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domingo, novembro 15, 2015

FECAMEPA À REPÚBLICA, VINICIUS, CALABAR, VANJA, PASOLINI, CHORDELOS, BEVERLY & MUITO MAIS!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FECAMEPA À REPÚBLICA - Segura o pencó, gente, que o negócio é sério. Esse bregueço é a maior tronchura, viu? Tataritaritatá! Pois é, para um país que não se sabe se foi descoberto numa cagada ou invadido pra porrada, fica a interrogação: afinal, que país é esse? Ah é o mesmo país que passou mais de 300 anos como uma colônia preada, açucarocrata e escravagista; depois, virou de uma hora para outra um reinado surrupiado até o fundo do tacho; num sopapo, se quebra de banda numa independência festeira e camuflada para ânimo de uns gatos pingados até ser rebocado prum império de sucatas. Ora, com um curriculum desse, não pode dar outra, né? A não ser que a lorota vire pinóia manjada e dê numa republica de... de.... de quê mesmo, hem? eita! De ocrídios macunaímas? De mestiços corteses que num aprende a distância dum palmo além da venta? De miscigenados gentis que se hipnotizavam com tudo? De bananas? De apaideguados feladamãe? Ouououououou? Ih.... Na verdade, trocando os miúdos e deixando de fora os desguardados, só mesmo numa republiqueta levada na espórtula e empurrada pela barriga e na marra até hoje, né não? Pois então, ora veja! Depois da festa íntima dos promotores/beneficiários da independência, num deu nem para piscar o olho e já fervia a panela do vuque-vuque. É, a história é o princípio heraclitiano ao contrário: passa e volta, torna a se repetir constantemente. Pois é, não podia ser diferente porque as maruagens despóticas afuleiraram mais com a dissolução da Assembleia em 1823 e, também, com a outorga da Constituição de 1824. Piada? Só se for de mau gosto, sabe por que? Bastou isso para a faísca de nadinha virar fogaréu de monturo em Pernambuco. Lá vem resistência feito enterro voltando. O puxa-encolhe da insatisfação já dominava as províncias do Norte e Nordeste, incendiando tudo com um exaltado sentimento nativista requentado pelos ideais liberais separatistas e antilusitanos. Espia só, tudo aprontando o trupé. E vingou, era a Confederação do Equador, uma república revolucionária compreendendo os ingicados desde da Bahia até ao Grão-Pará. Era a boa nova que tanto contagiava como repelia seus correligionários, principalmente porque suspendia o tráfico negreiro. Mexeu a onça com vara curta e a coisa vai se esculhambando, como sempre. Findou maior pega-pra-capar, com pipoco de tiro, estrupício de vida e muita rezação no cemitério. O tumulto continua, num pára por aí não. Logo vem a Guerra do Paraguai que durou de 1865 até 1870. Foi uma sacanagem braba. Dizem alguns mais ousados historiadores que para render o inimigo mais rapidamente, usou-se do ardil de jogar cólera nas nascentes dos rios contaminando todo povo paraguaio. Isso só não, tem muito mais. De resultado só trouxe fortalecimento pro o exército que era só desprestígio. Sincronicamente, passava o zoadeiro do abolicionismo. Com isso, engrossava o caldo os pinotes dos escravos que escapuliam pra vida desde dos quilombos de antanho. O pisoteio todo redunda no Manifesto Republicano de 1870. A coisa andava, como ainda hoje, aos trupicões. Segura a onda, meu! É a maior buraqueira do sujeito perder tudo nos catabís. Porque é aí que chega a constatação de que até 1889, a nossa brasílica terra era o único império existente na América inteira, vez que todas as demais nações vizinhas já tinham virado a casaca pro republicanismo. Pode um negócio desse? Como sempre e até hoje, esse Brasilzim anda atrasadinho que só, hem? Mas isso não é nada, vamos adiante naquilo que comumente taxamos de: seria cômico se não fosse trágico. Ou ao contrário? Vamos nessa. Chegamos na república (sic). Na verdade, um arrumado dos militares acoloiados com um punhado miúdo de civis, implantando o Federalismo, o sistema presidencialista, a independência dos poderes e outras mais. De primeira, deram um chute na bunda do rei com banimento da família imperial pros quintos dos infernos. Depois, começa a mania de provisoriedade que tanto visita a vida do brasileiro no século seguinte, botando um marechal brabo na presidência. Era o marechal alagoano Deodoro da Fonseca. Com ele, a primeira Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 1891, começando uma descarada imitação dos gringos lá do norte, quando tem início a onda da norte-americanização daqui, com a inspiração voltada pro positivismo comteano pra seguir a ordem-progressivista e, também ainda, da corda-de-guaiamun dos interesses sempre esticando o miolo do poder como uma panelinha de mãe Joana, onde os privilegiados comem tudo e num sobra nem os farelos pro povão faminto do lado de fora. Aí ocorre um fenômeno econômico digno de nota, quando Rui Barbosa, o então ministro da Fazenda, entre 1889 e 1892, escancarando o crédito e dando liberdade pros bancos – espia só o merdeiro que vai dar -, deixa o país às voltas com uma inflação incontrolável, dinheiro desvalorizado e festança de ricos sobre a ruína de novos pobres. Era o Encilhamento, parece até um treino para entrar em campo uma trupe que vai jogar num cenário que a gente vai ver e ter em replay de instante em instante e até slow motion a vida toda do século XX. É quando estoura a Revolução Federalista de 1893 que dura até o ano seguinte, pela libertação do Rio Grande do Sul. Também ribomba a Revolta Armada iniciada no Rio de Janeiro até atingir o Rio Grande do Sul. E o governo passando de Deodoro para Floriano Peixoto, outro marechal alagoano (ihhhhhhhhhhhhhhh!). Vamos lá, que o diga Policarpo Quaresma. Depois Prudente de Morais, o primeiro civil em 1894. Dois anos da posse, rasga o cenário Canudos, com o messiânico líder Antonio Conselheiro e seus jagunços declarando guerra à República pela restauração da Monarquia. Esse quiprocó dura dois anos, de 1896 até o ano seguinte, quando o sangreiro espirra até na lua. Vem logo em seguida o paulista Campos Sales, que antes mesmo de assumir, negocia um acordo, o Funding Loan, onde suspende os pagamentos do país para contrair novo empréstimo. Entende isso? Jogadas e tramoias. Era só a bagatela de 10 milhões de libras que entravam na roda e que foram amortizadas a juros sobre juros só quitada em 1961 (só?!?). Pois é, e ele governa de 1898 até 1902, sob o clima do abalo do Encilhamento, da agitação política comandada pelo curral eleitoral do patriarcado coronelista com o voto de cabresto nos currais eleitorais e, mais também, do capital estrangeiro que mandava ver a partir de então por aqui. Eita, já estamos em 1900, pleno século XX. E isso é pano para outras mangas. E vamos aprumar a conversa, ta? Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Sem título, do artista plástico russo Serge Marshennikov.


