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quarta-feira, janeiro 28, 2015

GINA PANE, EDNA FERBER, ELEANOR HIBBERT & JOSÉ MARTÍ

 

Imagens: S.O.S. (1914-1916) & The Red Cross (1918), da pintura e pacifista britânica Evelyn De Morgan (1855-1919), expressando o seu horror pela Primeira Guerra Mundial e pela guerra da África do Sul. Veja mais abaixo e aqui.

 

SOS, EVELYN, SALVEM AS NOSSAS ALMAS! - SOS, Evelyn, porque apesar de seu pedido de ajuda em código Morse e da sua resposta ao horror e à futilidade da guerra, as ondas trovejantes ainda estão presentes, carregadas de dragões, monstros e serpentes marinhas que nada mais são que o algoz identificado no próprio humano. Você não viu os horrores das consequências da Segunda Grande Guerra e sequer imaginaria as convulsões de agora em Bangladesh, República Centro-Africana, Honduras, Líbia, Norte do Cáucaso, Ásia Central, Iraque, Sahel, Sudão, Síria e Líbano, grassando alarmantes além do Paquistão, da Turquia, do Afeganistão, da Somália, do Sudão do Sul e da República Democrática do Congo. No Afeganistão a insurreição contínua do Taliban, no maior desastre para as mulheres afegãs. Na Somália, os militantes continuam atacando dentro como fora das suas fronteiras, e muitos clãs permanecem em inimizade uns com os outros. As armas químicas ampliam o conflito sírio atravessando o terceiro inverno e se alastrando à Turquia e ao Paquistão, extremismos e violência urbana, ceifando vidas e ameaçando o Líbano e o Iraque. As intervenções militares na África Central degeneram em caos e violência religiosa. A Guerra na Donbass, a rebelião no leste da Ucrânia. O processo de paz da Colômbia muito longe de escapar dos imbróglios políticos. A intolerância desencadeada contra os mulçumanos em Myanmar. Honduras passou a ser considerado o país mais violento do mundo por conta dos assassinatos diários e metade da população vive em extrema pobreza, afora o tráfico de drogas e de seres humanos até o sequestro e a extorsão. No Iraque foi intensificada a repressão violenta e onda de ataques, detenções e execuções - milhares de civis mortos vítimas da destruição. No leste da Líbia ocorrem diários assassinatos de funcionários de segurança. Os combates mortais na República Centro-Africana (RCA) e o êxodo de milhares de pessoas por conta do terror. A violência de anos no Sudão com o crescimento de grupos islâmicos violentos. As instabilidades na região do Sahel e no norte da Nigéria, os movimentos separatistas, o terrorismo islâmico, a insurreição sangrenta e as tensões entre o norte e o sul continuam violentos. A escalada da violência política em Bangladesh, como o Uzbequistão em luta pelas fronteiras com o Quirguistão e pela água com o Tajiquistão. O perigo em Sochi, no Norte do Cáucaso, enfim, o que nos leva a compreensão de que não será possível ainda a libertação física e espiritual. Quiçá um raio de esperança emerja do arco-íris, porque sabemos: A tristeza é apenas da Terra, a vida do espírito é alegria... Tudo isso prova a nossa incapacidade e o mais completo fracasso, porque os que são tal qual nós cultuam ainda o lamentável expediente da guerra... Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

A ARTE DE EVELYN

A arte da pintora e pacifista britânica Evelyn De Morgan (1855-1919). Veja mais aqui.

 

