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domingo, janeiro 02, 2022

HÉCTOR ABAD, DARRIEUSSECQ, IGNACIO PADILLA & FRANCESCA WOODMAN

 

 

TRÍPTICO DQP – Esperança, amanhã diferente - Ao som do álbum Les Voix Humaines (Alia Vox, 1998), do gambista, regente e compositor catalão Jordi Savall. – Era primeiro de janeiro, o Ano Novo, enquanto do outro lado do planeta só se comemorará lá pra depois de meados do mês de março e outro ano diverso do daqui. Não consigo entender direito a razão disso. Saber eu sei, vale mesmo que O Sol nasce para todos e aqui os que vivem na escuridão se alimentam para a tragédia da violência monstruosa. Sigo pela rua sombria abandonada pelas estrelas daquele dia, terra de mortes e nascimentos. É como se estivesse na cidade da eterna primavera e eu visse ali tombar assassinado o médico sanitarista colombiano n’A ausência que seremos (‎Companhia das Letras; 2011), do escritor Héctor Abad Faciolince: ... Os anos, as palavras, as brincadeiras, as carícias se apagaram, e no entanto, de repente, rememorando o passado, alguma coisa volta a se iluminar na sombria região do esquecimento. Quase sempre é um misto de vergonha e alegria, e quase sempre aparece o rosto do meu pai, colado ao meu como a sombra que arrastamos ou que nos arrasta... Depois de mortos, ainda sobrevivemos por alguns frágeis anos na memória de outros, mas também essa memória pessoal, a cada instante que passa, está sempre mais perto de desaparecer... Diante de mim as cenas do drama Forgotten We Be (2020), do cineasta espanhol Fernando Trueba. Lá estava eu envolvido com a trama e cônscio entre milhares de outros mortos doutros rincões que não foram apenas sequestrados, desaparecidos ou imobilizados, como as Filhas da Dor e os tantos crimes sem solução engordando as estatísticas da impunidade. Não sei por onde voo nas periferias e favelas sem Estado nem futuro algum, locais em que grupos fardados, paramilitares e narcoterroristas cultuam o fascismo de sicários no espetáculo do terror: são os inimigos do povo, polícia, exército, facções criminosas, facínoras que pregam o medo das represálias com palavras de ordem, notícias falsas, contragolpes, plantões emergenciais, programas de rádio e tevê, manchetes sensacionalistas que mitificam os Pol Pot, Leopoldo II da Bélgica, Hiroito, Hernan Cortés, Tamerlão, Stalin, Hitler, Nurhad, Gengis Khan e todos abomináveis com os seus escusos triunfos do presente. No bolso do morto um fragmento do Epitáfio, de Jorge Luis Borges: Já somos o esquecimento que seremos. / A poeira elementar que nos ignora / e o que era o Adão vermelho, e o que é agora, / todos os homens, e isso não veremos. Não é outro lugar senão a minha cidade onde deixei a Carta ao meu pai: para quem esperança, só esperava um amanhã diferente.

 


