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terça-feira, janeiro 05, 2016

DESEJO, NIETZSCHE, ARIOSTO, ARETINO, TAUTOU, ÍBYS, PERSSON, KIKI SUDÁRIO & MUITO MAIS!!


CRÔNICA DE AMOR POR ELA: DESEJO - Foi nela que a canção se fez semente como o que brota da terra pro sabor de todas as satisfações. Foi dela que nasceu a canção: dos seus olhos brilhantes a me criar visões de tudo e de nada na mais plena paisagem de todas as belezas do mundo, a me dar o universo para que eu me embriague com seus olhares e me tenha cada vez mais cioso do seu encanto na minha fortaleza e esperança. Foi de suas faces boas de beijar todo dia e o dia todo pela maciez e requinte de beleza além de todas as mais mimosas coisas do mundo, que a canção se fez solfejo no dia. Foi dos seus lábios que beijam e me fazem refém de seu carinho no mais prazeroso hálito de perfume de todas as rosas, que a canção se fez compasso. Foi do seu beijo que me ensina todos os caminhos de ir e voltar para recolher a panaceia de todos os meus males e sofrimentos, que a canção se fez estribilho. Foi do seu riso ensolarado que ilumina a minha vida e me faz mais que refeito pronto para viver os desafios de toda a existência, a canção se fez refrão. Foi de sua boca abrasada e abraçadora de todas as volúpias que me recolhe do nada para ser-me inteiro na posse de todas as posses, que a canção se fez melodia completa para embalar a minha alma. Foi da sua voz que me encanta a alma e me alcança para fazer-me doce e mel no seu paladar, que a canção se fez harmonia na minha para cantar seus atributos generosos. Foi do seu jeito benévolo de me dar a fragrância do mundo com todas as diversões profusas e a se esforçar em reter minhas tresnoitadas indômitas de todas as premências e quedas, que a canção chegou à minha voz para ser plena aos seus ouvidos. Foi do seu coração de amada que me guarda errante solitário com todos os meus navios e naufrágios para eu navegar e dormir; foi do meneio dos seus ombros que me levam amiúde à devassidão impávida de devaneios do amor na sua sensualidade extrema; foi da sua aparição repentina com todos os encantos de céu e terra a me deixar a sua mercê para ajeitar o proposito do artífice na arte da poesia pra cantá-la todos os louvores e seus feitos pormenorizados nas entregas e lascívias. Foi dos seus seios que me abrigam além de maternal e me ilumina com as duas luas do seu decote augurando o amor eterno; foi dos seus braços com o abraço mais acolhedor onde tudo o que existe se torna real para que eu viva sem ter que ir tão longe além da sua entrega a me dar o mar de todas as ondas, o brilho de todas as estrelas, a queda de todas as cachoeiras e toda a festa de toda natureza. Foi do seu andar cativante de aprazível elegância a bulir com meu coração que se agiganta ao seu convite de seguir seus passos por todas as veredas do universo a cometer os versos mais audazes. Foi da candura dos seus movimentos de requintada beleza e pompa singular para júbilo das minhas querências de querer acariciar todos os seus pendores de bem-amada na maior experiência do amor. Foi da forma como encara a vida a vê-la revirada para que dê tudo certo mesmo que nada por satisfeito de tudo; foi dos seus sonhos de menina que alentam a maturidade de sua eterna infância quando me tem por menino travesso e virado da breca; foi das vestes que compõem sua indumentária cotidiana e me encanta a se ajeitar toda formosura de fêmea mais que gueixa na minha predileção; foi seu modo de me fitar com atenção e um não sei quê de perdão sempre guardado a cada desatino meu de maluco beleza; foi do pensar que tudo pode ser melhor e que há de haver uma forma de felicidade possível na vida; foi do agir muitas vezes sem ter que ficar repisando os erros de ontem e os acertos de nunca; foi da entrega, ah, sobretudo da entrega de sua alma e corpo na carne de quem nada detém as fantasias do seu inebriante jeito de gozar e dar prazer, a vê-la nítida e clara completamente arrebatada com minhas investidas ao se revelar a aproximação sensual dos nossos corpos com a turgência do meu sexo, as loas de nossas juras, o aranzel dos meus galanteios na minha poesia estupefata a desfrutar de sua graça e todos os amanheceres carentes e manhosos que guarda todas as minhas insônias selenitas. Foi por todos os entardeceres de ebriez erótica por todas as formas de me dar a vida com seu sexo quente; por todos os anoiteceres que me agasalha porque conhece o ardor da minha luxúria que atravessa a noite a buscar dos palpitantes aromas caprichosos da sua perfeita noite a oferecer o infinito e sou maior que a mim mesmo a devorar sua vastidão; por todos os madrugares dos seus prazeres nos leitos esplêndidos de todas as suas querências; e por todos os novos amanheceres com seus desejos intensos como quem tudo quer de novo outra vez e todas as vezes para dar-me a poesia e a canção que cantarei pro seu coração. (Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).


PICADINHO


Imagem: Labandon Italian female nude, do pintor da Renascença italiana Piero Della Francesca (1415-1492). Veja mais aqui. 

 Curtindo a música Aqui Alagoas e o álbum Cabelo de Milho (Carambola, 2002), do violonista, cantor e compositor Ibys Maceioh. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE – Les vertus sont à pied, le vice est à cheval, verso de um epigrama anônimo francês que se tornou proverbial por satirizar que as virtudes estão a pé e o vício está a cavalo. Veja mais aqui.

