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quarta-feira, maio 23, 2018

STENDHAL, ALBERTO HIDALGO, DIANE ACKERMAN, GORDON CHILDE, XUL SOLAR, HELENA IGNEZ, LOU REED & LAURIE ANDERSON


CARTA PERDIDA NA PRIMEIRA ESQUINA - Imagem: arte do argentino Xul Solar (1887-1963) - Por tantas idas e vindas perdi as sílabas inauditas do meu canto ao rés do chão e as minhas pobres palavras inconclusas esgarçaram-se empoeiradas e em revoadas sem eco aos ventos no céu de nenhum azul e urros do tempo. Emudecido pela chuva torrencial, fiz da morada do silêncio o que pude e me restava ver as tantas faces do amor caçoando de mim: quem não sabe brincar, não entra na roda. Ah, quem não desceu ladeira abaixo, deu de cara com o poste, teibei! Quantos anos mais tarde, dei por mim, a cidade enterrada na duna da memória assaltada atrás dos morros por folguedos, palácios e estábulos, o naufrágio de almas às horas suicidas nas ruas que não sei o nome, e quase me perdia de vez ao confundir os paralelos que parecem convergirem mas não, desajeitado e até obsceno sem saber o que fazer, só o lisonjeiro bem empregado dos sacânicos, desacumulados e estranhos que escondem o pior de si para serem simpáticos risonhos ocultando sentimentos embusteiros, e sem que pudesse espalmar as mãos já penhoram suas devoções estarrecidos com o acervo de coisas malévolas e inatacáveis, profanando intimidades com extravagâncias pra escandalosas ruinas e agruras de facas amoladas com todos os requintes de crueldade. Assim se satisfaziam e às suas imprecações monstruosas das gradações do ódio por flagelos, desnudamentos, imposturas de déspotas e ventríloquos em seus próprios extermínios. Tudo isso, ondas invasoras da risada do verdugo a naufragar o humano a cada instante e caçá-lo e matá-lo sem dó nem piedade, para então ressuscitá-lo no grau da ciência, todo petrificado e envaidecido pela armadura incapacitante de descontrolados nas armadilhas de suas mil e uma insônias, vísceras, remorsos, vitupérios. Eu assisto a tudo e me esquivo e sei que ninguém escapa, não há escapatória, mesmo que não sejamos melhor que sombras e pó, somos tão parecidos na nossa desonra, na impermanência que nos pinta de êxito a traição, rumo ao topo que não é nada no pico da festa dissipada pelo jogo das luzes no estardalhaço. Quase consigo me livrar, nem sempre, cada esquina uma revelação, um plano de voo ou fuga, e lá vou contando cada alvorada para cada crepúsculo na ponta dos dedos, e mais uma vez o ciclo se fecha pro meu arbítrio e recomeça a cada três horas de novo e o primeiro passo rompe o confim pra outra imensidão e a vencer dimensões que vão e voltam em mim que não sei nada e nem quero saber, só voo sem sílabas do canto ao rés do chão e com as ataduras das palavras empobrecidas que me restam da solidão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, guitarrista & compositor estadunidense Lou Reed (1942-2013): Les nuits de furvière, Live Lollopoaloosa Chicago & Live Capitol Theatre; da artista experimental estadunidense Laurie Anderson: Home of the brave & Live Concert Luminato Festival; da apresentação Lou Reed & Laurie Anderson Live in Venice; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Os homens se apegam apaixonadamente às velhas tradições e revelam uma relutância intensa em modificar modos habituais de comportamento, como os inovadores de todas as épocas verificam à sua própria custa. O peso do conservantismo, em grande parte uma aversão preguiçosa e covarde pela cansativa e penosa atividade de pensar autenticamente, sem dúvida retardou o progresso humano, no passado mais do que hoje. [...]. Trecho extraído da obra A evolução cultural do homem (Zahar, 1981), do filólogo australiano Gordon Childe (1892-1957), expressando em seus estudos que [...] Os homens podem fabricar ferramentas porque suas patas dianteiras tornaram-se mãos, porque vêem o mesmo objeto com ambos os olhos e podem avaliar as distâncias com muita exatidão, bem como porque um delicadíssimo sistema nervoso e complicado cérebro os capacitam a controlar os movimentos da mão e do braço em adequação precisa ao que estão vendo com ambos os olhos. Mas os homens não sabem por algum instinto inato fazer ferramentas e usá-las: precisam aprender através da experiência, através do ensaio e do erro [...].