O mundo todo é aqui... – Imagens: arte da fotógrafa estadunidense Francesca Woodman. - Ao despertar o amanhecer no lombo de um navio de deserto pela pátria do Beduino, a Arábia deserta, suportando cargas fabulosas por mais de duzentos quilômetros. Fui recepcionado pelo papagaio poliglota, Para, que além de me saudar em muitos idiomas misturados, relinchou, miou, só não cantou como os pássaros. Ele havia discursado sério e exaltadamente em uma assembleia de juízes e padres da corte, deixando-os para me conduzir até o poeta sonhador Arnaud que me sorriu com sua barba de zuavo, seu ar sério de velas acesas, heroísmo negligente, talento simples e encantador para a aventura. Estava num albergue do Cairo, ao lado de seu companheiro Vayssiére, um ajudante-major de verve característica do Languedoc. Contou-me que havia desembarcado na praia de Hodeida, com a missão de retornar a Maarib porque lá havia encontrado cinquenta e seis inscrições, cuja estampagem conseguiu fazer com uma escova de sapatos e traduzido tudo com um asno hermafrodita. Apresentou-me a Parihou com sua esposa Ati - um verdadeiro paquiderme de tão deformada pela gordura, pernas curtas e pesadas, a exibir seus sinais de prosperidade, a me dizer que a sombra de Arnaud iria para Hadramaut que se tornou famosa e próspera pela represa de Maarib e que se encontrava agora no livro perdido de um certo explorador alemão Hans Helfritz: No reino de Sabá, o país sem sombra. Depois dos elefantes e rinocerontes, ela era a mais volumosa das criaturas vivas e trazia em cada orelha uma argola de ouro que jorrava por todos os lados em um colar de várias voltas e correntes pelo tornozelo. Seus seios caiam-lhe até o joelho e era desenhada pelo artista acocorado, Deir el-Bahari. Dela recebi a notícia de Cambises que havia desposado as duas irmãs dos comedores de peixes e que depois assassinou a mais jovem, Roxana, e ao irmão dela Bardixa que foi vencido na prova do arco etíope, conforme narrado por Heródoto e que logo apareceu ali e me disse: De todos os infortúnios que afligem a humanidade, o mais amargo é que temos de ter consciência de muito e controle de nada. É sem dúvida mais fácil enganar uma multidão do que um só homem. Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro. Foi ele quem me levou para Belquis que estava pendurada seminua sobre a porta. Sim, a mesma que na tradição árabe era a rainha de Sabá e que governava os abissínios. Ela tinha vindo do Iêmen pelo Estreito de Bab-al-Mandb, acompanhada por sua fabulosa caravana carregada de presentes para mim. Logo me confidenciou que o seu desejo era me levar para Aksum e deu-me uma estela do deus Hórus de pé, nu sobre os crocodilos, segurando em uma das mãos um leão, um caprídeo e os animais ctonianos, o escorpião e a serpente, com uma madeixa lateral da infância e dominado pela cabeça dos deus Bés – um demônio benigno que protege contra as entidades do mal. Disse-me ela ser este presente revestido da magia protetora doméstica. Depois ofereceu um cálice de ouro recheado de caracteres sibilinos incompreensíveis: era para eu beber e ficar imunizado. Ao sorver o líquido, entregou-me uma pedra de Aksum com inscrições antigas e que o rei havia conservado ao pé do leito: Ela cura toda espécie de doenças, e se um homem souber utilizá-la, tornava-se invulnerável. Despiu-se e se deitou ao lado de uma bacia com uma serpente, enquanto me oferecia outras estatuetas mágicas para que eu não tivesse a mesma sorte de Dillon que morreu de febre, do doutor Petit que foi levado por um crocodilo, de Schaeffner que morrera de disenteria, nem a do desenhista Vignaud que foi tragado pelo esgotamento no caminho de volta. Entre os tantas oferendas lá estava a imagem do rei sacralizada: seu rosto é ornado pelo carneiro tricéfalo – animal atributo do deus Amon –, usando arranjo cilíndrico na cabeça, tendo no alto crescente lunar e um disco solar, símbolo da cultura sabeu-etíope. Apresentou-me o pequeno Menelique, filho de sua ligação com Salomão e que seria o fundador da dinastia dele na Abissínia. Segredou-me que eu devia me cuidar para não ser atacado pelas serpentes aladas fêmeas que devoram o macho logo após o acasalamento e depois é a vez da mãe ser comida pelos filhotes que lhe devoram as entranhas para abrir caminho ao parto. Também que eu evitasse Ghul, um djin feminino que costuma seduzir o pobre beduíno. Reiterou confidente: São bastante perigosas, esteja de prontidão. E foi tirando minhas vestes para me banhar: Só pode entrar no hima, o recinto sagrado, depois de rituais de purificação com a água. Despido ela me conduziu até a sua alcova e deitou-me de frente para um espelho que simbolizava o paredro, com o Sol que era a deusa-Mãe, ao lado do deus-Lua e, por trás de ambos, estavam as três deusas que protegiam as rotas: al-Lat que recebia a os que voltassem das viagens; al-Ozza, a que habitava o bosque sagrado dos caminhos e que será cortado pelo profeta; e Manat, a divindade da felicidade e também do acaso, era ela que, com suas tesouras, cortava a linha do destino. Prestei atenção a tudo que me dizia enquanto alternava poses para consultar o voo dos pássaros, a marcha dos animais, a posição de um feixe de flechas jogadas ao chão, era o costume dali: as mulheres liam a sorte com o auxílio de um punhado de conchas jogadas sobre um pano velho. Foi o que fez antes de proibir terminantemente a morte de meninas enterradas vivas ao nascerem. Depois sentou-se como se representasse uma matrona, meio de frente, olhando nua para o céu: Lady Bar’at. Levantou-se para encenar a Rainha Candace da Etiopia: Amanetere. Era a mesma que vira nos muros dos templos de Naga, seguida de um eunuco etíope que ia levá-la para uma grande e bela torre. Estava agora acompanhada de seu leão familiar e me conduziu ao templo de Naga, onde as pregas da esteatopigia era o galardão de nobreza. Lá estava a filha da rainha Bartare que dispunha de uma corte com enorme séquito e bens nada negligenciáveis: veio-me com seus quadris enormes realçados pelo vestido plissado, um bracelete troncônico etíope, coberta de joias e um ombro nu em sinal de respeito: Venha, vou levá-lo ao templo de Isis de Philae onde me deu o tesouro da rainha Amanishakete: uma estatueta de bronze do Hermafrodita apontando para o seu sexo ao levantar a sua longa túnica até o umbigo, enquanto o seu ombro esquerdo deixava a mostra o seu seio desenvolvido. Era ela, de repente, o esqueleto de Eva para me levar por Melka Konture, a mais de dois mil metros de altitude, próxima do Awash. Lá já recomposta para remexer as nádegas proeminentes, participou do culto da fecundidade no eixo de um dólmen que os indígenas chamavam de daga koliya e que encerrava grandes tesouros. Depois encostou-me às suas costas para que desfrutasse do seu glúteo desnudo, a me levar pela Baixa Núbia e rumar pela região selvagem e árida do Bato al-Hagar, onde os desencaminhados eram submetidos à servidão. Chegamos em Tebas, onde ela puxou meus braços e pôs minhas mãos sobre os seus seios para que eu ficasse colado às suas costas e me mostrar as mulheres que serviam os visitantes. Assim, agarrado em seu dorso ouvi o aviso de Heliodoro de Êmeso: dava conta de que um camelo leopardo provocava pânico numa cerimônia de sacrifícios. Logo vi que ali expiava um negro colocado de joelhos debaixo do rabo do cavalo: postura bem ridícula e humilhante. Outros escravos eram oferecidos com os braços atados, acompanhados de suas mulheres de seios nus e bebês nas costas. Presenciei Amenófis III fazer questão trazer sua esposa Tiyi para glória de seu reino, mandando construir para ela um templo com seu nome. Liberado pela acompanhante, ele ofereceu-me depois todas elas: a esposa ao lado de outras das ancas fartas para cobrir minha nudez e se desnudarem para fartar todos os meus desejos e regalo com as benesses da rainha nua por quantos anoiteceres incontáveis. Foram dias primorosos, até ver-me só apreciando a civilização não só admirada por Heródoto, como também por Diodoro, Estrabão, Plinio, entre tantos outros, lendo o livro que me fora presenteado por Guy Annequin – As civilizações do mar vermelho (Ferni, 1977): nossa época agitada é mestre na arte de destruir tudo, esses países correm um grande perigo.... perde-las-emos para sempre! Estava então só com uns versos do Gerión e a Suméria (Cepe, 1997), de Fernando Monteiro: ... Eu não queria somente ter / esse vazio na alma, / esse vácuo que me faz contemporâneo / de um século de nada... E só me restava o eco das palavras de Espinosa na cabeça: O desejo é a própria essência do homem, enquanto concebida como determinada a fazer algo por uma afecção qualquer nela verificada... A alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior... A tristeza é uma passagem do homem de uma perfeição maior para uma menor. Seguir meu caminho era trilhar para onde nasce o Sol, onde sempre estou e vivo.

 


