Mostrando postagens com marcador Wagner Tiso.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Wagner Tiso.. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, novembro 20, 2020

HARUKI MURAKAMI, JUDITH MCNAUGHT, CATHY O'NEIL, MARIA DE MEDEIROS, RUUD KOOPMANS & JANAÍNA ESMERALDO


  

TRÍPTICO DQC: JANELÍRICA – Ao som do Concerto nº 3 in C major, Op. 26, do Sergei Prokofiev, com a legendária pianista Martha Argerich e a Singapore Symphony Orchestra Recorded, regida por Darío Alejandro Ntaca, ao vivo no Esplanade Concert Hall, Singapore, 2018. - Estava em um local em que havia apenas uma única porta para entrada e saída. Mal cheguei e fui recepcionado por uma mulher de beleza misteriosa, vestida numa túnica transparente de ver-lhe as proporções corporais. Estendeu-me a mão com um sorriso e disse-me: Você só está aqui porque foi predestinado para essa honra por nascimento ou golpe do destino. Se você possui a capacidade de sonhar e de acreditar nele, seja bem-vindo. Assenti e me acompanhou no embarque com uma caravana até a fronteira. Na alfândega, ela conduziu para um funcionário que me deu dinheiro e uma passagem de trem para a capital. Ele perguntou-me pela mala e eu apenas com as mãos abanando. Ela fez um cumprimento para ele e me puxou: Vamos para Perla! Durante a viagem me explicou que não é permitido ali nada novo, só se usa o que for de segunda mão. Como eu só tinha a roupa do couro e a coragem, a minha admissão se deu sem muita burocracia. E foi me contando sobre as coisas dali, de gente espiritualizada que possui a consciência das inter-relações de seus mundos individuais e acreditam apenas em seus próprios sonhos. Pude ver algumas cenas estranhas, como a cópula de um gorila que mordia inexoravelmente a cabeça de uma submissa e fogosa mulher nua. Mais adiante me deparei com uma mulher simpática com corpo de caveira e faces, barriga enorme e pernas humanas. Vi passar The Lady on the Horse, como também uma mulher nua deitada de quatro e com as ancas empinadas diante de uma gigantesca cobra com cabeça de tigre. Do outro lado, um cachorro gigante priápico que encurralava uma jovem donzela nua e indefesa que seria por ele estuprada. Mais adiante presenciei o estupro de uma camponesa da Morávia, assistida pela mulher que casou com um elefante e um grupo de homens estupradores com muitas mulheres nuas numa igreja. Antes que me impressionasse com o que via, ela, ao meu lado, passou-me um livro, cujo título estava grafado The other side - Die andere Seite: ein phantastischer Roman (Berlim, 1908), do ilustrador e escritor austríaco Alfred Kubin (1877-1959). Folheei e a narrativa era repleta de ilustrações, muitas delas registrando exatamente todas as cenas que vi durante a viagem. Chegamos, Florian! Hem? Sou Anna Sand, vamos antes que o estranho continue nos seguindo. Quem? Vamos realizar nossos sonhos: a liberdade absoluta! Perla? Não, El Dorado. Um anão nos recepcionou e nos abriu a porta para uma localidade barroca carregada de bizarrices e devassidão. Vi as faces dela afogueada e apertava minha mão com se os desejos e vontades desenfreadas acometessem seu ser. Foi então que explicou ser ali o Reino dos Sonhos, um refúgio para os insatisfeitos, todas as necessidades materiais são dadas de mãos beijadas, todas. Esta localidade foi fundada no final de século XIX pelo extravagante caçador Klaus Patera que, em um confronto com o raríssimo tigre persa, foi ferido e só curado pelo chefe de uma estranha e rara tribo isolada que praticava ritos excêntricos e indescritíveis. Foi ele quem construiu Perla e depois separou seu reino do mundo circundante com uma grande muralha, guarnecido por fortificações poderosas. Pude perceber pelas paisagens que uma parte território era montanhosa e, a outra, plana com colinas, grandes florestas, um lago e um rio. As coisas mudavam a cada passagem, agora tudo se parecia com o cenário do Traumstadt (1973), a versão do livro que eu levava e que foi dirigido pelo cineasta alemão Johannes Schaaf (1933-2019). Fiquei assustado e logo me percebi noutro sonho do reino quando ela me chamou de Lobo Negro. Era ela mesma, só que agora se chamava Jennifer e mudava meu nome vez outra, me tratando também por Royce. Demorei a entender que ela era uma rebelde prisioneira em busca do amor e que só o encontrou em mim, o seu captor. Como? Ela então me abraçou com um beijo irresistível e demorado. Não sei se pelo movimento das pessoas por perto, ou se algo a fez sair avisando que logo voltaria, me entregando outro livro: Um reino de sonhos (Bertrand Brasil, 2018), da escritora estadunidense Judith McNaught. Comecei a lê-lo sem perder a noção de que tudo mais mudava ao meu redor. Intrigado com tudo que me ocorria, a autora deste livro sentou-se ao meu lado, se apresentou e disse: Existirão algumas vezes na sua vida em que todos os seus instintos lhe dirão para fazer algo, algo que desafia a lógica, perturba seus planos, e pode parecer loucura para os outros. Quando isso acontecer, você deve fazê-lo. Ouça seus instintos e ignore tudo o resto. Ignore a lógica, ignore as probabilidades, ignore as complicações, e apenas vá nessa. Ela sorriu e saiu sem se despedir. Voltei à leitura e me senti bastante sonolento. Deveras, cansado de tantas acontecências e da loucura dos sonhos.


