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sexta-feira, fevereiro 17, 2017

CATHERINE NOLIN, TIBÉRIO GASPAR, MARCOS REY & HELENA RAMOS, PARAÍSO DO AMOR & LUCIAH LOPEZ

Veja a Fanpage aqui , os vídeos aqui e os textos  aqui

SOOU A VIDA O PARAÍSO DO AMOR – Imagem: foto/arte da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez. - Jamais soubera a vida depois de tantos tormentos, possível fosse amar outra vez naquela manhã de dezembro, ao vê-la rosa dos ventos em plena aracê-poronga surgir ornada de poemas e flores de todos os matizes, a descer tal caá-iari do tope azul do Marumbi a me dizer Muna, xuma xô. Ah, tantó manacá jurucê, afilhada do Peruda com sua face mimosa na brisa da alvorada, vamos sim, vem comigo cairé, catiti, olhos vivos de bússola pra minha desorientada travessia e com o seu riso de Sol a me dar o que nem mereço de tão bom por todos os pontos cardeais. Às suas mãos estendidas eu voo abraço amante de cunhã caingangue, como quem foi enfeitiçado na tarde ensolarada do céu límpido de seu jeito deusa-índia, a recitar versos apaixonados por quem bate meu coração caeté andarengo, deserdado do mundo e abrigado na sua carne carijó, pra ser seu abá iba na nossa quiçaba. Vou ao seu chamamento como marujo insone ao encanto das sereias, pra ver-me navio perdido nas rotas de suas águas que brotam da cascata rumorejante do seu ventre apetitoso, a ver-me estendido nas terras perdidas do seu rincão e de alma lavada por seus beijos e afagos, ajoelhada à beira de límpido e murmurante regato que divisa as escarpadas serranias, a fazer de mim sua cobaia no reino das suas explorações e a prover da sua fartura na ventura do entardecer, como se eu fosse o escolhido entre todos e o meu sexo fosse o seu talismã, a sua salvação. Assim me doou e sou dela ao tê-la minha escrava e criatura na noite perfumada pelas coloridas e delicadas flores da quaresmeira, a me dizer aos sussurros carinhosamente xê pocê o quê. Sim, eu vou e soou a vida preu ir procê dormir e acordar ao prazer de amar e fazer nocê o paraíso do amor. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aquiaqui.

 Curtindo os álbuns Caminhada (Kriok, 2014) e Tibério Gaspar canta (Independente, 2002) do amigo violonista, compositor e produtor musical Tibério Gaspar (1943-2017).

Veja mais sobre:
O cis, o efêmero & eu aqui.

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Cancioneiro da imigração de Anna Maria Kieffer & Ecologia Social de Murray Bookchin aqui.
A poesia de Sylvia Plath & a Filosofia da Miséria de Proudhon aqui.
Antonio Gramsci & Blinded Beast de Yasuzo Masumura & Mako Midori aqui.
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DESTAQUE: PATTY, A MULHER PROIBIDA
O longo metragem Patty, a mulher proibida (1979), um filme do escritor e cineasta Marcos Rey dirigido por Luis Gonzaga dos Santos, conta a história de um anão influente e rico que comanda um programa de TV e é assediado por uma belíssima vedete disposta a tudo para se tornar uma estrela. Com a ajuda do seu secretário que é um escritor fracassado e ex-militante socialista, o anão consegue atrair a estonteante mulher pra sua casa, quando ocorre a vingança do subalterno que vê seu patrão no afã de salvar a beldade, morrer afogado na piscina. O destaque do filme fica por conta da voluptuosa beleza da atriz Helena Ramos, a musa da pornochanchada. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
____Ah, tristes mulheres que nascem e morrem sem saber o que é ser fêmea!
Sem saber o que é esse mistério que acende e faz arder corpo e alma.
Ah, tristes mulheres presas em corpos inertes acalentam homens sem sonhos e sem brio.
Eu não sou triste______sou fêmea!
Sou fêmea quando me vejo em seus olhos mulher sua que sou_______sou fêmea sua que aos seus carinhos se entrega e no seu prazer se realiza como mulher!
___Ah, feliz de mim, que sou sua mulher!
Fêmea/Mulher, poema/imagens da poeta, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Peace, art by Catherine Nolin
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.


segunda-feira, março 14, 2016

ESCÂNDALO DO COROINHA


ESCÂNDALO DO COROINHA

Luiz Alberto Machado

Uma máquina de calcular disparava somas abundantes em fitas quilométricas que serpenteavam pelo piso da repartição durante o fechamento do expediente que fora, naquele dia, dos mais exaustivos. Pelo volume que fazia pelos cantos do estabelecimento, parecia mais uma decoração de festa carnavalesca ou de virada de ano. Parecia, mas não era, pois dia de branco, de trabalho duro. Numa mesa, acompanhando a dinâmica do ambiente, os dedos se confundiam no teclado de quase se embaralharem com a habilidade do executor que não desgarrava um só segundo dos seus afazeres. Os documentos mais se espalhavam principalmente por haver se enquadrado, justo naquela segunda-feira, o último dia do mês, no maior vavavu, quando os contribuintes dos diversos impostos e contas a pagar, haviam acorrido maciçamente às filas para saldar seus compromissos. Uma farta papelada se amontoava sobre os guichês, birôs e balcões de forma tumultuada. Um punhado de papéis desordenados em vias de arrumação relacionados aos slips, documentos, caixa, extra caixa, taxas, cheques, transferências, canhotos, contas mortas, cadastros, boletins, ordens de pagamento, sustações, implantações, listagens, diários, planilhas, todos numa balbúrdia geral, ganhavam, ali, metodicamente, disposições ordenadas e minuciosamente selecionadas por um funcionário que arrolava aquilo segundo sua categoria funcional na burocracia interna da instituição. Cada formulário representava uma transação, ou uma quitação, ou uma reclamação, ou implantação, ou uma corrigenda, ou coisa que valha, atendendo os interesses da clientela. As bobinas das máquinas, por isso, desdobravam-se ao lado de papelada vária, formando aquelas serpentinas por toda repartição. Não que se aproximasse das festividades carnavalescas, como dissera, era que era muito serviço mesmo, na última hora, no momento em que todos se apressavam para largar do expediente, ávidos por se esgueirar pela noite ao descanso noturno, ou aos encontros, aos desencontros, às futilidades ocasionais. As de escrever sincronizavam-se ao trinado dos telefones, campainhas, registradoras, tossidas, pigarros, alardes, esparros, cuspidas, engasgos, tudo num buliçoso ruído, levantando um barulho exclusivo, uma barulhada presa pela vedação das portas e dos condicionadores de ar. Quem passava pelo lado de fora, nem dava conta da turba rumorosa que se sucedia ali. E ali, diligentemente e alheio ao clima de guerra, Zé Targino separava um a um os formulários espalhados sobre a sua mesa, arranjando-os aos montinhos organizados, em colunas ajeitadas, cada qual, ao tipo e espécie, entre si. Apesar da heterogeneidade dos formulários, todos obedeciam rigorosamente uma ordem ao seu análogo de registro, uns aos outros enfileirados, grampeados e, por conseguinte, separados dos ainda por averiguar. Era este um ritual sacrossanto para aquele funcionário que realizava com prazer desmedido seus afazeres, satisfeito por se encontrar muito bem empregado, justo ele que passara pelas aperturas estreitíssimas das necessidades e as inférias da pobreza, tendo agarrado pelos cornos esta oportunidade, velando como se fosse a única salvação para sua sobrevivência. Ufa! - exclamava ao se lembrar de passado tão recente. Por isso era rigoroso consigo mesmo e caxia com todos. Deus que o livrasse de perder aquele emprego, não podendo passar de novo por todo aquele infortúnio da carência, da ansiedade, da impotência de fazer e ter as coisas que precisasse e, por isso, rezava sempre em agradecimentos nas mais calorosas preces. Terminada a adição, por exemplo, o cauteloso extraia uma segunda soma adicional para confronto, na prova dos nove, conferindo, certificando-se da exatidão do resultado. E anexando-a ao lote arrumado, todo em número de cem, perfilados e grampeados com uma habilidade peculiar àqueles empregados exemplares, ciosos de seu ofício e atribuído de uma competência cabal, com tudo bem arrumadinho. Targino, um exímio manipulador de teclas, destro de seus afazeres, hábil em cumprir suas responsabilidades, não se cansava. Para ele, aquele empreendimento possuía um rigor inarredável, não se permitindo erros, embaraços ou desatenções. Era fiscal dele próprio e dos outros. Metódico, irredutível. Assim agia em tudo que se determinasse fazer. Se fosse para sacar um cheque, se apropriava do talonário elegantemente acomodado em sua carteira impecável; desdobrava a folha, limpando-a com o polegar, no mínimo, umas dez vezes, sem afobamento, antes de iniciar a escrita. Tudo dele era feito com muita consciência evitando arrependimentos. Após tal cerimônia, começava a escrever na folha com uma caligrafia engenhosa e bem desenhada, sempre pelo valor em números manuscritos em algarismos arábicos, de forma arredondada, não desprezando nenhum centavo e fiscalizando-os sob a comparação com o valor expresso por extenso, reconferindo palavra por palavra a cada número de cruzeiros correlatos, checando, finalmente, a exatidão da importância requerida. Ainda mais, nominava a si próprio ou a outrem, nunca emitindo nada ao portador, apondo, pacientemente, o local e data e, finalmente, exibindo uma assinatura caprichada, cheia de meneios e contornos, rente a linha da ordem de crédito a vista correspondente. Concluindo, pois, anexando na folha sacadora as contas pagáveis e exagerava na formalidade ao solicitar dos colegas a respectiva autenticação mecânica. Menor não era a zombaria de todos mediante tal solenidade, gerando gracejos insolentes que sucederiam até a dispersão dos colegas no final do expediente.

