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quarta-feira, maio 11, 2016

HELEIETH SAFIOTTI, DALÍ, EDU KRIEGER, CLÁUDIO VIEIRA, EMIR SADER & TEIBEI


CONSELHO DUM BEBÃO NA TEIBEI – Ah, a vida da gente é muito atrapalhada! Um desembesto danado. Todo dia a gente apruma o pau da venta pra tudo dar certo e quando vai ver, está tudo de pernas pro ar. Aí a gente torna a fazer, emenda, remenda, faz gambiarra, leva na marra, no muque, quando pensa que está tudo nos conformes, lá vem o enterro voltando e babau. Parece castigo. A vida não é brincadeira. É só uma tuia de leão brabo pra gente enfrentar na arena com todo mundo do contra, só pra botar gosto ruim no pirão. Por isso ou a gente emborca as 207 calorias duma lapada macha de raiz de pau, ou entoura tudo de ir pro saco de pés juntos pra nunca mais. Eu mesmo sou mantido à base de garrafada. Só assim faço as pazes comigo mesmo e levo os bregues nas coxas, as broncas por menos, tiro férias da chatura, fico rico e paro tudo: só funciona o mundo se eu quiser. Sou porqueira, mas quando me invoco, viro a praga do sétimo livro e meto as catanas do pau cantar. Sou do bem, mas quando me engico, atiço a boiada da coisa virar o maior tetéu. Por precaução, dou logo uma pro santo prele não deixar meu anjo da guarda cochilar. Vai ver, Deus lá vá se entreter muito ocupado com o peditório do povo do mundo todo e se esquecer de mim, estou frito. Fuço logo uns atalhos, senão só mata-burro pra gente se enganchar. Se não correr atrás, pisando na merda e levando nos peitos, só sobra insosso de osso chupado. Felicidade é só que pra quem tem cardan na bufunfa da muita. Pra gente, sonha buchada e se contenta com tira-gosto que der. Feijoada é pra domingo ou dia santo. E olhe lá. Nessa vidinha chué tem de estar de antena ligada pra agarrar a pisorga, porque só tem alicate afiado pra desmantelar o que se tem por destino. Todo bebum já sabe: a anacuíta é a panaceia do pobre trabalhador. Não fosse ela, eu mesmo já tinha emborcado nas capoeiras do mundo. Tem de entender do riscado: se não aprender de primeira, arroche de novo. Apanhou de segunda, aprenda logo, se avie. Pegue a abrideira e torça pra sorte. Se não for na terceira, arrume os mijados e parta pra outra que nessa não vai nem com voga de reza forte. Do contrário, é coisa de jumento. Aí basta uma bacamartada da apaga-tristeza, dá um chega pra lá na caboetagem, bota força na munheca e no juízo, aprende direito e vai pro ringue aguentar as chapuletadas e os catombos, com o chifre em pé pra mode não vacilar, senão a coisa pega. Se for cipoada demais, não adianta ficar de tocaia, tem que sair cuspindo bala pra ver a queda do Golias. Ou então recolha os muafos e fique de boa em casa fazendo boquinha na meia rédea e coçando o saco pra ver a banda passar. Sapo que não anda não engole cobra. Tem é de fechar o corpo, ficar em dia com o peito forrado porque a vida não é garapa. E pra enfrentar o terém que vier, tem que dar umas goladas bem dadas na jurubeba-dupla, pra ter coragem pra tudo. Tira todas as inhacas, limpa o olho, bata a poeira dos costados e fique ligado pra ir pra Pasárgada, que lá todo mundo é amigo do rei! Segura a mamadeira, Iaiá-me-sacode até andar aos SS cosendo bainha de tanto trocar as pernas, achar a rua pequena e as portas estreitas, todo alatrevu com as ideias tudo alertadas. Ah, a vida chega passa macia quando se está grogue. Se melhorar, estraga. E quando entopir de entornar, ah, nada demais, ficou a meio pau, amarrou o bode, vá pro cafofo e quando acordar é outro dia, encare a ressaca no departamento da vergonha. Se levar tudo a sério, você que emborca. Melhor dá volta por cima, o de ontem já era, vou atrás de amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.