DITOS & DESDITOS - Perco a minha identidade ao redescobri-la nos outros, um ir e vir, um equilíbrio do individual e do coletivo, o corpo transindividual. Eu sofro, logo existo... A ferida é a memória do corpo; memoriza a fragilidade, a dor, ou seja, a sua real existência. É uma defesa contra o objeto e as próteses mentais... Protegi um pedaço de terra equivalente ao espaço do meu corpo – protegi-o durante quatro horas, sem me mexer e novamente foi uma espécie de… quase… carinho que senti por esta terra que senti falta, que certamente sinto falta. Protegi-o com a minha carne, fazendo uma analogia entre algo biológico e algo material, que se complementam. A terra é a fonte do meu organismo biológico e eu a protejo porque sou culpado de ela não existir mais, de estar desaparecendo... A ação do corpo nunca é pensada como uma obra efêmera, mas como uma composição mural composta por três passos... Eu, o artista, sou os outros; dirijo-me a você porque você é a unidade do meu trabalho: o outro... Se abro o meu corpo é para que você se lembre do seu sangue, é por amor a você: ao outro... Pensamento da pintora, escultora e artista performática italiana Gina Pane (1939-1990). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Não há nada que faça você admirar as pessoas como se ver nelas... Eu queria aprender mais sobre o amor - que não se constrói nas areias movediças da paixão violenta, mas na rocha firme do afeto profundo e duradouro... A doutrina simples estava tão envolvida em dogmas que a semente plantada por Jesus foi escondida e esquecida: tomando o lugar do professor errante que entregou todos os seus bens mundanos aos pobres e seguiu os passos de seu Mestre, estavam os homens poderosos da Igreja. Pensamento da escritora britânica Eleanor Hibbert (1906-1993), também conhecida pelo pseudônimo Jean Plaidy. Veja mais aqui e aqui.

 

GIGANTE - [...] Quem disse que o amor vence tudo era um tolo. Porque quase tudo vence o amor - ou tenta. [...] Eu nunca vou a casamentos. Perda de tempo. Uma pessoa pode se casar uma dúzia de vezes. Muitas pessoas se casam. Famílias como a nossa, conhecem todo mundo no estado do Texas e arredores, ora, você poderia passar a vida indo a casamentos. Mas um funeral, isso é diferente. Você só morre uma vez. [...]. Trechos extraídos da obra Giant (Harper Perennial, 2000), da escritora estadunidense Edna Ferber (1885-1968), que na obra Gigolo (Read & Co, 2007), expressa que: [...] Parece tão distante e diferente. Gosto de lugares diferentes. Gosto de qualquer lugar que não seja aqui. [...], enquanto que na obra Fanny Herself (University of Illinois Press, 2001), ela expressa que: […] Depois, havia longas e preguiçosas tardes de verão, quando não havia nada para fazer além de ler. E sonhar. E ver a cidade passar para o jantar. Acho que é por isso que nossos grandes homens e mulheres tantas vezes surgiram de pequenas cidades ou vilas. Eles tiveram tempo para sonhar na adolescência. Nenhum carro para pegar, nenhuma matinê, nenhuma rua da cidade, nenhuma das ocupações fervilhantes, vazias e consumidoras de energia da criança da cidade. Pouco que seja competitivo, muito que seja inconscientemente absorvido no período mais impressionável, longas noites para ler, longas tardes nos campos ou florestas [...]. Veja mais aqui.

 

A POESIA DE JOSÉ MARTÍ

POEMA

Eu sou um homem sincero
De onde cresce a palma
E antes de morrer-me quero
Deixar meus versos da alma.

Eu venho de todas as partes,
E para todas as partes vou:
Sou arte entre as artes,
E nos montes, monte sou.

Eu sei os nomes estranhos
Das ervas e das flores,
E de mortais enganos,
E de sublimes dores.

Tenho visto na noite escura
Chover sobre minha cabeça
Os raios da luz mais pura
Da divina beleza.

Ali nascer vi em os ombros
Das mulheres mais formosas:
E sair dos escombros,
Voando as mariposas.

Tenho visto viver um homem
Com um punhal no costado,
Sem dizer jamais o nome
Daquele que o tinha matado.

Rápida como um reflexo,
Duas vezes vi a alma, duas:
Quando morreu o pobre velho,
Quando ela me disse adeus.

Tremi uma vez - sobre a telha
Na entrada da vindima,

Quando a bárbara abelha
Picou a face de mi'a menina


Gozei uma vez, de tal sorte
Que igual gozei nunca:
Quando da sentença de minha morte
Leu o alcaide chorando.

Ouvi um suspiro, através
Das terras e do mar,
E não era um suspiro. - era
Que meu filho vai despertar.

Se dizem que do joalheiro
Tome a joia melhor,
Tomo a um amigo sincero
E ponho a um lado o amor.

Eu vi uma águia ferida
Voar no azul sereno,
E morrer em sua guarida
A víbora do veneno.

