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quarta-feira, dezembro 13, 2017

JUNG, BAUMAN, QUINTANA, GONZAGA, JOÃO CABRAL, DOROTHY IANNONE & ESCADA

UMA COISA DENTRO DA OUTRA – Imagem: Blue and wihte sunday morning, da artista estadunidense Dorothy Iannone. - Olá, gentamiga, um dia radiante de harmonia paratodos, salve, salve. As coisas parecem andar meio embaralhadas, de pernas pro ar, ou melhor, desgovernadas mesmo. É que entre uma coisa e outra, o que aparece é meio insólito, senão, paradoxal. Deveras, é só olhar direitinho que está duvidoso saber se o que é certo virou errado, ou se o direito e o justo são apenas acomodações negociadas. Tem muita bravata no ar. É que enquanto teimam em fazer da oportunidade do presente um passado não muito distante de infeliz condução, produzem um futuro no capricho dos interesses escusos. O noticiário quase não deixa qualquer entendimento que não seja a da discórdia, entender são outros quinhentos. O falso moralismo de plantão reinante imprmindo o retrocesso, e apenas para satisfação dos que pensam que sua condição egoísta, retrógrada e vaidosa é imperiosa e urgente, mostra, nada mais, nada menos, a mais cristalina das constatações de sectarismo raivoso de trogloditas da barbárie e cultores das trevas para a implementação do neofundamentalismo canceroso que alastra tenazmente entre nós. Esse despropósito confunde vida com conforto, arte com baboseira, artista com diletante, sinceridade com artifício, crença com intolerância. No entanto, apesar da insegurança impressa por estabanados arrumadinhos que se processas em todas as esferas da gestão governamental do nosso país, apesar da dubiedade de expressão entre cordados e conformados, e da escuridão no fim do túnel, a nós que nos foi concedido o poder de sermos seres pensantes, nos resta seguir, firme e serenamente, decodificando os acontecimentos e desfechos do momento atual. É preciso, antes de qualquer coisa, sabermos que não é apenas o umbigo o legítimo beneficiário das benesses existentes no mundo, muito menos o único detentor do poder de razão acima de quem quer que seja. O outro e os demais, senão todos, merecem também partilhar do direito de viver por serem legítimos ocupantes do planeta Terra. Vale dizer que nunca ouvi dizer que um cavalo, ou um cachorro, jacaré ou leão, ou o mais peçonhento dos seres ditos irracionais desse mundo, matasse ou vitimasse o outro da mesma espécie, só pra se apossar ou acumular aquilo que fosse o seu desejo sobre os demais. Isso nos leva a refletir acerca da evolução humana ao longo dos séculos e milênios, a avaliar o inventário da humanidade. A nós, de fato, nos resta entender que a humildade, gentileza e discernimento são atributos que nos distinguem como seres humanos, portanto, isso é o que nos faz distinguir no plano cósmico, qual a nossa missão e propósito na vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o rei do baião Luiz Gonzaga (1912-1989) ao vivo & o show Gonzagão & Gonzaguinha: a vida do viajante ao vivo. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – A força do livro reside em sua capacidade totalmente específica de ligar a biografia à história, o privado ao público, o individual ao social, os momentos vivenciados ao sentido da vida. Pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925- 2017). Veja mais aqui e aqui.

O SER HUMANO - [...] a cultura humana, enquanto produto natural de diferenciação, é uma máquina; primeiro que tudo, uma máquina técnica que utiliza condições naturais para transformar a energia física e química, mas também uma máquina psíquica que utiliza condições naturais para transformar libido. Da mesma forma que o homem conseguiu inventar uma turbina e, conduzindo o curso d’água para ela, transformar a energia cinética nela contida em eletricidade, capaz de múltiplas aplicações, assim também conseguiu, com a ajuda de um mecanismo psíquico, converter os instintos naturais – que, de outra maneira seguiriam sua tendência natural – outras dinâmicas que tornam possível a produção de trabalho. [...]. Trechos extraídos da obra Energia psíquica (Vozes, 2002), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Veja mais aqui e aqui.

ESCADA -  O município de Escada teve seu povoamento povoamento iniciado a partir de uma aldeia de índios das tribos Potiguaras, Tabujarés e Mariquitos, fundado em época indeterminada, porém existentes em 1685, com a denominação de Aldeia de Nossa Senhora da Escada de Ipojuca. O nome "Escada" provém da capela erguida por missionários da Congregação do Oratório para catequese dos índios, que ficou conhecida como Nossa Senhora da Escada. O distrito foi criado pela Carta Régia de 27 de abril de 1786 e por Lei Municipal em 6 de março de 1893. A Lei Provincial nº 326, de 19 de abril de 1854, criou o município de Escada, com território desmembrado do município do Cabo de Santo Agostinho. A sede municipal foi elevada à cidade pela Lei Provincial nº 1.093, de 24 de maio de 1873. É formado pela Sede Administativa, distritos de Massuassu e Frexeiras. A rede hidrográfica da cidade tem o rio Sapucaji e em grande extensão na cidade o rio Ipojuca. Em Escada, o rio Ipojuca passa pela sua periferia, cruzando áreas próximas ao centro da cidade, onde se encontra a Ponte do Atalaia que faz e proporciona a ligação de bairros da cidade ao centro. Além da rica história e da beleza arquitetônica dos velhos engenhos, Escada tem atrativos naturais como Quedas d`água, nascentes de riachos, bicas, corredeiras e alguns resquícios da Mata Atlântica brasileira, isso sem contar com o artessanto local, a culinária típica e o movimentado calendário de festas populares da cidade que inclui as festas juninas. Veja mais aqui

NOSTALGIAS - Há tempos escrevi este decassílabo nostálgico: “Acabaram-se os bondes amarelos!” Tão nostálgico que até hoje ficou sozinho esperando o resto dos companheiros. Também, não faz muito, escrevi este outro decassílabo: “Acabaram-se as tias solteironas...” Talvez esses dois solitários se venham um dia a reunir num mesmo poema. Têm ambos o mesmo ritmo. Causam ambos o mesmo nó na garganta que me impede de os continuar. Talvez o poema já esteja pronto... e ninguém notou. Nem eu! Porque ele próprio se completou, cada verso chorando no ombro do outro... e sem mesmo notar que eram decassílabos. Texto extraído da obra Porta giratória (Globo, 1988), do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui, aqui e aqui.