Perdido no chão da casa... – Imagem: Portrait Of An Artist As A Woman (1989), de Eric Fischl. - E se não sabia onde, logo me dei conta de que estava só numa praça em que estava erguida uma estátua que fora jogada no lixo e era Bamba de Totó il Buono (1943- Monte Università Parma, 2003), do escritor italiano Cesare Zavattini (1902-1989): os habitantes vivem na mendicância e ganham a vida à noite, governados pelo jovem Totó, nascido de um repolho e aconselhado por uma pomba que fora dada pelo espírito de sua defunta mãe. Ali imperava a hostilidade dos Mobbis, criaturas de casacos de pele e corações de pedra. Os que conseguem se safar dos malignos, logo se defrontam com o fantasma de Gilbert Ryle aos gritos: É de extrema importância notar desde o início que estupidez não é a mesma coisa, ou o mesmo tipo de coisa, que ignorância. Não há incompatibilidade entre ser bem informado e ser bobo, e uma pessoa que tem um bom faro para discussões ou piadas pode ter uma cabeça ruim para os fatos. Ou com Arthur Koestler pelas esquinas sentenciando: Fez o melhor que podia - não foi bom o bastante... Nada é mais triste que a morte de uma ilusão... ou ainda com a trupe do escritor Ignacio Padilla, a Crack mexicana (‎Createspace Independent, 1996): ... profundo respeito pelo leitor inteligente, que deseja participar ativamente da literatura, acompanhado pelo escritor Pedro Ángel Palou: A ideia era brincar com a onomatopeia. Fazendo uma fenda a gente fazia uma fissura, uma fenda, na tradição. Queremos reescrever a tradição latino-americana sem romper com ela. Estamos cansados da marca latino-americana. Abriu-se então uma brecha no tempo e pela rachadura onírica surgiu Marie Darrieussecq com seu jeito encantador para me dizer: A angústia, por exemplo, é uma experiência muito comum que pode alterar profundamente a visão, a audição, até o olfato e o equilíbrio... Trata-se de paixão. Paixão não é amor. O amor te ajuda a viver. O amor te ajuda a trabalhar. Você está em boa companhia com o amor. A paixão o impede de viver, trabalhar, respirar. A paixão é um desastre. É um desastre extraordinário. É tão intenso, é fabuloso. Sua presença era um alívio e pude vê-la sorrir enigmática enquanto permitia que eu pudesse sonhar um pouco com seu jeito fascinante. Na real, eu fugia da dupla tragédia dagora: a peste e o desgoverno. Ela sentou-se e me fitava firme: nos seus olhos havia a certidão de que eu estava deveras exilado a seguir na loucura hodierna dos estranhos lugares tão familiares quanto a minha terra onde eu fosse ou estivesse: o mundo todo é aqui. Até mais ver.

 

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domingo, dezembro 13, 2015

ESPINOSA, LUIZ GONZAGA, CHAUÍ, ADÉLIA PRADO, QUANDO TE VI & MUITO MAIS!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? QUANDO TE VI, A HISTÓRIA DA CANÇÃO – Essa canção nasceu numa tarde de maio na segunda metade dos anos de 1980. Surgiu ao dedilhar no teclado os sentimentos devotados àquela musa que ocupava meu coração. Estava eu no meio de um idílio envolvente, daquele devastando tudo, evoluindo no campo da incerteza e construindo a paixão legendária. Não havia futuro nem passado, apenas o presente de nossas vontades impetuosas de se entregar ao arrebatamento dos nossos avassaladores desejos. Tudo era impossível, tudo conspirava contra, contudo persistíamos completamente dominados pela atração dos nossos corpos. Como os quereres da nossa abrasadora comunhão perseguiam-me todos os intentos, repetidas vezes, manhãs, tardes, noites e madrugada adentro, tal como a mulher que se ama de forma inatingível, a melodia se insinuava sem que eu tivesse a mínima noção no que resultaria. Era a amada ardentemente desejada e a canção se insinuando como se a própria fosse: era a forma de eu tê-la por todo momento. Dias, semanas, meses e anos o tema me perseguindo toda vez que eu me sentava ao teclado, tomando corpo por si só, sem que eu me dedicasse além do exercício, pois, não era mais que isso: era a emanação intuitiva do sentimento. Experimentava formas para condução melódica sem que eu tivesse como definir nada além de me exercitar, como se expressasse apenas o que se passava por dentro de mim no meio daquele redemoinho. Um dia, acidentalmente eu resolvi incorporar uma harmonia e, aí, a canção tomou vulto e foi se aperfeiçoando até eu me dar conta de que poderia virar música de mesmo. Era um desafio porque virou gestação de um parto imprevisível, tal qual amor impossível que se alimentava dos encontros fortuitos e às escondidas. Tal como o amor que se agiganta dominando tudo, a música formava, sozinha, sem que eu pudesse intervir ou descartá-la num aborto. Virou, então, obsessão, tanto a paixão, como a canção. E de tanto trabalhá-la, de primeira percebi que seria só instrumental por exprimir tudo que eu sentia. Ela própria tivera vida e mandava ver. Não precisaria que dissesse nada, só executá-la, tal qual encontro ansiado em que os beijos e abraços falam por si só. Tudo estava dito só com a sua execução, mais nada. Como sempre fui muito inquieto, fui trabalhar outras experimentações, apenas para exercitar o instrumento e dela me esqueci, como naqueles momentos em que o namoro trava e não mais pode prosseguir. Assim eu achava. Passei mais a me ocupar com trabalhos ao violão como quem tenta esquecer uma paixão na busca por outra. E a canção se perdeu num canto recôndito da memória, como se o namoro tivesse sido definitivamente acabado. Havia um misto de sentimentos de libertação e derrota, quando, na verdade, estava apenas encruada e permanecia firme nalgum recanto do meu ser. Doutra feita, ao voltar ao piano levado para outras incursões melódicas, no meio de tudo e do nada, ela reapareceu, se insinuou e insistiu que me dedicasse mais atentamente na sua feitura. Aliás, ambas reapareceram: a mulher e a canção. Era inevitável. Passou-me, então, aquela melodia a repisar meus pensamentos e ideias demasiadamente, até levá-la duma vez pro violão como quem leva a amada pra cama para consumar o fato e, burilando a sua raiz para tê-la completamente desenvolta, ela se alojou de vez nas minhas projeções, a ponto de solfejá-la constante e demoradamente até ter a percepção de que deveria letrá-la. Esse o segundo e laborioso desafio. Mesmo quando ocupado noutros afazeres, ambas, o amor e a canção, se mantinham remoendo na cabeça. Além desse tormento, os primeiros versos criados intuitivamente não cabiam nas frases musicais e dava muito trabalho enquadrá-los para que coubessem certinhos dentro da melodia. Virou suplício, como um segundo parto, agora cônscio. Dias, semanas, meses, acho que até anos perseguidos pela melodia, depois de calibrada nas ideias pelo excesso de álcool e uma ressaca tumultuosa dentro de mim pela tarde festeira com a mulher que causara tudo isso, nasceu a primeira frase e, duma levada só, toda letra aparecia pronta com tudo que eu queria dizer. E como quem rega, acarinha, afaga o corpo da mulher, carpintei, ajeitei, rearrumei e, ao cabo de mais dias ou semanas, rebentou tudo: a letra e a música. Definitivamente, estavam prontas. E na primeira tarde oportunizada e que já se prenunciava a despedida definitiva, pude então cantá-la pra responsável de tudo: missão cumprida. E nos entregamos dolosamente, nos festejamos com todos os prazeres até então preteridos e pudemos ter naquele momento o que jamais tivemos: a entrega plena e a cumplicidade eterna. O amor se foi e a canção mergulhou no esquecimento. Hoje ela é como aquela filha que a gente vê nascer, crescer e se tornar sozinha e por ela mesma, o que é na vida dela e minha. (Quando te vi – Primeira Reunião. Bagaço, 1992). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem Nude, do pintor checo Karel Skala (1908-2001)

 

Curtindo no Dia do Forró a coleção de cds Luiz Gonzaga – seu canto, sua sanfona e seus amigos (Revivendo, 2006), reunindo a obra de Luiz Gonzaga (1912-1989) e o cd Gonzagão e Gonzaguinha ao vivo, o livro Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga (34, 1997) de Dominique Dreyfus, o livro Eu vou contar pra vocês (Ícone, 1990), de Assis Ângelo e a coletânea Luiz Gonzaga: Vozes do Brasil (Martin Claret, 1990) e o filme Gonzaga de Pai pra filho (2012). Veja mais aqui.


