quinta-feira, maio 24, 2018

SEFÉRIS, LÉVI-STRAUSS, ANAÏS NIN, BOURDIEU, LOURDES RAMALHO, JOHN SILVER, FILÓ MACHADO & MARIA DAPAZ


CARTA NA PEDRA - Imagem: Pintura rupestre do beijo no Boqueirão da Pedra Furada, Parque Nacional Serra da Capivara, Piauí, Brasil (2010) © Palê Zuppani - Rabisco sonhos na face da pedra, a minha estela e sintonia. Pra que serve, não sei, nem sabe ela às orlas das passagens ou a ornar jardins floridos. Sei e rola ribanceira como eu nos meus dias e noites, água que leva e lava, areia pra se esconder, como se fosse a memória do pedregulho, e o seu desgaste lento enquanto envelheço grão de areia ao convívio entre seixos e lascas, tanto faz, tanto fez. A pedra sou eu e ela comigo, horas e ventos. Dela preparo a mim mesmo, aprendizagens. No sapato incomoda como a culpa assombrosa ou a topada no dedo inflamado, e quase nem sei seus vagares e cismas, fazem parte da escória de tudo como eu que não lhe sou alheio. Lá está ela aqui comigo e em qualquer parte ou lugar, como se coração indiferente de ontem ou amanhã. Ela voa na fúria de quem dela se vale para abrir o talho na testa do desafeto ou de outrem, destroça vidraça e pingueira na telha quebrada. Lá está ela pro tombo no meio do caminho, não há quem segure destronado na vertigem abissal. Nem sei que são da litosfera, se calhau ou pepita, se água-marinha, topázio, turmalina, nem distingo direito cascalho de ametista, o que é da fraga pro diamante ou rubi, o que é rebo pra safiras ou esmeraldas, se esteatita que é a de sabão do artesanato de Ouro Preto, ou a de Roseta milenar, ou as dimensionadas nos tornos, serras, plainas e polidoras, como as britadas de granitos, basaltos, mármores, calcários e arenitos, diabásios e ardósias, o quartzo opalescente ou concreto armado, se é da Lua com sua energia feminina, ou as que nascem nos rins ou vesícula pra espremer de dor, ou se de uma estrela que não sei de onde. Não sou lapidário nem sei fundição, muito menos do corte das gemas; não sei como lavra porque não tenho martelo e bigorna, só interditos e esconjuros; só sei que delas não há fonte pra brotar, nem semente, e jazem longe sem sangue heroico, se penedo ou joia, sequer soube, assim são. Elas são testemunhas, quando não a nossa própria expressão no precipício da vida e suas comoventes miragens, o seu impreciso destino e até nunca mais. É nela que faço o poema amanhã apagado pelos ventos do tempo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor, arranjador, instrumentista e produtor, Filó Machado: Origens, Canto Fatal e álbum solo; da cantora e compositora Maria Dapaz: Brincar de ser feliz, Metade e Ensaio; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Sempre a meio-caminho entre o esquema e a anedota, o gênio do pintor consiste em unir conhecimento interno e externo, ser e devir, produzir, com seu pincel, um objeto que não existe como objeto e, todavia, sabe criar sobre a tela: síntese exatamente equilibrada de uma ou várias estruturas artificiais e naturais e de um ou vários fatos naturais e sociais. [...]. Pensamento extraído da obra O pensamento selvagem (Papirus, 1989), do antropólogo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Veja mais aqui.

VIOLÊNCIA SIMBÓLICA - [...] Falar de dominação, ou de violência simbólica, é dizer que, salvo uma revolta subversiva que conduza à inversão das categorias de percepção e de avaliação, o dominado tende a assumir a respeito de si mesmo o ponto de vista dominante: através, principalmente, do efeito de destino que a categorização estigmatizante produz, e em particular do insulto, real ou potencial, ele pode ser assim levado a aplicar a si mesmo e a aceitar, constrangido e forçado, as categorias de percepção direitas (straight, em oposição a crooked, tortas), e a viver envergonhadamente a experiência sexual que, do ponto de vista das categorias dominantes, o define, equilibrando-se entre o medo de ser visto, desmascarado, e o desejo de ser reconhecido pelos demais [...]. Trecho extraído da obra A dominação masculina (Bertrand Brasil, 2002), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Veja mais aqui.

ELENA – [...] Ante esse reconhecimento de timidez, ela foi imensamente tocada pela ternura, uma ternura que nunca experimentara antes. A força dele estava se curvando perante ela, hesitando antes da efetivação do sonho que havia crescido entre eles. A ternura engolfou-a. foi ela quem se deslocou até ele e ofereceu sua boca. Então ele a beijou, com as duas mãos sobre os seus seios. Ela sentiu seus dentes. Ele beijou o pescoço onde as veias palpitavam, e a garganta, com as mãos em voltado corpo. Ela foi dominada pelo desejo de ser inteiramente possuída. Enquanto a beijava, ele a despiu. As roupas caíram em volta dela, e eles ainda estavam juntos de pé se beijando. Então, sem olhar para ela, ele a carregou para a cama, com a boca ainda em seu rosto, garganta e cabelos. [...] Agora nu, ele estava estirado por cima dela em todo comprimento. Ela desfrutou o peso dele por cima de si, desfrutou ser esmagada sob o corpo dele. Queria que ele ficasse grudado nela da boca aos pés. Arrepios percorriam seu corpo. Ele sussurrava de vez em quando, disse-lhe para erguer as pernas como ela nunca havia feito, até os joelhos tocarem o queixo; sussurrou para que ela se virasse, e esparramou as mãos por seu traseiro. Descansou dentro dela, deitou-se de costas e esperou. [...] Escorregou cama abaixo até a boca alcançar o pênis. Começou a beijar em volta. O pênis sacudia levemente a cada beijo. [...] A mão permaneceu sobre Elena enquanto ela moveu-se para cima e para baixo e depois tombou, tombou com um suspiro de prazer insuportável, tombou sobre a barriga dele e ali permaneceu, de olhos fechados saboreado o deleite [...] abriam um novo livro e liam juntos, com as mãos acariciando um ao outro. Beijavam-se em cima de gravuras eróticas. As bocas coladas juntas caíam por cima de enormes bundas empinadas de mulheres, pernas abertas como um compasso, homens acocorados como cachorros, com membros imensos, quase arrastando no chão. [...] pareceu a ela que o prazer que sentia com as arremetidas do pênis transmitia-se à boca. Abriu-a, e a língua projetou-se como na gravura, como se ela quisesse o pênis na boca ao mesmo tempo. Elena correspondeu loucamente durante dias, quase como uma mulher a ponto de perder o juízo. [...]. Trechos extraídos da obra Delta de Vênus (Artenova, 1978), da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui.

