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sexta-feira, julho 20, 2018

CERNUDA, BAUMAN, AHMED SEFRIOUI, SANTANA, ACKERMAN, DAVID GISTA & BIBLIOTECA


OS FANTASMAS DA BIBLIOTECA – Imagem: Him Again, do pintor francês David Gista. - Ao regressar para minha terra, resolvi fazer uma residência voluntária na Biblioteca Pública: unia, assim, o útil ao agradável. Sempre fui refém dos livros, desde menino. Ficava maravilhado com as estantes abarrotadas do meu pai e adorava, às escondidas, surrupiá-los, folheá-los, lê-los e descobrir narrativas, como as de Borges, Bachelard, Nejar, Eco, Canetti, Alberto Manguel, Carlos Dominguez, Bonnet, o mundo de Midlin, a autobiografia de Andrea Kerbaker, outros muitos. Nunca fui bibliômano, esses são os que compram livros e livros e não lêem nem deixam ninguém sequer abrí-los, servindo só para enfeite e vaidade. Curioso de gente que compra livros e os mantém intactos, ou abrindo-os com todo cuidado, um ritual de não deixar uma página sequer machucada nem com rugas a lombada. Sempre fui desajeitado, gosto de dobrá-los, riscá-los, relê-los, assíduo visitante de sebos, livrarias e bibliotecas. Reúno alguns poucos volumes em algumas estantes. Quando me convidam para uma visita, a primeira coisa que me chama atenção em qualquer lugar são os livros. Os curiosos que me chegam, perguntam logo: já leu isso tudo? Quem lê muito fica doido. Sou doido de nascença mesmo, advirto, e até os meus livros possuem um pacto entre eles de nunca me deixar achar aquilo que procuro, afora os que dão cria, de um só volume viram muitos exemplares, como o esfíngico Assim falou Teles Júnior. Também já dei de cara com maníacos outros, como o intelectual de sovaco: só os compra para acomodá-los às axilas e se passar por contumaz leitor, sem nunca ter lido além da capa e orelhas, quando muito, mais nada. Voltando ao papo da Biblioteca, pois bem: lá estava eu no habitat mais aprazível para mim, o paraíso. Ao cabo de alguns meses, como eu era o primeiro a chegar e o último a sair de lá, o diretor me confiou as chaves. Ao acordar por volta das cinco da manhã, eu ia pra lá. Chegando mais cedo que de hábito, ao abrir a porta tomei um susto: fui recepcionado pelo patrono. Como pode? Pode entrar, disse-me. Um carrancudo dramaturgo que matava todo mundo nas cenas, exceto o ponto porque fugia antes do final. Convidou-me e fui arrepiando dos pés à cabeça. Parecia haver uma reunião: vi de cara Ascenso que se aproximou e me puxou pelo braço falando das ladainhas do invisível que influenciam o sangue e o mau tempo, dizia: Todos os fantasmas moram no Rio Una. É de lá que eles saem todas as noites para os festejos daqui, do Clube Literário. Logo se aproximou o comediógrafo Lelé Correa que me chamava atenção com piadas que conjuravam desgraças, apontando para o Jayme Griz a recitar uma poesia com a participação de Eliseu Pereira que solfejava uma ópera, ao som do piano do Dery, regidos pelo maestro Zé da Justa. Ao lado, João Costa balbuciava frases sobre as trevas da noite e os seus mistérios, virando um copo de bebida, acompanhado de Abel e Raymundo que soltavam lorotas para Elita, Stella e Julia Leite. Sentado mais adiante estava Artur Griz obstinadamente fechado folheando sua enciclopédia, enquanto Calazans largava trovas para Amaro Matias. Dei por conta a chegada de Hermilo com uma estatueta cheia de escoriações, a me dizer que verei tudo que terei de ver, e me conduziu a um copioso repasto às maiores abluções, nas quais proclamavam ser aquela a verdadeira realidade, enquanto nós, os que se dizem vivos, todos vivíamos no embuste dos sentidos. Levou-me por um tapete bonina que mais parecia uma passarela para desfiles. Todos estavam ali, vi. Não os temia mais, até colaborava com as façanhas deles. A imaginação ditava as regras: contavam de um beiçudo caeté que vivia no fundo do sétimo mar que vez em quando aparecia para nos ensinar a vida; ou de um insurreto oculto na solidão do deserto, e dos personagens que saltavam dos livros para conversarem conosco. Cochichou-me Hermilo dos livros que encontrei escondidos entre uma estante e outra. Sim, isso ocorria com frequência, não sabia que era iniciativa deles, para me perturbar. Isso dissipava meus temores já achegado ao circulo habitual. Passei a entender o pacto dos livros