DESEJO, PAIXÃO E AÇÃO – O livro Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa (Companhia das Letras, 2011), da filósofa Marilena Chauí, trata sobre ética da felicidade, a natureza e o homem, corpo e mente, a vida afetiva, virtude e liberdade, ciência dos afetos, retórica contra os retóricos, homens eminentíssimos, da retórica à ciência, fundamento ontológico e epistemológico da ciência dos afetos, o medo, paixão e vício, valentia e culpa, segurança e liberdade, guerra e paz, servidão e liberdade, finitude e fortuna, contrariedade e comunidade, liberdade e necessidade, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho Laços do desejo: [...] Sem dúvida, o desencantamento do mundo sofreu interrupções, no correr dos últimos séculos, com a emergência periódica dos irracionalismos; todavia, sob a poeira dos ventos irracionalistas e sob a necessidade urgente de repensar a própria ideia da razão, permaneceu intacta a confiança clássica na racionalidade das coisas e do mundo. É muito possível que o desejo, cuja mística parece tomar conta da ideologia contemporânea, seja uma noção privilegiada para captarmos o advento do mundo desencantado, particularmente quando acompanhamos sua mutação ao passar de conceito metafísico a conceito psicológico: de interpretante das estruturas e acontecimentos cósmico-teológicos, o desejo passou a significante das operações e significações inconscientes da psique humana. O desejo — eros platônico, mímesis aristótelica, simpatia-antipatia universais renascentista, Lust-Begier dedos mistérios teosóficos böhmianos — deixou de ser o motor e o móvel do universo para recolher-se no interior da alma, simples paixão humana. É verdade que, para os primeiros filósofos modernos — Bacon, Descartes, Hobbes, Espinosa, Leibniz — as paixões da alma ainda eram parte das operações comuns à Natureza inteira, mas com eles já está a caminho a separação metafísica do em-si e do para-si, preparando a passagem do desejo de condição e suporte do cosmo a objeto de uma ciência particular (a psicologia) e das clínicas (psiquiatria e psicanálise). O desencantamento do mundo tem como pressuposto essa decisiva mutação do desejo que, de misteriosa potência cósmico-teológica, transmuta-se em simples potência da alma cujo enigma cabe à razão decifrar inteiramente. A palavra desejo tem bela origem. Deriva-se do verbo desidero, que, por sua vez, deriva-se do substantivo sidus (mais usado no plural, sidera), significando a figura formada por um conjunto de estrelas, isto é, as constelações. Porque se diz dos astros, sidera é empregada como palavra de louvor — o alto — e, na teologia astral ou astrologia, é usada para indicar a influência dos astros sobre o destino humano, donde sideratus, siderado: atingido ou fulminado por um astro. De sidera, vêm considerare— examinar com cuidado, respeito e veneração — e desiderare — cessar de olhar (os astros), deixar de ver (os astros). Pertencente ao campo das significações da teologia astral ou astrologia, desiderium insere-se na trama dos intermediários entre Deus e o mundo dos entes materiais (corpos e almas habitantes de corpos). Os intermediários siderais, eternos e etéreos, exalam diáfanos envoltórios com que protegem nossa alma, dando lhe um corpo astral que a preserva da destruição quando penetra na brutalidade da matéria, no momento da geração e do nascimento. Pelo corpo astral, nosso destino está inscrito e escrito nas estrelas, e considerare é consultar o alto para nele encontrar o sentido e o guia seguro de nossas vidas. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LITERATURA O CARNEIRO DE OURO – Nas Lendas pernambucanas (Revista do Instituo Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, volume XXIX, Recife, 1930), encontra-se a lenda O carneiro de ouro, narrada por Mário Melo: Tratava-se dum reino encantado. Disse-me uma velha que os antigos viram um carneiro de ouro que ao lusco-fusco passava à boca da furna e que nela habitava. Havia um sertanejo que tentara visita-la. Procurei-o para servir-me de guia. Prometeu levar-me ao local, com a condição de que não entraria. De uma feita, explicou-me, passarinhava nas imediações com um companheiro e teve desejo de desvendar o mistério. Entrou, com aquele, esgueirando-se. Um pouco adiante, viu uma jiboia. Levantou a espingarda em atitude de pontaria e ia desfechar o tiro, quando o companheiro lhe bateu no ombro, porque a cobra era a princesa encantada que ali habitava e, com o derramamento de sangue, se desencantaria e estariam perdidos. Recuou, recuaram e não entraria mais na furna. A narrativa aguçou ainda mais o desejo da visita, quando nada, para desencantar a princesa. Formou-se uma caravana de doze cavaleiros. Confiando em minha pericia de atirador, muni-me dum rifle para enfrentar a jiboia e desencantar a princesa, com quem, aliás, não poderia casar-me, sob pena de bigamia. No momento da partida, a velha que me falara no carneiro de ouro indagou-me: - Moço: vossenhoria leva velas bentas pelo padre Cirço? À resposta negativa, advertiu-me: - Pois não entre! Só pode entrar na furna com sete velas bentas pelo padre Circço, senão não verá nada. Tranquilizei-a. Disse-lhe que era abençoado pelo padre Cicero e nada temia. Partimos. A subida da Serra Talhada é verdadeiramente penosa. Seu nome provem de ter as encostas de rocha dura, cortadas verticalmente. Galgamo-la pela parte norte em sinuosidade, sobre seixos rolados, e com surpresa vi que o planalto era fértil, cultivado relativamente habitado. Por fim, chegamos, na descida da outra encosta, às proximidades de um córrego – o que no tempo sexo se adivinha pela natureza do terreno – onde o guia nos apontou um buraco, dizendo-nos que estávamos em frente à furna e repetindo que não entraria. Um dos companheiros mais atrevidos, antes de qualquer inspeção, empunha o revolver e escorrega-se pelo buraco. Súbito dá um grito, joga o revolver fora e recua. Um abraço da princesa? Um bote da jiboia? Marrada do carneiro de ouro? Nada disso. Grande casa de marimbondos, de atalaia, à entrada da furna. As vespas haviam-lhe picado os lábios e a mão que empunhava o revolver. Localizado, pelo esvoaçar, o reduto dos agressores, foram estes desalojados com um facho que se improvisou. Descemos três, rastejando, porque o diâmetro da furna não ultrapassa de uns cinquenta a sessenta centímetros. Ar deletério. Temperatura escaldante. Aqui e ali, rasto de quadrupede semelhante a cachorro e que se atribuía a animal que não é muito escasso na região. Nosso receio já não era do carneiro de ouro, nem da princesa ou mesmo da jiboia, mas que do antro surgisse um felino enraivecido e agarrasse o que ia na frente, indefeso, enfraquecido pelo calor e pelo mal-estar do ar que respirava. A mais um avanço, aparece um elemento para identificação do animal, cujo rasto se divisava de onde em onde, na areia; o excremento deste. Colhemo-lo numa caixa de fósforos e trouxemo-lo para ser examinado à luz do sol, pelos que nos apreciam peritos. Entregamo-lo ao guia, afamado caçador: - Será excremento de onça? O sertanejo olhou, tocou com o dedo, cheirou e sentenciou convencido: - De onça, não! É de cururu. E demos por finda a investigação. Espeleologicamente, a furna não apresenta interesse algum. Nem estalactites e estalagmites, nem esperanças de sua formação. Nenhuma caverna em forma de sala onde um homem possa estar de pé. Apesar de chamada a furna dos morcegos, nenhum nos apareceu para justificar o nome. Por quanto tempo, entretanto, não perdurará a lenda da princesa encantada com o seu carneiro de ouro, em cujo palácio subterrâneo só se poderá penetrar, para descobrir-lhe os encantos, com sete velas bentas pelo padre Cicero? Veja mais aqui.