COMENTÁRIOS - Já escurecera na sacada / junto a nós uma urgência esvoaçava / nos dois corações, bem aninhada, / uma confissão correspondida. / Vã, murchou a voz. Enxame de erros / nossos lábios, e nas profundezas / do corpo, Deus, só estava acesa / nossa espera da benção pedida. / Dentro da casa os sonhos zumbiam / e da luz da tarde até o ímã / dos cabelos teus, tudo trazia / à memória o anjo inalcançável / de para com os anéis subitâneos / de chofre caídos, dos abanos / no pensamento que, o mesmo orando, / líamos, evangelho inefável. / Mulher que na minha alma te hospedas / tua surpresa é o que me resta / formosa mulher amada, nesta / tarde que absurdamente definha, / e os teus olhos de círculos negros / e a noite e seu calafrio ligeiro… / Quimera, espada do meu silêncio, / curva-te e entra outra vez na bainha. Poema do poeta simbolista grego da geração neogrega de 1930, Giórgos Seferiádhis ou simplesmente Giórgos Seféris (1900-1971). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE LOURDES RAMALHO
A professora, poeta, dramaturga e pesquisadora Lourdes Ramalho é autora de extensa obra teatral premiada nacional e internacionalmente. Em 1974 ela lançou a premiada Fogo-fátuo e, em 1975, a premiada As velhas. Em 1976, foi a vez da premiada peça teatral A Feira. A partir das década de 1990 ela passou a enfatizar uma dramaturgia pautada na Literatura de Cordel, entre elas Romance do Conquistador. Em 2005, foi reinaugurado o Centro Cultural Lourdes Ramalho, em sua homenagem, como, também, em 2011, foi homenageada com a 2ª Jornada de Estudo Internacional sobre Poéticas da Oralidade: Lourdes Ramalho e o Teatro Popular, organizada pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Ela também é autora de textos dedicados ao público infantil, alguns deles reunidos na obra Teatro Infantil: coletânea de textos infanto-juvenis (RG, 2004), da obra Raízes ibéricas, mouras e judaicas do Nordeste (Ed. Universitária, 2002), Teatro (quase completo) de Lourdes Ramalho – Vols. I e II (EdUfal, 2011) e do livro de poesias Flor de cacto: viagem ao ignoto (EdUEPB, 2012).


Tarde Literária da Illuminare na Biblioteca Pública Viriato Corrêa (SP) & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista visual britânico John Silver.
Veja mais aqui.
&
A arte de Maria Dapaz aqui, aqui e aqui
&
Elogio ao contribuinte, Apesar de tudo de Georges Didi-Huberman, a escultura de Edward Hodges Baily & a arte de Kênia Bastos aqui.
 

quarta-feira, maio 23, 2018

STENDHAL, ALBERTO HIDALGO, DIANE ACKERMAN, GORDON CHILDE, XUL SOLAR, HELENA IGNEZ, LOU REED & LAURIE ANDERSON


CARTA PERDIDA NA PRIMEIRA ESQUINA - Imagem: arte do argentino Xul Solar (1887-1963) - Por tantas idas e vindas perdi as sílabas inauditas do meu canto ao rés do chão e as minhas pobres palavras inconclusas esgarçaram-se empoeiradas e em revoadas sem eco aos ventos no céu de nenhum azul e urros do tempo. Emudecido pela chuva torrencial, fiz da morada do silêncio o que pude e me restava ver as tantas faces do amor caçoando de mim: quem não sabe brincar, não entra na roda. Ah, quem não desceu ladeira abaixo, deu de cara com o poste, teibei! Quantos anos mais tarde, dei por mim, a cidade enterrada na duna da memória assaltada atrás dos morros por folguedos, palácios e estábulos, o naufrágio de almas às horas suicidas nas ruas que não sei o nome, e quase me perdia de vez ao confundir os paralelos que parecem convergirem mas não, desajeitado e até obsceno sem saber o que fazer, só o lisonjeiro bem empregado dos sacânicos, desacumulados e estranhos que escondem o pior de si para serem simpáticos risonhos ocultando sentimentos embusteiros, e sem que pudesse espalmar as mãos já penhoram suas devoções estarrecidos com o acervo de coisas malévolas e inatacáveis, profanando intimidades com extravagâncias pra escandalosas ruinas e agruras de facas amoladas com todos os requintes de crueldade. Assim se satisfaziam e às suas imprecações monstruosas das gradações do ódio por flagelos, desnudamentos, imposturas de déspotas e ventríloquos em seus próprios extermínios. Tudo isso, ondas invasoras da risada do verdugo a naufragar o humano a cada instante e caçá-lo e matá-lo sem dó nem piedade, para então ressuscitá-lo no grau da ciência, todo petrificado e envaidecido pela armadura incapacitante de descontrolados nas armadilhas de suas mil e uma insônias, vísceras, remorsos, vitupérios. Eu assisto a tudo e me esquivo e sei que ninguém escapa, não há escapatória, mesmo que não sejamos melhor que sombras e pó, somos tão parecidos na nossa desonra, na impermanência que nos pinta de êxito a traição, rumo ao topo que não é nada no pico da festa dissipada pelo jogo das luzes no estardalhaço. Quase consigo me livrar, nem sempre, cada esquina uma revelação, um plano de voo ou fuga, e lá vou contando cada alvorada para cada crepúsculo na ponta dos dedos, e mais uma vez o ciclo se fecha pro meu arbítrio e recomeça a cada três horas de novo e o primeiro passo rompe o confim pra outra imensidão e a vencer dimensões que vão e voltam em mim que não sei nada e nem quero saber, só voo sem sílabas do canto ao rés do chão e com as ataduras das palavras empobrecidas que me restam da solidão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, guitarrista & compositor estadunidense Lou Reed (1942-2013): Les nuits de furvière, Live Lollopoaloosa Chicago & Live Capitol Theatre; da artista experimental estadunidense Laurie Anderson: Home of the brave & Live Concert Luminato Festival; da apresentação Lou Reed & Laurie Anderson Live in Venice; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Os homens se apegam apaixonadamente às velhas tradições e revelam uma relutância intensa em modificar modos habituais de comportamento, como os inovadores de todas as épocas verificam à sua própria custa. O peso do conservantismo, em grande parte uma aversão preguiçosa e covarde pela cansativa e penosa atividade de pensar autenticamente, sem dúvida retardou o progresso humano, no passado mais do que hoje. [...]. Trecho extraído da obra A evolução cultural do homem (Zahar, 1981), do filólogo australiano Gordon Childe (1892-1957), expressando em seus estudos que [...] Os homens podem fabricar ferramentas porque suas patas dianteiras tornaram-se mãos, porque vêem o mesmo objeto com ambos os olhos e podem avaliar as distâncias com muita exatidão, bem como porque um delicadíssimo sistema nervoso e complicado cérebro os capacitam a controlar os movimentos da mão e do braço em adequação precisa ao que estão vendo com ambos os olhos. Mas os homens não sabem por algum instinto inato fazer ferramentas e usá-las: precisam aprender através da experiência, através do ensaio e do erro [...].