em me tapiar: procurava ao máximo colocá-los nos lugares devidos e, no dia seguinte, deparava com prateleiras desorganizadas, assuntos misturados, tudo fora de ordem. Eram eles que faziam a confusão. Hermilo então me confidenciou sobre a assiduidade de determinados visitantes diários, também fantasmas enlouquecidos e ocultos em formas humanas: o que furtava livros todos os dias, sem saber a causa, disse-me: Ele fugiu de uma história e se perdeu. Por isso todo dia rouba um livro para voltar, mas a maldição não permite. Falou-me daquele mitômano que senta todo santo dia como entretido na leitura que não faz, passa a manhã todinha e no início da tarde sai na sua loucura de misturar ideias à realidade. Entre outros haviam os obcecados que chegavam ali para encontrar suas próprias doidices nas leituras de terror, ou crimes hediondos, psicopatologias e os mais diversos horrores da humanidade. Alguns apareciam na veneta, carregados de remorsos a espremer seus íntimos e soltar suas enfermidades em conversas longas e demoradas comigo, relatando coisas como se fossem de outras pessoas quando, na verdade, eram seus próprios desatinos. Todos eram fantasmas que vagavam pelos dias, esses os condenados à vida que, a exemplo de Bonnet, me apresentavam curiosidades estranhíssimas recolhidas de suas próprias vidas como se recolhidas das epopeias, como a da morte do compositor Charles Alkan, esmagado pelos livros da sua própria biblioteca; o poeta Gilbert Lély que só reunia cem volumes, ou aqueles que apareciam com cortes de vítimas de bordeline ou Síndrome de Lesch-Nyhan, utilizando-se das páginas de livros para autogolpes; aqueles que utilizaram de grossíssimos volumes para abater seus alvos humanos; aqueles que foram atacados pelos personagens revoltosos que emergiram das histórias lidas, ou os que misturaram suas vidas entre os relatos ficcionais, os que assumiram a personalidade de seus heróis históricos, os que enlouqueceram com o volume de informação de suas leituras, os que mergulharam nos cenários narrativos para nunca mais voltar, os que viraram verbetes de dicionários e enciclopédias, enfim, não sabia que vivos e mortos pagavam suas contas à revelia. Era adorável, pois, durante oito meses convivi antes e depois do horário de funcionamento com os fantasmas do Una, benfeitores que apenas gozavam da outra vida deles; era doloroso, durante o expediente, encontrar outros tantos disfarçados de gente que me exaltavam qualidades e virtudes que nunca tivera, teimando ambíguos em transitar entre a minha atenção e os logradouros, com pinoias e lamentações inaceitáveis, os menores que seu próprio tamanho. Oito meses inesquecíveis nos labirintos da biblioteca. E a minha história acabou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e multi-instrumentista mexicano Carlos Santana: Concert Live, Shaman, Supernatural & Abraxas & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Os perigos dos quais se tem medo (e também os medos derivados que estimulam) podem ser de três tipos. Alguns ameaçam o corpo e as propriedades. Outros são de natureza mais geral, ameaçando a durabilidade da ordem social e a confiabilidade nela, da qual depende a segurança do sustento (renda, emprego) ou mesmo da sobrevivência, em caso de invalidez ou velhice. Depois, vêm os perigos que ameaçam o lugar da pessoa no mundo – a posição na hierarquia social, a identidade (de classe, de gênero, étnica, religiosa) e, de modo mais geral, a imunidade à degradação e à exclusão social. [...] E, como você deve ter adivinhado, não há como revogar totalmente as expulsões. A questão não é se, mas quem e quando. As pessoas não são eliminadas por serem más, mas porque faz parte da regra do jogo que alguém deve ser eliminado e porque outras pessoas se mostraram mais habilidosas na arte de se descartar de outras como elas; ou seja, eliminar outros jogadores do jogo que todos jogam, os que expulsam e também os que são expulsos. Não é que as pessoas sejam expelidas por terem sido identificadas como indignas de permanecerem. É exatamente o contrário: as pessoas são declaradas indignas de permanecerem porque há uma cota de eliminações que deve ser cumprida. [...] Trechos da obra Medo líquido (Zahar, 2008), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). Veja mais aqui e aqui.