 

LIRISMO & ARMAS DE DESTRUIÇÃO – Ao som da Symphony nº 1 - Chimera (2006), de Lera Auerbach, witch Düsseldorfer Symphoniker, conductor John Fiore. - Meus dias foram noites ininterruptas e, apesar da monstruosidade e do alarido dos horrores, os pássaros cantavam ao Sol. Isso era raro e maravilhoso para quem só sabia máquinas, buzinas, motores, ventoinhas, luminosos, pigarros e cuspidas. E o mote era: quem foi, foi; que não, ficou. Quem voltou, que vá. Senão, não. Tudo fenece ao sabor dos disparos de armas destrutivas. É o que alerta a matemática, cientista de dados e escritora estadunidense Cathy O'Neil, com a publicação do seu livro Weapons of Math Destrution (Crown, 2016): Os privilegiados são analisados por pessoas; as massas, por máquinas. Algoritmos sempre funcionam bem para as pessoas que os projetam, mas não sabemos se funcionam bem para as pessoas-alvo desses algoritmos. Com algoritmos, estamos tentando transcender o preconceito humano, estamos tentando lançar uma ferramenta científica. Se eles falham, eles fazem a sociedade entrar em um ciclo destrutivo, porque eles aumentam progressivamente a desigualdade. É o que o sociólogo holandês Ruud Koopmans também considera ao observar no seu Movements and Media: Selection Processes and Evolutionary Dynamics in the Public Sphere (Theory and Society. 2004), que a partir das definições de visibilidade, ressonância e legitimidade, ou seja, visibilidade como extensão da cobertura que os veículos de comunicação de massa dedicam a determinado tema; ressonância como a capacidade de um tema gerar debate; e legitimidade como o tema gerando consenso a respeito de si mesmo; para concluir, sob esta perspectiva, que os discursos polarizadores tendem a ter mais visibilidade e ressonância na esfera pública pelo fato de não serem, em sua maioria, consensuais ou legítimos, gerando debate e focalização do assunto. Sim. Para onde nós vamos? Não sei, desconfio que nada de bom sairá disso tudo.

 


ELA, MARIA – Curtindo Caso de amor, música de Milton Nascimento & Wagner Tiso, na voz da atriz, cineasta e cantora portuguesa Maria de Medeiros. - Ela chegou cantarolando com sotaque lusitano, um beijo e um toque suave. Meu coração era só retreta e fogos de artifícios em sua saudação. Diante do meu entusiasmo, disse-me toda Anais Nïn: A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo. Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos. A nossa vida em grande parte compõe-se de sonhos. É preciso ligá-los à ação. E rodopiou, saias aos ventos seios livres, para o prazer do meu sonho de tê-la a todo instante, nua e lindamente exultante, entre meus beijabraços, como pássaros eternos por penínsulas e continentes. Depois de afagozos, afastou-se um pouco e recitou do escritor japonês Haruki Murakami como se fosse uma revelação: A coisa mais importante que aprendi na escola é o fato de que as coisas mais importantes não podem ser aprendidas na escola. Seja lá o que esteja procurando, não virá da forma que você está esperando... No fundo, todos aguardam o fim do mundo. Era ela a poesia viva, nada mais tão real quanto ela olhos grandes riso largo em mim. E veio até mim, saltitante Nadime Gordimer: A poesia é ao mesmo tempo um esconderijo e um alto-falante. A solidão da escrita é muito assustadora. Está muito perto da loucura, desaparecemos por um dia e perdemos o contato. Sim, sempre nos perdemos. E reconstruímos o mundo que era só nosso e em nós, e nos refizemos conosco mútua e solidária com a nossa loucura repleta de vida. Até mais ver.

 

A ARTE DE JANAÍNA ESMERALDO

A arte da quadrinista e ilustradora Janaína Esmeraldo, autora da newsletter de quadrinhos Cabelo-nuvem e dos zines independentes Frutila – quadrinhos autobiográficos; Cosmo – uma história de amor futurista; e O Polegar de Ouro – uma história única e autobiográfica. Veja mais aqui e aqui.


 


terça-feira, dezembro 12, 2017

VARGAS LLOSA, RANCIÈRE, BADIOU, WAGNER TISO, QUINET, BRUNO TOLENTINO, FRANCINE VAYSSE, FRESNAYE, NÁ OZZETTI & JOAQUIM NABUCO