VOCABULÁRIO DO AMOR – O amor é o grande imponderável. Em nossos pesadelos, podemos criar feras por pura emoção. O ódio exibe suas presas gotejantes pelas ruas, o medo paira sobre os becos com suas asas de couro, e o ciúme tece viscosas teias através do céu. Em fantasia, podemos manipular as tramas com equilíbrio, derrotando um adversário, obtendo sucessos gloriosos sob os aplausos das multidões, alcançando prontamente o âmago da aventura. Entretanto, que espécie de sonho é o amor? Frenético e sereno, vigilante e calmo, angustiado e forte, explosivo e sóbrio – o amor comanda um vasto exercito de humores. Confiantes na vitória, claudicantes após a última escaramuça, os amantes adentram a arena uma vez mais. Imóveis, somos tão audaciosos quanto os gladiadores. [...] O amor é a luz branca da emoção. Contém inúmeros sentimentos que, por preguiça e perplexidade, aglomeramos em uma simples palavra. A arte é o prisma que os coloca em liberdade, acompanhando em seguida os rodopios de um ou alguns deles. Quando a arte separa esse denso emaranhado de sentimentos, o amor revela seu esqueleto. Todavia, ele não pode ser medido nem mapeado. Todos admitem que o amor é maravilhoso e necessário, mas ninguém consegue chegar a um acordo sobre o que ele é. [...] Por mais sublime que a ideia do amor possa ser, nenhuma imagem é excessivamente profana para ajudar a explica-lo. [...] o amor produziu todos os imponderáveis. Ele nos permite realizar nossa mais requintada dança. Amor. Usamos uma palavra tão pequena para uma ideia ilimitada e poderosa, a qual alterou o fluxo da história, apaziguou monstros, inspirou obras de arte, consolou os desesperados, tornou sentimentais os valentões, consolou os escravizados, tornou arrebatadas mulheres fortes, glorificou os humildes, alimentou escândalos nacionais, levou à ruina magnatas gatunos e fez picadinho de reis. De que maneira a vastidão do amor pode ser traduzida nos limites estreitos de quatro letras? [...] O amor é um delírio ancestral, um desejo mais antigo do que as civilizações, cujas raízes inserem-se profundamente em épocas desconhecidas e misteriosas. Usamos a palavra amor de maneira tão descuidada que ela quase pode significar nada ou absolutamente qualquer coisa. É a primeira conjugação que aprendem os estudantes de latim. [...]. Trechos extraídos da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman.

MAIS DO AMOR – [...] O amor reduziu-me à condução de angustia e desespero, e amaldiçoo minha própria existência. Nada consegue atrair meu interesse... cada imagem na parede, cada peça da mobília reprova-me pela felicidade com que sonhei nesta sala e que agora está perdida para sempre. Percorri as ruas a passos largos e sob a chuva fria; e o acaso, se puder chamá-lo de acaso, fez-me passar pela janela da amada. A noite caía e, ali passando, meus olhos marejados fixaram-se na janela do seu quarto. De súbito a cortina foi afastada por um instante, como se para permitir um vislumbre do interior, mas voltou rapidamente a seu lugar. Senti um espasmo em meu coração. Sem mais forças para resistir, refugiei-me num pórtico vizinho, os sentimentos de desordem; naturalmente devia ter sido um movimento casual da cortina; mas imagine se a mão dela houvesse levantado a cortina! Dois apenas são os sofrimentos na vida; o sofrimento da paixão não correspondida e aquele do vazio inerte. No amor, tenho a sensação de que a felicidade ilimitada, para além de meus sonhos mais arrebatados, encontra-se logo depois da esquina, esperando apenas uma palavra ou um sorriso. Sem a paixão... não posso encontrar a felicidade em parte alguma, e começo a duvidar se realmente ela me está destinada [...]. trechos extraídos da obra Do amor (Martins Fontes, 1993), escritor francês Stendhal – pseudônimo de Marie-Henry Beyle (1783-1842). Veja mais aqui.

