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quinta-feira, abril 26, 2018

EMERSON, JOSUÉ DE CASTRO, PAULO MENDES CAMPOS, MÁRIO CHAMIE, ZINAIDA SEREBRIAKOVA, ZIRALDO, VICENTE AMIGO & JENNI MARI VARTIAINEN

NINGUÉM SABE DIREITO O DIREITO O QUE É QUE É - Imagem: cartum do Ziraldo. - Lembro-me bem ainda criança, alguma coisa desagradava minha mãe, e ela, pra meu espanto, admoestava: Você não tem o direito de fazer isso! Tá. Doutra feita, brincando sem querer a intervenção de ninguém, ela repreendia: É direito dele brincar, é a vez dele! Tá. Já adolescente, meu pai ralhava: Faça direito! Ou, minha mãe: Ajeite-se direito, menino! Ou: Vá pelo lado direito da rua! Tanto é que na hora de ir pra faculdade, meu pai arredou o pé: Faça Direito! E depois de ir pra lá e pra cá, findei matriculado no curso, com a maior curiosidade para saber o que o termo significava. Entrei na sala de aula com quase meio milhar de gente aboletado nas bancas e fiquei ligado na busca de saber o que realmente qual era a definição para direito. Durante o curso fiquei sabendo no meio das aulas chatas que, ao longo dos milênios o direito passou por estágios em que já foi, entre outras significações, linha reta e retidão moral, o justo e a mais perfeita das linhas no antigo conceito geométrico euclidiano, modelo ou padrão ideal a ser seguido, a poesia de Simônides no pensamento platônico, o que cria e conserva no todo ou nas partes a felicidade geral no sentido aristotélico, aquilo que está conforme com as leis, um fenômeno coexistencial da ordem universal pra Agostinho de Hipona, socialidade para Hobbes, poder moral que realiza a justiça para Leibniz, a liberdade de todos harmonizada por uma lei geral para Kant, o que é justo, ora natural, ora positivo quando passou a ser costume; ou uma ciência, um fenômeno histórico ou cultural, uma prescrição divina, um produto humano; codificação formal das atividades humanas, uma categoria transcendental das experiências humanas, uma ordem coativa para Kelsen; conjunto orgânico das relações vitais para Savigny, condições existenciais da sociedade para Ihering, vinculação bilateral-atributiva da conduta humana para Miguel Reale, o querer entrelaçante-autárquico-inviolável para Stammler, disciplina social imposta à comunidade humana, regras e instituições jurídicas, ideal de justiça, enfim, conjunto de regras sociais que disciplinam as obrigações e poderes referentes à questão da posse, sancionadas pela força do Estado e grupos intermediários. Pronto. Hem? Entre um cochilo e outro deu pra sacar que desde a sua fundação no princípio do parentesco arcaico, até se tornar a decisão que contemple o menor prejuízo como Justiça, o que eu entendia por direito era patavina, senão aquilo que fora suspenso ao longo do tempo como confirmação de injustiça, o tráfico da merenda escolar e do remédio da saúde, a venda de privilégios e alma sem poupar a de ninguém, fazer do público uma privada, embolsar o erário público em proveito próprio, pregar a democracia do umbigo, sabotar o alheio para viabilizar o que é de si mesmo, o que já foi adquirido e não é mais, e aquela do um pra eu, um pra tu, um pra eu da anedota do Gonzagão, entre outras situações de perplexidades cometidas em nome da mais sagrada convenção. Pra mim mesmo ficou sacramentado ser, por exemplo, de não ser nada diante do desrespeito de privilegiar alguns poucos sortudos escolhidos em detrimento da maioria toda do lado de fora, isso nas mais diversas formas de prestação de serviço público, até na formação dos grupelhos e afins, afora descobrir que cada qual entende o direito a sua maneira e em fazer o que bem quiser e entender pra si sobre os outros. É aí que a coisa pega, fomentando litígios que passam anos nas varas das pequenas causas ou na Justiça do Trabalho, ou mesmo décadas na Justiça comum, dando a entender pela morosidade do Judiciário que é uma coisa pecaminosa que só pode ser reparada depois que a gente arrasta a bunda no chão, tira fino na morte e, quando menos se espera, cai quando está perdido como se fosse um milagre do céu. Será, então, o impossível? Ou quase, por que não? Pra mim, ou a gente apruma a conversa, ou direito ficará sempre naquela de não se saber nada ou aquilo que quem vê morre! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o guitarrista espanhol Vicente Amigo: Ciudad de las ideas, Memoria dos los sentidos & Um momento com el sonido; e a cantora finlandesa Jenni Mari Vartiainen: Pparhaat Laulut, Ruisrock & Hierra kädelläsi; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] não sejamos tímidos nem caprichosos nos nossos atos. A vida toda é uma experiência. Quanto mais experiências se fazem, tanto melhor. Que importa que sejam brutais e que nos arrisquemos a manchar nosso manto ou rasgá-lo? Que importa se falharmos e cairmos alguma vez na lama! De pé de novo! Nunca mais temeremos tanto uma queda. [...]. Pensamento extraído da obra Ensaios (Cultrix, 1966), do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui e aqui.

O QUE DEVERÍAMOS FAZER - [...] É imprescindível retransformar a economia de guerra em que vivemos numa economia de paz, e utilizar a enorme poupança que resultar do desarmamento parcial na obtenção de um tipo de desenvolvimento mais igualitário e não poluidor. [...] Trechos extraídos da obra Fome: um tema proibido (CEPE, 1996), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui e aqui.