A BARATA & O MONSTRO - Imagem: The Architect (1913), do pintor cubista francês Roger de la Fresnaye (1885-1925). - A noite e a solidão, a hora avançada. Algo me espreitava, sentia. Não havia como identificar, algo intruso, dividindo comigo o espaço. Como desconfiava, saí conferindo cada recanto do ambiente. Não demorou muito e a intromissão de um asqueroso inseto ortóptero me lembrou daquela que engravidou a língua do selo: enquanto lambia para cola dos envelopes, inchou até não mais conseguir comer, o diagnóstico médico e o corte: saltou uma repulsiva barata, aquela mesma que zanzava nos esconderijos da minha casa. A intrometida era ágil, eu não conseguia pegá-la. Aquela atrevida presença, logo ali, usurpadora de hábito noturno, importuna e detestável. Lancei mão de todos os meios para liquidá-la, tem gente que usa do expediente de ficar em pé de manhã cedinho no meio da casa por três sextas consecutivas recitando: Barata-rabi, que veio fazer aqui? Brigou com compadre e comadre, e se manda daqui! Quando são muitas, chamam-na mulher de padre para que desapareçam de vez da habitação. Até mesmo em jejum sexta de manhã, distribuindo milho pelos cantos da casa, orando: Barata, vai embora!, deixando um dos cantos livre para ela poder sair. Ou mesmo encostado em uma das quinas do recinto: A moça do padre lhe convida pra missa. Vá com ela e seja feliz, igual quem come e não reza, ou quem trabalha no domingo. Ou colocá-las numa caixa e jogá-las para empestar a casa do desafeto vizinho. Dizem, de pés juntos, ser um santo remédio. Eu que duvide. Melhor a do veado que ajeitou sua casa e foi pelo mato procurar vida. Ao retornar ouviu uma vozinha fina lá dentro: Tui-tu, quinanã-ã, xô-xô, curió matou. Curioso, foi ver o que era e saiu amedrontado a toda carreira, quando encontrou o boi disse-lhe que um bicho cantava dentro da casa dele. Quando o boi ouviu a musiquinha da voz fina, disse logo: Isso é o diabo! E fugiram os dois. Contaram pros outros e ninguém teve coragem de ir lá não. Aí apareceu um carreirão de formigas que se prestaram pra resolver o problema. Entraram por baixo da porta e logo voltaram com a responsável: era só uma baratinha, frouxos. E levaram-nas aprisionada. Cada uma! Mas eu sei que para cada barata invasora encontrada, mil delas estão escondidas por aí, e logo nos meus domínios. Isso é lá coisa que dê sossego, meu! Logo uma onívera e vetora mecânica de patógenos, invocando o meu asco, com sua cor marrom avermelhada, é ela que anda roendo minhas roupas e livros, juro, não sei a razão de despertar temores. Cacei, persegui, e ela só me passando de besta, escapando, subiu na parede e, não tive dúvda, dei-lhe uma chinelada certeira de deixar a marca dela e ela cair com as patas pra cima, uma pisada boa, espragatei-la de deixá-la colada no chão. Pronto, finalmente, tudo resolvido. Melhor voltar pra ocupação, não deu, a barata não saía da minha mente, remorso, quem na verdade o invasor? Se ela tem trezentos milhões de anos na Terra, por que eu haveria de liquidá-la sabendo que no universo tem o seu equilíbrio próprio. Ao matá-la será que eu estava causando um desastre ou desequilíbrio na natureza? Nada, coisa de pensar besteira. Dirigindo-me ao sanitário, acendi a luz e repugnava ter de vê-la lá estatelada no chão. Fiz que não vi durante a micção e ao retornar, dei de cara com um monstro gigante na minha cozinha. Oxe! O sangue me fugiu, a covardia invadiu, cabelo em pé, o monstro era ela, agora vingativa na minha direção. Quem era agora o invasor? Eu ou ela? Procurei nos quatro cantos a fuga, um buraco no chão, qualquer coisa para sair daquela situação, a gigante já me alcançava, agora era eu a vítima pronto para ser espragatado por ela, fechei os olhos e sem saída lutei o mais que pude, esmurrando, às pernadas, de tudo nada resolvia, mas não me rendia, ia até às últimas, não cedia e repulsava como podia, não me entregava, nunca, morreria lutando até a última gota de vida, e me vi completamente envolvido por suas garras, sua gosma me melando todo, ousei gritar e lavado em suor, levantei em pânico. O pesadelo me atormentava no meio da noite. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com Preto & Branco & Trem Mineiro do músico, arranjador, regente, pianista e compositor Wagnert Tiso (Veja mais aqui & aqui); e Love Lee Rita & Ná, da cantora e compositora Ná Ozzetti (Veja mais aqui & aqui). Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] a arte é considerada política porque mostra os estigmas da dominação, porque ridiculariza os ícones reinantes ou porque sai de seus lugares próprios para transformar-se em prática social [...] precisamos questionar essas identificações do uso das imagens com a idolatria, a ignorância ou a passividade, se quisermos lançar um olhar novo sobre o que as imagens são, o que fazem e os efeitos que produzem [...]. Trechos extraídos da obra O espectador emancipado (Martins Fontes, 2012), do filósofo e professor francês Jacques Rancière. Veja mais aqui.

INESTÉTICA – [...] Didatismo, romantismo, classicismo são os esquemas possíveis do entrelaçamento entre arte e filosofia, o terceiro termo correspondendo à educação dos sujeitos, particularmente da juventude. No didatismo, a filosofia entrelaça-se com a arte na modalidade de uma vigilância educativa de seu destino extrínseco ao verdadeiro. [...] foram didáticas por seu desejo de dar um fim à arte, pela denúncia de seu caráter alienado e inautêntico. Românticas também, pela convicção de que a arte deveria renascer de imediato como absolutez, como consciência integral de suas próprias operações, como verdade imediatamente legível de si mesma. Consideradas como proposta de um esquema didático-romântico, ou como absolutez da destruição criadora, as vanguardas eram, antes de mais nada, anticlássicas. [...]. Trechos da obra Pequeno manual de inestética (Estação Liberdade, 2002), do filósofo, dramaturgo e novelista marroquino Alain Badiou, entendendo por inestética [...] uma relação da filosofia com a arte, que, colocando que a arte é, por si mesma, produtora de verdades, não pretende de maneira alguma torná-la, para a filosofia, um objeto seu. Contra a especulação estética, a inestética descreve os efeitos estritamente intrafilosóficos produzidos pela existência independente de algumas obras de arte.