VOCABULÁRIO DO AMORO amor é o grande imponderável. Em nossos pesadelos, podemos criar feras por pura emoção. O ódio exibe suas presas gotejantes pelas ruas, o medo paira sobre os becos com suas asas de couro, e o ciúme tece viscosas teias através do céu. Em fantasia, podemos manipular as tramas com equilíbrio, derrotando um adversário, obtendo sucessos gloriosos sob os aplausos das multidões, alcançando prontamente o âmago da aventura. Entretanto, que espécie de sonho é o amor? Frenético e sereno, vigilante e calmo, angustiado e forte, explosivo e sóbrio – o amor comanda um vasto exercito de humores. Confiantes na vitória, claudicantes após a última escaramuça, os amantes adentram a arena uma vez mais. Imóveis, somos tão audaciosos quanto os gladiadores. [...] O amor é a luz branca da emoção. Contém inúmeros sentimentos que, por preguiça e perplexidade, aglomeramos em uma simples palavra. A arte é o prisma que os coloca em liberdade, acompanhando em seguida os rodopios de um ou alguns deles. Quando a arte separa esse denso emaranhado de sentimentos, o amor revela seu esqueleto. Todavia, ele não pode ser medido nem mapeado. Todos admitem que o amor é maravilhoso e necessário, mas ninguém consegue chegar a um acordo sobre o que ele é. [...] Por mais sublime que a ideia do amor possa ser, nenhuma imagem é excessivamente profana para ajudar a explica-lo. [...] o amor produziu todos os imponderáveis. Ele nos permite realizar nossa mais requintada dança. Amor. Usamos uma palavra tão pequena para uma ideia ilimitada e poderosa, a qual alterou o fluxo da história, apaziguou monstros, inspirou obras de arte, consolou os desesperados, tornou sentimentais os valentões, consolou os escravizados, tornou arrebatadas mulheres fortes, glorificou os humildes, alimentou escândalos nacionais, levou à ruina magnatas gatunos e fez picadinho de reis. De que maneira a vastidão do amor pode ser traduzida nos limites estreitos de quatro letras? [...] O amor é um delírio ancestral, um desejo mais antigo do que as civilizações, cujas raízes inserem-se profundamente em épocas desconhecidas e misteriosas. Usamos a palavra amor de maneira tão descuidada que ela quase pode significar nada ou absolutamente qualquer coisa. É a primeira conjugação que aprendem os estudantes de latim. [...]. Trechos extraídos da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman.

MAIS DO AMOR – [...] O amor reduziu-me à condução de angustia e desespero, e amaldiçoo minha própria existência. Nada consegue atrair meu interesse... cada imagem na parede, cada peça da mobília reprova-me pela felicidade com que sonhei nesta sala e que agora está perdida para sempre. Percorri as ruas a passos largos e sob a chuva fria; e o acaso, se puder chamá-lo de acaso, fez-me passar pela janela da amada. A noite caía e, ali passando, meus olhos marejados fixaram-se na janela do seu quarto. De súbito a cortina foi afastada por um instante, como se para permitir um vislumbre do interior, mas voltou rapidamente a seu lugar. Senti um espasmo em meu coração. Sem mais forças para resistir, refugiei-me num pórtico vizinho, os sentimentos de desordem; naturalmente devia ter sido um movimento casual da cortina; mas imagine se a mão dela houvesse levantado a cortina! Dois apenas são os sofrimentos na vida; o sofrimento da paixão não correspondida e aquele do vazio inerte. No amor, tenho a sensação de que a felicidade ilimitada, para além de meus sonhos mais arrebatados, encontra-se logo depois da esquina, esperando apenas uma palavra ou um sorriso. Sem a paixão... não posso encontrar a felicidade em parte alguma, e começo a duvidar se realmente ela me está destinada [...]. trechos extraídos da obra Do amor (Martins Fontes, 1993), escritor francês Stendhal – pseudônimo de Marie-Henry Beyle (1783-1842). Veja mais aqui.

BIOGRAFIA DA PALAVRA REVOLUÇÃO - Palavra que nasceu de um vômito de sangue / palavra que o primeiro que a disse se afogou nela / palavra sempre posta em marcha / palavra contumaz na modernidade / palavra que se pronuncia com os punhos / palavra grande até sair pelas margens do dicionário / palavra de 4 flechas disparada aos pontos cardeais / Aqui fica desenraizada de todo o seu episódio / sobre um dos vértices mais remotos do tempo / concentração / para empreender a rota para que céu? / Cada um conforme sua intensidade conforme seu / diverso carater alfabético / e a palavra ficou escrita / Revolução / logo o sol ao passar detrás dela para afundar-se / na noite / incendiou suas dez letras / revolução / e foi o primeiro aviso luminoso do mundo / agora está no homem como o oxigênio está na água / campos, cidades, mares contam com uma população / de seus ecos / Subtrairam-lhe o espaço aos corpos que se dilatam / tem violência e distinção de onda de vento / entra nas almas com uma sensualidade de arado / cartaz escrito na claridade de dois braços erguidos / alcemos com a vida. Poema do escritor peruano Alberto Hidalgo (1897-1967).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A atriz, diretora, roteirista e cineasta Helena Ignez, começou sua carreira com o curta-metragem O pátio (1959), de Glauber Rocha. Depois ela participou dos filmes A grande feira (1961), Assalto ao trem pagador (1962), o Padre e a moça (1966), O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, no qual interpretou a Janete Jane. A partir de então ela passou a integrar o Cinema Marginal e o udigrudi, ao lado Rogério Sganzerla e Júlio Bressane. Entre os anos 1968 e 1970, chegou a fazer cerca de doze filmes, passando, a partir de 1972, a filmar na Europa, Estados Unidos e África, chegando a realizar a anarquia corporal A mulher de todos e a realizar Ângela Carne e Osso. Em 2010, produziu Luz nas trevas – A volta do Bandido da Luz Vermelha. Dirigiu filmes como A moça do calendário e O poder dos afetos (2013), entre outros. Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.