Eu sei bem que quando o mundo
Cede, lívido, ao descanso,
Sobre o silêncio profundo
Murmura o arroio manso.

Coloquei a mão ousada
De horror e júbilo rija,
Sobre a estrela apagada
Caiu frente a mi'a cornija.

Oculto em meu peito bravo
A pena que nele me fere:
O filho de um povo escravo
Vive por ele, cala e morre.

Tudo é formoso e constante,
Tudo é música e razão,
E tudo, como o diamante,
Antes que luz é carvão.

Eu sei que o néscio se enterra
Com grande luxo e grande pranto,
E que não há fruta na terra
Como a do campo-santo.

Calo, e entendo, e me deixo
Na pompa do rimador:
Penduro num seco seixo

Meu guarda-pó de doutor.


CULTIVO UMA ROSA BRANCA

Cultivo uma rosa branca,
em julho como em janeiro,
para o amigo verdadeiro
que me dá sua mão franca.

E para o cruel que me arranca
o coração com que vivo,
cardo, urtiga não cultivo:
cultivo uma rosa branca.


AMOR DE CIDADE GRANDE

De orgia são e rapidez os tempos.
Corre qual luz a voz; em alta torre
Qual nave despenhada em sirte horrendo,
Some-se o raio, e em ligeira barca
O homem, como alado, fende o ar.
Assim o amor, sem pompa nem mistério,
Morre, logo que nasce, de saciado!
Prisão é a casa de pombas já mortas
E ávidos caçadores! Se tantos peitos
Dos homens se laceram, e as carnes
Rasgadas rolam na terra, não se vêem
Dentro mais que frutos esmagados!

Ama-se em pé, nas ruas, entre a poeira
Dos salões e das praças; agoniza
A flor que nasce. Aquela virgem
Trêmula que preferia dar à morte
A mão pura que a um ignorado jovem;
O gozo de temer; aquele sair
Do peito o coração; o inefável
Prazer de merecer; o grato susto
De caminhar depressa e sem desvio
Para a casa da amada, e às suas portas
Como um menino feliz romper em choro;
E o contemplar, de nosso amor ao fogo,
As rosas tingindo-se de cor,
- Serão patranhas? Pois, quem possuirá
Tempo pra ser fidalgo? Embora sinta
Qual áureo vaso ou quadro suntuoso,
Dama gentil na casa de um magnata!
Ou, se tem sede, estende o seu braço
E a taça que passa a bebe toda!
Depois, a taça turva no pó rola,
E o hábil provador – manchado o peito
Por um sangue invisível – segue alegre,
Coroado de mirtos, seu caminho!
Não são os corpos já, mas só resíduos,
E campas e farrapos! E as almas
Não são como na árvore frutos ricos
Em cuja pele macia o suco doce
Transborda quando ficam bem maduros.
- Mas fruta à venda que com brutais pancadas
O rude lavrador torna madura!

Esta é a era dos lábios ressequidos!
Das noites só de insônia! De uma vida
Esmagada antes do tempo! O que nos falta
Que a ventura não existe? Como lebre
Assustada, o espírito esconde-se,
Fugindo trêmulo ao caçador que ri,
Como em bosque selvoso, em nosso peito;
E o desejo, enlaçado na febre,
Qual rico caçador percorre o bosque.

Assusta-me a cidade! Que está cheia
De taças por esvaziar, ou taças ocas!
Tenho medo, ai de mim!, que este meu vinho
Seja peçonha, e em minhas veias logo
Qual duende vingador os dentes crave!
Tenho sede, - mas de um vinho que na terra
Ninguém sabe beber! Não padeci
Bastante ainda para derrubar o muro
Que me separa, oh dor, do meu vinhedo!
Bebei vós, mesquinhos provadores
De humanos vinhos fracos, esses copos
Onde o suco do lírio em grandes goles
Sem compaixão e sem temor se bebe!
Bebei! Eu sou honrado e tenho medo!