OS DIFERENTES ESTILOS – Parodiando Raymond Queneau, que toma um livro inteiro para descrever de todos os modos possíveis um episódio corriqueiro, acontecido em um ônibus de Paris, narra-se aqui, em diversas modalidades de estilo, um fato comum da vida carioca, a saber: o corpo de um homem de quarenta anos presumíveis é encontrado de madrugada pelo vigia de uma construção, à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, não existindo sinais de morte violenta. Estilo interjetivo – Um cadáver! Encontrado em plena madrugada! Em pleno bairro de Ipanema! Um homem desconhecido! Coitado! Menos de quarenta anos! Um que morreu quando a cidade acordava! Que pena! Estilo colorido – Na hora cor-de-rosa da aurora, à margem da cinzenta Lagoa Rodrigo de Freitas, um vigia de cor preta encontrou o cadáver de um homem branco, cabelos louros, olhos azuis, trajando calça amarela, casaco pardo, sapato marrom, gravata branca com bolinhas azuis. Para este o destino foi negro. Estilo antimunicipalista – Quando mais um dia de sofrimentos e desmandos nasceu para esta cidade tão mal governada, nas margens imundas, esburacadas e fétidas da Lagoa Rodrigo de Freitas, e em cujos arredores falta água há vários meses, sem falar nas frequentes mortandades de peixes já famosas, o vigia de uma construção (já permitiram, por debaixo do pano, a ignominiosa elevação de gabarito em Ipanema) encontrou o cadáver de um desgraçado morador desta cidade sem policiamento. Como não podia deixar de ser, o corpo ficou ali entregue às moscas que pululam naquele perigoso foco de epidemias. Até quando? Estilo reacionário – Os moradores da Lagoa Rodrigo de Freitas tiveram na manhã de hoje o profundo desagrado de deparar com o cadáver de um vagabundo que foi logo escolher para morrer (de bêbado) um dos bairros mais elegantes desta cidade, como se já não bastasse para enfear aquele local uma sórdida favela que nos envergonha aos olhos dos americanos que nos visitam ou que nos dão a honra de residir no Rio. Estilo então – Então o vigia de uma construção em Ipanema, não tendo sono, saiu então para passeio de madrugada. Encontrou então o cadáver de um homem. Resolveu então procurar um guarda. Então o guarda veio e tomou então as providências necessárias. Aí então eu resolvi te contar isto. [...] Estilo preciosista – No crepúsculo matutino de hoje, quando fulgia solitária e longínqua a Estrela-d’ Alva, o atalaia de uma construção civil, que perambulava insone pela orla sinuosa e murmurante de uma lagoa serena, deparou com a atra e lúrida visão de um ignoto e gélido ser humano, já eternamente sem o hausto que vivifica. [...] Estilo sem jeito – Eu queria ter o dom da palavra, o gênio de um Rui ou o estro de um Castro Alves, para descrever o que se passou na manhã de hoje. Mas não sei escrever, porque nem todas as pessoas que têm sentimento são capazes de expressar esse sentimento. Mas eu gostaria de deixar, ainda que sem brilho literário, tudo aquilo que senti. Não sei se cabe aqui a lavra sensibilidade. Talvez não caiba. Talvez seja uma tragédia. Não sei escrever mas o leitor poderá perfeitamente imaginar o que foi isso. Triste, muito triste. Ah, se eu soubesse escrever. [...]. Trecho de Os diferentes estilos (Ática, 1979), do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991). Veja mais aqui, aqui e aqui.

QUATRO POEMAS – AGIOTAGEM: um / dois / três / o juro: o prazo / o pôr / o cento / o mês / o ágio / p o r c e n t a g i o. / dez / cem / mil / o lucro: o dízimo / o ágio / a mora / a monta em péssimo / e m p r é s t i m o./ muito / nada / tudo / a quebra: a sobra / a monta / o pé / o cento / a quota / h a j a n o t a / agiota. PLANTIO: Cava, / então descansa. / Enxada; fio de corte corre o braço / de cima / e marca: mês, mês de sonda. / Cova. / Joga, / então não pensa. / Semente; grão de poda larga a palma / de lado / e seca; rês, rês de malha. / Cava. / Calca / e não relembra. / Demência; mão de louco planta o vau / de perto / e talha: três, três de paus. / Cova. / Molha / e não dispensa. / Adubo; pó de esterco mancha o rego / de longo / e forma: nó, nó de resmo. / Joga. / Troca, / então condena. / Contrato; quê de paga perde o ganho / de hora / e troça: mais, mais de ano. / Calca. / Cova: e não se espanta. / Plantio; fé e safra sofre o homem / de morte / e morre: rês, rés de fome / cava. SIDERURGIA S.O.S.: Se der o ouro sidéreo opus horário / Sem sol o sal do erário salário / Ser der orgia semistério o empresário / Siderurgia do opus o só do erário / Se der a via do pus opus errado / Se der o certo no errado o empregado / Se der errado no certo o emprecáriO O TOLO E O SÁBIO: O sábio que há em você / não sabe o que sabe /o tolo que não se vê./ Sabe que não se vê / o tolo que não sabe / o que há de sábio em você. / Mas do tolo que há em você / não sabe o sábio que você vê. Poemas do poeta e crítico Mário Chamie (1933-2011). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora russa Zinaida Serebriakova (1884-1967). 
Veja mais aqui, aqui e aqui.



Lendas, crendices e abusões: alegoria e história em O Cara de Fogo, de Jayme Griz, em artigo de Ivson Bruno da Silva & muito mais na Agenda aqui.
&
Amor em Alagoinhanduba, o teatro de Federico Garcia Lorca, o pensamento de Bernard Lown & a fotografia de María Magdalena Campos-Pons aqui.

terça-feira, dezembro 08, 2015

INFÂNCIA, IMAGEM & LITERATURA, EPICURO, HERMILO, IXCHEL, HORÁCIO, RIVERA, SIBELIUS & ZIRALDO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? INFÂNCIA, IMAGEM E LITERATURA – A realização do projeto de extensão Infância, imagem e literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré-AL, levou os graduandos dos cursos de Psicologia e Jornalismo do Centro Universitário Cesmac, orientados pelo professor Ms Cláudio Jorge Gomes de Morais, a ter uma experiência marcante naquela comunidade deodorense. Da minha parte, confesso: foi uma experiência para lá de reveladora. É que a comunidade do estudo se encontrava há um pouco mais de dois anos instalada no Município em local de verdadeira calamidade pública, denominada de Jacaré, sendo, pois, numa iniciativa realizada com muito estardalhaço, mídia & tataritaritatá, transferida para onde hoje se encontra instalado o Condomínio Residencial Recanto da Ilha. Como disse, a transferência foi realizada num verdadeiro momento de festa, o que proporcionou a todos os contemplados a oportunidade de ter a felicidade de uma casa própria digna para moradia. Pouco tempo depois os moradores foram informados que o local era fruto do projeto Minha Casa, Minha Vida e que todos deveriam se cadastrar para a regularização da moradia. O tempo se passou e alguns reclamos começaram a surgir, iniciando pela destituição do presidente da Associação de Moradores por ele ter sido contemplado com a melhor casa de moradia, dando início a um processo de verdadeira balcanização com construção de muros para divisarem as residências. No processo de cadastramento dos moradores, alguns desistiram e negociaram com terceiros, enquanto a maioria permaneceu ali procurando regularizar a situação, passando a ser ameaçados de despejo caso não apresentassem imediatamente a documentação. Acontece, porém, que alguns outros problemas começaram a surgir como o processo de desagregação da comunidade - antes solidária e agora separada por muros -, falta de segurança, empoçamento de águas de esgoto nas vias, não disponibilidade de escola nem posto de saúde, a área de lazer é prejudicada tornando difícil o ambiente para as crianças por causa das praças inconclusas e abandonadas, campos de futebol que não foram concluídos e que quando chove fica intransitável com o lamaçal, reclamos quanto à cobrança das taxas de luz elétrica, entre outros problemas. Pudemos contactar as crianças e vê-las brincar na improvisada praça. Num segundo momento, recolhemos depoimentos de moradores que falaram a respeito da inexistência de espaço adequado para que as crianças pudessem desfrutar da sua infância, ocasião em que surgiram uma série de reclamos daquela população. De resto, os contatos com aqueles moradores revelaram-se bastante esclarecedores, possibilitando o entendimento da forma como as instituições públicas brasileiras atendem e prestam seus serviços ao povo brasileiro. Confira todo o relatório aqui. E veja mais aqui.


