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sexta-feira, setembro 04, 2015

CHAUÍ, ARTAUD, BRUCKNER, INGRES, GUITRY, NOBRE, ANGELI & POLA RIBEIRO.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? COÁGULOS, COÁGULOS - Era uma vez. Era uma vez. Era uma vez duas três vezes, mais provável que nenhuma na inexistência do flagra do minuto preciso na minha vida inexata na hora em ponto! Era uma vez. Era uma vez. Era uma vez duas três vezes, mais provável que a justiça num pote encarcerada, mais provável que a remissão da lágrima na face lavada! Mais provável que nenhuma porque foi pingando na veia, escorrendo pela biqueira do peito, pela cumeeira dos sonhos evaporando desejos que findavam sangrando as ruínas do meu tempo! Do meu tempo caótico, do meu tempo patético, do meu tempo dilacerado! Eu escondo em meu peito as ruínas do meu tempo! Esse tempo apoliptico, megalomaníaco, irrespirável, fantástico de horror. Cheio de pantins, frescuras, teréns, loucuras!´Feito uma semente num invólucro das possibilidades improváveis no meio de flâmulas matemáticas de signos secretos e farsantes e alusões absurdas! Sou apenas dois braços de espera no suor redimido porque da morte já arrastei ferros e o mundo é apenas as minhas mãos enterradas no blusão, o sonho estiado e a alegria transferida para alhures. Em meu peito não cabe o pacto da pátria desfeita a terra acumulada e o homem obliterado a sujar as mãos na carne da terra e na paixão dos limites jamais alcançados pela ambição dos sentidos enquanto a lama da boca sugere traduzir amor, a boca de aço sugere traduzir amor engolindo desejos, sugere traduzir amor debulhando prazeres como o se o desejo esganasse miragens e é verdade porque o coração quer dizer verdades ou meias e não sabe o que dizer diante dessa tragédia toda. Em meu peito não cabem jamais as síndromes da China, dos afegãos, dos bancos e das cabeças! Não cabem as claques de merda pros oligopólios em alcatéias transnacionais com seu delirium-tremens do consumo no meio de uma economia falida emergindo sobre o sangue dado como aquele da escravaria açucarocrata que adoçava e adoça a boca dos festeiros enquanto a minha dor desmedida, enquanto a minha dor comungada é repisada e vira graúda criando coágulos por todo o meu corpo! E que me esfolem e me esganem pelos metros profundos dos infernos dessa terra porque mesmo assim ainda continuo a erguer cantos sobre este mundo porque das torneiras citadinas jorram sangue inocente adubados nas terras perdidas por hectares infames que só afugentam quem dela vive e morre de fome no meio de outro sonho perdido na pulsação das turbinas e outra coisa com uma marcha escabrosa de botas que guardam o patrimônio dos ricos com lesões homicidas quando outro é o meio do meio-dia e a indigência e outras são as pastilhas de carbono e o frio asfixiante da febre. Já nada é suportável neste tempo de lama e podridão e nada vale a pena e vale a pena tragar o hálito dos alicates grosseiros e compartilha da fome dos órfãos de El Salvador e da dor das mães da Praça de Mayo e dos flagelados da seca e da exclusão social do Brasil mundializado para furor inadimplente de assalariados e estornados das promessas não cumpridas de todas as políticas de mentira! Avante pra onde? Já não mendigo a vida pelos infortúnios, mazelas, porqueiras nem a devoção cega das crenças mutiladas nem da vil matéria lânguida e escassa espremida no dia-a-dia sarcófago de totens de sempre e tabus de nada! Eu vou com meu corpo cheio de holocaustos e cataclismos e o punhal da vida me avassala e maldigo a terra ficam as sombras vãs que atormentam minha sanidade e os meus desejos remendados na alegria mal-assada com os recheios fugazes que findam na dor, mas se a dor não traz nada, parafraseando Gregório, é porque enfim leva tudo e deixa a mão espalmada ao jugo da palmatória da vida! Eu vou com a chuva que explode lá fora onde a cidade sustenta seus fantasmas que pulam nas praças ruas avenidas e becos e bares e vidas sem no entanto se furtarem a pelo menos aprumarem a vida dos seus fiéis lambe-botas enquanto eu me embriago na chuva coletando os segredos dos rios com sua correnteza mansa escondendo o alvoroço do fundo e tudo encharca o meu país enxaguando essa terra embebida de sangue e suor, enxertada de sangue e suor e se dana como uma pólvora guardada no peito com o mísero crepúsculo que traz a noite e a vida já se foi pela janela e só resta cigarro e bebida e a loucura de se embriagar engolindo a ocasião inteira! Era uma vez.  Era uma vez duas três vezes. mais provável que nenhuma na sóbria ou na lúcida vontade de se perder na metafísica do espaço no meio da prismática reluzência da catarse e na carismática inocência da poesia úmida lavando a estatística do cansaço que só consegue seguir aonde vai dar dali pra diante no ignoto mudo da urdidura do vácuo. Era uma vez. Era uma vez duas três vezes, mais provável que nenhuma e sobre este mundo erguer cantos, sim! Em meu canto há minha maldição, eis o meu suor, a minha maldição: as lajes, a comunhão, o inusitado, o paradoxal, o álcool, o beijo molhado, o adeus, o agasalho, a mão meiga, a dor amedrontada, a culatra, a pulsação, o medo e a agonia. Assim me foi concedido. (Coágulos, coágulos, Luiz Alberto Machado. Primeira Reuniã. Recife: Bagaço, 1992). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagem: The source (A fonte – óleo sobre tela, 1820-1855), do pintor e desenhista Romantismo francês Dominique Ingres (1780-1867). Veja mais aqui.


