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quinta-feira, abril 12, 2018

HENRY MILLER, CHUANG-TZU, GADAMER, SAINT-EXUPÉRY, JENNY SAVILLE, INCLUSÃO, HERBERT GRÖNEMEYER & BETH HART, VITAL CORRÊA DE ARAÚJO & CYANE PACHECO.

DADO ACASO - Imagem: arte da artista plástica & visual Cyane Pacheco. - Para poeta meia palavra resolve: cântico do silêncio. Noite minha, mascara onde debruço o rosto ante lua de próstata impura, onde nem uma folha de estrela na relva do céu acena: quando cismo sobre mim, me entusiasmo sem fim. Quem urde o acaso e a leveza: mentiras inteiras valem mais que meias verdade, a óssea certeza do amanhã já não existe. Sombras voarão para o pássaro: poemas de fim de tarde, cais onde naufragam crenças agonizam a dizer: a torcer o pescoço da eloquência vivem os neopoetas. A ninguém interessa a metáfora retórica, a dizer nada com palavras elevadas, a dizer pouco com altas palavras, a dizer seda com a teia da alma, a dizer sede do desejo e água, leiam-me máscaras estranhas do ao rosto, tudo que o rosto não busque: conflito do desejo com a realidade que o efêmero permanece como palavra; eu escravizo e no ludo nojo jogo, juro que um grito ecoe. Quem a alma jogo com os dados do corpo na mesa deserta – e brinca – do papel. A quem cabe o êxtase dos horizontes, da noturna fonte bem o dia, manhãs esculpindo os olhos dos homens. (Letra-colagem para música sobre poemas de Vital Corrêa de Araújo). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico e ator alemão Herbert Grönemeyer: Mensch live auf schalke, Von Gestern Bis Mensch Live & Live; da cantora, compositora e multi-instrumentista estadunidense Beth Hart: Live NJ, Immortal & The Best; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAVem alguém à minha propriedade e fala:
"Aqui é muito pobre. Só tem algumas pedras, algumas árvores e algumas cabras". Ele não viu a minha propriedade. Aquilo era só o território. O principal estava invisível. O que faz minha propriedade é aquilo que não se vê e que liga as pedras, as árvores e as cabras e me liga a tudo
. Pensamento do escritor, ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944), Veja mais aqui e aqui.

A COMPREENSÃO & COMPREENDER - [...] a compreensão é sempre um risco e não permite a simples aplicação de um saber geral de regras para o entendimento de enunciados ou textos dados. Além do mais, quando alcançada, a compreensão significa uma interiorização que penetra como um novo experimento no todo de nossa própria experiência espiritual. Compreender é uma aventura e é, como toda aventura, perigoso. [...]. Trecho extraído de A razão na época da ciência (Tempo Brasileiro, 1983), do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002). Veja mais aqui.

A VIDA & A MORTE - [...] Todas as nossas palavras estão mortas. A magia está morta. Deus está morto. Os mortos se empilham em torno de nós. Logo vão sufocar os rios, encher os mares, inundar os vales e as planícies. Talvez só no deserto o homem consiga respirar sem se asfixiar com o fedor da morte. Varèse, você me colocou num dilema. [...]. Trecho extraído da obra Pesadelo refrigerado (Francis, 2006), escritor norte-americano Henry Miller (1891-1980). Veja mais aquiaqui.

A ALEGRIA DOS PEIXES - Chuang Tzu e Hui Tzu / Atravessavam o rio Hao, / Pelo açude. / Disse Chuang: / "Veja como os peixes / Pulam e correm tão livremente: / Isto é a sua felicidade". / Respondeu Hui: / "Desde que você não é um peixe, / Como sabe o que torna os peixes felizes?" / Chuang respondeu: / "Desde que você não é eu, / Como é possível que saiba que eu não sei / O que torna os peixes felizes?" / Hui argumentou: / "Se eu, não sendo você, / Não posso saber o que você sabe, / Daí se conclui que você, / Não sendo peixe, / Não pode saber o que eles sabem". / Disse Chuang: / "Um momento: / Vamos retornar / À pergunta primitiva. / O que você me perguntou foi / ‘Como você sabe / O que torna os peixes felizes?’ / Dos termos da pergunta, / Você sabe, evidentemente, que eu sei / O que torna os peixes felizes.” / "Conheço as alegrias dos peixes no rio / Através de minha própria alegria, à medida  / Que vou caminhando à beira do mesmo rio". Poema do filósofo taoísta chinês do séc. IVaC., Chuang-Tzu.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora britânica Jenny Saville.
Veja mais aqui.


Projeto Acessibilidade na Biblioteca & muito mais na Agenda aqui.
&
O discurso do doutor marca bosta, a escultura de Richard Senoner & a música de Janis Ian aqui.


quarta-feira, julho 26, 2017

ARQUÉTIPOS DE JUNG, MOACIR SANTOS, CONTRAPONTO DE HUXLEY, JACOB DE HAAN, MAWACA, ÉRICA GARCIA, JENNY SAVILLE & MARIE JOHNSON HARRISON