O AMOR[...] Ao contrário daquilo que filósofos, moralistas, teóricos, afins e psicólogos sempre afirmaram, o amor não é um escolha. É um imperativo biológico. E assim como a evolução favoreceu seres humanos capazes de fincar de pé, ela favoreceu os seres humanos que sentiam amor, porque o amor possui um grande valor de sobrevivência. Aqueles que sentiam amor asseguravam a sobrevivência de sua prole, essa prole herdou a capacidade de amar e viveu mais tempo e teve mais filhos seus. Com o decorrer do tempo, a tendência ao amor tornou-se parte de nossos dotes genéticos, por fim tornou-se mais profundamente inata do que uma simples tendência, aptidão ou legado, e sua riqueza passou a subsidiar todas as iniciativas de nossa vida. Os seres humanos tornaram-se capitalistas aventureiros emocionais. [...] Quando amamos com todo nosso coração, com toda nossa alma, com toda nossa vontade, trata-se de uma paixão elétrica. O amor desenvolve-se nos neurônios do cérebro, e sua maneira de crescer depende de como esses neurônios foram treinados quando éramos crianças. [...] Nossa maneira de amar é uma questão de experiência. [...]. Trechos extraídos da obra Uma história natural do amor (Bertrand Brasil, 1997), da escritora e naturalista estadunidense Diane Ackerman. Veja mais aqui e aqui.

A PORTA ILUMINADA – [...] Aqui não se deve morrer. [...] No rês-do-chão habita um sujeito chamado El Alami; homem de cinquenta anos, sempre de mau humor que aterroriza sua jovem mulher, ameaçando-a todos os dias de repúdio. Mas eu amo esta pobre Aicha que se ouve chorar com soluços de criança e fungos de menina ranhenta. Eu a amo porque ela é sempre limpa e canta com gorjeios de andorinha: Amor! Amor! / Abriste meu coração / para aí te alojares. / Nem médico nem fqih / podem nada contra ti. Minha não compartilha da minha simpatia para com a jovem. [...] Aicha! Sonho para ti uma existência melhor, saturada de perfumes e flores, acalentada de cantos de pássaros. Com gorjeios de andorinha cantarás todo o dia atrás das árvores do jardim [...] Aicha reina neste palácio e canta sobre as romanzeiras em flor [...] Esta canção me vem aos lábios; não compreendo o seu sentido, mas há necessidade de que uma canção tenha sentido? [...] Aicha, não chores mais com teu soluço de criança, teus fungos de menina nervosa. Os escravos preparam caçoilas de perfume; estendem tapetes da Pérsia para receber-nos. Vem, vem, para nós nenhuma porta ousará permanecer fechada. Todos os dias, através dos maciços jasmins, cantaremos com gorjeios de andorinha [...]. Trecho de conto do escritor marroquino Ahmed Sefrioui (1915-2004).

SE O HOMEM PUDESSE DIZER - Se o homem pudesse dizer o que ama, / Se o homem pudesse levantar seu amor pelo céu / Como uma nuvem na luz; / Se como muros que se derrubam, / Para saudar a verdade erguida no meio, / Pudesse derrubar seu corpo, deixando só a verdade de seu amor, / A verdade de si mesmo, / Que não se chama glória, fortuna ou ambição, / Mas amor ou desejo, / Eu seria aquele que imaginava; / Aquele que com sua língua, seus olhos e suas mãos / Proclama ante os homens a verdade ignorada, / A verdade de seu amor verdadeiro. / Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso em alguém / Cujo nome não posso ouvir sem arrepio; / Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha, / Por quem o dia e a noite são para mim o que quiser. / E meu corpo e espírito flutuam em seu corpo e espírito / Como troncos perdidos que o mar afoga ou levanta / Livremente, com a liberdade do amor, / A única liberdade que me exalta, / A única liberdade por que morro. / Tu justificas minha existência: / Se não te conhecer, não vivi; / Se morrer sem te conhecer, não morro, porque não vivi. Poema do poeta e critico literário espanhol Luis Cernuda (1902-1963). Veja mais aqui e aqui.