HOMENS DE MÁRMORE

Sonho com claustros de mármore
onde em silêncio divino
repousam heróis, de pé.
De noite, aos fulgores da alma,
falo com eles, de noite.
Estão em fila; passeio
Por entre as filas; as mãos
de pedra lhes beijo; entreabrem
os olhos de pedra; movem
os lábios de pedra; tremem
as barbas de pedra; choram;
vibra a espada na bainha!
Calada lhes beijo as mãos.

Falo com eles, de noite.
Estão em fila; passeio
por entre as filas; choroso
me abraço a um mármore. — “Ó mármore,
dizem que bebem teus filhos
o próprio sangue nas taças
envenenadas dos déspotas!
Que falam a língua torpe
dos libertinos! Que comem
reunidos o pão do opróbrio
na mesa tinta de sangue!
Que gastam em parolagem
as últimas fibras! Dizem,
ó mármore adormecido,
que tua raça está morta!”

Atira-me à terra súbito,
esse herói que abraço; agarra-me
o pescoço; varre a terra
com meus cabelos; levanta
o braço; fulge-lhe o braço
semelhante a um sol; ressoa
a pedra; buscam a cinta
as mãos diáfanas; da peanha
saltam os homens de mármore!

DO TIRANO

Do tirano? Do tirano
Denuncia tudo. E crava
Com fúria de mão escrava
A ignomínia do tirano.

Dos erros? De cada erro
Mostra o quanto possas,
A trilha obscura, as poças,
Do tirano e do erro.
Da mulher? Pois pode ser
Que morras de sua mordida,
Mas não entortes tua vida
Falando mal de mulher!


SONHO COM CLAUSTROS DE MÁRMORE

Sonho com claustros de mármore
onde em silêncio divino
repousam heróis, de pé.
De noite, aos fulgores da alma,
falo com eles, de noite.
Estão em fila; passeio
Por entre as filas; as mãos
de pedra lhes beijo; entreabrem
os olhos de pedra; movem
os lábios de pedra; tremem
as barbas de pedra; choram;
vibra a espada na bainha!
Calada lhes beijo as mãos.

Falo com eles, de noite.
Estão em fila; passeio
por entre as filas; choroso
me abraço a um mármore. — “Ó mármore,
dizem que bebem teus filhos
o próprio sangue nas taças
envenenadas dos déspotas!
Que falam a língua torpe
dos libertinos! Que comem
reunidos o pão do opróbrio
na mesa tinta de sangue!
Que gastam em parolagem
as últimas fibras! Dizem,
ó mármore adormecido,
que tua raça está morta!”

Atira-me à terra súbito,
esse herói que abraço; agarra-me
o pescoço; varre a terra
com meus cabelos; levanta
o braço; fulge-lhe o braço
semelhante a um sol; ressoa
a pedra; buscam a cinta
as mãos diáfanas; da peanha
saltam os homens de mármore!

MEU CAVALEIRO

De manhã cedo
meu pequerrucho
me despertava
com um grande beijo.

Logo montado
sobre meu peito
freios forjava
com meus cabelos.

Ébrios de gozo
tanto eu como ele
me esporeava
meu cavaleiro:
que suave espora
seus dois pés frescos!

E como ria
meu cavaleiro!

Como eu beijava
seus pés pequenos
dois pés que cabem
juntos num beijo!

JOSÉ MARTÍ – O poeta nacionalista e precursor do Modernismo cubano, José Marti (1853–1895), sofreu inúmeras perseguições que lhe levaram ao cárcere e ao exílio, desenvolvendo uma poesia para expressão de suas ideias políticas, sentimentos amorosos e na defesa da patria.

REFERÊNCIA
MARTÍ, José. Versos singelos. Porto Alegre: SBS, 1997. Veja mais aqui e aqui.