JOAQUIM NABUCO – O município de Joaquim Nabuco é formado pelo distrito sede e pelos povoados de Usina Pumati, Arruado e Baixada da Areia. O povoamento na região deu-se através dos trabalhadores dos engenhos Pumaty, Boa Vista e Cuiabá, que foram construindo suas palhoças, as casas e a capela. Inicialmente o povoado denominava-se Preguiça. Esta denominação é atribuída às embaúbas ou "pau-de-preguiça" da região. Entretanto, há registro de que a origem do nome seria devido ao dia da feira: segunda-feira, que era considerado o dia da preguiça. As autoridades locais solicitaram a mudança de nome para homenagear o jurista, diplomata, historiador e político Joaquim Nabuco (1849-1910): De um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país. O distrito foi criado em 9 de novembro de 1892 e pertencia ao município de Palmares. Elevado à categoria de município com a denominação de Joaquim Nabuco, pela Lei estadual nº 1819, de 30 de dezembro de 1953 e instalado em 15 de maio de 1954. A atividade econômica predominante é a agroindústria açucareira, prevalendo na agricultura a cana-de-açúcar, mandioca, banana e maracujá. Veja mais aqui.

O OLHAR E O VISTO – [...] O prazer do olho não se obtém pelo toque direto, como é o caso das outras zonas erógenas (boca, ânus), mas por esse investimento imperceptível que transforma o outro em um objeto agalmático. Eis por que Freud destaca que o olho é a zona erógena mais distante do objeto sexual. No caso da pulsão escópica, a satisfação se dissocia do prazer do órgão-olho. Sua satisfação, evidentemente, não é obtida pela manipulação dos olhos, mas por sua propriedade háptica de tocar de longe o objeto sexual, desnudá-lo e comê-lo com os olhos [...]. Trecho extraído da obra Um olhar a mais: ver e ser visto na psicanálise (Jorge Zahar 2004), do psicanalista Antonio Quinet.

PANTALEÓN & AS VISITADORAS - [...] dedicou-se a estabelecer os primeiros contatos com vistas à contratação. Graças à cooperação do individuo que atende pelo nome de Porfirio Wong, mais conhecido como China, a quem conheceu por obra do acaso no centro noturno denominado Mao Mao (Rua Pebas, 260), fez uma visita, altas horas da noite, ao local de diversão freqüentado por mulheres de vida alegre dirigido por dona Leonor Curinchila, ou Chupechupe, comumente conhecido pelo nome de Casa Chuchupe e sito na estrada para o balneário de Nanay. Sendo a citada Leonor Curinclila amiga de Porfirio Wong, este último pôde apresentar-lhe o abaixo assinado, que, na ocasião, fez-se passar por comerciante (do ramo de importação/exportação) recém-instalado em Iquitos e à prcura de distrações. A referida Leonor Curinchila mostrou-se cooperativa e o abaixo assinado conseguiu – sem outra alternativa, para tanto, sebão ingerir muitos cálices de licor (recibo 8) – obter dados interessantes relacionados ao sistema de trabalho e costumes do pessoal daquele estabelecimento. Assim é que na Casa Chuchupe cerca de dezesseis mulheres formam o que se poderia denominar plantel estável, visto que há outras, entre quinze e vintém que trabalham irregularmente, comparecendo alguns dias, faltando outros, por razões que abarcam desde doenças veneras (p. e., gonorréia ou cancro) contraídas no exercício dos atendimentos, até transitórios amancebamentos ou contratos por temporada (p.e., madeireiro contra a acompanhante para viagem de uma semana à selvba)m que as afastam temporariamente do centro de trabalho. Em síntese, o pessoal completo, entre estável e flutuante, da Casa Chuchupe, são mais ou menos trinta meretrizes, embora o plantel efetivo (porém renovável) de cada noite chegue à metade desse total. [...] não sendo raro ver-se pela rua senhoritas de aparência muito sedutora, de ancas desenvolvidas, bustos turgescentes e andar insinuante, às quais, pelos padrões litorâneos, se atribuiria uma idade de vinte ou vnte e dois anos, mas que na realidade têm apenas treze ou catorze [...] corpos atraentes e arredondados, sobretudo em se tratando de ancas e seios, membros que tendem a ser generosos neste campo da Pátria, e rostos apresentáveis, muito embora, quando observadas de perto, aqui se verifique apresença de um maior número de defeitos, não quanto à fealdade de nascimento, mas adquirida por acne, varíola e queda de dentes, sendo este último acidente uma coisa comum na Amazônia, em decorrência do clima debilitante e das insuficiências dietéticas. [...] dentre a matizada gama de atendimentos prestados, figuram desde a simples masturbação efetuada pela meretriz (manual: 50 sóis; bucal, ou corneta: 200 sóis), até o ato sodomita (em termos chulos, “trilha estreita” ou “com cocozinho”: 250 sóis), o 69 (200 sóis), espetáculo sáfico ou “panqueca” (200 sóis cada), ou casos menos freqüentes, como os de clientes exigirem dar ou receber golpes de açoite, vestir ou assistir a fantasias e ser adorados, humilhados e mesmo defecados, extravagâncias cujas tarifas oscilam entre 200 e 600 sóis. [...] teve condições de concluir, mediante brincadeiras e perguntas capciosas, que as mais graciosas e eficientes podem, numa noite de trabalho (sábado ou véspera de feriado), efetuar cerca de vinte atendimentos sem ficar excessivamente exaustas, o que dá margem à seguinte formulação: um comboio de dez visitadoras, selecionadas as de maior rendimento, estaria em condições de realizar 4800 atendimentos simples e normais por mês (semana de seis dias), trabalhando full time e sem contratempos. Ou seja, que para cobrir o objetivo máximo e ambicioso de 104.712 atendimentos mensais seria necessário contar com um corpo permanente de 2115 visitadoras de categoria máxima trabalhando em tempo integral e sem nenhum tipo de contratempo. Possibilidade, naturalmente, quimérica a essas alturas [...]. Trechos da obra Pantaleón e as visitadoras (Globo/Folha São Paulo, 2003), do escritor, jornalista e político peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010. Veja mais aqui, aqui & aqui.