OS AVÓS SÓ BOTAM A PERDER – Imagem: Art by Marie Johnson Harrison - Vivi momentos felizes de muitas aventuras na minha infância com os meus avós. O primeiro neto que apareceu no meio de uma penca de tios e tias, pronto, virava eu o xodó e o centro das atenções, manhando dengoso no meio da maior plateia, isso no de menos. Na garupa do cavalo, meu avô Arlindo me levou por vales, rios e canaviais. Quando não, por ser o administrador de engenhos de cana de açúcar do Rio Grande Norte até terras no sul de Minas Gerais, eu podia gabola beiçudo impressionar os matutos com minhas invencionices e trelas de menino tagarela, tudo abestalhado com o meu poder de inventar pinóias cada uma pior que a outra: esse menino bebeu água de chocalho. Essa e muitas outras aventuras nos engenhos só paravam de mesmo quando meu avô ia pra casa dele em Água Preta, eram dias de reinação na bodega sortida de vó Benita, coisa de levar carão o dia todo e esperar pelos acalantos e histórias de trancoso que ela mandava ver pra me amedrontar arrepiado embaixo do cobertor. Os acalantos e histórias dela era coisa de ciúmes nos cabarés, soldados que se perderam, mães que se vingaram, mortes e brigas de famílias, afora coisas do outro mundo e presepadas de espíritos zombeteiros. Quando eu não tremia de medo, morria de rir, e ela mais ainda, até se esquecia das horas contando cada coisa. Findavam as férias e eu de volta pra casa, eram os tempos de ganhador aberto: Pai Lula mesmo todo dia trazia um Mané Gostoso, uma peteca, ioiô, cavalo de pau, boneco de barro, brinquedos de plásticos, doces, biscoitos, confeitos e guloseimas regionais, afora me atiçar com piadas e adivinhações que me premiavam independente de que eu acertasse ou não. Ganhava de todo jeito. Às vezes me levava pra casa dele e lá eu virava artista de cinema com Carma que me recepcionava com o sorriso mais lindo do universo. Depois eu puxava conversa e parava todo movimento da casa, Carma atenta às minhas leseiras, me tratando como um homenzinho que mais queria aparecer que crescer. Oxe, eu ficava contando coisas engraçadas só pra ver a risada de Carma, quando não me ressentia pra ela da minha mãe que não deixava eu brincar no quintal com minha irmã nem com meus primos, me amarrava no pé da mesa, não podia botar o pé descalço no chão, nem chacoalhando na água, nem atrepar no pé de fruta, nem no muro, nem por cima do quintal do vizinho, nem comer chocolate, vixe, ela não deixa, Carma, não deixa! E Carma ria me abraçando e me oferecendo doces e bolos os tantos. O melhor de tudo de todos os meus aprontamentos com meus avós, era que quanto mais eu folgava nas peraltices, mais eles me davam corda para mandar ver nas presepadas. Pois é, os avós botam mesmo tudo a perder, como eu que sou perdido de não prestar mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

OS ARQUÉTIPOS E O INCONSCIENTE DE JUNG
[...] Uma existência psíquica só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados. Só podemos falar, portanto, de um inconsciente na medida em que comprovarmos os seus conteúdos. Os conteúdos do inconsciente pessoal são principalmente os complexos de tonalidade emocional, que constituem a intimidade pessoal da vida anímica. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, são chamados arquétipos. [...] Estou convencido de que o depauperamento crescente dos símbolos tem um sentido. O desenvolvimento dos símbolos tem uma conseqüência interior. Tudo aquilo sobre o que nada pensávamos e a que, portanto, faltava uma conexão adequada com a consciência em desenvolvimento, foi perdido. Tentar cobrir a nudez com suntuosas vestes orientais, tal como fazem os teósofos, seria cometer uma infídelidade para com a nossa história. Não caímos no estado de mendicância para depois posar como um rei indiano de teatro. Mais vale, na minha opinião, reconhecer abertamente nossa pobreza espiritual pela falta de símbolos, do que fingir possuir algo, de que decididamente não somos os herdeiros legítimos. Certamente somos os herdeiros de direito da simbólica cristã, mas de algum modo desperdiçamos essa herança. Deixamos cair em ruínas a casa construída por nosso pai, e agora tentamos invadir palácios orientais que nossos pais jamais conheceram. Aquele que perdeu os símbolos históricos e não pode contentar-se com um substitutivo, encontra-se hoje em situação difícil; diante dele o nada bocejante, do qual ele se aparta atemorizado. Pior ainda: o vácuo é preenchido com absurdas idéias político-sociais e todas elas se caracterizam por sua desolação espiritual. Mas quem não consegue conviver com esses pedantismos doutrinários vê-se forçado a recorrer seriamente à sua confiança em Deus. Embora em geral se constate que o medo é ainda mais convincente. Tal medo decerto não é injustificado, pois onde o perigo é maior, Deus parece aproximar-se. É perigoso confessar a própria pobreza espiritual, pois o pobre cobiça e quem cobiça atrai fatalidade. Um drástico provérbio suíço diz: "Por detrás de cada rico há um demônio e atrás de cada pobre, dois". Da mesma forma que os votos de pobreza material, no cristianismo, afastavam a mente dos bens do mundo, a pobreza espiritual renuncia às falsas riquezas do espírito, a fim de fugir não só dos míseros resquícios de um grande passado, a "Igreja" protestante, mas também de todas as seduções do perfume exótico, a fim de voltar a si mesma, onde à fria luz da consciência, a desolação do mundo se expande até as estrelas. Já herdamos essa pobreza de nossos pais. [...] Nosso intelecto realizou tremendas proezas enquanto desmoronava nossa morada espiritual. Estamos profundamente convencidos de que apesar dos mais modernos e potentes telescópios refletores construídos nos Estados Unidos, não descobrirem nenhum empíreo nas mais longínquas nebulosas; sabemos também que o nosso olhar errará desesperadamente através do vazio mortal dos espaços incomensuráveis. As coisas não melhoram quando a física matemática nos revela o mundo do infinitamente pequeno. Finalmente, desenterramos a sabedoria de todos os tempos e povos, descobrindo que tudo o que há de mais caro e precioso já foi dito na mais bela linguagem. Estendemos as mãos como crianças ávidas e, ao apanhá-lo, pensamos possuí-lo. [...].
Trechos extraídos da obra Os arquétipos e o inconsciente coletivo (Vozes, 2000), do psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), trazendo fundamentações teóricas que descrevem arquétipos específicos num estudo sobre as relações deles com o processo de individualização e da psicoterapêutica. Veja mais aqui & aqui.