ESPÍRITO APOLÍNEO E DIONISÍACO – No livro A origem da tragédia (Guimarães, 1954), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), destaco o trecho em que: Teremos dado um grande passo, e promovido o processo da ciência estética, quando chegarmos não só à indução lógica, mas também à certeza imediata, deste pensamento: a evolução progressiva da arte resulta do duplo caráter do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco, tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio de lutas, que são perpetuas e por aproximações que são periódicas. Tais designações, fomos nós busca-las aos gregos. Foram eles quem tornou inteligível ao pensador o sentido oculto e profundo da concepção artística, não por meio de noções abstratas, mas com auxilio das figuras altamente significativas do mundo dos seus deuses. É, pois, às suas duas divindades das artes, a Apolo e a Dionisos, que se refere a nossa consciência do extraordinário antagonismo, tanto de origens como de fins, que existe no mundo grego entre a arte plástica ou apolínea e a arte sem formas ou musical, a arte dionisíaca. Estes dois instintos impulsivos andam lado a lado e na maior parte do tempo em guerra aberta, mutuamente se desafiando e excitando para darem origem a criações novas, cada vez mais robustas, para com elas perpetuarem o conflito deste antagonismo que a palavra arte, comum dos dois, consegue mascarar, até que por fim, devido a um milagre metafísico da vontade helênica, os dois instintos se encontrem e se abraçem para, num amplexo, gerarem a obra superior que está ao nosso tempo apolínea e dionisíaca – a tragédia ática. [...]. Veja aqui e aqui.

SÓROR FILOMELA – No conto Soror Filomela (Cultrix, 1962), do escritor do Modernismo nicaraguense Rubén Darío, destaco o trecho: - Já está feito, com todos os diabos! – rugiu o gordo empresário, dirigindo-se à mesinha de mármore onde o pobre Tenório afogava sua amargura no opalino corpo de absinto. O empresário, esse famoso Krau – não conhecia por acaso o seu soberbo nariz, uma joia de coral pintado de um ruivo alcóolico? – pediu o seu absinto com pouca água. Depois, enxugou o suor da teste e, dando um murro na mesa, que fez tremerem a bandeja e os copos, deu à língua: - Sabe, Barlet? Estive lá durante toda a cerimonia; presenciei tudo. Para dizer a verdade, foi uma coisa comovedora... a gente não é feita de ferro... Contou-lhe o que tinha visto: a bonita pequena, que era a joia de sua companhia, tomar o ver, sepultar a beleza num convento, professar, com o vestido escuro de religiosa, a vela de cera na mão branca. Depois os comentários daquela gente: - Uma cômica feito freira! Isto é difícil de engolir! Barlet – o namorado romântico – olhava o teto e bebia a pequenos goles. [...]. Veja mais aqui.

SONETO LUXURIOSO – Entre os Sonetos luxuriosos (Companhia das Letras, 2011), do poeta Pietro Aretino (1492-1556), destaco: I - Mais que sonetos este livro aninha, / Mais que éclogas, capítulos, canções. / Tu, Bembo ou Sannazaro, aqui não pões / Nem líquidos cristais e nem florinhas. / Marignan madrigais não escrevinha / Aqui, onde há caralhos sem bridões, / Que em cu ou cona lépidos dispõem- se / Como confeitos dentro da caixinha. / Gente aqui há que fode e que é fodida, / De conas e caralhos há caudal / E pelo cu muita alma já perdida. / Fode-se aqui com graça sem igual, / Alhures nunca assaz reproduzida / Por toda a jerarquia putanal. / Enfim loucura tal / Que até dá nojo essa iguaria toda, / E Deus perdoe a quem no cu não foda. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

TEATRO RENASCENTISTA – O poeta italiano Ludovico Ariosto (1474-1533), é autor da obra capital Orlando furioso (1516), epopeia feérica e tragicômica, publicada a principio em 40 cantos, acrescidos de outros seis posteriormente. Em Morgante (1481), os elementos do enredo cavalheiresco são pretexto para fazer como o povo, ridicularizando sua credulidade nas façanhas da gesta medieval. Em suas obras ele confessa suas inclinações pessoais para a vida familiar e meditativa, ironiza os costumes da época e exprime, ainda que sem rancor, seu descontentamento pelas espinhosas funções que lhe haviam destinado o cardeal Ippolito e o duque Alfonso. Suas comédias Os supostos (1509) e O necromante (1520), calcadas em Plauto e Terencio, tem o mérito de iniciar a assimilação convincente dos modelos clássicos ao ambiente da Renascença, constituindo a primeira manifestação relevante do gênero na Itália. Veja mais aqui, aqui e aqui.

UN LONG DIMANCHE DE FIANÇAILLES – O filme Un long dimanche de fiançailles (Amor Eterno, 2004), dirigido pelo cineasta e roteirista francês Jean-Pierre Jeunet, conta a história ocorrida após o fim da primeira guerra mundial, quando uma jovem aguarda notícias sobre seu noivo e fica sabendo que ele fez parte de um grupo de cinco soldados que, individualmente, provocaram a sua própria mutilação, para que deixassem a frente de batalha da guerra. Os cinco são condenados à morte pela corte marcial e, após serem levados para uma trincheira francesa, são deixados à morte no território existente entre o local em que estavam e a trincheira alemã. Apesar de todos serem considerados mortos pelo exército francês, ela acredita que ele está vivo e inicia, por conta própria, uma busca por pistas que confirmem isso. O destaque do filme fica por conta da atriz francesa Audrey Tautou. Veja aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte de Maria Luisa Persson. 
Veja mais aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição é dedicado à lindamiga e maravilhosa atriz, cantora e escritora Kiki Sudário. Veja aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.


