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segunda-feira, dezembro 30, 2013

FERNANDO MELO FILHO, O PRIMEIRO PARCEIRO NA MÚSICA


 Na foto: Arnaldo Afonso Ferreira, Fernandinho Melo Filho, Paulo Profeta, meu pai, eu e leitores. Acervo pessoal



Conheci Fernandinho – apelidado de Fernando Bigodinho e se assinava no registro de nascimento por Fernando Albuquerque Melo Filho -, quando ainda estudava no Ginásio, quase meados da década de 1970, por aí.


Imagem: uma das letras apresentadas na III Feira de Música.

Tudo aconteceu porque eu havia participado da III Feira de Música, realizada por Fernando Pinras, com duas músicas estrambólicas que não sei como tive coragem de apresentá-las só ao violão e que já nem me lembro mais como que danadas que eram. Foi aí que fui apresentado pelas mãos de Marquinhos Cabral e Mauricinho Melo Filho, ele todo animado a mim se reportou com seu jeito peculiar:

- Bicho, muito legal aquelas suas duas músicas, visse? -, disse-me com seu costumeiro sorriso franco e seu jeito de fungar insistentemente amolegando a pêia.

Logo nos tornamos parceiros musicais, curtidores que éramos de bossa nova, rock pauleira e progressivo, blues, jazz, armorial (com Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, frevos) e muita MPB (principalmente Tom Jobim que ele era fanzaço!), tudo curtido de discos escamoteados às claras do acervo de Mauricinho e já nos víamos compondo duas a três músicas por dia pra gente se amostrar diante da turma na escadaria da igreja da praça da prefeitura. Enchíamos o balaio com bossa, xotes, baiões, baladas, tudo.

A primeira da tuia que me chega à lembrança foi um xote que a gente fez, Sertão:

Corri as terras do sertão
Montando um sonho alazão
A terra triste golpeou
A dor no meu coração
Na garupa dessa estrada
Vi o mundo se acabar
Satanás varrendo tudo
E acauã chuva nunca mais!

Na mesma leva fizemos Predestinação, quase nem lembro todo:

Quando vejo descambar
O véu da madrugação
Sinto o sol me convidar
A embolar na estação
Este céu desatinado
Que vai dar na solidão
Piso areia do caminho
Nesse chão [...]

A gente era quase vizinho: eu morava na Rua Nova e ele na República do Pinra, na Praça da Luz, pertinho do Ginásio onde eu estudava. Sempre eu dava umas escapulidas e ia lá pra gente bater o centro em nova parceria. Era o dia todo lá. Ele já namorava a Rejane Brandão, trabalhava no IBGE, enquanto eu enrolava no Cartório do meu pai e já andava enganchado num casório que logo vingou porque a distinta já estava lá em casa embuchada.

Tornamos biriteiros e quando eu me mudei pra Praça Ismael Gouveia, a gente se encontrava reunido à trupe nas escadarias da igreja vizinha. E lá estava a tropa toda: Gulu, Ozi dos Palmares, Célio Carneirinho, Zé Ripe, Ângelo Meyer, Marko Ripe, Mauricinho Melo Filho, Luizinho Barreto, Marquinho Cabral, tudo com dedilhados no violão, eu com uma viola de 10 cordas que entregava pro Ozi tocar e Fernandinho com o seu legendário violão Folk branco na maior empáfia. Cada um mostrava suas novas composições ou executavam clássicos da MPB, ou mesmo o sucesso entre a gente que era a Leonor do Gulu e Célio Carneirinho. Vez por outra aparecia Sandro Agrelli, Givanilton Mendes, Mazinho, Juareiz Correya, Tonho Oião, Marcelo Sbrugue e outros achegados efêmeros (feito o véio Alfredo cachorro-quente e seu filho, Junior Auau, entre outros apreciadores das nossas tocadas). Era nessa hora que eu e Fernandinho mandávamos ver no amostramento: duas a três novas parcerias. Era todo santo dia da gente chegar a perder a conta. Era muito som, projetos e ações da gente fazer jograis, melodramas, recitais e outras apresentações nos palcos e quadras dos colégios e da AABB.

De manhã o ponto de encontro da gente era na República do Pinra, de tarde na varanda da casa de Gulu que era na Rua da Palma ou na casa de Mauricinho na Praça Santo Amaro. De noite, era todo mundo nas escadarias da igreja ou, quando tinha culto no recinto, a gente arranchava na frente da Prefeitura.