FÁBULA DE UM ARQUITETO - A arquitetura como construir portas, / de abrir; ou como construir o aberto;/ construir, não como ilhar e prender,/ nem construir como fechar secretos;/ construir portas abertas, em portas; / casas exclusivamente portas e tecto./ O arquiteto: o que abre para o homem/ (tudo se sanearia desde casas abertas) / portas por-onde, jamais portas-contra;/ por onde, livres: ar luz razão certa. / Até que, tantos livres o amedrontando, / renegou dar a viver no claro e aberto./ Onde vãos de abrir, ele foi amurando/ opacos de fechar; onde vidro, concreto;/ até fechar o homem: na capela útero,/ com confortos de matriz, outra vez feto. Poemas extraídos da obra Poesias completas (José Olympio, 1986), do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui, aqui e aqui.

TODO DIA É DIA DE LIVROS PRAS CRIANÇAS
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista estadunidense Dorothy Iannone.
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domingo, dezembro 13, 2015

ESPINOSA, LUIZ GONZAGA, CHAUÍ, ADÉLIA PRADO, QUANDO TE VI & MUITO MAIS!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? QUANDO TE VI, A HISTÓRIA DA CANÇÃO – Essa canção nasceu numa tarde de maio na segunda metade dos anos de 1980. Surgiu ao dedilhar no teclado os sentimentos devotados àquela musa que ocupava meu coração. Estava eu no meio de um idílio envolvente, daquele devastando tudo, evoluindo no campo da incerteza e construindo a paixão legendária. Não havia futuro nem passado, apenas o presente de nossas vontades impetuosas de se entregar ao arrebatamento dos nossos avassaladores desejos. Tudo era impossível, tudo conspirava contra, contudo persistíamos completamente dominados pela atração dos nossos corpos. Como os quereres da nossa abrasadora comunhão perseguiam-me todos os intentos, repetidas vezes, manhãs, tardes, noites e madrugada adentro, tal como a mulher que se ama de forma inatingível, a melodia se insinuava sem que eu tivesse a mínima noção no que resultaria. Era a amada ardentemente desejada e a canção se insinuando como se a própria fosse: era a forma de eu tê-la por todo momento. Dias, semanas, meses e anos o tema me perseguindo toda vez que eu me sentava ao teclado, tomando corpo por si só, sem que eu me dedicasse além do exercício, pois, não era mais que isso: era a emanação intuitiva do sentimento. Experimentava formas para condução melódica sem que eu tivesse como definir nada além de me exercitar, como se expressasse apenas o que se passava por dentro de mim no meio daquele redemoinho. Um dia, acidentalmente eu resolvi incorporar uma harmonia e, aí, a canção tomou vulto e foi se aperfeiçoando até eu me dar conta de que poderia virar música de mesmo. Era um desafio porque virou gestação de um parto imprevisível, tal qual amor impossível que se alimentava dos encontros fortuitos e às escondidas. Tal como o amor que se agiganta dominando tudo, a música formava, sozinha, sem que eu pudesse intervir ou descartá-la num aborto. Virou, então, obsessão, tanto a paixão, como a canção. E de tanto trabalhá-la, de primeira percebi que seria só instrumental por exprimir tudo que eu sentia. Ela própria tivera vida e mandava ver. Não precisaria que dissesse nada, só executá-la, tal qual encontro ansiado em que os beijos e abraços falam por si só. Tudo estava dito só com a sua execução, mais nada. Como sempre fui muito inquieto, fui trabalhar outras experimentações, apenas para exercitar o instrumento e dela me esqueci, como naqueles momentos em que o namoro trava e não mais pode prosseguir. Assim eu achava. Passei mais a me ocupar com trabalhos ao violão como quem tenta esquecer uma paixão na busca por outra. E a canção se perdeu num canto recôndito da memória, como se o namoro tivesse sido definitivamente acabado. Havia um misto de sentimentos de libertação e derrota, quando, na verdade, estava apenas encruada e permanecia firme nalgum recanto do meu ser. Doutra feita, ao voltar ao piano levado para outras incursões melódicas, no meio de tudo e do nada, ela reapareceu, se insinuou e insistiu que me dedicasse mais atentamente na sua feitura. Aliás, ambas reapareceram: a mulher e a canção. Era inevitável. Passou-me, então, aquela melodia a repisar meus pensamentos e ideias demasiadamente, até levá-la duma vez pro violão como quem leva a amada pra cama para consumar o fato e, burilando a sua raiz para tê-la completamente desenvolta, ela se alojou de vez nas minhas projeções, a ponto de solfejá-la constante e demoradamente até ter a percepção de que deveria letrá-la. Esse o segundo e laborioso desafio. Mesmo quando ocupado noutros afazeres, ambas, o amor e a canção, se mantinham remoendo na cabeça. Além desse tormento, os primeiros versos criados intuitivamente não cabiam nas frases musicais e dava muito trabalho enquadrá-los para que coubessem certinhos dentro da melodia. Virou suplício, como um segundo parto, agora cônscio. Dias, semanas, meses, acho que até anos perseguidos pela melodia, depois de calibrada nas ideias pelo excesso de álcool e uma ressaca tumultuosa dentro de mim pela tarde festeira com a mulher que causara tudo isso, nasceu a primeira frase e, duma levada só, toda letra aparecia pronta com tudo que eu queria dizer. E como quem rega, acarinha, afaga o corpo da mulher, carpintei, ajeitei, rearrumei e, ao cabo de mais dias ou semanas, rebentou tudo: a letra e a música. Definitivamente, estavam prontas. E na primeira tarde oportunizada e que já se prenunciava a despedida definitiva, pude então cantá-la pra responsável de tudo: missão cumprida. E nos entregamos dolosamente, nos festejamos com todos os prazeres até então preteridos e pudemos ter naquele momento o que jamais tivemos: a entrega plena e a cumplicidade eterna. O amor se foi e a canção mergulhou no esquecimento. Hoje ela é como aquela filha que a gente vê nascer, crescer e se tornar sozinha e por ela mesma, o que é na vida dela e minha. (Quando te vi – Primeira Reunião. Bagaço, 1992). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem Nude, do pintor checo Karel Skala (1908-2001)

