Mostrando postagens com marcador Felicja Blumental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Felicja Blumental. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, março 05, 2018

RACHEL DE QUEIROZ, RIMBAUD, VILLA-LOBOS, IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, FELICJA BLUMENTAL, CORNÉ AKKERS, VITAL CORRÊA DE ARAÚJO, LOUCAS DA MATA SUL & MEIO AMBIENTE

OS VENTOS & AS AMIZADES NEM SEMPRE SOPRAM A FAVOR – Imagens: arte do artista plástico e visual holandês Corné Akkers. - Um menino caçula se sentia sozinho e pedia por um irmãozinho. Como os pais haviam fechado a fatura da filharada, reduziram a família apenas ao casal de filhos. A menina era mais velha, não queria se misturar com o mindinho, por se achar já uma mocinha, embora tivesse não mais que seis anos. Destá. Depois de tanto pedir e nada dos pais atenderem, o infeliz solitário encontra, enfim, um amigo. Ah, que amizade! Fizeram pacto de sangue, brincaram de espada, fizeram de tudo, até cheirar os dedos indicadores com o odor da dedada no frosquete um do outro. Cheira aqui! Um acudia o outro, no bom sentido, é claro, viadagem de pirralhos. Ou então ao se estranharem, cara dum, cara doutro, murros, apertos, tapas e caneladas, até caírem bambos numa intriga da hora. Pois é. Dia menos dia lá estavam: um cheirando o cu do outro. Nisso, ia tudo bem, até o dia em que a irmã que nunca se interessara por nada pras bandas do irmão fedelho, achou de chamar o amigo para um particular. No outro dia, de novo; e no seguinte, mais uma vez. Que confidências são essas? O irmão de mutuca. Foi então que o solitário levantando as orelhas, achou de por bem deixar os pais a par das coisas: botaram o amigo pra fora! Como? Mexer com a irmãzinha do coração, tá doido, tá? Arriba! E ele ficou de novo solitário. A irmã, só lhe olhava de soslaio: Viu o que você fez, palerma? Você não tem com quem brincar, nem eu tenho em quem mandar! Mas ele estava se enxerindo pra você! Pra mim? Ah, bicho toleima és tu, bestão! Ele só estava fazendo o que eu mandava, mais nada. Eu estava com ciúme dele com você. Tu és um porqueira mesmo, hem? Ele estava fazendo os meus deveres da escola e o que mais eu quisesse, só isso. Ah, se é assim, vou pedir pro papai deixá-lo voltar. Já devia ter feito isso, seu molenga! E lá vai o menino desfazer o mal-entendido. Para isso teve que contar com o aval da irmã, o que foi um santo remédio pros pais, já que ela era do contra sempre, botando caroço no angu dele. Como se tratava de um bem que atendia aos dois, não havia razão pra impedir. E lá foi buscar do amigo que nem sabia mais por onde andaria, caçando pelos cantos, perguntando a um e a outro, quem viu-lo? Ninguém dava conta do paradeiro. Teve que esperar pela tarde para ver na escola. Foi justo lá que se encontraram, refizeram amizade e lá ia ele de novo reatando a amizade, dessa vez durando até a adolescência – eita, quase que num acaba mais de tão duradoura -, ao se desafiarem pelo amor de Genicilinda, a moça mais linda da época, ferro, sangue e ódio entre os amigos. E como ela tinha umas quedas pelo amigo, provocou ciúmes, por tabela, nos dois irmãos. A irmã agora estava privada de usar e abusar dele, enquanto o amigo entrava em conflito: era ela que ele queria, mas ele era seu amigo. Pra desatar esse nó que quase finda em morte matada, o amigo surpreendeu: apresentou a Genicilinda ao amigo para namorarem. Como? Surpresa dupla. Isso mesmo! Pronto, resolvido! Os irmãos voltavam às pazes, cada qual com sua paquera. Mas como nem tudo caminha sempre lá pelas rodas das mil maravilhas o tempo todo, ânimos e conflitos sempre enredam corações aos tédios e angústias, o amigo, de novo, se viu em palpos de aranha, por conta de ardis tramados pelas duas, sem que uma soubesse da armação da outra: a namorada queixou-se que ele estava dando em cima dela. Como? E a irmã delatou que ele andava forçando a barra com intimidades ameaçando estuprá-la, já quase em vias de fato de tanto abusá-la. Ele tá doido, é? O pai partiu com mais de mil e duas de quinhentos para agarrá-lo pelo cangote, não fosse a providente intervenção da filha em despachá-lo antes da fúria paterna. Quando o irmão soube das duas coisas: Como é que é? Que safado! Ah, vai me pagar! Não cumpriu a ameaça porque os pais providentes transferiram os filhos do colégio, o que acarretou que antes menino agora adolescente solitário ficasse sem amigo e sem namorada, por certo emendariam lá os dois os seus destinos pra azar dele. E a irmã, ah, a irmã, pra ela tanto faz como tanto fez, ela vivia trancada mesmo solitária com sua vidinha voltada só pro umbigo. E nunca mais eles se deram as caras, mudaram de cidade, de roupa, de jeito e pantins, foram cada qual pra faculdade – ele começou engenharia civil e terminou informática; ela foi fazer fisioterapia e findou secretária de um amigo besta que a queria por perto -, e cada um suas dores e vexames, umbigos pra que te quero. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959): Suite Popular Brasileira, Bachianinha nº 5 com a Filarmonica de Berlim & Prelúdios, estudos & Modinha; ; da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental (1908-1991): Piano Português/Espanhol, Concerto nº 5 de Villa-Lobos & Valsas completas de Chopin; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A luta espiritual é tão brutal quanto a batalha dos homens; mas a justiça é prazer só de Deus. [...] eu vi o inferno das mulheres lá – e me será permitido possuir a verdade numa alma e num corpo. Trecho extrado da obra Uma temporada no inferno & iluminações (Francisco Alves, 1982), do poeta Arthur Rimbaud (1854-1891). Veja mais aqui, aqui e aqui.

COMPLEXIDADE AMBIENTAL - [...] Aprender a complexidade ambiental é uma pedagogia política de aprendizagens dialógicas, multiculturais e significativas para a construçãoplural de sujeitos e atores sociais capazes de abrir as possibilidades para a criação de mundos alternatitivos, guiados pelos valores da democracia e os princípios da sustentabilidade. [...]. trecho extraído da obra A complexidade ambiental (Cortez, 2003), coordenado pelo sociólogo ambiental mexicano Enrique Leff. Veja mais aqui.