domingo, outubro 11, 2015

MOZART, CLARICE, BILAC, JOMAR, WATTEAU, TAUTOU, QUADRINHOS. BRINCARTE DO NITOLINO & DOMINGO DE CRIANÇA!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DOMINGO DE CRIANÇA ETC & TAL – No quintal dos milagres, todo dia era dia de Sol. E quando chovia na minha infância, a varanda virava quintal, às escondidas, claro, só quem sabia era eu e o meu amigo invisível. Também a turma que aparecia como resultado das minhas trelas e tretas. E essa turma aumentava todo dia com os que fugiam dos circos, dos desenhos animados e dos gibis, trazidos pelos redemoinhos que um saci fazia pulando academia e que queria ser deputado pra ir na ONU reclamar das mazelas dos homens que fazem muita besteira acabando com tudo. Pra você ter uma ideia, desses redemoinhos apareceu o Carlito com seu chapéu coco e bengala, o Dom Quixote procurando seu cavalo, o Fred Flintstone com seu Yababadou e até o jacaré-do-tanque-da-praça-Maurity que eu imitava-lhe com o canto do olho e virou meu navio pras estripolias no Rio Una. Depois vinha a Turma do Falange Falanginha Falangeta – Mindinho, Seu-Vizinho, Maior-de-Todos, Fura-Bolos e Cata-Piolho -, o Lobisomem Zonzo com seus amigos Gordim, Bichim, Maluquim e Jeguim; o Cravo e a Rosa que viviam arengando; o indiozinho caeté Alvoradinha e toda Turma do Brincarte. Em dia de travessuras, a gente se reunia embaixo do pé de jaboticaba, rodando peão de venta arrebitada, jogando futebol de bola de meia, ou participando de um concurso de estórias inventadas na hora para ver qual a que era da maior aventura, ou num programa de auditório para ver quem era o melhor calouro ou artista do dia. Todo santo dia eu chegava lá todo arrumado com meu paletozinho branco, calçando minha bota-sete-léguas, um penico na cabeça e nu da cintura pra baixo – era um homem feito, pra mim -, falando pelos cotovelos e mandando em tudo. E com as minhas mãos sobre o guarda-chuva que ganhei de Pai Lula, enfincado no chão e que, em verdade, era tanto o meu cajado de autoridade como o meu paraquedas disfarçado, eu soltava pilhérias e pirraças inventando histórias que saiam do faz-de-conta para acontecerem ali na hora. Nisso o zig-zig era o meu helicóptero e com quem eu estava aprendendo a voar para virar super-heroi, o SuperNito! E outros tantos milagres que bastava eu querer, zás! E acontecia mesmo. O super-heroi principal era meu pai que nem sabia dos seus superpoderes nem que participava assim de fato da nossa algazarra. A gente só falava das suas façanhas nas vitórias de guerras contra os malfeitores na defesa dos pobres e oprimidos. Pois é, ali no quintal acontecia de tudo, afinal, era o Quintal dos Milagres, onde até bruxas ruizinhas me saiam à cabeça, e que castigadas viravam boazinhas nas estórias mais sem pés nem fins, com castelos imensos e discos voadores nos mais diversos cenários. De vez em quando a gente fugia furtivamente pra beira do Rio Una, jogando pedras na correnteza pra fazer galos-d’água e acordá-lo pra levar a gente até o Atlântico ou soltando farelos de pão pros acaris e traíras darem sinal de vida e engrossarem a trupe das presepadas. Quando não, eram Maiquim e Marcelo que vinham e não acreditavam em nada disso nem que isso tudo acontecia. Era que todos do meu quintal se escondiam de ninguém poder ver nem saber a maravilha que era. Somente eu e meu amigo invisível sabíamos. Nesse meu reinado todos sumiam cada vez que ouvissem a voz da minha vó Carma chamando pro lanche ou refeições, ou quando minha mãe vinha reclamando que eu estava birutando. Pai Lula mesmo já viu umas três vezes todos reunidos comigo. Até Tia Conça também e que fazia que não sabia de nada. Mas pro restante era só eu e o meu amigo invisível que vivíamos exclusivamente essas aventuras criadas pela minha invencionice. Essa era a forma de nunca me sentir só e nem de seguir nada ao pé da letra, coisa chata essa de ser e fazer como os outros querem. E mesmo que eu fosse o hominho da casa e orgulho de mãe, não era, eu gostava mesmo era de ficar levantando a barra da saia das meninas para ver-lhes ruborizadas com seus escondidos. Eram as minhas pirraças sempre reprimidas com reclamações da minha mãe e gargalhadas de Carma, e que depois eu fazia muxoxo de pouco caso. E quando era domingo, dia de acordar tarde, isso quando não virava a noite de sábado recitando O dia da criação de Vinicius, Deus meu, quanta reinação me era possível cometer pra felicidade da minha criancice. Por isso ainda sou a criança sapeca e levada da breca de sempre. E vamos aprumar a conversa aqui e aqui. 

 Imagem As crianças, do pintor do Rococó francês Jean-Antoine Watteau (1684-1721).


Curtindo o livro/cd Mozart – Os compositores (Panda, 2012), da Anna Obiols.