 

Curtindo no Dia do Forró a coleção de cds Luiz Gonzaga – seu canto, sua sanfona e seus amigos (Revivendo, 2006), reunindo a obra de Luiz Gonzaga (1912-1989) e o cd Gonzagão e Gonzaguinha ao vivo, o livro Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga (34, 1997) de Dominique Dreyfus, o livro Eu vou contar pra vocês (Ícone, 1990), de Assis Ângelo e a coletânea Luiz Gonzaga: Vozes do Brasil (Martin Claret, 1990) e o filme Gonzaga de Pai pra filho (2012). Veja mais aqui.


DESEJO, PAIXÃO E AÇÃO – O livro Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa (Companhia das Letras, 2011), da filósofa Marilena Chauí, trata sobre ética da felicidade, a natureza e o homem, corpo e mente, a vida afetiva, virtude e liberdade, ciência dos afetos, retórica contra os retóricos, homens eminentíssimos, da retórica à ciência, fundamento ontológico e epistemológico da ciência dos afetos, o medo, paixão e vício, valentia e culpa, segurança e liberdade, guerra e paz, servidão e liberdade, finitude e fortuna, contrariedade e comunidade, liberdade e necessidade, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho Laços do desejo: [...] Sem dúvida, o desencantamento do mundo sofreu interrupções, no correr dos últimos séculos, com a emergência periódica dos irracionalismos; todavia, sob a poeira dos ventos irracionalistas e sob a necessidade urgente de repensar a própria ideia da razão, permaneceu intacta a confiança clássica na racionalidade das coisas e do mundo. É muito possível que o desejo, cuja mística parece tomar conta da ideologia contemporânea, seja uma noção privilegiada para captarmos o advento do mundo desencantado, particularmente quando acompanhamos sua mutação ao passar de conceito metafísico a conceito psicológico: de interpretante das estruturas e acontecimentos cósmico-teológicos, o desejo passou a significante das operações e significações inconscientes da psique humana. O desejo — eros platônico, mímesis aristótelica, simpatia-antipatia universais renascentista, Lust-Begier dedos mistérios teosóficos böhmianos — deixou de ser o motor e o móvel do universo para recolher-se no interior da alma, simples paixão humana. É verdade que, para os primeiros filósofos modernos — Bacon, Descartes, Hobbes, Espinosa, Leibniz — as paixões da alma ainda eram parte das operações comuns à Natureza inteira, mas com eles já está a caminho a separação metafísica do em-si e do para-si, preparando a passagem do desejo de condição e suporte do cosmo a objeto de uma ciência particular (a psicologia) e das clínicas (psiquiatria e psicanálise). O desencantamento do mundo tem como pressuposto essa decisiva mutação do desejo que, de misteriosa potência cósmico-teológica, transmuta-se em simples potência da alma cujo enigma cabe à razão decifrar inteiramente. A palavra desejo tem bela origem. Deriva-se do verbo desidero, que, por sua vez, deriva-se do substantivo sidus (mais usado no plural, sidera), significando a figura formada por um conjunto de estrelas, isto é, as constelações. Porque se diz dos astros, sidera é empregada como palavra de louvor — o alto — e, na teologia astral ou astrologia, é usada para indicar a influência dos astros sobre o destino humano, donde sideratus, siderado: atingido ou fulminado por um astro. De sidera, vêm considerare— examinar com cuidado, respeito e veneração — e desiderare — cessar de olhar (os astros), deixar de ver (os astros). Pertencente ao campo das significações da teologia astral ou astrologia, desiderium insere-se na trama dos intermediários entre Deus e o mundo dos entes materiais (corpos e almas habitantes de corpos). Os intermediários siderais, eternos e etéreos, exalam diáfanos envoltórios com que protegem nossa alma, dando lhe um corpo astral que a preserva da destruição quando penetra na brutalidade da matéria, no momento da geração e do nascimento. Pelo corpo astral, nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas, e considerare é consultar o alto para nele encontrar o sentido e o guia seguro de nossas vidas. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LITERATURA O CARNEIRO DE OURO – Nas Lendas pernambucanas (Revista do Instituo Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, volume XXIX, Recife, 1930), encontra-se a lenda O carneiro de ouro, narrada por Mário Melo: Tratava-se dum reino encantado. Disse-me uma velha que os antigos viram um carneiro de ouro que ao lusco-fusco passava à boca da furna e que nela habitava. Havia um sertanejo que tentara visita-la. Procurei-o para servir-me de guia. Prometeu levar-me ao local, com a condição de que não entraria. De uma feita, explicou-me, passarinhava nas imediações com um companheiro e teve desejo de desvendar o mistério. Entrou, com aquele, esgueirando-se. Um pouco adiante, viu uma jiboia. Levantou a espingarda em atitude de pontaria e ia desfechar o tiro, quando o companheiro lhe bateu no ombro, porque a cobra era a princesa encantada que ali habitava e, com o derramamento de sangue, se desencantaria e estariam perdidos. Recuou, recuaram e não entraria mais na furna. A narrativa aguçou ainda mais o desejo da visita, quando nada, para desencantar a princesa. Formou-se uma caravana de doze cavaleiros. Confiando em minha pericia de atirador, muni-me dum rifle para enfrentar a jiboia e desencantar a princesa, com quem, aliás, não poderia casar-me, sob pena de bigamia. No momento da partida, a velha que me falara no carneiro de ouro indagou-me: - Moço: vossenhoria leva velas bentas pelo padre Cirço? À resposta negativa, advertiu-me: - Pois não entre! Só pode entrar na furna com sete velas bentas pelo padre Circço, senão não verá nada. Tranquilizei-a. Disse-lhe que era abençoado pelo padre Cicero e nada temia. Partimos. A subida da Serra Talhada é verdadeiramente penosa. Seu nome provem de ter as encostas de rocha dura, cortadas verticalmente. Galgamo-la pela parte norte em sinuosidade, sobre seixos rolados, e com surpresa vi que o planalto era fértil, cultivado relativamente habitado. Por fim, chegamos, na descida da outra encosta, às proximidades de um córrego – o que no tempo sexo se adivinha pela natureza do terreno – onde o guia nos apontou um buraco, dizendo-nos que estávamos em frente à furna e repetindo que não entraria. Um dos companheiros mais atrevidos, antes de qualquer inspeção, empunha o revolver e escorrega-se pelo buraco. Súbito dá um grito, joga o revolver fora e recua. Um abraço da princesa? Um bote da jiboia? Marrada do carneiro de ouro? Nada disso. Grande casa de marimbondos, de atalaia, à entrada da furna. As vespas haviam-lhe picado os lábios e a mão que empunhava o revolver. Localizado, pelo esvoaçar, o reduto dos agressores, foram estes desalojados com um facho que se improvisou. Descemos três, rastejando, porque o diâmetro da furna não ultrapassa de uns cinquenta a sessenta centímetros. Ar deletério. Temperatura escaldante. Aqui e ali, rasto de quadrupede semelhante a cachorro e que se atribuía a animal que não é muito escasso na região. Nosso receio já não era do carneiro de ouro, nem da princesa ou mesmo da jiboia, mas que do antro surgisse um felino enraivecido e agarrasse o que ia na frente, indefeso, enfraquecido pelo calor e pelo mal-estar do ar que respirava. A mais um avanço, aparece um elemento para identificação do animal, cujo rasto se divisava de onde em onde, na areia; o excremento deste. Colhemo-lo numa caixa de fósforos e trouxemo-lo para ser examinado à luz do sol, pelos que nos apreciam peritos. Entregamo-lo ao guia, afamado caçador: - Será excremento de onça? O sertanejo olhou, tocou com o dedo, cheirou e sentenciou convencido: - De onça, não! É de cururu. E demos por finda a investigação. Espeleologicamente, a furna não apresenta interesse algum. Nem estalactites e estalagmites, nem esperanças de sua formação. Nenhuma caverna em forma de sala onde um homem possa estar de pé. Apesar de chamada a furna dos morcegos, nenhum nos apareceu para justificar o nome. Por quanto tempo, entretanto, não perdurará a lenda da princesa encantada com o seu carneiro de ouro, em cujo palácio subterrâneo só se poderá penetrar, para descobrir-lhe os encantos, com sete velas bentas pelo padre Cicero? Veja mais aqui.