Curtindo o álbum da cantora e atriz Vanja Orico (1929-2015/Independente, 1997), com participação especial do Quinteto Violado.

AS RELAÇÕES E A RESPONSABILIDADE – No livro Responsabilidade civil nos relacionamentos afetivos pós-modernos (Russel, 2007), de Ana Cecília Parodi, as questões atinentes às relações e responsabilidades são tratadas desde a gênese da unidade familiar no mundo até o novo paradigma da organização judiciária. Da obra, destaco os trechos: Desde que o mundo foi criado, desde o surgimento da primeira célula social no planeta, o home zela por seu conjunto de bens imateriais. O ser humano tem necessidade de se afirmar socialmente, de amadurecer emocionalmente, de relacionar-se com seus semelhantes e com o ecossistema. Mas, em face de injustiças sofridas, desde os primórdios, o homem pleiteia a reparação. Ao longo dos milênios, conferiu-se enorme maleabilidade aos ditos instrumentos de defesa da honra. Duelos, vinganças, o sangue vingado com as próprias mãos. A compensação atingia os danos materiais, sem sombra de duvida – um boi pelo outro. A todo custo, o homem procura indenização, é parte do seu complexo interior, muito além das raias jurídicas. Com a evolução das relações sociais, e do mundo como um todo, o homem desenvolveu maior complexidade mental, passando a se descobrir com mais profundidade e, com a mesma intensidade, acelera a sua compreensão do meio que o cerca. A sociedade moderna, por obvio, não comportaria os meios reparatórios, nem as punições ultrajantes. Em contrapartida, o individuo permanece tendo na indenização uma questão de foro intimo. Ajustou-se o interesse coletivo ao interesse individual, tratando-se de criar instituto indenizatórios socialmente adequados. [...] A satisfação do homem vai além do sagrar-se vencedor, na discussão processual. Sua necessidade é de haver uma sentença, um ditame maior, digno de obediência, que lhe fira o status de inocente, de vitima, de detentor de um dano irreparável. [...] As relações afetivas havidas entre os seres humanos podem ser classificadas verticais – operadas entre ascendentes e descendentes – e horizontais – operadas entre os casais. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