BIOGRAFIA DA PALAVRA REVOLUÇÃO - Palavra que nasceu de um vômito de sangue / palavra que o primeiro que a disse se afogou nela / palavra sempre posta em marcha / palavra contumaz na modernidade / palavra que se pronuncia com os punhos / palavra grande até sair pelas margens do dicionário / palavra de 4 flechas disparada aos pontos cardeais / Aqui fica desenraizada de todo o seu episódio / sobre um dos vértices mais remotos do tempo / concentração / para empreender a rota para que céu? / Cada um conforme sua intensidade conforme seu / diverso carater alfabético / e a palavra ficou escrita / Revolução / logo o sol ao passar detrás dela para afundar-se / na noite / incendiou suas dez letras / revolução / e foi o primeiro aviso luminoso do mundo / agora está no homem como o oxigênio está na água / campos, cidades, mares contam com uma população / de seus ecos / Subtrairam-lhe o espaço aos corpos que se dilatam / tem violência e distinção de onda de vento / entra nas almas com uma sensualidade de arado / cartaz escrito na claridade de dois braços erguidos / alcemos com a vida. Poema do escritor peruano Alberto Hidalgo (1897-1967).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A atriz, diretora, roteirista e cineasta Helena Ignez, começou sua carreira com o curta-metragem O pátio (1959), de Glauber Rocha. Depois ela participou dos filmes A grande feira (1961), Assalto ao trem pagador (1962), o Padre e a moça (1966), O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, no qual interpretou a Janete Jane. A partir de então ela passou a integrar o Cinema Marginal e o udigrudi, ao lado Rogério Sganzerla e Júlio Bressane. Entre os anos 1968 e 1970, chegou a fazer cerca de doze filmes, passando, a partir de 1972, a filmar na Europa, Estados Unidos e África, chegando a realizar a anarquia corporal A mulher de todos e a realizar Ângela Carne e Osso. Em 2010, produziu Luz nas trevas – A volta do Bandido da Luz Vermelha. Dirigiu filmes como A moça do calendário e O poder dos afetos (2013), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


Primeira Antologia da Academia Palmarense de Letras (APL) & muito mais na Agenda aqui.
&
Las Cuatro (1922), do argentino Xul Solar (1887-1963) aqui
&
Dias & noites a fio, Estabelecidos & Outsiders de Norbert Elias, a poesia de Gerardo Mello Mourão & a fotografia de Alex Krivtsov aqui.
 

quinta-feira, maio 22, 2008

BRETON, IVAN LESSA, DIANE ACKERMAN, HELENA NEMER SALLES, GRETA BENITEZ & LITERÓTICA


 
A arte dartista plástica Maria Helena Nemer Salles.

LITERÓTICA: MINHA – Enquanto o sol irradia na claridade da manhã, mais te quero minha, minha diva do meu amor desmedido. E mesmo que esteja nublado ou chuvoso, meu coração se aninha cada vez mais ávido para esquentar tua sanha e ver-te em flor radiante e minha sempre minha adoravelmente minha. Eu te sonho sempre minha e inteira no meio da minha solidão exaltada que sonha provar com meu apetite contumaz da sedução do teu olhar carente e me deixa fascinado com teu jeito manhoso de te entregar. E vou me entregar à tua boca indecorosamente sedenta com teus lábios sugadores implacáveis e entreabertos para a volúpia de todo meu ser enquanto sou provocado pela lambida obscena de tua língua que acaricia meu polegar nos arrepios de nossas almas. És minha e vou embarcar na sinuosidade do teu corpo de beldade devoradora como quem é contemplado por doses generosas do teu prazer, desfrutando da excitante viagem que faz bonito na apoteótica cena strip-tease de tua dança depravada que vem exalando sensualidade por todos os teus poros na pose do meu ensaio privado, na febre que me atormenta pela gula de tua majestosa expressão de deusa no panteão do sexo extremo. Ah! Sou teu escravo e tu és minha e almejo me agarrar no traçado do desejo pela lindeza extrema de tua exuberante geografia que é pura devassidão desde o decote escandaloso até a compleição mais altaneira de tuas pernas coxas e sexo enchendo minha boca de saliva pro doce mais gostoso. Eu vou me fartar de tua suculenta emanação que rivaliza com toda a beleza do mundo e te deixar ensandecida pin-up ousadíssima stripper pervertida rainha sodomita de toda minha perversão sexual. Eu vou contracenar com o teu corpo lindo e magistral protagonizando o mais audacioso furacão de desejo do meu grosso calibre que te penetrará em cima do lance, bem devagar, tímido e possesso numa ousadíssima intervenção do meu querer enlouquecido preso pelo tronco por tuas pernas na cara do gol enquanto eu na banheira de tua grande área fazendo estripulias para teu prazer. És minha, deusa-mulher, e eu te venero a cada estocada que derrama o meu gozo para que o teu gozo seja pleno e real. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


PENSAMENTO DO DIA - Do seio da terrível miséria física e moral deste tempo sem dó ou ventre espera-se sem desesperar ainda que energias rebeldes a toda domesticação retomem pela base a tarefa de emancipação humana. Pensamento do escritor francês André Breton (1886-1966). Veja mais aqui e aqui.