Veja mais sobre:
Do raiar do dia aos naufrágios crepusculares, Sempre poesia de Helena Kolody, História dos hebreus de Flavio Josefo, Metafísica do real & virtual de Michael R. Heim, Yanomâmi de Milton Nascimento & Fernando Brant, a fotografia de André Brito, a pintura de George Grosz & Fernando Rosa, a arte de Rollandry Silvério & a poesia de Carla Torrini aqui.

E mais:
Os avós aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Envelhecer não é o fim do mundo aqui.
Alter ego, Arquétipo de criança de Carl Jung, Eminência parda de Aldous Huxley, A flauta roubada de Cassiano Ricardo, a literatura de George Bernand Shaw, Laranja Mecânica, o cinema de Stanley Kubrik, a música de Gilson Peranzzetta & Mauro Senise, a pintura de Jean Baptiste Camille Corot & Demócrito Borges, Brincarte do Nitolino & Rachel Lucena Colégio Fator aqui.
Terceira idade & envelhecimento, Aldous Huxley, a música de Armando José Fernandes, a pintura de Camille Corot, a poesia de Ivaldo Gomes & o blog de Mônica e Monique Justino aqui.
A mútua colheita do amor aqui.
Vade-mécum: enquirídio, um preâmbulo para o amor aqui.
Por onde é que anda o Doro, hem?, Teatro & ciência de Bertolt Brecht, Ziraldo, Revolução de Florestan Fernandes, Canto primeiro de Basílio da Gama, a música infantil de Adriana Calcanhoto, Olga Benário Prestes, Rainha Margot & Isabelle Adjani, Clube Literário de Andrelândia, a pintura de Cristoforo Munari, a arte de Rollandry Silvério & Brincarte do Nitolino aqui.
Segura o jipe!, a prima da Vera & a pintura de Pedro Cabral aqui.
De heróis, mitos & o escambau, a pintura de Alphonse Eugène Felix Lecadre & Aldemir Martins aqui.
Todo dia, a primeira vez, a arte de Gilvan Samico & a pintura de Paul Mathiopoulos aqui.
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CONTRAPONTO DE HUXLEY
[...] Era sempre demasiado fácil para ele dispensar os outros. Gostava muito de se fechar no fundo de seu próprio silêncio. Mas podia ter aprendido a se exteriorizar mais, se não sobreviesse aquele horrível acidente. [...] - Eu quisera que Phillip tivesse ido à guerra. Não por motivos belicosos ou patrióticos. Mas porque se me pudessem garantir que ele não morreria nem ficaria mutilado, teria sido tão bom para ele […] Podia ter-lhe quebrado a concha, podia tê-lo libertado de sua própria prisão. Liberdade sob o ponto de vista emocional, porque o seu intelecto já é bastante livre. [...] Duma maneira abstrata sabes que a música existe, e que é bela; mas não partas daí para fingir, ao escutar Mozart, que estás num arrebatamento que não sentes. Se procedes assim, transformas-te num desses esnobes musicais idiotas que se encontram na casa de Lady Edward Tantamount. Incapazes de distinguir Bach de Wagner, babando-se de êxtase quando os violinos se fazem ouvir. O mesmo se passa exatamente com Deus. O mundo está cheio de esnobes religiosos perfeitamente ridículos. Pessoas que não estão verdadeiramente vivas, que nunca praticaram um ato verdadeiramente vital, que não têm relação viva com coisa alguma; criaturas que não têm o menor conhecimento pessoal ou prático do que é Deus. Mas andam pelas igrejas, rosnam suas orações, pervertem e destroem a totalidade de sua existência sem brilho, agindo de acordo com a vontade duma abstração arbitrariamente imaginada a que resolveram dar o nome de Deus. [...] Tudo será incrível, se pudermos tirar a crosta de banalidade evidente que os nossos hábitos põem nas coisas. Todo objeto, todo acontecimento contêm em si uma infinidade de profundezas dentro de outras profundezas [...]
Trechos extraídos da obra Contraponto (Globo, 2014), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963). Veja mais aqui, aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especiais com o saudoso arranjador, maestro, compositor e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006): Ouro negro & Coisas; com a multifacetada cantora, guitarrista, compositora, atriz & performer argentina Érica Garcia: Amorama & El Cerebro; do compositor holandês Jacob de Haan: Concerto d’ Amore, Ross Roy, Utopia & Pacifi Dream; e do grupo vocal e instrumental de pesquisa e recriação muscial Mawaca: Canto da Floresta & Gayatri Mantra. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora britânica Jenny Saville. Veja mais aquiaqui.

terça-feira, junho 13, 2017

OCTAEDRO DE JÚLIO CORTÁZAR, FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL, JENNY SAVILLE, NICK GENTRY, NEW JERSEY BALLET BEAUTY, ENTRE O ONTEM & O AMANHÃ