AS RELAÇÕES PERIGOSAS – O livro As relações perigosas (Les liaisons dangereuses – Companhia das Letras, 2012), do escritor francês Choderlos de Laclos (1741-1803), trata sobre as relações de um grupo de aristocratas através das cartas trocadas entre si, na época imediatamente anterior à Revolução Francesa — nobres ociosos e sem escrúpulos dedicam-se prazerosamente a destruir as reputações de seus pares. O enredo tem como foco o Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil, que manipulam e humilham as restantes personagens através de intrigas e jogos de sedução. Durante alguns meses, um grupo peculiar da nobreza francesa troca cartas secretamente. No centro da intriga está o libertino visconde de Valmont, que tenta conquistar a presidenta de Tourvel, e a dissimulada marquesa de Merteuil, suposta confidente da jovem Cécile, a quem ela tenta convencer a se entregar a outro homem antes de se casar. Da obra destaco o trecho com tradução de Dorothée de Bruchard: [...] suas ordens são encantadoras; sua maneira de dá-las é mais amável ainda; você seria capaz de fazer apreciar o despotismo. Não é a primeira vez, como sabe, que lamento não ser mais seu escravo; e por mais monstro que diga que sou, nunca relembro sem prazer o tempo em que me gratificava com mais doces apelidos. Não raro, sinto inclusive o desejo de voltar a merecê-los e acabar dando ao mundo, com você, um exemplo de constância. Interesses mais largos nos chamam, porém; nosso destino é conquistar; cabe a nós cumpri-lo: quiçá ainda nos encontremos no fim da carreira; pois, digo isso sem querer aborrecê-la, mui bela marquesa, seus passos são, no mínimo, parelhos com os meus; e desde que, separando--nos para a alegria geral, vimos pregando a fé cada um por seu lado, quer parecer-me que nesta missão amorosa você angaria mais prosélitos que eu. Conheço seu zelo, seu ardente fervor; e, se nos julgasse Deus por nossas obras, você seria algum dia a padroeira de uma grande cidade, ao passo que esse seu amigo seria, quando muito, o santo de alguma aldeia. Esta linguagem mística a surpreende, não é verdade? Ocorre que há uma semana não escuto nem falo nenhuma outra; e é para aperfeiçoar-me nela que me vejo forçado a desobedecer-lhe. Não se zangue, e escute-me. Depositária de todos os segredos de meu coração, vou confidenciar-lhe o maior plano que já concebi. O que me sugere? Seduzir uma moça que não viu nada, nem conhece nada; que, por assim dizer, me seria entregue sem defesa; que uma primeira homenagem não deixará de embriagar, e que a curiosidade talvez conduzisse mais rapidamente que o amor. Vinte homens poderiam bem suceder como eu. O mesmo não se dá com o projeto que me ocupa; seu êxito me assegura tanta glória quanto prazer. O próprio amor que tece minha coroa hesita entre o mirto e os louros, ou melhor, há de juntar a ambos para honrar meu triunfo. Você mesma, bela amiga, será tomada de um santo respeito, e dirá, entusiasmada: “Aí está um homem a meu gosto”. [...]. Veja mais aqui.