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quinta-feira, março 07, 2013

ROBERT DUNCAN, BENEDICTSSON, BATAILLE, OCTAVIA BUTLER, TEASDALE, DURRELL, HENRIOT & PORT

 

ESSAS MLHERES EXCEPCIONAIS – UMA: LIÇÃO DE VIDA – A escritora afro-estadunidense Octavia Butler (1947-2006) que também atuou como educadora no combate ao preconceito e racismo, transmitiu por meio de sua obra o que havia de exemplar na sua própria condução: Para se erguer das suas próprias cinzas, uma Fénix primeiro tem de arder... Somos todos capazes de subir muito mais do que normalmente nos permitem supor... Consideremos que nascemos não com propósito, mas com potencial... (Veja mais dela aqui). DOIS: POESIA NA GUERRA – A poeta estadunidense Sara Teasdale (1884–1933) deixou sua marca num belo poema intitulado Tempos de Guerra: Chuvas suaves chegarão e o cheiro de chão, \ E andorinhas revoando, seus rútilos sons;\ E sapos nos brejos cantarolando na noite,\ E ameixeiras silvestres em seu branco oscilante,\ Tordos trajarão incandescentes ornamentos\ Trinando seus caprichos em baixos tapamentos;\ E ninguém então saberá da guerra, ninguém\ Se importará quando ela terminar enfim.\ Ninguém se importaria, nem árvore nem ave,\ Se os homens morressem em sua totalidade; \ E a própria primavera, ao acordar na aurora,\ Sequer perceberia se fôssemos embora. (Veja mais dela aqui). TRÊS: ENCONTRE O QUE PROCURA – Já a estilista e designer de moda estadunidense Whitney Port dá seu depoimento como quem acerta o alvo: Encontre o que você ama e encontre uma maneira de fazer disso parte do seu dia a dia. Você precisa encontrar confiança para assumir certos riscos. Você vai ouvir muitos nãos antes de chegar ao sim. É importante ter essa confiança para superar isso e saber que faz parte de tentar crescer algo grande... Taí, falou bonito. E vamos aprumar a conversa! Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Uma cidade é um mundo se amarmos um dos seus habitantes... Procuramos preencher o vazio da nossa individualidade e por um breve momento desfrutamos da ilusão de estar completos. Mas é só uma ilusão. O amor une e depois divide... É necessária muita energia e muita neurose para escrever um romance. Se fôssemos realmente sensatos, faríamos outra coisa... Um poema é o que acontece quando uma ansiedade encontra uma técnica... Pensamento do escritor indiano Lawrence Durrell (1912-1990).

 

ALGUEM FALOU - A cultura é aquilo que permanece no homem quando ele já esqueceu tudo o resto... Pensamento do escritor francês Émile Henriot (1889-1961).

 

DINHEIRO - [...] – Por que é que a lei é tão injusta que um homem não 8 tem permissão para se casar até ter vinte e um anos, enquanto uma mulher pode fazê-lo já aos dezesseis anos? – disse de repente. – A lei quer ser mais cortesa com as damas. – Ah, não! – ela exclamou impacientemente e bateu lentamente o leque sobre o joelho. – Não é o que quero dizer! O que quero dizer é que nós também não deveríamos ter permissão para nos casar antes de atingir 9 a maioridade. – A mulher se torna adulta antes do homem. – Ah, sim. Ela é adulta antes para ter seu próprio futuro nas suas mãos? Não sabia. – E há muitas que querem se casar antes de completar os vinte e um anos. Tu mesma, por exemplo – ele disse, fazendo um gesto bem-intencionado com a cabeça e levantando a caneca de cerveja. – Por isso a lei precisa mudar. – Concedeu-se essa proteção à mulher menor de idade, que depende do consentimento de seu guardião [...] Era irracional o que ela viera dizendo novamente, mas lhe pareceu um pouco difícil dizer isso naquele momento. Com as mulheres, nunca se chega a lugar algum; elas sempre teriam a última palavra. Também sabia havia algum tempo que, quando ela se apossava de algo, não soltava mais. O raciocínio lhe deu um sentimento de mal-estar. O que mais havia querido fazer era evitá-lo. – Quando te casaste comigo, eu era menor de idade – a tensão de sua alma fez seu batimento cardíaco voar, mas as palavras eram inanimadas como um parágrafo de lei e assim davam voltas na sua cabeça. – Uma nota promissória minha não seria válida e nenhuma outra pessoa teria o direito de passar uma, nem de um öre13 sequer, em meu nome ou de conceder algo que no futuro viria a ser meu. Minha pessoa é mais que meu dinheiro. Se eu não era madura o suficiente para administrá-lo, muito menos o era quando se tratava de cuidar de mim mesma. Um menor tampouco deveria deixar seu futuro penhorado como propriedade sua. Essa lógica é simples. [...] E ela mesma – ela não tinha exatamente aquilo pelo que os outros lutam por meio do trabalho? Dinheiro... Dinheiro? Que palavra pobre! Dinheiro, mas nada pelo que lutar. Não, combater com a vida, lutar por seu pão, isso é viver. Ela passou a mão devagar pela testa. Vegetar e morrer, isso era um dever, claro – para ela [...]. Trechos extraídos da obra Pengar, Ur Från Skåne (Albert Bonniers Förlag, 1969), da escritora sueca Victoria Benedictsson (1850-1888).