Imagem: Jornal do Grêmio, edição de junho de 1979, do Grêmio Cultural Castro Alves, realizado pelos estudantes do Colégio Diocesano dos Palmares, sob a supervisão dos professores Erivam Felix, Inalda Cavalcanti, Elisabete Ramos e Elisabete Cirilo.

Nessa época a gente participava do Grêmio Cultural Castro Alves, uma ideia de Ângelo Meyer e logo acompanhada pelos professores do Colégio, resultando na publicação do Jornal do Grêmio com notícias, poesias, entrevistas (nesse número o entrevistado foi o poeta, entalhador e artista plástico Teles Junior), culminando com a apresentação de recitais, exposições de desenhos e pinturas, bem como show musical e esquetes teatrais.


Imagem: número inaugural da publicação Nova Caiana, resultado das Noites da Cultura Palmarense.

Foi nesse tempo que participamos juntos das Noites da Cultura Palmarense, comandada pelo professor e diácono José Duran y Duran, todos os sábados no Colégio Diocesano. O resultado dessas reuniões foi a publicação do informativo Nova Caiana com poesias e notícias artísticas. Em uma dessas reuniões, uma noite especial ocorrida na AABB, realizei apresentação musical em homenagem ao cantor e compositor pernambucano, Paulo Diniz, cantando suas parcerias com o poeta Juareiz Correya e, também, os seus grandes sucessos.
Imagem: Edição número 2 da publicação Nova Caiana, resultado das Noites da Cultura Palmarense.

Participamos da IV Feira de Música e ganhamos o 2º e o 4º lugares, pois seríamos ganhadores não fosse Mazinho com a sua “Guerreiro” no primeiro lugar e Zé Ripe & Célio Carneirinho com sua “Mata Sul” no terceiro. E só paramos de compor porque ele teve que se mudar pra Recife.


Foto: IV Feira de Música.

Na sua despedida, compomos uma canção: Canto Derramado.

CANTO DERRAMADO

(Fernando Melo Filho – Luiz Alberto Machado)

Eu vou por aí
Estrada seguir
Navio perdido
Olhar desprendido
As névoas dos sonhos
Gastaram vintém
De um tempo marcado
Olhar machucado
O sinal fechado aplacou meu coração
E eu traguei o mastro da mágoa e da ilusão
Sorri, lancei, meu cantar derramei.

Anos depois findamos vizinhos na Avenida Pinheiros, na Imbiribeira, e retomamos as parcerias tomando umas e outras nos bares de Antão e Massilon, comprando fiado e passando troco com Gulu que morava na Avenida Arquiteto Luiz Nunes. Éramos o trio biriteiro das manhãs, tardes, noites e madrugadas do Recife, parando em Afogados para tomar Mingau de Cachorro para curar da carraspana e chegar em casa bebaço pra roncar e peidar de papo pro ar. Desse trio de manguaceiros nasceu uma parceira que resistiu no tempo, Abusão:

ABUSÃO

(Luiz Gulu de França Santos Braga/Fernandinho Melo Filho/Luiz Alberto Machado)

Êta mundo véio, arrevirado e de porteira escancarada
O povo tá gemendo no curral
Numa gemedeira de barriga moribunda
O povo tá gemendo no curral
Eu vejo este mundo,
Eu vejo de quatro pés,
Quanto mais vale
Não passa de um conto de réis
E o que eu canto
Eu conto do povo
Não conto de rezes.