COMO SUPORTAR O OLHAR DE QUEM SERÁ MORTO? – [...] parei de ler o texto e fiquei embargado, estava dificil. É o momento em que o pelotão de fuzilamento ergue as armas para matá-la e Hannah Senesh, com apenas vinte e três anos, recusa venda, para olhar nos olhos daqueles que iam tirar sua vida. Que força a mantinha! A crebça em seus país, a resistência ao nazismo que estava dizimando seu povo... [...] Alguns deles, por segundos, tornou-se humano e desviou os olhos, depois levou para a casa e para a vida aquele brilho que Jannah manteve com coragem e dignidade? Algum sobreviveu e carregou essa lembrança para sempre ou eram apenas assassinos frios e profissionais, agindo em nome da ideologia mais perversa que já houve sobre a terra? Algum suportou aquele olhar ou desmoronou? Algum entendeu que aquela jovem estava dizendo que os judeus não eram acomodados, nem o elhas, mas dotados de imensa força interior? [...] Os verdadeiros heróis não possuem poderes extraordinários, nem são imortais, imbativeis, indestrutíveis. [...] Há na multidão de rostos comuns pessoas dispostas a se imolar por nós, sem misticismos fraudulentos, sem vozes interiores inexplicáveis e sobrenaturais. [...] Posfácio de Ignácio de Loyola Brandão para a obra Hannah Senesh: diários, poesias, cartas (Tordesilhas, 2011), organizado e traduzido por Frida Milgrom. Veja mais aqui.

NHEENGARÊÇAUAHomem do Sul, você conhece a geada e o frio, / você que jpa viu primavera, / inverno, outono como na Europa, / você não sabe o que é o sol! / Você não imagina / o que é céu sem nuvens por meses seguidos; / o que é o sol bater de chapa na terra fulva / trezentos dias encarrilhados!... / Ao meio-dia / nos tempos de fogo em que o sol é rei, / o ar é tão fino e tão frágil, / que treme.... / o sol fura-o de luz, igualzinho á rendeira / pinicando de espinhos a trama dos bilros... / Você nunca veio até cá... / “-Ceará!... / Retirante, sol quente, miséria...” / O sol do Nordeste foi feito somente / pra os olhos com medo dos filhos da terra.... / o filho da terra, pequeno e feioso, / que é como o mandacaru: / quando a tragédia seca escorraça a vida e absorve as seivas, / só ele, isolado / no meio da caatinga que se apinha / e estende para o céu a lamúria em cinza dos galhos secos / luta, verdeja, encontra seiva e vive / macambúzio e eriçado... / E, entanto, essa gente que mora tão longe / é a mesma que mora nas terras do Norte... / Se o sangue do Sul caldeou-se com o branco imigrante / numa fecunda mistura, / ainda existe em suas veias mestiças / esta seiva que o Norte tem pura... / E, se somos irmãos, / por que um laço mais forte de amor não nos prende? / Irmão longínquo, senhor das fábricas, / dos cafeeiros, das minas, do ouro, / eu quero que o meu poema / faça as vezes de um vidro esfumado / através do qual seu olhar deslumbrado / possa ver esta terra candente do Norte... / Irmão longínquo, detentor da riqueza da Pátria, / que uero que as folhas abertas de meu poema / sejam mãos estendidas / para um abraço de fraternidade! Poema extraído da obra Mandacaru (Instituto Moreira Salles, 2010), da escritora, jornalista, dramaturga e tradutora Rachel de Queiroz (1910-2003). Veja mais aqui.

AS LOUCAS DA MATA SUL
[...] É muito gratificante pra mim, mostrar e ver no rosto das pessoas, que estávamos passando essas mensagens contra a violência, o racismo, etc., a elas que temos nossos direitos. Alguns se identificavam com alguma cena, porque já tinham passado por essa situação. E agora viu que tem as leis e seus direitos. As pessoas parabenizando todo o grupo, pelo trabalho feito. Eu me sinto muito feliz em lutar pelo fim da violência principalmente, de uma forma diferente: teatro! Kelly. [...]
Depoimento de Loucuras contra a violência na Mata Sul, de Janikelle Maria da Silva e Theóphila Lucena, extraído da obra Cirandas feministas na Zona da Mata: uma luta em movimento (SOS Corpo, 2018), tratando sobre o grupo teatral As Loucas da Mata Sul, antes Loucas de Pedra Lilás, formada pelas mulheres Janikelle, Érica, Ítala e Anarcélia de Joaquim Nabuco; de Palmares, Mauriceia e Cilene; de Água Preta, Nayara, Nikka, Vanessa, Theóphila e Alda. Veja mais aqui.