Imagem: A arte do pintor do Surrealismo espanhol Salvador Dalí (1904-1989). Veja mais aqui e aqui.

COLUNA SOCIAL
(do compositor, cantor e instrumentista Edu Krieger)
O Cinismo casou com Dona Hipocrisia
Teve uma grande festança no apartamento da Demagogia
Lá na cozinha estava o Cinismo comendo escondido
Foram perguntar pra ele:
"Cadê o salgadinho?" que tinha sumido.
Ele disse: "Não lembro, não sei, não conheço, não vi nada não".
E foi todo sorridente dançar com Madame de Simulação
O Cinismo casou com Dona Hipocrisia...
A Hipocrisia que sempre dizia que era uma santa
Tomou sete caipirinhas, caiu na cozinha e quase não levanta.
Foi embora mais cedo morrendo de medo da Reputação
E saiu de braços dados com a Incoerência e a Contradição
O Cinismo casou...
A dona Inveja amiga da Raiva e mulher do Despeito
Ofendeu dona Elegância esposa pacata do nobre Respeito
Foi ai que a purgância chamou o casal com ciência e bom senso
Que saíram porta fora porque o ambiente já estava bem tenso
O Cinismo casou...

PESQUISA
Gênero, Patriarcado e Violência (Fundação Perseu Abramo, 2004), da socióloga marxista, professora, estudiosa da violência de gênero e militante feminista Heleieth Safiotti (1934-2010). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
O romance A História do Brasil são outros 500 (Record, 2000), do jornalista e contador de história Cláudio Vieira, com crônicas que formam um retrato irreverente da sociedade brasileira, virando a história do Brasil de pernas para o ar, com fatos cotidianos até grandes e sérias questões nacionais. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA: BRASIL CONTRA O GOLPE 
Nunca houve manifestações tão amplas, com tanta gente, tão diversas plurais, tão ativas, musicais, alegres, combativas, confiantes, como as que o Brasil está vivendo nestas semanas decisivas da sua história. Quem olhar para o que acontece na sociedade brasileira dirá, sem nenhuma dúvida, que o Brasil está contra o golpe. De universidades a movimentos hip-hop, de religiões a sindicatos, de intelectuais a artistas, de juristas a movimentos de mulheres, de movimentos de negros a movimentos de jovens, de jornalistas a mídias alternativas e muitos mais – basta olhar para o que acontece no Brasil de hoje, para conhecer sua diversidade social, etária, étnica, cultural, musical, artística, intelectual, de todo tipo. Um Brasil vibrante, que despertou quando se deu conta de que a democracia está em perigo e de que tudo o que de bom foi conquistado, foi pela democracia e em democracia. Que mesmo o direito de protestar contra tudo o que está aí, só é possível em democracia. E que um governo que nascesse de arranjo espúrio entre os políticos mais corruptos do Brasil, sem acusações que justificassem, não teria nenhuma legitimidade e não seria aceito pelo povo. Que não pode haver nenhum governo no país que não seja eleito democraticamente pelo voto popular. Que o Brasil não aceita que seja cassado uma presidente eleita pela maioria da população, que não cometeu nenhum crime que justificasse o impeachment, para ser substituída por um político réu de processos por corrupção, que assumiria não pela vontade popular, mas contra ela. Nunca um movimento censurado pela mídia, que trata de esconder que o povo está nas ruas contra o golpe, apoiado pelas mais notáveis personalidades do Brasil – Chico Buarque, Antonio Cândido, Luis Fernando Verissimo, Leonardo Boff, entre centenas de milhares de outras –, tem tanta repercussão, tanto apoio popular. Até artistas da própria Globo se manifestam contra o golpe e o papel da empresa de comunicação. Um movimento que mais integra a jovens, a grupos musicais, a artistas do hip-hop e de outras manifestações da musica popular das comunidades, de músicos da velha guarda e das gerações mais jovens. Um movimento que mais integra a mulheres, que sabem como as forcas conservadoras que querem dar o golpe são as mesmas que atentam contra os seus direitos. Nunca os trabalhadores, através dos seus sindicatos e das suas centrais, estiveram tão unidos e tão combativos, porque sabem que os que querem dar o golpe são os mesmos que ameaçam os seus direitos. Nunca as universidades brasileiras, os juristas brasileiros, se manifestaram de forma tão ampla por um movimento como este contra o golpe e pela continuidade da democracia. A solidariedade internacional que a luta do Brasil contra o golpe só é comparável à solidariedade que recebemos na luta contra a ditadura. Governos, entidades internacionais, presidentes e ex-presidentes, em uníssono, se pronunciam alertando contra o golpe e as consequências que teria, tanto para o Brasil, quanto para a situação do pais no contexto internacional. Em suma, o país saiu às ruas, se manifesta todos os dias, em centenas de manifestações, em milhões de pessoas, contra o golpe e os golpistas. Se o Congresso se mantiver surdo a essas vozes, significa que é um Congresso que atende os interesses da minoria rica e desinteressada no destino do Brasil e da democracia brasileira. Será execrado eternamente e punido duramente pelos cidadãos. Mas mobilizações tão espetaculares como estas, não podem ser derrotadas. É um verdadeiro Viva o povo brasileiro. Que não vai parar, triunfe o golpe ou não. Ou para tornar absolutamente inviável um governo nascido de um golpe, que expropria o direito do povo de decidir seus governantes, seja para construir um novo governo, que atenda realmente o interesse da maioria, que diz que quer democracia e quer um Brasil democrático, para todos os brasileiros.
(Do sociólogo e cientista político Emir Sader)