É SÓ UMA QUESTÃO DE TEMPO ENTRE O ONTEM E O AMANHÃ – Imagem: arte do artista britânico Nick Gentry – A vida vai e o rito de passagem: sinal verde, nove e quinze no relógio, tudo escancarado, sol a pino, sal na moleira e o planejado do dia pro adiamento: de amanhã não passa; melhor, segunda feira, sem falta. Pensando bem, próximo mês, fechado. E leva tudo nos peitos, no tranco do jeito que der, a sobrevivência, via de regra, ocupando as possibilidades até exaurir todas as energias, deixando escapar as preciosas oportunidades de ser mais humano, terno, compreensivo. Ah, tá. Melhor deixar tudo por menos que qualquer bronca é café pequeno. Na horagá: é um buruçu dos diabos! Só levando nas coxas e ao espanto no apurado: isso não estava antes aí, ou estava? Oxe! Coisa de somenos, a comida, as contas do mês, compromissos, isso sim, o que veio, passou, foi. Voltar pro trupé e tudo em cima da hora: salvo pelo gongo. Já viu, né? Vinte e quatro horas pra resolver as coisas, não dão nem na marra. Nem que um dia tivesse o dobro de horas. O trânsito e a burocracia não ajudam, as pessoas, ah, as pessoas muito menos, atrapalham tanto de se ter que usar do expediente de procrastinar xis coisas de menor relevância, negligenciado uma série de coisas como a saúde física e mental, a leitura, a solidariedade e as relações. Fica pra depois, um dia tudo em dia, verá, prometido, jurado. Enquanto isso o individualismo umbigocentrista – ué, quem chega junto na hora da precisão, hem? Tem de se virar mesmo. No fim das contas, vai ver: inadimplente, na vera, consigo mesmo e com o lazer, a qualidade de vida. Destá. Sinal amarelo e o tempo quinze pras três, vai chover! Ih, a sensação de ter esquecido alguma coisa, conferência mental, vai dar merda. Ah, na hora vê, deixa pra lá. Leva tudo na esportiva até subir no telhado com as extravagâncias de dar salto solto de todo jeito, vai ver: que foi que fiz, meu Deus, pra merecer isso? Ah, Maria-arrependida no departamento da vergonha e do remorso deixando sinais duradouros no meio de abalos sísmicos tremendos até perder a intensidade e a razão que desceu pelo ralo: se pensar muito perde é o juízo. Deixa correr. Êpa! Sinal vermelho, vixe! Quase passa batido. Ah, já é tarde, precisa dormir. Aí pensa que só foi você que vestiu a camisa e deu a carga da pilha toda? Todo mundo apressado, correndo atrás. De quê? Tanto tempo concentrado só em ganhar dinheiro, chegar na hora, pagar em dia, fazer feira, comprar coisas, e se esquecer do mais importante: viver! Aí aparecem os cabelos grisalhos, as rugas, dores, e o vazio é um poço sem fundos entre vísceras e mucosidades que regurgitam aos soluços do coração saindo pela boca e nem se sente ainda morto-vivo, só esperando a notícia de que não dá mais, quase chegada a hora e amém. Ôpa! Que é que é isso? Ainda dá uma de se abestalhar e olha pra trás, resta o arrependimento doendo no que virá. Melhor não desesperar, se levar a sério demais, pira de vez, aviso. Engole seco, vai ver o tempo passou mesmo, alma em frangalhos, as relações quando não desgastadas findaram destruídas, a vida reduzida ao vazio que corrói por dentro no meio de uma torrente de lembranças desordenadas pelas divagações que dão no insólito, o que seria tão desconexo quanto inconcebível e não poder conceber nada diferente, impossível se assim não fosse, porque a memória insiste desenfreada pelo que foi feito ou deixou de fazer, uma legião de escusas pra justificar a incoerência de certos atos, a insensatez de muitas atitudes, e já nem domina o pensamento que insiste importunando em não tirar da cabeça as impertinências cometidas que revogam qualquer indulto, já está feito, não há mais o que fazer, apenas saber que ao precisar do que for, saberá que já é tarde: não tem ninguém pra socorrer nem pra conversar, ou pra deitar a cabeça ou pedir orientação. Ah, é muito difícil a convivência humana, chega de ficar o tempo todo tentando se explicar, só incompreensão, diferentes caminhos, ou vai ou racha. Não é bem assim, muito menos assado. A culpa não é dos outros. Hã? Já é alta madrugada, precisa dormir. Amanhã será outro dia, de batente, firme sisifismo. É só uma questão de tempo, ontem, hoje, ou amanhã. Outro dia, pronto. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL
[...] O todo vem antes das partes. [...] Em caso de perigo supremo e nos conflitos que surgem a propósito da propriedade jurídica de outrem, a existência pessoal tem um direito de necessidade que deve prevalecer. Não se trata apenas de equidade, mas de direito. [...]. É no presente que precisamos viver, o futuro não é absoluto e está exposto às contingências. Por isso, apenas a necessidade do presente pode justificar uma ação contrária ao direito, pois, se nos abstivéssemos de praticar a ação contrária ao direito, cometeríamos uma injustiça ainda mais grave, negando totalmente a existência da liberdade. [...] o homem que morre de fome tem o direito absoluto de violar a propriedade de um outro; ele viola a propriedade de um outro apenas em seu conteúdo limitado. No direito de necessidade extrema entende-se que ele não viola os direitos de um outro enquanto direito: o interesse volta-se apenas para um pedaço de pão; ele não trata o outro como pessoa privada de direitos. [...].

Trechos extraídos da obra Princípios da Filosofia do Direito (Ícone, 1997),

do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), apresentando a filosofia legal, moral, social e política, defendendo que a lei provê a pedra angular do Estado moderno, a partir de uma discussão do conceito de livre arbítrio que só pode ser entendido no contexto da propriedade privada e relações, contratos, compromissos morais, vida familiar, economia, sistema legal e politeuma. Veja mais aqui.

 

Veja mais sobre:
A poesia de Fernando Pessoa aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