BRINCARTE DO NITOLINO ESPECIAL DAS CRIANÇAS – Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino para as crianças de todas as idades, a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM e com apresentação de Ísis Corrêa Naves. Na programação especial com duas horas de duração, atrações especiais chamando a meninada com Chico Buarque & Vinicius de Moraes, Turma da Mônica, Moraes Moreira, Toquinho, Lucinha Lins, Paulinho Boca de Cantor, Vida de criança, Menino da beira do rio, Balão Mágico & Djavan, Trem da Alegria, Meimei Corrêa, Disco Clube da Criança, Nita - Pais, mães, crianças e brinquedos, Galinha Pintadinha, Isabella Taviani, Chaves & muito mais No reino encantado de todas as coisas. No blog, muitas dicas de Educação, Psicologia, Direito das Crianças e Adolescentes, Teatro, Música e Literatura infantil, com destaque pro Brincar da Criança e as historias em quadrinhos dos Aventureiros do Una. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

QUASE DE VERDADE – No livro Quase de verdade (Rocco, 1982), da escritora e jornalista Clarice Lispector (1920-1977) destaco o trecho inicial: Era uma vez... Era uma vez: eu! Mas aposto que você não sabe quem eu sou. Prepare-se para uma surpresa que você nem adivinha. Sabe quem eu sou? Sou um cachorro chamado Ulisses e minha dona é Clarice. Eu fico latindo para Clarice e ela — que entende o significado de meus latidos — escreve o que eu lhe conto. Por exemplo, eu fiz uma viagem para o quintal de outra casa e contei a Clarice uma história bem latida: daqui a pouco você vai saber dela: é o resultado de uma observação minha sobre essa casa. Antes de tudo quero me apresentar melhor. Dizem que sou muito bonito e sabido. Bonito, parece que sou. Tenho um pêlo castanho cor de guaraná. Mas sobretudo tenho olhos que todos admiram: são dourados. Minha dona não quis cortar meu rabo porque acha que cortar seria contra a natureza. Dizem assim: “Ulisses tem olhar de gente”. Gosto muito de me deitar de costas para coçarem minha barriga. Mas sabido sou apenas na hora de latir palavras. Sou um pouco malcriado, não obedeço sempre, gosto de fazer o que eu quero, faço xixi na sala de Clarice. Fora disso, sou um cachorro quase normal. Ah, esqueci de dizer que sou um cachorro mágico: adivinho tudo pelo cheiro. Isto se chama ter faro. No quintal onde estive hospedado cheirei tudo: figueira, galo, galinha etc. Se você chamar: “Ulisses, vem cá” — eu vou correndo e latindo para o seu lado porque gosto muito de criança e só mordo quando me batem. Pois não é que vou latir uma história que até parece de mentira e até parece de verdade? Só é verdade no mundo de quem gosta de inventar, como você e eu. O que vou contar também parece coisa de gente, embora se passe no reino em que bichos falam. Falam à moda deles, é claro. Mas antes de começar, pergunto a você bem baixo para só você ouvir: — Está ouvindo agora mesmo um passarinho cantando? Se não está, faz-de-conta que está. É um passarinho que parece de ouro, tem bico vermelhovivo e está muito feliz da vida. Para ajudar você a inventar a sua pequena cantiga, vou lhe dizer como ele canta. Canta assim: pirilim-pim-pim, pirilimpim- pim, pirilim-pim-pim. Esse é um pássaro de alegria. Quando eu contar a minha história vou interrompê-la às vezes quando ouvir o passarinho. E a história? [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

O UNIVERSO, A VIDA & A BONECA – No livro Poesias infantis (1904), do jornalista e escritor do Parnasianismo brasileiro, Olavo Bilac (1865-1918), destaco inicialmente O universo: A Lua: / Sou um pequeno mundo; / Movo-me, rolo e danço / Por este céu profundo; / Por sorte Deus me deu / Mover-me sem descanso, / Em torno de outro mundo, / Que inda é maior do que eu. / A Terra: / Eu sou esse outro mundo; / A lua me acompanha, / Por este céu profundo... / Mas é destino meu / Rolar, assim tamanha, / Em torno de outro mundo, / Que inda é maior do que eu. / O Sol: / Eu sou esse outro mundo, / Eu sou o sol ardente! / Dou luz ao céu profundo... /Porém, sou um pigmeu, / Quer rolo eternamente / Em torno de outro mundo, / Que inda é maior do que eu. / O Homem: / Por que, no céu profundo, / Não há-de parar mais / O vosso movimento? / Astros! qual é o mundo, / Em torno ao qual rodais / Por esse firmamento? / Todos os Astros: / Não chega o teu estudo / Ao centro disso tudo, / Que escapa aos olhos teus! / O centro disso tudo, / Homem vaidoso, é Deus! Também o poema A vida: Na água do rio que procura o mar; / No mar sem fim; na luz que nos encanta; / Na montanha que aos ares se levanta; / No céu sem raias que deslumbra o olhar; / No astro maior, na mais humilde planta; / Na voz do vento, no clarão solar; / No inseto vil, no tronco secular, / — A vida universal palpita e canta! / Vive até, no seu sono, a pedra bruta... / Tudo vive! E, alta noite, na mudez / De tudo, — essa harmonia que se escuta / Correndo os ares, na amplidão perdida, / Essa música doce, é a voz, talvez, / Da alma de tudo, celebrando a Vida! E, por fim, A boneca: Deixando a bola e a peteca, / Com que inda há pouco brincavam, / Por causa de uma boneca, / Duas meninas brigavam. / Dizia a primeira: "É minha!" / — "É minha!" a outra gritava; / E nenhuma se continha, / Nem a boneca largava. / Quem mais sofria (coitada!) / Era a boneca. Já tinha / Toda a roupa estraçalhada, / E amarrotada a carinha. / Tanto puxaram por ela, / Que a pobre rasgou-se ao meio, / Perdendo a estopa amarela / Que lhe formava o recheio. / E, ao fim de tanta fadiga, / Voltando à bola e à peteca, / Ambas, por causa da briga, / Ficaram sem a boneca... E veja mais aqui e aqui.