Foi aí que no meio de muita birita, muita Filosofia existencialista no quengo com papo de Metamarxísmica (tome papo doido embriagadíssimo), muito aparecimento no Teatro, meio mundo de poesia em livros lançados, correria do banco pra faculdade e de lá pra Livro 7, eis que consegui apresentar com a TTTres Produções o meu texto teatral A viagem noturna do sol, na sala Clênio Wanderley, da Casa da Cultura; criamos com Gilberto Melo, Arnaldo Afonso Ferreira, Paulo Profeta, Inez Koury e outros, a revista A Região que resultou na fundação das Edições Bagaço; lancei meu livro A intromissão do verbo pelas Edições Pirata e Raízes & Frutos pelas Edições Bagaço; fiz shows em palcos do Sesc e bares de Olinda e de Boa Viagem; participei de recitais na Livro 7; tornei-me diretor da Federação de Teatro Amador de Pernambuco (Feteape); fui coordenador de Estudos e Pesquisas da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, na gestão de Juareiz Correia, onde apresentei a minha palestra “A atividade artística como função alternativa para o desenvolvimento dos municípios”; e que durante essas coisas todas deu-se um período que eu cantava nas noites de sexta no Bar Roda Viva, em Campo Grande, cujo dono era um colega de trabalho e meu cachê era bebida e tira-gosto. E no meio disso, surgiu um festival do Sesc que eu inscrevi 3 músicas, duas das minhas parcerias com Fernandinho, e uma minha que eu havia composto. Os ensaios eram durante as minhas apresentações no bar, quando juntamos Sérgio Campelo na bateria (mas que tocava todos os instrumentos), o Cau no baixo, Fernandinho na guitarra e eu no violão e voz, caindo no agrado da freguesia. O Walmir, meu colega de banco que era o dono do bar é que chiava: certo que aumentou e muito o movimento da clilentela lá, mas eu e Fernandinho bebíamos demais de quase falir o negócio do rapaz. Daí acertarmos de pagar a bebida e a comida de Fernandinho, Sergio e Cau, nada mais justo de criar um prego quase sem fim na conta, verdadeira Excalibur fincada na valsa de eu pagar por prestações, sem poder velhacar porque o sujeito trabalhava na mesma instituição bancária que eu, né?
 Imagem: autorização do inventariante e escritor Paulo Cavalcanti para a encenação e adaptação de João Sem Terra, de Hermilo Borba Filho;

Veio então o dia da apresentação no Festival. Foi um show, tudo muito bom, tudo muito demais. Contudo, não ganhamos nada, só aplausos. E participamos de outros festivais até que chegou a hora da gente compor a trilha sonora da peça teatral João sem Terra, de Hermilo Borba Filho que eu adaptei e dirigi. Compomos a trilha e fomos prum estúdio conseguido por Arnaldo Afonso Ferreira, em Olinda. Lá estávamos eu, Fernandinho, o flautista Freire que também era colega meu de banco, Mozart na percussão e Sérgio Campelo tocando todos os instrumentos restantes. Tudo pronto, apresentamos no Teatro Cinema Apolo em noite de muita festa.
Imagem: matéria do Diário de Pernambuco sobre a encenação de João Sem Terra, de Hermilo Borba Filho, com o elenco do Grupo Terra.

Depois disso fomos convidados para realizar o show Cantarolinda, no Clube Nassau, em Olinda. E foi uma festa, graças às intervenções do amigo Arnaldo Afonso Ferreira.
Imagem: panfleto do show Cantarolinda.

Doutra feita, certa tarde perdida na lembrança, a gente estava tão biritado com o jipe desenfreado, horas e horas futucando as ideias para fechar mais uma parceria e nada de sair nada agradável. Bebaços demais conseguimos ajeitar a melodia, todavia a letra saía mais troncha porque eu não conseguia conciliar as ideias direito. Foi aí que chegou o Ângelo Meyer puxando um fogo arretado e difuso, e ele ao ouvir a nossa composição deu o toque final que precisávamos e ficou Lá vem o trem que depois eu inseri na temporada do meu show Por um novo dia:

LÁ VEM O TREM
(Fernando Melo – Luiz Alberto Machado – Ângelo Meyer)

Lá vem o trem
Lá vem o trem
Lá vem o trem
Pra estrada do além
Do além-homem
Do além
Morte, morte, morte,
No mote de viver.
Entre risos e pétalas de sonhos azuis
Dentro, dentro tem uma luz
No coração do menino, no coração do menino
Fora, fora, fora tem a guerra, desatino
Fora, fora, fora tem a guerra, desatino
E um verde sol cintilante na crista da imaginação.
Imagem: portfólio do show Por um novo dia, 1986.

Por causa disso, dias depois resolvemos comemorar qualquer coisa da gente e lá estávamos eu, Gulu e Fernandinho no Mustang, grande bar da Conde da Boa Vista. A gente tinha vindo de uma apresentação na Mansão do Fera, na Unicap, tudo liso e só com passe pro ônibus, quando um garçom do estabelecimento chamou Gulu. Lá foi ele, conversaram longamente e depois ele convocou a gente. Não sabia eu que o Gulu havia premeditado tudo. Fomos pra lá e tome goladas, viradas de copo e muito lero filosófico, literário e musical na maior doideira do juízo. Lá pras tantas Gulu confidenciou:

- Óia, véi! Mermão é o seguinte: vamo saindo de fininho que esse prego depoi a gente paga -, disse e foi rebatendo uma banda da bunda na outra na maior zarpada. Eu me assustei, fui ao sanitário organizar as ideias e quando retornei a mesa estava sem ninguém, Fernandinho tinha escapulido. Sumiram os dois. Eu me lasquei, pensei comigo e saí de fininho torando aço até chegar na maior carreira na Dantas Barreto, pegar a condução até chegar em casa onde os dois fugitivos sacanas estavam agarrados num litro de vodka morrendo de rir. Foi aí que eu soube que o garçom saiu correndo atrás de Fernando gritando “pega xexeiro!”, o que deixou a barra limpa pra mim. Maior risadagem. Ah, tenho muitas pra contar do Gulu.