Curtindo a Symphony Nº 6 (EMI GROC), do compositor austríaco Anton Bruckner (1824-1896),c om a New Philharmonia Orchestra & Otto Klemperer & lendo O menestrel de Deus – Vida e obra de Anton Bruckner (Algool, 2009), do jornalista e crítico musical Lauro Machado Coelho.

MITO FUNDADOR – O livro Brasil, mito fundador e sociedade autoritária (Fundação Perseu Abramo, 2000), da filósofa e educadora brasileira Marilena Chauí, trata de fé e orgulho, a nação como semióforo, o verdeamarelismo, o centenário, o mito fundador, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Ao falarmos em mito, nós o tomamos não apenas no sentido etimológico de narração pública de feitos lendários da comunidade (isto é, no sentido grego da palavra mythos), mas também no sentido antropológico, no qual essa narrativa é a solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade. Se também dizemos mito fundador é porque, à maneira de toda fundatio, esse mito impõe um vínculo interno com o passado como origem, isto é, com um passado que não cessa nunca, que se conserva perenemente presente e, por isso mesmo, não permite o trabalho da diferença temporal e da compreensão do presente enquanto tal. Nesse sentido, falamos em mito também na acepção psicanalítica, ou seja, como impulso à repetição de algo imaginário, que cria um bloqueio à percepção da realidade e impede lidar com ela. Um mito fundador é aquele que não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e idéias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo. Insistimos na expressão mito fundador porque diferenciamos fundação e formação. Quando os historiadores falam em formação, referem-se não só às determinações econômicas, sociais e políticas que produzem um acontecimento histórico, mas também pensam em transformação e, portanto, na continuidade ou na descontinuidade dos acontecimentos, percebidos como processos temporais. Numa palavra, o registro da formação é a história propriamente dita, aí incluídas suas representações, sejam aquelas que conhecem o processo histórico, sejam as que o ocultam (isto é, as ideologias). Diferentemente da formação, a fundação se refere a um momento passado imaginário, tido como instante originário que se mantém vivo e presente no curso do tempo, isto é, a fundação visa a algo tido como perene (quase eterno) que traveja e sustenta o curso temporal e lhe dá sentido. A fundação pretende situar-se além do tempo, fora da história, num presente que não cessa nunca sob a multiplicidade de formas ou aspectos que pode tomar. Não só isso. A marca peculiar da fundação é a maneira como ela põe a transcendência e a imanência do momento fundador: a fundação aparece como emanando da sociedade (em nosso caso, da nação) e, simultaneamente, como engendrando essa própria sociedade (ou a nação) da qual ela emana. É por isso que estamos nos referindo à fundação como mito. O mito fundador oferece um repertório inicial de representações da realidade e, em cada momento da formação histórica, esses elementos são reorganizados tanto do ponto de vista de sua hierarquia interna (isto é, qual o elemento principal que comanda os outros) como da ampliação de seu sentido (isto é, novos elementos vêm se acrescentar ao significado primitivo). Assim, as ideologias, que necessariamente acompanham o movimento histórico da formação, alimenta-se das representações produzidas pela fundação, atualizando-as para adequá-las à nova quadra histórica. É exatamente por isso que, sob novas roupagens, o mito pode repetir-se indefinidamente. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O ESPELHO – O conto O espelho (Cultrix, 1958), do ator, cineasta e escritor russo radicado na França Sacha Guitry (1885-1957), segue transcrito: Esta aconteceu na China. Um chinês preparava-se para ir ao mercado, que fica a alguns dias de viagem. Está anoitecendo. O chinês despede-se da mulher. — Até à volta, Mel de Crisântemo. Que quer que lhe traga do mercado? — Eu queria um pente. — Um pente? Está bem. Mas eu tenho que comprar tanta coisa, como é que me vou lembrar? — Não precisará mais do que olhar para a lua. Veja: a lua é crescente. Pois bem, o pente que eu quero é exatamente da forma da lua crescente. — Até à volta. E o chinês parte. Chega ao mercado. Faz suas compras. Terminando-as, já bem tarde, lembra-se da promessa, mas não se lembra muito bem do objeto desejado pela mulher. Encontra-se, nesse momento, junto de um mercador e lhe diz: — Pois veja só: prometi levar um presente a minha mulher, mas não me lembro mais o que foi. Ah! sim, espera. Estou-me lembrando agora que ela me disse para olhar a lua. — Olhe, é lua cheia. (A lua, que estava no seu primeiro quarto no dia da partida do chinês, agora era cheia). — Deve ser um objeto redondo. E o chinês compra um espelho, paga-o, faz um pacote e põe-se a caminho para a volta. Ao chegar em casa, diz-lhe a mulher: — Bom dia, meu marido. Trouxe-me o que eu lhe pedi? — Naturalmente. Aqui está. E o chinês dá o pacote à mulher, que apressadamente o abre. Essa mulher nunca tinha visto um espelho. E vendo nele um vulto de mulher, fica indignada: — Meu marido, comprou outra mulher! E Mel de Crisântemo chora todas as lágrimas de seu pequenino coração. Os seus olhos chamam a atenção de sua mãe. — Ah! mamãe, mamãe — grita ela. — Venha ver. Meu marido trouxe para casa outra mulher. A mãe toma o espelho, olha-o e diz à filha: — Fica sossegada: é tão velha e tão feia! Veja mais aqui.