A FLORESTA DO RAIO VERMELHO – A comédia infantil A Floresta do Raio Vermelho, do dramaturgo carioca Jomar Magalhães, conta a história de um burrinho que, cansado dos maltratos da cidade, resolve fugir sem rumo e acaba indo parar em uma selva. Chegando ali, toma conhecimento das ameaças que pairam também sobre a natureza silvestre. Até que surge um indiozinho e revela um mistério existente naquela terra que, se desvendado, irá assegurar a paz para toda fauna e flora. Em uma linguagem lúdica e bem humorada, a peça segue num crescente até chegar ao seu surpreendente desfecho. Da obra destaco o trecho: A PEÇA INICIA-SE COM UM BURRINHO ENTRANDO EM CENA APAVORADO. BURRALDINO – Não! Não e não! Eu não vou mais carregar carroça pra ninguém! Eu protesto! Eu me recuso! Quem quiser que compre um carro ou então que vá de ônibus, mas eu é que não vou mais servir de burro de carga!  Onde já se viu? Viver puxando carroça pra cima e pra baixo e ainda por cima levando chicotadas!? Onde está o Estatuto com os direitos dos burros, dos cavalos e dos jumentos? Ou erá que eu vou ter que viver pastando a vida toda? Ah, sim! Pois agora quem quiser conforto que vá de “táxique” porque a partir de hoje só se me pagarem! Isso mesmo! Pra cada quilômetro cavalgado, um quilo de capim gordura bem passado. Tão pensando o que? Que eu sou burro? Ora! Pois bem, agora eu quero ver se eles me encontram aqui no... aqui na... Ei! Onde é que eu estou!?      FLORINDA, A ÁRVORE, CUMPRIMENTA BURRALDINO. FLORINDA – Olá, burrinho! BURRALDINO – Ai! Socorro! Quem está falando? FLORINDA – Sou eu aqui, atrás de você! BURRALDINO – Atrás de mim? FLORINDA – (balança os galhos) Aqui, ó! BURRALDINO – Ué! Uma árvore? Eu pensava que as árvores só conversassem com outras árvores! FLORINDA – É verdade. As árvores conversam com outras árvores, os animais com outros animais e os homens com outros homens. Mas hoje é necessário que todos falem a mesma língua para que todos possam sobreviver. O meu nome é Florinda, e o seu? BURRALDINO – O meu é Burraldino Jumentino da Silva. FLORINDA - Por que você fugiu dos homens, Burraldino? BURRALDINO – Ora, “por quê”? Porque eu não sou burro, né! Quer dizer; sou... mas seria ainda mais se deixasse eles me maltratar. FLORINDA – Então vocês na cidade têm sido maltratados? BURRALDINO – Depende. Alguns recebem tratamento melhor do que os seres humanos; já outros, mal conseguem sobreviver. FLORINDA – Pois é, alguns homens pensam que nós não temos sentimento. Aqui na Floresta do Raio Vermelho a situação não está nada melhor. BURRALDINO – Floresta do que? FLORINDA – Floresta do Raio Vermelho. Ela tem esse nome porque dizem que antigamente, quando os animais e vegetais viviam em paz, a luz do sol era tão mais forte e tão mais bonita que os raios chegavam a ser vermelhos. Hoje eu acho que o sol ficou mais triste e os seus raios já não são tão vermelhos. BURRALDINO – Por que o sol se entristeceu? FLORINDA – Porque parece que alguns homens perderam o respeito pela natureza e se esqueceram que também fazem parte dela e precisam dela pra sobreviver. São capazes de sacrificar tudo em favor do que eles chamam de progresso. Invadem florestas, matam os animais, poluem os mares e rios, queimam as matas, cortam as árvores... ai! É um horror! BURRALDINO – Você já foi cortada? FLORINDA – É claro que não. Você não está me vendo aqui? Mas também quando chegar a minha vez eu vou ter que aguardar muda e imóvel o sofrimento. Você ainda pode correr, eu não. BURRALDINO – Mas também se você corresse eles iriam querer que você puxasse carroça. FLORINDA – É bem provável... mas é por tudo isso que os animais daqui querem tomar uma providência. BURRALDINO – Providência? Que providência? FLORINDA – Ainda não sei, mas o leão convocou uma reunião para hoje com todos os animais. BURRALDINO – Ah, sim, o leão... (pânico) Hein!? O que foi que você disse? Um leão!? Então eu vim parar no meio de uma selva!? Oh não! (reza) Por favor, São Burraldo, protetor dos burros! Tenha dó desse pobre infeliz que vai ser devorado por um leão! FLORINDA – Ei! Pare com isso, Burraldino! Ninguém vai te devorar. BURRALDINO – Ai, meu Deus! Que saudade da cidade! Que vontade de puxar carroça! Por que eu vim parar aqui nesse fim de mundo? Dona Quebra Galho, por onde é o caminho de volta? FLORINDA – O meu nome não é Quebra Galho, é Florinda. Agora pare com todo esse pânico porque não há necessidade pra isso! BURRALDINO – Se há necessidade ou não eu não sei. O que eu sei é que eu vou dar no pé agora mesmo! (inicia a retirada) Ué, por onde foi mesmo que eu entrei? Será que foi por aqui? Ou será que por aqui? Não, eu acho que... OUVE-SE ESTRONDOS COMPASSADOS. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