Anos depois Fernandinho mudou-se pra Candeias e eu retornei pra Palmares para trabalhar na Quilombo FM, enquanto cursava Direito em Caruaru. Desdentão, isto é, de 1986, nunca mais vi Fernandinho. Só tive contato com ele quando estive com Mauricinho e Iara na Flimar de 2012, ela havia ligado pra ele e nos falamos. Das trocentas músicas que fizemos, umas duas ou três ainda lembro, entretanto a grande maioria está no esquecimento. Não sei se ele se lembra algumas delas, mas confesso que a saudade é grande. Beijos procê, Fernandinho, pra Rejane e Belinha.

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segunda-feira, setembro 17, 2012

EDNA O’BRIEN, ALFONSINA STORNI, DOSTOIEVSKI, BETINHO, ELOY URROZ & CRÔNICAS PALMARENSES



GINÁSIO DE PALMARES




Mesmo não tendo nada na minha inútil existência para me vangloriar, uma das pouquíssimas coisas que me envaidecem é ter sido aluno do Ginásio Municipal dos Palmares. Esse não era o nome dele de mesmo no meu tempo, era outro. É que o educandário ao longo dos tempos teve diversas denominações: pelos anos 40 foi Escola Prática de Comércio, depois passou a ser Escola Técnica de Comercio e, em 1948, Ginásio Municipal dos Palmares. Em 1952 passou a se chamar Escola de 1º Grau Agamenon Magalhães até 1987, quando passou a se chamar Colégio Municipal Fernando Augusto Pinto Ribeiro. Mas pode botar nome que seja, pois, pra gente e pro povo de lá é Ginásio Municipal dos Palmares mesmo.

Antes de estudar no Ginásio eu tivera passagens por outras escolas. É que desde Badalejo que eu enrolava todo mundo dizendo que sabia ler e escrever, coisa feita como pantim para conquistar Tia Conça, para mim, à época, minha primeira namorada. Pode? É que eu inventava histórias de amor como se estivesse lendo um livro que nem disso tratava. Ela ria com meu poder de criar essas coisas. Eu fingia escrever uns versos de amor tirados da cachola imitando os cantadores de cordel que eu vira na feira. E inventava poesias e cantigas pra ela. Menino perdido, eu era.

Como eu já me fazia dissimuladamente de leitor e escritor, fui pro Grupo José Bezerra que parece nem existe mais. Lá só estudei poucos meses quando eu tinha uns 4 anos e fui acometido de hepatite porque eu já cambaleava com problemas de saúde, oriundos de um acidente antes de completar 1 ano de idade. É que a empregada me levou ainda de braço pruma roda gigante que pegou fogo, a gente lá em cima, ela gritando e eu sem saber de nada, tive um derrame que estourou na minha visão. Resultado: olhos vermelhos o tempo todo. O tratamento com oculista no Recife acabou com meu fígado. Será? E quando fui pro Grupo, minha mãe havia recomendado que me dessem no recreio somente sopa, o que eu não gostava. Eu queria mesmo era estar na fila que servia chocolate. Não podia, toda vez eu era tirado da fila do chocolate. Eis que um dia lá, a professora cochilou e fiquei na fila do chocolate. Oxe, lavei a égua. Mas na volta pra aula depois do recreio, vomitei do piso ao teto. Findei acometido de hepatite das brabas. É nessa hora que entra minha tia-prima Sônia Cabral ministrando aulas para eu não perder o ano. Daí fui pra Escola da Fraternidade Palmarense, estudar com a professora Hilda Galindo Correia, por quem, numa paixonite infantil aguda, escrevi meus primeiros garranchos em quadras que foram publicadas nosuplemento Júnior, do Diário de Pernambuco. Veja que desde menino que eu me meti a ser poeta, mesmo nunca tendo passado, na verdade, de um poetastro desavergonhado.

Aí sim, terminado o primário, fui prestar os exames de admissão no Ginásio. E passei com festivos parabéns do direitor à época, Laércio Duá de Castro Pacheco, que era Promotor de Justiça. Parecia que ia tomar jeito de gente.

