DELA,
O RETRATO FALADO - Ao beijar
seus lábios tímidos, ela sussurrou seu nome: Geneviève. Em Oslo apalpei seus fartos
seios e era Claudia: cada um deles, um sobrenome diferente. Em Trondheim agarrei seu sexo e era Alexia rendendo-se
selvagem às minhas investidas. Ao desnudá-la em Paris era Fenella a rodopiar
irresistivelmente extasiada. Em Bruxelas tomei-lhe as costas e, encostando-se em
decúbito dorsal, lambi sua nuca eriçada e levantei sua saia: era Vera - em cada
uma de suas nádegas, um patronímico destacado. Ao tê-la gemendo no ápice do
gozo, indaguei quem era, afinal, respondeu-me sussurrante em Genebra: Sou
Elisabeth Leenhouwer. E foi tantas outras com cognomes incomuns: Lancier aos
amanheceres de Estrasburgo, Tielt ao meio dia de Frankfurt, Velding entardecida
na Basileia, Selling ao anoitecer de Stavanger, Zarne-Merchez aos madrugares de
Bergen. Dela, apenas o retrato falado: a misteriosa sedutora Mulher de Isdal. Veja
mais abaixo e mais aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS
Ninguém sabe certo quanto o tempo passa
(alguns desmaiadores). E isso é que torna uma aventura (a jornada) única,
singular, a cadacada... Exister é estar conectado. Os nossos parceiros de
férias e as nossas reveladoras. São os meios que são como ossos e os seres,
como os elementos de um todo que se articulam. Definir como somos de
emparelhamento, por ação, combinação de carvão, ressonância, dissonância,
disjunção ou ruptura. Pode ser vímbrocos, drenando energia e consumindo tempo;
mas nutritivos, revigorantes e ferteis... Habitar este mundo e começar a partir
de um lugar, mas um lugar do qual aprende-se a nos desapegar para conectá-lo a outros
lugares. Aprender ao nosso para habitar e desvincular um espaço de marido... Quando
a alegria do amor é sentida apenas de forma intermitente, e o que resta é
remorso, culpa e medo de ossos desabando, é hora de emigrar hábitos para outra
ação, alguma região deste país, que é o Amor...
Pensamento do escritor, músico e acadêmico
senegalês, Felwine Sarr.
ALGUÉM FALOU:
A sombra leva as comunidades ao conflito, impele as pessoas a fugir de suas
terras natais. Quando o tempo tiver passado e muitas luas tiverem se sucedido,
quem guardará a memória de todos esses deslocamentos? Em Bebayedi, gerações
ainda não nascidas saberão que seus antepassados tiveram de fugir para se
salvar de predadores. Saberão por que aquelas cabanas são construídas sobre os
riachos. Ouvirão dizer: a loucura tomou conta do mundo, mas algumas pessoas se
recusaram a viver na escuridão. Vocês são os descendentes daqueles que disseram
não à sombra...
Pensamento da escritora camaronesa, Léonora Miano, autora de
obras como L'Impératif transgressif (2016), Red in blue trilogie
(2015), La saison de l'ombre (2013), Habiter la frontière (2012),
Ecrits pour la parole (2012), Ces âmes chagrines (2011), Blues
pour Elise (2010), entre outros.