FANTASMAS NA BIBLIOTECA
[...] os livros eram onipresentes e formavam verdadeiras florestas com alamedas, avenidas, bosques, caminhos, nos quais se tropeçava nas pilhas e nos montes que transbordavam das prateleiras, abarrotavam as mesas, os móveis, os assoalhos... [...] Curiosamente, a fonte infinita de informações que constitui a internet não tem para mim o mesmo estatuto mágico que a minha biblioteca. Estou diante de meu computador, graças ao qual posso chegar a todas as informações imagináveis, ainda mais mestre do tempo e do espaço, e, no entanto, falta aí o "divino". Talvez se trate de uma questão corporal: faço isso com a ponta dos dedos, e tudo permanece exterior, passando por uma máquina e uma tela. Nada a ver com minhas paredes atapetadas de livros que eu conheço — quase — de cor. De um lado, tenho a impressão de estar no comando de um braço articulado capaz de todas as performances no vazio sideral exterior, de outro, num útero cujas paredes são atapetadas de prateleiras cujo arquétipo romanesco poderia ser o Nautilus. Como se vê, a questão não é apenas de racionalidade. [...].
Trechos extraídos da obra Fantasmas na biblioteca (Civilização Brasileira, 2013), do escritor francês Jacques Bonnet. Veja mais aqui e aqui.

Semana Hermilo & Bienal Internacional do Livro de São Paulo & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor francês David Gista.
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&
Amizade & dos amigos & amigas, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, a literatura de Ana Maria Machado, a arte de László Moholy-Nagy, a música de Tom Jobim, Guiomar Novaes, Sebastião Tapajós & Teca Calazans aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


domingo, julho 20, 2014

AUDRE LORDE, MANDY HALE, KATE BORNSTEIN, PATTIE BOYD, GESTALT & ZEFERINA

 


CADÊ A PRETA ZEFERINA?...  – O galo cantou, acordaram o dia e as gentes: Acorda Maria Bonita, acorda pra fazer café, que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé! Olha a hora! Café pronto sobre a mesa da sala. E lá de dentro: Está na hora de fazer as unhas da sinhá! Se avia que o sinhô tá escondido esperando pro xambrego, mulher! Os pratos estão na pia pra lavar! A casa está pronta pra varrer! Cadê Zeferina! Inhô, num sei onde ela tá não! Zeferina? Já bati tudo na casa e ela num tá não, inhá! Onde se escondeu essa preta sem-vergonha? Avia, caça ela, encontrem-na! E saem entre portas e janelas: Que Zeferina? Ela não tem sobrenome, nem mais nada. É só preta escrava, ninguém em que ano nasceu, nem direito de onde que é. Ela veio d’Angola – nem se sabia direito que para ali viera ainda tão pirrototinha mamando nos peitos da mãe. Já chegou como escrava e servia à madame: Faça isso, faça aquilo! Servia ao patrão nos ais e uis: Se achegue logo nega fogosa que vou lhe estrompar! Cadê-la? Cadê aquela cadela safada? Eu vi-la lá em Pirajá, metida com os tupinambás e outros da sua laia! Ah, é hoje que ela apanha! Oxe, ela tava no meio dos invasores de Cabula! Os rebeldes das facas, machados, lanças, forcados, arcos e flechas! Estão pensando o quê, hem? Manda reforços que a preta do Urubu tá dançando candomblé! Ô nega folgada! Quando a gente pegá-la ela vai vero que é bom pra tosse! E a preta transgressora saiu em luta para se libertar, juntou-se aos nagôs. Era valente insurreta entre indígenas e escravos fugidos e libertos. Foi pra criar o quilombo, organizar tudo! Quantas vezes presa, quantas vezes seviciada, capturada e condenada a trabalhos forçados e servir pra libidinagem dos algozes. Cadê essa danada? Até hoje ninguém mais a viu. Despareceu, foi? Encantou-se. Vôte!... Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Vamos parar de “tolerar” ou “aceitar” a diferença, como se fôssemos muito melhores por não sermos diferentes em primeiro lugar. Em vez disso, vamos celebrar a diferença, porque neste mundo é preciso muita coragem para ser diferente. A escolha entre duas coisas não é de forma alguma uma escolha, mas sim a oportunidade de subscrever o sistema de valores que mantém as duas escolhas apresentadas como alternativas mutuamente exclusivas. Pensamento da escritora, atriz e artista trans não-binária estadunidense, Kate Bornstein. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Só não quero ser a esposinha sentada em casa. Quero fazer algo que valha a pena. Os homens acham mais difícil do que as mulheres ficar sozinhos. Eles funcionam melhor com alguém em suas vidas. Por serem casados, eles estão enraizados, então se sentem seguros para ir e fazer o que quiserem. As mulheres se apegam ao romantismo de um relacionamento. Mas um homem compartimenta isso no passado e depois segue com sua nova vida. Pensamento da fotógrafa, atriz e ex-modelo britânica Pattie Boyd. Veja mais aqui.