GRANDE DESEJO & OUTROS POEMAS – No livro Poesia reunida (Siciliano, 1991), da escritora, professora e filósofa Adélia Prado, destaco inicial o poema Grande desejo: Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia, / sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia. / Faço comida e como. / Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro / e atiro os restos. / Quando dói, grito ai, / quando é bom, fico bruta, / as sensibilidades sem governo. / Mas tenho meus prantos, / claridades atrás do meu estômago humilde / e fortíssima voz pra cânticos de festa. / Quando escrever o livro com o meu nome / e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja, / a uma lápide, a um descampado, / para chorar, chorar e chorar, / requintada e esquisita como uma dama. Em seguida, o poema Corridinho: O amor quer abraçar e não pode. / A multidão em volta, / com seus olhos cediços, / põe caco de vidro no muro / para o amor desistir. / O amor usa o correio, / o correio trapaceia, / a carta não chega, / o amor fica sem saber se é ou não é. / O amor pega o cavalo, / desembarca do trem, / chega na porta cansado / de tanto caminhar a pé. / Fala a palavra açucena, / pede água, bebe café, / dorme na sua presença, / chupa bala de hortelã. / Tudo manha, truque, engenho: / é descuidar, o amor te pega, / te come, te molha todo. / Mas água o amor não é. Depois, Objeto de amar: De tal ordem é e tão precioso / o que devo dizer-lhes / que não posso guardá-lo / sem que me oprima a sensação de um roubo: / cu é lindo! / Fazei o que puderdes com esta dádiva. / Quanto a mim dou graças / pelo que agora sei / e, mais que perdôo, eu amo. Por fim, Poema começado no fim: Um corpo quer outro corpo. / Uma alma quer outra alma e seu corpo. / Este excesso de realidade me confunde. / Jonathan falando: / parece que estou num filme. / Se eu lhe dissesse você é estúpido / ele diria sou mesmo. / Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear / eu iria. / As casas baixas, as pessoas pobres, / e o sol da tarde, / imaginai o que era o sol da tarde / sobre a nossa fragilidade. / Vinha com Jonathan / pela rua mais torta da cidade. / O Caminho do Céu. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O ESPECULADOR DE OLHOS INVISÍVEIS DE CARNE – A Cia Corpos Nômades, está em temporada até 20 de dezembro, sempre as sextas e sábados às 21h e domingo às 20h, no Espaço Cênico O Lugar, em São Paulo, com o espetáculo O especulador de olhos invisíveis de carne, dirigida pelo coreógrafo e bailarino João Andreazzi, resgatando o principio da ideia do “corpo nômade”, sequência de uma pesquisa iniciada há 16 anos, cujo o lugar/foco foi a extinta favela do Gato (hoje conjunto habitacional do Parque do Gato) e a Cultura Guarani (Aldeias: Krukutu e do Jaraguá). Lugares que foram revisitados em 2014 e 2015 com o intuito de observar as modificações ocorridas nesses locais. Neste processo os textos de Samuel Beckett serviram de condutor para as escolhas dos elementos cênicos e na elaboração da coreodramaturgrafia. Ficha Técnica Concepção e Direção: João Andreazzi Elenco: Dresler Aguilera, Gervasio Braz, João Andreazzi e Letícia Mantovani Trilha Sonora: Felipe Julian Iluminação: Décio Filho Figurino: David Schumaker Cenário e Vídeo: Cia. Corpos Nômades e David Schumaker Designer Gráfico: Juliana Basile Agradecimentos: Marcos Tupã (Aldeia Krukutu), Francisca Guarani(Aldeia Krukutu), Tupãzinho (Aldeia krukutu) Sr. Sassa (Favela do Gato), Dona Maria(Favela do Gato), Davi Martins (Aldeia Jaraguá), Jacira Minelli Andreazzi, Marcela Costa, Talita Bertanha, Claudio Willer. Duração: 50 minutos. Serviço: O Especulador de Olhos Invisíveis de Carne – Temporada: 4 a 20 de dezembro Dias: Sempre as sextas e sábados às 21h e domingos às 20h Preços: R$ 10,00 e R$ 5,00 (meia entrada) ESPAÇO CÊNICO O LUGAR – Rua Augusta, 325 – Consolação – São Paulo – Reservas e informações – (11) 3237-3224 – ciacorposnomades@gmail.com. Convênio com estacionamento na Rua Augusta, 108, São Paulo. Veja mais aqui e aqui.