 
Veja mais o Fabo & Fecamepa, Jiddu Krishnamurti, Pierre Weil, Paulo Freire, Rubem Fonseca, Camilo José Cela, Salvador Dali, Heitor Villa-Lobos, Bidú Sayão, Eduardo Coutinho, Jean-Baptiste Carpeaux & Paulo Coelho aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: A arte do pintor do Surrealismo espanhol Salvador Dalí (1904-1989).
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

segunda-feira, julho 13, 2015

SOYINKA, EMIR SADER, KUREISHI, PISCATOR, JOÃO BOSCO, KRICHELDORF, VÁCLAV & CINEMA!!!!!



A Voluptuous Nude, do artista plástico alemão Carl Kricheldorf (1683-1934)


A CRISE HEGEMÔNICA NA AMÉRICA LATINA – No livro A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo, 2009), do sociólogo e cientista político Emir Sader, encontro A crise hegemônica na América Latina, em que o autor assim se expressa:  [...] A construção de um projeto hegemônico pós-neoliberal requer, antes de tudo, uma análise das transformações acontecidas nas décadas de aplicação de políticas neoliberais. a) Este tem, antes de tudo, de descobrir a nova geografia da força de trabalho, com sua nova morfologia, especialmente em todo o universo dos que sobrevivem nos multiplicados espaços informais da sociedade. Sem isso, o tema do trabalho que segue sendo estratégico - permanecerá reduzido às dimensões da força de trabalho formal e dos sindicatos. Sem essa reconstituição não se superará o isolamento da esquerda, de suas forças políticas e movimentos sociais, com respeito às novas gerações de juventudes pobres. b) Tem, assim mesmo, de definir a natureza do período histórico com clareza – de hegemonia neoliberal -, com todos os seus elementos de força e de debilidade. Para o qual necessita compreender a capacidade hegemônica maior do neoliberalismo, que reside na sua capacidade de influência ideológica, a partir do chamado american way of life, que disputa a mente de pessoas de praticamente todos os países do mundo, de todas as idades, gêneros e etnias. c) Teria, além do mais, de construir a força social, política, ideológica e organizativa para poder construir essa alternativa pós-neoliberal. A listagem de requerimentos poderia alongar-se demais. Para poder resumi-los, diríamos que dois princípios fundamentais têm de nortear a ação de uma força de esquerda hoje: o de que, “sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária” e o de que, “nas sociedades de classe, a ideologia dominante é a ideologia das classes dominantes”. São princípios, porque estão profundamente ancorados na realidade e, embora às vezes se queira esquecê-los, reaparecem à nossa frente como constitutivos da luta contra as sociedades capitalistas, como vetores incontornáveis de qualquer prática social que se pretenda de transformação da realidade. O primeiro remete à ideia de que a prática é implacável frente aos erros teóricos ou à sua falta de elaboração teórica. Pois que, sem decifrar os nós que articulam a realidade concreta, não é possível transformar a teoria em instrumento de transformação. Ainda mais com fortes pressões institucionais e da mídia, via hegemonia do ideário liberal, a ausência de formulações teóricas que ancorem as propostas programáticas, estratégicas e táticas condena inevitavelmente as forças de esquerda à cooptação frente a essas pressões. O segundo representa a necessidade de construir projetos alternativos, para não facilitar uma tendência que hoje é dominante: a adaptação às políticas existentes, à institucionalidade existente, aos consensos fabricados pela grande mídia privada. Representa o reconhecimento da força da hegemonia liberal, tanto a nível econômico e político quanto social, como instrumento de disseminação dos valores da forma de viver estadunidense, que penetra praticamente em todos os setores da sociedade. No essencial, trata-se de reconhecer a dimensão da tarefa pela frente: a de elaborar um projeto pós-neoliberal e construir a força - social, política, cultural e moral - capaz de torná-lo realidade. Veja mais aqui.