Veja mais:
História da Mulher, O amor no salto das sete quedas, a música de Taiguara & a arte de Luciah Lopez aqui.
O sonho do sequestro malogrado, a música de Juca Chaves, História do Cinema, História da Mulher, a fotografia de Étienne-Jules Marey & a arte de Leonid Afremov aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Do que foi pro que é quase nada, Friedrich Nietzsche, Vaughan Williams & Suzanne Valadon aqui.
Coisas do sentir que não pra entender, A República de Cícero, Emil Nolde & Nivian Veloso aqui.
A carta do barbeiro & Leda Catunda aqui.
Fandango do vai quase num torna & Cícero Dias aqui.
Piotr Ouspensky, Marcio Souza, Antonio Vivaldi, Ronald Searle, Adryan Lyne, Ademilde Fonseca & Inezita Barroso, Kim Basinger, A mulher que reina & O Lobisomem Zonzo aqui.
Patativa do Assaré, Heitor Villa-Lobos, Pier Paolo Pasolini, Turíbio Santos, Rosa Luxemburg, Cicero Dias, Rubem Braga & José Geraldo Batista, Bárbara Sukowa & Primeira Reunião aqui.
A cidade das torres & Antônio Cândido aqui.
Cordel na escola aqui.
Democracia aqui.
A cidade de Deus de Agostinho e a Psicologia do Turismo e Hotelaria aqui.
Incêndio das paixões & Programa Tataritaritatá aqui.
Thomas Kuhn, Alagoando, Sistema Nervoso & Neuroplasticidade aqui.
Jacinta Passos, Poeta Bárbara Inconfidente, Egornov, Ten & Programa Tataritaritatá aqui.
Quando a gente vai à luta não adianta trastejar: ou vai ou racha aqui.
Gregory Bateson, Leontiev, Pinel, Doro, Óleo de peroba & o horário puto eleitoral da silva aqui.
Eros & civilização de Herbet Marcuse & O condor voa de Cornejo Polar aqui.
Ela desprevenida & Programa Tataritaritatá aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
Jorge Amado, Gonçalves Dias, Claudionor Germano, Al-Chaer, Dany Reis & Nina Kozoriz aqui.
Ismael Nery, Tomás Antônio Gonzaga, Juliana Impaléa & Keyler Simões aqui.
Miguel Torga, Alfred Gilbert, Pat Metheny, Luciene Lemos, Antonio Cabral Filho & Programa Tataritaritatá aqui.
Michel Foucault, John Coltrane, T. S. Eliot, Edina Sikora, Wender Nascimento & Programa Tataritaritatá aqui.
Nelson Rodrigues, Gauvreau, Antonio Menezes, Luiza Silva Oliveira, Luiz Fernando Prôa & Bárbara Lia aqui.
Jorge Luis Borges, Paulo Leminski, Jean-Michel Jarre, Jeanne Mas, Donizete Galvão, Fabio Weintraub & Regiane Litzkow aqui.
A refém do amor & Programa Tataritaritatá aqui.
Fritjof Capra, Instinto & Ismael Condição Humana aqui.
Loucura repulsiva aqui.
Jards Macalé, Renata Pallottini, Silvia Lane, Hanfstaengl, Louise Von Franz, Miranda Richardson & Programa Tataritaritatá aqui.
Marilena Chauí, Marilda Villela Imamoto, Nise da Silveira, Guimar Namo de Mello & Arriete Vilela aqui.
O presente na festa do amor aqui.
Tanatologia aqui.
Ricardo Alfaya, Direito de Família & Alimentos aqui.
A mulher na História aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

BANDO DE MÔNADAS, DE VITAL CORRÊA DE ARAÚJO
NÓMINA DESSAS NOTAS: Ao conjunto, nomino-as nuamente Inexplicação ao Leitor, e dedico à Hipócrita Leitora de minha parca ou pobre obra. Porque são notas inexplícitas de um fazedor de poemas, que visam atordoar, ou melhor, clarear a treva textual, abrir caminhos sem rumo à selva significante, em que possíveis (mas improváveis) leitores se arrisquem tentar imiscuir-se ou inutilmente explorar.
RAZÃO DO POEMA: Escrevi esses poemas extremos porque vi o extremo numa viagem a bordo do abismo para o confim de mim mesmo. Fui além da alma, depois do corpo, quando os comecei. Não evitei os tiques estilísticos próprios de minha lavra poética nem a mania de montar sintagmas oximóricos, insensatos (para os sentidos comuns), esdrúxulos, não recomendáveis, para quem escreve em beneficio do leitor, o que não é meu caso, absolutamente. Escrevo poema para total desconforto do leitor (que se dane se quiser entender). Se o poeta entrega de mão beijada, numa bandeja dourada, o tal sentido do poema (tão ou mais procurado do que um malfeitor do velho oeste ianque), tão esperado que desespera o leitor, quando este não lhe é dado, de imediato, na primeira linha ou golpe de leitura; caso seja assim, assado não é, e poesia não o é também. O poema não deve ser uma resposta, uma lição, mas um questionamento, uma interrogação. Nada de resultados prosaicos, mas investimento literário. Escrevo poemas, portanto, para o desconforto extremo de quem casualmente me leia. Se fosse uma reforma de um prédio, a placa séria seria: desculpe o transtorno da leitura, estamos trabalhando ara desconforto total do seu entendimento.
Poemas extraídos da obra Bando de mônadas (Bagaço, 2011), do escritor, jornalista, advogado, professor, conferencista e tradutor Vital Corrêa de Araújo. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico e visual holandês Corné Akkers.
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, janeiro 05, 2018

GUIMARÃES ROSA, SARAMAGO, PLATÃO, CASCUDO, PACO DE LUCÍA, TOTO FRIMA, FELICJA BLUMENTAL, SIDNEY WANDERLEY & AIRTON MARINHO

É OU NÃO É, QUEM SABE – Imagem: arte do xilogravurista e artista plástico Airton Marinho.- De dia nem tudo é visível; de noite, o reino é das sombras. Eu saio e sei pronde vou. No meio do caminho tudo pode acontecer. Ontem apagou a luz; anteontem faltou água; semana passada um enxame de abelhas causou pânico. E a árvore centenária arriou, soltando maribondos e cupins. Na outra rua um paiol explodiu, correria. Teve até um atropelamento, incúria, vexame. Soube de uma boiada desgovernada. Negligência ao tanger. Avançou o sinal, displicência ao volante. Uma enxurrada e tudo alagou, duas ou três horas, quem sabe quatro, talvez cinco ou nada disso, destá. E assim uma cratera repentina, danou-se! Uma descortesia e caiu na boca de lobo, desatenção na calçada. Também, só enxerga o umbigo, o resto é coincidência. Quem dorme seu sonho de olhos abertos, olvida o dos outros. Quem anda na linha se arrisca a qualquer trem, ou nem aí, um local qualquer, uma ou outra hora, entre mágoas e ausências, raivas e espantos, inevitáveis surpresas. Depois da esquina ou daquela curva, o imprevisível. Abre o olho e pensa que vê; vai averiguar, é outra coisa. A falha é nossa, crédulos! E se temem os mortos, ignoram a cilada dos vivos. O receio vem com todo gato pardo na escuridão. Se bem, pelo que me lembre, nem sei se aconteceu. Talvez eu esteja apenas inventando, coisas sucedem, umas atrás das outras, feito notícia ruim, superpostas e enganchadas, isso pra descrença do crente, pra ira dos revoltados. A rigor, a vida não recua, segue até os confins dos dias. Não há como parar, retroceder e depois passar de novo, em câmara lenta, pra consertar ou emendar. Não há como. Foi. Agora é tarde, ou faz tudo de novo, ajeitando no tato e na perícia. Às vezes cola, muitas não. Quem sabe, pra tudo tem jeito. Eu mesmo, de certeza, só dúvidas. E duvido até do que sou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o guitarrista espanhol de flamenco, compositor, produtor e violonista Paco de Lucía (1947-2014) no Festival Jazz Montreux, no Burghausen 2004 e interpretando o Concierto di Aranjuez; as Valsas de Chopin, Concert de Clementi C Major & Concerto p. 17 de Paderewsky com da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental (1908-1991) & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade. [...] - Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira. [...] A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança. [...] Psicologicamente, mesmo estando um homem cego, temos de reconhecer que há uma grande diferença entre cavar sepulturas à luz do dia e depois de o sol desaparecer [...] o difícil não é ter que viver com as pessoas, o difícil é compreende-las. [...]. Trechos extraídos da obra Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras, 1995), do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui.