E mais:
A vida dupla de carolyne & sua cheba beiçuda, Psicologia da arte de Lev Vygotsky, Poemas de William Butler Yeats, A música de Leonard Cohen, a pintura de Raphael Sanzio & Boleslaw von Szankowski, o cinema de Paolo Sorrentino & World Erotic Art Museum (WEAM) aqui.
O dia da criação de Vinicius de Moraes aqui.
Serenar & Crônica de amor por ela, Tantra & o culto da feminilidade de André Van Lysebeth, A psicologia de Vygotsky, Aniversário de Fernando Pessoa, Uma relação pornográfica de Philippe Blasband, a música de Guinga, a pintura de Lasar Segall & Luciano Freire aqui.
Será que dá hexa dessa vez?, Neurociências, Pílulas de humor de Max Nunes, O assassinato do anão de Plinio Marcos, o cinema de Neil LaBute & Stacy Edwards, a música de Laura Voutilainen, a arte de Octávio Araújo & Gosto do proibido de Sonia Pallone aqui.
Aurora & Todo dia o Sol se põe para uma nova alvorada..., A uma mulher amada de Safo, O homem unidimensional de Herbert Marcuse, a literatura de Amos Oz, a música de Händel & Caroline Dale, Não consultes médico de Machado de Assis, a pintura de Frederic Edwin Church & François Gerard, o cinema de Blake Edwards & Audrey Hepburn, a arte de Ronald Golias & Keith Haring aqui.
Alvorada & Bom dia, O capital de Karl Marx, a poesia de Miklós Radnóti, O desespero humano de Soren Kierkegaard, A construção do personagem de Constantin Stanislavski, Eles eram muitos cavalos de Luiz Ruffato, o cinema de Ingmar Bergman & Harriet Andersson, os desenhos de Federico Fellini, Memória Musical Brasileira de Anna Maria Kieffer, a pintura de Isabel Magalhães & Programa Tataritaritatá aqui.
A salvação bidiônica depois da bronca, Filosofia, ideologia & ciência social de István Mészarós, Mal de amores de Ángeles Mastretta, O horror econômico de Viviane Forrester, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Tatjana Vassiljeva, a pintura de Auguste Chabaud, a arte de Lia Chaia & Wesley Duke Lee aqui.
Colocando os pingos nos iiiiis, Teoria da viagem de Michel Onfray, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, a música de Natalia Gutman, Toda palavra de Viviane Mosé, A argumentação de Débora Massmann, a fotografia de Cris Bierrenbach, a arte de Mira Schendel, Conversa de bar & filho não reconhece pai & Quando se pensa que está abafando, das duas, uma: ou contraria ou se expõe ao ridículo. Cadê o simancol, meu aqui.
A gente tem é que fazer, nunca esperar que façam por nós, Lenda, mito & magia, Os catadores de conchas de Rosamunde Pilcher, As viagens de Marco Polo, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a arte de Beth Moyses & Antonio Saura, a música de Silke Avenhaus, Os passos desembaraçados nos emaranhados caminhos, Quando os ventos sopram a favor, tudo fica mais fácil & Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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OCTAEDRO DE JÚLIO CORTÁZAR
[...] É verdade que escrever de vez em quando me acalma, será por isso que há tanta correspondência de condenados à morte, quem sabe lá. Inclusive me diverte imaginar por escrito coisas que apenas pensadas de repete nos entopem a garganta, sem falar das glândulas lacrimais; nas palavras me vejo como se fosse outro, posso pensar qualquer coisa desde que o escreva logo em seguida, deformação profissional ou alguma coisa que começa a amolecer nas meninges. [...] ver-me já morto em seus olhos me tiraria esse resto de força com que posso falar-lhe e retribuir algum de seus beijos, com que continuo escrevendo apenas ela sai e começa a rotina das injeções e das palavrinhas simpáticas. [...] embora lhes doa e amaldiçoem esse absurdo de morrer jovem e em plena carreira, existe a reação que todos conhecemos, o gosto de tornar a entrar no metrô ou no carro, de tomar um banho de chuveiro e comer com fome e vergonha ao mesmo tempo, como negar a fome que se segue às noites em claro, o cheiro das flores do velório e os interminaveis cigarros, e os passeios pela calçada, uma espécie de forra que sempre se sente nesses momentos e que eu nunca me neguei porque teria sido hipócrita. [...].
Trecho de Liliana chorando, extraído da obra Octaedro (Civilização Brasileira, 1977), do escritor argentino de origem belga Julio Cortázar (1914-1984). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora britânica Jenny Saville.
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New Jersey Ballet Beauty and the BeastPeter and the Wolf. Mayo Performing Arts Center
 

segunda-feira, novembro 19, 2007

VERNE, JENNY SAVILLE, CARDOZO, QUINTANA, EVREINOFF, HEGEL, DWORKIN, DEBRET, PAULEY PERRETTE, CYANE, FECAMEPA & OS ESCRAVOS



FECAMEPA & A ESCRAVARIA TODA


O amo não é amo senão pelo fato de que possui um escravo que o reconhece como tal”. Georg W. F. Hegel, filósofo alemão (1770-1831)

É graças a Deus que o Brasil tem saído de situações difíceis. Mas, graças ao diabo, é que se mete em outras”. (Mário Quintana)




Ahá! Sabe da maior? Deu o créu! Foi mesmo, teve um trupé indigesto que deu num desmantelo nauseante durando uns 400 anos de remoeta! Maior parque de diversão pros colonizadores que davam de urubu só por cima da carne seca! Espia só. Tudo começa quando a maldizente monocultura escravocrata da cana-de-açúcar chega por aqui por volta de 1535, usando abusivamente do braço escravo para se sustentar economicamente. Lembra? Pois é, primeiro foram para as bandas dos índios que depois de muita sacanagem, caiu a ficha deles e se viram na maior roubada pagando um mico da peste. O que deu? O invasor botou as manguinhas de fora e invadiu terra, derrubou matas, tomou as mulheres, bufou e mandou ver. Não deu outra, né? Ôxe, o aborígene deu um freio de arrumação com um ré-pra-trás fuderoso, começando um arranca-rabo que só finda com sua quase extinção. Aí a coisa começa mudando de figura, porque como o papel de servo era para o autóctone, quando este sacou a maruagem, logo se rebelou e tudo virou para o tráfico do negro africano que era tratado talqualmente bicho, ou seja, um antropóide de cor que nem era gente na regulação das Ordenações Filipinas, que o tinha no mesmo capítulo destinado aos animais. Aí sim que deu o outro bode brabo, pois foi quando se deu o pontapé inicial num conflito que num vai terminar nem tão cedo. Pois bem, derramados na praia depois duma travessia das mais sacrificantes, os negros iam se amontoando numa infecta senzala com a mais diversa etnia de boçais e ladinos minas, nagôs, guinéus, minas-nagôs, cafres, calabares, minas-popos, hauçás, malês, jejes, grumcis, tapas, iabus, benins, mundubis, bornus, baribas, grumas, camarões, congos e cabindas, tudo para adoçar o mundo com a desgraça deles. A estratégia dos traficantes era que eles não se entendessem de jeito nenhum, senão era prejuízo certo. Sabidos.