Entrei no primeiro ano ginasial pela mão de novo diretor, Múcio Rodrigues Barbosa de Aguiar que era o Juiz de Direito da Comarca. Foi quando tive acesso a laureados professores como Brivaldo Leão de geografia, Edson Matos de francês, Elias Sabino de português (substituído depois pela esposa dele, a bibliotecária e madrinha dos artistas da minha geração, Jessiba Sabino de Oliveira -, essa um amor de gente, uma das responsáveis pelo que de melhor eu tenha na minha formação) e muitos outros.

Passei de ano e já novo diretor na escola, o Coronel do Exército, Flavio Mendonça. É que estava eu lá com meus 11 anos, perdido do juízo, doido de pedra e já todo metido irreverente cheio das pregas e desobediente sem causa. Era período das calças boca de sino. A escola permitia 15 centímetros e eu usava 35. A secretária Lalinha se assustava e não me deixava impune rasgando para eu consertar no dia seguinte, coisa que me fazia aumentá-la mais ainda: 75. Parecia uma saia longa de quando virar o abanhado saber lá todo tipo de lixo arrastado embaixo. Findei suspenso pela primeia vez. Depois outra suspensão: descobriram que eu havia feito cirurgia de fimose e mangavam chamando de capado, principalmente duas crentes que sentavam na primeira fila da sala. Aí, um dia, fechei a porta e botei o pingulim pra fora: - Olhe aqui o capado, seus porras! -, foi um desastre. As duas intrometidas desmaiaram na hora e a classe entrou num verdadeiro escarcéu. Zé Dácio, o sensor, entrou abruptamente e me flagrou com a bilonga nas mãos. Pra secretaria. Lá vou ter com o coronel que logo apareceu, falou comigo em tom de brincadeira e saiu. Foi a Lalinha que me deu a notícia: mais 15 dias de suspensão. No final, seria um ano ótimo pelas travessuras dos colegas Marcos Loureiro e do baterista Help, o vice campeonato de futebol de salão, o professor João José que foi quem me redimiu numa noite de festa, quando a luz apagou e acendeu de repente, aí houve o flagra das distintas crentes malquistas arengando com as mãos na botija dele. Tudo isso afora outras presepadas boas pra lorotas pela noite adentro. Esse ano só não foi melhor mesmo porque sempre apesar de desleixado, estava de férias em setembro passado por média. Mas esse não, esbarrei na ranzizice da professora de Matemática, Maria Francisca, uma das muitas filhas do poeta Raimundo Alves de Souza, que ingicada comigo me deixou pra final e segunda época, findando reprovado com a dita cuja. Lá vou eu repetir de ano já com novo diretor: o dentista Boaventura Rodrigues Silva. Foi ótimo, estava eu com quase 12 anos e com o olho virado pruma peça teatral que aconteceu numa sexta de tarde. Foi, apaixonei-me pelo teatro desde da primeira vez que eu vi um drama encenado no ginásio. E eu que vivia de blém-blém inventando músicas sem nem saber tocar, agora estava pronto para aprender a tocar violão também. Aprendi sozinho como diz Ascenso Ferreira: aprendi sem se ensinar. E logo me meti com música e teatro virando poetastro de plantão. Era o começo na vera do meu entortamento.

O bonito de mesmo era ver o desfile do ginário no dia 7 de setembro. Isso sim, chega dava orgulho vê-lo passar com Elita no bombão da frente acompanhada por uma turma que batia bem na banda, enchendo os olhos de todos os simpatizantes duma empáfia ímpar e só saboreada nessa festividade, ou no dia 08 de junho, anversário da cidade. Era um demorado desfile porque o ginásio sempre vinha com toda aparatosa tuia dos seus mil e tantos alunos enfileirados por série em cada bloco. Dava gosto de ver. Só era ruim eu ter que marchar, coisa que não gostava, mas adorava apreciar o ginásio no desfile, artimanha que só consegui de fato depois que me transferi ao concluir a repetência do segundo ano aprovado pro terceiro, para estudar de noite no Colégio José Ferreira Gomes que funcionava no mesmo prédio. Isso foi uma jogada minha que já trabalhava como carimbador oficial no cartório do meu pai, armado de uma declaração do Juiz de Direito dando-me condições de aos 12 anos estudar nesse horário. Pelo visto eu me virava bem na busca pela emancipação.

Ah, esse ginásio vive no meu coração.

Veja mais aqui, aqui e aqui. 