MITO DA CAVERNA – [...] E agora, disse eu, permiti que vos mostre, numa imagem, até que ponto nossa natureza é iluminada ou não. Atendei! As criaturas humanas vivem numa caverna subterrânea que tem uma abertura para a luz, que se estende por todo o interior; ao estiveram desde a infância, com as pernas e os pescoços agrilhoados, de modo que não podem mover-se, podendo apenas olhar para diante, pois que as correntes lhes impedem de voltar a cabeça. Em cima e atrás deles, um fogo arde a distância e, entre o fogo e os prisioneiros, existe um muro baixo ao longo do caminho, comoa tela que os manipuladores de marionetes têm diante de si, e sobre a qual exibem seus bonexos. Eu vejo. E vedes, disse-lhes, homens que passam junto à parede, carregando toda a espécie de vasos, estatuetas e figuras de animais feitos de madeira, de pedra e de vários metais, e que aparecem do outro lado dela; vós me mostrardes uma estranha imagem, e eles são estranhos prisioneiros. Como vós próprios, respondi-lhes; e vêem somente suas próprias sombras ou as sombras dos outros, que o fogo projeta na parede oposta da caverna. [...]. Trecho extraído do livro VII da obra A República (Edições de Ouro, 1980), filósofo grego Platão (428/427–348/347 aC.). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MENINA ENTERRADA VIVAEra um dia um viúvo que tinha uma filha muito boa e bonita. Vizinha ao viúvo residia uma viúva, com outra filha, feia e má. A viúva vivia agradando a menina, dando presentes e bolos de mel. A menina ia sipatizando com a viúva, embora não se esquecesse de sua defunta mãe que a acariciava e penteava carinhosamente. A viúva tanto adilou, tanto adulou a menina que esta cabou pedindo que seu pai casasse com ela. – Case com ela, papai. Ela é muito boa e me dá mel! - Agora ela lhe dá mel, minha filha, amanhã ela vai lhe dar fel. - respondia o viúvo. A menina insistiu, insistiu. O pai, para satisfazê-la, casou com a viúva. Mas, obrigado por seus negócios, o homem viajava muito, e a madrasta aproveitou essas ausências para mostrar quem era. Ficou muito bruta e malvada, tratando a menina como se fosse um cachorro. Dava-lhe pouco de comer e botava-a para dormir no chão, em cima de uma esteira velha. Depois ordenou a menina fazer os trabalhos mais pesados da casa. E quando não havia coisa alguma para a menina fazer, a madrasta não a deixava brincar. Mandava-a vigiar um pé de figos que estava carregadinho, para os passarinhos não bicarem as frutas. A pobre menina passava horas e horas guardando os figos e, quando algum passarinho voava por perto, ela gritava: “Xô, passarinho!” Mas, numa tarde, a menina estava tão cansada que adormeceu. E, quando acordou, os passarinhos tinham picado todos os figos. A madrasta veio ver e ficou doida de raiva. Achou que aquilo era um crime. De tanta raiva, matou a menina e enterrou-a no fundo do quintal. Quando o pai voltou da viagem, a madrasta disse que a menina havia fugido de casa e andava pelo mundo, sem juízo. O pai ficou muito triste. Em cima da sepultura da órfã, nasceu um capinzal bonito. O dono da casa mandou que o empregado fosse cortar o capim. O capineiro foi pela manhã e, quando começou a cortar o capim, saiu uma voz do chão, cantando: Capineiro de meu pai, Não me cortes os cabelos. Minha mãe me penteou, Minha madrasta me enterrou, Pelo figo da figueira Que o passarinho picou. Xô! passarinho! O capineiro deu uma carreira, assombrado, e foi contar o que ouvira. O pai veio logo e ouviu as vozes cantando aquela cantiga tocante. Cavou a terra e encontrou uma laje. Por baixo, estava vivinha a menina. O pai, chorando de alegria, abraçou-a e levou-a para casa. Quando a madrasta avistou de longe a enteada, saiu pela porta afora, e nunca mais deu notícias se era viva ou morta. E, assim, o pai ficou vivendo muito bem com sua filhinha. Extraído da obra Contos tradicionais do Brasil para jovens (Global, 2008), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Veja mais aqui e aqui.

O APOCALIPSE DOS CAETÉS – Rompido o sétimo selo, o sétimo anjo / faz soar a sétima trombeta. / Eis chegado o Dia do Juízo: / o terceiro aí se anuncia. / Olinda, Carnaval de 1987. / Multidão, enxofre, cinzas. / Desce dos céus o Senhor em fúria revestido, / à mão direita a espada sedenta de humano sangue, / a barba interminável, eternamente por fazer. / Reinava entretanto um calor tão danado / que a febre de um frevo de Capiba / acabou por pegar a Deus de jeito, / e Ele caiu incoignito no passo da multidão pagã / - um pássaro desajeitado, diga-se entre travessões -, / abraçado e saracoteando com um tipo travestido de mulata / em cuja polpa da nádega esquerda / lia-se, sem esforço, / o número 666. / Adiara, por certo, o fim deste mundo / para uma quarta-feira de cinzas e melancolia. / O Carnaval, como os pássaros, não comporta ideologia. / Nele, Cristo e Anticristo, Deus e Belzebu / jogam no mesmo time, sambam no mesmo bloco. Extraído da obra Poemas post-húmus 1976-1991 (Maceió, 1991), do professor e poeta Sidney Wanderley. Veja mais aqui.