Imagem: Debret.


A exemplo das carnificinas que vitimaram os ameríndios, os escravos também não escaparam de castrações, amputações, extrações e torturas as mais terríveis. Isso sem falar que eram, entre outras malvadezas, punidos severamente quando famintos lambiam o querosene dos lampiões. Por isso, tinha até escravas que preferiam abortar a ver seus filhos nessa desgraceira de vida. E era justamente essa desgraça que os fraternizava para sublevar, causando a criação de quilombos que, segundo quase todos os historiadores, só deram o ar da graça mesmo na vera no final do séc. XVI. Pelo visto, como registram unanimemente, os escravos não tinham saída: ou a floresta, ínvia, impenetrável, desconhecida e hostil, ou a re-escravização. E aí, hem? Sinuca de bico. Deu no que deu, né? O quilombo era para o rei de Portugal, “(...) toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”. E a fuga era a única forma de libertação e representava um perigo: a tentativa de aqui repetir a façanha da ilha de São Tomé quando os negros tomaram pé da coisa e expulsaram os portugueses. A-há! Bem feito, hem? Destá. O caldo engrossa e a rebelião começa mesmo pra valer quando os fugitivos se deram munidos de armas de fogo, chuços, de facões e de lanças. Nasce, então, Palmares, o mais importante acontecimento do século XVII. Localizada numa imensa selva entre o rio São Francisco e o Cabo de Santo Agostinho, abrigo para os negros fugitivos, índios, mamelucos, mulatos e brancos, bem como fugitivos do serviço militar, criminosos e todos os perseguidos e deserdados da sociedade colonial. Este reduto resistiu a todas as expedições punitivas de 1630 até 1695. Como tudo tem duas faces, a guerra com os palmarinos tinha lá seus interessados, o que, segundo Décio Freitas, por causa disso – a exemplo das inúmeras campanhas e investimentos públicos de hoje -, a roubalheira comia no centro: “(...) em grande parte motivada pela desbragada corrupção que lavrava nos altos escalões administrativos da colônia. Governadores, magistrados, oficiais das câmaras e outros funcionários se apropriavam regular e impunemente das rendas da coroa”. Além do mais, uma coisa era certa: as ordens da coroa eram sempre acatadas, mas raramente cumpridas. Eita! Esse filme eu vejo hoje, né não? Igualzinho, né? Vamos lá. Os quilombos se multiplicavam chegando ao registro de 11 no Amazonas, 04 no Maranhão, 09 em Minas Gerais, 11 em São Paulo, 12 na Bahia, 08 em Sergipe e 11 em Pernambuco. Neste último, Palmares que foi primeiro comandado por Gangga-Zumba, que caiu na besteira de celebrar um tratado de paz com Portugal, findando sitiado em Cucaú e, depois, assassinado. Aparece então Zumbi, o Espártaco Negro dos Palmares, nascido no começo do ano de 1655, numa das inúmeras povoações palmarinas. Esse guerreiro chegou ao ponto ter a patente de capitão reconhecida pelo rei D. Pedro II, de Portugal, que perdoou “seus crimes” na tentativa de selar a paz, Mas tá, hem? Nem aí. E mais ainda: a turma dos senhores de engenho logo se mobilizaram para acabar com essa festinha pacífica e botando fogo no monturo com todas as influencias em Lisboa. Pois é, cada guerra com seus interesses, ora. Aí entra na história a tropa de choque dos sanguinários e violentos bandeirantes paulistas, capitaneados por Domingos Jorge Velho, promotores de briga, ruína e terror. Deram logo um treino – tipo café pequeno - e lascaram a vida duns coitados dos índios janduins. Já eram, coitados. Num foi bem assim, o bafafá deu trabalho, mas findou, a exemplo dos caetés, com a varredura geral dos nativos.



Imagem: Debret.