- Esse coroinha é cheio de pantim, cheio de munganga, rárárárárá!

Era ele assim, fruto rotineiro de piadas e comentários maledicentes. Assim mesmo, exatamente, fielmente autenticado por qualquer pessoa que tivera a oportunidade de conhecê-lo. Esta descrição corresponde fotograficamente, cagado e cuspido, como era Targino, funcionário exemplar, dedicado, carola, vaidoso, xodó da mãe e irmão de três trepeças que indignavam sua honradez e a própria família. O que possuía ele de santidade católica, os irmãos traduziam em demoníacas atitudes sempre se confrontando com a sua gabolice. Como exemplo ainda mais amplo de sua conduta ilibada, veja-se que o expediente da instituição onde trabalhava, iniciava as atividades de segunda à sexta, sempre às oito da manhã e, já por volta das sete em ponto, Targino estava ali, distinto, arrumando a mesa, limpando máquinas, batendo correspondências, somando valores e adiantando o serviço. Ninguém se lembra até hoje de haver registrado qualquer falta ou atraso dele ao trabalho nos últimos dezesseis anos, tratando-se, assim, de um pontualíssimo servidor, nem inglês. Afora isso, quando largava do banco, esgueirava-se à sua residência, onde se dirigia para o quarto, se despia calmamente, envolvendo-se numa toalha para um banho demorado, não antes haver se prostrado em oração nos agradecimentos aos santos de sua devoção por mais um dia cumprido e pela manutenção de seu labor diário naquela agência.

Segundo relato amiudado de um de seus irmãos, a demora dele no banheiro se dava pela fiscalização atenta em cada parte do corpo, não se permitindo o menor alojamento de grude. Um outro irmão seu, mais despudorado, alegava que ele passava horas e horas lavando o cu e a remover o fedor de bosta do ânus, odor este que ele detestava, repugnando a criação de um procto, numa imagem e semelhança de Deus. Por isso, era todo tipo de shampoo, sabonete, perfume, colônia, essências, seivas, tudo para deixar o furico dele cheirosinho.

- Se Deus é perfeito, a única imperfeição humana é o ânus, prova que Deus por ser santo não possui orifício tão abjeto, ige! -, sabia ele.

Pois bem, fuxicos a parte, banho tomado, se aboletava na mesa, manipulando bem os talheres a ponto de não se ouvir o mais inaudível barulho de sua parte. Denunciavam seus irmãos, ser ele uma bicha enrustida e cheia de trique-trique pelo fato dele, elegantemente, ingerir a comida, saboreando cada iguaria engolida, mastigada lenta e devidamente triturada para não danificar o seu metabolismo orgânico, num trabalho elegante da mandíbula, quando seus irmãos se apropriavam sujos, mãos podres, das guloseimas da mesa. Enquanto Targino estava sempre a limpar a boca com um guardanapo comprado com o seu salário, não permitindo que ninguém se apossasse de tão importante acessório para assepsia pessoal, os outros arrochavam a toalha da mesa para remover retraços de alimentos que figuravam dos cabelos até a caixa dos peitos, tudo enfeitado de fiapos de comidas, grãos, restos. Após a ceia, enquanto seus irmãos arrotavam, peidavam e lascavam um taco de madeira qualquer para tirar o que tivesse enganchado nos dentes, Targino escovava demoradamente e, depois, um fio dental removia detritos alimentares alojados na sua arcada dentária, enxugando o rosto com uma toalha felpuda. Esmeradamente, conduzia-se para o quarto onde trajava uma camisa bem engomada, ensacada por dentro da calça igualmente com vinco impecável. A fivela do cinturão acompanhando a estética da braguilha, o mesmo se dando com a linha dos botões da camisa, alinhado assim do colarinho às meias que combinavam com o listrado da peça do vestuário masculino até o lenço. O cabelo pixaim, delicadamente repartido da esquerda para a direita, bem arrumadinho com uma trunfa de lembrar os topetes audaciosos. Um perfume exalando aroma forte para dar-lhe um impacto perante outros fedorentos. E, por fim, completando a indumentária, uma bíblia socada no sovaco para se iluminar nos caminhos da religião. Pisando forte, saía deixando o aroma forte por onde passasse. Nascia, contudo, uma nova gozação.

A missa nem começara e ele já ali, coroinha aplicado, papa-hóstia, beato de marca maior, arrumando o altar, os cálices, os paramentos e ajudando o vigário a subir os degraus, enfatizando-se durante a liturgia afora com ave-marias, pai-nosso, creio-em-Deus-pai, hozana-nas-alturas, salve-raínha, anjos-do-senhor, os dez mandamentos, o ato da fé, da caridade, da esperança e da contrição, aleluias e orações, obedecendo, sem pestanejar, o congraçamento católico. Assim se dera desde tenra idade quando sua mãe obrigava-o a ir todos os dias para igreja mode não se perder em mau caminho nem se misturar aos outros da rua, ditos diabinhos do mundo pela doce e santa boca maternal. Dessa forma era a sua vida: o expediente no banco, os rituais católicos e as leituras obrigatórias dos livros sagrados da santa igreja. Seu intento maior era conseguir alcançar o absoluto cordeiro de deus, capaz de propagar a fé, exemplo de bom samaritano, filho do senhor, irmão de Jesus e guiado pelo Espírito-Santo. É certo que ninguém é perfeito, tanto que na instituição onde ele desempenhava suas aptidões profissionais de escriturário júnior, quando era importunado por alguma solicitação ou colaboração para os colegas, desleixava um não categórico, seguido de uma ordem do vagabundo procurar emprego para se sustentar, que ele não era pai de gato barbado. Ou mesmo se algum companheiro seu propusesse certa quantia em dinheiro a título de empréstimo, o seguidor inarredável da dogmática cristã negava peremptoriamente, alegando não ser nenhuma instituição de crédito que dispusesse de empréstimos assim tão abertamente, nem tampouco solidificaria a caridade pública para um incréu ingresiento que jamais saldaria a dívida. No entanto, quando, fato muito raro, cedesse às imprecações do solicitante, deveria incidir na quantia requerida alguns percentuais a mais na compensação do resgate para o dia marcado. Ou seja, agiotava na baixa, discretamente. E justificava ao seu coração ou nas orações nos pés dos santos que cobrava tais juros para dificultar a preguiça alheia de trabalhar, não fomentando a miséria pública que andava grassando na sua comunidade. Tratava, então, ele os miseráveis como uns vagabundos destroçados, incapazes de se ocupar em alguma coisa para mudar sua vida. Negava-se sempre a dar esmolas ou donativos vez que dizia viciar qualquer cidadão, fato apreendido ao ouvir uma música de Luís Gonzaga, pois que detestava ter que passar por favelas, ruas sem saneamento básico, bairros maltrapilhos, cadeias, asilos, ou por onde se amontoasse gente esquálida, decrépita e esfomeada. Pior ainda: ficava encolerizado quando aparecia um padre socialista que levava aquela gente maltrapilha e fedorenta para a casa do santíssimo. - Uma ofensa! -, questionando a atitude daquele padreco, muito diferente do vigário, todo moderninho e com umas ideias comunistas na missa. As gozações às suas atitudes de escorropicha-galhetas se generalizavam. Referiam-se a ele como sendo um filho do padre, enteado do bispo, sacristão deslavado, beato de merda, entre outros cognomes infamantes. Defendia-se sob a alegação de uns por inveja, outros por incredulidade. E enfrentava as suas adversidades com a firmeza dos fiéis: incólume.

Até então ninguém soubera de namorico, enxerimento, safadeza, libidinagem, despudor ou falta de respeito dele com qualquer mocinha da cidade. Eremita que era, dispensava o prazer da carne seguindo o ditame de um verdadeiro asceta na resignação do deleite. Isso, talvez, pela sua determinação para se tornar um verdadeiro padre no futuro. Houve quem dissesse até, fato inclusive avalizado por um de seus irmãos que, às escondidas, ainda hoje ele se atém com revistinhas de mulheres peladas. Eita! Dúvidas na sua abstinência, areia na sua castidade. Esse zunzunzum tomou grandes proporções chegando aos ouvidos do titular paroquiano que, investido de tamanha ira, derramou admoestações ao noviço para seguir o bom comportamento e a conduta com a retidão de sempre.

