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quarta-feira, setembro 23, 2015

VALÉRY, MORENO, KUREISHI, COLTRANE, PEDERSEN, NEUROCIÊNCIA, KARSAVINA, NÊNIA DE BARIL & BRINCARTE DO NITOLINO!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? NÊNIA DE ABRIL – Estava na segunda metade da década de 1980, quando recebi o livro Ciclo Amatório (Mundo Manual, 1986), do saudoso poeta e editor carioca Sérgio Campos (1941-1994). Tempos difíceis aqueles, do sonho da redemocratização que se realizaria com a promulgação da Carta Cidadã de 1988. O poeta a que me refiro, deixou uma obra significativa: A casa dos elementos (Achiamé, 1984), Bichos (Autor, 1985), Ciclo amatório (Scortecci, 1986), Montanhecer (Scortecci, 1987), Nativa idade (Mundo Manual, 1990), O lobo e o pastor (Mundo Manual, 1990), As iras do dia (Mundo Manual, 1990), Móbiles de sal (Mundo Manual, 1991), A cúpula e o rumor (Mundo Manual, 1992), Leitura de cinzas (Mundo Manual, 1993) e Mar anterior (Antologia, 1984/94 - Mundo Manual, 1994). Trocamos muitas correspondências e livros, até a última missiva em que ele dava conta de que estava realizando o sonho de se mudar de Minas Gerais pro Rio de Janeiro, mais especificamente a cidade de Ilha do Governador, na qual, pouco tempo depois, recebi a notícia do seu falecimento. Vários estudos foram realizado sobre a sua obra, a exemplo das destacáveis pesquisas do poeta e doutor em Literatura, Leontino Filho, do poeta e editor Floriano Martins e do poeta e crítico literário Luiz Carlos Monteiro. Da minha parte, justo quando recebi o livro Ciclo Amatório, que dei de cara com o poema Nênia de Abril, peguei o violão, montei acordes da harmonia e da melodia e fiz dele a minha voz: Sou um poeta obscuro. / Os meus companheiros são poetas obscuros. / Nosso país é o amor subterrâneo em sagração de interiores catedrais. / Porquanto seja nosso pranto anônimo, choramos nossos mortos sozinhos. / Nosso embalar ainda é canto inaudível nas praças e nas avenidas do povo. / Lambemos nossas feridas ignoradas e nossos cantos codificam perdas. / Mas se o país é triste somos tristes porque é de nós sofrer a aflição geral. / Somos cidadãos de um trágico país cuja desgraça ataca sempre e cedo. / Antes que os nossos filhos denunciem o luto secular de seus abris. / O que é melhor em nós desfaz-se em perda. / O que tocamos nos trai com seus punhais. / Perpetramos nosso sonho coletivo e o velamos, mas quando tangemos é tarde demais. / Enfim quando se vai o que é do povo / Aqui na terra se depõe perto de nós. / É quando os obscuros cantam suas nênias / Para embalar o amado enquanto morto. / Sou um poeta obscuro. / Meus companheiros são poetas obscuros. / Nosso país é o amor. (© Luiz Alberto Machado. Primeira Reunião: Bagaço, 1992). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 Imagem: L’eglise et les etoiles (1951 - Oil on canvas), do pintor dinamarquês Carl-Henning Pedersen (1913-2007).


Curtindo o álbum Ascension (1965), do saxofonista e compositor de jazz norte-americano John Coltrane (1926-1965). Veja mais aqui.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino para as crianças de todas as idades, nos horários das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da simpaticíssima Isis Corrêa Naves. Na programação: Olavo Bilac, Turma da Mônica, Turminha do Tio Marcelo, Tia Conça, Bananas de Pijamas, A turma do Seu Lobato, Paulo Zola & Francis Monteiro, Bob Zoom, Angelina Ballerina, Galinha Pintadinha, The Smurfs, Patati & Patatá, Moranguinho & muito mais pra garotada. No blog, a edição nº 1 da Revistinha em Quadrinhos Aventureiros do Una, uma parceria minha com Rollandry Silvério, o Brincar da Criança, Paulo Freire, Ludoterapia, as crianças e a mídia eletrônica e a função da família em Gestalt-terapia para crianças, entre outras dicas de Educação, Psicologia, Direito das Crianças e dos Adolescentes, Música, Teatro e Literatura. Para conferir o programa online clique aqui ou aqui.