NO COLO DO PAI – O livro No colo do pai (Companhia das Letras, 2006), do dramaturgo, cineasta e escritor paquistanês Hanif Kureishi, é um mist de memória e ensaio autobiográfico, construindo duas trajetórias que envolvem, de um lado, o pai angustiado por uma vida inteira que poderia ter sido, mas não foi; e de outro, o filho que conseguiu se afirmar pessoalmente num país repleto de intolerância racial, fascinado pela contracultura num ambiente ainda preso a tradições, correndo riscos e pagando o preço para se libertar dos modelos políticos, religiosos e familiares de seu tempo. Da obra destaco o trecho inicial: No chão, num canto do meu escritório, saliente sob a pilha de papéis diversos, há uma pasta verde velha e surrada que contém o texto capaz de, suponho, revelar muita coisa a respeito de meu pai e de meu próprio passado. Desde que o descobri, porém, fico olhando para ele, depois desvio a vista para me concentrar em outra coisa, pensando nele sem fazer nada a respeito. Recebi o original há poucas semanas, reaparecido depois de mais de onze anos. É um romance escrito por meu pai, um legado de palavras, um testamento prolongado, talvez - ainda não sei o que contém. Como o restante de sua obra de ficção, nunca foi publicado. Acho que devo lê-lo. Quando comecei a pensar no livro que estou escrevendo, deitado à noite na cama - antes de acharem o texto de meu pai - eu pretendia que a obra começasse com outros livros. Refletia sobre o passado, como agora faço frequentemente, recuando mais e mais nos devaneios, e pensava que reler os autores que apreciava na juventude talvez fosse um modo de captar meu jeito quando jovem. Retornaria, por exemplo, a Kerouac, Dostoiévski, Salinger, Orwell, Hesse, Ian Fleming e Wilde, para ver se conseguiria habitar novamente os mundos que um dia eles criaram em minha mente, e me reconhecer dentro deles. Além de tratar dos escritores mais importantes para mim, o livro deveria versar sobre os anos 1960 e 1970, postos ao lado do presente, incluindo material sobre o contexto no qual a leitura e depois a releitura ocorreram. Cada livro, eu esperava, reacenderia lembranças das circunstâncias em que fora lido. Isso faria então com que eu pensasse no que cada livro específico passara a representar para mim. Independentemente de quem mais constasse no livro, decidi desde logo concentrar o foco na obra de Tchecov, em suas cartas, peças e contos. Ele era um dos escritores favoritos de meu pai, e o discutíamos com frequência, o médico e o homem. Todos os livros contêm alguma atitude perante a vida, mas com o tempo abandonamos a maioria dessas abordagens; como relacionamentos extintos, elas não têm mais nada a nos oferecer. Mas ainda sinto curiosidade a respeito de Tchecov e das numerosas vozes que sua obra consegue sustentar, penso com freqüência em retornar não apenas a seus escritos mas a ele como homem, retornar ao modo como ele pensava e sentia e às questões que propunha. Atingi uma espécie de consciência pessoal e política nos anos 1970, uma época particularmente ideológica de auto-representação agressiva. Mulheres, gays e negros começavam a divulgar uma versão nova ou inédita de sua história. Para alguém que pretendia trabalhar no teatro, como eu, era impossível escapar ao argumento de que a cultura era inevitavelmente política. Depois de Trotsky ter dito que "a função da arte em nossa época é determinada por sua atitude perante a revolução", as únicas questões que restavam aos escritores eram: onde você se encontrava? O que você estava fazendo? (Ninguém poderia dizer: que revolução? sem ser excluído da conversa.) Quando eu não sabia qual era o objetivo de minha arte, ou quando queria pensar no que fazia como uma exploração de idéias e personalidades, eu me lembrava de Tchecov. Era um escritor sutil, o poeta supremo da desilusão, do sofrimento e da impotência; e, a exemplo de Albert Camus, um homem capaz de ver que ser empurrado para um nicho ideológico não beneficiava ninguém. O livro que eu pretendia escrever originalmente teria uma forma "livre", mais para o diário do que para a crítica, e trataria do modo como se lê ou se faz uso da literatura, tanto quanto de outras coisas. Afinal, é raro - para mim - ler um livro de ponta a ponta numa tacada. Leio, vivo, retorno ao livro, esqueço quem são os personagens (principalmente se eles têm nomes russos), pego outro livro, deixo de lado, saio de férias, e talvez chegue ao final sem me lembrar do começo. [...] Veja mais aqui.