ELEGIA & SONETO, QUANDO CHEGAR A HORA – No livro Só (1892), do poeta português António Nobre, encontro inicialmente o poema Quando chegar a hora: Quando Chegar a Hora / Quando eu, feliz! morrer, / ouça, Sr. Abbade, Ouça isto que lhe peço: / Mande-me abrir, alli, uma cova / À vontade, / Olhe: eu mesmo lh'a meço... / O coveiro não poderá fazer sempre tão baixas... O não poderá ir: / Diga ao moço, que tem a pratica das sachas, / Que m'a venha elle abrir. / E o sineiro que, em vez de dobrar a finados, / Que toque a Aleluia! / Não me diga orações, que eu não tenho peccados: / A minha alma um dia! / Será meu confessor o vento, e a luz do raio / A minha Extrema-Unção! / E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!) / De padres farão. / Mas as aguias, um dia, em bando como astros, / Virão devagarinho, E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o- de rastros, / Em tiras, para o ninho! / E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio, / N'aquelle dia, ai! Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio, / Sugae! sugae! sugae! Raro tão de comer. / A pobreza consome / As aguias, coitadinhas! / Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome / A essas desgraçadinhas... / De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto: / Não me lembrei, não vi / Que tinha feito com as aguias um contrato, / No dia em que nasci. Também o seu Elegia: Ó virgens que passais, ao sol poente, / Pelas estradas ermas, a cantar: / Eu quero ouvir uma canção ardente / Que me recorde as afeições do lar. / Cantai-me, n´essa voz omnipotente, / O sol que tomba, aureolando o mar, / A fartura da seara reluzente, / O vinho, a graça, a formosura, o luar! / Cantai, cantai as límpidas cantigas! / Das ruínas do meu lar desenterrai / Todas aquelas ilusões antigas / Que eu vi morrer n- um sonho como um ai... / Ó suaves e frescas raparigas, / Adormecei-me n´essa voz... Cantai! Por fim, o seu Soneto: Meus dias de rapaz, de adolescente, / Abrem a boca a bocejar, sombrios: / Deslizam vagarosos, como os Rios, / Sucedem-se uns aos outros, igualmente. / Nunca desperto de manhã, contente. / Pálido sempre com os lábios frios, / Ora, desfiando os meus rosários pios... / Fora melhor dormir, eternamente! / Mas não ter eu aspirações vivazes, / E não ter como têm os mais rapazes, / Olhos boiados em sol, lábio vermelho! / Quero viver, eu sinto-o, mas não posso: / E não sei, sendo assim enquanto moço, / O que serei, então, depois de velho. Veja mais aqui.