THERESE D – O filme Therese D (2012), dirigido pelo escritor, ator, produtor e diretor de cinema francês Claude Miller (1942-2012), é baseado no romance Thérèse Desqueyroux do escritor francês e prêmio Nobel de Literatura de 1952, François Mauriac (1885-1970), conta a historia que ocorreu no final de 1920, na França, em que uma mulher concorda com um casamento de conveniência entre famílias ricas, casando-se com um rico proprietário de terras. O marido é um homem local com uma paixão pela caça e defender com convicção as tradições familiares. No entanto, ela se torna sufocada pela monotonia de sua vida de casada e dá à luz a uma filha, mas o seu tédio parece crescer a cada dia. O marido acometido de uma doença estranha, dá a oportunidade dela a tentativa de envenená-lo, quando é descoberta, passando a enfrentar a Justiça. O destaque do filme é a atuação da belíssima e premiada atriz francesa Audrey Tautou. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Os heróis dos quadrinhos do escritor e editor estadunidense Joe Simon (1913-2011)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico, a partir do meio dia, no blog do Projeto MCLAM, com a reprise de toda programação da semana e apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!
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quinta-feira, novembro 22, 2007

MARIO DE ANDRADE, HARTMANN, ROGER CHARTIER, FELIPE COELHO, TAUTOU, HELENA FERREIRA, ROSI CAMPOS, SERVIDOR PÚBLICO & MUITO MAIS!!



O TOCO DO BARNABÉ - Meus diletos amigos e amigas, temo não ter morrido do coração ou acometido de alguma sequela braba que venha me estuporar depois. Sabem, esta semana tive que buscar de instituição pública para resolver algumas pendências. Patético, pois é, para quem precisa, tudo é demorado. E isso me deixa mais a contragosto que o razoável. Vou começar a remoeta. O expediente começa às oito, e às sete você já está lá no fim da fila. Quando escancaram os portões, o vigilante ainda sai escolhendo quem entra primeiro, claro, o que já ganhou sua simpatia ($$$). Quando entra, ninguém, só os birôs. Nunca vi raça andar mais atrasada que essa. Ao chegarem aos poucos, manzanza, pacutia, conversam uns com os outros, soltam pilhérias, jogam confete, fazem mangação, tudo isso sem olhar ao redor o enfileiramento abundante. E o comentário entre eles, cada qual provando profundos conhecimentos de assíduo telespectador das telelágrimas e enlatados televisivos. - Você viu o capítulo da novela de ontem? E o Ratinho? O vestido da Hebe estava lindo! Notou que o Sílvio Santos está mais velho, mulher? E a bomba: o Gugu vai casar! Ui! Ah, mas o pior de tudo é a espera, mas nunca ali onde será atendido, terá obviamente de enfrentar outra fila e novas mungangas. O atendimento público de qualquer instituição governamental é de dar nos nervos, tudo na escora enquanto a gente seca os cambitos. Quem nunca teve de deitar um molha-mão a um desses insensíveis birozados, que se valem da burocracia sistêmica para ampliar ainda mais as dificuldades? Parece acertado o que disse Angélica de Moraes: herdeiros da mentalidade nascida com a monocultura extrativista e predatória da urgência de lucro. Ou como inquiriu Marcio Marciano: o dinheiro é o pai de todas as medidas? Olhem, quando há necessidade de algo no Detran, me dá logo impaciência; delegacia, urticária; prefeitura, náuseas; banco oficial? E a Caixa Econômica em dia de pagamento de aposentado? É covardia! Escola pública? Nunca que vi tanta gente contraproducente junta! A turma da roda-presa está lá: encastelados, donos da situação e botando empecilho até para responder qualquer informação, enquanto a gente fica no coarador com a maior cara de tacho. Dá vontade de baixar o calão. O carne de pescoço faz até careta para apontar que é ali do outro lado, se livrando logo da nossa impertinência e tratando a gente como uma mala sem alça ou uma mercadoria sem nota. O negócio é tão sério que ouso perguntar a quem sempre viaja, nunca teve de soltar um toco a um patrulheiro rodoviário (no Rio Grande do Norte tem parada obrigatória para se utilizar deste expediente compulsório); quem, no comércio, nunca deu uma bola a um fiscal de renda? Quem nunca precisou de qualquer certidão da justiça e não teve que oferecer propina para atalhar os óbices? Quem ingressou numa junta trabalhista e não ficou por anos esperando um despacho porque a classe patronal soltou gorjeta pra todo mundo ali? Esse é o quadro "saudável" da nossa instituição pública, enquanto as nossas tensões e anseios são banalizados. Mas o pior foi que precisei de ir na prefeitura. Lá, na hora, dei de cara com um Bolinha que fica no atendimento que faz de tudo, menos atender, aboletado na sua mesona limpíssima, arrodeado por requerentes impacientes, nem aí. Enquanto isso ele fiscaliza se as unhas estão limpas, sopra na palma da mão verificando o teor da halitose, troca de meias (!?!?!), folheia jornal, aponta lápis, penteia o cabelo, alisa a mesa, impassível, num levanta nem o olho para ver a cara da gente transida. É só você pegar um real, ele olha de soslaio, inerte; cinco reais, ele franze o cenho; dez, ar de desconfiado; 50, ele arregaça a manga, ajeita o colarinho, tosse; 100, ele mete a mão e procura saber qual é a bronca. Pronto! Abriu-se a porta do céu. Tem nada não, é assim que o serviço público brasileiro trata o povo com letargia e quando entra um rico ali, tremem nas bases e se engasgam de um abalo estrondoso de dilatar a escala Richter pra mais de 10. É uma babaovice nojenta. Os barnabés do retrocesso ainda sentam nos birôs cultuando a incompetência no serviço público, isso ainda hoje, perenizando a fealdade das condutas escusas. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: Garden nude, da artista plástica Anna Rose Bain.