Primeira Antologia da Academia Palmarense de Letras (APL) & muito mais na Agenda aqui.
&
Las Cuatro (1922), do argentino Xul Solar (1887-1963) aqui
&
Dias & noites a fio, Estabelecidos & Outsiders de Norbert Elias, a poesia de Gerardo Mello Mourão & a fotografia de Alex Krivtsov aqui.
 

terça-feira, maio 22, 2018

CAIO ABREU, BOCCACCIO, CASSIRER, SUSANNE LANGER, JOSHI DANIEL, PAULO GAZZANEO & DIVA LYRA


CARTA PRA ENDEREÇO PERDIDO - Imagem: art by Joshi Daniel. - Um poema esmagado no interior de uma garrafa vazia e a imensidão do mar: três coisas e uma só, sem destinatário ou qualquer um, pouco importa. É que qualquer que seja a encomenda pra endereço esquecido vai dar na venda – sentimentos demasiados e jamais redimidos pras histórias com todas as suas cargas emotivas a se entrecruzarem por lágrimas ou mangações, errâncias de cada um, topando carências e afetos movediços. É como se dissesse que ontem mesmo eu tinha trocentos amigos, e os tempos eram outros: o toma lá dá cá do apreço mútuo, nada mais. É certo que muitos se penduravam às algibeiras, embora os tivesse mesmo na alta conta da estima. Muitos outros ficaram no desapontamento, os exclusivistas, porque os tinha nos laços da afeição, e na verdade só queriam lado a lado nas suas questiúnculas e mesquinharias, daí pro arisco, bastava ser amigo dos seus inimigos – logo eu que jamais pactuei de panelinhas, nem nunca reivindiquei extrema confiança por não me achar melhor que ninguém. Na verdade, nunca fui confiável mesmo que dedicasse a mais alta lealdade com quem quer que seja, a ponto de não abrir nem prum trem de injustiça, ou cair fora nas horas mais deprimentes. Da minha parte, não reconheço limites, sou menino que pula muros e não teme se estrepar com a queda do outro lado. Para muitos isso é o mesmo que fazer o devido fora do caco, desmoronamento das expectativas ou desvelamento do caráter suspeito. Isso tudo é irrelevante, sempre fui solidário, mesmo no território de quem só vale pelo mal que possa fazer; e fui excluído disso, porque há tempos meu coração sereno e pacífico jamais desconheceu o afável, e mesmo assim nunca covarde nem sucumbente aos interesses. Também aprendi que não há coração sozinho, há muita atração por todo tempo e lugar, mesmo que cada um só queira saber do seu umbigo no aqui e agora dono do mundo. Não se pode brincar com o sentimento alheio, feras emergem incontroláveis de fúria e o amor de antes vai, no mesmo tanto, pro ódio a partir de então, e talvez não haja chance alguma de evitar o desastre por isso. Não dá para tirar proveito como quem vive na esquina hesitando se pra lá ou pra cá, ou quem faz de vitrine seu estoque, ou do horizonte uma estreita passagem ou viela, esperando a ocasião e o milagre, porque não há quem esteja isento dos aflogísticos e inflamações da imponderabilidade do amor; e o pior é não sabê-lo ou desconsiderá-lo, apelo de quem teima estar cônscio do nunca antes sentido nem revelado: o leitor que nunca viu nas águas o poema esmagado dentro da garrafa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, pianista, musicólogo e pedagogo Paulo Gazzaneo: Suíte Instantâneos, Fantasia para piano e cordas & Duo Quanta – Baião; da compositora e pianista Diva Lyra (1922-2011): Estudos completos, Suíte Reflexos & Fantasia em mi menor; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] na totalidade da linguagem cada significação está ligada ao seu contrário, cada sentido ao seu inverso, - e somente a união de ambos nos permite uma expressão adequada do ser. A síntese espiritual, a união que se realiza na palavra, assemelha-se à harmonia do cosmos e assim se expressa, na medida em que constitui uma harmonia de tensões opostas [...]. Pensamento extraído da obra A filosofia das formas simbólicas (Martins Fontes, 2001), do filósofo alemão Ernst Cassirer (1874-1945). Veja mais aqui.

CRIAÇÃO, EMOÇÃO & ARTE – [...] A verdadeira execução é um ato tão criativo quanto a composição, exatamente como o próprio desenvolvimento da ideia pelo compositor, depois de ele ter concebido o movimento maior e, com isso, toda a forma dominante, é ainda trabalho criativo. [...] Um executante cuja proferição seja inspirada inteiramente pela forma dominante da obra não precisa restringir coisa alguma, mas, sim, dar tudo que tem – todo o sentimento para cada frase, cada tensão harmônica determinante ou indeterminante na obra. Audição interior, imaginação muscular de tom, desejo de audição exterior: estas condicionam o estádio final da feitura de uma obra musical. [...] A música é uma arte ocorrente; uma obra musical cresce da primeira imaginação de seu movimento geral até sua apresentação física, completa, sua “ocorrência” [...]. Trechos extraídos da obra Sentimento e forma: uma teoria da arte desenvolvida a partir de "filosofia em nova chave" (Perspectiva, 1980), da filósofa da arte estadunidense Susanne Langer (1895-1985), tratando sobre a fundamental indagação filosófica e semiológica por meio dos conceitos básicos de simbolismo e significação, dos mecanismos de sua formação e articulação, oriunda de uma outra de sua autoria Filosofia em nova chave : um estudo do simbolismo da razão, rito e arte (Perspectiva, 1971), em que expressa que: [...] Todas as artes aspiram constantemente à condição de música [...] A única maneira pela qual podemos realmente considerar o movimento vital, a agitação, o desenvolvimento e a passagem da emoção, e finalmente todo o sentido direto da vida humana, é em termos artísticos [...], propondo especificar com o maior rigor o significado de conceitos como expressão, criação, símbolo, importe, intuição, vitalidade e forma. Além destas, numa outra obra sua, Ensaios filosóficos (Cultrix, 1980), ela afirma que: [...] A imaginação primitiva, a produção de imagens mentais – foi o primeiro passo na criação não só da arte, mas também da linguagem [...].