 

DOIS POEMAS - RITO DE PASSAGEM - Algo está acontecendo. \ Chifres projetavam-se para cima da testa. \ Cascos batem impacientes onde antes havia pés. \ Meu filho, a juventude cresce alarmante em seu rosto. \ Seu olhar inocente é cruelmente encantador para mim agora. \ Você se arrepia onde minha mão afetuosa se mexeria \ para acariciar sua bochecha. Eu não me atrevo. \ Medidores irregulares batem entre o seu coração e o meu. \ Farejando o ar, você pega o calor e examina \ as linhas que você pega indo como se eu estivesse ou não lá \ e me ultrapassasse. \ E onde parece que ontem derramei o vinho, \ você também se torna bestial para se tornar um homem. \ Paz, paz. Eu já tive o suficiente. O que posso dizer \ quando a música é exigida? — Já cansei de cantar?\ Minha vontade de cantar cresce. O tempo me esvaziou. \ E onde estava minha juventude, agora o Sol em você fica quente, seu dia \ jovem, meu lugar você assume triunfantemente. O tempo todo \ tem sido para você, para este abaixamento de seus chifres em desafio. Ela \ teve sua vontade de mim e não vai \ deixar meu espírito lutador em si ser livre. PASSAGEM SOBRE A ÁGUA - Saímos em barcos no mar à noite, \ perdidos, e as vastas águas fecharam armadilhas de medo sobre nós. \ Os barcos se separam e finalmente estamos sozinhos \ sob o céu incalculável, apáticos, doentes de estrelas. \ Deixe os remos parados, meu amor, e esqueça neste momento \ nosso amor como uma faca entre nós \ definindo os limites que nunca podemos cruzar \ nem destruir enquanto flutuamos no coração do nosso sonho, \ cortando o silêncio, astutamente, a chuva amarga em nossas bocas \ e a ferida escura se fechou atrás de nós. \ Esqueça as bombas de profundidade, a morte e as promessas que fizemos, \ os jardins devastados e, sobre os terrenos baldios a oeste, \ os quartos onde nos reunimos bombardeados.\ Mas mesmo quando partimos, seu amor volta. Sinto \ a tua ausência como o toque de sinos silenciados. E sal \ sobre seus olhos e as escamas de sal entre nós. Agora, \ você passa com facilidade para o mundo destrutivo. \ Há um ruído seco de cimento. A luz falha, \ cai nas ruínas das cidades na costa distante \ e na noite indestrutível estou sozinho. Poemas do escritor estadunidense Robert Duncan (1919-1988).

 