 

DITOS & DESDITOS – Está cada vez mais claro que o destino do universo dependerá cada vez mais dos indivíduos, à medida que a confusão da burocracia permeia todos os cantos de nossa existência. Pensamento da premiada dramaturga e escritora irlandesa Edna O’Brien. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Essas crianças estão nas ruas porque, no Brasil, ser pobre é estar condenado à marginalidade. Estão nas ruas porque suas famílias foram destruídas. Estão nas ruas porque nos omitimos. Estão nas ruas, e estão sendo assassinadas. No Brasil não existe filantropia, o que existe é pilantropia. Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura. O desenvolvimento humano só existirá se a sociedade civil afirmar cinco pontos fundamentais: igualdade, diversidade, participação, solidariedade e liberdade. Tudo pode parecer difícil, até que você pense o contrário. Existem varias formas de cometer um erro, mas só sabemos disso quando acontece. O que somos é um presente que a vida nos dá. O que nós seremos é um presente que daremos à vida... Pensamento do sociólogo e ativista dos direitos humanos, Herbert Sousa - Betinho, (1935—1997). Veja mais aqui e aqui.

 

ALEGORIA DO NAVIO – [...] Sócrates – Percebo que te divertes à grande por me ver às voltas com uma questão tão árdua; mas ouve a parábola e te divertirás ainda mais com a pobreza de minha imaginação. É tão ruim o trato que os homens mais judiciosos recebem de suas cidades que nenhuma outra criatura sofre coisa semelhante; por isso, a fim de fazer-lhes a defesa necessito recorrer à ficção, compondo uma figura com muitos elementos diversos, como os pintores ao pintar os fabulosos cervos-bodes e outros seres da mesma espécie. Imagina, pois, que num navio ou numa frota existe um capitão mais corpulento e robusto que os seus comandados, mas um tanto surdo e curto de vista, também não muito forte no que tange aos conhecimentos náuticos. Os marinheiros estão em disputa sobre o governo do navio, convencido cada qual de que tem direito a assumir o leme, sem jamais ter aprendido a arte de timoneiro nem poder indicar quem foi seu mestre ou a ocasião em que estudou; muito ao contrário, asseveram que isso não é matéria de estudo e, o que mais é, estão dispostos a fazer em pedaços quem quer que os contradiga. Esses sujeitos rodeiam o comandante, instando com ele e empenhando-se para por todos os meios para que lhes entregue o timão; e sucede que, não logrando persuadi-lo e vendo que outros lhes são preferidos, dão morte a estes e os lançam pela borda, embotam os sentidos do honrado capitão com mandrágora, vinho ou qualquer coisa e se põem a mandar no navio apoderando-se de tudo que nele existe. E assim, bebendo e banqueteando-se, prosseguem a viagem da maneira que seria de esperar num caso desses. Àquele que toma o seu partido e os ajuda a apoderar-se do comando pela persuasão ou pela força chamam-no homem do mar, bom piloto e entendido em náutica, ao mesmo tempo que tacham de inútil ao que não procede assim; e tampouco entendem que o bom piloto deve preocupar-se com o ano, a estação, o céu, os astros, os ventos e tudo mais que se relaciona com a arte se pretende realmente qualificar-se para a direção de um navio – e, estando verdadeiramente qualificado, ele é quem tem dirigi-lo, queiram os outros ou não. Nunca encaram a sério, como parte de sua profissão, essa possibilidade de unir na mesma pessoa a autoridade com a arte de marear. Ao suceder tais coisas num navio, não crês que o verdadeiro piloto será chamado um visionário, um charlatão e um inútil pelos marinheiros assim amotinados? Adimanto – Ah! Sem dúvida. Sócrates – E por certo não precisas ouvir a interpretação da alegoria, que descreve o verdadeiro filósofo em sua relação com a cidade; pois já a entendeste muito bem. Adimanto – Sim, claro. Sócrates – E se apresentasses agora esta parábola àquele cavalheiro que se admirava de ver que os filósofos não recebiam nenhuma honra em suas cidades? Explica-lha e trata de convencê-lo de que seria muito mais extraordinário se a recebessem. Adimanto – Assim farei. Sócrates – Dize-lhe que tem toda a razão ao considerar inúteis para o resto da humanidade os melhores cultores da filosofia; mas não te esqueças de acrescentar que a culpa dessa inutilidade cabe aos que não querem servir-se deles, e não a eles próprios. Os pilotos não devem suplicar aos marinheiros que se deixem comandar por eles, pois essa não é a ordem natural da coisas; nem tampouco devem “os sábios pedir à porta dos ricos”… o engenhoso autor deste conceito não fez mais do que mentir… mas a verdade é que quando um homem está doente, seja rico ou pobre, à porta do médico tem de ir bater, e quem necessita ser governado à de quem possa governa-lo; nem o governante que para alguma coisa sirva pedirá aos governados que se deixem governar. Não errarás, por outro lado, se comparares os que atualmente governam com os marinheiros de que falávamos há pouco, e aos que estes chamavam inúteis e papalvos, com os verdadeiros pilotos. [...]. Trecho extraído da obra A República (Nova Fronteira, 2011), filósofo grego Platão (428/427–348/347 aC.). Veja mais aqui e aqui.