MAGMA DO ROSA
O poeta não cita: canta. Não se traça programas, porque a sua estrada não tem marcos nem destino. Se repete, são ideias e imagens que volvem à tona por poder próprio, pois que entre elas há também uma sobrevivência do mais apto. não se aliena, como um lunático, das agitações coletivas e contemporâneas, porque arte e vida são planos não superpostos mas interpenetrados, com ar entranhadp nas massas de água, indispensável ao peixe – neste caso ao homem, que vive a vida e que respira a arte. Mas tal contribuição para o meio humano será a de um órgão para um organismo: instintiva, sem a consciência de uma intenção, automática, discreta e subterrânea. Com um fosso fundo ao redor de sua turris ebúrnea, deixa a outros o trabalho de verificarem de quem recebeu informações ou influencias e a quem poderá ou não influenciar. E o incontentamento é o seu clima, porque o artista não passa de um místico retardado, sempre a meia jornada. Falta-lhe o repouso do sétimo dia. Não tem o direito de se voltar para o já-feiro, ainda que mais nada tenha por fazer. A satisfação proporcionada pela obra de arte àquele que a revela é dolorosamente efêmera: relampeja, fugaz, nos momentos de febre inspiradora, quando ele tatei formas novas para a exteriorização do seu magma intimo, do seu mundo interior. Uma tortura crescente, o intervalo de um rapto e um quase arrependimento. Pinta a sua tela, cega-se para ela e passa adiante. Se a surdez de Beethoven lhe tivesse trazido a infecundidade, seria um símbolo. Obra escrita – obra já lida – obra repudiada: trabalhar em colméias opacas e largar o enxame ao seu destino, mera aventura de brisas e de asas. Tudo isto aqui vem tão somente exaltar a importância que reconhecço ao estimulo que me outorgastes. Grande, inesquecível incentivo. O Magma, aqui dentro, reagiu, tomou vida própria, individualizou-se, libertou-se do meu desamor e se fez criatura autônoma, com quem talvez eu já não esteja muito de acordo, mas a quem a vossa consagração me força a respeitar. Sou-lhe grato, principalmente, pelo privilegio que me obteve de poder – sem demasiadas ilusões, mas reverente – levantar a voz, neste recinto, como um menino que dpõe seu brinquedo na superfície translúcida de uma água, para a qual a serenidade não é a estagnação, e cujo brilho da face viva nada rouba à projeção poderosa da profundidade [...].
Discurso proferido pelo escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967), por ocasião do prêmio concedido pela Academia Brasileira de Letras, ao livro de poesia Magma, publicado nos Anais da Revista da ABL, em 1937, extraído da obra Magma (Nova Fronteira, 1997). Apesar de premiada, a obra foi mantida inédita até esta publicação. Veja mais aqui.

Veja mais:
O que semeei pro que será colhido, a filosofia de Elbert Hubbard, a música de Miriam Maria & a pintura de Débroa Arango aqui.
Desejo na Crônica de amor por ela, Friedrich Nietzsche, Rubén Darío, Pietro Aretino, Ludovico Ariosto, Jean-Pierre Jeunet, Maria Luisa Persson, Piero Della Francesca, Ibys Maceioh, Audrey Tautou & Kiki Sudário aqui.
Clara Schumann & Todo dia é dia da mulher aqui.
Abelardo da Hora, Umberto Eco, Friedrich Dürrenmatt, Luís Gonzaga & Humberto Teixeira, Eliane Ferraz, Denise Dummont & Lírio Ferreira aqui.
A prisão & o Sistema Penal, Fecamepa & Natanael Lima aqui.
O flagelo: Na volta do disse-me-disse, cada um que proteja seus guardados aqui.
Violência Escolar, Psicologia da Saúde, União Estável & Família Homoafetiva, Humor nas tresloucadas acontecências aqui.
Ginofagia: três poemas indecentes de amor pra ela aqui.
A carta do barbeiro & o mundo não acabou aqui.
O mito do Fausto, Cassiano Ricardo, Frederico Spencer, Fecamepa & Palmares City aqui.
Ginofagia: Três poemetos luxuriosos de amor pra ela aqui.
Psicologia Ambiental, Aprendizagem & Direito dos Idosos aqui.
A Gestalt-Terapia de Fritz Perls aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa holandesa Toto Frima.
Veja mais aqui.
 

terça-feira, novembro 07, 2017

CECÍLIA MEIRELES, CAMUS, MARIE CURIE, IRENE DUARTE & RIBEIRÃO

O QUE FOI DO PASSADO – Imagem: arte da artista plástica Irene Duarte. - Uma tarde de maio Nazilma deu por conta do olhar insistente de Delzito. De início incomodava e como aquela afincada postura dele causava asco, rejeitava até. Depois de muitos flagrantes de dias, tardes e noites, acostumou-se. Antes repugnante, passou a ser prazeroso aquele fitar flamejante e firme, provocador, insistente, imantado. Ele mirava, ela correspondia, de soltar até um leve sorriso no canto da boca. Pronto, bastou, lá vinha ele em sua direção: Sabia que você tem o sorriso mais lindo mundo? Não. Saiba. Frases entrecortadas formadas por simpáticas reações de tímidos risinhos tornaram-se o preâmbulo para um mínimo de contato. Sem conseguirem encaixar uma conversa propriamente dita, lá se iam de sim em sim, que coisa, deixe disso, vamos lá, quando chegou a hora da despedida, um certo temor tomou conta de ambos. Ele adiantou-se meio desajeitado: A gente pode aprumar conversa qualquer hora dessa? Sim, por que não? Então, tá. Então, tá. Inté. Até logo. Cada qual pro seu lado, não antes conferência de uma virada de ambos, uma piscadela em sinal de adeus com um quase aceno distante. Mais dois ou três encontros, lá estavam em conversa animada. O assunto? Qualquer coisa, o que importava é que se deliciam com o que diziam, jogando conversa fora: Está vendo aquilo? Nossa, que coisa, hem? Já viu? Nunca pensei, mas é legal, nunca tinha prestado atenção. Pois é, também não. E aquilo ali? Estranho, né? É. Papo vai, palra vem, menos se espera já ocorrência de um namoro firme, noivado anos depois. Já era maio de uma década desde o primeiro flerte, ambos desposavam numa cerimônia simples, alguns familiares e uma lua de mel modesta num apartamento alugado. Amaram e se estranharam algumas vezes, trabalhavam para o sustento, sem filhos, atraídos um pelo outro cada vez mais, às juras de amor na madrugada, a pegação de manhã ao acordarem de sono pesado, as beliscadas mútuas no cruzamento dos corpos pelos cantos, as fantasias sensuais ao telefone antes de largar do expediente no trabalho, a correria de chegar em casa e surpreender quem chegasse primeiro, as brincadeiras de esconde-pega, os cochichos carinhosos com as escolhas dos fetiches nas indumentárias de enfermeira, bombeiro, escravos, dominação. Mais uma década e tramavam surpresas as mais imprevisíveis: no escurinho do cinema, na escadaria de prédios abandonados, nas esquinas inóspitas, lugares ermos, paragens insólitas. Realizavam-se amantes e amados, comodamente adequados aos quereres e prazeres recíprocos. Amavam e desamavam, se ajustavam, espalhavam brasa nos desentendimentos, se engalfinhavam nas pazes, arengavam nas vésperas, seguiam e se separavam vez ou outra, vai e vem durante três décadas. Um dia, Delzito sente uma dor no peito e bate as botas. Um choro interminável dominou Nazilma por todo velório. Era chegada a hora da última despedida, coração apertado, sepultamento concretizado. À noite densa dominava o silêncio, ela não sabia o que fazer, anestesiada, sem conseguir conciliar o sono, cochilava, teimando em ficar acordada. Adormecia e por um instante o domínio de um sonho: Venha me buscar, estou vivo, me socorra! Acordava atônita, aperreio aos extremos, prantos desolados, era ele veementemente insistindo para que ela fosse buscá-lo. Não sabia o que fazer. Dormitava envolvida na oníria presença dele chamando-a. Aquilo perseguiu a noite toda em claro. Ao amanhecer procurou amigos e foi encaminhada ao delegado. Este por sua vez despachou pro Juiz. Já final da tarde conseguira a autorização judicial para reabrir a cova, agitada, ansiosa, pás cavando, hora passando, o coração aos pulos, enfim, o caixão, ao removerem a tampa, ele estava de bruços, agora definitivamente morto, chegara tarde, pensara. E nunca mais conseguiu ser feliz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o guitarrista britânico de jazz John McLaughlin: Extrapolation & In after the rain; da pianista e compositor polonesa Felicja Blumental (1908-1991): Valsas de Chopin & Piano Português Espanhol; do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso: Trem mineiro & Preto & Branco; e músicas com o talento e a arte da violonista francesa Ida Presti (1924-1967). Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Cada pessoa deve trabalhar para o seu aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, participar da responsabilidade coletiva por toda a humanidade. Pensamento da cientista polonesa Prêmio Nobel de 1903 e 1911, Marie Curie (1867-1934). Veja mais aqui.