Imagem: a arte do pintor mexicano Diego Rivera (1886-1957)


Curtindo o álbum Concertos pour violon, serenedes, humoresque mutter, violon (Deutsche Grammophon, 1996), do compositor finlandês Jean Sibelius (1865-1957), com violino de Anne-Sophie Mutter, regência André Previn & Orchestra Staatskapelle Dresden.

A FILOSOFIA E SEU OBJETIVO – O filósofo grego Epicuro de Samos (341-271aC), possuía o proposito filosófico de atingir a felicidade, estado caracterizado pela aponia, a ausência de dor física e ataraxia ou imperturbabilidade da alma. Ele buscou na natureza as balizas para o seu pensamento: o homem, a exemplo dos animais, busca afastar-se da dor e aproximar-se do prazer. Estas referências seriam as melhores maneiras de medir o que é bom ou ruim. Utilizou-se da teoria atômica de Demócrito para justificar a constituição de tudo o que há. Das estrelas à alma, tudo é formado de átomos, sendo, porém de diferentes naturezas. A sua doutrina entende que o sumo bem reside no prazer, e, por isso, foi uma doutrina muitas vezes confundida com o hedonismo. O prazer, na sua visão, é o prazer do sábio, entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo. É o prazer da justa medida e não dos excessos. Daí, portanto, entender-se que o epicurismo é o sistema filosófico que prega a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo, com a ausência de sofrimento corporal pelo conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos desejos. Da sua obra destaco os trechos: Todo desejo incomodo e inquieto se dissolve no amor da verdadeira filosofia. Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da ama. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz. Deve servir à filosofia para que possa alcançar a verdadeira liberdade. Assim como realmente a medicina em nada beneficia, se não liberta dos males do corpo, assim também sucede com a filosofia, se não libera das paixões da alma não pode afastar o temor que importa para aquilo a que damos maior importância quem não saiba qual é a natureza do universo e tenha a preocupação das fábulas míticas. Por isso não se podem gozar prazeres puros sem a ciência da natureza. Antes de tudo, considerando a divindade incorruptível e bem-aventurada, não se lhe deve atribuir nada de incompatível com a imortalidade ou contrario à bem-aventurança. Realmente não concordam com  a bem-aventurança preocupações, cuidados, iras e benevolências. O ser bem-aventurado e imortal não tem incômodos nem os produz aos outros, nem é possuído de iras ou de benevolências, pois é no fraco que se encontra qualquer coisa de natureza semelhante. Habitua-te a pensar que a morte nada é para nós, visto que todo o mal e todo o bem se encontram na sensibilidade: e a morte é a privação da sensibilidade. É insensato aquele que diz temer a morte, não porque ela o aflija quando sobrevier, mas que o aflige o prevê-la: o que não nos perturba também enquanto o esperamos. O limite da magnitude dos prazeres é o afastamento de toda a dor. E onde há prazer, enquanto existe, não há dor de corpo ou de espírito, ou de ambos. A dor do corpo não é de duração continua, mas a dor aguda dura pouco tempo, e aquilo que apenas supera o prazer da carne não permanece nela muitos dias. E as grandes enfermidades têm, para o corpo, mais abundante o prazer do que a dor. O essencial para a nossa felicidade é a nossa condição íntima: e desta somos nós os amos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ONDE ESTÁ O TIME? – No livro Palmares e o coração (FCCHBF, 1997), do escritor, jornalista e dramaturgo Hermilo Borba Filho (1917-1976), encontro a crônica Onde está o time?: Éramos doze, porque além dos onze jogadores ainda tínhamos o nosso juiz, meu sobrinho Elifas Levi, e só jogávamos em partida apitada por ele. Era uma garantia. Durante as férias, no chamado campo do camelo porque, no centro, fazia uma corcova, um pouco menor do que aquela tão gozada por Chico Anisio, em Palmares, treinávamos todos os admiráveis dias da semana, ataque contra defesa, preparando-nos para o que desse e viesse. Eu, às vezes, debaixo do arco, ficava ensimesmado e me abstraia a ponto de cercar um frango, porque contemplava o crepúsculo para os lados do Engenho Trombetas e me deliciava com aquele vento que me trazia o cheiro do mel e da bosta de boi. Havia na folhagem – canavial, mangueiras, cajueiros, goiabeiras – umas tonalidades deste verde-amarelado do nordeste que me deixavam cismando. E à noite, no Clube Literário ou nos assustados, no Ato do Lenhador ou no café de Nenê Milhaço comentávamos entre gargalhadas e cervejas, as peripécias do treino se fosse dia de semana ou do jogo se fosse dia de domingo. Descuidados, entre namoradas e mulheres, sambas de Assis Valente e Noel Rosa, valsas de Capiba, foxes e rancheiras, jamais pensávamos no tempo que corria. E não era mesmo para pensar. Hora de pensar no tempo é agora. Onde está o time? Elifas Levi, o juiz, de apelido familiar Vivi, eu o vejo esporadicamente, durante alguns minutos se tanto, nestes últimos anos. Está acomodado na vida, instalado, daqui em diante é para engordar. Eu, o goleiro, estou vivo, bolindo, tentando jogos mais difíceis na arte e na saúde, jogos mais amenos no amor. E não quero mas nada. A parelha de beques: Zeca Agrelli, extrovertido, gritador, a última vez em que o vi foi numa plateia de teatro em São Paulo, oficial do exército, a sua grande paixão, de uma das cadeiras me avistando, alvoroçando todo o mundo, já de braços abertos, e foi um nunca acabar de recordações; Arlindo, que havia sido seminarista, depois advogado, presidente do IAPETEC, sempre grave e sisudo, dançando valsas num passo aberto, encantou-se este ano e por isto, agora, só irei vê-lo no Festim dos Eleitos. Jogávamos na formação clássica WM e como tal a linha de halfes se compunha de: Zezé (irmão de Arlindo), magro, seco como um graveto, que se formou em Odontologia em cima de quem jamais voltei a por os olhos; Antero (meu sobrinho, irmão de Vivi), que saiu de Palmares