FADISTA: VIAGEM NAS PRIMEIRAS HORAS – O poeta e dramaturgo nigeriano Wole Soyinka foi o primeiro africano a ser contemplado com o Prêmio Nobel em 1986, autor de obras como Idanre and Other Poems (1967), Poems from Prison (1969), A Shuttle in the Crypt (1972), Poems of Black Africa (1975), Ogun Abibiman (1976), Mandela’s Earth and Other Poems (1988). Entre seus poemas destaco Viagem: Mesmo chegado ao fim da viagem, / jamais senti que tinha chegado. / Peguei a estrada / lentamente a subir a encosta das perguntas, e que me leva / inclusive a descer à terra que conduz a casa. Sei / que a minha carne está claramente mordiscada, perdida / para o perturbado peixe entre as vagas sussurrantes – deixei-os para trás em minha rota / E assim também com o pão e o vinho / necessito a partilha da derrota e da carestia / deixei-os para trás em minha rota / jamais senti que tinha chegado. / Embora amor e boas vindas me acolham em casa / os usurpadores gastam o meu copo em cada / banquete como se fosse a última ceia. Outro de seus poemas que merece destaque é Fadista: A minha pele está puída em demasia / De mim restam apenas as raízes capilares, os filtros fibrosos / Do nervo do tabaco puro / A tua rede está urdida com cordas de sitar / Para conter as mágoas dos deuses: muito deambulei / Em abóbadas de lágrimas da sublime / Rainha dos tormentos noturnos, tu tensas / suturas de música para suportar a imposição dos ritos / De vivos e mortos. Tu / Arrancas prantos estranhos da trovoada / Peneiras pedras raras das cinzas lunares, e elevas / Recados noturnos para o trono da angústia / Ai, há pétalas de mais machucadas / Para perfume, pesa de mais o passo do ar na asa da mariposa / Para uma xícara de pó de arco-íris / Dor de mais, ai, parteira no grito / Da ruptura, dedilha no cordão cósmico, imensas de mais / As dores pascais para um triz do eterno / Livrar-me-ia da tua tirania, livrar-me-ia / De súbitos mergulhos da carne no terremoto / Além de todo o abatimento de juízo / Livrar-me-ia de passeios precipitados / Em resmas de rochas e veias vulcânicas, puxado por corcéis escuros / sobre melódicas rédeas cinzentas. Por fim o poema Nas primeiras horas: Azul diáfano, o fumo do tabaco / Serpentine em filme molhado e esmalte de madeira, / Silencia cromo, grinaldas cortinas de veludo, / Escurece a caverna de espelhos. Dedos fantasma / Algas cabelo pente, veias Acquamarine derrame / Marooned de marinheiros, prisioneiros / De notas sensuais de Circe. O barman / Dispensa ígneas poções? / Somnabulist, a banda toca por diante. / Misturador cocktail, peixe prateado / Danças para clientes limpet. / Aplausos está mergulhada na lassidão, / Emaranhadas em teias de sussurros dos amantes / E cílios artful do andrógino. / O pairando carícia notas da noite / Mellowed índigo profunda? Ainda jogam. / Linger partidas. Ausências não / Empobrecem a taverna. Eles pairam sobre a neblina / Como exalações de margens recuaram. Em breve, / Noite retomar a posse do silêncio, mas até o amanhecer / As notas de dominar, smoky / Epifanias, possessivo das horas. / Perdoa essa música queixa, redime / A surdez do mundo. Noite se transforma / Para casa, envolto em notas de consolo, pregas / O silêncio quebrado do coração. Veja mais aqui.