SER HUMANO - [...] nada é mais surpreendente ou assombroso do que os seres humanos. Nós não somos diferentes nem distintos dos outros animais. Não somos deuses que possuem o direito de destruir nosso mundo ou outros, mas somos criaturas raras e extraordinárias em evolução neste planeta. Somos impressionantes explosões de sonho e matéria. Nossas mentes são tão complexas quanto o Grand Canyon. Nossas necessidades, tão persistentes quanto a quentura do inverno. Nossos desejos, tão densos e voluptuosos quanto os oceanos. Nós somos prodígios naturais. [...]. Trecho extraído da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman. Veja mais aqui e aqui.

SOMOS TODOS ESTRANGEIROS - Estrangeiro é o bairro em que moramos, estrangeira é a mulher que encoxamos no elevador, estrangeiros são nossos pais, nossos filhos. Nunca me senti em casa no Brasil, ninguém está em casa no Brasil: todo mundo foi até a esquina, todo mundo foi tomar um cafezinho. Achava que, de uma maneira ou de outra, eu estava embromando ou sendo embromado por alguém. Que viver não era nada daquilo, que eu não tinha nada com o peixe, que os verdadeiros brasileiros estavam misteriosamente ocupados com seus sofrimentos, ou então atarefados criando um Brasil melhor: gente andando rapidamente nas ruas da cidade, ou cavando uma terra dura e ingrata. Os brasileiros eram abstratos, distantes, mais calados do que comumente se supõe. Conheço algumas vozes brasileiras: gostaria de saber escrever na tonalidade do Jorge Veiga, ou do Moreira da Silva, misturada a uma retórica aborrecida e às avessas semelhante à de Ruy Barbosa — como o Hino à Bandeira acompanhado de caixinha de fósforos. Os sambinhas, claro, eram brasileiros, o pessoal que sentava ao meu lado no Maracanã era brasileiro, as piadas de papagaio eram brasileiras. Mas tudo era de mentirinha, beirando sempre o pitoresco ou se precipitando na tragédia policial ou no editorial dos jornais. A vida a sério, os seis quarteirões em que me locomovia, as seis pessoas com quem convivia não eram, digamos assim, bem brasileiros — assim como eu, tinham máquina fotográfica a tiracolo e camisas com palmeiras. Em tudo que eu engolia ficava uma ponta de tradução atravessada em minha garganta: os filmes com legendas em português, as histórias em quadrinhos, os livros, as notícias; os foxes. Éramos uma versão pobre do que a vida deveria ser — e a vida vinha sempre em inglês, em francês, em alemão. Mesmo quando dizia “eu te amo”, ou “não me chateia”, eu me sentia vagamente ridículo, apropriador — feito um homem de série da televisão mal dublado: minha boca fechada e as palavras ainda saindo, um ventríloquo com descontrole psicomotor. Reconheci, pelo paladar, pelos olhos, certos molhos, certas bossas tipicamente brasileiras (o problema é que eram típicos): feijoada, dendê, folha seca de Didi, Noel Rosa, escola de samba. Mas a essência, a parte que tratava de mim (nos meus seis quarteirões, na cidade no sul do país) e de minha relação com os severinos todos, essa parte era sempre tratada em outra língua; eu pertencia aos estrangeiros, foram eles que me disseram como vim a fazer parte ou como nunca fiz parte. Eu era, como todo brasileiro, um improvisador, um adaptador, um tradutor, conseqüentemente um traidor — porque eu olhava para a cara de meu semelhante e não sabia como poderíamos nos entender, o que ele tinha a me dizer, o que eu poderia lhe dizer, como juntos conseguiríamos nos salvar. No entanto, o tempo todo, eu era, eu sou, apenas mais um João, só que em russo. Não consegui, como tanta gente de minha geração ou mais moça do que eu, me interessar pelo folclore caboclo. A própria palavra folclore já leva embutido um desaforo urbano. No entanto, achava que o setor, devidamente estudado por profissionais competentes, me seria útil, me forneceria, por exemplo, dados para escrever com justeza para um público moço que vive de cinema, disco e que sabe, curiosamente, que há uma tremenda safadeza, uma violência no ar. Não lia, portanto, O Negrinho do Pastoreio — o que já preparava o terreno até para eu deixar de ler Machado de Assis ou Dalton Trevisan. Comprava pocketbooks, que eram mais baratos, mais engraçados, e, de certa forma, sobre mim, a meu respeito. Preocupado comigo mesmo, com esse “meu respeito”, descobri-me sozinho no meio da avenida repetindo eu... eu... eu... como um pronome enguiçado que não consegue engatar a segunda e a terceira do singular. Perdi os joões, os josés, os severinos, vim para o original, o estrangeiro, dando início a uma certa paz, tranqüilidade, a noção de ordem: as legendas acabaram, sou finalmente, completamente, um estrangeiro. Posso agora conjugar-me no plural, dizer nós. Somos todos estrangeiros, sois todos estrangeiros, são todos estrangeiros. Não há nada a fazer a não ser descobrir esse estrangeiro que há na gente. Daí então a gente começa a falar brasileiro, coça o saco, conta como é que é. Daí então o papo, aquele papo, pode começar. Só que agora pra valer. Extraído da obra O melhor do Pasquim (Desiderata, 2006), do escritor e jornalista Ivan Lessa (1935-2012), organizado pelo jornalista Sérgio Augusto e Jaguar.