O foco passa a ser Palmares, maior teitei estrepitoso. Investidas atrás da outra e nada. Vai e volta, passam os anos. Até o dia que juntaram todo ódio e partiram com tudo para acabar com o que tivesse em pé. No fim, Zumbi não morreu como conta a lenda: um suicídio se jogando no despenhadeiro. Na verdade, ele morreu atraiçoado no dia 20 de novembro de 1695, pelo negro Antonio Soares, numa cilada armada pelos paulistas que transportaram seu corpo para Porto Calvo, lavrando-se o Auto de decapitação do negro Zumbi. Quando todos pensam que a coisa se aquieta, ledo engano, meu. Eis que surge o quilombo de Ambrósio que, segundo Clóvis Moura “Tudo era de todos e não havia nem meu nem teu”, em Minas Gerais, que durou até 1746 quando foi destruído. E ainda prosseguem em Minas Gerais, tanto em 1756 como em 1864, as revoltas negras objetivando a liberdade dos cativos. Ainda no séc. XVIII grupos esparsos de escravos fugidos continuavam homiziados na região palmarina dando trabalho às autoridades coloniais. Foi quando a massa escrava brasileira – as de Minas Gerais, Bahia, Goiás, Mato Grosso e Rio de Janeiro -, se rebelou de vez. Tome bronca. E lá vai logo em 1821 os escravos da fazenda Santana, Ilhéus, na Bahia, se revoltando e permanecendo na propriedade até 1824, prosseguindo em 1828 quando os cativos tentam tomar conta de tudo. Quando ocorre, então, a grande insurreição negra de 1835, em Salvador, findando só no dia 14 de maio, condenados à forca mas por não dispor de carrasco para a execução, restou o fuzilamento de todos os seus membros. Segura a onda que lá vem mais. Depois, entre os anos de 1838/41 foi a vez do Preto Cosme, no Maranhão, aderir à Balaiada. Quando finda a rebelião, o de sempre: os liberais são salvos por anistia, e os escravos sacrificados por obra e comando de 8 mil homens do coronel Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias. Pois é, Preto Cosme foi preso, julgado, condenado e enforcado em São Luis. Também Manuel do Congo, no Estado do Rio de Janeiro, em 1838, liderou uma rebelião na Fazenda Freguesia e Maravilha, quando foi aclamado Rei por todos os revoltosos. Mas, em 1839, Caxias invadiu o quilombo em pavorosa carnificina e tudo já era então, pronto, findada toda festa. Já o quilombo de Jabaquara, em São Paulo, foi formado pela ideologia abolicionista e não pelos escravos. Isso ocorre por volta de 1882, por iniciativa dos abolicionistas Américo Martins e Xavier Pinheiro, sendo escolhido Quintino de Lacerda como líder. Este quilombo finda quatro anos depois de sua criação, junto com a abolição da escravatura em Santos. Mas a coisa vai mudando e a partir de 1870, a região Sul do Brasil passa a empregar assalariados brasileiros e imigrantes estrangeiros. No Norte, as usinas substituem os engenhos de cana. Parece mais que o Brasil vai mudando de vez, acredita? Eu, hem! Ah, vamos lá. Tudo vem na esteira dos acontecimentos internacionais com a extinção do tráfico negreiro em 1850 – e o Brasil, como sempre, atrasado como porra.
Depois, veio a Lei do Ventre-livre, de 1871, tornando livres os filhos dos escravos. Logo após, a lei dos Sexagenários de 1885 que contemplava os negros de mais de 65 anos. E por fim, a Lei Áurea de 1888, declarando livre todos os escravos, sendo, pois, o Brasil o último país do mundo a abolir a escravidão negra depois de quase 400 anos de regime escravista. Ô atraso, hem? Pensa que terminou por aí, foi? Então vamos aprumar a conversa. Sabe qual a remissão dos pretos então libertados? Claro e evidente que toda cultura escravista brasileira não desaparece por força de uma simples lei, nada disso. E passando a limpo: tudo aconteceu – como sempre acontece no mundo – por força do desenvolvimento econômico, custe o que custar, né? Pois bem, a revolta que criou o Estado Negro de Palmares resistiu até o fim do séc. XVIII. Foram ao todo 35 expedições. Dá pra ver os custos desses gastos e a contraproducência, tudo em nome da ambição, ganância e avareza. Seria cômico se não fosse trágico! A lição que fica dessas revoltas todas é que se adoçava o mundo com o sangue da desgraça humana. Quer a prova dos nove? Ainda há que considerar que o regime escravocrata se mantém disfarçado ainda hoje e de forma tal que nenhum órgão fiscalizador – que também é ao mesmo tempo conivente – é capaz de flagrar, punir e erradicar. Vê-se, apenas, que uma vez ou outra é feita uma incursão séria entre os Andorinhas da cana, ou nas fazendas de todos os Estados, ou qualquer esporádica intervenção combatendo o escravismo, logo é flagrada e registrada pela mídia atual, muito embora resulte no afastamento de funcionários que vão tomar na tarraqueta ou casa de caixa pregos, engavetamento de processos que viram dorminhocos dos compadrios, retaliações violentas que sapecam o pé do maluvido delator e impunidade geral reinando para felicidade dos promotores do desenvolvimento econômico do país. Inegavelmente tal escravismo disfarçado que já vinha desde sempre solapando a massacrada vida dos trabalhadores da economia privada brasileira, mascarou-se mais com a flexibilização e desregulamentação das leis trabalhistas em relações informais, subempregos, baixas remunerações, desqualificações e outras práticas abusivas arrepiando a lei e fomentando uma exploração que é protestada desde que o sujeito entra para trabalhar e não tem hora para sair e sem hora-extra nem qualquer verba indenizatória, ao bel prazer da bondade do patrão. Vê-se com isso que a escravidão só fez virar com uma cara eufemista, persistindo ainda hoje com outra nomenclatura. Precisamos, pois nos libertar de verdade. Ih, lascou, né? Pois é, gente, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais FECAMEPA.


DITOS & DESDITOSO homem possui um instinto com relação ao qual, a despeito de sua inesgotável vitalidade, nem os historiadores nem os psicólogos nem os que se ocupam de estética disseram jamais, até aqui, a menor palavra. Refiro-me ao instinto de transfiguração, ao instinto de opor às imagens recebidas de fora, as imagens arbitrárias criadas no íntimo, ao instinto de transformar as aparências ofertadas pela natureza em alguma outra coisa..., numa palavra, ao instinto cuja essência se revela no que eu chamo a teatralidade. Pensamento do dramaturgo russo Nicolas Evreinoff (1879-1953). Veja mais aqui.

MULHER, CORPO & PADRÕES DE BELEZA – [...] Padrões de beleza descrevem em termos precisos o relacionamento que uma pessoa terá com seu próprio corpo. Eles prescrevem sua mobilidade, espontaneidade, postura, porte, os usos que ela pode fazer de seu corpo. Eles definem precisamente as dimensões da liberdade física. E, é claro, a relação entre liberdade física, desenvolvimento psicológico, possibilidades intelectuais e potencial criativo é umbilical. Em nossa cultura nenhuma parte do corpo feminino foi deixada intacta, inalterada. Nenhum aspecto ou extremidade é poupado da arte, da dor, do aprimoramento [...] Da cabeça aos pés, cada traço do rosto de uma mulher, cada parte do seu corpo é sujeita a modificação, alteração. Essa alteração é um processo contínuo e repetitivo. É vital para a economia, é o objeto principal da diferenciação entre homem e mulher, é a realidade física e psicológica mais imediata do ser mulher. Dos onze ou doze anos até a morte, uma mulher gastará grande parte de seu tempo, dinheiro e energia talhando-se, depilando-se, maquiando-se e perfumando-se. É comum e errôneo dizer que os travestis, usando roupas e maquiagens femininas, caricaturizam as mulheres em que se transformariam, mas qualquer conhecimento real do ethos romântico deixa claro que esses homens penetraram no cerne da experiência de ser uma mulher, um construto romantizado. [...] Trechos extraídos da obra Woman-Hating (Dutton, 1974), da escritora feminista Andrea Dworkin (1946-2005).

