quarta-feira, novembro 21, 2018

CANTO MAPUCHE, WASHINGTON IRVING, ALMA CAETÉ, SÁ&RODRIX&GUARABYRA & LETRA DE MULHER


CANTO MAPUCHE - Meu coração viajante segue em paz pelas distâncias mais remotas nos escalavros do tempo e se faz solidário ao povo Mapuche nas lágrimas de Sudipa Tita Parra que escoam pelo Biobio e Toltén na morte de Camilo Catrillanca. Nossas vozes se unem para resistirem desde a Guerra do Arauco por mais de trezentos anos e sou ela e todos dali. Meu coração andejo sequioso de impenetráveis caminhos não se abate com a ruindade por milhas de extensão no confinamento deste povo em reduções e reservas no processo de despojo, porque dele eu sou como a Terra e o Ar. Meu coração se faz trezentos batimentos indignados em coro com Tita: “No màs violencia y asesinatos en nuestras Vida!!!!” e clama por vida enquanto os maus tratos são assíduos infortúnios e os meus trezentos cantos ecoam Danko Ulloa: “Hay que hacer em cada momento lo que em cada momento es necessário”. Meu coração persegue em cantar trezentas vezes mais diante da intolerável opressão na luta pela recuperação do território ancestral por tantos conflitos e me doem a alma caeté a exploração e discriminação aos massacrados pelo extermínio no enfrentamento com a brutalidade e as invasões ilegais nos tribunais fiadores dos abusos e da impunidade. Meu coração se transforma em trezentas toadas para os mapuches presos condenados pela política genocida, enquanto o fogo consome a escola rural de Chequenco e a capela de Trañi-Trañi. E mais trezentas vezes mais sou em Santiago, onde milhares lamentam a morte rondando esse povo indígena e fazem com que meu coração txai siga a canção sagrada do vento trazentas vezes trezentas e persiga o sopro da ventania entre as pedras e as águas, a se manifestar com todos os sons do cultrún, da trutruca, da pifilca, Ñorquin, quinquer-cahue em zis canções que falam por si porque tudo é sagrado na alma e na dança do amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] As coisas foram indo de pior em pior à medida que os anos matrimoniais passavam; um temperamento azedo não se edulcora com a idade, e lingua afiada é o único instrumento de corte que não fica embotado com o uso. Por longo tempo Rip consolou-se, quando posto fora de casa, com uma espécie de clube de sábios, filósofos e outros vadios da cidade [...] O pobre Rip já estava quase deduzido ao desespero; seu único recurso para escapar ao trabalho da horta e às celeumas da esposa reduziu-se a passar a mão na espingarda e afundar na floresta. [...] Num desses passeios pela floresta, por um belo dia outono, Rip distraidamente alcançou um dos pontos mais altos da Kaatskill. [...] Começou a descer, súbito, uma voz, longe: “Rip van Winkle! Rip van Winkle!”. Ele olhou em torno e nada viu além dum corvo solitário a riscar o céu. [...] surpreendeu-se de dar com um ser humano ali naquele deserto; mas imaginando que alguém morador das vizinhanças necessitado de assistência, foi-lhe depressa ao encontro. [...] Trazia ao ombro um pesado barrilete [...] Rip assentiu, com a sua habitual bonomia; e revezando-se, os dois se foram de barrilete às costas. [...] Ao verem chegar o companheiro com aquele desconhecido, largaram do jogo e puseram-se a olhar para Rip com tanta fixidez de estátua e tais caras que o coração deste conturbou-se e seus joelhos flectiram. O homem do barrilete despejou o conteudo em várias pichorras e fez-lhe sinal para que servisse aos homens. Rip, a temer, obedeceu em silêncio; e no maior silêncio os jogadores emborcaram as pichorras, voltando em seguida ao jogo. Aos poucos for amortecendo em Rip o medo. Chegou até a provar da bebida [...] E tantos goles repetiu que a tonteira veio, os olhos turvaram-se-lhe, a cabeça foi descaindo – e afinal desabou por terra, tomado de profundo sono. Quando acordou, viu-se no ponto de onde pela primeira vez vira o homem do barrilete [...] a pichorra... “Oh, aquela pichorra, aquela maldita pichorra!”, pensou Rip. “Que desculpa irei dar a Dame van Winkle?” [...] O nome da criança e mais o tom da voz e o ar da mãe buliram com as memórias de van Winkle. – Como é o seu nome, moça bonita? Perguntou ele. – Judith Gardenter. – E quem era seu pai? – Ah, coitado! Chamava-se Rip van Winkle, mas há vinte anos que saiu de casa com a caçadeira e nunca mais voltou; o cachorro reapareceu sozinho; mas se ele suicidou-se no mato ou foi levado pelos indios, ninguém sabe. Eu era tão pequenitota. [...] Um orvalho de alivio caiu afinal na alma de van Winkle, e o pobre homem não pôde conter-se mais tempo. Abriu os braços para a filha e o netinho choramingão, exclamando: - Sou teu pai, minha filha! [...] Trechos do conto Rip van Winkle (Ridel, 2007), do escritor, biografo, ensaista, historiador e diplomata estadunidense Washington Irving (1783-1859). Veja mais aqui.