OS OLHOS AZUIS DE YONTA – O filme Os olhos azuis de Yonta (1992), do cineasta guineense Flora Gomes, dá continuidade temática a Morti Nega, revendo as mesmas questões de fundo, as do seu país perante a história, regressando-se aos temas trauma e esperança, entre os pequenos nadas do medo e do desejo, uma jovem, um velho combatente, distraído com os seus velhos ideais e seus novos negócios, que não vê o fraquinho que por ele tem a Mulata de olhos azuis. Bela como é, não desdenha a moda. Alheio aos estratagemas do capitalismo e aos dramas do seu país em rotura, um jovem conterrâneo de Yonda, que lhe envia de Paris missivas românticas e absurdas, a cidade de Bissau e a interpretação destacada da atriz Maysa Marta como protagonista do longa metragem. Trata-se de um belíssimo filme, história extraordinariamente interessante e com imagens encantadoras de uma realidade nua e crua, mas com a ternura permeando desde a primeira cena desse ótimo longa. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte do fotógrafo, pintor e desenhista checo Jan Saudek.
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DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à precursora da enfermagem no Brasil Ana Nery (1914-1880).


quinta-feira, março 07, 2013

OLGA SLAVNIKOVA, ESPINOSA, SOROUSH, PIET HEIN, TEOFILO FOLENGO & LITERÓTICA

 

CONTENDA - Ela nua e linda ali pronta para o ataque: pele despida assaltando o meu coração apressado que vai com toda munição nas mãos para suplantar suas defesas e trapaças na mira do meu gatilho até a última instância de todas as suas sedições voluptuosas. Ela, a Vênus nua dos olhos faiscantes de infinitos desejos e que possuem o néctar do gozo dos mil ventos que inebriam com o fogo das suas entranhas rasgando a velada intimidade fecunda de amor onde eu sou remador dessa canoa de desejos. Nua e linda se fazendo errada às vergastas do meu carinho ateu enquanto o seu sorriso estelar compõe os matizes de luz que irradiam de sua carne fêmea uivante queimando a lenha da minha canção ardente e estiolada. Não me contenho e sou manhã integral no seu paraíso e embriagado com o vinho do seu corpo de vertiginosa flor das entranhas nuas com todos os ferrolhos destrancados, todas as escoras rebentadas, todos os pilares removidos, todas as searas para o meu domínio e eu torrencial no contágio da sua boca que engole a minha agonia e o sangue fervendo nas veias. Sou mais que faminto porque sei que não oferece a menor resistência e se deixa espalmada no tabuleiro pronta para o sacrifício da última cartada no bem mais precioso: a sua dinamite úmida onde alcanço o céu e recolho toda maravilha do dorso felino no sonho de Ariano. Revigorada e à espreita em plena temporada de caça, ela acomoda a nudez de esvoaçante onirismo: dos pés à cabeça é só sedução. E ela insurreta me faz caudatário da sua sublevação que nos confunde caça e caçador na mesma batalha, guilhotinando o tempo, minando os espaços e eu fico refém da fogueira do seu ventre, dos sóis e luas da boca dos lábios de carmim e riso tentador com açoites incontáveis que esfola a alma e se desata no arremesso demolindo todas as estruturas do universo. Nosso olhar se confunde em nossa pele eriçada: é tudo explosão no trapézio da cama-de-gato, nos grilhões do desejo, na questão de honra de esmagar enquanto a faço prisioneira impedida de desertar do meu ataque. Assim, nua e linda capitula e se banqueteia na minha proclamação triunfante sobre a nossa mútua rendição. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - As pessoas se preocupam primeiro em atender às suas necessidades básicas; só depois, eles buscam quaisquer necessidades superiores... Criamos conceitos e os usamos para analisar e explicar a natureza e a sociedade. Mas parecemos esquecer, no meio do caminho, que esses conceitos são nossas próprias construções e passamos a equacioná-los com a realidade.... Se um grupo de pessoas se sente humilhado e que a sua honra foi pisoteada, vai querer exprimir a sua identidade e esta expressão de identidade assumirá diversos contornos e formas... Pensamento do escritor e filósofo iraniano Abdolkarim Soroush.

 

ALGUÉM FALOU: O homem é o animal que traça linhas nas quais ele próprio tropeça... A arte é isto: a arte é a solução de um problema que não pode ser expresso explicitamente até que seja resolvido... Mas como estamos em uma camisa de força, tendo que aceitar um ou outro, quando muitas vezes alguma forma intermediária seria melhor... Pensamento do escritor e matemático dinamarquês Piet Hein (1905-1996).

 

O HOMEM  QUE NÃO PODIA MORRER - [...] Depois de resolver as cem 'instruções', a população passou a acreditar, como em Deus, que a campanha de Krugal estava distribuindo dinheiro de graça [...] Mais tarde, quando todo o ar da nova vida se tornou como pode ser em uma sala onde as janelas estão quebradas e todos os rostos familiares estranhamente drenaram para si mesmos, como água na areia gasta, Nina Alexandrovna de repente percebeu que agora era impossível, proibido e tolo ser feliz por outra pessoa. [...] Nem Marina, seguindo princípios puramente partidários, deixaria seu padrasto descobrir sobre a morte de seu sobrinho bêbado, que parecia um homem morto muito antes de seu amante, um alcoólatra com rosto de conteúdo estomacal, matar o pobre rapaz com um clássico machado russo. […] No entanto, ela se recusou a confirmar essa morte vergonhosa como um fato. Para sua mãe ansiosa, que também não tinha permissão para ver as notícias reais, mas que de alguma forma poderia dizer que algo ruim havia acontecido, a história do crime tornou-se um envenenamento por vodca - o que também era parcialmente verdade, pois, de acordo com o relatório da autópsia, no momento em que seu sobrinho, cambaleante, foi derrubado pelo machado, seu organismo estava encharcado como sopa e ele tinha apenas algumas semanas de vida. No entanto, Marina teve que cuidar para manter a pseudo-vida dessa pessoa. […] Ela simplesmente não conseguia zerá-lo - e evidentemente sua mãe, tirando da caixa de correio a última transferência enviada por Marina, ainda se perguntava por que seu parente agora crescido não aparecia ou vinha visitá-lo mesmo nos feriados que sempre foram sagradas para ele, datas para restabelecer seus direitos e estar com seu povo. Sem dúvida, sua mãe suspeitava secretamente que a brusca Marina havia insultado seu parente - o que também era verdade porque o ressentimento dos mortos pelos vivos sempre se infiltra na noite e aparece no papel de parede, e também porque Marina havia escondido o corpo. [...] Trechos extraidos da obra The Man Who Couldn't Die: The Tale of an Authentic Human Being (Hardcover, 2001), da premiada escritora e crítica literária russa Olga Slavnikova.

 

SONETO - Amor, sob cujo Império muitas ações \ passam sem Tempo e sem Fortuna, \ viu a Morte, feia e escura, em uma Carruagem, \ indo entre as pessoas que ela levou do Mundo. \ Ela perguntou: “Nenhum Papa nem Papesse jamais foi ganho \ por você. Você chama isso de Justiça?” \ Ele respondeu: “Aquele que fez o Sol e a Lua \ os defendeu de minha Força. \ “Que tolo eu sou,” disse o Amor, “meu Fogo, \ que pode aparecer como um Anjo ou como um Diabo \ pode ser Temperado por alguns outros que vivem sob minha Estrela. \ Você é a Imperatriz regente dos corpos. Mas você não pode matar corações, \ você apenas os suspende. Você tem um nome de alta fama, \ mas você não passa de um Malandro. Poema do poeta italiano Teofilo Folengo (1491-1544), também conhecido Merlino Coccajo.