- O proibido aguça o dente! –, sentenciou o pároco, não aliviando no esparro de deixá-lo confuso quanto à santidade do reclamante. Entretanto, os comentários a seu respeito mais granjeavam antipatias nos asseclas, mormente outro de seus irmãos confidenciar a tímpanos vários que, vez por outra, ao sair do banheiro, Targino deixava vestígios de um líquido viscoso nos azulejos, espirrado na parede, no teto, na tampa da bacia sanitária ou mesmo noutros lugares irreconhecíveis, levantando suspeita de que andara secretamente se masturbando. Bruta celeuma. Destá.

Entre o banco e a igreja se dedicava o devoto, até que um dia, resolvera matricular-se numa faculdade, tencionando formar o corpo discente do curso de História, onde se habilitaria a perseguir seus intentos religiosos, ampliando o seu conteúdo intelectual. Lá, coitado, se defrontava com verdadeiros atos de perdição, insistindo aos ímpios colegas, a conversão ao mundo religioso e à fé cristã, corrigindo atos pecaminosos e para longe das trilhas do inferno, alcançando, finalmente, o caminho único da verdade, levando-os ao céu e à presença dos santos e arcanjos. Seus discursos enérgicos tornavam-se invariavelmente ridículos, a ponto extremo tal de instigarem o professor da cadeira de História Geral, a uma aula detalhada sobre o catolicismo. O negócio fedeu para as bandas do Targino, cada vez que se abordava a santíssima inquisição, as atrocidades, as vendas dos cargos eclesiásticos, as indulgências, fatos que ele se arrepiava todo, irado. Escândalo maior quando lhe presentearam um livro de certo filósofo por nome de Bertrand Russel que arreava a ripa sobre a sua religião, num opúsculo denominado “Porque não sou cristão”. Revoltado com aquela presepada, saíra da aula embaixo dos maiores apupos que se conhecera naquele educandário. Viu-se perdido, vilipendiado. Sentou-se num banco da praça próximo ao restaurante universitário, condoído, puto da vida como nunca! Tentando se recompor, matutou sobre tudo que ouvira naquela sala de aula, contada pelo fariseu do professor. Condenou-se por não ter tido o tino de defender a sua santa casa que, naquela ocasião, estava sendo seviciada e maculada por um bocado de fajutos intelectuais de merda, maloqueiros anticristos, cretinos safados. Respirou fundo por horas e horas, sentado naquele banco para livrar-se da humilhante situação em que se metera. Verdadeiramente vexatória. Foi aí que surgiu do inopinado a figura cândida e altaneira de Marinícila, roubando suas elucubrações. Sem querer, olhou para a mulher e um novo momento invadiu seus pensamentos, descobrindo que, na verdade, aquela mulher combinara com ele: o porte idêntico, a altura, a mesma; pintada até da cabeça aos pés, colorida que só um arco-íris cheguei, comprida que nem uma bengala e bem-feita que só adoração de imagens. Já viram, por acaso, um pé de cedro? E de eucalipto? Era ela. Cupido ferira seu coração com a flecha primeira da paixão. Tratava-se do primeiro amor na vida de um sujeito casto, cara de tacho, donzelo e à primeira vista. Naquele instante esquecera de vez a quizília da classe, sepultando definitivamente o mal-estar que lhe acompanhava. A jovem, encantadora aos seus olhos, foi logo envolvendo o beócio numa curiosa euforia, só amainada na manhã seguinte, qual ressaca das brabas. E ela nem sequer ainda lhe dirigira qualquer palavra. Só a presença dela causava rebuliço nas suas veias, no seu sangue, no seu coração. Era um frio constante na barriga, na espinha dorsal. Era o laço do amor pregando uma peça no sujeito, tentando, portanto, logo uma aproximação. Urgente. Apesar do ímpeto, não conseguira. O cidadão desencaminhou-se. Foi um deus-nos-acuda!

- Onde andava essa deusa que nunca havia percebido?

Nos dias seguintes, as aparições dela se tornaram mais frequentes. Targino, então, proporcionou-lhe tácito espanto ao presentear, sem mais nem menos, um ramalhete de flores. Foi a maior risadagem. Qual não fora a estranheza dela frente a postura cavalheiresca dele que se insurgira, assim, do nada, com brinde tão salutar e, ao mesmo tempo, desproposital. Uma atitude piegas como aquela aflorou certo desdém nela. Grata, assim mesmo, Marinícila não dispensou um riso sardônico diante da audácia do enamorado, dispensando-lhe, a partir de então, uma atenção, não raro, diferenciada. Naturalmente que ele embevecido de paixão, não notara a indiferença da púbere varapau diante do seu jeito desfigurado e apalermado, ansioso por agradar-lhe. Fora, mesmo assim, uma primeira tentativa e não objetivava a plenitude logo assim de cara, de supetão, não, admitindo que o seu comedimento nutriria êxito irreparável.

Depois de outros tantos dias seguintes, as aproximações foram amiudadamente repetidas. O neófito amante usara do expediente estratégico de ofertar ao alvo dos seus sentimentos, os mais improváveis motivos para uma conquista plena, prova maior do seu proselitismo. Dedicava livros a quem não possuía o hábito de ler, claro, principalmente por se tratar de volumes permeados de assuntos religiosos. Bem educada Marinícila agradecia sua investida, largando o volume na primeira lixeira que encontrasse. Insistentemente ele acossava com uma verdadeira variedade de bugigangas como confeitos, chicletes, pastilhas, chocolates, lenços, recorte de revistas, escapulários, convites para retiros, comunicações da igreja, fotos de Jesus, agenda religiosa, um terço, uma oração de São Francisco de Assis, uma imagem de Santo Antônio casamenteiro, um volume do Novo Testamento, uma blusa da comunidade carismática, uma bandeira dos capuchinhos, uma flâmula das irmãs carmelitas, um quadro com Moisés, coisas do tipo, eram oferecidas pelo mancebo àquela jovem moderninha. Tudo isso era um verdadeiro tiro pela culatra. Atenciosa, ela tomava nas mãos as oferendas, no entanto, desleixava todos os presentes à primeira oportunidade de se livrar de todas aquelas baboseiras. Foram tantas investidas para a conquista que ela já se aborrecia com a sua fisiologista presença. Algumas vezes ela até se escondia do seu flerte. Ele irredutível, perseguindo insanamente.

Dia vai, noite vem, e demorou muito para ele ter coragem de expor seus sentimentos para ela. Resolvera mesmo não declará-los sob hipótese alguma. Soubera, todavia, que a dita cuja não era lá muito católica, tampouco dada às coisas de religião. Ele mediante isso dissimulara tal situação, almejando, apenas, o coração dela e, naturalmente, a sua posterior conversão. Enquanto isso, ele se mantinha inquieto e instou algumas pessoas de sua confiança, obtendo informações mais precisas sobre as preferências e gostos daquela que poderia vir a ser a sua futura esposa. Tomou ciência dela se tratar de uma militante do hedonismo, metida a marxista inveterada, ateia, feminista e que detestava bancário cabrestado. Eita! Despencara o mundo para ele. Lamentou copiosamente a sua falta de sorte. Contudo, como perseverante e crente em Deus, jogou de lado todas as dicotomias que, segundo seu próprio juízo, eram aparentes e investiu de cabeça naquele romance, até agora, com uma das partes, apenas, cientificadas. Uma verdadeira revolução se procedera na cabeça dele: abdicou das roupas sociais e fora-de-moda e das coisas que o caracterizavam como sendo um careta e cafona, modernizando-se a olhos vistos numa jaqueta jeans, cabelos desalinhados, tênis, um vocabulário recheado de gírias para habilitação aos frequentes assustados, bailes, formaturas, inferninhos, comemorações ocasionais além de conversas apimentadas de imbróglios com uma terminologia esotérica da própria conversa com outros colegas das praças da cidade, tudo o que convinha à moda do seu tempo. Todo sacrifício fizera então ele para conseguir aquela mulher, valendo, inclusive, transformar-se num jeito nunca antes seu. E até agora nenhum resultado obtivera, apenas o achincalhe que resultara numa verdadeira repreensão por parte da gerência do banco, pelo uso de seus trajes avançadinhos, não condizentes com a responsabilidade do cargo que ocupara perante a sociedade. Foi um baque. Habilidoso, no banco de uma coisa; de noite, rodava a baiana. Um verdadeiro conflito. Isto é, o primeiro dos conflitos que viriam assolar sua pobre alma. Obstinadamente danou-se ele a se esfolar na vida ousando, em não sei quantas prestações, adquirir um automóvel usado e em bom estado, endividando-se até a próxima encarnação, só para impressioná-la. O pior é que não entendia nada de veículos, cursando numa autoescola por correspondência e aprendendo a guiar em tempo recorde, não antes atropelar dois, subir cinquenta calçadas, levar umas quinhentas multas por motivos diversos e capotar umas duas vezes em lugares inapropriados para tal proeza. Mesmo assim, fez instalar um som incrementado e, todo metido às pregas, meteu-se a conduzir o veículo visando comovê-la, flertando a torto e a direito. Nada. Nem um olhar ela dispensava. Fez estripulia, danou-se a beber, dava discurso e, no fim, constatava que ela não estava nem por perto para testemunhar sua pavoneada expressão.