POEMA PARA TODAS AS MULHERES & OUTROS POEMAS PRA ELAS – No livro Antologia Poética (José Olympio, 1984), do poeta, compositor e diplomata Vinicius de Morais, destaco inicialmente o poema Poemas para todas as mulheres: No teu branco seio eu choro. / Minhas lágrimas descem pelo teu ventre / E se embebedam do perfume do teu sexo. / Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado / Confuso, criança para te conter! / Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não! / Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não! / Homem sou belo / Macho sou forte, poeta sou altíssimo / E só a pureza me ama e ela em mim uma cidade e tem mil e uma portas. / Ai! teus cabelos recendem flor da murta / Melhor seria morrer ou ver-te morta / E nunca, nunca poder te tocar! / Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços / Anjo, sinto o calor do vento nas espumas / Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos... / Correi, correi, lágrimas saudosas / Afogai-me, tirai-me deste tempo / Levai-me para o campo das estrelas / Entregai-me depressa lua cheia / Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos / Que eu não posso mais, ai! / Que esta mulher me devora! / Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora! Também o poema A mulher na noite: Eu fiquei imóvel e no escuro tu vieste./ A chuva batia nas vidraças e escorria nas calhas - vinhas andando e eu não te via / Contudo a volúpia entrou em mim e ulcerou a treva nos meus olhos. / Eu estava imóvel - tu caminhavas para mim como um pinheiro erguido /E de repente, não sei, me vi acorrentado no descampado, no meio de insetos / E as formigas me passeavam pelo corpo úmido. / Do teu corpo balouçante saíam cobras que se eriçavam sobre o meu peito / E muito ao longe me parecia ouvir uivos de lobas. / E então a aragem começou a descer e me arrepiou os nervos / E os insetos se ocultavam nos meus ouvidos e zunzunavam sobre os meus lábios. / Eu queria me levantar porque grandes reses me lambiam o rosto / E cabras cheirando forte urinavam sobre as minhas pernas. / Uma angústia de morte começou a se apossar do meu ser / As formigas iam e vinham, os insetos procriavam e zumbiam do meu desespero / E eu comecei a sufocar sob a rês que me lambia. / Nesse momento as cobras apertaram o meu pescoço / E a chuva despejou sobre mim torrentes amargas. / Eu me levantei e comecei a chegar, me parecia vir de longe / E não havia mais vida na minha frente. Por fim, Invocação à mulher única: Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o frio das águas — tu / Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...) / Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio / E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda / E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia. / Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea / Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua... / A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas — negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência /De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento — afirmações do bem: dúvida (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna que a caridade / Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém! / Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra — perpetuação do êxtase / Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros — mulher! tu que deitas o teu sangue / Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias — mulher! / Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno. / Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —fruto da carne /Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne / Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo! / Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura / A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia / Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e desdobrada — por onde eu iria caminhando / Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia / No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna! Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MULHER DE CALABAR – A peça teatral Calabar: o elogio da traição (Civilização Brasileira, 1976), de Chico Buarque e Ruy Guerra, trata acerca do acontecimento histórico que envolve Domingos Fernandes Calabar no embate entre portugueses e holandeses no Brasil colonial, como uma metáfora para o período militar de 1964-1985. Da obra destaco os trechos: PLENAMENTE ILUMINADA, BÁRBARA SE LEVANTA E VESTE-SE CALMAMENTE, CANTANDO CALA BOCA, BÁRBARA – Bárbara (cantando): Ele sabe dos caminhos dessa minha terra No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu Os meus rios, os meus braços Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra Nas bandeiras, bons lençóis Nas trincheiras, quantos ais, ai Cala a boca - olha o fogo! Cala a boca - olha a relva! Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Ele sabe dos segredos que ninguém ensina Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber As vazantes, as correntes Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro Nas campanhas, nos currais Nas entranhas, quantos ais, ai Cala a boca - olha a noite! Cala a boca - olha o frio! Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara cala a boca, Bárbara Cala a boca, Bárbara [...] ANNA CANTA ANNA DE AMSTERDAM – Anna (cantando) Sou Ana do dique e das docas Da compra, da venda, das trocas de pernas Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas Sou Ana das loucas Até amanhã Sou Ana Da cama, da cana, fulana, sacana Sou Ana de Amsterdam Eu cruzei um oceano Na esperança de casar Fiz mil bocas pra Solano Fui beijada por Gaspar Sou Ana de cabo a tenente Sou Ana de toda patente, das Índias Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada Sou Ana, obrigada Até amanhã, sou Ana Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos Sou Ana de Amsterdam Arrisquei muita braçada Na esperança de outro mar Hoje sou carta marcada Hoje sou jogo de azar Sou Ana de vinte minutos Sou Ana da brasa dos brutos na coxa Que apaga charutos Sou Ana dos dentes rangendo E dos olhos enxutos Até amanhã, sou Ana Das marcas, das macas, da vacas, das pratas Sou Ana de Amsterdam [...] SUBITAMENTE ILUMINADA, BÁRBARA CANTA TATUAGEM – Bárbara: Quero ficar no teu corpo Feito tatuagem Que é pra te dar coragem Pra seguir viagem Quando a noite vem E também pra me perpetuar Em tua escrava Que você pega, esfrega Nega, mas não lava Quero brincar no teu corpo Feito bailarina Que logo te alucina Salta e se ilumina Quando a noite vem E nos músculos exaustos Do teu braço Repousar frouxa, murcha, farta, Morta de cansaço Quero pesar feito cruz Nas tuas costas Que te retalha em postas Mas no fundo gostas Quando a noite vem Quero ser a cicatriz Risonha e corrosiva Marcada a frio Ferro e fogo Em carne viva Corações de mãe, arpões Sereias e serpentes Que te rabiscam O corpo todo Mas não sentes [...] BÁRBARA COMEÇA A CANTAR TIRA AS MÃOS DE MIM – Bárbara (cantando) Ele era mil Tu és nenhum Na guerra és vil Na cama és mocho Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se o fogo dele Guardado em mim Te incendeia um pouco Éramos nós Estreitos nós Enquanto tu És laço frouxo Tira as mãos de mim Põe as mãos em mim E vê se a febre dele guardada em mim Te contagia um pouco. [...] BÁRBARA COMEÇA A CANTAR COBRA DE VIDRO: Aos quatro cantos o seu corpo Partido, banido Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos de vidro O seu veneno incomodando A tua honra, o teu verão Presta atenção Aos quatro cantos suas tripas De graça, de sobra Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos, de cobra O seu veneno arruinando A tua filha, a plantação Presta atenção Aos quatro cantos seus ganidos Seu grito medonho Aos quatro ventos os seus quartos Seus cacos de sonho O seu veneno temperando A tua aveia O teu feijão Presta atenção. [...] ANNA RI MUITO. BÁRBARA CONTINUA SÉRIA, NUM GESTO DE DESESPERO, ANNA DESMANCJA O PENTEADO DE BÁRBARA. EM SEGUIDA RECOMEÇA A PENTEÁ-LO, DISPENSANDO AS ESCRAVAS, BÁRBARA COMEÇA A CANTAR FORTALEZA. Bárbara (cantando) A minha tristeza não é feita de angústias A minha tristeza não é feita de angústias A minha surpresa A minha surpresa é só feita de fatos De sangue nos olhos e lama nos sapatos Minha fortaleza Minha fortaleza é de um silêncio infame Bastando a si mesma, retendo o derrame A minha represa. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

I RACONTI DI CANTERBURY – O premiado filme I raconti de Canterbury (Os Contos de Canterbury, 1972), do cineasta, poeta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), é uma obra baseada nos contos eróticos do escritor, filosofo, cortesão e diplomata inglês Geoffrey Chaucer (1343-1400), cenografia de Dante Ferretti e trilha sonora de Ennio Morricone, no qual há uma celebração ao sexo de uma forma muito bem humorada, numa atmosfera ao mesmo tempo mágica e rústica, retratando, inclusive, uma representação do inferno com claras influências do pintor neerlandês Hieronymus Bosch. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
  Todo dia é dia da atriz estadunidense Beverly D’Angelo, a eterna musa do filme Hair (1979).
Veja mais aqui.

terça-feira, junho 16, 2015

LYOTARD, ARIANO, DECAMERON, IVAN LINS, MICCOLIS, SCHRADER & DANÇA.