OS TEMAS DO TEATRO DA CRUELDADE – Na obra O teatro e o seu duplo (Martins Fontes, 1993), do poeta, ator, dramaturgo e diretor de teatro francês Antonin Artaud (1896-1948), o autor trata dos temas inerentes ao teatro da crueldade no seu primeiro manifesto: [...] Não se trata de arrastar o público com preocupações cósmicas transcendentes. Que haja chaves profundas do pensamento e da ação pelas quais se possa interpretar todo o espetáculo, não é coisa que diga geralmente respeito ao espectador que nem por tal se interessa. Todavia, tais preocupações têm de estar presentes; e, além disso, dizem-nos respeito. O ESPETÁCULO: Não haverá nenhum espetáculo que não contenha um elemento físico e objetivo, sensível a todos. Gritos, gemidos, aparições, surpresas, golpes de teatro de toda a casta, a beleza mágica do vestuário inspirada em certos modelos rituais. Resplendor da iluminação, beleza de sortilégio das vozes, sedução da harmonia, notas raras da música, cores dos objetos, ritmo físico dos movimentos cujo crescendo e decrescendo se conjugará com a pulsação dos movimentos familiares a todos, aparições concretas de objetos novos e surpreendentes, mascaras, manequins de vários metros de tamanho, alterações bruscas da luz, ação física da luz que suscita o calor e o frio, etc. A ENCENAÇÃO – É em torno da encenação, considerada não como um simples grau de refração dum texto sobre o palco, mas como o ponto de partida de toda a criação teatral, que se constituirá a linguagem típica do teatro. E é na utilização e na manipulação desta linguagem que se dissolverá a velha dualidade do autor e do encenador, substituídos por uma espécie de criador único a quem caberá a responsabilidade dupla do espetáculo e da ação. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

JARDIM DAS FOLHAS SAGRADAS - O drama O jardim das folhas sagradas (2011), dirigido pelo cineasta, comunicador e gestor público brasileiro Pola Ribeiro, com roteiro do diretor e Henrique Andrade, conta a história de um bancário negro e bissexual bem sucedido, casado com uma mulher branca e de crença evangélica. Ele vive na Salvador contemporânea e recebe a incumbência de montar um terreiro de candomblé no espaço urbano. Para isto, enfrentará a especulação imobiliária numa cidade de crescimento vertiginoso, preconceito racial e intolerância religiosa. Este homem, embora questione a tradição da própria religião, tem a missão de montar um ambiente sagrado e de respeito à natureza, superando as contradições e conflitos trazidos pela modernidade. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Charge & capa do livro Os broncos também amam (L&PM, 2007), do chargista Angeli.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa & Verney Filho. E para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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terça-feira, março 18, 2008

CORTÁZAR, ANTÓNIO NOBRE, GRAMSCI, MESTRE ECKHART, ALAN WATTS, GILBERTO MENDONÇA TELLES, CHABAS, PSICOLOGIA, GESTÃO DO CONHECIMENTO & DORO


 
A arte do pintor e ilustrador francês Paul-Emile Chabas (1860-1937)