 

PODER DO SEXO - […] O erótico tem sido frequentemente mal denominado pelos homens e usado contra as mulheres. Foi transformado na sensação confusa, trivial, psicótica, plastificada. Por esta razão, muitas vezes nos afastamos da exploração e consideração do erótico como fonte de poder e informação, confundindo-o com o seu oposto, o pornográfico. Mas a pornografia é uma negação direta do poder do erótico, pois representa a supressão do sentimento verdadeiro. A pornografia enfatiza a sensação sem sentimento. O erótico é uma medida entre o início do nosso senso de identidade e o caos dos nossos sentimentos mais fortes. É uma sensação interna de satisfação à qual, uma vez experimentada, sabemos que podemos aspirar. [...]. Trecho extraído da obra Uses of the Erotic: The Erotic as Power (Kore Pr, 2001), da escritora e ativista caribenha-americana Audre Lorde (1934-1992). Veja mais aqui e aqui.

 

VIDA DE SOLTEIRA – […] Você aprenderá, à medida que envelhece, que as regras foram feitas para serem quebradas. Seja ousado o suficiente para viver a vida em seus termos e nunca, jamais, peça desculpas por isso. Vá contra a corrente, recuse-se a se conformar, siga o caminho menos percorrido em vez do caminho mais conhecido. Ria diante da adversidade e salte antes de olhar. Dance como se TODOS estivessem assistindo. Marche ao ritmo do seu próprio baterista. E teimosamente se recusa a se encaixar [...] Às vezes é preciso um desgosto para nos acordar e nos ajudar a ver que valemos muito mais do que nos contentamos. [...] Uma mulher ocupada, vibrante e voltada para objetivos é muito mais atraente do que uma mulher que espera que um homem valide sua existência. [...] Espere pelo amor, ore pelo amor, deseje o amor, sonhe pelo amor… mas não deixe sua vida em espera esperando pelo amor. [...] Dança. Sorriso. Risadinha. Maravilha. CONFIAR. TER ESPERANÇA. AMOR. DESEJAR. ACREDITAR. Acima de tudo, aproveite cada momento da jornada e aprecie onde você está neste momento, em vez de sempre focar no quão longe você tem que ir. [...] Se você aprender a realmente aceitar a solidão e aceitá-la como o presente que ela é... uma oportunidade de conhecer VOCÊ, de aprender o quão forte você realmente é, de não depender de ninguém além de VOCÊ para sua felicidade... você perceberá que um um pouco de solidão ajuda MUITO na criação de um VOCÊ mais rico, mais profundo, mais vibrante e colorido. [...] Um dos melhores momentos para descobrir quem você é e o que realmente quer da vida? Logo após um rompimento. [...] Não há nada mais bonito do que alguém que se esforça para tornar a vida dos outros bela. [...] Às vezes, quando você se perde, você se encontra [...]. Trechos extraídos da obra The Single Woman: Life, Love, and a Dash of Sass (Thomas Nelson Publishers, 2013), da escritora e blogueira estadunidense Mandy Hale.

 

Imagem: Paul Hartland Carnival - Composition with two masks (1934), do pintor, fotógrafo e escritor húngaro László Modoly-Nagy (1895-1946)

Ouvindo o álbum Oneness, silver dreams – golden reality (1979), do guitarrista e compositor mexicano Carlos Santana.