O PÓS-MODERNO – A obra O pós-moderno (José Olympio, 1998), do filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998), reflete sobre a pós-modernidade, abordando o campo e o saber nas sociedades informatizadas, o problema da legitimação, o método dos jogos de linguagem, a natureza do vínculo social: a alternativa moderna e a perspectiva pós-moderna, a pragmática do saber narrativo, a pragmática do saber científico, a função narrativa e a legitimação do saber, os relatos da legitimação do saber, a deslegitimação, a pesquisa e sua legitimação pelo desempenho, o ensino e sua legitimação pelo desempenho, a ciência pós-moderna como pesquisa de instabilidade, a legitimação pela paralogia, entre outros assuntos. Do livro destaco o trecho: [...] Originalmente, a ciência entra em conflito com os relatos. Do ponto de vista de seus próprios critérios, a maior parte destes últimos revelam-se como fábulas. Mas, na medida em que não se limite a enunciar regularidades úteis e que busque o verdadeiro, deve legitimar suas regras de jogo. Assim, exerce sobre seu próprio estatuto um discurso de legitimação, chamado filosofia. Quando este metadiscurso recorre explicitamente a algum grande relato, como a dialética do espírito, a hermenêutica do sentido, a emancipação do sujeito racional ou trabalhador, o desenvolvimento da riqueza, decide-se chamar "moderna" a ciência que a isto se refere para se legitimar. E assim, por exemplo, que a regra do consenso entre o remetente e destinatário de um enunciado com valor de verdade será tida como aceitável, se ela se inscreve na perspectiva de uma unanimidade possível de mentalidades racionais: foi este o relato das Luzes, onde o herói do saber. trabalha por um bom fim ético-político, a paz universal.Vê-se neste caso que, legitimando o saber por um correlato, que implica uma filosofia da história, somos conduzidos a questionar a validade das instituições que regem o vínculo social: elas também devem ser legitimadas. A justiça relaciona-se assim com o grande relato, no mesmo grau que a verdade. Simplificando ao extremo, considera-se "pós-moderna," a incredulidade em relação aos metarrelatos. E, sem duvida um efeito do progresso das ciências; mas este progresso, por sua vez, a supõe. Ao desuso do dispositivo metanarrativo de legitimação corresponde sobretudo a crise da filosofia metafísica e a da instituição universitária que dela dependia. A função narrativa perde seus atores (functeurs), os grandes heróis, os grandes pengos, os grandes périplos e o grande objetivo. Ela se dispersa em nuvens de elementos de linguagem narrativos, mas também denotativos, prescritivos, descritivos etc., cada um veiculando consigo validades pragmáticas sui generis. Cada um de nós vive em muitas destas encruzilhadas. Não formamos combinações de linguagem necessariamente estáveis, e as propriedades destas por nós formadas não são necessariamente comunicáveis. Assim, nasce uma sociedade que se baseia menos numa antropologia newtoniana (como o estruturalismo ou a teoria dos sistemas) e mais numa pragmática das partículas de linguagem. Existem muitos jogos de linguagem diferentes trata-se da heterogeneidade dos elementos. Somente darão origem à instituição através de placas; é o determinismo local. [...]. Veja mais aqui.

Imagem: Halbakt eines jungen Mädchen mit Hund, do pintor alemão Julius Schrader (1915-1900)

Curtindo Cantando histórias – ao vivo (EMI-2004), do músico e compositor Ivan Lins.



PROGRAMA TATARITARITATÁ O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aquiV Na programação: Ivan Lins, Tom Zé, Chico Buarque, Milton Nascimento, Davi Moraes, Carlos Careqa, Santana o Cantador, Sonia Mello, Gino Vanelli, Lena D'Água, Luiz Meira, Ricardo Machado, Matt Costa, Mina, Mazinho, Katya Chamma, Ozi dos Palmares, Aline Calixto, Daniella Alcarpe, Elisete Retter, Eustáquio Sena, Max Gonzaga, Sambô, Vineyard, Larissa Moura & muito mais! Veja mais aqui


PITADA DE AÇÚCAR NO SÉTIMO CÉU & OUTROS VERSOS – O meu primeiro contato com a poeta, editora, professora de roteiro de televisão, promotora cultural e artista performática, Leila Miccolis, foi na década de 1970: a gente trocava aerogramas com poemas que iam e vinham aos nossos endereços. Anos depois realizei uma entrevista com ela que foi publicada no meu Guia de Poesia. Ela também foi inserida entre os poetas da antologia 26 poetas hoje (Aeroplano, 2007), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Entre os seus poemas, destaco inicialmente Pitada de açúcar: Quero ver onde vai dar teu jogo / de esconder o feto no forno, / o macarrão no banheiro da empregada, / a cerveja na bexiga cheia. / Teu jogo de esconder / o desejado / no sorriso cordial, / e nas festas galantes de sempre. / Esconder tua voz de cio, / teus pêlos enroscados / entre a coxa aberta, / o medo de perder a virgindade / e o teu recato de homem. Também merece destaque o seu poema Sétimo Céu: Tudo acabado entre nós / Deus é testemunha / que na flor da idade / chorei por ti lágrimas de sangue / e que te amei / com todas as forças do meu ser; / mas a ilusão durou pouco: / a triste realidade dissipou / os meus sonhos e esperança, / assim como o mar desfaz / todo castelo de areia; / com tua perfídia me enganaste; / como um cão vadio me enxotaste; / na rua da amargura me lançaste. / Agora teu olhar me corta / como lâmina fria; / vago como morta viva / sendo a sombra do que fui, / a lembrar de um passado feliz / que não volta mais, / imersa em dor, tormento e padecer, / mas sabendo que este mundo / não comporta o meu sofrer. Ainda merece ser destaco o seu Até que a morte nos separe: Esqueço meu desejo de vingança, / e a mágoa recalcada esqueço até, / se ponho a te afagar o membro flácido / com as pontas dos artelhos / do meu pé. E, por fim, o seu belíssimo Moda: Eu queria te ver, / coxas de fora, / (como de fora vejo teus pêlos do peito / pela camisa de seda), / a andares na rua, / entre assobios e apalpadelas, / o olhar disperso / como quem nada percebe, / e mostrando ao sentares, / subindo-te a roupa, / a cueca combinando com a gravata. Veja mais aqui.