A ARTE MAPUCHE
 

AGENDA:
Letra de Mulher – Roda de Converça do Coletivo Marianas & muito mais na Agenda aqui.
&
Alma Caeté aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
&
O vôo de Magritte, Milan Kundera, Egberto Gismonti, Rene Magritte, Haroldo de Campos, Barbosa Lima Sobrinho & A Revolução Praieira, Cortês, Zé Ripe
Célia Labanca & Das coisas da minha terra aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do trio de compositores Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix & Gutemberg Guarabyra: Outra vez na estrada, Cadernos de Viagem, Terra, Passado, Presente & Futuro & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais  aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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terça-feira, novembro 20, 2018

TATJANA VASSILJEVA, MARIA ISAURA QUEIRÓZ, BRYCE CAMERON, CARNEY GRIFFITHS, CONSCIÊNCIA NEGRA & CANTO PÁ QUENTÁ


TIRANDO DE LETRA – Art by Carney Griffiths - Tenho dormido bem, sonhado muito, inclusive, de olhos abertos, mantido uma dieta saudável, acho, pois, não abuso de açúcar ou sal; tomo umas poucas cervejas vez em quando e isso nos finais de semana quando muito, não faço uso de droga nenhuma, nem lícita nem ilícita – às vezes me rendo ao tabagismo e a um chazinho caseiro desses de raízes compradas na feira e só, também me acho filho de Deus, mesmo cônscio de que não sou santo nem pretendo ser perfeito, valha-me. Todavia, quando acordo e boto a cara na rua, desconfio que o dia está mais parecido ao de ontem ou mesmo anteontem e disfarçados de amanhã. Tanto é que agora sempre corro o dedo pelo calendário e mesmo que ele siga adiante por dias, semanas, meses, anos, não me convence ser coisa do crástino: como se o futuro fosse passado ou o tempo estivesse parado mesmo que o dia passe pra tarde, entre pela noite madrugada adentro e tudo seja a mesma coisa. Pode uma coisa dessas? Peraí, ou estou ficando doido – o que não seria nenhuma novidade para mim, juro que não tenho sanidade mental -, ou esse filme eu já vi mais de uma vez, reprises intermináveis. Será possível? Não, não estou assistindo muita televisão, sei que tem quem se deixe influenciar por essa caixa idiota, que ensina a todo mundo a ser pelo menos tagarela, só diga asneiras e veja o mundo quadrado de cabeça pra baixo com tudo às avessas. Já desliguei faz tempo. Da mesma forma, já estou ciente que tem cérebro subutilizado apenas para tirar proveito em tudo e em qualquer ocasião, dando sempre a impressão de que há sempre um tolo de plantão – e esse, com certeza, sou eu, ninguém mais. A desconfiança é tanta que quase sempre constato, por exemplo, que quando um médico resolve um problema, cria outros tantos da gente sucumbir feito uma boceta de Pandora ambulante, sobrecarregados de cachetes e variando pra cima e pra baixo, à procura de um advogado que nos deixará no fim da picada e tratando-nos como um minotauro aprisionado aos labirintos da ilegalidade, uma vez que este só arruma mais bronca e não resolve absolutamente nada. Por isso me sinto quase frito e sem saída, cheio de nó pelas costas, mergulhado numa onda em que o que se aprende não vale nada e que cada um – pelo menos eu mesmo – é apenas um inútil que está na vida só pra dar trabalho à humanidade. Estou quase certo que Deus fez o mundo em seis dias e isso todo mundo sabe; o que não se sabia é que a partir do sétimo dia começou a aparecer pitaqueiro até de um olho só e com um rei na barriga para dar um retoque ali, um consertinho aqui e outros tantos pra botar tudo abaixo segundo seu próprio juízo, fazendo gambiarras sem fim, até dar um nó cego tão grande de deixar todo mundo nessa zona insolvente. Até os dez mandamentos que eram vinte, hoje estão todos quebrados. E já dizia Mark Twain: se Jesus vivesse hoje não seria cristão. Ôpa! Ou eu não estou entendendo nada ou a coisa disparatou de vez e a gente roda e não sai do lugar. Entramos naquela de jurar que nunca faremos de novo e que seremos mais cuidadosos da próxima vez, isso se não se aventurar de jogar com toda força a primeira pedra no ventilador do teto só pra ver o circo pegar fogo. Que tem gente que não se manca, a gente está careca de saber, todos autores das boas ideias que não funcionam e que fazem do inferno uma tolerante convivência recheada de boas intenções com ressentimentos prontos para golpear