CATELA NO BANHO - Em Nápoles, cidade antiquíssima e aprazível, como outra não há na Itália, existiu um jovem, claro por sua nobreza de sangue e esplêndido por suas riquezas, chamado Ricardo Minútolo, o qual, embora fosse casado com uma jovem belíssima, enamorou-se de outra que, de acordo com a opinião de todos, ultrapassava de muito em beleza, a todas as mulheres napolitanas. Chamava-se Catela e era mullher de um jovem igualmente nobre, Filipe Sighinolfo, e que ela, por ser honestíssima, amava sobre todas as coisas. Ricardo Minútolo, amando-a e fazendo todas as coisas com que se podem obter as graças e o amor de uma mulher, e não chegando em nada a realizar os seus desejos, quase se desesperava. Não podendo ou não sabendo libertar-se do amor, tampouco morria, nem lhe aprazia o viver. E em tal estado aconteceu que, aconselhado por alguns parentes seus, quis desistir de tal amor, posto que em vão se fadigava, já que Catela encontrava a sua felicidade apenas em Felipe de quem com tal ciúme vivia, que temia que até as aves que passavam pelo ar, quisessem tomar-lho. Sabedor dos ciúmes de Catela, Ricardo, subitamente, tomou uma resolução, começando a aparentar que do amor de Catela desesperava e por isso colocava a sua ambição em outra mulher nobre e por amor desta fazia em justas e torneios todas aquelas façanhas que só por Catela faria. Não passou muito tempo que todos os napolitanos, Catela inclusive, se convenceram de que ele amava grandemente essa segunda dama, e tanto nisso perseverou que todos se convenceram de que a verdade era essa, e a própria Catela renunciou à esquivança com que o tratava, quando o sabia enamorado, passando a usar da intimidade que como vizinho lhe devia, saudando-o, como fazia com os outros. Ora, aconteceu que, sendo o dia de calor, muitas comitivas de homens e mulheres, de acordo com os costumes napolitanos, se transladaram para as praias e Ricardo, sabendo que Catela também havia ido com os seus, tomou parte em uma comitiva, tendo sido recebido no grupo de Catela não sem antes muito fazer-se de rogado. Então Catela e as mulheres puseram-se a motejar de seu novo amor, do qual ele, mostrando-se muito aceso, dava ainda mais motivos para comentários. Enquanto isso, umas iam para uma direção, outras para outra, como acontece por aquelas paragens, restando Catela com poucas outras onde estava Ricardo; esse fez logo alusão a certo amor de Filipe, seu marido, o que a fez acender-se de súbito ciúme e começou a arder, toda desejo de saber o que Ricardo queria dizer. Depois de se ter dominado por algum tempo, e não podendo mais fazê-lo, pediu a Ricardo que, pelo amor da mulher que mais amava, a esclarecesse sobre o que dissera de Filipe. E Ricardo falou: — Vós me conjurastes por pessoa tal que eu não poderia atrever-me a negar o que pedis, e por isso estou pronto a dizer-vos, desde que me prometais que não direis palavra do que eu disser depois de verificardes a verdade do que afirmo. E quando quiserdes, eu vos ensinarei como podereis verificá-la. A mulher ficou satisfeira com o que ele pedia e acreditou ainda mais que ele dizia a verdade, jurando-lhe que a ninguém o revelaria. Retirados para um lado em que ninguém os ouviria, Ricardo disse: — Senhora, se eu vos amasse como já vos amei, não me atreveria a dizer coisa que acreditasse poder aborrecer-vos. Mas como aquele amor é passado, preocupa-me menos o descobrir-vos toda a verdade. Não sei de Filipe alguma vez se ultrajou com o amor que eu vos dediquei ou se abrigou a crença de que eu fosse por vós amado. Mas seja lá como for, nem uma nem outra coisa ele jamais deixou transparecer. Agora, esperando talvez uma ocasião, pois acredita que eu esteja menos desconfiado, dá mostras de querer fazer a mim o que eu duvido que ele não tema que eu lhe faça: ele quer, em suma, conquistar a minha mulher. E pelo que eu tenho entendido, ele de pouco tempo para cá, secretissimamente a tem solicitado, em repetidas embaixadas, de todas as quais por ela mesma fui inteirado, e a quem ela deu a resposta que eu impus. Esta manhã, porém, antes de eu vir aqui, encontrei em minha casa uma mulher desassisada que vi logo muito bem quem era. Chamei a minha esposa e perguntei-lhe o que pedia aquela mulher, ao que ela redargüiu: — É a instigação de Filipe que a faz vir aqui em busca de respostas e esperanças e diz que a todo custo quer saber o que eu pretendo fazer e que ela, quando eu quiser, fará que eu vá secretamente a um banho com ele e para que eu consinta, assaz me pede e importuna. E se não fosses tu que me meteste nesses enredos, não sei por que, eu me teria livrado dele de tal maneira que nunca mais se atreveria a pôr os olhos onde eu estivesse. — Então, pareceu-me que Filipe avançava muito e que não era possível tolerar mais e resolvi dizer-vos, para que reconheçais a recompensa que a vossa completa fidelidade recebe, e pela qual eu já estive na iminência de ser levado ao sepulcro. E para que não penseis que o que digo são apenas palavras e fábulas, se não verdades de que, quando quiserdes, podereis certificar-vos, disse a minha esposa que à mulher que a esperava respondesse que estava disposta a aparecer amanhã às três da tarde, ao banho. Com isso, a criatura partiu contentíssima. Não presumo agora que acrediteis que eu a enviasse. Mas se eu estivesse em vosso lugar, faria que ele se encontrasse comigo em lugar de encontrar-se com quem ele quer e, depois de curta permanência com ele, eu lhe faria ver com quem havia estado, tratando-o então como merece. E assim agindo, de tal sorte ele se envergonharia que ficará a um tempo vingada a ofensa que quis infligir a mim e a vós. Catela, sem atender a quem lhe falava nem aos seus enganos, como soem fazer os ciumentos, subitamente deu fé às palavras e passou a ligar com este fato algumas coisas que haviam acontecido antes. E de súbita ira acesa, respondeu que ela assim certamente agiria e que, se ele aparecesse, ela o envergonharia de tal sorte que sempre que ele visse alguma mulher, o episódio lhe voltaria à imaginação. Ricardo, contente com o que via e parecendo-lhe que a idéia havia sido boa e procedente, confirmou a sua perfídia com muitas outras palavras, fazendo-a acreditar mais, rogando-lhe todavia, que não dissesse a ninguém o que ele lhe havia falado, o que ela prometeu sob palavra. Na manhã seguinte, Ricardo foi ao encontro da boa mulher que era a dona da casa de banhos, disse-lhe o que pretendia fazer e pediu-lhe que o favorecesse. A boa criatura, que o apreciava muito, disse que o faria de bom grado, combinando com ele o que teria de fazer ou dizer. Na casa de banhos havia um quarto muito escuro, dada a falta de qualquer janela. A conselho de Ricardo, a mulher, pôs ali uma cama em que ele se meteu à espera de Catela. Dando às palavras de Ricardo mais fé do que mereciam, à tarde, Catela voltou aborrecida para casa, onde Filipe também voltava cheio de outros pensamentos, tendo tratado a esposa com menos familiaridade do que de costume, o que contribuiu para aumentar a sua desconfiança. Dizia consigo mesma: "Na verdade ele está pensando na mulher com quem pretende encontrar-se amanhã, o que com toda a certeza não irá acontecer". E passou a noite dominada por este pensamento e imaginando o que lhe deveria dizer na hora azada. Chegada