GRANDE DESEJO & OUTROS POEMAS – No livro Poesia reunida (Siciliano, 1991), da escritora, professora e filósofa Adélia Prado, destaco inicial o poema Grande desejo: Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia, / sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia. / Faço comida e como. / Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro / e atiro os restos. / Quando dói, grito ai, / quando é bom, fico bruta, / as sensibilidades sem governo. / Mas tenho meus prantos, / claridades atrás do meu estômago humilde / e fortíssima voz pra cânticos de festa. / Quando escrever o livro com o meu nome / e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja, / a uma lápide, a um descampado, / para chorar, chorar e chorar, / requintada e esquisita como uma dama. Em seguida, o poema Corridinho: O amor quer abraçar e não pode. / A multidão em volta, / com seus olhos cediços, / põe caco de vidro no muro / para o amor desistir. / O amor usa o correio, / o correio trapaceia, / a carta não chega, / o amor fica sem saber se é ou não é. / O amor pega o cavalo, / desembarca do trem, / chega na porta cansado / de tanto caminhar a pé. / Fala a palavra açucena, / pede água, bebe café, / dorme na sua presença, / chupa bala de hortelã. / Tudo manha, truque, engenho: / é descuidar, o amor te pega, / te come, te molha todo. / Mas água o amor não é. Depois, Objeto de amar: De tal ordem é e tão precioso / o que devo dizer-lhes / que não posso guardá-lo / sem que me oprima a sensação de um roubo: / cu é lindo! / Fazei o que puderdes com esta dádiva. / Quanto a mim dou graças / pelo que agora sei / e, mais que perdôo, eu amo. Por fim, Poema começado no fim: Um corpo quer outro corpo. / Uma alma quer outra alma e seu corpo. / Este excesso de realidade me confunde. / Jonathan falando: / parece que estou num filme. / Se eu lhe dissesse você é estúpido / ele diria sou mesmo. / Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear / eu iria. / As casas baixas, as pessoas pobres, / e o sol da tarde, / imaginai o que era o sol da tarde / sobre a nossa fragilidade. / Vinha com Jonathan / pela rua mais torta da cidade. / O Caminho do Céu. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O ESPECULADOR DE OLHOS INVISÍVEIS DE CARNE – A Cia Corpos Nômades, está em temporada até 20 de dezembro, sempre as sextas e sábados às 21h e domingo às 20h, no Espaço Cênico O Lugar, em São Paulo, com o espetáculo O especulador de olhos invisíveis de carne, dirigida pelo coreógrafo e bailarino João Andreazzi, resgatando o principio da ideia do “corpo nômade”, sequência de uma pesquisa iniciada há 16 anos, cujo o lugar/foco foi a extinta favela do Gato (hoje conjunto habitacional do Parque do Gato) e a Cultura Guarani (Aldeias: Krukutu e do Jaraguá). Lugares que foram revisitados em 2014 e 2015 com o intuito de observar as modificações ocorridas nesses locais. Neste processo os textos de Samuel Beckett serviram de condutor para as escolhas dos elementos cênicos e na elaboração da coreodramaturgrafia. Ficha Técnica Concepção e Direção: João Andreazzi Elenco: Dresler Aguilera, Gervasio Braz, João Andreazzi e Letícia Mantovani Trilha Sonora: Felipe Julian Iluminação: Décio Filho Figurino: David Schumaker Cenário e Vídeo: Cia. Corpos Nômades e David Schumaker Designer Gráfico: Juliana Basile Agradecimentos: Marcos Tupã (Aldeia Krukutu), Francisca Guarani(Aldeia Krukutu), Tupãzinho (Aldeia krukutu) Sr. Sassa (Favela do Gato), Dona Maria(Favela do Gato), Davi Martins (Aldeia Jaraguá), Jacira Minelli Andreazzi, Marcela Costa, Talita Bertanha, Claudio Willer. Duração: 50 minutos. Serviço: O Especulador de Olhos Invisíveis de Carne – Temporada: 4 a 20 de dezembro Dias: Sempre as sextas e sábados às 21h e domingos às 20h Preços: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia entrada) ESPAÇO CÊNICO O LUGAR – Rua Augusta, 325 – Consolação – São Paulo – Reservas e informações – (11) 3237-3224 – ciacorposnomades@gmail.com. Convênio com estacionamento na Rua Augusta, 108, São Paulo. Veja mais aqui e aqui.