A ÁRVORE DO BEM DO MAL – No livro Neurociência e educação: como o cérebro aprende (Artmed, 2011), de Ramon M. Consenza e Leonor B. Guerra, destaco os trechos: [...] O senso comum costuma se referir a cinco sentidos que seriam utilizados por nós normalmente. Na verdade, eles são em maior número. Na pele, por exemplo, não percebemos apenas o tato, mas também a sensação de pressão, a dor e a temperatura. Um sentido muito importante e pouco mencionado é a cinestesia (cine= movimento; estesia = sensação), que informa a posição do corpo no espaço e os movimentos estão sendo executados. Seus receptores encontram-se nos músculos, nas articulações de nosso esqueleto e no ouvido interno. As informações neles geradas nos permitem manter o equilíbrio, conhecer a distribuição do corpo no espaço e executar com perfeição os movimentos dos deferentes grupos musculares. [...] A Bíblia informa que Deus colocou no Paraiso a Arvore do Bem e do Mal, cujo fruto proibido a humanidade provou, sendo por isso expulsa do Paraíso. Essa arvore pode ser uma metáfora da aquisição, pela espécie humana, de uma serie de funções que a distinguem dos outros animais. A capacidade de planejar no longo prazo, de medir a consequência dos próprios atos, de inibir os comportamentos inadequados são a essência do que chamamos funções executivas. A imagem pode ir mais longe se nos lembramos que, tal como uma arvore, essas funções te que ser desenvolvidas e mantidas com cuidado constante. Nossa civilização, que tem posto em risco o futuro de nossa espécie poluindo a Terra e exaurindo os seus recursos naturais, comete mais um equivoco ao descuidar do desenvolvimento das funções executivas, o que pode comprometer o bem estar e, talvez, a sobrevivência das futuras gerações [...]. Veja mais aqui e aqui.

O BUDA DO SUBÚRBIO – O livro O Buda do subúrbio (Companhia das Letras, 1992), do escritor e dramaturgo britânico Hanif Kureishi, conta a história de um narrador imigrante de indiano que se encontra em Londres para estudar direito, envolvendo-se com bebida, rock e prazeres ilícitos, findando por se casar muito jovem numa fase de descobertas num momento de turbulência política e preconceitos, criticando a cultura de massa. Da obra destaco o trecho: [...] Ao liquidar a casa e mudar para Londres, Eva também estava perseguindo Charlie, que atualmente pouco aparecia por ali. Para ele também era obvio que os subúrbios faziam parte do passado, do inicio da vida. Depois disso, era desviar ou definhar. Charlie gostava de dormir cada dia em um lugar, não tinha posses, nem moradia fixa, e trepava com quem pudesse; às vezes até ensaiava e compunha canções. Experimentava estes excessos não pode desespero, e sim por se excitar com as promessas da vida. Ocasionalmente eu acordava pela manhã e lá estava ele, na cozinha, comendo furiosamente, como se não soubesse de onde viria sua próxima refeição, como se cada dia fosse uma aventura capaz de terminar em qualquer lugar. E depois ia embora. Papai e Eva acompanhavam todas as apresentações de Charlie, em escolas de artes, pubs e pequenos festivais ao ar livre em locais enlameados. Eva torcia e aplaudia sem parar, com uma cerveja na mão. Papai piscava nervoso ao fundo, perturbado com o barulho e a multidão, com frenética dança de são Vito por cima de jovens em coma, mergulhados em poças de cerveja. Ele se abalava com o sofrimento, as roupas fedorentas, as bad-trips dos adolescentes de catorze anos levados em ambulâncias, as fodas ao acaso, sem amor, e as fugas melancólicas da família para os prédios miseráveis abandonados de Herne Gill. Sem duvida teria preferido ficar em casa, aconselhando um disciplulo – a fervorosa garota Fruitbat, quem saber, ou seu namorado eternamente sorridente, Chogyam-Jones, cuja roupa parecia um tapete chinês; seu estimulo estava se tornando necessário. Mas papai acompanhava Eva onde quer que sua presença fosse exigida. Sem duvida ele aproveitava muito mais a vida do que antes e, quando Eva finalmente anunciou que estávamos de mudança para Londres, admitiu que esta era a decisão correta a tomar. [...]. Veja mais aqui.