O SIGNIFICADO DA TÉCNICA TEATRAL – No ensaio Linhas Fundamentais da dramatologia sociológica (Estética Teatral, 1980), do diretor, produtor teatral e um dos expoentes do teatro épico alemão, Erwin Piscator (1893-1966), ele trata do significado da técnica assinalando que: [...] A economia e a política são o nosso destino, e como resultado de ambas a sociedade, o social. E é somente quando reconhecemos esses três fatores, por consentimento, pela luta contra eles, que estabelecemos ligações entre a nossa vida e o histórico do século vinte. Logo, quando apresenta a elevação das cenas particulares ao histórico como ideia fundamental de toda a ação cênica, não se pode entender outra coisa senão a elevação ao politico, ao econômico e ao social. É por eles que unimos o palco à nossa vida. Quem à arte do nosso tempo apresenta outras exigências, faz, consciente ou inconscientemente, que se verifique o desvio ou o entorpecimento de nossas energias. Não podemos deixar que irrompam na cena impulsos ideais, éticos ou morais, quando as suas molas verdadeiras são políticas, econômicas e sociais. Quem não quer ou não pode reconhecer isso, não vê a realidade. E igualmente não pode o teatro dar vazão a outros impulsos, se pretende ser realmente o teatro atual e representativo da nossa geração. [...] O teatro atual, como a mim se apresente e como eu o dirijo, não pode limitar-se a agir sobre o espectador apenas artisticamente, isto é, esteticamente, sob a forte acentuação do sentimental. A sua missão consiste em intervir ativamente no curso do fato histórico. E ele só cumpre a missão mostrando a história em seu curso. O teatro não pode aceitar nenhuma limitação a isso. Tem de reivindicar o direito de, no curso histórico de um determinado período como expoentes de forças sociais e políticas. A única limitação que o teatro atual reconhece, na representação de tais personalidades, é a verdade histórica [...]. Veja mais aqui.

FATAL CHARM – O suspense Fatal Charm (1977), dirigido por Stelvio Massi, tem uma bela imagem e uma razoável história sobre o desaparecimento de mulheres bonitas, até que um detetive passa a investigar o caso para descobrir o mistério por trás desses desaparecimentos. A película traz muita ação, aventura e suspense, culminando com a destacada atuação da atriz e escritora britânica Joan Collins que ficou famosa com a série Dynasty e pela sua participação especial na série A cidade a beira da eternidade. Em 2014 ela revelou que foi violada aos dezessete anos pelo ator Maxwell Reed, que viria a ser o seu primeiro marido. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do gravador tcheco Václav Hollar (1607-1677).