 

A LIBERDADE DE SPINOSA - A liberdade tem sido sempre um dos anseios mais profundos da humanidade desde remotas épocas. E com Spinosa ela ganha um contorno a mais, principalmente no tocante às afecções humanas, suas paixões e a realização de seus desejos durante a sua existência. Com Spinosa, a liberdade não é o resultado apenas de uma alforria a qualquer servidão, mas um patrimônio construído através de um comportamento ético que se articula através do conhecimento e de Deus.
Baruch Spinosa é um holandês do séc. XVII, marcado pelo conflito de suas origens judias e cristãs, conflito este que marcaria toda a sua vida. Ele próprio tomou o partido da liberdade quando, aos 24 anos de idade, se defrontou com a exclusão da comunidade judaica por discordar da verdade das Escrituras, negando a fé, os milagres, o povo eleito e do Deus nelas revelado, substituindo-o por um Deus-Natureza, flagrantemente encontrado em seu panteísmo. Tal fato impõe-lhe a solidão e, contraditoriamente, a integração na vida cultural holandesa. Além desse conflito, Spinosa também tornou-se partidário de uma política contra a Igreja Romana, por discordar dos seus tribunais, sua fiscalização e sua intolerância. Foi daí que ele penetrou no humanismo clássico e estudou filosofia com Descartes, a quem mais tarde também se opunha, resultando, assim, na confecção de um dos seus principais livros, a "Ética", que se constitui na mais completa aplicação do seu racionalismo que descobriria a imanência da verdade ao objeto, graças à demonstração da gênese do objeto.
Uma pesquisa acerca da "Liberdade em Spinosa" identifica a natureza de liberdade proposta pelo pensador que teve toda sua obra por muitos anos mal compreendida, quando não explicitamente atacada - mesmo por aqueles que não a conheciam.
Hoje em dia, porém, como muito bem observa Guimarães (1999), a grandeza desse homem, expressa está em suas obras, sendo cada vez mais aceitas. Muitos dos filósofos do Romantismo e da Modernidade devem muito aos caminhos abertos por Baruch Spinosa. Em especial, a conquista da liberdade de pensamento e de muitos benefícios que a obra dele revelou. Constat-se que Spinosa já observava que tudo na vida humana é passivo de transformação, ou mesmo de pleno desgaste, e que todas as coisas que ocorrem ao homem são "bens" ou "males" à medida que este se deixa impressionar ou estimular por elas, o que na verdade, coisas e acontecimentos são interpretados pela alma humana, de acordo com seus valores e desejos. Ele admite, entretanto, que só diante de uma nova maneira de viver, onde se compreendesse a realidade, poderia ajudar o homem a se livrar de uma tremenda carga de desejos que o prendem à matéria efêmera, e passar a se utilizar dela não como um fim, mas como um meio de se atingir objetivos mais elevados, humanistas e universais.
Buscando uma noção de liberdade em Spinosa, Heitzmann (1996:148), observou que: “A liberdade não se restringe apenas à ausência de obstáculos externos, mas se define sobretudo pela capacidade do "conatus" em se desenvolver internamente de maneira que sua potência seja superior às potências externas. Mais ainda, a liberdade é identificada à atividade devido à noção de pluralidade simultânea das afecções e das idéias quando o corpo é causa total das ações ou de suas afecções e a alma se reconhece como causa total de suas idéias e afetos, em prejuízo da potência interna do "conatus". A partir disso observa-se que Spinosa opera uma dedução ontológica das noções de paixões, possibilitando ao homem o acesso a uma atividade livre e autônoma. Nesse sentido apresenta-se alguns pontos a observar, tais como o do desfrute do prazer que só é benéfico na medida em que não prende a atenção e o espírito humano em si; riquezas e honras só nos são realmente úteis se forem vistas como meios e instrumentos para se atingir uma maior e mais compartilhada felicidade.
Esses assuntos são encontrados com maior visibilidade na sua obra "Ética" onde ele expõe sua teoria da liberdade e dos meios que permitem ao homem transcender as determinações exteriores e alcançar a salvação, encontrando a alegria no amor intelectual de si mesmo e de Deus.
Por exemplo, no livro IV da "Ética", Spinoza esclarece precisamente e particularmente a escravidão do homem sujeito às paixões. Essa escravidão considera as coisas finitas como absolutas e, logo em choque entre si e com ele. Então a libertação das paixões dependerá do conhecimento racional, verdadeiro; este conhecimento racional não depende, entretanto, do nosso livre arbítrio, e sim da natureza particular de que somos dotados (Padovani & Castangnola, 1978).
No V e último livro da "Ética", Spinoza esclarece, em especial, a condição do sábio, libertado da escravidão das paixões e da ignorância. O sábio realiza a felicidade e a virtude simultânea e juntamente com o conhecimento racional. Visto que a felicidade depende da ciência, do conhecimento racional intuitivo - que é, em definitivo, o conhecimento das coisas em Deus - o sábio, aí chegado, amará necessariamente a Deus, causa da sua felicidade e poder. Para ele o homem é idêntico panteísticamente a Deus. Para ele, a potência da alma é definida só pela inteligência, os remédios das afecções, remédios esses nos quais crer que todos têm experiência, mas que não absorvem com cuidado nem vêem distintamente, só os determinando pelo conhecimento da alma, e deste mesmo conhecimento, deduzindo tudo o que diz respeito à sua beatitude (Spinosa, 1979).
Em uma leitura à sua obra encontra-se que a paixão para ele é uma afecção e ela só deixa de ser isso no momento em que dela se forma uma idéia clara e distinta (Spinosa, 1979). A sua primeira tarefa consiste, então, em destruir os valores correntes: bem, mal, feio, justo, injusto, perfeito, imperfeito. São nomes gerais, abstrações que não se referem a nada concreto. Nascem de comparações que os homens fazem entre si e entre os objetos. A liberdade nada tem a ver com tais valores ou preconceitos. A virtude ou liberdade consiste em procurar aquele bem que por sua realidade atual e necessária realiza plenamente nosso desejo: Deus. Por isso a liberdade é definida como amor intelectual de Deus. Amor: paixão positiva. Intelectual: paixão guiada pela consciência que temos de alcançar a plenitude de nosso ser na compreensão de nós mesmos através de nossa compreensão de Deus, isto é, da totalidade.