PSICOLOGIA DA GESTALT – A palavra Gestalt possuía dois significados na Alemanha: uma que denota a forma ou formato como propriedade dos objetos, referindo-se às propriedades gerais expressas em questões como angular ou simétrico e descrevendo as características como a forma triangular de uma figura geométrica ou o ritmo de uma melodia. A segunda forma denota a unidade ou a entidade concreta que tem como atributo uma forma ou um formato especifico e, nesse sentido, diz respeito a triângulos e não à noção do formato triangular da figura. Pode, então,s er usada para se referir a objetos ou às suas características formais ou abrangendo a aprendizagem, o pensamento, as emoções e comportamentos. A revolução da Gestalt tomava conta da psicologia na Alemanha, maios ou menos na mesma época do behaviorismo nos Estados Unidos. Essa revolução consistia em mais um protesto contra a psicologia wundtiana e viria mais tarde a se tornar um testemunho das ideias de Wundt, como fonte de inspiração para o surgimento de novas visões, e como base para o lançamento de novos sistemas de psicologia. Os psicólogos dessa teoria admitiam o valor da consciêmcia embora criticassem a tentativa de reduzi-la a elementos ou átomos, comparando a abordagem de Wundt com a construção de uma casa, em que os elementos seriam unidos pela argamassa mediante o processo de associação. Além disso, acusavam Wundt de afirmar que a percepção dos objetos era meramente a soma ou a junção dos elementos, formando-se uma espécie de pacote. Insistiam em alegar que, ao se combinarem, os elementos sensoriais formariam um novo padrão ou uma nova configuração. Essa ideia se encontra na expressão conhecida como o todo é diferente da soma das partes. Com isso, acreditavam que há mais na percepção do que os olhos veem: a percepção vai muito além dos elementos sensoriais, dos dados físicos básicos proporcionados aos órgãos dos sentidos. A base da sua posição estava assentada ao enfoque na unidade da percepção entrada em Immanuel Kant (1724-1804), alegando que quando percebemos o que chamamos de objeto, encontramos os estados mentais que parecem compostos de partes e pedaços. Para Kant esses elementos são organizados de forma que tenham algum sentido, e não por meio de processos de associação. Com isso,a percepção não é uma impressão passiva e uma combinação de elementos sensoriais, mas uma organização ativa dos elementos de modo que forma uma experiência coerente. Assim, a mente molda e forma os dados originais da percepção. Franz Brentano também se opôs ao enfoque wundtiano, propondo à psicologia o estudo do ato da experiência, considerando artificial a introspecção e defendia uma observação menos rídica e mais direta da experiência na forma como ela ocorre, estando mais próxima dos métodos da Gestalt. Outra influência dessa corrente foi a fenomenologia, doutrina baseada na descrição imparcial da experiência imediata na forma como ela ocorre, uma abordagem do conhecimento com base em uma descrição imparcial da experiência imediata conforme ela ocorre e não analisada ou reduzida a elementos. Essa psicologia desenvolveu-se por um estudo de pesquisa conduzido, em 1910, por Max Wertheier envolvendo a percepção do movimento aparente, ou seja, do movimento quando não há efetivamente o movimento físico, referindo-se a essa expressão como impressão do movimento, denominando essa noção de fenômeno phi, uma ilusão de que dois focos fixos de luz piscante estão em movimento de um lugar para outro. Para a Gestalt o cérebro é um sistema dinâmico em que todos os elementos ativos interagem em determinado momento. CONSTÂNCIA PERCEPTUAL – Depois dos estudos da percepção do movimento aparente, deu-se a experiência da constância perceptual foi definida como a qualidade de integridade ou plenitude da experiência perceptual, que não se aterá mesmo com a mudança dos elementos sensoriais.  O mesmo ocorre com a constância do tamanho e do brilho em que os elementos sensoriais mudam, mas não a percepção. Nesses casos, assim como no movimento aparente, a experiência perceptual é dotada da qualidade da totalidade ou da integridade não encontrada em nenhuma parte componente. Assim, existe uma diferença entre o caráter da estimulação sensorial e da percepção em si. Em vista disso, o principio de organização perceptual observa o movimento aparente, como unidades completas e não como agrupamentos de sensações individuais, pois ela ocorre instantaneamente, sempre que percebemos diversos padrões ou formatos. Os vários princípios de organização perceptual compreendem proximiade, continuidade, semelhança, simplicidade e figura/fundo. Os estímulos são fatores periféricos da organização perceptual. INSIGHT – Identificado por Köhler como a espontânea e aparente apreensão ou compreensão das relações, ou seja, a aprendizagem ideacional e sustentada pelo conceito global ou molar. PENSAMENTO HUMANO PRODUTIVO – A aprendizagem aplicada ao pensamento criativo humano, proposta por Wertheimer considerava que o pensamento forma-se como um todo e que o problema como um todo deve dominar as partes. ISOMORFISMO – Os psicólogos da Gestalt descreveiam o córtex cerebral como um sistema dinâmico em que os elementos ativos interafgem em um determinado momento, sugerindo que a atividade cerebral é um processo integral de configuração, a partir da ideia do movimento aparente e do fenômeno phi. Assim, o isomorfismo é a doutrina que afirma existir uma correspondência entre a experiência psicológica ou consciente e a experiência cerebral latente. Assim, eles sugeriram que tal como o comportamento de um campo de força eletromagnética em volta de uma imã, os campos de atividade neurais são estabelecidos por processos eletromecânicos do cérebro em resposta aos impulsos sensoriais. WOLFGANG KÖHLER (1887-1967) – Foi o porta-voz do movimento da Gestalt. Ele estudou macacos no Tenerife. Acreditando que a única maneira de animais aprenderem era por meio de tentativa e erro, isto é, tropeçando acidentalmente na resposta correta, acreditando, ainda, que eles eram mais inteligentes do que pessoas ensinadas e que eram capazes de resolver problemas de maneira muito semelhantes aos humanos. Esses animais estudados exigiram uma maneira diferente de aprender, e suas ações levaram a uma outra revolução na psicologia, a outra maneira de abordar o estudo da mente e do comportamento. Ele sugeriu que a teoria da Gestalt consistia em uma lei geral da natureza que pode ser amplamente aplicada em todas as ciências. Foi o único psicólogo não judeu na Alemanha a protestar publicamente contra as demissões dos intelectuais judeus. MAX WERTHEIMER (1880-1943)– É um dos principais fundadores da psicologia da Gestalt e fazia parte do primeiro grupo de estudiosos a fugir da Alemanha nazista para os Estados Unidos, chegando em Nova York em 1933, onde permaneceu até a sua morte. KURT KOFFKA (1886-1941) – Foi o mais criativo dentre os fundadores da psicologia da Gestalt; definindo a preocupação mais ampla dos processos cognitivos, as questões relacionadas ao pensamento, a aprendizagem e outros aspectos da experiência consciente e trabalhou com a psicologia do desenvolvimento infantil. Veja mais aqui.