DECAMERÃO – O livro Decamerão (1350), do escritor e poeta italiano Giovani Boccaccio (1313-1375), é uma obra em prosa que relata em dez histórias curtas, contadas por sete moças e três rapazes que se refugiam no campo para escapar da peste negra, os conflitos entre os valores cristãos e o espírito libertino da época, questões ligada à transição para o Renascimento. É composto por cem histórias que abrangem as mais peculiares paixões e comportamentos humanos, e mantêm em viva presença, os clamores da carne, a infidelidade e as trapaças sexuais. Foi transformada em filme em 1971, pelo cineasta e poeta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), com música de Ennio Morricone, numa adaptação de nove histórias do livro que compõem um painel da vida social da Itália medieval com doses de humor satírico. O destaque do filme vai para atriz Angela Luce. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

AUTO DA COMPADECIDA – A peça teatral em três atos Auto da Compadecida (1955 – Agir, 1984), do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014), é um drama escrito com base em romances e histórias populares do Nordeste, inserindo elementos da tradição da literatura de cordel com traços do barroco católico brasileiro, com personagens como o Palhaço, João Grilo, Chicó, Padre João, Severino do Aracaju, Padre João, Frade, Bispo, entre outros. A primeira adaptação para o cinema ocorreu em 1969, com o filme A Compadecida, dirigido pelo cineasta Geroge Jonas e gravado na cidade de Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco. A segunda adaptação ocorreu em 1999, com direção de Guel Arraes e roteiro de Adriana Falcão, tendo por base a peça teatral homônima, mais elementos de outras duas peças teatrais do autor, O santo e porca (1957) e Torturas de um coração (1951). O filme foi premiado com Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator e Melhor Lançamento no Grande Prêmio Cinema Brasil do Ministério da Cultura. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A bailarina Erica Beatriz no espetáculo O+, da Quasar Cia de Dança.


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quarta-feira, dezembro 10, 2014

AS CINZAS DE GRAMSCI, DE PIER PAOLO PASOLINI



AS CINZAS DE GRAMSCI

I

Não é de Maio este ar impuro
que torna o jardim sombrio e estrangeiro
ainda mais obscuro, ou o ofusca

com réstias de luz alucinadas… este céu
de baba sobre as mansardas amarelas
que em semicírculos velam como véus

os meandros do Tibre, os montes
turquesa do Lácio… É uma paz mortal,
resignada como os nossos destinos,

a que derrama sobre estes velhos muros
o outonal Maio. Há nele o cinzento do mundo
o fim do decénio em que nos parece

que as ruínas engoliram o profundo
e ingénuo esforço para recriar a vida:
o silêncio, húmido e infecundo…

Tu, jovem, naquele Maio em que errar
era ainda viver, naquele Maio italiano
que à vida ao menos acrescenta ardor,

muito menos descuidado e impuramente são
do que os nossos pais não pai, mas humilde
irmão já com a tua magra mão

delineavas o ideal que ilumina
(mas não para nós, que tu estás morto, e nós
Estamos mortos, contigo, no húmido

jardim) este silêncio. Não vês que só
podes repousar em terra
estranha, ainda desterrado? Um tédio

patrício reina à tua volta. E só te chega
um rumor abafado de bigorna
nas oficinas do Testaccio, adormecido

ao anoitecer: por entre míseros telhados,
nus montões de lata, ferro-velho, onde, vicioso,
um operário cantando dá por terminado

o seu dia, e em redor deixa de chover.

II

Entre os dois mundos, a trégua em que não estamos.
Escolhas, dedicações... outro som não tem
Já, senão este do jardim doloroso

E nobre, em que obstinado o engano
Que serenava a vida permanece na morte.
Nos cercos dos sarcófagos não fazem

Senão mostrar a sobrevivente sorte
De gente laica de laicas inscrições
Nestas cinzentas pedras, curtas

E imponentes. Ainda de paixões
Desenfreadas sem escândalo são queimados
Os ossos dos milionários de nações

Mais potentes; zumbem, quase nunca ocultas
As ironias dos príncipes, dos pederastas,
Cujos corpos nas urnas espalhados

Incinerados e ainda não castos.
Aqui o silêncio da morte é fé
De um civil silêncio de homens ainda

Homens, de um tédio que no tédio
Do parque, discreto muda: e a cidade
Que, indiferente, o confina no meio

De tugúrios e igrejas, ímpia na piedade,
Perde o seu esplendor. A sua terra
Gorda de ortigas e legumes dá

Estes magros ciprestes, esta negra
Humanidade que mancha os muros em torno
De pálidos vestígios de buxo, que a tarde

Serenando extingue em desadornados
Indícios de alga... esta erva magra
E inodora, onde violeta se precipita

A atmosfera, com um arrepio de hortelã,
Ou feno podre, e serena voz anuncia
Com diurna melancolia, a apagada

Trepidação da noite. Rude
De clima, dulcíssimo de história, está
Entre estes muros o solo onde transpira

Outro solo; este húmido que
Recorda outro húmido; e ressoam
- familiares de latitudes e

Horizontes onde selvas inglesas coroam
Lagos dispersos no céu, entre pradarias
Verdes como fosfóricos bilhares ou como

Esmeralda: “Ande O ye Fountains...” as pias
Invocações...