20 MIL LÉGUAS SUBMARINAS[...] Não posso de modo algum dar aqui pormenores das maravilhas do fundo do mar, nem dos formosos e surpreendentes exemplares de seres vivos, ignorados até agora, que passaram pelos meus olhos fascinados, durante esta memorável viagem, e que jamais, antes de mim, vira qualquer naturalista. Mas é preciso não se supor que, pelo fato de estarmos prisioneiros, nunca saíamos do interior do Nautilus. [...] Existe ainda o Nautilus? Viverá ainda o capitão Nemo? Nada se pode dizer ao certo sobre o destino do capitão Nemo. O que afirmo, porque distou estou bem certo, é que só há dois homens no mundo com direito a responder à pergunta formulada no livro Eclesiastes: Quem poderá saber o que está longe e a muita profundidade? Esses dois homens são: o capitão Nemo e eu. [...]. Trechos extraídos da obra Vinte mil léguas submarinas (Hermis, 1982), do escritor francês Julio Verne (1828-1905). Veja mais aqui e aqui.

O UM E A SUA INTIMIDADE No Um está o ser isolado e / está o Universo. / Não é naquele ser, porém, nem neste Todo / onde reside a sua intimidade. / Não está no subjetivo, nem na unidade. / O Um é único e absolutamente disjunto / não tem aberturas, nem fechos. / O Um não participa, como supõem / das unidades do corpo dos complexos / dos quatérnios / dos octérnios / dos sedênios / a sua intimidade é a infinita sinfularidade / do só, a infinitude da concentração do ser / é o ser sobre o ser: SER/SER = UM / A intimidade do Um está no valor da função / que na sua origem, num breve, infinitamente instante, liturgicamente / oscila eternamente, entre +1 e -1 / entre os dois, no entanto, não há tempo de zero - / a intimidade do Um está no ponto antesdepois / do teu prazer, Mulher! / Esta no ponto AnteDepois da Morte. Poema extraído da obra Joaquim Cardozo: contemporâneo do futuro (Ensol, 2003), que reúne a vida e a obra: um livre entrelaçamento, do objeto ao olhar: o mundo em processo e visão do último trem subindo ao ceu, a poesia escolhida: Trivium e poemas; signo estrelado: canções varzinas e praianas, a aprição da rosa e outros sonetos, fábulas, elegias, Arquitetura nascente & permanente, mundos paralelos, réquiem por uma vida desnecessária, versos urgentes, sonetossom, poemas sistema, entre outras, de Joaquim Cardozo, organizada por Maria da Paz Ribeiro Dantas. Veja mais aqui.

A ARTE DE JENNY SAVILLE
JENNY SAVILLE – (por Cyane Pacheco) - H.A: A carnação de morte nas obras de Jenny Saville, os seus grises, rosas e azuis, quando elege os proscritos pela sociedade, quando os releva às belezas improváveis, também diz do tempo sobre os corpos, dessa incidência que igualmente busco, no que reflete sobre a decomposição dos afetos, dos pudores da morte. Como aproximar-se dessa "coisa" que é gente e corpo, simultaneamente? Fiquei realmente impressionada, com suas mulheres obesas, seus olhares longitudinais, de soberba e inocência, acuadas e ferozes, mostrando seus excessos adiposos, devolvendo-os às dobras projetadas por essa mesma sociedade, que empanturra seus alvos: homens, mulheres e crianças impondo-os objetos, cânones, letreiros - animados e inanimados, reificados ou subsumidos, despudoradamente, roubados, recusados, tecidos nas malhas e imposições perversas, impondo o horror da máquina faminta por dinheiro. Quando a artista regurgita e aproxima os corpos que concebe, a partir das grossas pinceladas, os une (uns aos outros e à morte) convidando a recusa do nosso olhar, a refletir sobre nossos próprios corpos, busca o que fazemos quando resistimos sob todos os riscos, o que Conrad escreveu ("o horror, o horror") ao enfrentar geografia diversa, nos indica aqueles que negam a vaidade doentia- estéril e rasa, aqueles que nunca negociaram suas verdadeiras essências (Goya, Bacon, Freud, Jean Rustin, tantas fotógrafa(o)s e tantos outra(o)s pintora(e)s), para urdirem suas obras. A artista e essa genealogia artística, fizeram um doloroso percurso em volta dos seus desertos íntimos, para continuarem seguindo atrás das respostas; para não cerrarem os olhos às diferenças, lugar constituído de suas perguntas; para acolherem o outro, incluindo-o em seus suportes e, consequentemente, nas discussões sobre o mundo; para retratarem esse "outro" e não encaixá-lo nos padrões do consumismo anódino, quando enfrentam o horror, simetricamente, com toda a coragem que dispõe ou inventam em suas urgências. Fito a metáfora, que dá-se a outros fins, que mira a palavra em seu voo primeiro, atingindo-a para que se torne outra coisa, um teatro de sombras, por exemplo, alcançando os mesmos territórios que alcançaram esses artistas, em suas buscas. Sobre a imagem e a palavra, na obra de Jenny Saville, urge serem fragmentadas, recompostas, ampliadas, exibidas engolindo o olhar do fruidor, que tirem suas vestes de gala, para que a vejam nua, andando por aí, escancarando nossas mortes. Veja mais da arte da pintora britânica Jenny Saville aqui e aqui.



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da atriz Pauley Perrette.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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