OS OLHOS AZUIS DE YONTA – O filme Os olhos azuis de Yonta (1992), do cineasta guineense Flora Gomes, dá continuidade temática a Morti Nega, revendo as mesmas questões de fundo, as do seu país perante a história, regressando-se aos temas trauma e esperança, entre os pequenos nadas do medo e do desejo, uma jovem, um velho combatente, distraído com os seus velhos ideais e seus novos negócios, que não vê o fraquinho que por ele tem a Mulata de olhos azuis. Bela como é, não desdenha a moda. Alheio aos estratagemas do capitalismo e aos dramas do seu país em rotura, um jovem conterrâneo de Yonda, que lhe envia de Paris missivas românticas e absurdas, a cidade de Bissau e a interpretação destacada da atriz Maysa Marta como protagonista do longa metragem. Trata-se de um belíssimo filme, história extraordinariamente interessante e com imagens encantadoras de uma realidade nua e crua, mas com a ternura permeando desde a primeira cena desse ótimo longa. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte do fotógrafo, pintor e desenhista checo Jan Saudek.
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DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à precursora da enfermagem no Brasil Ana Nery (1914-1880).


quarta-feira, junho 24, 2015

VIVA SÃO JOÃO, ASCENSO, CONDÉ, AZEVEDO, ÂNGELO, GONZAGÃO, BARBOSA & BRINCARTE DO NITOLINO!


VIVA SÃO JOÃO – (Imagem: Festa Junina, óleo sobre tela da artista plástica Rosangela Borges). A moagem começava entre os fins de agosto e início de setembro e se prolongava até os meses de abril ou maio. E quando chegava o mês de junho, aí a festa era toda voltada para a abundância e prosperidade da colheita na safra canavieira. Era o momento dos festejos juninos e da entressafra sucroalcooleira. Nesse período eu, Marquinhos & Marcelo – o trio do maior trupé de traquinagem na meninice de bundacanasca– aprontávamos das nossas. Eis que um dia, a gente jogando pedra a esmo na direção onde desse o nariz, maínha fez a gente armar uma fogueira. Foi a única vez que ela decidiu por isso. Fez a gente fazer – como quem arranja uma lavagem de roupa da boa – porque que já lhe consumíamos o juízo com nossas presepadas. E era ajuntar todo tipo de lenha e graveto para dar vez a uma fogueira e agradecer aos céus as boas colheitas e boas vindas à invernada que não agitasse o rio numa cheia medonha. Lá foi a gente à cata das coisas exigidas. Bem depois do meio da tarde, o monturo estava feito. Marquinhos mais velho e mais afoito era o organizador. Eu e Marcelo, seus serviçais. Ordem prali, bota aqui, ajeita assim e lá vai. Por volta das cinco da tarde, estava aquele arranha-céu mais parecendo com as ventas da gente: uma desarrumação só. Marquinhos foi de afoito e deu banho de querosene na madeira e tascou fogo. O fogaréu comeu no centro de atrapalhar a passagem dos pedestres e veículos. Mas tinha um detalhe: se a fogueira se desarrumasse espalhada no terreiro, era atraso de vida pro dono da casa. Agouro dos brabos. Destá. A coisa se acomodou a contento sem desastres, a ponto dele pegar um cotoco de pau aceso em brasa e ficar se amostrando. Marcelo que não perdia a vez dele, logo pegou outro graveto e ficou com o fogaréu soltando dos seus peidinhos: um jato danado saía dos seus borborigmos. Eu, mais medroso e não querendo brincadeira com fogo, ficava olhando no meu alvoroço. Aí Marquinhos desafiava Marcelo pra aproximar mais e fazer que nem ele: botar um jato bom na flatulência. Arrepara só, a presepada. Isso vai e vem, os dois apostando, Marcelo alinhou a caixa dos peitos e anunciou soltar o maior de todos. Resultado: um buraco queimado na bunda do calção. Três dias encarriados e de bruços no ai oi só à base de Hipoglós. Do lado de fora, eu e Marquinhos só fazendo coro ao Gonzagão: [...] Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo [...] O céu estava azul em festa pois era noite de São João [...]. Veja mais aqui.
 Imagem: Festa Junina, da artista plástica Valquíria Barros.