definitivamente para ser aviador e que também já se encantou; Toinho (irmão de Arlindo e irmão de Zezé), metido a dançarino, outro encantado, eu o perdi muitos anos antes do seu encantamento de que só vim a saber há pouco. A linha atacante: Aloisio (meu sobrinho) formou-se também em Odontologia, nunca mais saiu de Palmares, a cidade é seu habitat natural, puxou ao pai, chamando todo mundo de qualquer idade de meu filho e de minha filha, deu-se a mania da caça, vem ao Recife todas as vezes em que o Esporte joga e carrega nas costas a adversidade de dez anos deste clube; Airton (irmão de Arlindo, de Zezé e de Tonho), mais conhecido como Apudi, acho que pode ser encontrado no Engenho Beleza, acho, não tenho a certeza, porque também nunca mais o vi; Rômulo, alourado, o primeiro sujeito que vi fumar cigarro americano – Luck Strike – e que se juntava comigo e Germinio para escandalizarmos os bem comportados, tomando cachaça, sem usar meias, sem pentear cabelo, gravata sem camisa, invadindo um picadeiro de circo, numa noite de maior bebedeira, para contracenarmos com o palhaço – não tenho noticia dele, não sei ao menos se se encantou; Ayton é deputado federal, chegou a jogar pelo Santa Cruz, aqui no Recife todos os domingos jogávamos voleibol em casa de Carlos Rios, seu pai, e lá em Palmares, atacávamos os timinhos que apareciam; e finalmente Djalma – Djalma de Zeza – um excelente ponta-esquerda metido a janota com seu paletó saco de ombreiras, também nunca mais o vi. Impossível fazer, nessa altura, como fazem os componentes de uma turma que se forma no ano tal, não somente pelos que já se encantaram como porque tomamos, os vivos, caminhos tão diferentes que é bem melhor pensar neles como figuras heroicas e não como simples viventes cada um com a sua mazela e com seus problemas cotidianos. Na impossível volta ao tempo, sinto uma imensa falta do time, mas não quero passar, jamais, pela experiência de voltar a vê-los em grupo. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AS ODES – No livro As odes, epodos e carme secular do poeta lírico e satírico romano Quinto Horácio Flaco (65-8aC), destaco inicialmente a Ode 1,3: Que assim te guie a poderosa deusa de Chipre, Assim os irmãos de Helena, claros astros, E o pai dos ventos, presos os outros, afora Iapige, ó nau, que a ti confiado me deves Virgílio; aos confins da Ática, peço o entregues incólume, e a metade conserves de minha alma. Carvalho e triplo bronze tinha sobre o peito quem primeiro em fero pélago o frágil barco lançou, nem temeu o precípite Áfrico a combater Aquilões nem o funesto Híadas, nem a raiva do Noto, senhor do Adriático, onde ao bel-prazer ondas ergue e depõe. Que passo da morte temeu quem, de olhos secos, monstros natantes, quem viu túrbido mar einfames rochedos acroceráunios? Em vão um deus separou, prudente, com divisor Oceano as terras, se, entanto, ímpios barcos sobre passamos vaus intangíveis. Audaz em buscar a tudo, ruia gente humana em nefastas proibições; audaz o filho de Jápeto em maligna fraude o fogo levou às gentes; após furtá-lo da etérea casa, pobreza e nova multidão de febres caiu sobre as terras e de afastada morte a tardia necessidade abreviou o passo. Dédalo experto, os ares inanes com penas negadas ao homem; invadiu o Aqueronte hercúleo trabalho. Píncaros não há para os mortais; o próprio céu buscamos por loucura e por nosso crime sofremos que Jove não deponha os iracundos raios. Também a ode 1,11: Colha o dia, confia o mínimo no amanhã. Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses darão a mim ou a você, Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque. É melhor apenas lidar com o que cruza o seu caminho. Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar. Tirreno: seja sábio, beba seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças. Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós. Colha o dia, confia o mínimo no amanhã. Podemos sempre ser melhores. Basta pensarmos melhor. Por fim a ode 4,2: Quem quer que se afane em emular Píndaro, ó Julo, se alça em asas de cera – obra de Dédalo! – para dar nome a um ítreo mar. Qual  rio que do monte corre, a que as chuvas nutriram para além das conhecidas margens, ferve e, imenso, se precipita Píndaro, o de voz profunda: digno de receber o laurel de Apolo, quer em audazes ditirambos arroje novas palavras e seja levado em ritmos libertos de leis; quer cante deuses e reis – dos deuses sangue – por que tombaram os Centauros por morte justa e caiu a flama da hórrida Quimera; quer cante o pugilista e o cavalo que a palma Eléia conduz, divinos, de volta a casa dando um presente mais valioso que cem estátuas; quer chore o jovem arrancado à esposa flébil e as forças, o ânimo e os costumes áureos leve aos astros e cause inveja ao negro Orco. Um grande sopro eleva o cisne de Tebas, ó Antônio, sempre que chega às altas regiões das nuvens: eu, pequeno, segundo o modo e a maneira da abelha de Matino que colhe  a muito custo pelos bosques e margens do orvalhado Tíbur o tomilho grato, canções eu forjo trabalhadas. Cantarás César, ó poeta de maior plectro, quando, ornado com a merecida trouxer os ferozes Sigam bros pelo monte sacro, ele, de quem nada maior ou melhor os fados e os bons deuses concederam à terra nem concederão, conquanto os tempos tornem ao prístino ouro. Cantarás e os ledos dias e da Urbe o jogo público pelo ansiado retorno do forte Augusto e o fórum livre de litígios. Então da minha voz, se algo falar digno de ouvir, grande parte acederá e “ave, ó belo sol” cantarei feliz pela volta de César. E a ti, enquanto desfilas, “ió Triunfo”, não uma só vez toda a cidade diremos, “ió Triunfo”, e incenso queimaremos aos benignos deuses. A ti dez touros e dez vacas remirão os votos, a mim tenro bezerro que, deixada a mãe, crescerá em largo pasto para remir os meus: ele que na fronte imita os cornos ígneos da lua em seu terceiro ciclo: lua, que, marcada, ele trouxe, branco ali de ver, fulvo, no restante. Veja mais aqui e aqui.