NOTURNO & CELEBRAR ESTE MUNDO – NOTURNO: Não sou o que te quer. Sou o que desce / a ti, veia por veia, e se derrama / à cata de si mesmo e do que é chama / e em cinza se reúne e se arrefece. / Anoitece contigo. E me anoitece / o lume do que é findo e me reclama. / Abro as mãos no obscuro, toco a trama / que lacuna a lacuna amor se tece. / Repousa em ti o espanto que em mim dói, / noturno. E te revolvo. E estás pousada, / pomba de pura sombra que me rói. / E mordo o teu silêncio corrosivo, / chupo o que flui, amor, sei que estou vivo / e sou teu salto em mim suspenso em nada. CELEBRAR ESTE MUNDO: Celebrar este mundo adivinhando / a incurável leveza, a inabalável / certeza do esplendor interminável / da luz de Deus, aurora ruminando / para sempre a quietude do imutável./ Somos reflexos dessa luz, um bando / de flamingos ardendo, misturando- / se ao sol nascente, ao inimaginável / incêndio indescritível, todo asas, / todo luz… Somos feitos como brasas / abrindo o voo, somos como o voo / dos flamingos em brasa ao oriente…/ E nunca há de apagar-se aquele ardente / sol perfeito que neles se espelhou. Poemas do premiado poeta Bruno T0lentino (1940-2007), opositor do movimento modernista, da cultura popular e da poesia concreta.

A ARTE DE FRANCINE VAYSSE
A arte da pintora francesa Francine Vaysse.

Veja mais:
A literatura de Gustave Flaubert aqui, aqui & aqui,
A poesia de Emily Dickinson aqui.
O teatro de Luigi Pirandello aqui, aqui e aqui.
O pensamento de Rajneesh aqui, aqui, aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor cubista francês Roger de la Fresnaye (1885-1925).
Veja mais aqui.
 

sábado, dezembro 12, 2015

FLAUBERT, SÊNECA, CÍCERO, CATHARINO, MUNCH, WAGNER TISO & LÁ VAI TEIBEI!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DAS TRETAS E PENCÓ: JOGANDO CONVERSA FORA! – Ora, ora, ou eu virei Brasília, ou tô num pandemônio com todas as bruxas soltas! Vixe que 2015 tá uma barra pra lá de pesada desde o ano passado! Tô contando nos dedos a hora da virada! Tudo que tinha de acontecer, danou-se. Será que ainda resta alguma coisa pior? Sei lá. Não sei como, não sobrou nadica de nada, só os farelos dos que se espatifaram no chão: perspectivas, sonhos, considerações, amizades, relações. Eita! Sobrou nada mesmo. E isso dói - e como dói, meu! Grandes decepções, avalie. Apostar tudo: recursos, esforços, adiantou nada. Não deu nem um tiquinho de cloro por valia. Tudo desabou, tei bei! Nem muxiba no moquém. Só o frio da madrugada por cobertor e alento, do tipo Saudosa Maloca. Coisas que nem tinha visto. Ah, por fora, bela viola; por dentro molambos. Só decepção, indignação. Parece mais que bati com a cabeça na porta fechada de quase lascar o quengo e endoidar atirando pedras ao leu. Foi como ter dado um murro na parede de quase arrebentar o punho. Sobraram uns tantos de erros e equívocos, abandono. E bote apuros nisso. Pois, o que faltava para fechar o ano com chave de ouro – para não dizer ao contrário –, aconteceu. Fiquei no picado e sem chance: todo mundo tem uma segunda, nem tive a primeira, tome no pau da venta! Se tivesse história, pelo menos, nada, foi tudo pro lixo naquela do sem retorno: ou vai ou racha das pregas voarem no já era. Tome, desgraçado, quer mais o quê? É como se tivesse levado um certeiro bem dado de cair num nocaute tipo enfiada de estaca no coração dum vampiro. Fiquei estatelado no chão, me levantei e fiquei firme de pé – ou quase. Ao invés de voltar pro ringue, me dei por vencido e arrumei as malas com todos meus mijados – ora, enfrentar mulher é pior que o Mike Tyson furioso. Só faltou mesmo eu tirar minhas tripas ao Sol. Eu mesmo me pergunto como é que fui cair numa dessa, hem? Bem empregado. Ah, nunca diga coisas assim do nada, cuspiu pra cima e não saiu, o cuspe na cara caiu. Arrependido? Não tenho do que reclamar, nem estou posando de vítima: tô só jogando conversa fora, os meus miolos de pote! O que passou, passou; quem mandou, coração? Sem mágoas, nem ressentimentos. Agora é seguir em frente se livrando das punhaladas pelas costas. Vê se toma jeito e não fica marcando bobeira à toa, acreditando em tudo que dizem, prometem e juram, viu? Porco sabido não se coça em pau de espinhos. A vida não é brinquedo não. Agora é lamber as feridas para sará-las. Nada não. Destá. Mantenho a fé no ser humano, contudo, sei que poucos resistem à tentação, logo viram casaca, se vendem, procuram suas melhoras em detrimento do besta que fica falando sozinho no reino da indiferença, do pouco caso, das desconsiderações. O melhor mesmo é deixar pra lá as traições, quebra de contratos, incompreensões, desistências, mutilações e a porratoda. Chega de lengalenga! Ou é ou não é. Agora é hora de passar a limpo, refazer a vida, passar borracha no passado, deixar pra lá o que não serve e não vingou! Hora de recomeçar do zero. E avante! Alô, alô, chicólatras, tô na área! E obrigado pelas mensagens de apoio e carinho – serviu de curativo pra remendar meu coração desmiolado. E vamos aprumar a conversa aqui

