domingo, abril 24, 2016

PARECE QUE FOI ONTEM SER PAI NO ANIVERSÁRIO DA FILHA


PARECE QUE FOI ONTEM SER PAI NO ANIVERSÁRIO DA FILHA - Parece que foi ontem. Nem tinha tirado direito a catinga do mijo e já me achava o bafafá de todas performances! Pudera, já autossustentado travesso com trabalho e salário desde os dez anos de idade, cheio das pregas com um bigodinho ralo embaixo das ventas e pêlos em partes do corpo aos onze, todo metido com as fuças nos livros e passeios noturnos na zona do baixo meretrício aos doze, um poetastro prepotente e cheio das razões com amostramentos amalucados aos treze, pintando o sete no violão e se achando o cara do sucesso sem o menor preparo pras artes aos catorze, carimbando a adulteza antecipada com um casório às pressas aos quinze e a coroação de homem feito ao me tornar pai pela primeira vez na vida aos dezesseis, diga-se de passagem, é ou não uma vida atribuladíssima de tresloucadas experiências tantas dum calouro do rabo fino, que se metia na vida como se fosse o herói da capa de revista. Nesse tempo eu não tinha a menor consciência dos meus defeitos. E como me achava dono do meu próprio umbigo, levava tudo no peito, sem enxergar um palmo além do nariz e já me preparando pra faculdade ser alguém na vida. E como não tinha futuro algum, contrariei logo meu pai que me queria advogado e minha mãe um médico: fui fazer Letras. O revestrés das voltas que a vida dá pra eles. Eu queria era ser escritor, avalie. Menos pior, ora, no mínimo não ia desequilibrar o senso de justiça da humanidade, nem ia colocar em risco a vida de qualquer paciente, principalmente porque eu não podia ver seringa que desmaiava na hora. Que coisa! Por isso, a opção de ser escritor caía como uma luva na minha vida destemperada de mitômano incorrigível. E como não sabia o que fazer diante de todos esses acontecimentos, eu levava a minha adolescência nos anos 1970/80 com a transição da modernidade, a ditadura militar e toda a previsão de decadência moral e cultural desse tempo, saboreando a infância de bicho solto, libertino, indisciplinado e desobediente, com toda a sorte de excesso e sem reconhecer a privação da liberdade de expressão e ação. Não obstante, tinha de mudar de jeito para me tornar num exemplo que fosse modelo capaz de promover o desenvolvimento de uma criança saudável e ética. E como não tinha ninguém nem nada para me orientar, segui o aprendido nos livros e passando por experiências, muitas não deram certo, quase todas serviram apenas de lições que, aqui e ali, acertava a levar a vida da forma que fosse possível. Correndo atrás do futuro, ocupado e ausente por conta da luta pela sobrevivência, no final de semana, eu me investia das travessuras de criança e cantávamos alto e em bom som a nossa infantilidade. Para me poupar de maiores preocupações na posteridade e não criar expectativas nela, a gente brincava: - Seu pai é um homem ou um prato de papa? E ela, em cima da bucha, respondia: - Um prato de papa! E a gente às gargalhadas. Para quem sempre foi descuidado, desequilibrado, sem a mínima noção do certo ou errado, confundindo tudo e sem saber como repreender ou punir, aprendi da pior forma possível. Segui, então, como se diz na minha terra: aprendendo sem se ensinar. Ou seja, da forma mais difícil, porque foi a escola da vida que me deu todas as bofetadas, puxões de orelha, safanões e banguelas pro regramento necessário no aprendizado do que é viver no mundo. Foi essa escola da vida que me disse raivosamente: - Você toma jeito, seu cabra! Aí, fui escapando, me espremendo todo e aprendendo na marra o impacto de conciliar os contrários e harmonizar a contradição, distinguindo o agora do amanhã, reelaborando a forma de pensar na compreensão do que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, a necessidade de saber renunciar de sonhos e desejos, sem ter que ficar frustrado nem me martirizando pro resto dos séculos, amém. Numa trajetória de altos e baixos, mais de decepções, privações e sacrifícios entremeados por fugazes alegrias que foram marcantes e que ainda alimentam minha alma numa trajetória rica de experiência, passaram-se os anos. O que eu aprendia, ensinava pra ela que chegara ao mundo para me encher de empáfia, a ponto de mostrar pra tudo e todos: - Olhe eu aqui, sou o pai dela. Na verdade, aprendíamos juntos. Então, ela crescia e eu administrava a minha nova condição, mantendo viva a infância que jamais desertara de mim até hoje. Refiz o caminho: ela crescendo e eu revivendo tudo com as brincadeiras infantis, as leituras de Lobato, Andersen, La Fontaine; brincávamos de teatro, adivinhações, trava-línguas, cantorias, e quando ela se cansava, eu saía escondido da mãe, altas horas da noite e me sentava ao lado da sua caminha, contando historinhas ou escolhendo relatos das experiências maravilhosas que eu havia passado durante toda a minha vida. Quando dei fé, nem havia percebido que ela crescia e foi se fazendo mulher feita, enquanto eu ainda reinava da criança que insistia permanecer viva em mim. O melhor de tudo é que de todas as besteiras, papeladas e desatinos que cometi na minha vida de prato de papa, a única que se diga digna de nota em tudo que fiz de valia até hoje, é ter ela por obra-prima, a minha filha. Feliz aniversário. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

 Imagem: a arte do pintor do Simbolismo belga Fernand Khnoff (1858 - 1921).

Curtindo o álbum Música Plural (SESC, 2009), do grupo independente Percorso Ensemble, fundado em 2002 pelo maestro e percussionista Ricardo Bolongna e formado por instrumentistas que se dedicam à execução de obras do século XX e de hoje.

PESQUISA
Relendo a obra ABC da Literatura (Cultrix, 1977), do poeta, músico e crítico literário estadunidense Ezra Pound (1885-1972). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
Releitura do livro Enterrem meu coração na curva do rio (Bury My Heart at Wounded Knee -1970 / L&PM, 2003), do escritor e historiador estadunidense Dee Brown (1908-2002). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA
Por trás de um pai tristonho
Há sempre uma filha feliz
Suspirando com seus sonhos.

Veja mais o Projeto de Extensão Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, Ítalo Calvino, Serge Gainsbourg, Guy de Maupassant, Nicolau Maquiavel, Cole Porter, Maria de Medeiros, Odilon Redon, Jane Birkin, Quasar Cia de Dança & Ivo Korytowski aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

 Imagem: a arte do pintor do Simbolismo belga Fernand Khnoff (1858 - 1921).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.


ERNESTO SÁBATO, EDWIGES DE SÁ PEREIRA, MARIA FIRMINA DOS REIS, ADMAURO, LUCIAH, FENELON & PNTANDO NA PRAÇA

PINTANDO NA PRAÇA - Manhã ensolarada de sábado, nuvens em trânsito e chuva passageira para amainar o calor, olhares dispersos, muita conve...