DORO: NO FUZUÊ DA MUNHECA - Doro não toma jeito. Indagora saiu com uma das suas. Todo serelepe manifestou seu injuriamento com a sogra, fulo com a imprevidência das leis de combate ao porte ilegal de armas. Peraí, cá prá nós: o que será que tem a ver uma coisa com a outra? Nossa, não entendi exatamente o que ele queria dizer com essa relação entre armas e sogra. Coisas do Doro, mesmo. Melhor deixar barato. Mas o lero foi daqueles bem rebuscado. Dava para buscar nos corrupios da idéia dele os tempos remotos, desde quando o hominídeo apareceu primeiro com uma maça, aquela peça pesada de madeira, ou com arcada de animal, pronto para lascar o primeiro que desse num confronto. Depois, veio o bastão. Em seguida, a acha e, daí, machados de pedra lascada, armas líticas e de ferro, arcos, lanças, adagas, aríetes, gruas, catapultas, espadas, punhais, trabucos, arcabuzes, canhões, bombas, granadas, minas e mísseis, tudo para remontar o arsenal de arenga a que o ser humano consegue sempre se fazer maiúsculo num arranca-rabo da peste! - Isso tudo, mai a minha sogra!! -, vociferou ele sem se conter. - Não entendi, Doro.... - Ih! Esse é broco mesmo! Espie: lei a gente tem que só a porra mas o povo num dêxa de si istranhar! Certo? - É, parece que é.... - Tumbém, inquanto houvé puliça e otoridade corrupta, o negóço num vai tê jeito que dê!!!! Falta mermo é vergonha na cara do povo! Nossa, o Doro estava mesmo fulo da vida. Tentei contornar, mas, besteira minha, fui atiçar fogo com vara curta e já podia adivinhar que lá vinha toleima danada. - Pode um negóço desses? -, perguntava com boçalidade enquanto eu não conseguia esconder meu desconforto mediante sua irritadiça gritaria. - Mas Doro, o Congresso Nacional agora está votando uma lei contra o uso ilegal de armas... -, tentei aprumar a conversa na minha atrevida ingenuidade. Tataritaritatá! - Tais brincano? E tu acredita nisso, é? Quem qui manda no mundo a não ser dinhêro e arma? - É... - A vida num vale nada!!!! - Eita! - Num tô dizeno: a vida num vale um tustão furado!!!! - Mas Doro... - Num tem mais nem menos Doro, tem é que amolá a munheca no maluvido dos qui num quéri tomá jeito mermo! - Então você é a favor desses tráficos, todo mundo com revólver no quarto, arrotando homência e valentia, matando tudo uns aos outros, é? - Num sô a favor de nada. Mas, ói, a quizília é da natureza humana. Todo mundo gosta de um bafafá, dum cerca-Lourenço, dum angu azedo, tudo para não perdê o prazo de validade dos estrupícios nem para deixá a coisa ficá morna sem peitica! - Quer dizer que, a seu ver, a paz é uma utopia? - Craro! Todo mundo só veve ofendido um co outro? - Eu mesmo faço parte do mundo e não vivo de litígios, Doro... - Há! Então me arresponda: tem nicissidadi de um Zé-borná quaiqué tá brigano pro causa de honra com cabôco qui apareça? Prá que inxeste acordo? - É, sei não... - Pru qui é qui todo dia omenta mais os ibope do pograma de sangui? - Porque.... - Pro que o povo gosta de ver o circo pegando fogo! - Não entendi... - O povo gosta de espetáclo, sabia? Por um acauso, pruqui é que se nasci rixa? - Desentendimentos, muitas vezes, de somenos importância... - S´a genti fô averiguá o motivo de todo renhimento vai dá no quê? - Muitas vezes interesses, intrigas, fuxicos, coisas de pouca monta... - Ranzizice mesmo!!! Por isso, todo nó só aparece quando aiguém qué dá! - Não sei se isso serve como regra geral.... - Entonse, me diga: s´a lembra daquelas época do povo todo numa arena enquanto os condenados pateta enfretava leões famintos? A mesma coisa! Quanto maió o salseiro mai o povo gosta!!! - Mas, Doro... - Arrepare bem, quem é o desinfeliz-das-costas-ocas que se livra na vida de uma paulada boa no toitiço? A gente nasce, apanha prá chorá logo quano rebenta; adispois, a gente cresce e só leva beliscão prá aprendê o que é certo e o que é errado; fica maior, home-feito, se abestalha, casa e se dana tudo! A gente gosta do furunfado numa priquita boa, tem coisa meió no mundo? Mulé é a mió e pió coisa que inxeste!!!! De mió, só a putaria, a sacangem, eita! Bicho bão. Mas, pro otro lado, tem uma tá de sogra qui é a maior praga amulestada de todos o tempo de inxistênça humana, qui só servi para botar gosto ruim no nosso repasto. - Que é isso, Doro? - Verdade! Se você tivé uma sogra iguá qui nem a minha, vai sabê que sogra é a pior gangrena da face da terra! - Não diga isso.... - Verdade! Qué vê só como a minha tioria é verdadeira? - Não diga isso, rapaz.... - Digo, redigo e num desdigo: a minha sogra é cheia de pantim! É mais cricri qui quinhentas bombas pipocando juntas e ao mesmo tempo! Si num fosse a minha santa paciênça, já tiria mandado ela prá puta-que-a-pariu!!! Si ocê num sabe, ela tem parentesco ou com Sadham ou com Osama, porque vai gostá de ingrezia assim na casa dum cachipó da ponte! - Num diga isso! - É verdade! Isso é uma porqueira danada! -, reclamava ele com todos os arrudeios peculiares que costuma dar na idéia dos outros -, pode um negóço desses? Tanta lei na vida, meno uma para engaiolar sogra! Essa mulé é pió que tanque-de-guerra! Pior que tomarróqui!!! É um atraso de vida. Um dia invento uma frómula e ela desaparece de veizi da minha vida!!! Nem qui seja matando-la, disgraçada! - Mas Doro... - A minha sogra é um desse tal de porte inlegal de arma e ninguém toma providênça! - Rapaz... - Verdade! Inquanto a lei num toma conta de arribá essa mulé da minha vida, vou tratá-la só na lei da munheca. É maió fuzuê, bote trupé nisso! Ói o muque como tá, espie. Tudo prá ela. E tenho dito! Bem, como dessa conversa não vai sair mais nada que sirva, é melhor deixar o Doro falando sozinho com seus queixumes enquanto a gente vai vivendo a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.  