Imagem: Nude Girl on Red Cloth (1902), do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944)

 Curtindo o álbum Manu çaruê: uma aventura holística (Philips Records, 1988), do compositor, músico, arranjador, regente e pianista Wagner Tiso.

DA REPÚBLICA – Na obra Da República, do filósofo, orador, escritor, advogado e político romano Marco Túlio Cícero, (106 – 43aC), trata das bases fundacionais do Estado de um sistema político ideal, mas impregnado pelo pragmatismo romano, trazendo temas à discussão, desde as características do verdadeiro estadista, a injustiça, a tirania, a dissolução dos costumes, elegendo a forma de diálogo (como nos diálogos platónicos), em que algumas personalidades, reunidas, debatem esses vários assuntos. Da obra destaco o Livro Primeiro: Sem o amor pátrio, não teriam Duílio, Atílio e Metelo libertado Roma do terror de Cartago; sem ele, não teriam os dois Cipiões apagado o incêndio da segunda guerra púnica, e, quando seu incremento foi ainda maior, não o teria debilitado Quinto Máximo, nem extinguido M. Marcelo, nem impelido P. Africano às próprias muralhas inimigas. Certamente a Catão, homem desconhecido, de quem, não obstante, todos os que estudam as mesmas verdades invejam a glória que alcançou com sua virtude e trabalho, pode ser lícito deleitar-se ociosamente no saudável e próximo sítio de Túsculo. Mas, o homem veemente prefere, embora seja chamado de louco e a necessidade não o obrigue, arrostar as tempestades públicas entre suas ondas, até sucumbir decrépito, a viver no ócio prazenteiro e na tranquilidade. Deixo de nomear os inúmeros varões que salvaram a República, e passo em silêncio aqueles de que se conserva recente memória, temeroso de suscitar queixas com a omissão de algum. Afirmarei, sim, que tamanha é a necessidade de virtude que o gênero humano experimenta por natureza, tão grande o amor à defesa da saúde comum, que essa força triunfa sempre sobre o ócio e a voluptuosidade. Mas, não é. bastante ter uma arte qualquer sem praticá-la. Uma arte qualquer, pelo menos, mesmo quando não se pratique, pode ser considerada como ciência; mas, a virtude afirma-se por completo na prática, e seu melhor uso consiste em governar a República e converter em obras as palavras que se ouvem nas escolas. Nada se diz, entre os filósofos, que seja reputado como são e honesto, que não o tenham confirmado e exposto aqueles pelos quais se prescreve o direito da República. De onde procede a piedade? De quem a religião? De onde o direito das gentes? E o que se chama civil, de onde? De onde a justiça, a fé, a equidade, o pudor, a continência, o horror ao que é infame e o amor ao que é louvável e honesto? De onde a força nos trabalhos e perigos? Daqueles que, informando esses princípios pela educação, os confirmaram pelos costumes e os sancionaram com as leis. Perguntando-se a Xenócrates, filósofo insigne, que conseguiam seus discípulos, respondeu: "Fazer espontaneamente o que se lhes obrigaria a fazer pelas leis". Logo, o cidadão que obriga todos os outros, com as penas e o império da lei, às mesmas coisas a que a poucos persuadem os discursos dos filósofos, é preferível aos próprios doutores. Onde se poderá encontrar discurso de tanto valor que se possa antepor a uma boa organização do Estado, do direito público e dos costumes? Assim, julgo preferíveis as cidades magnas e dominadoras, como as denomina Ênio, aos castelos e praças fortes; creio, igualmente, que, aos que governam a República com sua autoridade, se deve antepor a sabedoria dos peritos em negócios públicos. Já que nos inclinamos a aumentar a herança da humanidade; já que para isso se encaminham nossos estudos e trabalhos, estimulados pela própria natureza, e mais, para tornar mais poderosa e opulenta a vida do homem, sigamos o caminho que os melhores empreenderam, e não escutemos as vozes e sinais que nos chamam por detrás e a que os nossos predecessores fecharão os ouvidos. [...] Veja mais aqui.