RIBEIRÃO - Ribeirão teve origem num aglomerado de casas populares, construídas em torno de uma capela sob a invocação de Santana, usto no séc. XVIII, segundo tradição local. Daí apareceu o Engenho Ribeirão, mais tarde a Usina Pinto, depois Usina Ribeirão, que contribuiu para o desenvolvimento do povoado. O seu progresso, com a abertura da estação da estrada de ferro Rio São Francisco, em 1862, foi grandemente acelerado. Em 1910 foi construído um ramal ferroviário, partindo de Ribeirão para Barreiros, e outro para Cortês, o que veio favorecer grandemente o município. O distrito foi criado por Lei municipal em 19 de agosto de 1895 e a sua sede foi elevada à categoria de vila por Lei estadual 991, de 01 de julho de 1909. O distrito pertencia ao município de Gameleira. A lei estadual 1931, de 01 de janeiro de 1928, criou o município de Ribeirão, cuja instalação ocorreu em 01 de janeiro de 1929. A sua sede foi elevada à categoria de cidade, pelo Decreto-Lei estadual 235, de 09 de dezembrop de 1938. Administrativamente, o município é formado pelos distritos sede, Aripibu e José Mariano e pelo povoado de Usina Estreliana. Anualmente, no dia 11 de setembro, a cidade comemora a sua emancipação política. Veja mais aqui.

O MITO DE SÍSIFO – [...] Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência. [...]. Trecho extraído da obra  O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo (Livros do Brasil, 2002), do escritor, dramaturgo e filósofo francês Albert Camus (1913-1960), abordando sobre a filosofia do absurdo, pela qual entende-se que o homem busca sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo ininteligível desprovido de Deus e eternidade. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CÂNTICO II – CECÍLIA MEIRELES
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que será assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue.
É a passagem que se continua
É a tua eternidade...
É a eternidade...
És tu.
Poema extraído da obra Cânticos (Moderna, 1981), da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964). Veja mais aqui.

Veja mais:
Dia do Radilaista: a voz ao coração aqui.
A neurociência de Eric Kandel aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A ARTE DE IRENE DUARTE
A arte da artista plástica Irene Duarte.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, setembro 08, 2017

SHELDRAKE, ALCÂNTARA MACHADO, DVOŘÁK, EDWARD WILSON, PACO DE LUCÍA, BLUMENTAU, FERNANDA ABREU, PAULO JOSÉ DOS SANTOS & BIBLIOTECA FENELON

OS IMPREVISTOS DE CADA COISA – Imagem: arte do fotógrafo estadunidense Ansel Adams (1902-1984). - A cada passo em cada rua ouço os sussurros que evaporam das histórias proibidas de cada lar, misturando as minhas pisadas com seus resmungos, meus pensamentos e suas infâmias, minhas lembranças e seus castigos, minhas divagações e suas dissimulações, choros, arrependimentos, projeções. Em cada uma das casas os seus desfechos e vigências nas corrosivas relações com suas anomalias extraordinárias, invadindo minhas ideias e sinto que só há coisa de sofrer e sonhar, como a que vejo, lar ideal, o pai trabalhador com afinco só pensa em ganhar dinheiro e do muito pro sonho do carro novo, a reforma da casa, a vida boa pra ser o primeiro em todas as vitórias e conquistas e poder na missa domingueira agradecer pelas bênçãos recebidas por ser salvo da miséria e das desgraças da pobreza, às portas do céu enquanto pisa todos que lhe aparecem pela frente durante a semana na sua travessia laboral, pé na goela, língua de fora, sem saber quase nada da família, nem da mulher, nem do filho desmunhecando na esquina pro seu colapso nervoso, nem da filha dando uns tapas no braquearo pra perder a virgindade com o professor que é seu príncipe encantado e pra desastre de sua segunda ponte de safena, sem saber da esposa, mãe zelosa rezadeira noitedia com o terço na mão a pedir de joelhos pros filhos que o pai ignora e ela não sabe o que fazer porque cresceram e se tornaram indomáveis de geração diferente da sua, sem respeitar mais ninguém e o marido só dedicado ao trabalho vai culpá-la por não ter feito a sua parte e a coisa vai ficar feia porque ela sabe que ele já caiu nas graças da secretária que é muito mais nova, é muito mais bonita, é muito mais tudo que ela que ficará na rua da amargura sem saber o que fazer, já que não sabe mais nada, está perdida, sem saber segurar o marido nem cuidar dos filhos, à beira do suicídio, com remédios tantos e dietas exageradas para não engordar e reconquistar o marido que não quer saber dela nem de nada de casa, só do trabalho e vencer na vida, o que será a perda total dela e dos filhos, justo eles, o casal bem sucedido, invejado por todos do bairro, dos familiares, os bem casados, quase trinta anos, eles ainda poderiam ser felizes, mas ela não sabe, nem ele sabe o que se passa, nem seus filhos estão nem aí pro que está acontecendo e tudo está ruindo e precisam ser felizes sem saber como fadados ao mais clamoroso fracasso que não aprendem e um dia acordam estranhos cada qual no seu lugar, saudades um do outro, lembranças de infância e o mundo continua a rodar apesar dos pesares pros que estão vivos e pros que já se foram dessa pra melhor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Romance para piano & violino op.11, Piano Works & The Best do compositor checo Antonín Dvořák (1841-1904); Valsas de Chopin, Concert de Clementi C Major & Concerto p. 17 de Paderewsky com da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental (1908-1991); o guitarrista espanhol de flamenco, compositor, produtor e violonista Paco de Lucía (1947-2014) no Festival Jazz Montreux, no Burghausen 2004 e interpretando o Concierto di Aranjuez; e os álbuns Raio X, MTV ao Vivo & Da Lata da cantora, compositora, instrumentista, bailarina e escritora Fernanda Abreu. Para conferir é só ligar o som e curtir.