a hora, Catela, acompanhada de uma criada, dirigiu-se para a casa de banhos. E ali, encontrando a boa mulher, perguntou-lhe se Filipe havia aparecido, ao que a proprietária, industriada por Ricardo, respondeu: — Sois a mulher que deverá encontrar-se com ele? — Sim, respondeu Catela. — Podeis entrar, redargüiu, pois ele está lá dentro. Catela, que andava procurando o que não queria encontrar, dirigiu-se ao quarto. Entrou com a cabeça coberta, e fechou a porta. Ricardo, à sua chegada, levantou-se feliz e acolhendo-a nos braços, disse, calmamente: — Vem, alma minha. Catela, querendo mostrar ser outra que não ela mesma, abraçou-o e beijou-o, acariciando – e sem dizer palavra, temendo, se falasse por ele seria reconhecida. O quarto era escuríssiimo, o que foi de agrado de ambos. Nem mesmo a grande permanência ali dentro deu aos seus olhos o poder de verem claro. Ricardo conduziu-a para o leito e aí, sem falar, de modo que a voz não o pudesse trair, por grandíssimo espaço de tempo ficaram, e com grande alegria de ambos. Mas quando a Catela pareceu que era chegada a ocasião de desabafar-se, acesa de fervente ira, disse: — Ah, quanto é mísera a sorte das mulheres e como é mal empregado o amor de muitas para com os maridos! Desgraçada de mim, há oito anos que eu te amo mais do que a minha vida e tu ardes e te consomes no amor de mulher estranha. Criminoso e perverso, com quem acreditas que estejas? Estás com aquela que, com falsas lisonjas, enganaste e por muitas vezes, fingindo-lhe amor quando estavas enamorado de outra. Eu sou Catela, não sou a mulher de Ricardo, traidor desleal. Escuta, para ver se reconheces a minha voz. Parece que mil anos que vivêssemos eu não te envergonharia como mereces, cachorro sujo e vituperável. Desgraçada de mim! A quem eu, por tantos anos, dediquei tanto amor? A este cão desleal que, acreditando ter nos braços mulher estranha, me fez mais carícias nas poucas horas que aqui me teve do que em todas as outras em que me possuiu. Estivesses hoje, cão renegado, bastante animoso enquanto em casa mostras-te débil, rendido e impotente. Mas Deus louvado, lavraste o teu campo e não campo alheio como acreditavas. Não é de estranhar que esta noite passada não me houvesses procurado. Esperavas em outro lugar aliviar a tua carga e querias chegar, cavaleiro fresco à batalha. Mas louvado seja Deus assim como a minha precaução seja louvada, a água desceu para o mar como devia. E não me respondes, criminoso? Nada me dizes? Emudeceste só de ouvir-me? Palavra que não sei o que me impede de meter as mãos nos teus olhos, arrancando-os! Acreditaste fazer ocultamente esta traição? Por Deus, vês bem que tanto sabe um como o outro. Não o conseguiste. Saí-me melhor do que supunhas. Ricardo gozava consigo mesmo aquelas palavras e sem responder nada, abraçava-a e beijava-a, e mais do que nunca fazia-lhe grandes carícias. E ela continuava dizendo: — Pensas agora que as tuas carícias infinitas possam agradar-me e consolar-me, cão fastioso. Mas erras. Não me darei por consolada, enquanto eu não te vituperar em presença de quantos parentes e amigos e vizinhos tenhamos. Ora, não sou eu, perverso, tão bela como a mulher de Ricardo Minútolo? Não sou tão gentil dama como ela? Por que não me respondes, cão imundo? Que tem ela mais do que eu? Aparta-te, não me toques que já fizeste o suficiente por hoje. Sei bem que de agora em diante, já bem sabes quem sou, forcejarás por fazer até esse momento espontaneamente não fizeste. Mas se Deus me der a sua graça, eu te farei padecer de ciúme; não sei o que é que me prende que não mando chamar por Ricardo, que me amou mais do que a si mesmo e jamais pôde orgulhar-se de eu tê-lo olhado, uma vez que fosse, e não sei que mal teria havido se eu o houvesse feito. Acreditaste ter a mulher dele e é como se a tivesses possuído, pois não esteve em ti a culpa de não se tratar dela. Portanto, se ele me possuísse, não terias por que me censurar. As palavras foram bastantes e grande a amargura da mulher. Por fim, Ricardo, pensando que se saísse, deixando-a nessa crença, muitos males poderiam sobrevir, deliberou revelar-se, tirando-a do engano em que estava. E, segurando-a bem entre os braços, de modo que não pudesse escapar, disse: "Doce amor meu, não vos perturbeis, aquilo que, simplesmente amando, não pude ter. Amor, com enganos, ensinou-me a possuir. Eu sou o vosso Ricardo." Catela subitamente quis atirar-se do leito mas não pôde. Quis gritar, mas Ricardo tapou-lhe a boca, dizendo: — Senhora, é impossível que aquilo que aconteceu, deixe de ter acontecido, embora ficásseis a vida toda gritando. E se gritardes ou fizerdes que, de qualquer maneira, o que fizemos venha a ser do conhecimento de qualquer pessoa, duas coisas podem acontecer: Uma (que não vos deve importar pouco) é que a vossa honra e boa reputação serão destruídas, pois se disserdes que eu aqui vos trouxe por engano, terei que responder que não é verdade, antes que vos fiz vir por dinheiro e presentes prometidos e que, por não terem sido o que esperáveis, vós vos perturbastes, passando a fazer tão grande alarido. E vós sabeis que o povo está mais inclinado a acreditar no mal que no bem e por isso mesmo é que acreditará em mim, antes de acreditar em vós. Depois disso nascerá entre vosso marido e mim uma inimizade mortal e pode acontecer muito bem que um de nós acabe matando o outro, tal seja a marcha dos acontecimentos, coisa que de nenhum modo vos deve deixar contente. E, por isso, coração meu, não queirais a um tempo, desonrar-vos e pôr em perigo e luta a vosso marido e a mim. Não sois a primeira nem sereis a última a ser enganada, nem vos enganei para tirar-vos a honra, mas por um imenso amor que vos dedico e dedicarei sempre, dispondo-me a ser vosso humílimo servidor. E como há muito que eu e minhas coisas e tudo que eu possa e valha fiz vossos e pus a vosso serviço, acredito que de hoje em diante ainda mais o estarão. Ora, vós sois esclarecida em outras coisas e estou certo de que o sereis também nessa. Catela chorava profusamente. E muito perturbada e amarga, deu razão às palavras de Ricardo. É que ela acreditava possível vir a acontecer o que Ricardo prognosticava. E disse: — Ricardo, eu não sei como Deus possa conceder-me que eu tolere a injúria e o engano que me fizestes. Não quero gritar aqui aonde fui conduzida pela minha ingenuidade e ciúme, mas vivei seguro de uma coisa, que eu não ficarei contente, enquanto não me vingar do que me fizeste. Já é tempo de me deixardes. Deixai-me, imploro. Já possuístes o que desejastes e já muito me maltratastes. Ricardo dispunha-se todavia a não a deixar, a não ser depois de reaver a sua paz. Por isso, começou com dulcíssimas palavras a apaziguá-la, tanto disse, rogou e conjurou que ela, vencida, fez as pazes com ele e, postos enfim de acordo, permaneceram por muito tempo em amistosa companhia. E a mulher, conhecendo então que os beijos do amante são mais saborosos que os do marido, transformou em doce amor a sua dureza e, daquele dia em diante, ternissimamente o amou e, agindo, avisadissimamente, muitas vezes gozaram do seu amor. E que Deus nos faça gozar do nosso. Extraído das Histórias galantes (Cultrix, 1959), do escritor italiano nascido em Paris, Giovani Boccaccio (1313-1375). Veja mais aqui e aqui.

