quarta-feira, agosto 24, 2016

SE UM DIA O SONHO DA VEZ


SE UM DIA O SONHO DA VEZ - Imagem: Loki Bound (motive from the Gosforth Cross, 1908) by W. G. Collingwood. - O chão é meu abrigo. Assim eu me sinto íntimo da Terra: o carinho da mãe guardada no coração, dengos e manhas de menino sem futuro a se fartar do horizonte, sonhos que são paisagens interiores e recorrentes do meu ser atormentado. Percebo seu aconchego e sou estreito da labuta das formigas, do voo da tanajura, besouros zis zum: companhias mais que animadas na minha voluntária desolação. Faço da pedra o ombro amigo pra descansar a cabeça, ouvir seus segredos entre árvores sombreiras da real amizade e que descansam meus cobertores: o calor da luz do Sol de dia, o brilho da Lua e estrelas na noite – a lição panteísta. Sou-me inteiro e me exponho publicamente ao ridículo, propenso ao meu delírio de vida: boquirroto que não guarda segredo, sem recato ou comiseração. Fiz minhas escolhas entre encolhas, meus rematados disparates. Pra meu espanto, ouço as botas estupidificadas do dendroclasta arrastando lixo na ponta dos cascos e todos aos pontapés. E me assusto quando fazem da cidade uma lata de lixo e soçobram no anonimato suicida pelas imundícies. É a injustiça que dói e isso pra eles dos males, o menor. E se digladiam entre si, poderosos medem força e o bom de tudo é que do confronto não se sobram, desmoronam todos, até a festa dos vulneráveis que não se aguentam em pé com a derrocada em cadeia dos potentosos plutocratas. Restam os escombros da dignidade, do aconchego e das guaritas. Um oxigênio estagnado, um degradante fiapo de vida. E tudo segue como se nada tivesse acontecido. E isso me perturbador porque no meio dessa guerra invisível, segue a caminhada incólume da humanidade nem aí pra nada. Eu que sofro e não digo mais nada, apenas sonho no ombro da pedra. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

 Curtindo o álbum Dois tempos em um lugar (2016), da cantora e atriz Dandara & do cantor, compositor e produtor musical Paulo Monarco.Veja mais aqui.

PESQUISA 
[...] o filósofo não se ocupa ex officio com desvarios e divagações; ele estuda as expressões naquilo que elas significam quando empregadas de maneira inteligente e inteligível, e não enquanto ruídos emitidos por um idiota ou por um papagaio. [...] No entanto, a procura de paráfrases que sejam mais imediatamente inteligíveis para uma determinada audiência e etimologicamente corretas, constitui simplesmente uma tarefa de lexicografia ou de filologia aplicada. Não é filosofia. [...].
Trecho extraído da obra Expressões sistematicamente enganadoras (Abril Cultural, 1980), do filósofo britânico Gilbert Ryle (1900-1976).

LEITURA 
Sozinha nos trilhos eu ia, / coração aos saltos no peito. / O espaço entre os dormentes / era excessivo, ou muito estreito. / Paisagem empobrecida: carvalhos, pinheiros franzinos; / e além da folhagem cinzenta / vi luzir ao longe o laguinho / onde vive o eremita sujo, / como uma lágrima translúcida / a conter seus sofrimentos / ao longo dos anos, lúcida. / O eremita deu um tiro / e uma árvore balançou. / O laguinho estremeceu. / Sua galinha cocoricou. / Bradou o velho eremita: / “Amor tem que ser posto em prática!” / Ao longe, um eco esboçou / sua adesão, não muito enfática.
Chemin de fer, poema extraído da antologia Poemas escolhidos (Companhia das Letras, 2012), da poeta estadunidense Elizabeth Bishop (1911-1979).

PENSAMENTO DO DIA:
A mulher e o homem sonhavam que Deus os estava sonhando. Deus os sonhava enquanto cantava e agitava suas maracas, envolvido em fumaça de tabaco, e se sentia feliz e também estremecido pela dúvida e o mistério. Os índios makiritare sabem que se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com a vida, nasce e dá de nascer. A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e dançavam e faziam um grande alvoroço, porque estavam loucos de vontade de nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte que a dúvida e o mistério; e Deus, sonhando, os criava, e cantando dizia: – Quebro este ovo e nasce a mulher e nasce o homem. E juntos viverão e morrerão. Mas nascerão novamente. Nascerão e tornarão a morrer e outra vez nascerão. E nunca deixarão de nascer, porque a morte é mentira.
A criação, extraído da obra Os nascimentos (da trilogia Memória do Fogo – L&PM, 2010), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Mulheres brancas, da artista plástica, fotógrafa, gravurista, escultora e artista performática Rosa Esteves.

Veja mais sobre Jorge Luis Borges, Paulo Leminski, Geraldo Azevedo, Takashi Miike, Alex Colville, Jean Michel Jarre, o Mito de Príapo, Psicodrama & Hikari Mitsushima aqui.

DESTAQUE
A arte da artista plástica Carla Shwab.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora italiana Lavinia Fontana (1552-1614).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


TODO DIA É DIA DO CORDEL, DA BANDEIRA & DO CANTARAU TATARITARITATÁ!

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