pelas costas. O que ocorre é que por mais seguro que se ache, há sempre alguém olhando e pronto pra dedar e se achegar na chantagem. Estou quase com a certidão de que não existe mais boa vontade porque todos estão ocupados em se esconder das garras da Receita e Polícia Federais e da Justiça Eleitoral – claro, qualquer coisa que fizer pode ser enquadrado numa dessas fabricações legais extraordinárias que se formam pelas jurisprudências das decisões mais casuísticas. É o que deixa claro a política no Brasil: quando não é conversa pra boi dormir, é conto do vigário - alguém sempre sai lesado, e não é outro senão o próprio eleitor iludido e mal-pago que se vinga contra o primeiro otário que aparecer, e passa a ocupar cargos em qualquer instituição das três esferas e em quaisquer níveis do Poder, só para atrapalhar a vida dos outros, quando deveriam estar atendendo numa pizzaria ou similar, ou mesmo atrás das grades, pelo menos. Com esses, só vale o que se exije por escrito na disfuncionalidade burocrática, em papel assinado com duas testemunhas e passado em cartório, registrado e carimbado para que vire um litígio de séculos. Ainda bem que não sou Shaw, mas bem que podia. Como tenho relevado muito desaforo que não respeita a minha cidadã morenice ameríndia afrodescendente, tiro por menos e sorrio compreensivo para dizer que a minha indignação está pelo gogó e que não sou palito de fósforo para sair por aí tocando fogo em tudo que é monturo. Para aliviar minhas neuras, aprecio sem moderação a Natureza, a imensidão dos céus, as belas mulheres que passeiam, o colorido das coisas, tudo para fazer valer que vivo e vale a pena. Quer saber? Se a vida está um bocado indigesta e cheia de catabís, faço por onde só me alimentar daquilo que não me cause queimores no bucho e mal-estares na caixa dos peitos, pois aprendi que se a gente se levar muito a sério, acaba tendo um troço e acabou-se o que era doce. Amém & amem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A análise da evolução da posição socioeconômica dos negros na sociedade global, formada pela cidade de São Paulo, mostra que a consciência étnica, representada pelo aparecimento das associações voluntárias, é sutil e móvel em estreita relação com o desenvolvimento sócioeconômico, ameniza-se ou expande-se segundo haja facilidade ou não para os negros ascenderem [...] Agem, pois, os preconceitos como racíonalizaçâo da abertura ou do fechamento do mercado de trabalho da sociedade global, em cada uma de suas camadas, mas as causas da abertura e do fechamento não se encontram na existência ou não de preconceitos, e sim no interior da própria sociedade global como tal que, historicamente formada de brancos e negros, estes ocupando historicamente um nível inferior, caracterizada economicamente como uma sociedade capitalista,desenvolve para ambos as possibilidades de ascensão sócioeconômica, conforme as necessidades internas do seu mercado de trabalho [...].
Trechos extraídos da obra Cultura, sociedade rural, sociedade urbana no Brasil (EdUSP, 1978), da sociológa e premiada escritora centenária Maria Isaura Pereira de Queiróz Veja mais abaixo.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista estadunidense Bryce Cameron. 
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AGENDA:
Canto pá Quentá – Mundaré, Tambor de Crioula, Guriatã, Samba de Roda & Samba de Murixaba & muito mais na Agenda aqui.
&
Consciência Negra aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
&
A professora & a festa do espalhafato, Nitolino, Antonio Skarmeta, Iberê Camargo. Jules Michelet, Alda Lara, Isonomia & Walbert de Moura Agra, Panelas, Elis Regina, Al Di Meola, Claudia Telles & Felipe Coelho aqui.
&
Conversa de sinal, Hermilo Borba Filho, Marcel Proust, Giorgio de Chirico, A mundialização de François Chesnais, Educação & Capitalismo de Ladislau Dowbor, Xexéu, Culto à Mawu, Gal Costa, Chico Buarque, Geraldo Azevedo, Caetano Veloso, Lenine, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Alceu Valença, Ivan Lins, Adriana Calcanhoto, Elza Soares & Maria Bethania aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da premiada violoncelista russa Tatjana Vassiljeva interpretando Rococó Variations Tchaikovsky, Double Concert Brahms, Sonatas de Schubert & Schostakowitsch & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.