GEORGE BATAILLE: O EROTISMO

O polêmico escritor francês Georges Bataille (1897-1962) transitou por diversas áreas, dentre elas Antropologia, Filosofia, Sociologia e História da Arte.
Dentre suas obras encontramos “O Erotismo”, onde aborda temas como transgressão e o sagrado. O livro é dividido em duas partes, a primeira delas sob o tema A interdição e a transgressão onde ele aborda o erotismo como experiência interior, a interdição ligada à morte e à reprodução, a afinidade da reprodução e a morte, o homicídio, a caça e a guerra, o ato de matar e o sacrifício religioso e o erotismo, a pletora sexual e a morte, a transgressão no casamento e na orgia, o cristianismo, o objeto do desejo e a prostituição, e a beleza. Na segunda parte, sob o tema Diversos estudos sobre o erotismo, ele trata sobre Kinsey, a escória e o trabalho, o homem soberano de Sade, Sade e o homem atual, o enigma do incesto, mística e sensualidade, a santidade, o erotismo e a solidão.
Nesta obra, mantém estudos realizados ao encontrar no erotismo a chave que desvenda os aspectos fundamentais da natureza humana, o ponto limite entre o natural e o social, o humano e o inumano, Bataille o vê como a experiência que permite ir além de si mesmo, superar a descontinuidade que condena o ser humano: "Falarei sucessivamente dessas três formas, a saber: o erotismo dos corpos, o erotismo dos corações e, finalmente, o erotismo sagrado. Falerei dessas três formas a fim de deixar bem claro que nelas o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda". Conforme visto anteriormente, o obra é dividida em duas partes onde expõe na primeira parte sistematicamente os diferentes aspectos da vida humana sob o ângulo do erotismo e na segunda, estudos independentes que tratam de psicanálise e literatura. Estudioso de religiões orientais, experiências místicas e práticas extáticas e sacrificiais, Bataille nos leva a descobrir que "entre todos os problemas, o erotismo é o mais misterioso, o mais geral, o mais a distância". Mostrando os efeitos de transgredir as interdições impostas milenariamente por estes elementos desordenadores, Bataille dá ao erotismo e a violência uma dimensão religiosa, onde explora os meios para se atingir uma experiência mística "sem Deus": "um homem que ignora o erotismo é tão estranho quanto um homem sem experiência interior". Diz ele que: “(...) Creio que o erotismo tem para os homens um sentido que o esforço cientifico não pode atingir. O erotismo só pode ser considerado se levarmos o homem em consideração (...) o erotismo é a aprovação da vida até na morte”. Sobre o Cristianismo ele diz: “(...) justamente o cristianismo, ao opor-se ao erótico, condenou a maioria das religiões. E, num certo sentido, a religião cristã talvez seja a menos religiosa”. Sobre Sade: “(...) o que ele quis dizer – geralmente causa horror mesmo áqueles que fingem admirá-lo e não reconheceram este fato angustiane: que o movimento de amor, levado ao extremo, é um movimento de morte”. Sobre a interdição ele menciona que: “(...) o homem é um animal que permanece proibido diante da morte e diante da união sexual (...) Os povos sentem a necessidade de esconder os orgãos sexuais de maneiras diferentes; mas, geralmente, eles escondem o orgão masculino em ereção; e, a principio, o homem e a mulher procuram um lugar reservado no momento da união sexual (...) A interdição, que em nós se opõe à liberdade sexual, é geral, unioversal; as interdições particulares são seus aspectos variáveis (...) Nosso erro é o de considerarmos levianamente ensinamentos sagrados que, há milênios, transmitimos às crianças, mas que outrora possuiam uma forma diferente. O campo da repugnância e da náusea e´, em seu conjunto, um efeito desses ensinamentos”. Sobre a sociedade humana: “(...) A sociedade humana não é só o mundo do trabalho. Simultaneamente – ou sucessivamente – o mundo profano e o mundo sagrado a compõem e são suas duas formas complementares. O mundo sagrado se abre às transgressões limitadas. É o mundo da festa, dos soberanos e dos deuses. (...) é sagrado o que é objeto de uma interdição. (...) Os homens estão ao mesmo tempo submetidos a dois movimentos: de terror, que rejeita, e de atração, que comanda o respeito fascinado. A interdição e a transgressão respondem a esses dois movimentos contraditórios: a interdição rejeita, mas a fascinaão introduz a transgressão. (...) em tempo de gesta, o que é habitualmente proibido pode sempre ser permitido, às vezes exigido. (...) a festa consome em sua prodigalidade sem medida os recursos acumulados no tempo de trabalho (...) Através da história, a frequencia dos massacres deixa claro que em todo homem existe um possivel assassino”. Por fim, sobre o erotismo ele arremata que: “O erotismo, em seu conjunto, é infração à regra das interdições: ele é uma atividade humana. Mas, ainda que ele comece onde acaba o animal, a animalidade não deixa de ser seu fundamento (...) a sexualidade é para o erotismo o que o pensamento é para o cérebro: da mesma maneira, a fisiologia permanece sendo o fundamento objetivo do pensamento”.

BATAILLE, Georges. O erotismo. São Paulo: Arx, 2004.  Confira mais desse autor aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.



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