IRKUSTSK & OS HOMENS SÃO DE MARTE (Foto: Mônica Imbuzeiro) - A trajetória da atriz diretora teatral Irene Ravache começou com o seu sonho de infância até que começou a fazer um curso de interpretação na Fundação brasileira de Teatro (FBT), em 1962. No ano seguinte se formou em seu curso profissional, iniciando um novo curso em 1964, no Teatro dos Quatro e se formando em 1965. Em 1970, realiza o curso de técnica vocal, Método Espaço Direcional, viajando para São Paulo onde frequentou aulas com a atriz Maura Baiochi. Nesse período, como atriz atuou nas peças Aconteceu em Irkustsk (1961), Eles Não Usam Black-Tie (1963), Aonde Vais, Isabel? (1963), Pindura a saia (1966), A cozinha (1968), A ratoeira (1971), Os inocentes (1972), Roda cor de roda (1975), Os filhos de Kennedy (1977), Bodas de papel (1978), Tem um psicanalista na nossa cama (1980), Pato com laranja (1980), Afinal uma mulher de negócios (1981), Filhos do silêncio (1982), De braços abertos (1984), Uma relação tão delicada (1989), Eu me lembro (1995), Brasil S/A (1996), Inseparaveis (1997), Intimidade indecente (2001) e A reserva (2008). Como diretora de teatro As avestruzes (1979), A gema do ovo da ema (1979), Beijo de humor (1995), Clarice em casa (1995) e As vantagens de ser bobo (1998). No cinema ela atuou em Geração em fuga (1972), O supermanso (1974), Lição de amor (1975), Curumim (1978), Doramundo (1978), Que bom te ver viva (1989), Ed Morte (1997), Até que a vida nos separe (1999), Amores impossíveis (2001), Viva sapato (2002), Depois daquele baile (2005) e Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou! (2014). Também fez sucesso por suas participações na televisão, sendo indicada ao prêmio Emmy Internacional, em 2008. Veja mais aqui.

MANDRAKE – A série de televisão brasileira produzida pelo canal HBO Brasil em parceria com a Conspiração Filmes, Mandrake (2007), foi duas vezes finalista do International Emmy Awards. A série foi baseada nos livros A grande arte e e Mandrake, a Bíblia e a Bengala, ambos do escritor Rubem Fonseca e escrita por  José Henrique Fonseca, Felipe Braga e Tony Belloto. A serie conta a história de Mandrake que é um advogado, especializado em resolver casos de chantagem e extorsão, se envolvendo tanto com indivíduos da alta sociedade carioca, como com as camadas mais baixas da sociedade. O trabalho de Mandrake é lidar com esses elementos para ajudar seus clientes. O destaque da série vai para a atriz Maria Luísa Mendonça que interpreta a personagem Berta Bronstein, namorada de Mandrake, sempre suspeita das traições e mentiras de seu namorado. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
No Dia da Mulata, os desenhos de Ziraldo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao Festival de Ixchel (“A Branca”), a dama da noite, deusa da Lua, na mitologia maia, deusa da medicina, do parto, dos trabalhos têxteis e da lua. As lendas contam que um deus todo poderoso, Itzamna, criou o mundo e se casou com a deusa procriando os deuses Yum (deus do milho), Ek Chuah aos deuses dos sacrifícios e das estrelas; suas filhas foram as deusas das águas, da noite e do paraíso. À deusa Ixchel se atribuem os fenômenos relacionados à Lua, a gravidez, a cura e a tecelagem. É representada como uma anciã derramando um jarro cheio de água sobre a terra e, também, como uma anciã tecendo em um tear de cintura. Seu templo se localiza na ilha Dcuzamil, da província de Ecab (hoje Cozumel). Do porto de Pole (hoje Xcaret) partiam as canoas de peregrinos até o templo em Dcuzamil para solicitar o oráculo desta deusa; nesta peregrinação, ajudavam, também, as mulheres jovens a pedir em suas gestações a procriarem os filhos que seus esposos queriam.