REFERÊNCIAS
ATKINSON, Richard; HILGARD, Ernest; ATKINSON, Rita; BEM, Daryl; HOEKSENA, Susan. Introdução à Psicologia. São Paulo: Cengage, 2011.
DAVIDOFF, Linda. Introdução à Psicologia. São Paulo: Pearson Makron Books, 2001.
GAZZANIGA, Michael; HEATHERTON, Todd. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2005.
MORRIS, Charles; MAISTO, Alberto. Introdução à psicologia. São Paulo: Pretence Hall, 2004.
MYERS, David. Psicologia. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
SCHULTZ, Duane; SCHULTZ, Sydney. Historia da psicologia moderna.São Paulo: Cengage Learning, 2012.



PETRARCA O poeta e humanista italiano Francesco Petrarca (1304-1374) é considerado o inventor do soneto e ficou famoso por seu romanceiro. Do seu livro de Sonetos, destacamos o III: “Se a minha vida do áspero tormento / E tanto afã puder se defender, / Que por força da idade eu chegue a ver / Da luz do vosso olhar o embaciamento, / E o áureo cabelo se tornar de argento, / E os verdes véus e adornos desprender, / E o rosto, que eu adoro, empalecer, / Que em lamentar me faz medroso e lento, / E tanta audácia há de me dar o Amor, / Que vos direi dos martírios que guardo, / Dos anos, dias, horas o amargor. / Se o tempo é contra este querer em que ardo, / Que não o seja tal que à minha dor / Negue o socorro de um suspiro tardo”. Veja mais aqui e aqui.