segunda-feira, novembro 19, 2018

VILLA-LOBOS, MAGDA SZABÓ, SAMUEL CASAL & ESTAÇÃO DO BEM CATENDE


MANDANDO VER NA ENROLAÇÃO – Imagem: Violeiro, do quadrinista e ilustrador Samuel Casal. - No meio das Leônidas, quase aprendi as lições de Leandro Gomes de Barros: glosar os motes da vida. É que na chuva de canivetes e meteoros, eu colhia versos e rimas pra nunca passar de água doce no cordel: a légua é tirana e a gente não se cansa à toa. Pensando bem, tem de se saber se o buraco do coração é mais pra baixo ou mais pra cima, depende de quem sobrevive ao intervalo entre as gargalhadas e o desapontamento. O que nunca se soube de mesmo é ter tudo na conta da moderação. Não sei como ter a coragem de se negar ao prazer: cadê o gato na hora que as coisas vão de mal a pior. Não dá pra chutar o vento, coisa mais besta; e doi demais os dedos dos pés ou das mãos na parede, num é não? O pior é tomar ciência de que um laboratório encontrou rios de insatisfações na dose da bebida, sem contar mágoas e outras tantas frustrações contaminando o tira-gosto e até o guisado, não sei como. Dá pra sentir cada lapada amarga demais, e o cachorro engarrafado joga a culpa no mictório (alguém ainda usa penico, hem? Não cabe, né?). De uma coisa estava certo: o meu problema não estava pendurado atrás da porta; estava ali, inexorável, naquilo que parentes e amigos dizem pelas nossas costas – queando não cospem pra cima, cospem na cara ou na cova da gente. Até então, tinha pra mim: os abstêmios são sempre muito chatos, quando não papa-fortunas, papa-defuntos e por aí vai, até quem tem um bife ou um cachorro-quente por animal de estimação. É que entre a infância e a idade adúltera muitas adolescências pra sacar o que há de errado nisso ou naquilo. De uma coisa eu me valia: se Shakespeare fosse vivo escreveria os capítulos das novelas do plim-plim. E mais: tem que saber o que fazer com os cadáveres todos. Nunca chamei ninguém de animal, só que todos são tratados como tal em todo canto daqui. Afinal, fazem do Brasil um país ideal para tolote de bosta – que o digam os Fabos -, pois terão muitos com quem conversar e laralilará. A corrupção não tem jeito, todos cometem seus crimes em legítima defesa. Em quem botar a culpa, nunca aprendi direito, só sei que roubaram a rolha da marmita e nem enchi a pança direito, meu. Dá pra ver o quanto a sociedade é suicida: muitos correm para aproveitar o máximo de tudo, outros tantos nem estão aí pra quem pintou a zebra, mas quem está com pressa mesmo, hem? O certo é que se deve amar o próximo e os inimigos porque são