Curtindo Viva Gonzagão! É forró, é xote, é baião (BMG, 1994), numa homenagem ao Rei do Baião Luiz Gonzaga com Alceu Valença, Dominguinhos, Chico Buarque, Sivuca, Geraldo Azevedo, Oswaldinho, Quinteto Violado, Gonzaguinha, Fagner & Marinês, Alcione, Zé Ramalho e Forró Mastruz com Leite. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA: REPRISE DO PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, no horário das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da simpaticíssima Ísis Corrêa Naves. A programação conta com apresentação de poesias, músicas, brincadeiras, informações, dicas e muito entretenimento para a garotada. Além do mais, no blog do Brincarte do Nitolino você pode conferir resumos, resenhas, artigos e informações acerca da Psicologia Infantil, da Educação Infantil, do Direito das Crianças e dos Adolescentes, do Teatro Infantil, da Literatura Infantil e da Música Infantil, além de curtir poesias, lendas, brincadeiras, pinturas, desenhos e muitas outras atrações pra garotada. Para conferir o programa online clique aqui ou aqui.

TRATADO DA LAVAÇÃO DA BURRA – O livro Tratado da lavação da burra ou Introdução à transcendência brasileira (Bagaço, 1986), do filósofo, poeta, professor e ensaísta Ângelo Monteiro, obteve do ensaísta e conferencista Olavo de Carvalho o seguinte comentário: “O poeta e filósofo alagoano Ângelo Monteiro nos oferece em todos os ensaios deste livro, em especial nas páginas memoráveis do "Tratado da Lavação da Burra", talvez a mais dramática tentativa que alguém já fez para oferecer à pergunta ‘Que é ser Brasileiro?’ uma resposta ontologicamente significativa". Também o escritor e advogado Nelson Saldanha assim se expressou: "No texto de Ângelo Monteiro,"Tratado da Lavação da Burra", redigido entre o surrealista e o irônico, entre a anotação alongada e a exposição sintética, estão presentes, como possíveis arquétipos, os modelos satíricos de todas as épocas; e sua linguagem, que ora é aforística ora coloquial, acompanha com um pouco de pressa as associações de ideias do leitor, que vai a cada passo se surpreendendo". Trata-se de um ensaio sobre o Brasil, do qual destaco o trecho inicial Vamos lavar a burra: De início pode parecer esotérico o pontifical apelo para que todos “lavem a burra”. A “sua” burra. Mas para que se entenda semelhante prodígio se fará necessário, antes de tudo, que não tenhamos princípio; que não conheçamos origens; que sejamos apenas. Deixemos, por enquanto, a burra em paz e iniciemos o trajeto virgem. Anterior a qualquer descoberta. Impressentido por todos os oráculos que porventura antecederam a nossa existência enquanto tribo — ou grupo de tribo autóctones. A Grande Taba está de braços abertos. Os pajés em festa. Nesse triunfo de maracatus e maracás, brincamos com a civilização, mesmo suportando, com incrível galhardia, as suas mais refinadas e complicadíssimas técnicas, apenas pelo masoquístico prazer de nos abrirmos para o mundo, numa diversão que vem nos custando não só os olhos da cara, mas a cara toda. Somos um povo em festa, um povo que faz de sua euforia a condição final do seu projeto de ser. Que não é um projeto: já nascemos prontos. Ao contrário de Minerva, que já nasceu armada, surgimos justamente desarmados da cabeça aos pés. Nosso primeiro postulado filosófico seria o seguinte: as coisas não estão aqui para serem pensadas; as coisas parecem não se encaminhar a nenhum destino: estão como existência apenas no hoje, num hoje pronto e acabado que é em si mesmo o seu próprio futuro. No futebol, no samba e no carnaval, já temos a senha dialética dos três estágios que não lograram sequer ser atingidos pelo nosso esforço, pois nos foram dados simultânea e instantaneamente sem nenhuma necessidade de síntese, sem nenhum percalço lógico ou metafísico. A nossa metafísica se deixa expressar pelo mais simples dos axiomas: na prática, a teoria é outra. O que significa dizer: não fomos feitos para as teorias. Contamos com uma prática, e, antes mesmo de se constituir numa improvisação nossa, já nasceu um dom que dispensou a conquista. Sambamos, jogamos e brincamos carnaval, logo, existimos. Não há necessidade de um projeto criador da história. Nossa história é esse rodízio constante que, todavia, redunda no mesmo. Mas nada disso importa. Eis o que nos importa: aqui não há tradição, há só presente. É como se o que houvesse de comum até agora, entre os homens, tivesse que ser revisado ou transmutado por uma experiência inteiramente nova de ser. Por exemplo: essa disponibilidade — ou bem mais uma docilidade que nos é nata — de aceitar e compreender tudo o que é alienígena, e só porque é alienígena, é que não nos deixa adquirir uma vida própria; pode ser um curioso sintoma da nossa mais radical diferenciação. E tanto isso pode ser interpretado como um desencontro conosco, um repúdio às raízes, para melhor acolher o que for corpo estranho — tal se fatalmente tivéssemos que nos virar sempre no outro —, como pode sugerir ou apontar para um novo estágio de cultura sequer adivinhado por nenhum povo. O problema é saber a que isso nos leva. [...]. Veja mais aqui e aqui.