Devido seu estado deplorável naquela circunstância, quando se recolhia à cama, era comum levar uns bregues desconcertantes da genitora. Nada dava jeito e ninguém lhe entendia. E como estava difícil aquela empreitada, foi até a igreja, ajoelhou-se aos pés da imagem de Santo Antônio e largou para mais de mil rezas, bem como uma promessa pesada de construir uma capela para o devotado, caso conseguisse a graça de se casar com aquela princesa. Promessa feita, justa e concordada, lavrada e registrada em sua veneração de fé, dias se passando e nada. Não aguentou a demora, revisitou os pés do santo, refez a jura, chorou, esperneou, pediu por tudo no mundo e nos céus, perdendo as estribeiras, se viu obrigado a uma extravagância que não era de sua natureza: depositou várias cédulas pecuniárias nos pés do protetor para ver se agradava mais, reiterando a promessa, subornando o santo e prometendo se daquele jeito não desse fruto ameaçaria não mais guardar respeito pelo santo. Dez dias, nada. Engicou-se e chutou o pau da barraca admitindo atender o conselho de alguns maldizentes: mandou o santo para a puta-que-o-pariu e foi ter com um pai-de-santo renomado, na atitude mais atrabiliária de sua vida. Foi aí que no maior exorcismo bateu bombo, pulou de cócoras, dançou xangô, no fim: nada. Mais alguns dias, deu de voltar para o babalorixá reivindicando seu atendimento acertado. Fez tudo de novo, pagou sob a garantia de que, no máximo em oito dias, ela estaria perdidamente apaixonada pelo sofredor. Nada. Revoltou-se com isso, virou protestante, primeiro batista, posteriormente pentecostal, adventista, calvinista, luterano, batista independente, cristão decidido, ortodoxo, israelita, maometano, budista, daí passou por igreja evangélica da Assembleia de Deus, da igreja reformada, da brasileira; da congregação cristã, dos santos dos últimos dias; dos luteranos da santa cruz; do exército da salvação; da Legião da Boa Vontade; a shinshu otani; a Universal do Reino de Deus; metodista; darbista, mórmon, menonita; quaker, hinduísta, confucionista, taoísta; vudu, ñañiguista; totemista; animista; xintoísta; kardecista; pregou o Upanichades, o Rig-Veda, o Tao, os Vedas, o Mahabarata; a Bíblia, tudo, nada. Procurou centro espírita, fez mesa branca, recebeu passes, baixou espírito, tirou encosto, falou com mortos, esperou um mês, nada. Deu-se incansavelmente então com uma tal de Madame Cristalda. Deitou cartas, bola de cristal, búzios, mais leitura de mãos decifrando o destino e saiu feliz. Mais um mês, nada. Aí foi além. Já estava na dança e tome: pomba-gira, orixás, entidades, candomblés, cangas, pacto com o demônio, magia negra, rezou, orou, pintou e bordou. Nada. O desespero chegou ao ápice com o término do primeiro semestre escolar, todavia, pensou melhor e assentiu que poderia reunir mais forças e tentar a sua grande chance no segundo período letivo, se regenerando e conseguindo alcançar o seu sonho. E foi durante as férias escolares que voltou para os pés do santo, pediu perdão, se confessou mais de duzentas vezes e jejuou para mais de oito dias. Quase morre o desgraçado. Enquanto isso passava o tempo contando os dias, as horas, as semanas, esconjurando a mulher, amaldiçoando a vida, desafiando Deus e, quase louco, tentou suicídio, o que não acontecera devido intervenção na hora agá de uns parentes. Que vexame! Preocupando muita gente foi aconselhado pelos bons corações dos vizinhos a não cometer loucura e, sob a vigilância da mãe, voltou ao oratório, rezou muito, se reconverteu enfim católico apostólico romano. E imbuído do espírito da bondade cristã fez jejum de novo, obrou caridade, transformou-se num devoto exemplar e arquitetou, misteriosamente, um plano em sã consciência. Em seus olhos um brunido estranho perpassava. Meteu-se em contrição, reviu seu batismo, crisma, sua santa figura pensando em circuncidar-se para não ter que se humilhar a um ser tão desprezível quanto aquela mulher, metendo-se num celibato incomum aos olhos alheios. Regenerado ninguém notara, entretanto, que reluzia um ar estranho em seu olhar. Algo sinistro, vingativo. A financeira tomou o carro por falta de pagamento. Tal inadimplência levou-lhe a receber duas amarelinhas, uma de advertência e outra, de repreensão, quase lhe demitindo por justa causa do emprego. Liso e endividado, sem ter para onde ir, sem apoio de ninguém, retornou às suas atividades normais de cidadão pacato, funcionário exemplar e cristão verdadeiro.

Chegando, então, o primeiro dia de aula do segundo semestre, adentrou cautelosamente na sala com o estilo de antes: arrumadinho que só meio fio, cabisbaixo e envergonhado. Todo mundo soubera de sua paixão por Marinícila e, pior ainda, mangavam do insucesso dele para consegui-la. Taxaram-no de camaleão, numa dessas pechas peculiares à zombaria extrema. Não pouparam gozações. Sentou-se calmamente na primeira fila da sala de aula, assistindo atento às explicações do professor. Inerte, silente. Alguma coisa martelava sua cabeça.

Assim foi até o término da aula quando no maior alvoroço, desembestou até a saída da faculdade, prostrando-se próximo de uma árvore na passagem escura do portão. Ali ficara com pensamentos mirabolantes a criar um plano urgente para captura dela. Seu coração arfava; seus nervos tremiam. Não havia nenhum pensamento capaz de concatenar o que estava por acontecer. Nem sabia ele nada na sua louca empreitada. Seus olhos não paravam, fitavam em todas as direções. Era uma tremedeira sem fim. O que fazer? Friccionava com intensidade uma mão na outra, caracterizando seu excêntrico nervosismo. Nada previa. Ali, procurando não ser notado, tentando não fazer barulho algum, ficara de forma a criar um mirabolante plano. As ideias se misturavam umas às outras, ora sua mãe ralhando; outra, o pároco reprovando; amigos, achincalhando; colegas, aos apupos. Ora, contra tudo e todos desejava satisfazer, apenas, seu coração. Se os outros não entendiam, paciência. Havia de ter sacrifícios múltiplos aos montes para que se possibilitasse uma harmonização entre seus anseios e medos, ou de nada adiantaria satisfazer seu ego em detrimento de todas as convenções possíveis, ou mesmo, doutra forma, frustrar-se em nome de uma vida sadia e segundo os cânones convencionais que só atenderia as exigências alheias e não as suas vulnerabilidades passionais. Não, seu corpo hesitava numa tremedeira medonha. Sua cabeça rodava ora por sonhos belos, ora por tonturas atinentes as dúvidas que perseguiam-no naquela ocasião. Não, seria ele capaz de romper as suas próprias amarras, seus próprios princípios, seu passado, sua família, sua crença em nome de uma patética e absoluta paixão? Ou deixaria seu coração à margem de tudo e morreria, um dia, recalcado por não ter tido a coragem de assumir sua iniciativa volúvel? Pairavam questionadoras todas as inquisições possíveis. Atormentavam, assim, seu ser, decompondo seu cérebro, sua alma, seus sentimentos.