PENSAMENTO DO DIA - Não há maior obstáculo para a alma, quando ela quer conhecer a Deus, do que o tempo e o espaço. O tempo e o espaço, com efeito, não passam de partes, enquanto Deus é a unidade. Para que a alma possa conhecer a Deus, é preciso que ela o conheça além do tempo e do espaço, porque Deus não é nem isto nem aquilo, como estas coisas diversas. Deus é Unidade. Pensamento do teólogo, filósofo neoplatônico e místico Mestre Eckhart (1260-1320). Veja mais aqui.

ISTO SERÁ BRASIL? - [...] Somos um país de imigração e continuarem a ser refugio da humanidade por motivos geográficos e econômicos demasiadamente sabidos. [...] é de entre as bacias do Amazonas e do Prata que sairá a ‘quinta raça’, a ‘raça cósmica’, que realizará a concórdia universal, porque será filha das dores e das esperanças de toda a humanidade. Temos de construir essa grande nação, integrando na Pátria comum todas as nossas expressões históricas, étnicas, sociais, religiosas e política s. Pela força centrípeta do elemento tupi. [...] A descida dos tupis do planalto continental no rumo do Atlântico foi uma fatalidade histórica pré-cabralina, que preparou o ambiente para as entradas no sertão pelos aventureiros brancos desbravadores do oceano. [...] Os tupis desceram para ser absorvidos. Para se diluírem no sangue da gente nova. [...] Entretanto, é a única das raças que exerce subjetivamente sobre todas as outras a ação destruidora de traços caracterizantes; é a única que evita o florescimento de nacionalismos exóticos; é a raça transformadora das raças, e isso porque não declara guerra, porque não oferece a nenhuma das outras o elemento vitalizante da resistência. [...]. Trecho extraído da obra Nhengaçu Verde-Amerelo. Vanguarda européia e modernismo brasileiro (Vozes, 1972), do poeta, advogado e professor universitário de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, Gilberto Mendonça Telles. Veja mais aqui.

ROMANCE: REFLEXÕES LITERÁRIAS - [...] Todo romance é um monstro, um desses monstros que o homem aceita, alenta, mantém ao seu lado; mistura de heterogeneidades, grifo convertido em animal doméstico [...]. Toda narração alterna, imbricando-se inextricavelmente, uma linguagem poética, simbólica, produto intuitivo em que a palavra, a frase, a pausa e o silêncio transcendem a sua significação idiomática direta. [...]. Trecho extraído da Obra crítica (Civilização Brasileira, 1998), do escritor argentino de origem belga Julio Cortázar (1914-1984). Veja mais aqui.