TERRA DE CARUARU – O romance Terra de Caruaru (Civilização Brasileira, 1977), de escritor e jornalista José Condé (1917-1971), trata dos conflitos gerados pela transição do mundo rural, tradicional e violento, para a cidade, a qual todos esperavam progresso. Elogiado por Otto Maria Carpeau, o livro traça um panorama do cotidiano das cidades do interior nordestino, com seus coronéis, cangaceiros, místicos, prostitutas, frustrados, crianças e bichos, bêbados e poetas, oportunistas e sonhadores, cujas vidas se cruzam e se modificam para melhor ou para pior. Da obra destaco o trecho: Passara estação das chuvas e o tempo se prolongava numa agonia de sol e mormaço. De quando em vez uma rajada de vento investia contra a galharia, erguendo grossas nuvens de poeira amarela e quente. Um silêncio de fim de mundo descendo das serras e serrotes, envolvia o rancho onde os tangerinos, em redes armadas no avarandado, olhavam, atônitos, um céu azul agressivo. Então o bredo murchou. Quando os bichos de quatro pés o mastigaram pela primeira vez, estava sendo escrita a página inicial da fundação de uma cidade. Foram morrendo consumidos pela diarreia e a paralisia. De saída, os bezerros, depois os novilhos, por fim o gado maduro. Os vaqueiros assistiam a tudo sem compreender, embora sentissem na própria carne a desgraça que sobre eles se abatera. Outras boiadas desceram do alto sertão e tiveram destino idêntico. Os cariris – por sua vez – intensificaram os ataques e semearam o terror em toda a chapada da Borborema. Um dia, alguém disse: - Lugar maldito. Então, as mandas mudaram de rumo em busca de outros pousos, permaneceram, apenas, o rancho arruinado e um nome maldito: Caruaru – afora o silêncio doloroso preso no coração do carrascal. Mas as chuvas foram abundantes no ano seguinte. O pasto verde voltou a crescer. O rio Ipojuca se esponjou em vazantes de limo fértil. Floresceram os pés de baunilha, jurubeba, sassafrás, velame, jucá, jurema e pau-d’alho. O cheiro de terra molhada amaciava os ares. O inverno era assim: uma solicitação para a vida [...] Veja mais aqui.

SENHOR SÃO JOÃO, XENHENHÉM, QUADRILHA & NORDESTE – No livro Poemas de Ascenso Ferreira: catimbó, cana caiana e xenhenhém (Nordestal, 1981), do poeta modernista Ascenso Ferreira (1895-1956), encontro de cara o seu poema Senhor São João: Em frente à fogueira, / Zuza, espaduado, / benzeu-se sereno / e fez oração: / - Chô – Cão! / - Chô – Cão! / Depois levantou / a vista pro céu / pra ver se o espiava / Senhor São João. / E meteu os pés nuzinhos nas brasas de fogo quente! / - Danou-se, só quem tem os pés de sola! / Porém Zuza, vadiando, andou pra lá e pra cá! / Cachetando, se agachou, pondo fogo no cachimbo! / Depois, puxando a pistola, atirou fixe no chão! / - Viva Senhor São João! / - Vivôooo! Também encontrei o Xenhenhém nº 1: Todos os dias era a mesma a tua prosa: / “Sua amizade é criminosa! Isso não me convém”... / Mas logo após essa recusa mentirosa, / tudo um sonho cor-de-rosa, um queixoso xenhenhém... / Xenhenhém... xenhenhém... xenhenhém... / Porém, um dia, foi verdade a tua prosa! / E te foste, cautelosa, para o amor que te convém! / São pesadelos nossos sonhos cor-de-r0sa... / mas que coisa dolorosa, continha o xenhenhém! / Xenhenhém... xenhenhém... xenhenhém... / Coisa terrível é a gente querer bem! Há, ainda, o Xenhenhém nº 2: Em meio ás minhas muitas dores / talvez maiores do que o mundo / surges, às vezes, um segundo, / cheia de pérfidos langores. / Chegas sutil e sem rumores... / e até sinto o odor profundo / no qual eu sôfrego me inundo / - pária do amor, sonhando amores. / Depois, tu falas não sei donde... / és como um eco que responde / mas, sempre e sempre, além... além... / Súbito, encontro a casa ôca. / Não estás! – Meu Deus, que coisa louca, / só é na vida um xenhenhém! Já a Quadrilha de Caetano Norato é assim: A dança de Caetano Norato é uma procriação. / Nada de quadrilhas marcadas em francês: / Em avant tours! Chaíne de dames! / Chaíne de chevaliers! / Nidra! / A dança de Caetano Norato é assim: / - Atenção! Lá vai tempo! / - Damas por cima, cavaleiros por baixo! / - Damas por baixo, cavaleiros por cima! / - Pronto, seu mestre, chegou... Por fim o seu belíssimo Nordeste: O ferreiro malhando no topo das baraúnas. / Nas lombas da serrá o sol é de lascar... / Nem uma folha só fazendo movimento!... / - Nana! Ô Nana! / - Inhor! / - Chega me abanar... / Pouco a pouco, porém, vem vindo um vento frio / trazido pelas mãos de moça do luar... / Que gozo nos coqueiros acarinhados pelo vento!... / - Nana! Ô Nana! / - Inhor! / - Chega me esquentar... Veja mais aqui e aqui.