UM CORAÇÃO SIMPLES - No livro Um coração simples (Un Cœur Simple - Paz e Terra, 1996), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), é oriundo de um conto sugerido pela escritora George Sand, tratando sobre a história de homem sensível, em que, sem pregar a bondade, sem anunciar a bondade com frases de autor, fizesse com que ela aparecesse nos gestos inconscientes da criatura mais humilde e obscura. Da obra destaco o trecho: [...] Ela tivera, como qualquer outra, sua história de amor. O pai, pedreiro, morreu quando caiu de um andaime. Depois, a mãe faleceu, as irmãs se dispersaram, um arrendatário recolheu-a e empregou-a, ainda pequena, para cuidar das vacas no pasto. Ela tremia de frio em seus farrapos, bebia, deitada no chão, a água das poças, apanhava por qualquer motivo; por fim, acabou sendo expulsa por causa de um furto de trinta soldos, que não havia cometido. Foi para uma outra propriedade, onde trabalhava no fundo do quintal, cuidando dos animais; e, como agradava aos patrões, os outros criados invejavam-na. Numa noite do mês de agosto (tinha, então, dezoito anos), eles a levaram à feira em Colleville. Imediatamente ficou atordoada, estupefata pela balbúrdia dos violeiros, pelas luzes nas árvores, pela miscelânea de cores das roupas, pelas rendas, crucifixos de ouro, pela multidão indo e vindo ao mesmo tempo. Mantinha-se a distância, modestamente, quando um jovem, de aparência abastada, fumando cachimbo, com os dois cotovelos sobre o timão de uma carroça, veio tirá-la para dançar. Pagou-lhe sidra, café, bolo, um lenço e, imaginando que ela o adivinharia, ofereceu-se para levá-la para casa. Ao lado de um aveal, ele a derrubou brutalmente. Ela teve medo e se pôs a gritar. Ele se afastou. Uma outra noite, na estrada de Beaumont, ela quis ultrapassar uma grande carroça de feno que avançava lentamente; e, ao esbarrar nas rodas, reconheceu Teodoro. Ele a abordou com um ar tranqüilo, dizendo que precisava perdoar tudo, pois era "culpa da bebida". Ela não soube o que responder e teve vontade de fugir. Logo em seguida, ele falou das colheitas e das pessoas importantes da comuna, pois seu pai tinha deixado Colleville pelas terras de Écots, de modo que, agora, eram vizinhos. - Ah! - disse ela. Acrescentou que desejavam casá-lo. Porém não estava apressado e aguardava uma mulher do seu agrado. Ela abaixou a cabeça. Então, ele lhe perguntou se pensava em casamento. Ela respondeu, sorrindo, que não era bom debochar. - Mas, não, eu lhe juro! - e, com o braço esquerdo ele lhe enlaçou a cintura. Ela caminhava amparada pelo seu abraço; diminuíram o passo. O vento estava suave, as estrelas brilhavam, a enorme carroça de feno balançava diante deles; e os quatro cavalos arrastando os passos, levantavam poeira. Em seguida sem comando, viraram à direita. Ele a beijou ainda uma vez. Ela desapareceu na penumbra. Teodoro, na semana seguinte, conseguiu marcar encontros com ela. Viam-se no fundo dos pátios, atrás de um muro, sob uma árvore isolada. Ela não era inocente à maneira das moças finas - os animais haviam-na instruído; - mas a razão e o instinto de honra impediram-na de se entregar. Essa resistência exasperou o amor de Teodoro, de modo que para satisfazê-lo (ou ingenuamente talvez) ele lhe propôs casamento. Ela hesitava em acreditar. Ele fez grandes juras. Logo em seguida, confessou-lhe algo desagradável: seus pais, no ano anterior, haviam pago a um homem para se alistar em seu lugar; contudo, cedo ou tarde, poderiam chamá-lo; a idéia do recrutamento assustava-o. Essa covardia foi para Felicidade uma prova de afeto; seu sentimento por ele redobrou. Ela escapava de noite, e uma vez juntos, Teodoro torturava-a com suas inquietudes e insistências. Enfim, Teodoro anunciou que ele mesmo iria à administração para obter informações e as traria no domingo seguinte, entre onze horas e meia-noite. [...] Transformado em filme no ano de 2008, com direção de Marion Laine, com Sandrine Bonnaire no destaque como protagonista. Veja mais aqui, aqui e aqui.


DE ADEUS E BORBOLETAS – No livro De adeus e borboletas (Cátedra/INL, 1985), da poeta Maria do Carmo Barreto Campello de Melo (1924-2008), destaco inicialmente o Poema em dor maior: Andante se o poema tento dizer-te nem um som: só de mim afloram rebanhos de nuvens dunas de sal pálidos lírios no amanhecer prestíssimo Se o poema te digo este som dilacerado dentro de mim emergindo é soluço é dor é grito ou a corda de um violino se partindo? Também o poema De dar e de poema: Se te dou o poema mais que minha carne a alma: reduto além do sangue além da trama de nervo/dor/amor em que me teço. Se o poema te dou se me te dou-eu mesma dádiva ele te dando que me resta dar se te dou o poema? Ainda o poema título De adeus e borboletas: Assim eu digo adeus. E as borboletas voam sobre o mar A-D-E-U-S eu digo e o desencontro das sílabas se faz eu digo adeus e as borboletas voam na tarde coagulada de vogais. Eu digo A-D-E-U-S atordoados os sons se desencontram (voam borboletas sobre o mar) e o adeus que digo não é mais um adeus de ir mas de ficar. Por fim o Poema pra o homem adormecido em tarde lenta: Enquanto dormes as coisas acontecem. Um ar expectante e lúcido passeia em torno enquanto dormes. Pássaros sobrevoam teu sono e teu corpo dobrado sobre o mistério de ti mesmo. Enquanto dormes as coisas acontecem: um poema faz-se em pauta e parou ante tuas pálpebras descidas temeroso de rumor para o teu sonho. A tarde fez-se em cores ventos se recolheram ao ninho flores se fecharam e tu dormias irmão do mar estátua derreada em teu leito de sombras e enquanto dormias as coisas simplesmente aconteciam. E entanto dormes plateia de ti eu aconteço. Veja mais aqui.