MUSA DA SEMANA: GRETA BENITEZ - Greta Benitez é uma linda poeta curitibana que é formada em publicidade e pós-graduada em marketing.
É autora do livro Rosas Embutidas – Premio Jorge de Lima – Brasil 500 Anos, concedido pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores, 1999. Também é autora do livro Café Expresso Blackbird, em 2006.



Poeta premiadíssima no Brasil e no exterior, ela já foi selecionada para diversas antologias. Também já foi a poeta do mês do Guia de Poesia. Eis alguns dos seus poemas:



Estou pronta pra tudo que você imagina.
Deixei minha inocência na pior esquina.

-*-

Envolvimento
Cantora africana
balança o movimento do carro
Trilha sonora de paisagem urbana
Violão se funde com motor
Num insólito e sonoro caso de amor

-*-

Check-In

Não me importa entrar pela porta arabescada
Do desespero
Descer
Inferno
Destempero
Desequilíbrio
Certas cordas sem rede de proteção
Fogo
Carvão
Súcubos
Exus
Sereias amaldiçoadas, super-heróis do avesso
Nada disso me assusta
Se tiver certeza de que na saída
Eu estarei do lado de fora esperando por mim.

-*-


Era ninfeta
chinesa
freira.
Agora, passada a bebedeira
não é hora de
escolher
e ser?

-*-

Mercado Municipal
Encontrei na minha bolsa antiga um papel onde estava escrito:
Lã
Quimono
Pomba-gira
Gato
Moço ao pôr-do-sol
-
Seria uma lista de compras?

-*-

A cereja te deseja.
Você sabia?
Com sua volúpia vermelha
seu brilho indiscreto
embriagada de marasquino
ela já não mede conseqüências.
Hoje ela se sente perigosa
e na fogueira da sua alma
abusa dos sentimentos mais doces.
E até ela se escandaliza
descobrindo que é capaz de tudo
até vestir veludo
salto alto e trilha sonora
para ter você
agora.

-*-

Cílios eletrônicos
Milhares de homens atônitos
Sexo explícito dentro dos ônibus

-*-


Essas Estranhas Mulheres da Cidade

Essas santas
Suas seitas
Essas santas desfeitas
Santas ao contrário
Mulheres eleitas
Loucas pelo avesso
Enfermeiras
Velhas sereias
Vagam
Loucas pelos desertos da cidade
Doméstica desolada
Mulher de negócios apaixonada
As loiras de farmácia
E as morenas neuróticas
Mulheres da guarda-chuva atravessam a rua
Mulheres gripadas
Mulheres de salto alto
Botas, lenços, batom escandaloso
Mulheres à luz do sol
Essas deusas dançam
O tango do trânsito
Mulheres fatais
Sangue quente, cristais
Mulheres procurando seu cenário
Mulheres saindo do camarim
Todas elas dizem sim
Amigas do Marquês de Sade
Desfilam no meio da tarde
Essas estranhas mulheres da cidade
Mulher-dama
Dominatrix
Mulheres do norte
Mulheres que eram homens
Mulheres sabem a verdade
Essas estranhas mulheres de cidade.

Ela é editora do site Poesia Insana e do blog Chocolate Amargo.