III

Um lenço vermelho, como o
Que trazem ao pescoço os partigiani
E, junto à urna, sobre a terra de cera,

Diversamente vermelhos, dois gerânios,
Aqui estás tu, exilado e com dura elegância
Não católica, alinhado entre estranhos

Mortos: as cinzas de Gramsci... entre esperança
E velha suspeita, me aproximo, vindo
Por acaso a esta seca estufa, frente

Ao teu túmulo, ao teu espírito que ficou
Aqui entre estes homens livres. (Ou é algo
De diverso, talvez de mais extasiado

E também de mais humilde, ébria simbiose
Adolescente de sexo com morte...)
E, deste país, onde não teve pausa

A tua tensão, sinto qual sem-razão
- aqui no silencia dos túmulos – e juntos
Qual razão – na inquieta sorte

Nossa – tu tivesses, escrevendo as supremas
Páginas nos dias do teu assassínio.
Eis aqui a atestar o sêmen

Ainda não disperso do antigo domínio,
Estes mortos ligados a um possuir
Que afunda nos séculos a sua aversão

E a sua grandeza: e juntos, furioso,
Como vibrar de bigornas, em surdina,
Sufocado e aflito – do modesto

Bairro – a atestar-nos o fim.
E eis-me aqui a mim próprio.... humilde, vestido
Com os panos que os pobres admiram nas montras

Com rude esplendor, e que distinguiu
A sujidade das mais dispersas estradas,
Dos assentos dos elétricos, dos quais estrangeiro

É o meu dia: enquanto sempre mais vigiadas
Tenho destas férias, no tormento
De manter-me em vida; e se me ocorre

Amar o mundo é só por violento
E ingênuo amor sensual
Assim como, confuso adolescente, outrora

O odiei, se nele me feria o mal
Burguês de mim burguês: e agora, fendido
- contigo – o mundo, motivo não ocorre

De rancor e quase de místico
Desprezo, a parte que dele tem o poder?
E todavia sem o teu rigor, subsisto

Porque não escolho. Vivo no não querer
Do naufragado pós-guerra: amando
O mundo que odeio – na sua miséria

Orgulhoso e perdido – por um obscuro escândalo
Da consciência...

IV

O escândalo de me contradizer, de estar
contigo e contra ti; contigo no coração,
à luz do dia, contra ti na noite das entranhas;

traidor da condição paterrna
- em pensamento, numa sombra de acção –
a ela me liguei no ardor

dos instintos, da paixão estética;
fascinado por uma vida proletária
muito anterior a ti, a minha religião

é a sua alegria, não a sua luta
de milénios: a sua natureza, não a sua
consciência; só a força originária

do homem, que na acção se perdeu,
lhe dá a embriaguez da nostalgia
e um halo poético e mais nada

sei dizer, a não ser o que seria
justo, mas não sincero, amor abstracto,
e não dolorida simpatia…

Pobre como os pobres, agarro-me
como eles a esperanças humilhantes,
como eles, para viver me bato

dia a dia. Mas na minha desoladora
condição de deserdado,
possuo a mais exaltante

das poses burguesas, o bem mais absoluto.
Todavia, se possuo a história,
também a história me possui e me ilumina:

mas de que serve a luz?

V

Não digo o individuo, o fenômeno
Do amor sensual e sentimento...
Outros vícios possui, outro é o nome

E a fatalidade do seu pesar...
Mas nele amassados quais comuns,
Congênitos, vícios, e qual

Objetivo pecado! Não são imunes
Os internos e externos atos, que o tornam
Incarnado à vida, por nenhuma

Das religiões que na vida existem,
Hipoteca de morte, instituídas
Para enganar a luz, para dar luz ao engano.

Destinados a serem sepultados
Os seus despojos no Verano, é católica
A sua luta com ele:  jesuíticas

As manias com que dispõe o coração;
E ainda mais dentro: tem bíblicas astúcias
A sua consciência... e irônico ardor

Liberal... e tosca luz, entre os desgostos
De dandy provinciano, de provinciana
Saúde... até às últimas minúcias

Em que se esfumam, no fundo animal,
Autoridade e anarquia... bem protegido
Por impura virtude e por ébrio pecar,

Defendendo uma ingenuidade de possesso,
E com que consciência! Vive o eu: eu,
Vivo, iludindo a vida, tendo no peito

O sentido de uma vida que é olvido,
Amargo, violento... Ah! Como
Compreendo, mudo no pobre sussurro

Do vento, aqui onde muda é Roma,
Entre ciprestes cansadamente perturbados,
Junto a ti, a alma de cujo grafito soa
Clareiras de erucas, onde dorme

Com o membro inchado entre farrapos de um sonho
Goethiano, o jovem camponês...
Na Maremma, escuras, estupendas fossas

De plantas em que se estampa clara
A aveleira, atalhos que o pastor
Desde a juventude percorre ignaro.