Ao chegar o final da aula o lugar foi ficando ermo. Àquela hora os estudantes saiam aos trambolhões pelo portão principal da faculdade. Menos ela, todos, menos ela cruzara as portas dali. Chinelos, calçados, sandálias pesunhavam o calçamento de acesso, agitando as suas batidas cardíacas, apressando-as a cada possibilidade dela se aproximar daquele inusitado momento, não podia, devia acontecer agora, sim, com ela chegando, ninguém viria atrapalhar sua empreitada, ninguém possuía esse direito de desmanchar seu devaneio, ninguém! Alguns passos vinham na direção da saída. Espreitou melhor, notara não ser Marinícila. Outras pessoas vieram e se acomodavam no interior da condução, do cata-corno, dirigindo-se ao centro da cidade. Ela, realmente, ainda não havia passado. Escondido, ofegante, de súbito, novos passos. Era ela. Era! Era! Agora era. E se certificou, realmente, era dela. Então, armou-se de um bote certeiro e tum! Apossou-se do seu braço, arrastando-a pelo matagal limítrofe dali. Afastou-se cada vez mais da estrada de acesso. Ela, aos gritos, seguia puxada pelo incansável amante, varando matos, árvores, arames farpados, touceiras, brejos, mata-burros, porteiras, adversidades, chuvas, lamas, pantanais, morros, ribanceiras, tudo no peito até chegar nalgum lugar que julgasse seguro para sua façanha. E tome pé na bunda. Zás. Local escolhido, parou, pensou um pouco, cansado, coração saindo pela boca; ela, com o dela, nas mãos. Sem forças, recompondo a respiração, avançou sobre ela, tapou-lhe a boca e a respiração, não permitindo novos gritos para atrapalhar sua investida, acaso alguém interceptasse a sua fúria. Fez-se silêncio sob o aguçado do ouvido. Ninguém seguira seus passos. Nada, apenas a respiração sôfrega do seu grande amor, agora, ali, exposta, pronta para ser servida, a seu bel-prazer, era possível! Era possível! Ajoelhou-se, agradeceu a Deus em uma oração incógnita, causando estranhamento nela a atitude daquele energúmeno, tarado de uma figa, que queria ele? Ela não entendia nada. Ele levantou-se, removeu as manchas deixadas pelo chão em seu joelho, com as mãos e, de forma apressada, acorreu ao seu alcance, sentiu de perto a respiração dela, o perfume dela, o hálito dela, o nervosismo, os seios já pulando pelo decote da blusa, o batom lambuzando as faces, as mãos finas e trêmulas, as coxas roliças e gostosas ensacadas numa calça apertadíssima delineando suas formas, suas intimidades, o realce do corpo torneado, obra de um artista, tudo perfeito, rente ao seu desejo latente, dilatando seus nervos, endemoninhando suas entranhas, seus poros, seu membro enrijecido, a volúpia, o frio na barriga, o mundo a girar doidamente, era o ápice da emoção. Abriu os braços e com o rompimento das correntes da timidez fez menção de envolvê-la, sentindo o impacto da repulsa, o não gélido da rejeição, negando-lhe. Investiu e foi se aproximando com fervor, insistentemente irresponsável do que poderia ocorrer, impensavelmente louco varrido por aquela figura tão dele, tão real, tão nos seus moldes, alma-gêmea dos seus sonhos, cara metade perfeita, absolutamente no mesmo tope, mesmo tipo, mesmo biotipo, mesma altura, feitos um para o outro. E mais chegava perto sentindo a respiração nas suas narinas, um só oxigênio, um só universo, ela bruscamente empurrou-lhe com toda força, estatelando-o ao chão quando investiu numa carreira desabalada, ele ao seu encalço, segurou-a pelo pescoço, chaveou-lhe os braços e com a mão esquerda apalpou seus seios, sua vagina, suas coxas. Ela gritou e ele tapou sua boca, rasgou a blusa, os seios à mostra, agarrou e abocanhou-lhe o peito, chupou imensamente, ela empurrando-o para longe, ele agarrado por inteiro, abriu-lhe o zíper da calça expondo a calcinha fina com rendas vermelhas, teve dificuldades em remover a calça jeans dela de tão bem amoldada ao corpo, ela esperneou, ele esbofeteava, reprimindo suas atitudes de tentar desvencilhar-se da insana e selvagem vontade dele de possuí-la ali a céu aberto no meio do matagal, somente estrelas por testemunhas, a avareza do prazer, a estupidez da concupiscência. Já sem forças ela cedeu às investidas dele e pôs-se a chorar profusamente. Ele fitou-lhe o choro e acompanhou o rolar das lágrimas. Tudo tranquilo, tudo a seu favor. Pleno céu aberto e escuridão de breu ao seu redor. Novamente, indomável, apossou-se do seu corpo, beijando-lhe avidamente. Ela, imóvel, só chorava. Ao deixá-la nuazinha, criou ânimo e revelou sua paixão maluca, capaz de contrair matrimônio ali mesmo com ela, seguindo o altar, a vida a dois, santo casamento, abençoada união. Incrédula, mais uma vez ela ousou gritar, quando foi persuadida a fazer silêncio já que ele só queria o seu bem, o seu amor, para viverem juntos e para sempre. Aquele era o sonho dele e ela não queria partilhar desse futuro, narrando com detalhes sua luta para conquistá-la, seus pesadelos, sua busca incansável por encontrá-la como agora, do jeito dele, da forma dele. Suas mãos tremiam incontroláveis, não se conteve e despencou aos prantos. Conhecida a sua intenção, a moça gritou o mais que pôde, soluçando, investigando uma fórmula de se livrar de suas garras. Tanto se concentrou em sua fuga, ele percebeu, se acercou dos seus movimentos e inquiriu a razão de sua insistente negação aos carinhos dele. Muda estava, calada ficou. De repente, o olhar dela ficou malicioso. Ela abriu os braços, nua, arreganhou as pernas e gritou:

- Vem, filho da puta! Vem, vem me foder, vem!!! Vem, porra!!! Chega, vem, me fode toda, safado! Vem!

Ele assustou-se com aquele jeito desbocado dela de chamá-lo para o coito sonhado. Não, não era assim que queria, e quanto mais ela exigia que ele lhe fodesse a alma, mas ele ficava arredio, desconfiado, mas mergulhando-se em seus pensamentos, será que ela está endemoniada? Será que ela seria mais uma provação para sua sofrência nesta vida? O que diria o pároco depois de uma loucura dessas? O que a mãe diria numa circunstância dessas? O que todos diriam? Ririam, apenas. Enquanto ele estava mergulhado na sua culpa, mais ela remexia gestos obscenos provocando-lhe, sensualmente sussurrando:

- Venha, safadinho, venha foder minha alma, chegue! Venha...

Assustado mais, uma lágrima caiu-lhe no rosto ao que ela começou a estranhar...

- Você não é viado não, né?

- Não.

- E o que é que falta, seu porra, depois duma correria dessas, pra gente foder? O que falta?

- Papai do céu vai castigar eu e você!

- Caralho!!!.... © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do pintor suíço Ferdinand Hodler (1853-1918).

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 As eternas musas Tataritaritatá: Aldine Müller, Helena Ramos e Zaira Bueno.
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domingo, novembro 29, 2015