CINCO POEMASSONETO: Meus dias de rapaz, de adolescente, / Abrem a boca a bocejar, sombrios: / Deslizam vagarosos, como os Rios, / Sucedem-se uns aos outros, igualmente. / Nunca desperto de manhã, contente. / Pálido sempre com os lábios frios, / Ora, desfiando os meus rosários pios... / Fora melhor dormir, eternamente! / Mas não ter eu aspirações vivazes, / E não ter como têm os mais rapazes, / Olhos boiados em sol, lábio vermelho! / Quero viver, eu sinto-o, mas não posso: / E não sei, sendo assim enquanto moço, / O que serei, então, depois de velho. VOU SOBRE O OCEANO: Vou sobre o Oceano (o luar, de doce, enleva!) / Por este mar de Glória, em plena paz. / Terra da Pátria somem-se na treva, / Águas de Portugal ficam, atrás. / Onde vou eu? Meu fado onde me leva? / António, onde vais tu, doido rapaz? / Não sei. Mas o Vapor, quando se eleva, / Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz. / Ó Lusitânia que te vais à vela! / Adeus! que eu parto (rezarei por ela) / Na minha Nau Catrineta, adeus! / Paquete, meu Paquete, anda ligeiro, / Sobe depressa à gávea, Marinheiro, / E grita, França! pelo amor de Deus! / Teu coração dentro do meu descansa, / Teu coração, desde que lá entro: / E tem tão bom dormir essa criança! / Deitou-se, ali caiu, ali ficou. / Dorme, menino! dorme, dorme, dorme! / O que te importa o que no mundo vai? / Ao acordares desse sono enorme, / Tu julgarás que se passou num ai. / Dorme, criança! dorme sossegada / Teus sonhos brancos ainda por abrir: / Depois a morte não te custa nada, / Porque a ela habituaste-te a dormir... / Dorme, meu anjo! (a noite é tão comprida!) / Que doces sonhos tu não hás-de ter! / Depois, com o hábito de os ter na vida, / Continuarás depois de falecer... / Dorme, meu filho! Cheio de sossego, / Esquece-te de tudo e até de mim! / Depois... de olhos fechados, és um cego, / Tu nada vês, meu filho! e antes assim... / Dorme os teus sonhos, dorme, e não mos digas, / Dorme, filhinho, dorme «ó-ó...» / Dorme, minha alma canta-te cantigas, / Que ela é velhinha como a tua avó! / Nenhuma ama tem um pequenino / Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou! / E tem tão bom dormir esse menino... / Deitou-se, ali caiu, ali ficou. / Vou sobre o oceano (o luar, de doce, enleva!) / Por este mar de glória, em plena paz. / Terras da Pátria somem-se na treva / Águas de Portugal ficam, atrás. / Onde vou eu? Meu fado onde me leva? / António, onde vais tu, doido rapaz? / Não sei. Mas o vapor, quando se eleva, / Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz. / Ó Lusitânia que te vais à vela! / Adeus! que eu parto (rezarei por ela) / Na minha Nau Catarineta, adeus! / Paquete, meu paquete, anda ligeiro, / Sobe depressa à gávea, marinheiro, / E grita, França! pelo amor de Deus! ELEGIA: Ó virgens que passais, ao sol poente, / Pelas estradas ermas, a cantar: / Eu quero ouvir uma canção ardente / Que me recorde as afeições do lar. / Cantai-me, n´essa voz omnipotente, / O sol que tomba, aureolando o mar, / A fartura da seara reluzente, / O vinho, a graça, a formosura, o luar! / Cantai, cantai as límpidas cantigas! / Das ruínas do meu lar desenterrai / Todas aquelas ilusões antigas / Que eu vi morrer n- um sonho como um ai... / Ó suaves e frescas raparigas, / Adormecei-me n´essa voz... Cantai! O MEU CONDADO: No campo azul da alada fantasia / Edifiquei outr´ora, por meu mal, / Castelos de oiro, esmalte e pedraria, / Torres de lápis-lázuli e coral. / N´uma extensão de léguas, não havia / Quem possuísse outro domínio igual: / Tão belo, assim tão belo, parecia / O território de um senhor feudal... / Um dia (não sei quando, nem dei d´onde), / Um vento agreste de indiferença e spleen / Lançou por terra, ao pó que tudo esconde, / O meu condado — o meu condado, sim! / Porque eu já fui um poderoso conde, / N´aquela idade em que se é conde assim... SÉ DE PEDRA: Não reparaste nunca? Pela aldeia, / Nos fios telegráficos da estrada, / Cantam as aves, desde que o sol nada, / E, à noite, se faz sol a luz cheia... / No entanto, pelo arame que as tonteia, / Quanta tortura vai, n´uma ânsia alada! / O ministro que joga uma cartada, / Alma que, às vezes, d´além-mar anseia: / —Revolução — Inútil. — Cem feridos, / Setenta mortos. — Beijo9-te! — Perdidos! / —Enfim, feliz! —! — Desesperado. — Vem! / E as lindas aves, bem se importam elas! / Continuam cantando, tagarelas: / Assim, António, deves ser também. Poemas do poeta português António Nobre (1867—1900).