A DIVERSIDADE DA VIDA – Na bacia amazônica, a maior violência às vezes começa como uma luz vacilante além do horizonte. Lá, na redoma perfeita do céu noturno, sem o menor vestígio de luz produzida por fonte humana, uma tempestade lança seus sinais premonitórios e inicia uma lenta jornada até o observador, que pensa: o mundo está prestes a mudar. [...] alguns tipos de plantas e animais são dominantes, proliferando novas espécies e disseminando-se por extensas regiões do mundo. Outros acabam acuados até se tornarem raros e ameaçados de extinção. existiria uma única fórmula para essas diferenças biogeográficas entre os vários tipos de organismos? Esse processo, devidamente expresso, seria uma lei — ou pelo menos um princípio — de sucessão dinástica na evolução. [...] No meio do caos, algo ao meu lado chamou-me a atenção. Os raios pareciam luzes estroboscópicas iluminando a orla da floresta tropical. a cada intervalo eu podia vislumbrar a sua estrutura estratificada: a abóbada superior a trinta metros do solo, árvores médias espalhadas irregularmente um pouco abaixo e, mais embaixo ainda, uma profusão de arbustos e pequenas árvores. a floresta permaneceu emoldurada por alguns instantes nessa ambiência teatral. sua imagem se tornou surrealista, projetada na selva ilimitada da imaginação humana, lançada de volta no tempo cerca de 10 mil anos. ali nas proximidades eu sabia que morcegos-de-ferradura estavam voando em meio à coroa das árvores em busca de frutos, víboras arborícolas enrolavam-se nas raízes de orquídeas, prontas para dar o bote, jaguares caminhavam pelas margens do rio. em torno deles, oitocentas espécies de árvores, mais do que todas as nativas da América do Norte, e mil espécies de borboletas, 6% de toda a fauna do mundo, aguardavam o amanhecer. [...] Os mistérios ainda insolúveis da floresta pluvial tropical são informes e sedutores. são como ilhas sem nome escondidas nos espaços vazios dos mapas antigos, como formas obscuras vislumbradas ao se descer a parede extrema de um recife até as profundezas abissais. Eles nos instigam e provocam estranhas apreensões. O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável depois de um único bocado. esperamos de coração que nunca venhamos a descobrir tudo. rezamos para que haja sempre um mundo como esse, em cuja fronteira eu estava sentado na escuridão. A floresta pluvial tropical, com sua riqueza, é um dos últimos repositórios na Terra desse sonho imemorial. [...]. Trechos extraídos da obra Diversidade da vida (Companhia das Letras, 2012), do entomologista e biológico estadunidense Edward Osborne Wilson, renomado cientista reconhecido por seu trabalho nas áreas de ecologia, evolução e sociobiologia.

DAS GALÁXIAS ÀS CÉLULAS: A TEORIA DOS CAMPOS MORFOGENÉTICOS - [...] Os campos morfogenéticos ou campos mórficos são campos que levam informações, não energia, e são utilizáveis através do espaço e do tempo sem perda alguma de intensidade depois de ter sido criado. Eles são campos não físicos que exercem influência sobre sistemas que apresentam algum tipo de organização inerente. […] centrada em como as coisas tomam formas ou padrões de organização. Deste modo cobre a formação das galáxias, átomos, cristais, moléculas, plantas, animais, células, sociedades. Cobre todas as coisas que têm formas e padrões, estruturas ou propriedades auto-organizativas. [...] Todas estas coisas são organizadas por si mesmas. Um átomo não tem que ser criado por algum agente externo, ele se organiza só. Uma molécula e um cristal não são organizados pelos seres humanos peça por peça se não que cristalizam espontaneamente. Os animais crescem espontaneamente. Todas estas coisas são diferentes das máquinas que são artificialmente montadas pelos seres humanos. [...] Esta teoria trata sistemas naturais auto-organizados e a origem das formas. E eu assumo que a causa das formas é a influência de campos organizacionais, campos formativos que eu chamo de campos mórficos. A característica principal é que a forma das sociedades, idéias, cristais e moléculas dependem do modo em que tipos semelhantes foram organizados no passado. Há uma espécie de memória integrada nos campos mórficos de cada coisa organizada. Eu concebo as regularidades da natureza como hábitos mais que por coisas governadas por leis matemáticas eternas que existem de algum modo fora da natureza. [...]. Trechos extraídos da obra Uma nova ciência da vida: a hipótese da causação formativa e os problemas não resolvidos da Biologia (Cultrix, 2014), do biólogo, bioquímico e escritor britânico Rupert Sheldrake.