CRÍTICA DA RAZÃO NEGRA – [...] Na economia do biopoder, a
função do racismo é regular a distribuição de morte e tornar possível as
funções assassinas do Estado [...] deixava de ser dotada somente de força própria,
para ser a unidade de base de uma história movida [...] por forças
surgidas apenas para aniquilar outras forças, numa luta de morte cujo desenlace
só pode ser a liberdade ou a servidão [...] estado de raça correspondia,
assim se pensava, a um estado de degradação e uma defecção de natureza
ontológica. A noção de raça permitia representar as humanidades não europeias
como se tivessem sido tocadas por um ser inferior [...]. Trechos extraídos da
obra Crítica da Razão Negra (N-1, 2013), do filósofo, cientista
político, historiador e professor camaronês, Achille Mbembe (Joseph-Achille
Mbembe), na qual desenvolveu estudo crítico sobre questões do
eurocentrismo, descrevendo um processo de tomada de consciência que mobiliza
críticas à centralidade do pensamento europeu tanto nas produções científicas
quanto filosóficas. Nesta obra ele destaca a necessidade de redirecionar a visão
para o que existe além do continente europeu e do Ocidente, rompendo com a
noção de “universal” empreendida pela Europa. Para ele razão negra é um conceito
que carrega muitas ambiguidades e polêmicas, sendo usada
para designar diversas coisas, entre elas: “imagens
do saber; um modelo de exploração e depredação; um paradigma da submissão e das
modalidades da sua superação, e, por fim, um complexo psiconírico”. Além disso, ele destaca que o nome “Negro” assinala “[...] uma
série de experiências históricas desoladoras, a realidade de uma vida vazia; o
assombramento, para milhões de pessoas apanhadas nas redes da dominação de
raça, de verem funcionar os seus corpos e pensamentos a partir de fora, e de
terem sido transformadas em espectadores de qualquer coisa que era e não era a
sua própria vida”. Veja mais aqui, aqui & aqui.
REI PÁLIDO - [...] Ser, numa palavra, imune ao tédio... Essa é a chave para a vida moderna. Se
você é imune ao tédio, literalmente não há nada que não possa realizar. [...] Com a próxima pessoa adequada com quem você
estiver conversando descontraidamente, pare de repente no meio da conversa,
olhe atentamente para ela e pergunte: "O que houve?" Diga isso com um
tom de preocupação. Ela perguntará: "Como assim?" Você dirá:
"Tem algo errado. Dá para perceber. O que é?" E ela ficará atônita e
dirá: "Como você sabia?" Ela não se dá conta de que sempre há algo
errado com todo mundo. Muitas vezes, mais de uma coisa. Ela não sabe que todas
as pessoas andam por aí o tempo todo com algo errado, acreditando que estão
exercendo grande força de vontade e controle para impedir que os outros — para
quem parece que nunca nada está errado — percebam isso. [...] O
verdadeiro heroísmo consiste em minutos, horas, semanas, ano após ano, de
exercício silencioso, preciso e ponderado da probidade e do cuidado — sem
ninguém por perto para ver ou aplaudir. Eis o mundo. [...]. Trechos extraídos da obra The Pale King (Little Brown and
Company, 2011), do escritor e professor estadunidense David Foster Wallace
(1962-2008), autor de obras como This Is Water: Some Thoughts, Delivered on
a Significant Occasion, about Living a Compassionate Life (2009), Consider
the Lobster and Other Essays (2005), Up, Simbal!: 7 Days on the Trail of
an Anticandidate (2000), A Supposedly Fun Thing I'll Never Do Again:
Essays and Arguments (1997) e Infinite Jest (1996). Veja mais aqui.
DOIS POEMAS - UM POEMA – Uma carta é um
beijo é a foto de uma noiva \ num vestido verde-escuro, era assim que a amiga
da minha amiga \ a imaginava, isso a fazia feliz \ e eu estico as pernas numa
cadeira velha e \ penso na palavra inconstante que outra amiga, agora \ falecida,
tanto amava, e de repente me dá saudade de casa, \ mas não saudade de casa , e
sim uma profunda saudade de \ intimidade, que se assemelha, acima de tudo, \ a
uma criança de três anos, numa \ conexão mágica com aqueles que ama, uma só
carne, \ um só organismo, veja a criança radiante ali \ no colo, feliz, feliz, \
satisfeita. OUTRO POEMA – Existe
essa ilusão de que o luto é algo bonito e limpo. \ Não é. \ É mais como um
animal selvagem. \ Como uma dor que você nunca imaginou ser possível... Poemas da da escritora
dinamarquesa Naja Marie Aidt. Veja mais aqui.
A festa é dela
e pra ela & ela com todas elas:
A poesia da vida!...