Curtindo o álbum Cata Vento (2009), do violonista Felipe Coelho – Prêmio Circuito Funarte 2010. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE – O sábio encontra a sabedoria em todas as coisas, até mesmo na conversa de uma criança; mas o tolo vê a sua própria imagem em todo lugar, frase atribuída ao célbre escritor teosófico do Sem-conceito alemão, Franz Hartmann (1838-1913). Veja mais aqui.

O LEITOR E O NAVEGADOR – A obra Aventura do livro – do leitor ao navegador (Unesp/Imesp, 1999), do historiador francês Roger Chartier, trata sobre temas que envolve autoria com relação à punição e proteção, o texto e o editor, o leitor e as limitações da liberdade, a leitura em relação à falta e o excesso, a biblioteca entre reunir e dispersar, o numérico como sonho de universal, entre outros assuntos. Do livro destaco o trecho: [...] O leitor da tela assemelha-se ao letor da antiguidade: o texto que ele lê corre diante dos seus olhos; é claro, ele não flui tal como o texto de um livro em rolo, que era preciso desdobrar horizontalmente, já que agora ele corre verticalmente. De um lado, ele é como o leitor medieval ou o leitor do livro impresso, que pode utilizar referências como a paginação, o índice, o recorte do texto. Ele é simultaneamente esses dois leitores. Ao mesmo tempo, é mais livre. O texto eletrônico lhe permite maior distancia com relação ao escrito. Nesse sentido, a tela aparece como ponto de chegada do movimento que separou o texto do corpo. O leitor do livro em forma de códex coloca-o diante de si sobre uma mesa, vira suas páginas ou então o segura quando o forno Oriente, permanece mais familiar uma ligação forte entre texto e imagem, gravados sobre o mesmo suporte. Esta técnica, além do vinculo mantido com o texto manuscrito, apresentava notáveis vantagens: ela permitia uma espécie de edução conforme a demanda, já que as tábuas, de uma resistência duradoura, podiam ser conservadas por muito tempo, enquanto as composições tipográficas deviam ser desfeitas a fim de utilizar os caracteres para compor outras formas. Não se deve portanto julgar as técnicas não ocidentais a partir de nossa suposta superioridade técnica. [...]. Veja mais aqui.

CAIM, CAIM E O RESTO – No livro Belazarte (1934), do escritor Mario de Andrade (1893-1945), encontro o conto Caim, Caim e o resto, do qual destaco o trecho:  Belazarte me contou: Talvez ninguém reparasse, nem eles mesmo, porém foi sim, foi depois daquela noite, que os dois começaram brigando por um nada. Dois manos brigando desse jeito, onde se viu! E dantes tão amigos... Pois foi naquela noite. Sentados um a par do outro, olhavam a quermesse. O leilão estava engraçado. O Sadresky dera três milréis por um cravo da Flora, êta mulatinha esperta! Também com cada olhão de jabuticaba rachada, branco e preto luzindo melado, ver suco de jabuticaba mesmo... onde estará ela agora? até com seu doutor Cerquinho!... — Você foi pagar a conta pra ele, Aldo? — Já. Contemplavam o povo entrançado no largo. Seguiam um, seguiam outro, pensando só com os olhos. Nem trocavam palavra, não era preciso mais: se conheciam bem por dentro. De repente viraram-se um pro outro como pra espiar onde que o mano olhava. Aldo fixou Tino. Tino não quis retirar primeiro os olhos. Olho que não pestaneja cansa logo, fica ardendo que nem com areia e pega a relampear. Quatro fuzis, meu caro, quatro fuzis de raiva. Nem raiva, era ódio já. Aldo fez assim um jeito de muxoxo pro magricela do irmão, riu com desprezo. Tino arreganhou o focinho como gato assanhado. Se separaram. Aldo foi falar com uns rapazes, Tino foi falar com outros. As vinte-e-duas horas tudo se acabava mesmo... voltaram pra casa. Mas cada qual vinha numa calçada. Braço a torcer é que nenhum não dava, não vê! Dentro do quarto brigaram. Por um nadinha, questão de roupa na guarda da cama. Dona Maria veio saber o que era aquilo espantada. Foi uma discussão temível. Da discussão aos murros não levou três dias. E por quê? Ninguém sabia. A verdade é que a vida mudou pra aqueles três. Inútil a mãe chorar, se lamentar, até insultando os filhos. Quê! nem si o defunto marido estivesse inda vivo!... Pegou fogo e a vida antiga não voltava mais. E dantes tão irmãos um do outro!... Aldo até protegia Tino que era enfezado, cor escura. Herdara o brasileiro do pai, aquela cor caínha que não dava nada de si e uns musculinhos que nem o trabalho vivo de pedreiro consertava. Quando tirava fora a camisa pra se lavar no sábado, qual! mesmo de camisa e paletó, as espáduas pousavam sobre o dorso curvo como duas asas fechadas. E era mesmo um anjo o Tino, tão quietinho! humilde, talhado pra sacristão. Cantava com voz fraca muito bonita, principalmente a Mamma mia num napolitano duvidoso de bairro da Lapa. Quando depois da janta, fazendo algum trabalhinho, lá dentro ele cantava, Aldo junto da janela sentia-se orgulhoso si algum passante parava escutando. Si o tal não parava, Aldo punha este pensamento na cachola: “Esse não gosta de música... estúpido.” Que alguém não apreciasse a voz do Tino, isso Aldo não podia pensar porque adorava o mano. Era bem forte, puxara mais a mãe que o pai. Só que a gordura materna se transformava em músculos no corpo vermelho dele. Pois então, percebendo que os outros abusavam do Tino, não deixava mais que o irmão se empregasse isolado, estavam sempre juntos na construção da mesma casa. Ganhavam bem. Naquela casinha do bairro da Lapa, a vida era de paraíso. Dona Maria lavava o que não dava o dia. O defunto marido, uma pena morrer tão cedo! fora assinzinho... Homem, até fora bom, porque isso de beber no sábado, quem que não bebe!... Paciência, lavando também se ganha. Além disso, logo os filhos tão bonzinhos principiaram trabalhando. Si a Lina fosse viva... que bonita!... Felizmente os filhos a consolavam. Lhe entregavam todo o dinheiro ganho. Gente pobre e assim é raro. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