as mesmas pessoas. E já dizia Voltaire: “É perigoso ter razão em assuntos sobre os quais as autoridades estabelecidas estão erradas”. Fica valendo: quem faz gargarejo três vezes ao dia com aguardente não pega resfriado. Tome nota, isso o Ministério da Saúde nunca advertirá. E não vá cometer a besteira de distinguir uma autobiografia de um obituário, não haverá mentira que chegue. E se é por falta de assunto ou de adeus, até mais ver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Os retratos sabem tudo, sobretudo o que prefiro esquecer, o que já não é sonho. Pois só uma vez, na minha vida, uma única vez, na realidade, e não no estado de fraqueza cerebral devida ao sono, uma porta se abriu diante de mim, que não deveria ter aberto quem se resguardava na sua solidão e na sua miséria impotente, mesmo se o tecto ardente crepitava já sobre a sua cabeça. Só eu tinha poder para fazer funcionar essa fechadura: quem rodava a chave confiava mais em mim do que em Deus, e eu, nesse instante fatal, julgava ser Deus, sábia, ponderada, boa e racional. Estávamos ambas erradas, ela, porque acreditava em mim, e eu, porque tinha fé excessiva em mim. Agora, também já não importava, porque não se podia reparar o que acontecera. Pois que venham, de tempos a tempos, essas Eríneas de alto coturno em sapatos confortáveis, máscara trágica sob a touca de enfermeiras, e rodeiem a minha cama, brandindo as espadas de duplo fio que são os meus sonhos. Eu espero-as, todas as noites, ao apagar a luz, e preparo-me para, no meu sono, ouvir retinir a campainha que faz avançar horror inominável para a porta que não abrirá jamais. [...] Penso, vezes sem conta, que, no fundo, tudo se desenrolou de uma forma muito simples. Emerence já não fazia pesar os seus problemas insolúveis sobre os raros parentes e o círculo mais ou menos definido das suas relações, tudo ela resolvera pessoalmente, num gesto autoritário, à maneira de um grande chefe guerreiro. Quando não se tem mais nada a fazer por si mesmo, porque já não se pode, convém, então, pôr um ponto final na coisa, pois, quando a humanidade caminhar há muito à escala das estrelas, os que estiverem vivos estarão longe de imaginar que, por uma chávena de cacau, nos entregámos a tristes combates, sós ou contra outros, mas, mesmo nessa altura, nunca se poderá corrigir o destino de quem não tem lugar na vida de ninguém [...].
Trechos da obra A porta (Cavalo de Ferro, 2017), da escritora húngara Magda Szabó (1917-2007). Veja mais aqui.

A ARTE DE SAMUEL CASAL
A arte do quadrinista e ilustrador Samuel Casal.