OS CADERNOS DE VALÉRY – No livro Paul Valéry: a serpente e o pensar (Brasiliense, 1984), do poeta, tradutor e ensaísta Augusto de Campos, encontro Dos cadernos de Valéry, reunindo contra-bras e contra-acabados do filósofo e poeta do Simbolismo francês, Paul Valéry (1871-1945), do qual destaco os trechos: [...] Estes cadernos são meu vício. São também contra-bras, contra-acabados. [...]. Poder e ser: ser poeta, não. Poder sê-lo. Tédio – O que eu sei fazer me entedia; o que não sei fazer me entristece. Opinião: eu não sou sempre da minha opinião. Processo (= conceito poundiano de inventor?): aprecio um homem quando ele encontrou uma lei ou um processo. O resto não é nada. Poder, agir: eu me amo em potência – me odeio em ato. O inumano: não saboreio nas obras do homem senão a quantidade de inumanidade que nelas encontro. Sei demais o que é humano. Sofri, gozei; me enganei; vi corretamente, me sinto arruinar pelo tempo; fui louvado; censurado, saudado, achincalhado, tratado por nomes os mais agradáveis e por alguns outros. Eis o que é humano, segundo os humanos. Não me agrada ruminá-lo nos livros. Impossibilidades:... são as minhas impossibilidades que me excitam. Só amor problemas: Quando eu me prendo (o que é bem raro) a uma leitura que não me requer nenhum esforço de compreensão nova, tenho a sensação de cometer uma falta. Eu me sinto em falta -, falta que pode ter por excusa uma incapacidade de fazer outra coisa. Só amo problemas. Sorrir dos sérios: devemos sorrir dos que se levam a sério. O poema é uma máquina: o poema é uma máquina de produzir certos efeitos sobre certas pessoas que se imaginais tais ou quais. Surpresa ou precisão: Um escrito só vale: 1 – pela estranheza, a surpresa, a distancia que guarda com o meu pensamento – ou 2 – pelo grau de precisão que ele me traz. É preciso que eu seja ou enriquecido, destravado, ampliado, ou então precisado, isto é, amadurecido, acabado, delimitado, tempo-ganho. Escritor – escriteiro: Não sou escritor – escriteiro (écriveur), pois não só não me importa como me ultrapassa escrever o que vi, senti ou peguei. Isso terminou para mim. Tomo da pena para o futuro do meu pensamento – não para o seu passado. Escrever: escrever – o que eu escrevo não é escrever, é preparar-se para escrever algum dia impossível. A síntese da poesia: zombam de você, que tentou fazer a síntese da poesia. Eles têm razão, mas você também não está errado. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO DA ESPONTANEIDADE - No livro O teatro da espontaneidade (Summus, 1984), do médico, psicólogo, filósofo e dramaturgo turco-judeu Jacob Levy Moreno (1889-1974), destaco mais alguns trechos: [...] Quando Deus criou o mundo em seis dias ele acabou se detendo um dia antes, com excessiva antecipação. Ele havia organizado para o Homem um lugar onde viver mas, para torna-lo seguro para aquele, acabou também por acorrenta-lo a tal lugar. No sétimo dia, Ele deveria ter criado para o Homem um segundo universo, um outro mundo, livre do primeiro e no qual o Homem pudesse se purificar deste, mas um mundo em que não houvesse pessoa alguma acorrentada, pois que não seria real. É neste ponto que o teatro da espontaneidade prossegue a obra de Deus de criar o Mundo, ao abrir para o Homem uma nova dimensão da existência. [...] A sociatria já nos forneceu bons motivos para predizer que a sociedade humana acabará sendo controlada pelo self ou selves espontaneamente dirigidos. [...] A maior dificuldade quanto à expansão do self na direção de um verdadeiro domínio do universo não reside na invenção de instrumentos por meio dos quais alcançar-se este objetivo e, sim, no próprio Homem. este é inepto e inerte e sua espontaneidade encontra-se num estagio embrionico de desenvolvimento. Portanto, não é o retardo das ciências sociais em comparação com as físicas que detém o progresso; esse retardo verifica-se antes nas limitações do Homem e na sua falta de preparo para a utilização de instrumentos e métodos que lhe permitiriam vencer seus desafios biológicos, sociais e culturais. [...] Enquanto no plano tecnológico, é grande a prontidão do Homem para fazer uso de instrumentos tão logo sejam inventados, no plano social esta prontidão encontra-se excessivamente baixa, praticamente nula. [...] é fácil para o Homem usar um pedaço de pau, uma arma ou uma bomba atômica, mas é-lhe extremamente difícil adaptar-se ao uso de instrumentos sociais que lhe assegurariam liberdade no seu de sua própria sociedade. Não é fácil apresentar respostas a esta dificuldade: o Homem precisa ser educado; [...] é um problema de deficiência na espontaneidade de se usar a inteligência disponível e de se mobilizar as emoções esclarecidas. [...] . Veja mais aqui, aqui e aqui.