Nesse sentido, Spinosa (1979:286) argumenta: “Aquele que, portanto, se empenha em governar as suas afecções e apetites só por amor da liberdade, esforçar-se-á, quanto possível, por conhecer as virtudes e as suas causas, e por encher a alma de alegria, que nasce do verdadeiro conhecimento delas; mas de modo algum se esforçará por contemplar os vícios dos homens, nem por os injuriar, nem por gozar da falsa aparência da liberdade”. A virtude, segundo ele, consiste em agir de acordo com as leis da natureza e não difere do esforço pelo qual se persevera no ser: "O primeiro e único fundamento da virtude, ou seja, de uma regra de vida correta (...) é procurar aquilo que nos é útil" (Spinosa, 1979:299). O homem, nesse sentido, não pode ser considerado um império dentro de um império e, se está determinado, não é livre, vez que a liberdade consiste na consciência da necessidade, no conhecimento da determinação segundo a própria essência: “Por estas coisas compreendemos claramente em que consiste a nossa salvação, ou seja, a nossa felicidade ou liberdade, a saber: num amor constante e terno para com Deus, por outras palavras, no amor de Deus para com os homens” (Spinosa, 1979:297). O homem, como os demais seres, procura perseverar em seu ser. Tal desejo, inconsciente nas coisas, torna-se consciente no homem, chamando-se vontade quando se refere à alma, e apetite quando se refere, ao mesmo tempo, à alma e ao corpo. O homem é afã ou desejo de perdurar indefinidamente, pois ser significa, para Spinoza, querer ser para sempre, ter ânsia de eternidade: "(...) um homem é senhor de si próprio, sobretudo quanto mais vive sob a conduta da Razão, e consequentemente é mais poderosa e senhora de si a cidade fundada e governada segundo a Razão". (Spinosa, 1979:321).
A filosofia, para Spinosa, portanto, consiste no amor intelectual de Deus que permite viver de acordo com a natureza, realizando, assim, a liberdade e a felicidade: “A felicidade consiste no amor para com Deus, amor esse que nasce do terceiro gênero de conhecimento; e, por conseguinte, este amor, na medida em que age, deve ser referido à alma; e, por conseqüência, é a própria virtude” (Spinosa, 1979:300).    O que se pode apreender, então, a primeira forma de liberdade não consistirá em livrar-se das paixões - elas são necessárias, isto é, não dependem de nossa vontade, mas das leis da natureza humana. Ser livre não será, portanto, escapar das leis da natureza humana, mas conhecendo tais leis,  começar a deixar-se vencer apenas pelas paixões positivas. E isto também é possível pelas leis da natureza humana.
Spinosa considera que não é uma ação que vence uma paixão, mas uma paixão mais forte que vence outra mais fraca. Ora, a paixão é forte ou fraca conforme o objeto desejado seja forte ou fraco, isto é, mais real ou menos real. Sobretudo, uma paixão é mais forte quando o objeto é imaginado como necessário do que quando é imaginado como contingente. Assim, embora seja impossível que não sejamos passivos, é possível vencer as paixões negativas pelas positivas modificando a direção do desejo rumo a objetos que destruam a oscilação do "conatus" e aumentem sua força.
A partir disso Spinosa começa a definir a liberdade humana. Como a escravidão, a liberdade depende da natureza do objeto desejado, e de causas muito definidas que excluem totalmente a idéia de livre-arbítrio. E é justamente articulando o pensamento spinoseano com a realidade do século XVII, os acontecimentos históricos ocorridos a partir daí até o anseio contemporâneo de busca da liberdade, que se entende melhor a sua proposta de liberdade.
A primeira forma de liberdade, em Spinosa, não consistirá em livrar-se das paixões, vez que elas são necessárias e não dependem da nossa vontade, mas das leis da natureza humana. Ser livre, portanto, não será escapar das leis da natureza humana, mas, conhecendo tais leis, começar a deixar-se  vencer apenas pelas paixões positivas.
A partir disso, Spinosa considera que não é uma ação que vence uma paixão, mas uma paixão mais forte que vence outra mais fraca. Assim, a primeira tarefa de Spinosa consiste, conforme já enunciamos anteriormente, em destruir os valores correntes, tais como o bem, o mal, o belo, entre outros.
Por tudo que foi dito, compreende-se que o retrato do homem livre, para Spinosa, seja o do homem que não faz o mal justamente porque o ignora - é o homem que age para além do bem e do mal porque age apenas pela força interior de seu desejo e de sua compreensão. É o homem que não teme, não odeia, nem tem remorsos porque domina os objetos exteriores em vez de ser uma vítima deles. Dessa maneira, Spinosa nega a pregação platônica e cristã que considera a sabedoria uma preparação para a morte e para a vida eterna. Ou seja, como bem diz Heitzmann (1996:152): “(...) Desta forma, o homem se torna causa adequada de suas ações e além de exprimir Deus, torna-se participante da eternidade divina, eternidade esta que não se confunde  com a vida após a morte, mas antes se identifica com a independência em relação à duração”. Isso quer dizer que, para Spinosa, o homem é uma individualidade, uma definição que se realiza. A individualidade, longe de ser o produto de uma ilusão, possuirá uma realidade irredutível. Esse ser singular, finito, não é substância, mas modo, expressão da substância. Na interação com o mundo, o homem, corpo e alma, modos dos atributos da substância, pensamento e extensão, através do "conatus", em seus encontros com outros modos finitos, agirá ou sofrerá; poderá ter encontros concordantes ou conflitantes que aumentarão ou diminuirão sua potência de agir, pensar e existir. Em suma, o homem será sempre paixão e ação, imaginação e razão. Ou como diz Spinosa, nada mais útil para o homem que outro homem. Veja mais aqui, aqui e aqui.

BBLIOGRAFIA
ABBAGNANO, Nicola. História da filosofia. Lisboa: Presença, 1989
CHÂTELET, François. Historia da filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1974
CHAUI, Marilena. Espinosa, uma filosofia da liberdade. São Paulo: Moderna, 1999.
GIOVANNI, Reale & ANTISERI, Dario. Historia da Filosofia. São Paulo: Paulus, 1990.
GUIMARÃES, Carlos Antonio F. Baruch Espinosa, gênio da liberdade. João Pessoa: UFPB, 1999.
HEITZMANN, Luiz Carlos. Da inadequação originária à liberdade necessária. Cadernos Espinosianos I (2) p.135-55, 1996
PADOVANI, Umberto & CASTAGNOLA, Luís. História da filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
RUSSEL, Bertrand. Historia da filosofia ocidental. São Paulo: Nacional, 1968
SPINOSA, Baruch. Ética. São Paulo: Abril, 1979
_____. Tratado Político. São Paulo: Abril, 1979



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