Cegamente fragrantes nas secas
Curvas da Versilla, sobre o mar
Emaranhado, cego, os tersos estuques
Shelley... como compreendo o vórtice
Dos sentimentos, o capricho (grego
No peito do patrício, nórdico

Viajante) que absorveu no oculto
Celeste do Tirreno; a carnal
Alegria da aventura, estética

E pueril> enquanto prostrada a Itália
Como dentro do ventre de uma enorme
Cigarra, se abre em brancos litorais,

Espalhados no Lácio por velados bandos
De pinheiros, barrocos, por amarelentas
Os mosaicos libertos da sua pascal
Campanha inteiramente humana,
Expõem-se, como sombra sobre Cinquale,

Estendidos sob as tórridas Apuanas,
Os azuis vítreos sobre rosa... escolhos,
Terras soltas, dispersos, como por um pânico

De fragrância, na Riviera, húmida,
Inclinada, onde o sol luta com a brisa
Para dar suprema suavidade aos óleos

Do mar... e em torno sussurra de alegria
O imenso instrumento de percussão
Do sexo e da luz: assim habituada

É a Itália que não treme, como
Morta na sua vida: gritam
De centenas de portos o nome

Do companheiro os jovens suados
No moreno das faces, entre a gente
Da riviera, junto ás hortas de cardos,

Em sórdidas praias...

Pedir-me-ás, tu, morto desadornado
Que abandone esta desesperada
Paixão de estar no mundo?

VI

Vou-me embora, deixo-te na tarde
Que, embora triste, tão doce desce
Para nós viventes, com a luz de cera

Que à cidade em penumbra se condensa.
Agita-a. Fá-la maior, vazia,
Em torno, e, mais ao longe, reacende-a

De uma vida ansiosa que do cavo
Rumor dos elétricos, dos gritos humanos,
Dialectais, faz um concerto rouco

E absoluto. E sentes como nos longínquos
Seres que, em vida, gritam, riem,
Nos seus veículos, dos doloridos

Casarios onde se consuma o infiel
E expansivo dom da existência –
Aquela vida é apenas um calafrio;

Corpórea, coletiva presença;
Sentes a falta de qualquer religião
Autêntica; não vida, mas sobrevivência

- talvez mais leda que a vida – como
De um povo de animais, em cujo arcano
Orgasmo não há outra paixão

Que para operar cotidiano:
Humilde fervor que dá um sentido de festa
A humilde corrupção. Quanto mais é vão

- neste vazio da história, nesta
Ruidosa pausa em que a vida emudece –
Cada ideal, melhor é manifesta

A estupenda, adusta sensualidade
Quase alexandrina, que tudo reduz
E impuramente acende, quando aqui

No mundo algo desaba, e se arrasta
O mundo, na penumbra, reentrando
Em vazias praças, em desesperadas oficinas...

Já se acendem as luzes, iluminando
A rua Zabaglia, a rua Framklin, o inteiro
Testaccio, desadornado entre o seu grande

Sórdido monte, as marginais do Tibre, o negro
Do fundo, para além do rio, que Monteverde
Concentra ou esfuma invisível sobre o céu.

Diademas de luzes que se perdem,
Brilhantes e frias de tristeza
Quase marinha... é quase hora do jantar;

Brilham os raros autocarros do bairro,
Com cachos de operários à janela,
É isto que me desespera e me tem fora do jogo.
E grupos de militares vão, sem pressa

Para o monte que oculta no meio de aterros
Infectos e montes secos de resíduos
Na sombra, escondidas colunas

Que esperam irosas sobre a sujidade
Afrodisíaca; e, não longe, entre casas
Abusivas nas margens do monte, ou no meio

Dos edifícios, quase à solta, rapazes
Ligeiros como trapos jogam à brisa
Já não fria, primaveril; ardentes

De distração juvenil, a romanesca
Sua tarde de Maio, escuros adolescentes
Assobiam pelos passeios, na festa

Vespertina; e rumorejam as portas
Das garagens de repente, alegremente,
Se o escuro tornou serena a tarde,

E no meio dos plátanos da Praça Testaccio
O vento que cai em tremor de tufão
É bem doce, ainda que, ao roçar os telhados

E os tufos de Matadouro, se embeba
De sangue podre, e por toda a parte
Agite resíduos e odor de miséria.

É um sussurro a vida, e os homens perdidos
Nela perdem-na serenamente
Se o coração têm cheio: a gozar

Ei-los, míseros, a tarde: e potente
Neles, inermes, por eles, o mito
Renasce... mas eu, com o coração consciente

De quem apenas na história tem vida,
Poderei alguma vez com pura paixão operar,
Se sei que a nossa história é finita?


PIER PAOLO PASOLINI – O cineasta italiano Pier Paolo Pasolino (1922-1975) também foi escritor, jornalista e professor. Formado em Literatura pela Universidade de Bolonha, pertenceu ao Partido Comunista Italiano combatendo o Fascismo. As cinzas de Gramsci escrito em 1954, que foi publicado pela primeira vez em uma coletânea homônima de 1957 sob a responsabilidade da editora italiana Garzanti, trazendo a profunda inquietação do poeta acerca dos meios expressivos capazes de dar forma literária à representação do povo.


REFERÊNCIA
PASOLINI, Pier Paolo. Poemas. Assírio & Alvin, 2005.
SIMÕES, Manuel. Pasolini, poeta. Lisboa: Plátano, 1978.


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