VEJA MAIS:
MUSA DA SEMANA


Veja mais sobre:
Voar é preciso, viver não é preciso!, Doris Lessing, Luis Buñuel, Leonardo Boff, Hans Magnus Enzensberger, Guilherme Faria, Joseph Kosma, Sérgio Telles, Alfredo Martirena, O riso doído, Psicanálise & Sociedade dos poetas mortos aqui.

E mais:
Vivendo e aprendendo a jogar, Lygia Fagundes Telles, Ziraldo, Luciano Berio, Christine Lau, Nilza Menezes, Antonio Januzelli – Janô, Todd Solondz & O Retorno da deusa aqui.
A arte de Tammy Luciano aqui.
A educação na Sociologia de Max Weber aqui.
A educação nos anos 70 e as desigualdades sociais aqui.
As trelas do Doro: a capotada do guarda aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o muxôxo dá num engasgo, o peso enverga o espinhaço de chega ficar de venta esfolando no chão aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora comemorando a festa do Tataritaritatá!
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.

quarta-feira, abril 02, 2008

ALCÂNTARA MACHADO, DIANE ACKERMAN, MICHEL RIBON, SHERE HITE, MARIA ESTHER MACIEL, HÉLÈNE GRIMAUD, TERAPIAS FAMILIARES & PSICOLOGIA SOCIAL


 
Curtindo a arte da pianista francesa Hélène Grimaud. Veja mais aqui e aqui.

MEIA NOVE – Ela achega-se requerente e dissoluta, palpitante e seminua. O seu perfume me inebria e flagro o seu olhar manhoso a denunciar o cio. Encosta os seus lábios aos meus, um beijo e todo afago, arrepiando-se ofegante com as minhas mãos a deslizarem seu dorso, alcançar-lhe as ancas voluptuosas prontas pro prazer. As suas mãos acariciam-me a face enquanto move seu ventre esfregando-se ao meu sexo protuberante. Levanto a sua saia e o seu sexo quente bafeja faminto encostado ao meu. Movo-lhe até o sofá, sentamos quase desnudos e corro os dedos por baixo da blusa até os seus seios nus e hirtos a encher-me a palma espalmada carinhosamente. Roço-lhe a pele eriçada e arranco a blusa para, em seguida, alisar suas coxas embaixo da saia e tocar-lhe o sexo úmido embaixo da calcinha. Faço-a deitar-se a beijar-lhe as faces, mordo seus ombros, lambidas nos seus seios, beijos no seu umbigo, a demover a saia e a calcinha para deixá-la completamente nua, entregue às minhas investidas. Enquanto isso, ela quase desfalecida toca meu pênis por cima da calça, desatacando-a e descendo o zíper para apertá-lo por cima da cueca e cravar suas unhas para arrancá-lo duro a puxá-lo até os lábios para beijinhos contidos e arrepiantes. Sobre as suas coxas lambo-as até o clitóris e meus dedos se insinuam a acariciar sua vagina e ânus. A sua língua contorna a glande e ensaia com os lábios abocanhá-lo lenta e calmamente. Um dos meus dedos se atreve a mergulhar no poço ensopado de seu prazer, para um outro enfiar-se delicadamente medonho no cu. Ela suspira deliciosamente e agita o quadril para que eu enfie mais nos seus orifícios, fazendo com que minhas lambidas sejam mais intensas e profundas na sua vulva. Sinto meu membro inteiro na sua boca, engolido até a garganta em sua fome ofegante de felatriz, eu mais firme na cunilingua passeio com a chupada e o toque a tatear tímida e consequentemente em ritmos de tira e bota, entra e sai, vai e volta na sua intimidade enlouquecida. Ela transpira inquieta e eu mais ousado a chupá-la de forma a exaltá-la em abocanhar insana e selvagemente até à garganta, agarrada ao meu tronco na chupada de babar me aprontando pro gozo aos seus zis orgasmos. Vamos até as últimas instâncias e no ápice de nossa libidinosa chupação, derramo na sua abóbada palatina a seiva inteira jorrada das profundezas do desejo explodido, enquanto ela eletrizada descarrega seus estertores de múltiplos e extremos prazeres. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


PENSAMENTO DO DIA – A poesia é função da alma e não de atributos das paisagens. Pensamento do escritor Alcântara Machado (1901-1937). Veja mais aqui.

