São tão reacinários que acomodam os dois culhões do lado direito, a ponto de Castelo Branco (aquele mesmo do golpe de 64) dizer que usineiro é a raça mais retrógrada do país - o que diria, por exemplo, o Gregório Bezerra quando os apelidou de “mamoeiros”, hem? Pois é, são tão conservadores que insistem no curral eleitoral dos antigos coronéis. Prova disso é a eleição de políticos que dispensam comícios e sequer botam a cara no guia eleitoral nas épocas de campanha política. Quando a gente vê, o cara tá eleito: como? Dinheiro, meu, poder do dinheiro, compram voto, dignidade, gente, mundiça, tudo. Esses semideuses são fortemente armados e acompanhados de seus capangas trogloditas, exigindo o respeito de serem tratados por "dr. Fulano patrão". E depois de mamarem em todas as tetas possíveis e imagináveis da mãe-pátria - dizem os mais linguarudos que esculhambaram o pró-alcóol, foderam o IAA, são isentos de impostos e quando não sonegam, velhacam; etc etc etc -, exigem anistia de seus débitos e zarpam para outras pradarias deixando só os ferro-velhos de cangalha pro ar. Isso tudo ainda não é tudo, pois, gozam de prestígio imaculado, aumentam sempre as áreas de cultivo, renovam o parque industrial e as frotas, ampliam a produção com suas máquinas de última geração, isso sempre contando com apoio suntuoso do BNDES com o seu Moderfrota, mantém as Coopergatos que são as cooperativas de prestação de serviço que eliminam qualquer responsabilidade do empregador sobre o empregado; e possuem polícia sob o seu mando para proteger seus patrimônios e a justiça comprada no seu bolso. Aliás, todas as autoridades só fazem qualquer coisa depois de pedirem sua bênção. Ademais, usurpam leis, são privilegiados por anistias fiscais e tributárias, fazem confissões de dívidas nunca honradas, desafiam e se juntam belicosamente para defender seus sagrados interesses, possuem na mão e sob seu severo domínio desde presidente da república até o vereador mais xucro da menor cidadela, vilarejos, arruados e taco de terra do território nacional. Eita, estopô calango da peste!!! Pois é, da cana nasce toda raiz histórica do país que passa pelos peidarrotos dos coronéis canavieiros, atravessa toda topada e vuque-vuque dos séculos todos, até a catinga do reino dos mamoeiros dos últimos tempos. Por essa, dá para se ter a mínima idéia de como a coisa deu e está pegando até agora, né não? E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Fecamepa aqui


PENSAMENTO DO DIAToda descrição reduz-se à enumeração das partes e dos aspectos de uma coisa vista, e esse inventário pode ser elaborado numa ordem qualquer, o que introduz na execução uma espécie de acaso. Pensamento do filósofo e poeta do Simbolismo francês, Paul Valéry (1871-1945). Veja mais aqui.

A LINGUAGEM DA JUVENTUDE – [...] Os pais jogam a culpa nos meios de comunicaçãoe os professores também, sem perceber que os jovens estão expressando a emergência de outras culturaas, de outra sensibilidade. Sabem o que significa a música? A música é o idioma em que se expressa a juventude de hoje. Isto é novo, é uma coisa estranha, o fato de que toda a juventude deseje expressar-se através da música [...] A juventude aparece como um novoator social, que tem rosto próprio e aqui vem o problema: os jovens estão construindo um novo modelo de identidade. [...] As identidades dos jovens, hoje, são, para o bem e para o mal, fluidas, maleáveis. Acho que uma das coisas mais importantes da juventude [...] é que ela pode combinar, amalgamar elementos de culturas muito diversas, que para nós seriam incompatíveis. [...]. Trecho de Sujeito, comunicação e cultura (Revista Comunicação e Educação, 1999), deo semiólogo, antropólogo e filósofo colombiano Jesus Martin-Barbero.

A EDUCAÇÃO & A ESCOLA - [...] A escola, por ser um dos lugares de exercício do método dialético [...] deve possibilitar as vivências das contradições presentes na realidade. Nela, os alunos, por meio da apropriaçãosólida dos métodos científicos, devem analisar as manifestações da vida e ampliar o conhecimento da realidade para que possam, assim, contirbuir para sua transformação. Para estudar a realidade atual, os alunos devem vivê-la intensamente, se impregnar dela, estabelecer todas as relações possíveis, vivenciando a essência dialética de tudo que existe [...]. Trechos extraídos da dissertação de mestrado Formação de professores e avaliação: um estudo da percepção dos discentes de um curso de pedagogia (Universidade Estadual de Campinas, 2006), da professora doutora Maria Simone Ferraz Pereira.

APRENDER & PESQUISA – [...] Uma coisa é aprender pela imitação, outra pela pesquisa. Pesquisa não é somente produzir conhecimento, é sobretudo aprender em sentido criativo. É possível aprender escutando aulas, tomando nota, mas aprende-se de verdade quando se parte para a elaboração própria, motivando o surgimento do pesquisador, que aprende construindo. Trecho extraído de Pesquisa: princípio científico e educativo (Cortez, 2003), do sociólogo e professor Pedro Demo. Veja mais aqui.

OBJETO QUASE - O rapaz vinha do rio. Descalço, com as calças arregaçadas acima do joelho, as pernas sujas de lama. Vestia uma camisa vermelha, aberta no peito, onde os primeiros pelos da puberdade começavam a enegrecer. Tinha o cabelo escuro, molhado de suor que lhe escorria pelo pescoço delgado. Dobrava-se um pouco para frente, sob o peso dos longos remos, donde pendiam fios verdes de limos ainda gotejantes. O barco ficou balouçando na água turva, e ali perto, como se espreitassem, afloraram de repente os olhos globulosos de uma rã. O rapaz olhou-a e ela olhou-a a ele. Depois a rã fez um movimento brusco e desapareceu. Um minuto mais e a superfície do rio ficou lisa e calma, e brilhante como os olhos do rapaz. A respiração do lodo desprendia lentas e moles bolhas de gás que a corrente arrastava. No calor espesso da tarde, os choupos altos vibraram silenciosamente, e, de rajada, flor rápida que do ar nascesse, uma ave azul passou rasando a água. O rapaz levantou a cabeça. No outro lado do rio, uma rapariga olhava-o, imóvel. O rapaz ergueu a mão livre e todo o seu corpo desenhou o gesto de uma palavra que não se ouviu. O rio fluía, lento. Extraído da obra Obecto quase (Companhia das Letras, 1988), do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui.

GO BACKVocê me chama / eu quero ir pro cinema / você reclama / meu coração não contenta / você me ama / mas de repente a madrugada mudou / e certamente / aquele trem já passou / e se passou / passou daqui pra melhor, / foi! / Só quero saber / do que pode dar certo / não tenho tempo a perder. Extraído da obra Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro (M. Limonad, 1982), do poeta, jornalista, letrista e experimentador da contracultura, Torquato Neto (1944-1972). Veja mais aquiaqui.



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

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