ARISTÓTELES, FROMM, BATAILLE, ELIETE, FIORESE, HELENA, TEATRO & MUITO MAIS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A POÉTICA ARISTOTÉLICA (Pubicado originalmente no Guia de Poesia, em 2002)- Quando me vi às voltas com a poesia, versejando desde menino, cheguei ao momento em que precisaria não apenas colocar sentimentos, emoções e ideias nos versos rimados, mas aprofundar os conhecimentos acerca da arte poética. Foi ai que pretendendo saber mais a respeito da poesia e, ao mesmo tempo, descobrindo que poesia vai além de tudo que eu imaginava ser, fui estudando métricas, estética, aprendendo e trabalhando exaustivamente a respeito da arte. Indispensável se faz, primeiramente, que se tenha conhecimento de uma obra de relevo: a Poética de Aristóteles. É nela que se encontra o entendimento filosófico acerca da poesia. Indubitavelmente é uma obra tão reveladora que é indispensável para quem pretende militar na área, seja versejador, poeta ou estudioso da arte poética. É com esta obra que a gente pode discernir o que é poesia, o que é poética e tudo que está imanente ou transcendente a esta arte. O filosofo grego Aristóteles: O filosofo grego Aristóteles, era realista, utilitarista e adepto do senso comum. E conforme as bases fundamentais do realismo grego e talqualmente Platão, considerava a arte como imitação direta da própria ideia, do inteligível imanente no sensível, imitação da forma imanente na matéria. E no entendimento de Ariano Suassuna, o pensamento aristotélico sente a arte como um depoimento do mundo, contido numa outra realidade, transfigurada. Por esta razão, é a arte é uma criação da beleza, sendo o imitar congênito no homem, sendo ele o mais imitador. Isto quer dizer que Aristóteles considerava a poesia de Homero superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto. Nascido em 384 a.C, em Estagira, cidade da Calcidia, Aristóteles viveu no período da história grega em que a hegemonia da Macedônia se estendia sobre toda a Grécia. Ele vai para Atenas com 16 anos de idade, encontrando, de um lado, Isócrates que pretendia ser a retórica a melhor preparação para a vida política. E de outro, Platão, que em sua academia, mostrava que a preparação para a vida pública exigia mais do que opiniões e recursos retóricos – deveria ter fundamentos científicos. Aristóteles preferiu o caminho apontado por Platão e, durante 20 anos, frequentou a Academia. Quando morre Platão, Aristóteles deixa Atenas e vai para Assos. E em 343 a.C., Filipe da Macedônia chama-o à sua corte, confiando-lhe a educação de seu filho, futuro "Alexandre O Grande". Morto Filipe, Alexandre sobe ao trono e prepara uma expedição ao Oriente. É o momento de Aristóteles voltar à Atenas. Lá, próximo ao templo dedicado a Apolo Liceano, abre uma escola, o Liceu, que passou a rivalizar com a Academia, então dirigida por Xenócrates. Ao contrário da Academia platônica, voltada fundamentalmente para investigações matemáticas, o Liceu se transformou num centro de estudos mais dedicados às ciências naturais. Aí, Aristóteles trabalhou, escreveu e ensinou durante 12 anos. Acusado de ateu, Aristóteles se instalou, no ano de 322, em Cálcis (na Eusébia), onde no ano seguinte, morreu aos sessenta e dois anos de idade. Decifrando a poética aristotélica: Entre os escritos e obras, A Poética de Aristóteles é uma obra esotérica e terá por base a fundamentação conceitual de imatação (mimesis) e de catarse (katharsis, purificação, purgação). Mimesis, no sentido aristotélico, é ativa e criativa, determina o modo de ser do poema trágico e estará sempre ligada à idéia de arte (tecgné) e de natureza (physis), defendendo sempre que a arte imita a natureza. Já a catarse para Aristóteles é uma força emotiva causada pela mimesis levando a um efeito suscitado pela tragédia no público. No primeiro capítulo da obra aristotélica, são abordados alguns aspectos da poesia e da imitação segundo os meios, o objeto e o modo de imitação. Nesse sentido, apresenta-se como propósito da obra a abordagem da produção poética em si mesma e seus gêneros, da função de cada um desses gêneros e a maneira pela qual a fábula deve ser construída com vistas à conquista do belo poético. A epopéia, a poesia trágica, a comédia, a poesia ditirâmbica, a maior parte da aulética e da citarística enquadram-se nas artes da imitação, havendo entre elas, contudo, a diferença de que seus meios não são os mesmos, tampouco os objetos que imitam e a maneira pela qual se dá essa imitação. Nas artes citadas, a imitação ocorre por meio do ritmo, da linguagem e da harmonia, empregados em conjunto ou separadamente. A epopéia utiliza a palavra simples e nua dos versos. No segundo capítulo encontra-se uma abordagem acerca das formas pelas quais se utiliza a imitação. Assim, afirma-se que a imitação aplica-se aos atos das personagens, as quais podem unicamente ser boas ou ruins, dependendo da prática do vício ou da virtude. Nesse sentido, as personagens são representadas como melhores ou piores. No terceiro capítulo é tratado do refinamento da classificação focalizada no capítulo anterior, afirmando ser possível imitar os mesmo objetos nas mesmas situações e numa mesma narrativa, seja pela introdução de um terceiro personagem, seja insinuando-se a própria pessoa sem a intervenção de outro personagem. Uma outra forma de seria contar com a ajuda de personagens que agem por si só. No quarto capítulo ocorre uma análise acerca da origem da poesia e seus diferentes gêneros, que teria duas causas, ambas devidas à natureza do homem. Tendo em vista que a imitação corresponde a um instinto humano, característica que o distingue dos demais seres vivos, pela imitação são adquiridos os primeiros conhecimentos e experimentado o prazer. A poesia, então, teria sido criada pelos homens mais aptos à execução da imitação, por meio de ensaios improvisados. A divisão em gêneros resultaria das diferenças entre os caracteres dos sujeitos imitadores: aqueles mais propensos à gravidade reproduziriam as belas ações e seus realizadores, ao passo que os menos propensos se voltariam para as pessoas ordinárias com o objetivo de censurá-las. Aponta-se Homero como o pioneiro dos gêneros dramático e cômico. Defende-se, também, a superioridade da tragédia e da comédia em relação ao iambo e à epopéia. Tal superioridade seria a responsável pela migração dos poetas para os dois primeiros gêneros. No quinto capítulo é efetuada uma comparação entre epopéia e tragédia. A primeira, assim como a tragédia, focaliza os assuntos sérios, porém não inclui qualquer forma negativa e é menos limitada quanto à duração em relação à tragédia. Ambas apresentam partes constitutivas comuns e todos os caracteres presentes na epopéia encontram-se também na tragédia. No sexto capítulo são focalizadas as diferentes partes da tragédia, conceituando esta, entendendo-se que o pensamento é a arte de encontrar o modo de exprimir o conteúdo do assunto de maneira conveniente e busca provar a existência ou não de determinada coisa e realizar uma declaração de ordem geral. Já o caráter torna possível a decisão após a reflexão, razão pela qual o caráter somente se revela após a decisão dos personagens. A elocução é a escolha dos termos, os quais apresentam o mesmo poder de expressão, seja no prosa ou no verso. Já o canto é o principal tempero do espetáculo. Defende-se a idéia de que a despeito do efeito de seu efeito sobre os ânimos, a encenação em si mesma não pertence à arte da representação e não guarda qualquer relação com a poesia. Dessa forma, a tragédia existiria por si só, independentemente da representação e dos atores. O sétimo capítulo trata da extensão da ação, parte primeira e capital da tragédia. Conceitua-se princípio como sendo aquilo após o qual é natural haver ou produzir-se outra coisa; fim como sendo o contrário, ou seja, ocorre após outra coisa e é algo após o qual nada ocorre. Assim, para se ter uma voa composição na fábula, seria necessário que o início e o fim não fossem obras do acaso, mas de condições indicadas. Assim, afirma-se que para que algo seja considerado belo, deve não só apresentar ordem em suas partes, como também comportar certas dimensões. Sob essa ótica, um ser vivente muito grande ou muito pequeno não poderia ser belo. Dessa forma, a dimensão dessa extensão seria dada pela duração dos concursos e pelo grau de atenção do espectador, ponto este que não dependeria da arte. O oitavo capítulo trata da unidade da ação e afirma que, ao contrário do que se pode pensar, o que confere unidade à fábula não é a personagem principal. Assim, o que importa é que a unidade da imitação resulte na unidade do objeto, de forma que a supressão ou deslocamento de uma parte seja suficiente para mudar ou confundir o conjunto. O nono capítulo versa sobre a competência do poeta ao narrar exatamente o que acontecido, mas sim o que poderia acontecer, o possível, a verossimilhança ou a necessidade. Assim, a diferença entre o historiador e o poeta não é a forma da obra, mas o que ela relata. Assim, o historiador relata o que ocorreu e o poeta, o que poderia ter ocorrido. Por isso, a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado, pois permanece no universal - o que uma categoria de homens diz ou faz em determinadas circunstâncias segundo o verossímil ou necessário - ao passo que a história focaliza o particular. Assim, a missão do poeta concentra-se em criar fábulas e não em fazer versos, sendo poeta justamente porque imita ações. Neste capítulo, atribui-se a maus poetas a criação de fábulas episódicas, obras em que a conexão dos episódios não observa a verossimilhança e nem a necessidade. Assim, a tragédia deve imitar a ação em seu conjunto e, além disso, imitar fatos capazes de suscitar o terror e a compaixão, principalmente se tais sentimentos nascerem de fatos que se encadeiam contra a experiência do espectador, causando, assim, maior admiração do que se fossem devidos ao acaso e à fortuna. No décimo capítulo traz tão-somente a noção de que as fábulas são classificadas em simples ou complexas de acordo com as ações que imitam. No décimo primeiro capítulo são apresentados os elementos da ação complexa, quais sejam peripécia, reconhecimento e catástrofe ou patético. A Peripécia é um elemento de ação complexa, que, segundo Aristóteles, consiste numa reviravolta das ações, o que conduz a história a um rumo contrário ao que parecia indicado e natural. O uso da peripécia é um dos instrumentos usados para que se chegue ao objetivo de causar terror e compaixão, ou catarse, finalidade da qual se presta qualquer tragédia. Como várias das peças já eram conhecidas do público, estratégias como essa provocavam mais interesse do público, o prendia mais e o deixava ansioso. Logo, essa reviravolta na história fazia com que o público ficasse mais curioso e mais identificado com a história e, assim, a interação do público com a peça aumentava. É com o uso da peripécia e de ações simples, diz Aristóteles, que se alcança o fim que se propõe alcançar, a saber a emoção trágica e os sentimentos da humanidade. No décimo segundo capítulo encontram-se as divisões da tragédia, que são: prólogo, epílogo, êxodo e canto coral. O Prólogo é a parte que a si mesma se basta e que precede a entrada do coro (párodo). O episódio é uma parte completa da tragédia colocada entre cantos corais completos. O êxodo é uma parte completa da tragédia, após há qual não há canto coral. No décimo terceiro capítulo fala das qualidades da fábula em relação às personagens. A fábula bela deve ser complexa e capaz de excitar temor e compaixão. Nelas, o infortúnio dos personagens não são fruto de sua perversidade, mas sim das suas ações. Para ser bela, a fábula necessita propor um fim único, oferecendo a mudança da felicidade para o infortúnio em virtude de um erro grave. No décimo quarto capítulo aborda os diversos modos de produzir o terror e a compaixão, os quais podem nascer do espetáculo cênico, podendo, porém, derivar do arranjo dos fatos, o que é preferível e evidencia maior habilidade do poeta. Na tragédia, o temor e a piedade devem ser causados pelas ações. As ações que inspiram dor devem ocorrer entre amigos ou inimigos, ou indiferentes. Numa boa tragédia, o personagem não hesita em matar, saiba ou não quem é a vítima. No décimo quinto capítulo ressalta-se a importância de que a representação e o entrosamento dos fatos apresentem verossimilhança de modo que as ações e palavras da personagem estejam de acordo com o necessário e verossímil. Assim, o desenlace das fábulas deve nascer da própria fábula e não de um artifício cênico, não havendo, tampouco, espaço nas ações para o irracional. Nos capítulos seguintes são apresentados alguns conselhos ao poeta Diz-se que, ao organizar sua fábula, o poeta deve sentir como se a tivesse diante de seus olhos e completar o efeito do que é dito pelas atitudes das personagens, razões pelas quais a poesia exige entusiasmo. Fala-se, ainda, que os assuntos devem conter primeiramente uma idéia global, distinguindo os episódios a seguir. Então, devem ser atribuídos nomes aos personagens, os quais variam em função da sua terminação em neutros, femininos ou masculinos. No décimo oitavo capítulo afirma-se que em todas as tragédias há o nó e o desenlace. O primeiro corresponde à parte que vai do início ao ponto em que ocorre mudança e o desenlace é a parte que vai da mudança até o final da peça. Uma boa peça deve conjugar adequadamente o lace e o desenlace. O canto coral teria o papel de passagem entre uma peça e outra. Nos dois capítulos seguintes são encontradas observações acerca da elocução e do pensamento, dois dos elementos essenciais da tragédia. O pensamento tem como objeto a retórica e é de seu domínio tudo aquilo que se exprime por meio da linguagem, incluindo a demonstração, a refutação e a maneira pela qual se movem as paixões, tais como compaixão, temor, e a cólera, os quais devem dotar de importância e verossimilhança. A elocução é tratada a partir de seus elementos essenciais: letra, sílaba, conjunção, nome, verbo, artigo, flexão e expressão. A partir daí encontra-se o objeto e as formas dos nomes ou figuras. O nome simples é desprovido de elementos significativos. Já a composição do nome duplo varia pode ser de um elemento significativo com um elemento vazio de sentido ou de elementos todos significativos. Os nomes usados podem ser da própria língua ou estrangeiros. Faz-se uso também de metáforas e nomes forjados, que são aqueles que em princípio não apresentam sentido, mas que passam a possui-lo pela utilização do poeta. Os nomes alongados assim se chamam devido ao alongamento ou abreviação. Os nomes masculinos terminam em N, R, S ou letras compostas de S, que são as consoantes duplas Y e X. Os femininos terminam em vogal sempre longa, como H, W e A alongado. Nenhum nome termina em muda ou vogal breve. No vigésimo segundo capítulo observam-se as qualidades da elocução. A principal dessas qualidades é a clareza, contudo sem constituir em algo trivial, que é obtida a partir do uso da linguagem corrente. Para manter-se nobre, a elocução vale-se de metáforas, alongamentos e tudo o que se afasta da linguagem corrente, mas sem exageros. No vigésimo terceiro capítulo é abordada a unidade de ação na composição épica. Diz-se que é necessário que a fábula seja dotada de tom dramático, e que encerrem uma só ação, com princípio, meio e fim. No vigésimo quarto capítulo trata das partes da epopéia, que deve ser simples ou complexa, ou de caráter, ou patética. Assim, seus elementos essências são os mesmos da tragédia, salvo o canto e a encenação, e também são necessários reconhecimentos, peripécias e catástrofes, devendo, além disso, apresentar pensamentos e linguagem bela. A diferença entre epopéia e tragédia está na métrica. Assim, a epopéia deve apresentar limite exato, ou seja, seu conjunto deve ser abarcado do início ao fim. No vigésimo quinto capítulo apresenta a maneira pela qual deve se apresentar o que é falso. Diz-se que o poeta deve dialogar o mínimo possível com o leitor. Nas tragédias, pode-se apresentar aquilo que é maravilhoso, sendo que na epopéia pode-se avançar até o irracional, para obtenção de um maravilhoso em grau mais elevado. Quanto à verossimilhança, defende-se a idéia de que é preferível o impossível verossímil ao possível incrível. Além disso, os assuntos poéticos devem ser racionais. O vigésimo sexto capítulo traz algumas respostas às críticas feitas à poesia. Defende-se a idéia de que é erro do poeta a tentativa de imitação do impossível e o erro que provém de uma escolha mal feita não é intrínseco à própria poesia. Contudo, o erro torna-se secundário se a finalidade da arte tiver sido alcançada, a não ser que esse mesmo fim pudesse ter sido alcançado sem o uso de eventos impossíveis. Pode-se justificar o erro, ainda, pelo argumento de que o autor representou as coisas como elas deveriam ser, ou como a platéia acha que é, ou como elas eram em uma outra época. Critica-se também o uso exagerado de palavras estrangeiras. Admite-se, ainda, que possam ocorrer eventos aparente inverossímeis e que esse acontecimento seja verdadeiro. O vigésimo sétimo capítulo trata da superioridade da tragédia sobre a epopéia. Argumenta-se que a menor extensão da tragédia proporciona maior prazer do que a diluição da epopéia, sem, contudo, deixar de atingir o seu objetivo, que é o de imitar. Além disso, a imitação da epopéia apresentaria menos unidade, pois trata de muitas fábulas simultaneamente. Por fim, fica entendido que esta obra constitui-se de importante e bastante esclarecedor manual para o entendimento das tragédias, tornando-se base para a compreensão desse tipo de obra e, inclusive, para o estudo da arte dramática e da História da Arte como um todo. É preciso observar, ainda, que a poética no sentido aristotélico, segundo Massaud Moisés, advem de talento poético, arte da versificação, designando, assim, o seu tratado e teoria da arte de criar poesia. E para Daniel Delas e Jacques Filliolet é consagrada à essência e à origem da poesia. Para Assis Brasil, a poética é entendida hoje como a ciência da literatura, o que levou Jean Cohen a dizer que é a ciência cujo objeto é a poesia. Afinal, para Aristóteles qual o significado para a poesia? Para Aristóteles a poesia é imitação, um ato congênito ao homem, ao lado do ritmo e da harmonia. Por isso, no sentido aristotélico, a poesia, segundo Jean Cohen, designava um gênero literário, por transferência da causa para o efeito, do objeto para o sujeito, designando a impressão estética particular normalmente produzida pelo poema. Tal condução levou-se a entender que a poesia, com base em Ariano Suassuna, está entre as artes auditivas, e possui três espécies principais: a lírica, a épica e a filosófica. Veja mais aqui, aqui e aqui