AS MULHERES - [...] Bela é a visão de uma mulher, contagiante ao toque e mortífera a sua posse... um mal necessário, uma tentação natural... um mal da natureza, retratado em cores enganosas... mentirosa por natureza... como [as mulheres] são mais frágeis tanto mental como facialmente, não admira sejam enfeitiçadas pela bruxaria [mais do que os homens]... uma mulher é mais carnal do que um homem... toda bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável. [...]. Conclusões de conversa entre dois teólogos dominicanos, com sua grande experiência de inquisidores do papa, extraído da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman. Veja mais aqui.

NUDEZ - [...] Se a nudez é uma experiência naturalista, o nu é um conceito de arte. O rosto de um corpo despido deixa de ser o polo de atração da vida expressiva, ele já não exprime tudo: perplexo, nosso olhar não sabe onde olhar. Além disso, ameaçada por suas próprias desordens e profundamente perturbadora, pois anuncia a embriaguez ou a violência dos prazeres possíveis que o cerimonial da roupa e dos adornos já não atenua, a nudez é reformulada pelo olhar da arte para se tornar o Nu. Adorno que aderiria à totalidade um corpo, apresentação melódica da nudez remodelada, o nu artístico é enfim o corpo seguro de si mesmo e por isso oferecido sem reservas ao divino prazer da contemplação. [...] O nu suscita uma emoção específica; é como se o nosso próprio corpo de carne que o percebemos, e as sensações que agitam nosso ser multiplicam, sublimando-a, a emoção erótica que o nu nos proporciona. [...]. Trecho extraído da obra A arte da natureza (Papirus, 1991), do filósofo e crítico de arte francês Michel Ribon. Veja mais aqui.

RELATÓRIO HITE – O livro Relatório Hite sobre sexualidade masculina, de Shere Hite, aborda assuntos como ser homem, relacionamento com mulher, intercurso e a definição de sexo, como os homens veem as mulheres e o sexo, outras formas de sexualidade masculina, violação, sexo pago a mulher e pornografia, amor e sexo entre homens, a sexualidade dos homens mais velhos, homens que falam de suas vidas, frustrações e queixas, felação, cunilíngua, masturbação, prazer físico, ejaculação precoce, entre outros temas. REFERÊNCIA: HITE, Shere. Relatório Hite sobre sexualidade masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.

PANORAMA DAS TERAPIAS FAMILIARES – Os dois volumes do Panorama das terapias familiares, organizados por Mony Elkaim, abordam temas como o inicio da terapia familiar, as terapias integracionais, psicanalítica, abordagens sistêmicas, estrutural, estratégia de terapia familiar, abordagem trigeracional, coalisões integracionais, conselho conjugal, psicodrama, psicopedagogia, psicoterapia familiar, abordagem comportamental, experiencial, discussões, construtivismo, construcionismo social, técnicas narrativas, entre outros assuntos. Fonte: ELKAIM, Mony (Org.). Panorama das terapias familiares. São Paulo: Summus, 1998.

PSICOLOGIA SOCIAL – O livro Psicologia social: desdobramento e aplicações, de Maria de Fatima de Sena Silva e Cassio Adriano Braz de Aquino, traz questionamentos sobre o ser social, alteridade, trajetória acadêmico-política, psicologia do trabalho, saúde, psicologia comunitária, responsabilidade social e ambiental nas empresas, perspectivas psicossocial do tempo livre, entre outros assuntos. REFERÊNCIA: SILVA, Maria de Fátima; AQUINO, Cassio. Psicologia social: desdobramento e aplicações. São Paulo: Escrituras, 2004.

PSICOLOGIA SOCIAL PARA AMÉRICA LATINA – O livro Psicologia social para America Latina: o resgate da psicologia da libertação, organizado por Raquel S. L. Guzzo e Fernando Lacerda Junior, aborda a realidade interpelante e o projeto de uma psicologia da libertação, sentido e necessidade, a teologia da libertação, ética e constituição social, a psicologia de Martin-Baró ou o imperativo da crítica, psicologia ambiental, política e comunidade, globalização, pobreza e justiça social, processos de liberação social, violência política e o conflito armado, psicologia cultural, entre outros temas. REFERÊNCIA: GUZZO, Raquel; LACERDA JUNIOR, Fernando. Psicologia social para America Latina: o resgate da psicologia da libertação. Campinas: Alinea, 2009.