O HOMEM, A MULHER E A NATUREZA – O livro O homem, a mulher e a natureza, do filosofo e escritor britânico Alan W. Watts (1915-1973),aborda temas como o homem a natureza, o urbanismo, o paganismo, a ciência e a natureza, a arte do sentimento, o mundo como êxtase, o mundo sem sentido, o homem e a mulher, espiritualidade, sexualidade, amor sagrado e profano, consumação, entre outros interessantes assuntos. Fonte: WATTS, Alan W. O homem, a mulher e a natureza. Rio de Janeiro: Record, 1958. Veja mais aqui.

LITERATURA E VIDA NACIONAL – A obra Literatura e vida nacional, do filósofo, político e cientista político italiano Antonio Gramsci (1891-1937), aborda a arte e a cultura, a arte na luta por uma nova civilização, a arte educativa, critica literária, Croce, critérios de método, ser uma época, a expressão linguística da palavra escrita e falada e as demais artes, a língua e as linguagens, neolalismo, sinceridade ou espontaneidade e disciplina, literatura funcional, o racionalismo na arquitetura, as renuncias descritivas na Divina Comédia, o cego Tirésias, o teatro de Pirandello, o caráter não nacional-popular da literatura italiana, o melodrama, Goldoni, conteudistas e calígrafos, atitude do escritor em face do ambiente, romance e teatro popular, Brescianismo, literatura de guerra, Giovani Papini, os futuristas, arte católica, estudos da gramática, gramática histórica e gramática normativa, a língua de Dante, direito natural e folclore, os cantos populares, teatro inglês, teatro e cinema, Shakespeare, Oscar Wilde, os espetáculos no Teatro do Povo, Plauto, Turgueniev, entre outros importantes assuntos. Leia mais sobre o pensamento de Gramsci aqui. Fonte: GRAMSCI, Antonio. Literatura e vida nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

GESTÃO DO CONHECIMENTO – A obra Gestão do conhecimento: o grande desafio empresarial, de José Claudio Cyrineu Terra, trata de temas como a fábula sobre a criação e destruição do conhecimento, a organização, economia e competitividade baseada no conhecimento, criatividade, aprendizado e conhecimento tácito, relação com resultados empresariais no Brasil, sete dimensões da gestão do conhecimento, focos de ação relacionadas, impacto para a sociedade brasileira, estratégias, cultura e valores organizacionais, compartilhamento de conhecimento, entre outros. Fonte: TERRA, José Claudio. Gestão do conhecimento: o grande desafio empresarial. São Paulo: Negócio, 2001. Veja mais aqui.

PSICOLOGIA E PESQUISA – O livro Psicologia e pesquisa: perspectivas metodológicas, organizado por Helena Scarparo, aborda temas como a pesquisa e produção do conhecimento, autonomia e o uso do termo de consentimento em pesquisa, a pesquisa qualitativa e delineamentos possíveis, questão da amostragem, analise multivariada de dados, dimensões psicossociais da entrevista, utilização da metodologia dos grupos focais na pesquisa psicológica, fenomenologia e método fenomenológico, pesquisa histórica como ferramenta para conhecer a construção das ideias e as praticas em psicologia, analise de conteúdo na leitura e interpretação do discurso grupal, CAQDAS, programa QDA Miner e análise de textos de protestos, entre outros assuntos. Fonte: SCARPARO, Helena (Org.). Psicologia e pesquisa: perspectivas metodológicas. Porto Alegre: Sulina, 2008. Veja mais aqui e aqui.

A arte do pintor e ilustrador francês Paul-Emile Chabas (1860-1937)




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