MANA MARIA – [...] ouvindo os gracejos que dirigiam para a italianinha, para a vagabunda. Ela não ouviu nenhum. E o mais esquisito é que quando mana Maria se aproximava muitas vezes os gracejos dirigidos à italianinha ou à mulatinha cessavam. Por respeito dela, mana Maria. Isso lhe dava um amargor e ao mesmo tempo um orgulho indefiníveis. Era respeitada. Não era desejada. [...] Dobrou a esquina. Ninguém. É bom surpreender assim as ruas desertas no silêncio noturno. De dia a atenção se perde no bonde que passa, na casca de banana, no pregão dos vendedores ambulantes, nuns olhos, num palavrão, num anúncio. A gente vê perto e vê baixo. Das casas só tem importância a vitrina das de comércio, o número das de moradia. De noite, tudo muda. Não há perigo de esbarros, de atropelamentos. A vista se alonga desembaraçada. É possível parar, erguer a cabeça, embasbacar, cismar, examinar, não há respeito humano. E a rua: postes, árvores, jardins. fachadas. Os homens dormem: a rua vela. Ele não saberia exprimir (não era literato, graças a Deus) a sensação gostosa que lhe davam essas voltas a pé para casa noite alta. Mas era evidente que se sentia mais forte, mais homem, o único homem. De dia se anulava na multidão, era ninguém. De noite ganhava outro relevo na sua solidão, uma certeza mais grata de sua realidade. Ouvia os próprios passos, via a própria sombra. Dobrou a esquina. Ninguém. Era como se a rua dissesse: - Pode passar, trânsito livre. Depois na noite vazia, silenciosa, o cheiro dos jardins é mais forte, a feitura das casas mais branda, as calçadas mais largas, as esquinas mais misteriosas. A imaginação tem campo livre. Os homens são prisioneiros das casas, tranca na porta, cadeado no portão. Está reintegrada a rua na posse de si mesma, no gozo de sua liberdade. Tal como é e não como a fazem e sujam os homens, a desfiguram os homens de dia. Deserta a cena, vive o cenário. Através das venezianas no terceiro andar da casa de apartamento se escoa uma luz vermelha. Se ele fosse ver a Zoraide? Quase uma hora. Tarde demais. Dobrou a esquina. Alguém. Ainda distante, na mesma calçada, cambaleando. Embriagado. Melhor atravessar a rua. Detestava bêbados, tinha pavor de bêbados. O vulto colou-se à árvore. Depois se equilibrou na guia do passeio, pesadamente desceu ao leito da rua. Joaquim resolveu não mudar de calçada. Agora o bêbado olhava o céu. Lua cheia. Tirou a palheta. Era o Platão de Castro. Joaquim apressou o passo. [...]. O homem agradeceu (quem pagaria para tratarem o túmulo quando ela morresse?), mana Maria foi andando devagar. Olhou o relógio: 11 horas. Na área principal deu com um enterro que chegava. Atrás do caixão um velho caminhava, o lenço nos olhos, amparado por dois moços também chorosos. O padre com o livro de orações protegia a vista contra o sol forte. Pouca gente. O sino da capela tocou. Mana Maria deu 400 réis para a negra velha. Não costumava dar esmolas não. Mas sentiu que ali devia dar. Estava um pouquinho comovida. No enterro dela não viria ninguém. Era capaz até de faltar gente para carregar o caixão. Morreria num hospital. Para não dar trabalho para ninguém. Foi descendo a Rua da Consolação ao longo do muro do cemitério. Na frente dela duas meninas de sandália carregavam uma cesta de lavadeira. Como um caixão. Uma de cada lado segurando na alça. Apressou o passo, na esquina tomou um táxi. Do automóvel ainda viu as meninas que haviam pousado a cesta na calçada, descansavam alegres. Trechos extraídos da obra Mana Maria (Nova Alexandria, 2002), do escritor Alcântara Machado (1901-1937). Veja mais aqui.

STORYTELLING: HISTÓRIAS PROIBIDAS – O drama-comédia Storytelling (2001), dirigido pelo cineasta Todd Solondz,, é composto de duas partes, a primeira ficção, trata de um grupo de estudantes universitários em uma sala de aula de um professor que se prepara para usar e abusar de suas alunas brancas; a segunda, não-ficção trata de um jovem que abandona tudo na vida para seguir seu sonho e enfrenta o fracasso. Há que se observar que o termo Storytelling é relacionado com uma narrativa e significa  a capacidade de contar histórias relevantes, consistindo num método que utiliza palavras ou recursos audiovisuais para transmitir uma história que pode ser contada de improviso ou polida e trabalhada, sendo muito usado no contexto da aprendizagem e na forma de transmissão de elementos culturais como regras e valores éticos. Veja mais a respeito do filme aqui.

BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL FENELON BARRETO
Corpo funcional da Biblioteca, comandada pelo diretor João Paulo Araújo. Veja a história, missão, ações e eventos aqui.

Veja mais:
A música de Antonín Dvořák aqui.
A arte da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

RIO UNA
Meu Rio Una, eu já vi,
Teu nome bonito e franco,
Que não vem do homem branco,
Mas vem da língua Tupi
Quem entende o guarani
Sabia te pronunciar
Ficava a te olhar
Dia e noite estava vendo
As tuas águas correndo
Porque não pode parar.
Meu Rio Una nasceu
No agreste capoeira
Pouquinha água ligeira
Correndo no leito seu
Mas contente desceu
Se uniu ao Rio Riachão
Cajazeira Boqueirão
Bravo, Mandrágua, Taquara
E lá águas limpas e claras
Correndo no nosso chão.
Passa por Cachoeirinha
Cachoeira Grande e Altinho,
Ruma pro sul baixinho
Igual canta a andorinha
Banha-se da vizinha
Com sua amizade ingrata
A esquerda recebe o Rio Prata
As direitas o Rio Mentiroso
O seu afeto amoroso
De sua margem sem frata
O Una não banha Catende,
Porém  banha Batateiras
Pouquinha água ligeira
Correndo no nosso chão
No riacho do sertão
Que mearim faz terra da cana
É nossa terra bacana
Correndo no nosso chão
Quando chega em Palmares
Recebe o Rio Verdinho
Recebe o Camevozinho
Que abastece os nossos lares
Indo com vizinho intermediário
Das terras do Mulungu
Tiraram a água do Prata Para Caruaru
E deixaram de ir pra Palmares
Quando chega na Barra do Una
Endireita o seu leito
Fazendo um curso perfeito
Como já é de costume
De observar os cardumes
Do peixe que vai pro mar.
Poema do poeta popular Paulo José dos Santos, autor dos cordéis Por causa da carestia o mundo não presta mais, Nessa era em que estamos, Interpretação de Trombetas, Palmares eu prezo ser seu filho, entre outros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...