sábado, outubro 24, 2015

ZIRALDO, LYGIA TELLES, JANUZELLI, NILZA MENEZES, BERIO, VIOLÊNCIA, STORYTELLING & APRENDENDO A JOGAR!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? VIVENDO E APRENDENDO A JOGAR (Imagem: charge de Dálcio) - Pelo que você já viu, deu pra notar que nunca fui muito achegado a jogar nada. Quer dizer, achegado fui, mas nunca me dei bem ou gozei da vitória. Talvez seja por isso que nunca gostei de andar militando em política partidária, preferindo minha atitude política por outros meios e recursos, como nos escritos, nos dizeres, nas expressões que são as minhas grandes merdas. Votar, sim, sempre votei, voto e votarei. Nunca me negarei a esse direito da cidadania. No entanto, devo dizer mais uma vez, a bem da verdade, que quando era menino me esgueirava atrás de uma bola, me achando mais que um Rivelino, um Pelé, um craque qualquer, quando, na vera, nada mais era que um perna-de-pau incorrigível de levar rasteira até de aleijado. Verdade. Foi que certa vez, na maior correria - esta era a minha única habilidade no trato com a bola: empurrá-la pra frente e sair pé na bunda atrás que nem louco -, dei de inventar a driblar o que não sabia e, aproveitando da deficiência do zagueiro, tentei dar um toque daquele da vaca. O cabra mais sabido que eu, passou a rasteira com a moleta na maior cama-de-gato, e estuporei o joelho na quina dum paralelepído rebentado num esgoto limítrofe do campinho de barro batido. Resultado: sangreiro espirrou na lata, uma pisa da gota porque estava todo limpinho de banho tomado e jogando bola, e uma lavagem com álcool, vinagre e creolina para tirar as impurezas adquiridas com o fato. Berreiro triste, o meu. Minha mãe ali, braba: - Vou costurar esse talho com linha de vara-de-pescar, seu desgraçado! Ôxe, aí é que eu me escondia para não ver nem médico nem enfermeira, só mertiolate e mercúrio, assoprando que nem doido para não doer tanto como doía. Mais nada. Por esta razão abandonei o futebol aos onze anos de idade e juro que seria um atleta renomado não fossem minhas presepadas de mangar de todo mundo, levando chapuletada a cada ironia. Também não vou negar que de meninote até aborrecente não tenha virado tabuleiros com cartas de baralho, pedras de dominó, tacos de sinuca e tentar adivinhar uma vez na vida o palpite na porrinha. Confesso, era péssimo: não distinguia valete de rei, copas de pau ou ouros. Não sabia armar direito uns toques quando possuía uma trinca de sena e o cara adversário mais batido que trem atrasado, ainda, eu perder a partida do dominó. Também era contemplado com uma imperícia pura no taco, não distinguindo as cores e o valor das bolas na sinuca, perdendo mais pelos finos de cego que por ausência de encaçapá-las. Muito menos havia comido bosta de cigano para adivinhar com quantos palitos o sujeito viria num blefe de carregado quando o indistinto vinha de lona. Ora, mau jogador que se preze, recolhe seus muafos e parte para outra. Nada, inventei de aprender xadrez. Tá, esse eu gostei, muito embora nunca tenha conseguido dar nenhum xeque mate em qualquer principiante que mal saiba o nome das pedras. Mas gostei e perdura até hoje essa mania de perder tempo mexendo com bispos, rainhas, reis, cavalos e torres, como se fosse um sabichão de tão ultrajante imodéstia. Só nas raríssimas horas vagas e de brincadeira, só. Com os outros tipos de jogo tenho verdadeiro horror. Assim, também, na política partidária. Primeiro que percebi que os outros acham a gente com cara de besta. Segundo, só eles possuem a razão de tudo. E eu só via golpe na zona abaixo da cintura. Nem no futebol do meu tempo lá no interior das grotas, onde a perna começava do pescoço pra baixo e a gente só via nego com a língua de fora, pedindo penico. Isso sem contar com a tuia de faca, canivete e desaforos, no maior arranca-rabo quando acabava a partida. Pois é, começava na risadagem e findava no maior quebra-pau, um intrigado do outro. Piormente vi a política partidária na provinciazinha e, depois, nas de âmbito nacional. É cada golpe baixo, tanta sujeira, meio-mundo de hipocrisia, nego armando falcatrua e mentindo deslavadamente e aparecendo mais que vagalume na escuridão com paparicado vergonhoso, intrigas despropositais, front de oportunismos, oposições de conveniências, patifarias amoitadas, pilantragens sórdidas, nossa! Foi quando um amigo meu doido de pedra me disse: - Política é feito cozinhar feijão! O que é bom desce. E o que não presta aparece! Ai veio uma raposa profissional me dizendo que a militância só serve para se eleger. Porque para governar só com ajeitado dos adversários. Babau, perdi a noção de tudo. Maquiavel já ensinava. Ora, com tudo isso, eu que sempre fui um mau jogador, nunca que poderia entrar nessa não. E da vez que ventilei me afiliar nalgum partido, este mesmo amigo me disse: - Quer botar a família na roda, entre pra política! Você vai ver como é que se degenera fácil qualquer sujeito decente! E eu? Um cachorro-do-rabo-fino prezando a mãe (que Deus a tenha no melhor dos seus cômodos!), jamais poderia entrar nessa enrascada, né não? Principalmente porque um dos simpatizantes insistia que o cara entrava na política probo e saía mais sujo que bueiro de esgoto! É só ver a cara-de-pau dos sujeitos negando o fisiologismo clientelista. Tá cá gota! Verdade. Considere, então, num país como o nosso onde tudo é enrolada! Tô fora dessa embrulhada, meu! Vejo quem pergunta: - Em quem acreditar, afinal? Digo: no discernimento. A gente só não pode dar uma de abestalhado e nunca reempossar defenestrados sem-vergonha que já foram banidos em nome da moral e da lei e que pela insistência no uso do óleo de peroba na cara-de-pau, ainda posam de vítimas do sistema nocivo que eles próprios criaram. É de lascar mesmo! A briga é só pelo poder, ninguém está preocupado com quem pintou a zebra! Ainda tem quem acredite nesses melepeiros. Sabe como eles findam? Esconjurados, milhões de palmos inferno adentro enfiados. Basta o que a gente passou de 1500 até agora: um replay. Então, por enquanto vou enfiando as mãos pelas pernas, dando pirueta pra arranjar o ganha-pão e cheio de nó pelas costas remoendo os desatinos do Brasil. E vamos aprumar a conversa aqui e aqui.

 Imagem: Nude Woman at Sunset #1, da artista plástica, ilustradora e designer gráfica britânica Christine Lau.


Curtindo o álbum da Sinfonia Ekphrasis (Deutsche Grammophon, 2005), do compositor do vanguardismo musical italiano Luciano Berio (1925-2003), com a Orquestra Sinfónica de Gotemburgo & Péter Eötvös.