VIVA SÃO JOÃO – No livro Teatro a vapor (Cultrix/MEC, 1977), do poeta, dramaturgo e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), encontro o esquete Viva São João: No quintal da casa do João Ferreira, onde arde uma grande fogueira. Diversos grupos de senhoritas, rapazes e crianças soltam balões e foguetes, queimam pistolas, bombas, bichinhas, etc. Barulho e alegria. Todos se divertem, à exceção de D. Julia, cunhada do dono da casa, solteirona dos seus 45 anos de idade, que, sentada a um canto, vê e ouve tudo aquilo de mau humor. O Cipriano, um pândego, aproxima-se de d. Julia. CIPRIANO – A senhora está trista, d. Julia? D. JULIA – Que tem o senhor com isso? CIPRIANO (sem se ofender, porque já a conhece) – Não tenho nada... pergunto porque me interesso pela senhora... ainda hoje não a vi rir! D.J. – De que quer o senhor que eu ria? C – Quero que se divirta, como os outros... DJ – Agradeço-lhe pela atenção, mas não se incomode comigo (levanta-se com grosseria e afasta-se). JOÃO FERREIRA (aproximando-se de Cipriano) – Que foi isso? ... que dissesse à Julia que ela ficou tão zangada? C – Apenas lhe perguntei porque estava triste! Esta tua cunhada é muito esquisita! JF – Em dias de festa é o que se vê: como ficou pra tia, não pode estar satisfeita onde quer que estejam moças e rapazes. É insuportável!... Já lhe tenho dito que melhor seria trancar-se no seu quarto! C – Coitada! Deixa-a lá! JF – Além de ser feia e velha, é malcriada! Desde que perdeu, há dez anos, um casamento, que aliás seria a sua desgraça porque o noivo era um valdevinos, está sempre de mau humor, e não pode ver sem inveja os outros se divertirem. Com franqueza te digo que preferia uma sogra a esta cunha! (Vendo subir um balão) Viva São João!... A CRIANÇADA – Vivou!... JF – (Continuando) Entretanto, ali onde a vês, não perde as esperanças, coitada! Queres fazer uma experiência... por pandega?... Diz-lhe uma frase amável, namora-a e verás como fica outra! C – Nada! Nessa não caio eu!... JF – Por quê? C – Depois é que são elas! JF – Ora! Depois manda-a passear! Ela vem aí (dirigindo-se a D. Julia que passa) Ô maninha? DJ (Aproximando-se, de cara franzida) – Que é? JF – Aqui o nosso amigo Cipriano está molestado com você... você tratou-o mal... e, no entanto, ele simpatiza tanto com você... diz que você tem um olhar compassivo... (D. Julia sorri). C – E um sorriso, ai que sorriso!... HF (Baixo a D. Julia) Está caidinho... (Afasta-se). DJ (Amável, a Cipriano) – Não quis magoá-lo... perdoe... é que estou tão habituada ao escárnio... C – Não diga isso! Quem pode escarnecer de um anjo?.... DJ (faceirando-se) Um anjo! Meu Deus! Quem me dera ser um anjo! C – Os anjos não se conhecem! DJ – Oh, eu conheço-me... não tenho beleza, nem mocidade... C – Pode ser que para os outros; mas para mim... DJ – Cipriano! C – Que música tem as sílabas do meu nome proferidas por esses lábios! DJ (radiante de alegria, vendo subir um balão). Viva São João!... C – Venha, Júlia, venha soltar umas bichinhas... DJ – Prefiro uma pistola.... uma pistola com muitos tiros, sim? C – Viva São João! JF (aproximando-se, baixo) Eu não te dizia?... Veja mais aqui e aqui.

NOITE DE SÃO JOÃO – O premiado drama Noite de São João (2003), dirigido por Sérgio Silva e baseado na obra Senhorita Júlia, de Augusr Strindberg, adaptado por Rodrigo Portela, Paulo Berton e Sérgio, com trilha sonora de Ayres Potthoff, conta a história de famílias camponesas que se organizam para uma grande festa junina, enquanto umas das personagens termina seus afazeres na casa grande e espera seu noivo que trabalha como capataz na fazenda. Em meio as comemorações, a arrogante filha do fazendeiro aparece e, animada com o vinho tomado, chama o noivo dela pra dançar, aproveitando para relembrar a infância e revelar a ele seus sonhos íntimos. O cenário são os festejos juninos tão presentes no calendário brasileiro, tradição nordestina que tem se espalhado por Brasil com um dos acontecimentos tipicamente brasileiro. O filme arrebatou quatro Kikitos no Festival de Gramado e uma indicação no Grande Prêmio Cinema Brasil. O destaque da película é para a premiada atriz Dira Paz. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 Desenho do escultor, pintor, ilustrador, desenhista, gravador e entalhador pernambucano José Barbosa (in: Poemas de Ascenso Ferreira. Nordestal, 1981).

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
 (Imagem: Xilogravura Dançando forró, de Severino Borges).
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    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...