Veja mais sobre:
O passado escreveu o presente; o futuro, agora, Sociolinguística de Dino Preti, o teatro de Bertolt Brecht, Nunca houve guerrilha em Palmares de Luiz Berto, a música de Adriana Hölszky, a escultura de Antonio Frilli, a arte de Thomas Rowlandson, a pintura de Dimitra Milan & Vera Donskaya-Khilko aqui.

E mais:
A liberdade de expressão, A filha de Agamenon de Ismail Kadaré, A natureza de Parmênides de Eléia, Poema sujo de Ferreira Gullar, O teatro essencial de Denise Stoklos, a música de Badi Assad, o cinema de Ingmar Bergman & Liv Ullmann, a escultura de Emilio Fiaschi, Programa Tataritaritatá, a pintura de Gustav Klint & Vera Donskaya-Khilko aqui.
O discurso do método de René Descartes, a música de João Bosco, o teatro de Denise Stoklos, o cinema de Ingmar Bergman, a pintura de Gustav Klimt, Sandra Regina, Bernadethe Ribeiro & Danny Calixto aqui.
Literatura de cordel: História do capitão do navio, de Silviano Pirauá de Lima aqui.
Preconceito, ó! Xô pra lá, Diários de viagem de Franz Kafka, A revolta de Atlas de Ayn Rand, A lua e o infinito de Giacomo Leopardi, a música de Leoš Janáček & Cheryl Barker, o cinema de Alessandro Blasetti & Sophia Loren, Maguerite Anzieu & Jacques Lacan: caso Aimée, a arte de Liliana Castro, a pintura de Helmut Breuninger & Hermann Fenner-Behmer aqui.
Os vexames dum curau no sul, O absurdo de Thomas Nagel, Voragem de Junichiro Tanizaki, Pretidão de amor de Emílio de Meneses, Mão na luva de Oduvaldo Vianna Filho, o cinema de Olivier Assayas & Maggie Cheung, a música de Rosalia de Souza, a pintura de Pierre-Auguste Renoir & Suzanne Frie aqui.
Quadrilha das paixões mais intensas, Vaqueiros & cantadores de Luís da Câmara Cascudo, Terra de Caruaru de José Condé, a música da Orquestra Armorial & Cussy de Almeida, A Setilha de Serrador, O casamento de Maria Feia de Rutinaldo Miranda Batista, a arte de Roberto Burle Marx. a xilogravura de Severino Borges, J. Miguel & Vermelho aqui.
Entre nós, vivo você, as gravuras de Lasar Segall, a música de Sivuca, Cartilha do cantador de Aleixo Leite Filho, Cancão de fogo de Jairo Lima, a poesia de Belarmino França, a arte de Luciah Lopez, a xilogravura de J. Borges & José Costa Leite aqui.
Dos bichos de todas as feras e mansas, Cantadores de Leonardo Mota, O Romance da Besta Fubana de Luiz Berto, O martelo alagoano de Manoel Chelé, a música do Duo Backer, a escultura de Antoni Gaudí, a militância de Brigitte Mohnhaupt, a arte de Natalia Fabia & a xilogravura de J. Borges aqui.
Quem desiste jamais saberá o gosto de qualquer vitória, A linguagem & as ciências de Roman Jakobson, Nos caminhos de Swan de Marcel Proust, a arte de Regina José Galindo, a fotografia de Thomas Karsten, a pintura de Henry Asencio, a música de Secos & Molhados & Luiza Possi aqui.
Tudo em mim, mestiço sou, O povo brasileiro de Darcy Ribeiro, A história da minha vida de Helen Keller, Anarquismo & ensaios de Emma Goldman, a escultura de Luiz Morrone, a fotografia de Pisco Del Gaiso, Os Fofos Encenam & Viviane Madu, a música de Guilhermina Suggia & a pintura de Martin Eder aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Lezend naakt, do artista plástico holandês Isaac Lazarus Israels (1865-1934)
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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