SOU PUTA – Entre os poemas da renomada A renomada tradutora e professora carioca Helena Ferreira, destaco a sua poesia Sou Puta: Sou puta / Quando uso a boca vermelha / Meu salto agulha / E meu vestido preto. Sou puta / Mordo no final do beijo / Não fico reprimindo desejo / E nem me escondo na aparência de menina. / Sou uma puta de primeira / Acordo às 6:30 / Pego ônibus debaixo de chuva / Não dependo de salário de macho / E compro a pílula no final do mês. / Sou uma puta com P maiúsculo / Dispenso o compromisso / Opto pela independência / Não morro de amor/ Acordo sozinha / Cresço sozinha / Vivo na minha / Bebo em um bar de esquina / Vomito no chão da cozinha. / Sou uma putinha / Passo a noite em seus braços / Mas não me prendo no laço / Que você quer me prender. / Sou puta / Você tem o meu corpo / Porque eu quis te dar / E quando essa noite acabar / Eu não vou te pertencer/ E se de mim você falar / Eu não vou me importar / Porque um homem que não me faz gozar / Nunca terá meu endereço. / E não é gozo de boceta / É gozo de alma / É gozo de vida / É me fazer sentir amada / Valorizada / E merecida / E se de puta você me chamar / Eu vou agradecer./ Porque a puta aqui foi criada / Por uma puta brasileira / Que ralava pra sustentar os filhos / E sofria de racismo na feira/ Foi espancada e desmerecida / E mesmo sofrida / Sorria o dia inteiro / Uma puta mulher ela foi/ E puta também eu quero ser. / Porque ser mulher independente / Resolvida / Segura/ Divertida / Colorida / E verdadeira / Assusta os homens/ E os machos / Faz acontecer um alvoroço./ Onde já se viu mulher com voz? / Tem que ser prendada e educada/ E se por acaso for "amada" / Tem direito de ser morta pelo parceiro / Cachorra adestrada pelo povo brasileiro / Sai pelada na revista / Excita / Dança / Bate uma/ Cai de boca / Mama ele e os amigos / E depois vai ser encontrada num bueiro/ Num beco/ Estuprada / Porque tava de batom vermelho / Tava pedindo / Foi merecido/ E se foi crime "passional"/ Pobre do rapaz / Apaixonado estragou a própria vida. / Por isso que eu sou puta/ Porque sou forte/ Sou guerreira/ Não sou reprimida/ Nem calada / Sou feminista / Sou revoltada/ Indignada / E sou rotulada assim / Como PUTA! / Então que eu seja puta / E não menos do que isso. Veja mais aqui.

O GATO PRETO – Em 2002, tive oportunidade assistir no Teatro da Usp (TUSP), em São Paulo, à montagem da comédia musical O Gato Preto, com textos de Frigyes Karinthy. Konrad Tom e Maisa Aché, direção de Circo Grafitti, inspirada em textos e canções do gênero cabaré, narrando os últimos momentos de duas personagens famosas: Joana D’Arc e Margherite de A dama das camélias. O destaque do espetáculo ficou por conta da atriz Rosi Campos. Veja mais aqui.

BEM ME QUER, MAL ME QUER – O drama psicológico Bem me quer, mal me quer (À la folie ... pas du tout, 2002), dirigida por Laetitia Colombani, conta a historia de uma erotomania de uma jovem estudante de arte que trabalha num café e que se apaixona por um médico casado que é vizinho a um trabalho que ela realiza em casas de família de férias. Toda uma história é desenvolvida por uma questão de abandono por parte dele, que além de casado, causa revolta nela e noutras pessoas. A partir daí o filme é rebobinado e a mesma história é contada sob outro ângulo, o que causa grande surpresa no expectador. O destaque do filme vai para atuação da atriz e modelo francesa Audrey Tautou. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz e modelo francesa Audrey Tautou

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O amor entre animais, As trelas do Doro, Sêneca, Aretusa, Reri Grist & Ísis Nefelibata aqui.

A mulher que escreveu a Bíblia, Erich Fromm, Moacyr Scliar, Menotti Del Picchia, Rimsky-Korsakov, Akira Kurosawa & Jean-Hippolyte Flandrin aqui. 

Alexander Scriabin, Arquitas de Tarento, Artur Azevedo, Francisco Quevedo, Adrian Lyne, Richard Stainthorp, Glenn Close, Charles Knight, Renata Zhaneta & Clevane Pessoa de Araújo Lopes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: fotografia de Albert Arthur Allen
Veja aqui e aqui.

SHAILJA PATEL, JAY KRISTOFF, AYAAN HIRSI ALI & MARCELO GOMES

    Imagem: Acervo ArtLAM . Boboca pelas fantasmagorias do ciclo circadiano… - João Pila tinha muitos sonhos, todos de olhos abertos; n...