DIÁLOGOS COM A PSICOLOGIA SOCIAL – O livro Diálogos em Psicologia Social, organizado por Ana Maria Jacó-Vilela e Leny Sato, aborda temas como ciência, saber e legitimação social, lugar de critica, memória e afetividade, memória histórica e geracionais, armadilhas e alternativas nos processos educacionais e na formação de professores, educação não-formal e juventude, transcendência e violência, direitos humanos, gênero e sexualidade, historia da formação do psicólogo, infância, adolescência, família, mídia, poder, violência e política, processos organizativos, comunidade e políticas sociais, democracia, promoção da saúde, entre outros assuntos. REFERÊNCIA: JACÓ-VILELA, Ana Maria; SATO, Leny (Orgs). Diálogos em Psicologia Social. Porto Alegre: Abrapso/Evangraf, 2007.

PSICOLOGIA SOCIAL COMUNITÁRIA – O livro Psicologia social comunitária: da solidariedade à autonomia, organizado por Regina Helena de Freitas Campos, trata de temas como psicologia social comunitária, histórico e fundamento da psicologia comunitária, comunidade e a desapropriação cientifica de um conceito antigo quanto a humanidade, relações comunitárias e dominação, a instituição como via de acesso à comunidade, qualidade de vida e habitação, cultura e consciência, entre outros assuntos. REFERÊNCIA: CAMPOS, Regina (Org.). Psicologia social comunitária: da solidariedade à autonomia. Petropolis: Vozes, 2005.

METODO HISTÓRICO-SOCIAL NA PSICOLOGIA SOCIAL – O livro Método histórico-social na psicologia social, organizado por Angelo Antonio Abrantes, Nilma Renildes da Silva e Sueli Terezinha Ferreira Martins, aborda de questões como a dialética conttra a cilada negadora da práxis psicossocial, os efeitos encatatorios da forma-mercadoria, dialética do singular-particular-universal, marxismo contemporâneo, capitalismo, o método da pesquisa materialista histórico e dialético, psicologia socio-histórica e o fazer científico, pesquisa-ação em psicologia social e saúde, entre outras abordagens. REFERÊNCIA: ABRANTES, Angelo; SILVA, Nilma; MARTINS, Terezinha (Orgs). Método histórico-social na psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2005.


MUSA DA SEMANA: MARIA ESTHER MACIEL

DESTERRO

Desabitado o corpo
resta a sombra
do anjo sem nome

O reino do longe
é aqui: na terra
insone, onde a pedra
consome a falsa raiz.

ONDE O POEMA

Entre o nervo e o osso
Entre o eco e o oco
Entre o mais e o pouco
Entre a sombra e o corpo
Entre a voz e o sopro
Entre o mesmo e o outro

CONCEITO

Teu corpo:
um porto
que eterniza
meus navios

um parto
que traduz
o meu avesso

a parte
que arremata
meu desejo

AMOR

Na véspera de ti
eu era pouca
e sem
sintaxe
eu era um quase
uma parte
sem outra
um hiato
de mim.

No agora de ti
aconteço
tecida em ponto
cheio
um texto
com entrelinhas
e recheio:

um preciso corpo
um bastante sim

MANUSEIO

Tépidas
essas mãos
que divagam
devagar
por meus relevos
óbvios
e demoram
fundo
no obscuro
ponto
onde o corpo
se abisma
e silencia,
absurdo.

MARIA ESTHER MACIEL - A poeta, ensaísta e professora de Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Maria Esther Maciel, é mestre em Literatura e doutora em Literatura Comparada pela UFMG, com pós-doutorado em Literatura Comparada pela University of London. Ela publicou os livros “Dos haveres do corpo” (poesia), “As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octavio Paz” (estudo crítico), “Triz” (poesia), “Vôo Transverso: poesia, modernidade e fim do século XX” (ensaios), “A memória das coisas – ensaios de literatura, cinema e artes plásticas” (ensaios) e “O livro de Zenóbia” (ficção), dentre outros. Tem vários artigos, poemas e contos publicados em revistas nacionais e estrangeiras. É pesquisadora do CNPq e desenvolve, atualmente, o projeto de pesquisa “Bestiários Contemporâneos – animais na literatura”. Integra também o projeto internacional "Problematizing Global Knowledge - The New Encyclopaedia Project", do Theory, Culture & Society Centre, da Nottingham Trent University (Inglaterra). Ela também concedeu uma entrevista exclusiva para o Guia de Poesia. E, por fim, é a escolhida para ser a MUSA DA SEMANA. Confira mais aqui e a Entrevista no Guia de Poesia.

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