LUIZ EDMUNDO ALVES – Conheci o excelente trabalho desse poeta, editor, videomaker e psicólogo baiano-mineiro, Luiz Edmundo Alves, por meio do seu espetacular sítio literário Tanto. Ele é autor dos livros de peosia Entre outras coisas (1981); Metropolitano aloucado (1983); Sopro (1990); Na contra luz (2002) e Fotogramas de Agosto, do qual destacamos Canonizemos: “canonizemos glauber cássia eller cazuza / ana cristina césar paulo leminsky tim maia / Renato russo Torquato neto raul seixas cacaso / mamonas assassinas elis regina gonzaguinha / todos santos seres rebeldes no altar iluminado / da santa transgressão. rezemos por eles. / rezemos também por nós, por nossa vontade / de pecar andar amar beijar cantar falar viajar / lutar namorar sonhar / criar como ar, o ar rarefeito da existência. / anseio e memória: ar, arte. / o destino não tem senhor. e desconfiemos... / minha saudade já não me afasta / de minha alegria, / não me infecciona mais / a válvula mitral, / e balança embalada pela / brisa mansa de agosto. / não amarga, / não está paginada nem dividida / é saudade adquirida. / minha saudade já consegue ser meu poema, / meu rosto calmo, ser capítulo de minha história. / estou sozificado, falta meu sofrimento. / sobram sua falta e minha memória”.

O AMOR É LINDO: DOIS POEMAS, DOIS POETAS
Imagem do pintor, gravurista e litógrafo do Impressionismo alemão, Max Liebermann (1847-1935)

ADRIAN PÂUNESCU – Belíssimo esse poema E ainda o amor, do poeta, jornalista e político romeno Adrian Pãunescu, traduzido por Pedro Calouste: “E ainda o amor existe / E ainda a maldição existe / Deixo o mundo saber / Que amo, tenho fé e medo. / E ainda a insônia existe / E ainda morremos repetidamente / E ainda acredito em almas gêmeas / E ainda qualquer coisa muda. / Exigências do mundo que não possuo, / Uma cama, a escuridão e tu. / Pisamos o chão do amor sem nome, / O tremor como um trovão que atinge. / As máquinas do mundo não andam, / As redes de comunicação caíram, / Um enorme deserto se deita em volta, / acordarás o mundo com um beijo./ Agora declaro-te deusa, / Sinto-me eu próprio um deus. / Põe o mundo de pé, mulher, / com crianças em meu nome. / Lá fora um enxame de escuridão, / Aqui somos luminosos. / Guerras entre religiões / Culpando-se das mesmas coisas. / Tu e o amor, ambos existem / E a morte existe no amor. / Amo-te mais quando estás triste / A tristeza, de fato, és tu. / Os joelhos eu rendo no asfalto, / Ofereço a minha cabeça ao céu, / Estás nos meus poderes agora / Apesar de a inquisição te querer. / As minhas palavras estão distorcidas, / Regresso à primeira sílaba. / Destruo a floresta que te esconde: / "Adeus, ou seja, eu fico". / E ainda o amor existe / E ainda a maldição existe / Deixo o mundo saber / Que amo, tenho fé e medo”.


ERIK AXEL KARLFELDT – Outro belíssimo poema sobre o amor, este Serenata do poeta do Simbolismo sueco Erik Axel Karlfeldt (1864-1931), Prêmio Nobel de Literatura, de 1931, traduzido pelo Ivo Barroso: “As glandes do pinheiro e a folhagem das bétulas / Cobriram teu telhado, onde a erva murchou. / Dorme em teu leito de palha, dorme feliz e tranquila / à sombra das nuvens que a noite semeou. /Quando o inverno vier bater à tua porta, vestido de branco, / tal qual um pretendente, sonha então um sonho bom que te acalente / ao abrigo de tuas paredes de madeira. / Sonha com o vento do verão, a cantar e a brincar, / embora gema lá fora a tempestade. / Sonha que sob a verde abóbada das bétulas / Repousas adormecida nos meus braços


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