AGENDA:
Estação do Bem: Vem danado pra Catende & muito mais na Agenda aqui.
&
Catende, Ipojuca & Vale do Una aqui, aqui e aqui.
&
E pronde é que vou mesmo, hem?, Henriqueta Lisboa, Moacyr Scliar, Esopo, Julieta de Godoy Ladeira, Renata Magda, Maraial, Gustav Holst, Alisa Weilerstein, Nelson Ayres & Mona Gadelha aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do do compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959): A Floresta do Amazonas, Bachianas Brasileiras nº 4, Suite Popular Brasileira & Rasga Coração: Choros nº 10 & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sexta-feira, novembro 16, 2018

SARAMAGO, DIANA KRALL, ERNST FUCHS & MENINOS DE IPOJUCA


TODO DIA E O DIA TODO - Imagem do artista austríaco Ernst Fuchs (1930-2015). - O que é e o que é e o que não é como se fosse. Ter de suportar a qualquer hora e lugar, yanomamis e nós, da alvorada ao crepúsculo, do horizonte ao que não se sabe, até que a noite seja vencida outro dia e sempre. Em qualquer canto, a diferença e o outro que sou: a cada via muitas sensações, nem há como prever. A minha fala, a sua voz, todos os cantos: a harmonia entre os dessemelhantes, amálgamas e zis conjunções. O que mais se doa doi se não recebe, ter a doar sem espera e dar de si sem até ou que jamais se tenha. Seria sempre assim, o que dali viesse, do estranho ao reconhecível, sem considerar o que está posto. Do branco ao preto, matizes, o que da luz quantas cores. Ter de sustentar o mundo aos ombros, sonho que não valeu entre a teoria e a prática: fazer o que deve ser feito, conjugado verbo, além dos pronomes. Ter de aceitar a qualquer custo, sem a medida da dor, porque do mínimo ao polegar, tantas convenções, quantos quereres. Se tudo muda, o que se acerta do erro, o que se erra pra acertar, outros riscos: o que define por indeterminável, o que determina por indefinível. Ninguém merece e tudo ao dispor: do chão ao céu e o visinvisível para adivinhar. A minha mão e a sua, a nossa cor e a diversidade, invenção de vida entre o que se sonha para acordar. Meus olhos e os seus, em círculo, e o que não se vê em cada sentir, nada a guardar das proporções. A nossa fé e a idiossincrasia, dentro de si o que é porque real, o respeito e ter de respeitar dia a dia em qualquer lugar. O que é e o que é e o que não é como se fosse e não. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Eu sou contra a tolerância, porque ela não basta. Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro. Sobre a intolerância já fizemos muitas reflexões. A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.
Contra a tolerância (El País, 1992 – Globo, 2003), do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem do artista austríaco Ernst Fuchs (1930-2015).
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AGENDA:
Coral da Orquestra Criança Cidadã dos Meninos de Ipojuca & muito mais na Agenda aqui.
&
Ipojuca & Vale do Una aqui
&
Eita, Zé Bestão!, Erich Fromm, Jorge Forbes, Millôr Fernandes, Chinua Achebe, Viv Rosser, Jaqueira, Senso Comum, Cultura & Repressão, Jean-Pierre Rameau, Lola Astanova, Celso Viáfora & Karina Buhr aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora e pianista canadense Diana Krall: Live Show, North Sea Jazz Festival, Rio de Janeiro e Live Concert & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, novembro 15, 2018