 

A MENTE É UM PAÍS SELVAGEM E BELO – [...] O homem precisa voltar às suas origens, pessoais e raciais, e aprender de novo as verdades da imaginação. E nessa tarefa seus estranhos instrutores são a criança, que mal entrou no mundo racional do tempo e do espaço, e o louco, que apenas escapou dele. Pois somente esses dois estão, até certo ponto, libertados da pressão desapiedada dos acontecimentos diários, o impacto incessante dos sentidos externos, que oprimem o resto da humanidade. Esse curioso par viaja ligeiro e empreende jornadas distantes e solitárias, às vezes trazendo, ao voltar, um ramo reluzente da Floresta de Ouro pela qual vagueou. [...]. Trecho extraído da obra Savage & Beautiful Country: The Secret Life of the Mind (Daimon, 1988) do médico e piloto britânico Alan McGlashan (1898-1997).

 

MANIFESTO CRACK - II. Genealogia de crack - Em seu conhecido ensaio México em seu romance, o crítico norte-americano John S. Brushwood insistia que Yáñez havia estabelecido a tradição do “romance profundo” em 1947 com a publicação de Al filo del agua. Mais tarde, em 1955 e dentro da mesma tradição, aparece Pedro Páramo, de quem o próprio Brushwood diz: o que é. que ela diz A relutância a uma participação tão ativa é compreensível, mas na minha opinião os resultados no final valem o esforço”. O que em ambos os casos não deixa de chamar a atenção é, em primeiro lugar, o adjetivo apropriado "profundo" para se referir a uma tradição ou cadeia piedosa de romances e romancistas que, na época. Quando Brushwood fala, por exemplo, da "dificuldade de acesso" a certos livros, os autores de Crack pensam imediatamente no romance "com exigências" e "sem concessões"; “exigências” cujos resultados, afinal, “valem o esforço” e “concessões” que servem, a longo prazo, apenas para enfraquecer ainda mais o panorama de nossa narrativa e desencorajar leitores honestos. O dilema, então, com esse grupo de romances do Crack é que eles tentam heroicamente a façanha de encontrar o que Julio Cortázar chamou de "participação ativa" em seus leitores justamente quando uma abominável "relutância" é o que vende e o que por sua vez consome seus leitores. Assim, a genealogia do Crack está se formando. O Crack desvenda e desvenda os livros aos quais se sente devedor e também os livros aos quais se sente anatematizante ou inquisitivo. Ao lado dessa tradição que tem seu esplendor com Yáñez e Rulfo, como já dissemos, os romancistas do Crack reverenciam aquelas poucas obras chamadas Farabeuf, Os Dias Terrestres, A Obediência Noturna, José Trigo, A Morte de Artemio Cruz e alguns mais. Mas, e desde então, o que acontece? Quais são essas outras obras exemplares da nossa literatura ou, pelo menos, quais são essas histórias em que nós, autores nascidos nos anos sessenta, podemos hoje regar ou mesmo encontrar um modelo digno para tentar tirar-lhe a vida e, depois, usurpar um trono? Não há nenhum; eles estão morrendo de anemia e complacência. Os riscos e o desejo de renovação definhou. Uma lacuna de várias décadas inunda o ambiente das letras com absenteísmo, seja com romancistas que não escrevem ou, pior ainda: com escritores que não podem ser chamados de romancistas. São poucos, para ser franco, as exceções e seus romances não passam de bons, repito: polidamente bons, sem nenhum terror que contrarie o brando contrato social, a branda norma literária. A piedosa cadeia de romances legitimamente "profundos", então, sofre um revés quando as grandes editoras começam a hesitar há alguns anos e preferem vender ao público títulos apócrifos "profundos", apócrifos literários, dando assim aos leitores uma quantidade indescritível de "gatos". por dinheiro." lebres” e desativando no processo a avidez de demanda que textos como Amarelinha, La vida breve ou Cem anos de solidão renderam. O fenômeno hoje se torna tão portentoso e evidente que não resta senão dizer que é um fato lamentável. Porém, Os romancistas de crack sonham que em algum lugar da nossa República analfabeta há um grupo de leitores fartos, cansados, fartos de tantas concessões e tantas indulgências. Eles, você, não podem mais ser enganados. As concessões, repito, os desconcertam e só os levam a pensar que sua própria capacidade está sendo minada. A esse grupo de indivíduos, vocês, infelizmente, alguns milhares, desejam chegar aos romances de Crack, seguindo, repito, aquela genealogia que desde os Contemporâneos (ou talvez pouco antes) forjou a cultura nacional quando quis tomar e riscos estéticos. Não há, portanto, ruptura, mas continuidade. E se houvesse alguma forma de ruptura, seria apenas com o lixo, a corrente nociva Gérber, a literatura de mush-dupe-ingênuo, o romance cinicamente superficial e desonesto. Em todo caso, a verdade é que não importa o que eu diga aqui ou o que qualquer um dos meus colegas diga: os romances de Crack vão falar por si mesmos. Ali estão. Chamam-se: O temperamento melancólico, Memória dos dias, Se suas majestades voltaram, A conspiração idiota e As Remoras. Se há um denominador comum neles, acho que é o risco estético, o risco formal, o risco que sempre implica o desejo de renovar um gênero (no caso o romance) e o risco que significa continuar com o mais profundo e árduo temos, sem preâmbulos eliminando o superficial, o desonesto. Pare de subestimar você. Mas como diz o poeta Gerardo Deniz e no meu caso virou slogan: “O tempo não cura. Verificações de tempo." Vamos esperar o tempo para dar sua última palavra ao Crack. Texto escrito pelo Eloy Urroz no Manifesto Crack (1996), dando conta do Movimento Crack, ou literatura da geração Crack, descrevendo o movimento mexicano que começou em meados da década de 1990, iniciado por vários autores mexicanos que romperam com as convenções literárias, tais como Ignacio Padilla, Jorge Volpi, Pedro Ángel Palou García e Ricardo Chávez-Castañeda. Veja mais aqui.