A VIOLÊNCIA - No livro Retorno da deusa (Summus, 1991), do psicoterapeuta da psicologia junguiana e homeopata MD Edward C. Whitmont (1912-1998), destaco o trecho destinado à violência: [...] No passado, a violência era contida com melhores resultados pelos canais sociais competentes. Não era, como acontece agora, vista quase sempre como errada. Uma vez que havia limites para a sua manifestação legitima, sua proibição dentro do organismo social também podia ser imposta. O herói de antigamente combinava bravura física e espiritualidade com habilidade muscular para destroçar o adversário. Aquiles, Sansão, o cavaleiro medieval são exemplos desse tipo de herói. Hoje encontramo-nos numa situação esquizofrênica: apesar de protestos conscientes, ainda vemos inconscientemente, a violência, a agressão, a exploração ambiciosa, como feitos admiráveis. Analisemos a mídia atual. A televisão e os filmes glorificam a violência, o horror e o sexo explicito a ponto de esses desempenhos se tornarem praticamente ritualizados. O apelo de tais imagens parece derivar do efeito catártico do drama. Esses violentos dramas contemporâneos são, na verdade, secularizações decadentes e caricaturais das solenes representações da tragédia da antiguidade. Em grego, trag-odia significa “o canto do bode”, numa referencia a Dioniso. Originalmente, tratava-se de uma apresentação catártica do surgimento, da destruição violenta e da glorificação do protagonista humano que incorpora o destino de Dioniso, o bode do sacrifício, o poder vital que morre e renasce eternamente, a criança necessitada e o deus que se imola. A tragédia da vida era apresentada como um embate inexorável, conquanto cvão, contra o destino imposto po deus, que decretava a destruição em prol do renascimento, ou como punição pela hubris. Enquanto a agressão e a violência foram consideradas uma manifestação do poder de uma divindade tutelas (como Dioniso, Áries, Shiva, Thyr, Sekmet e Morrigan) ou serviram à gloria maior do imperador, da Igreja ou da pátria, foiram integradas num sistema moral e ético. Por pertencerem a uma divindade, a violência e a agressão podiam ser vistas como componentes de um sistema cultural auto-regulador dotado de um equilíbrio intrínsecos. [...] Junto com a extinção de Deus de nossa era contemporânea, o último traço de respeito pela ordem imposta pelos antigos deuses também desapareceu. A lei e as regras já não nos protegem contra a violência. A raiva, o ódio, a agressão, a cobiça e a violência são oficialmente consideradas incondicionalmente mas. Ao mesmo tempo, tornaram-se prerrogativa do eggo moderno, podendo ser acionada do modo mais arbitrário a serviço de propósitos egoicos, sem qualquer consideração pelas forças abolidas. [...] Ao discutir a relevância do comportamento animal para a psicologia humana, Konrad Lorenz, o etologista, postula que os animais agem como humanos emotivos que não têm ou usam muita inteligência. [...] Lorenz diferencia a agressão intra-especifica da agressão predatória ou de defesa. A primeira acontece entre animais da mesma espécia, como luta ou competição entre parentes próximos. Ele assinala que animais de espécies diferentes costumam deixar-se relativamente em paz. Isto é surpreendente, uma vez que seria de esperar que parentes próximos se amassem e se protegessem e que a agressão fosse direcionada para fora, contra outras espécies. a constatação seguinte é ainda mais surpreendente. A capacidade de formar algo semelhante a um vinculo pessoal e de prestar apoio reciproco ocorre em razão direta do grau de agressão intra-especifica. O vinculo e a agressão fazem parte do mesmo padrão. [...] Ele era um homem muito agressivo, independente, autoconfiante e excessivamente racional. Esperava que toda situação e todas as pessoas se submetessem à sua vontade e insistia em fazer tudo de seu jeito. Embora fosse bem-sucedido nos negócios, era pobre de sentimentos, de relações pessoais e, em particular, carecia de qualquer orientação no tocante a um significado mais elevado de vida. O sonho evidenciava ainda que era vulnerável sua postura heroica, derivada de sua necessidade de fortificar a posição egoica apoiando-se em uma coragem agressiva [...] um homem e uma mulher, viviam digladiando, não importava qual fosse o assunto em discussão, pareciam totalmente incapazes de chegar à raiz de seu antagonismo ou de resolvê-lo. [...] O homem começou a arrastar-se na direção da mulher. Ela ficou paralisada em seu lugar. À medida que ele ia chegando mais perto, ela começou a mexer o corpo numa dança sinuosa, altamente convidativa. Quando ele estava suficientemente perto para alcança-la, ela parou de repente e deu-lhe as costas. Ao ver que ele tentava, muito desajeitado, virá-la de frente para ele à força, ela voou para a garganta dele como se quisesse estrangulá-lo. No mesmo instante, entraram num combate violento, engalfinhando-se e rolando pelo chão. Depois disseram que aquela briga cheia de raiva estava repleta de nítidas implicações eróticas. Diante da descoberta dessa ambivalência, pararam e começaram a examinar o que tinha acontecido. [...] Ela se arriscava à violência, e talvez até mesmo a desejasse, para poder ser notada como mulher. Sentia-se negligenciada e inferior como mulher e precisava provar para si mesma que conseguia atrair os homens, pelo menos fisicamente. No entanto, quando teve sucesso nessas manobras, não estava mais disposta (na verdade, sentia-se incapaz) a encarar as consequências de sua provocação. Queria que a notassem como pessoa, e não apenas como corpo e a aproximação física direta que ela provocava constantemente (embora de modo inconsciente) só intensificava seus sentimentos de inferioridade e a deixava cada vez mais irada. Aquele homem, por sua vez, tinha medo das mulheres. Sentia-se inferior em virtude de sua noção de que os homens eram heróis conquistadores, modelo que se sentia incapaz de copiar. Achava que devia ser um conquistador emérito de mulheres. Consequentemente, vivia testando sua masculinidade através de demonstrações de uma força crua, até mesmo brutal. Essa sua resposta de macho, no entanto, era só um frágil disfarce para seu sentimento de inferioridade, que explodia numa fúria desesperada quando se ele se sentia seduzido, logrado e ludibriado pelas artimanhas femininas. Então os papes foram invertidos. Agora a mulher era o macho desajeitado; e o homem, a mulher vamp. Agora ele sentia que a atitude dela encontrava eco dentro de si. Ao desempenhar o papel dela, ele descobriu que, embora à revelia, gostava de alguma coisa ali. Começou a ver sua própria necessidade de seduzir e seu desejo desesperado de chamar a atenção. Por sua vez, a mulher descobriu e integrou a brutalidade de sua postura julgadora, que decretava a inferioridade dos valores femininos e que a fazia considerar-se especialmente destituída de valor. Tudo isto ela até então projetara nos homens, sem perceber que realmente provinha de seu próprio superego muito severo. Ao reconhecerem o que tinha acontecido em suas experiências e feedbacks mútuos, ambos puderam ver os próprios problemas e começar a entender o outro, a simpatizar com ele. Abriu-se para eles um caminho de comunicação e de ajuda recíproca onde antes só tinha havido mútuos ressentimentos [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EU ERA MUDO E SÓ – No livro Antes do baile verde (José Olympio, 1973), da premiada escritora Lygia Fagundes Telles, destaco os trechos do conto Eu era mudo e só: [...] Penso agora como ela ficaria espantada se me visse aqui nesta sala que mais parece a página de uma dessas revistas da arte de decorar, bem vestido, bem barbeado e bem casado, solidamente casado com uma mulher divinamaravilhosa: quando borda, o trabalho parece sair das mãos de uma freira e quando cozinha!... Verlaine em sua boca é aquela pronúncia, a voz impostada, uma voz rara. E se tem filho então, tia Vicentina?! A criança nasce uma dessas coisas, entende?... Tudo tão harmonioso, tão perfeito. [...] Ou a mulher fica aquele tipo de amigona e etc. e tal ou fica de fora. Se fica de fora, com a famosa sabedoria da serpente misturada à inocência da pomba, dentro de um tempo mínimo conseguirá indispor a gente de tal modo com os amigos que quando menos se espera estaremos distantes deles as vinte mil léguas submarinas. No outro caso, se ficar a tal que seria nosso amigo se fosse homem, acabará gostando tanto dos nossos amigos, mas tanto, que logo escolherá o melhor para se deitar. Quer dizer, ou vai nos trair ou chatear. Ou as duas coisas... [...] Era o círculo eterno sem começo nem fim. [...] A perplexidade do moço diante de certas considerações tão ingênuas, a mesma perplexidade que um dia senti. Depois, com o passar do tempo, a metamorfose na maquinazinha social azeitada pelo hábito: hábito de rir sem vontade, de chorar sem vontade, de falar sem vontade, de fazer amor sem vontade... O homem adaptável, ideal. Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir aos outros, tão cômodo, tão portátil. [...] Tive então uma vontade absurda de me levantar e ir embora, sumir para sempre, sumir. Largar ali na sala o senador com suas máquinas, Fernanda com suas baladas, adeus, minha noiva, adeus! Tão forte a vontade de fugir que cheguei a agarrar os braços da poltrona para me levantar de um salto. A música, o conhaque, o pai e a filha, tudo, tudo era da melhor qualidade, impossível mesmo encontrar lá fora uma cena igual, uma gente igual. Mas gente para ser vista e admirada do lado de fora, através da vidraça. Acho que cheguei mesmo a me levantar. [...] Fiquei. Fui relaxando os músculos, sentei-me de novo, bebi mais um pouco e fiquei. Veja mais aqui, aqui e aqui.