MEDEIA – Na tragédia Medeia, do tragediógrafo e filósofo estoico latino Lúcio Aneu Sêneca (4ac-65), um dos célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano, é baseada na tragédia homônima de Eurípedes, da qual destaco o Prólogo: MEDEIA: Ó deuses do himeneu, e tu, ó Lucina, vigilante do leito nupcial. E tu que ensinaste a Tífis a arte de guiar o primeiro navio para conquistar os mares; e tu, altivo dominador do pélago; e tu, ó Sol, que distribuis sobre a terra a luz do dia; e tu, ó tríplice Hécate, que dás às misteriosas cerimonias uma cúmplice claridade; ó vós, divindades que Jasão quis como testemunhas de seus juramentos para comigo, e vós, que Medeia deve suplicar entre todas as divindades, caos da eterna noite, reino oposto àquele do céu, ímpio Manes, e tu, dono do triste império, e tu, sua esposa, raptada por um mais fiel amante – invoco-vos com as minhas imprecações. Agora, agora deveis assistir-me, ó deusas, vingadoras do crime: os cabelos desarrumados, entrelaçados de serpentes, firme nas mãos sanguinolentas um lúgubre archote, assisti-me, ó deusas, tão terríveis como quando ficastes perto de meu leito nupcial. Matai a nova esposa, matai o sogro e toda a família real. E a mim, dai um outro mal, mais terrível que a morte, para que eu possa oferece-lo ao meu esposo: que ele viva, errando pobre por cidades desconhecidas, desterrado, espantado, abominado, sem lar; que ele me deseje como esposa e encontre a porta fechada, hóspede já muito conhecido. E – não é possível pensar nada mais horrível – possa ele gerar filhos semelhantes ao pai, semelhantes à mãe. Quando eu dava à luz os meus filhos, dava à luz a minha vingança. Mas em vão lamento-me e falo. Não irei contra os meus inimigos? Arrancarei de suas mãos os archotes, arrancarei ao céu a luz. O ancestral de minha raça, o Sol, contempla este espetáculo: não se deixa ele contemplar e não percorre, sentado como de costume em sua carruagem, os serenos espaços do céu? Não volta ele ao lugar de onde se levantou, não faz ele recuar o dia? Concede-me, concede-me ser transportada através das nuvens pela carruagem paterna, concede-me as tuas rédeas, ó pai; permite-me guiar com teus chicotes flamejantes os cavalos de fogo. Corinto, que apresenta a dois mares o obstáculo de sua dupla praia, será queimada pelas chamas, deixando reunir as ondas. Não me resta senão eu mesma levar a tocha de pinho que precede o cortejo nupcial e, depois das preces para o sacrifício, golpear sobre o altar as vítimas consagradas: em suas vísceras procura o caminho da vingança, ó minha alma, se tu és ainda viva e te resta uma sombra da antiga força. Deixa de lado o medo feminino e reveste teu espirito com todas as crueldades do Cáucaso. Todos os crimes que o Ponto e o Fásis puderam ver serão vistos pelo Istmo. Insensatos, incríveis, horríveis, espantosos para o céu e a terra são os designios que se agitam no amago do meu cérebro: feridas, mortes, membros esparsos e sem exéquias. Mas são demais medíocres os crimes que agora estou lembrando... tudo isso eu fiz, quando virgem; é preciso que minha dor se levante ainda mais terrível; agora que sou mãe, meus crimes devem ser maiores. Arma-te de cólera, prepara-te para aniquilar com um furor que vai até ao paroxismo. Que a cena de tua renúncia seja igual à de tuas núpcias! Como deixarás o teu esposo? Como o seguiste. Sufoca tuas moles perplexidades! Esta casa, onde tu entraste por um crime, por um crime deves deixa-la. (Sai). [...] Veja mais aqui.

O CASAMENTO – O drama O casamento (1976), dirigido pelo cineasta, escritor, jornalista, roteirista e dramaturgo Arnaldo Jabor, é baseada na peça homônima de Nelson Rodrigues, contando a história de um rico industrial da construção civil que nutre um amor incestuoso pela filha de 18 anos, que vai se casar em dois dias. O médico da família diz que o futuro genro foi visto beijando outro homem na boca e ela ao saber das denúncias, faz um retrospecto doloroso de seus 18 anos de sexo, violências e dilemas, com flashbacks e ações entrelaçadas, que fazem aparecer as verdades que se escondem sob a aparente felicidade burguesa: injustiças, perversões sexuais, adultérios e crimes. O destaque do filme é para a atriz Adriana Prieto (1950-1974) que faleceu num acidente de trânsito provocado por uma viatura policial logo após as filmagens. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do cartunista estadunidense Dan DeCarlo (1919-2001).
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à pioneira feminista e educadora Henriqueta Martins Catharino (1886-1969).
 

SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...