 Imagem: Female nude (oil on canvas, 2006), do artista plástico húngaro Arthur Braginsky.


Curtindo o álbum Ângulos: tudo está dito (Copacabana, 1986), da cantora e musa do movimento cultural Vanguarda Paulista, Eliete Negreiros.

O PRAZER COMO CRITÉRIO DE VALOR – No livro Análise do Homem (Zahar, 1978), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980), destaco os trechos da parte O prazer como critério de valor: A ética autoritária tem a vantagem da simplicidade; seus critérios para julgar o que é bom ou mau são as sentenças da autoridade, e na obediência a eles está a virtude do homem. A ética humanista tem de fazer face à dificuldade [...] ao fazer do homem o único juiz dos valores, poderia parecer que o prazer ou a dor se transforma no árbitro final do bem e do mal. Se realmente esta fosse a única alternativa, então o princípio humanista não poderia servir de base a normas éticas. Pois vemos que alguns encontram prazer em embriagar-se, em acumular riquezas, na fama, em magoar pessoas, ao passo que outros o encontram amando, partilhando coisas com os amigos, pensando, pintando. Como poderá nossa vida ser guiada por um motivo que se aplique igualmente ao animal como ao homem, à boa ou à má pessoa, ao normal e ao enfermo? Mesmo que moderemos o princípio do prazer, restringindo-o aos prazeres que não prejudiquem os legítimos interesses das demais pessoas, ele não se presta a orientar nossas ações. Todavia, essa alternativa entre submissão à autoridade e reação ao prazer como princípios orientadores é falsa. [...] A significação da análise qualitativa do prazer foi admitida desde os primórdios do pensamento ético humanista. A solução do problema, contudo, teve de permanecer insatisfatória enquanto se carecia de uma percepção íntima da dinâmica inconsciente da experiência do prazer. a pesquisa psicanalítica oferece novos dados e sugere novas respostas a esse problema secular da ética humanista. [...] O hedonismo sustenta que o prazer é o princípio diretor da ação humana, tanto fatual quanto normativamente. Aistipoo, o primeiro representante da teoria hedonista, acreditava alcançar o prazer e evitar a dor eram a finalidade da vida e o critério da virtude. Para ele, prazer é o prazer do momento que passa. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