UM POEMA DO CAPÍTULO 2 - Um café e um amor… Quentes, por favor! / Sem excessos de doçura ou amargura. / Forte / Doce… / Que ambos façam meu coração acelerar. / Que me mantenham vivo. / Um café e um amor… Quentes, por favor! / E que de nenhum deles eu sofra de vício, / Mas que de ambos, / Eu possa me dar ao luxo do hábito / Um café e um amor… Quentes por favor! / Pra ter calma nos dias frios. / Pra dar colo / Quando as coisas estiverem por um fio. / E que eles nunca tenham gosto de ontem / Nem anseiem pelo amanhã / Que me façam feliz nesse agora, / Que me abracem pela manhã. Poema do escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Joshi Daniel.
Veja mais aqui.

Poa - Perspectivas Criativas & muito mais na Agenda aqui.
&
Circo Itinerante, o pensamento de John Gray, o  teatro de Hermilo Borba Filho & a arte de Nelina Trubach Moshnikova aqui.


segunda-feira, maio 21, 2018

PROUST, FRIDA KAHLO, RICOEUR, NIKI DE SAINT PHALLE, MISES, MILLA JOVOVICH, ANTÔNIO MADUREIRA & TAMAR HALPERIN


FALSA MISSIVA DESENDEREÇADA -Imagem: Long Live Love (Vive l'Amour - 1990), da multiartista francesa Niki de Saint Phalle (1930-2002) - Sou estrangeiro há décadas nesse fluxo de volatilidades e o meu semblante perdeu a fisionomia com o cheiro da terra de maio, o gosto ondulante do canavial flechado e a boiada de nuvens insistentes nos meus olhos outonais. De resto, pedaços de lembranças perdidas em pensamentos nessa falsa carta inspirada numa de Frida e como não tenho Caros Amigos ou amigas, fiquei órfão muito antes da minha irmã jogar no lixo meus rabiscos solitários e exasperados de anos atrás. Ademais, o Brasil continua aquela anomalia imprevisível em que tudo que se espera de real é só equívoco ribanceira abaixo do minimamente considerável. Tenho comigo os acordes israelitas da bela Tamar Halperin rondando minhas ideias, como se fosse a doméstica inflada a passar tão sedutora quão reboladeira num verso sem nome do Magma de Olga Savary, tão reboladeira nas estrelas estonteantes da minha libido descendo a ladeira como se fosse a Milady de Winter, e eu boquiaberto nem dando conta que o tempo passa e eu sequer tenho pensado em acerto de contas, porque tudo se espalha e não há como juntar nada no malogro das minhas mãos falíveis. Estou prestes a fechar o ciclo vigente e nada é mais insignificante do que falar sozinho ou pras paredes, às vezes me pego falando grego, nada demais, é que, apesar de tudo, o Recife continua me encantando por noites e dias infindos do que não sei. Tirante o Rio Una pra onde volto, em geral tudo é varejo de ignominia; no particular, nada a declarar. A rigor, não tenho mesmo nem a dizer da terra e razões erodidas, pelas ruas e suas encruzilhadas e mata-burros, esgotos e sensos transbordados de imundícies na profusão do capim, nos bueiros e alto-falantes das orações exaltadas aos escancaros da felicidade inexistente, enquanto a esperança fruteira que resiste da monocultura industrializada, nada mais é que mecenas com suas esmolas pras festivas idiossincrasias de quem pensa que sabe o que quer e não sabe, que acha que sabe o que fez e sequer se lembra, e se acha maior quando nem o menor do seu próprio tamanho: a cidade cresceu e não passa de um arruado na ironia do pseudo-elogio que subjaz todas as incursões da estupidez a bater no peito patriótico de quem só sabe hipocrisia. Ah, como sou estrangeiro no fluxo dessas veleidades. Até já que já fui, sabe-se lá se volto, nem sei. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, maestro, violonista e compositor Antônio Madureira: Violão, Revisitação dos Santos Reis & Romançário; da pianista israelita Tamar Halperin: Jazz Baltica, German Jazz Meeting & Gymnopedie nº 3 de Eric Satie & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Ação humana é comportamento propositado. Também podemos dizer: ação é a vontade posta em funcionamento, transformada em força motriz; é procurar alcançar fins e objetivos; é a significativa resposta do ego aos estímulos e as condições do seu meio ambiente; é o ajustamento consciente do estado do universo que lhe determina a vida. Estas paráfrases podem esclarecer a definição dada e prevenir possíveis equívocos. Mas a própria definição é adequada e não necessita de complemento ou comentário. [...]. Pensamento extraído da obra Ação humana (ILMBrasil, 2010), do economista austríaco Ludwingvon Mises (1881-1973).