 

O IDIOTA - [...] Todavia a pergunta fica de pé:que fará um autor com gente comum, absolutamente 'comum', e como há de colocá-la diante do leitor tornando-a interessante? É de todo impossível deixá-la fora da ficção, pois essa gente do lugar-comum é, a todo momento, o principal e indispensável anel da cadeia dos negócios humanos. Se os deixarmos de fora perdemos toda a verossimilhança com a realidade. Encher uma novela completamente só com tipos, ou melhor, querer torná-la interessante mediante apenas caracteres estranhos e incríveis será querer torná-la irreal e até mesmo desinteressante. A nosso ver, um escritor deve procurar a torto e a direito enredos interessantes e instrutivos mesmo entre gente vulgar. Quando, por exemplo, a natureza mesma de certas pessoas vulgares reside justamente em sua perpétua e invariável vulgaridade, ou melhor ainda, quando, apesar de todos os mais estrênuos esforços para fugir à órbita da mesmice e da rotina, essa gente acaba por se sentir invariavelmente ligada para sempre a essa mesma rotina, então a gente adquire um caráter sui-generis, todo seu, o caráter da vulgaridade, desejosa acima de tudo de ser independente e original sem a menor possibilidade de o conseguir. [...] Não há, com efeito, nada mais aborrecido do que ser, por exemplo, rico, de boa família, ter boa aparência, ser bastante esperto e mesmo sagaz e todavia não ter talento, nenhuma faculdade especial, nenhuma personalidade mesmo, nenhuma ideia pessoal, não sendo propriamente mais do que 'como todo mundo. [...]. Trecho extraído da obra O idiota (José Oympio, 1967), do escritor russo Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821 - 1881). Veja mais aqui e aqui.

 

UMA POESIA - Andei na vida pergunta fazendo morrendo de tédio, de tédio morrendo. Riram os homens de meu desvario... É grande a terra! Se riem... eu rio... Escutei palavras; demasiadas palavras! Umas são alegres, outras são macabras. Não pude entende-las; pedi as estrelas linguagem mais clara, palavras mais belas. As doces estrelas me deram tua vida e encontrei em teus olhos a verdade perdida. Oh! teus olhos cheios de verdades tantas, teus olhos escuros onde o universo meço! Segura de tudo me jogo a teus pés: descanso e esqueço”. Luz, poema da poeta argentina Alfonsina Storni (1892-1938). Veja mais aqui e aqui.

 


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