MADAME EDWARDA (ilustração de René Magritte para Madame Edwarda, 1946) – Com o pseudônimo de Pierre Angélique, o polêmico escritor francês Georges Bataille (1897-1962), publicou o livro Madame Edwarda (Pauvert, 1956), no qual ele prossegue sua obra erótica tributária de Sade, depois da publicação de História do Olho. Trata-se de uma ficção erótica em que se encontra eres angustiados e torturados por conflitos íntimos,  que o autor utiliza para mostrar a perda do indivíduo em torno de suas paixões até a morte. No prefácio do livro ele expressa que: [...] para refletir um instante sobre a atitude tradicional em relação ao prazer (que no jogo dos sexos atinge a maior intensidade) e à dor (que a morte apazigua, é verdade, mas que, antes disso, ela leva ao paroxismo). Um conjunto de condições nos conduz a fazer do homem (da humanidade) uma imagem igualmente distante do prazer extremo e da extrema dor; as interdições mais comuns atingem a vida sexual e a morte, a tal ponto que uma e outra formaram o campo do sagrado quando um caráter sério foi conferido apenas às interdições relativas às circunstâncias do desaparecimento do ser, enquanto as que diziam respeito às circunstancias do aparecimento – toda a atividade genética – foram consideradas levianamente. Não está em questão protestar contra a tendência da maioria: ela é a expressão do destino, que quis que o homem risse de seus órgãos reprodutores. Mas este riso, acusando a oposição entre o prazer e a dor (a dor e a morte são dignas de respeito enquanto o prazer é derrisório, destinado ao desprezo), marca também seu parentesco fundamental. O riso não é mais respeitoso, mas é o sinal do horror. A vida é a atitude de compromisso adotado pelo homem em presença de um aspecto que repugna, quando este aspecto não parece tão sério. Da mesma maneira, o erotismo considerado seriamente, tragicamente, representa uma reviravolta. Antes de tudo, faço questão de precisar a que ponto são inúteis essas afirmações banais, segundo as quais a interdição sexual é um preconceito, do qual está na hora de nos desfazermos. A vergonha, o pudor, que acompanham o sentimento forte de prazer não seriam nada além de provas de falta de inteligência. É o mesmo que dizer que deveríamos fazer tábula rasa e voltar ao tempo da animalidade, da livre devoração e da indiferença às imundícies. Como se a humanidade inteira não resultasse de movimentos de horror seguidos de atração, aos quais se ligam a sensibilidade e a inteligência. Mas, sem querer nada opor ao riso do qual a indecência é a causa, é-nos admitido retornar – em pane – a um ponto de vista que o próprio riso induziu. É, com efeito, o riso que justifica uma forma de condenação desonrosa. O riso nos faz tomar esta via na qual o principio de uma interdição, de decências necessárias, inevitáveis, transforma-se em hipocrisia insensível, em incompreensão do que está em jogo. A extrema licença ligada à brincadeira é acompanhada de uma recusa em levar a sério – eu compreendo o trágico – a verdade do erotismo [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EPIGRAMAS - Imagem As Três Graças, escultura de António Canova (1757-1822) – Os famosos epigramas do poeta grego Rufino (200 ou 400 dC), destaco os traduzidos por José Paulo Paes, primeiro o Epigrama 35: Três beldades me escolheram para julgar-lhes as nádegas,  a mim mostradas no esplendor da nudez. As de uma, florescendo em alvura veludosa, estavam marcadas ambas por covinhas graciosas; A nívea carne das de outra, a de pernas abertas, tinha rubor mais forte que a purpura da rosa; As da terceira, calmaria sulcada de ondas mudas, palpitavam suaves ao seu próprio impulso. Se o juiz das deusas, Páris, tivesse visto estas nádegas, não queria saber de mais nenhuma. [...] Fui juiz num concurso de coxas de três mulheres. Foram elas que me escolheram, me mostraram a nudez esplendorosa dos seus corpos. Marcada de pregas arredondadas, a branca doçura das coxas de uma floria. A carne Nevada da outra, de pernas afastadas, tinha uma corsanguínea, mais vermelha que uma rosa purpura. A terceira mostrava-se serena como um mar tranquilo, com a pele delicada apenas sacudida por estremecimentos involuntários. Se o árbitro das deusas Tivesse contemplado estas coxas, não teria querido olhar as primeiras. O Epigrama 60: A jovem de pés de prata lavava os pomos dourados dos seios banhando-lhes a carne leitosa; a carnadura das nádegas redondas palpitava, mais ondulosa e mais fluída do que a água. Com a mão espalmada ela tentava encobrir o monte, mas não todo, não tanto quanto poderia. Epigrama 94: Tens, Melite, os olhos de Hera, as mãos de Palas Atena, os seios da deusa Páfia, os tornozelos de Tétis. E feliz é quem te vê, mais sortudo se te escuta, um semideus o que te ama, imortal se te desposa. Veja mais aqui, aqui e aqui. 

A PRIMEIRA ESTÉTICA DA ARTE DRAMÁTICA – Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que: Baseado na observação crítica das tragédias, Aristóteles construiu a primeira estética da arte dramática: a Poética. Nela acham-se definidos o pensamento, a fábula, o caráter, a linguagem, a melodia e a encenação – os seis elementos essenciais da obra teatral. Todos eles deveriam estar subordinados à regra das três unidades – ação, tempo e lugar -, observadas de certa maneira pelos autores gregos e pelos clássicos franceses muitos séculos depois. Através do pensamento, o autor firma sua posição diante dos valores da época e da sociedade em que vive. Por isso, ele não é apenas próprio do teatro, mas inerente a todas as formas de expressão artística. O pensamento condiciona-se à época, ao tipo de público a que se destina, ao objeto da mensagem. Na Grécia do século V aC., Aristófanes (448-380aC), escrevia uma comedia para denunciar a incompetência e venalidade dos governantes da pólis, alertas contra os maus costumes da juventude ateniense e proclamar os sofistas como corruptores das instituições. A encenação de suas comédias parecia uma arena política, incentivando a constante participação do público, interessado por esse gênero de problema. A fábula é descrita por Aristóteles como a imitação da ação; toda a estrutura dos incidentes. Constitui a trama, por meio a qual o dramaturgo expõe e desenvolve os acontecimentos, estabelecendo também o clímax e o desenlace. Todas essas partes variam de intensidade de peça para peça, mas geralmente são identificáveis na maior parte dos textos tradicionais. Caráter é o elemento do texto referente às personagens. O teatro grego inventou dois termos para designar caracteres opostos: protagonista (herói) e antagonista (vilão). O primeiro pode ser indicado no próprio título da peça, como em Britanicus (1969), de Jean Racine (1639-1699), e Cândida (1895), de Bernard Shaw (1856-1950). Em algumas peças, o conflito não se trava entre dois caracteres fisicamente presentes, mas na mente de uma única personagem. Em O imperador Jones (1920), do dramaturgo norte-americano Eugene O’Neill (1888-1953), a personagem título é seu próprio antagonista. Aristóteles exigia que o caráter fosse bom a sua maneira, apropriado, real e coerente, isto é, verossímil e, ao mesmo tempo, compreensível. Os dois caracteres conflitantes (o antagonista e o protagonista) perduraram até o século XIX,, quando se passou a considerar o homem um produto do meio; nem inteiramente bom, nem inteiramente mau em si mesmo – apenas humano, ambíguo, com qualidades e defeitos. O caráter é importante, mas não imprescindível. Aristóteles dizia que sem ação não poderia haver tragédia, mas poderia havê-la sem caracteres, e citava as tragédias da maior parte de seus contemporâneos como exemplo. Partindo do interior do próprio verso, a melodia acompanhava toda a tragédia, acentuando-se mais ainda no coro, que tecia comentários sobre as cenas e o comportamento dos personagens. Daí a importância que Aristóteles lhe atribuiu. Na verdade, a passagem entre a recitação de um poema épico e a representação de um drama já se situava no canto dos rapsodos que visitavam a casa dos nobres ricos, os festivais, as feiras e as oficinas. Os numerosos diálogos da epopeia exigiam do recitador grande habilidade histriônica, colocando-o entre o poeta e o ator (hypokrités). Por se constituir talvez no mais grego dos elementos dramáticos, a melodia, na forma concebida por Aristóteles, não sobreviveu à tragédia. Por mais de mil anos, passou a ser utilizada no teatro do Ocidente somente como interlúdio musical entre atos e, com exceção do melodrama, até o século XIX ela não se ligou à estrutura dramática do texto. [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

O CONVITE AO PRAZER – O drama erótico O convite ao prazer (1980), dirigido pelo cineasta Walter Hugo Khouri, com trilha sonora de Rogério Duprat e fotografia de Antonio Meliande, conta a história de dois amigos de infância que conversam sobre as suas aventuras amorosas e o vazio que se seque a cada nova conquista. O destaque do filme é para a belíssima e sensual atriz de cinema e televisão Helena Ramos, que atuou nos anos 1970/80 em diversas pornochanchadas com grandes sucesso, o que a fez reconhecida como a musa da pornochanchada e uma das musas da Boca, afora atuar em novelas televisivas. Veja aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do artista plástico, escritor, ilustrador e publicitário argentino El Tomi Müller.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao poetamigo e professor Fernando Fiorese & Corpo Portátil. Veja aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...