MARIANNE MOORE, ARRIGO BARNABÉ, MANUELA EICHNER, VULVAS LIVRES & BUNITIM CRUZ-CREDO


BUNITIM CRUZ-CREDO!!!! - Imagem da artista visual Manuela Eichner. - Após assumir o Posto de nº 2 no Universo, os compromissos planetários e intergalácticos do Padre Bidião tomaram proporções para lá de complicadíssimas. Foi preciso que o vigário universal tomasse a providência de confeccionar 10 clones para atender a demanda. Ocorre que 9 deles saíram tinindo do Setor de Qualidade, todos rezando da cartilha. Porém, um deles deu um treco troncho lá e queimou, esse o clone 0-10PB, mais conhecido entre nós por Bunitim Cruz-Credo, aquele que foi feito pra voar e não voa; pra fazer o certo, só faz errado; só mija fora do caco, caga raio e peida que é um colosso – a propósito, esse tal gosta de soltar umas ventosidades nababescas que provocam cataclismas inenarráveis. Dizem as más línguas que ele fugiu do recall para se empirulitar por treinamentos com abomináveis monstros achegados ao capeta e se enturmando com uns pedras ruins, uns caras da pesada mesmo, do tipo exterminadores e outras malsinadas figurinhas carimbadas do terror, causadores dos maiores flagelos à humanidade. Como ele de bobeira se tornou nos últimos tempos amigo íntimo do Coiso presidente e dumas trepeças tipo besta-fera, ele está por essas bandas e aonde chega inferniza tudo. Acontece que no meio das intimidades, ele achou de bater o pé numa coisinha de nada: é que ele quer por que quer um ministério no Brasil – isso tudo por culpa única e exclusiva do Trumpetudo dos USA que desmunhecou e não deu um ministério para ele pras bandas de lá. Azar o nosso. E sabe qual ministério? Ele só quer o da Seguridade Social: Saúde, Assistência e Previdência e isso porque quer promover a maior mortandade já vista na face da Terra. E se não derem, ele promete botar os podres todos pra fora! Calamidade à vista! Merda pro ventilador! Bem, como as negociações andam tensas e cheias golpes baixo, logo logo haverá reviravoltas que o Padre Bidião promete destrinchar: pegar esse clone defeituoso e mandá-lo pros cafundós dos quintos dos infernos, tostadinho da silva. Tomara. De notícia ruim a gente já anda bem pelo gogó, né não? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
Homem mirando o mar,
tirando a visão daqueles que têm tanto direito a ela quanto você tem,
é da natureza humana ficar no meio das coisas,
mas no meio desta você não pode ficar.
o mar nada tem a dar a não ser uma cova bem cavada.
Os abetos se erguem em procissão, cada qual com um pé de peru esmeralda no alto,
discretos como seus contornos, dizendo nada;
repressão, no entanto, não é a mais óbvia característica do mar;
o mar é um coletor, pronto para devolver um olhar rapace.
Outros fora você ostentaram este olhar –
cuja expressão não é mais um protesto; os peixes não mais o investigam
porque seus ossos não sobreviveram:
os homens lançam redes, inconscientes de que profanam uma cova,
e partem vogando velozes – as pás dos remos
movendo-se juntas que nem patas de aranhas-aquáticas, como se não existisse a morte.
Os franzidos das águas marcham em falange – belos sob as malhas de espuma,
e somem arfando enquanto o mar vai e vem bramindo entre as plantas marinhas;
os pássaros cruzam o ar num zás, soltando guinchos como dantes –
a concha da tartaruga açoita os pés das rochas, em movimento embaixo delas;
e o oceano, sob a pulsação de faróis e ruídos de bóias sonoras,
avança como sempre, como se não fosse o oceano no qual as coisas que caem estão fadadas a afundar –
no qual, se se viram e reviram, é sem vontade e sem consciência.
Uma cova, poema da poeta estadunidense Marianne Moore (1887-1972). Veja mais aqui.

A ARTE DE MANUELA EICHNER
A arte da artista visual Manuela Eichner.

AGENDA:
Vulvas Livres na Jambo Azul - 16 de novembro, das 21h às 3h, Rua Bispo Cardoso Ayres, 481 - Santo Amaro – Recife – PE & muito mais na Agenda aqui.
&
Livros pras crianças neste final de ano aqui.
&
Estrelas, ouro & todas as coisas, Gaston Bachelard, Edgar Morin, Fayga Ostrower, Ana Paula Tavares, Sirinhaém, Baden Powell de Aquino, Alina Ibragimova, Maria João Pires & Pi-Hsien Chen aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do músico, compositor, radialista e ator Arrigo Barnabé: Clara Crocodilo, Suspeito, Gigante Negão & Ao Vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...