SINA & FRUTA AZEDA COM SAL – A poeta, pesquisadora e historiadora paranaense radicada em Rodonia, Nilza Menezes, é autora de diversos livros, entre os quais, Fruta azeda com sal (Blocos, 1997), destaco o poema: Coloco o sapato vermelho / que você mais gosta, / a blusa do nosso primeiro encontro, / e a calça que você me deu / no nosso aniversário de casamento. / Resgato cada pedaço da nossa relação / e com pose para foto do álbum de família, / no canto da sala escuto Roberto. / Enfeitada, adormeço, / só pra você me levar pra cama. Na antologia Saciedade dos poetas vivos XII: Eros e Psique (Blocos, 1997), organizada por Urhacy Faustino e Leila Míccolis, destaco o poema sem título da autora: Vadio / vagueia meus sonhos, / meu sono / esse desejo de te desnudar. / Vadio / viaja meu sangue / esse desejo / de vadiar pelo teu corpo. / deixo meu olhar / prender-se ao seu / hipnotizada, / e, você, meu predador natural / me conduz ao espaço vazio / de mim mesma / desconsertada. Também este poema: O que ele me fez / ficou escrito nas páginas / de um velho diário. / O que ele me fez / ficou marcado no pensamento / e de vez em quando vem / como fotografia. / O que ele me fez / ficou aqui e ali / no desarranjo, no cheiro da pele. / Ficou no prato preferido, / numa canção / e bem fundo do coração. Ainda o poema: bate no peito / emoções novas, loucas / excita o sangue nas veias. / amando assim, / errada como todas as marias / dos dias, das filas, dos sonhos / e das poesias. / como todas as marias / das noites sem dias / de alma vazia. / eu amo você. Do seu livro Sina: troco ou vendo em bom estado (Blocos, 1999): Teu beijo, / sem gosto, / saliva fria / engasgando, / entrando, / emaranhando línguas e dentes. / Estranho o cheiro da tua pele / e fecho os poros / para não transpirar esse pavor. Por fim, o seu poema Meu corpo se resguarda do pecado: Tenho medo do inferno / e a todo momento me policio / para não cair em tentação. / Santos me fiscalizam desde criança / ameaçando meu corpo / que se transformará em pó. / Pela vida tem sido possível / não matar, não roubar / mas meus pensamentos e sentimentos / tem superado / o que me foi delimitado. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O SISTEMA STANISLAVSKI – No livro Aprendizagem do ator (Ática, 1986), do diretor, advogado, ator, professor, pesquisador das práticas do ator e criador da Cia. Simples de Teatro, Antonio Januzelli – Janô, destaco o trecho O sistema e seus caminhos: do sistema e dos objetivos: O sistema de Stanislavski, que para seu criador significava apenas um livro de referencia, solicitando a aprendizagem de regras elementares, estabelece-se como uma proposta de encontrar atitudes lógicas em relação ao treinamento de atores, só aceitando leis incontestáveis como base de seu conhecimento e da sua prática. As experiências aí expostas foram postas à prova no palco, durante várias décadas, sempre numa prática coletiva. O sistema propõe estudar as bases, métodos e técnicas da criatividade por meio de um encadeamento de exercícios regulares e da sua revisão constante na busca de melhores caminhos. O programa de trabalho, consciencioso e cotidiano, vai exigir que o ator tenha muita força de vontade, determinação e resistência, e tem por objetivos: preparar um terreno favorável à criação do ator, ao dedicar-se àquilo que está nos domínios do controle humano consciente; ajudar o ator a descobrir quais são os seus obstáculos e aprender a lidar com eles; levar o ator a sentir o que está aprendendo por meio de um exemplo pratico vivo, para depois chegar à teoria; despertar no ator a consciência de suas próprias necessidades pessoais e das potencialidades dos instrumentos técnicos de sua arte: capacidades intelectuais, físicas, emocionais e espirituais; induzir as mais sutis forças criativas da natureza, que não estão sujeitas ao cálculo, a agirem por meios normais e naturais; conscientizar o ator a arrancar, sem dó, qualquer tendência à atuação mecânica, exagerada, abrindo mão de truques e professando um agudo senso de verdade através do treino da atenção e concentração; e preservar a liberdade do artista criador. Veja mais aqui, aqui e aqui.

STORYTELLING – O filme Storytelling (Histórias Proibidas, 2001), dirigido e roteirizado pelo cineasta estadunidense Todd Solondz, com música de Nathan Larson, reúne três histórias, a primeira Ficção, a segunda Não-Ficção, e a terceira Autobiography. A primeira história conta sobre um grupo de estudantes universitário em uma classe de escrita criativa, ministrada por um professor que possui estreitos relacionamentos com seus alunos, tendo como pano de fundo disfunções e turbulências pessoais. A segunda trata de uma filmagem de uma família suburbana disfuncional com seu filho adolescente que passa por processo de aplicação na faculdade. A terceira história fala de homossexualidade, contando a respeito de problemático jogado de futebol que se envolve em uma cena de sexo explícito com seu parceiro. Esta última parte foi cortada da versão final. Contudo, a exemplo de outros filmes do diretor, ele trabalha para extrair o lodo fétido da vida, mostrando mesquinharia, maldade, a pequenez do homem, a maldade e a crueldade mentais humanas. O destaque do filme vai para a versátil e bela atriz de teatro, cinema e televisão estadunidense Selma Blair. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia das Mulheres do escritor, chargista e quadrinista Ziraldo. Veja mais aqui e aqui. 

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21 horas (horário de verão), com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...