COMUNICAÇÃO & EXPERIÊNCIA - [...] A experiência experienciada, como vivida, permanece privada, mas o seu sentido, a sua significação torna-se pública. A comunicação é, deste modo, a superação da radical não comunicabilidade da experiência vivida enquanto vivida. [...] A exteriorização e a comunicabilidade são uma só e mesma coisa, porque nada mais são do que a elevação de uma parte de nossa vida ao logos do discurso. De qualquer modo, a solidão da vida é aí iluminada, por um momento, pela luz comum do discurso [...] O paradoxo é que a comunicação é uma transgressão, no sentido próprio do ultrapassamento de um limite, ou melhor, de uma distância num sentido inultrapassável [...] Ora, o nexo entre as três figuras da intenção é de grande interesse para nosso problema da comunicabilidade. Nós passamos, com efeito, de uma acepção na qual a intenção está ainda muito próxima da simples implicação (aquele que promete quer dizer – implica – que ele se coloca sobre a obrigação de fazer) à intenção como desejo ou crença, que é propriamente a intenção noética. Daí, nós passamos à intenção como espera do reconhecimento pelo outro da intenção do locutor. Este último obtém propriamente o nome de intenção da comunicabilidade. [...] é esta parte não intencional da vida, esta maneira de o vivido se incrustar em si mesmo, esta sequência de acontecimentos transversalmente ligados à mesma série, à mesma esfera, a mesma clausura. O psíquico, em uma palavra, é a solidão da vida que, por intermitência, acaba assegurando o milagre do discurso [...] Trechos extraídos da obra Sobre a tradução (Cotovia, 2005), do filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005). Veja mais aqui e aqui.

CAMINHO DE GUERNANTES - [...] Para conseguir ser assim reconhecidos, o pintor e o artista original procedem à maneira dos ocultistas. O tratamento para sua pintura e para sua prosa nem sempre é agradável. Quando terminam, o prático nos diz: agora olhe. E eis que o mundo (que não foi criado uma vez mas tantas quantas vezes surgiu um artista original) afigura-se-nos inteiramente diverso do antigo mas perfeitamente claro. Mulheres passam pela rua, diferentes daquelas de outrora, pois são Renoir, esses Renoires em que outrora nos recusávamos a ver mulheres. [...] Trecho extraído da obra O caminho de Guernantes (Globo, 2007), do escritor francês Marcel Proust (1871 - 1922), o terceiro volume da série Em busca do tempo perdido, marcando uma inflexão no caminho existencial, atravessando um longo período de vida com uma larga sucessão de escolhas e cadeias de associações imagéticas, até chegar a novo lugar e poder, acompanhando o dia a dia dos acontecimentos. Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS - LEMBRANÇA: Eu sorria. Nada mais. De repente, porém, eu soube / na profundeza do meu silêncio / que ele me seguia. / Como minha sombra, leve e sem culpa. / Na noite uma canção soluçou... / Os índios se estendiam, como serpentes, pelas vielas da cidade. / Uma harpa e uma jarana eram a música, e as morenas sorridentes / eram a felicidade. / Ao fundo, atrás do Zócalo, o rio cintilava / e escurecia, como / os momentos de minha vida. / Ele me seguia. / Acabei chorando, isolada no pórtico da / igreja paroquial, / protegida por meu xale de bolita, encharcado por minhas lágrimas. POEMA PARA LINA E ARCADY BOYTILER: Deixo-lhes meu retrato / para que me tenham à sua frente / todos os dias e todas as noites / em que eu estiver longe de vocês. / A tristeza se espelha / em todo o meu trabalho, / mas este é meu estado; / sinto-me desamparada. / Ainda assim, trago a felicidade / no coração, / por saber que Arcady e Lina / amam-me como sou. / Aceitem este quadrinho / pintado com minha ternura / em troca de sua afeição / e sua imensa doçura. POEMA: na saliva. / no papel. / no eclipse. / em todas as linhas / em todas as cores / em meu peito / fora. dentro. / no tinteiro – nas dificuldades de escrever / no assombro de meus olhos, nas últimas / linhas do Sol (o Sol não tem nenhuma linha) em / tudo. Dizer “em tudo” é idiota e magnifico.  Diego em minha urina Diego em minha boca – em meu / coração e minha loucura. Em meu sono – no / papel mata-borrão – na ponta da caneta / nos lápis – nas paisagens – na / comida – no metal – na imaginação. / nas doenças – nas vitrines - / em suas lapelas – em meus olhos – em sua boca. / em sua mentira. Poemas da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954). Veja mais  aquiaqui.

A ARTE DE NIKI DE SAINT PHALLE
A arte da multiartista francesa Niki de Saint Phalle (1930-2002). Veja mais aqui.


Só às paredes confesso, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
A poesia de Olga Savary aqui
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da atriz, modelo, cantora e designer de moda servo-croata Milla Jovovich que estrelou o filme Os três mosqueteiros (2011), baseado na obra homônima do romancista francês Alexandre Dumas (Dumas Davy de la Pailleterie – 1802-1870. 
Veja mais aquiaqui.
&
Missiva de esconjurado aqui
&
A carta do barbeiro aqui
&
Das coisas que vão & voltam, a infância de Neil Postman, a literatura de Philip Roth & a fotografia Ralph Gibson aqui.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...