TODAS AS MULHERES DO MUNDO – A trajetória da atriz de cinema e televisão Joana Fomm é das mais representativas. Ela começa no cinema atuando no filme O quinto poder (1962), seguindo-se Um morto ao telefone (1964), El ABC do amor (1967), A vida provisória (1968), O homem nu (1968), Bebel, a garota propaganda (1968), Edu,  coração de ouro (1968), A noite do meu bem (1968), Macunaíma (1969), As armas (1969), Um sonho de vampiros (1969), O palácio dos anjos (1970), As gatinhas (1970), Gamal, o delírio do sexo (1979), Elas (1970), Fora das grandes (1971), Noites de Iemanjá (1971), Vozes do medo (1972), Os desclassificados (1972), Um brasileiro chamado Rosaflor (1976), Marilia e Marina (1976), Contos eróticos (1977), Beijo na boca (1982), Espelho de carne (1985), O cavalinho azul (1984), Césio 137 – o pesadelo de Goiania (1990), Vai trabalhar vagabundo II (1991), Quem matou Pixote? (1996), Copacabana (2001) e Quanto vale ou é por quilo? (2005). Entre esses, destaco sua participação na premiada comédia Todas as mulheres do mundo (1966), dirigida pelo cineasta Domingos de Oliveira, contando a história a respeito de um dilema que o determinado sujeito sofre entre a vida de solteiro e o casamento. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte da bailarina russa do Balé de Sergei Diaghilev, Tamara Karsavina (1885-1978)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Quarta Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, julho 13, 2015

SOYINKA, EMIR SADER, KUREISHI, PISCATOR, JOÃO BOSCO, KRICHELDORF, VÁCLAV & CINEMA!!!!!



A Voluptuous Nude, do artista plástico alemão Carl Kricheldorf (1683-1934)


A CRISE HEGEMÔNICA NA AMÉRICA LATINA – No livro A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo, 2009), do sociólogo e cientista político Emir Sader, encontro A crise hegemônica na América Latina, em que o autor assim se expressa:  [...] A construção de um projeto hegemônico pós-neoliberal requer, antes de tudo, uma análise das transformações acontecidas nas décadas de aplicação de políticas neoliberais. a) Este tem, antes de tudo, de descobrir a nova geografia da força de trabalho, com sua nova morfologia, especialmente em todo o universo dos que sobrevivem nos multiplicados espaços informais da sociedade. Sem isso, o tema do trabalho que segue sendo estratégico - permanecerá reduzido às dimensões da força de trabalho formal e dos sindicatos. Sem essa reconstituição não se superará o isolamento da esquerda, de suas forças políticas e movimentos sociais, com respeito às novas gerações de juventudes pobres. b) Tem, assim mesmo, de definir a natureza do período histórico com clareza – de hegemonia neoliberal -, com todos os seus elementos de força e de debilidade. Para o qual necessita compreender a capacidade hegemônica maior do neoliberalismo, que reside na sua capacidade de influência ideológica, a partir do chamado american way of life, que disputa a mente de pessoas de praticamente todos os países do mundo, de todas as idades, gêneros e etnias. c) Teria, além do mais, de construir a força social, política, ideológica e organizativa para poder construir essa alternativa pós-neoliberal. A listagem de requerimentos poderia alongar-se demais. Para poder resumi-los, diríamos que dois princípios fundamentais têm de nortear a ação de uma força de esquerda hoje: o de que, “sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária” e o de que, “nas sociedades de classe, a ideologia dominante é a ideologia das classes dominantes”. São princípios, porque estão profundamente ancorados na realidade e, embora às vezes se queira esquecê-los, reaparecem à nossa frente como constitutivos da luta contra as sociedades capitalistas, como vetores incontornáveis de qualquer prática social que se pretenda de transformação da realidade. O primeiro remete à ideia de que a prática é implacável frente aos erros teóricos ou à sua falta de elaboração teórica. Pois que, sem decifrar os nós que articulam a realidade concreta, não é possível transformar a teoria em instrumento de transformação. Ainda mais com fortes pressões institucionais e da mídia, via hegemonia do ideário liberal, a ausência de formulações teóricas que ancorem as propostas programáticas, estratégicas e táticas condena inevitavelmente as forças de esquerda à cooptação frente a essas pressões. O segundo representa a necessidade de construir projetos alternativos, para não facilitar uma tendência que hoje é dominante: a adaptação às políticas existentes, à institucionalidade existente, aos consensos fabricados pela grande mídia privada. Representa o reconhecimento da força da hegemonia liberal, tanto a nível econômico e político quanto social, como instrumento de disseminação dos valores da forma de viver estadunidense, que penetra praticamente em todos os setores da sociedade. No essencial, trata-se de reconhecer a dimensão da tarefa pela frente: a de elaborar um projeto pós-neoliberal e construir a força - social, política, cultural e moral - capaz de torná-lo realidade. Veja mais aqui.

NO COLO DO PAI – O livro No colo do pai (Companhia das Letras, 2006), do dramaturgo, cineasta e escritor paquistanês Hanif Kureishi, é um mist de memória e ensaio autobiográfico, construindo duas trajetórias que envolvem, de um lado, o pai angustiado por uma vida inteira que poderia ter sido, mas não foi; e de outro, o filho que conseguiu se afirmar pessoalmente num país repleto de intolerância racial, fascinado pela contracultura num ambiente ainda preso a tradições, correndo riscos e pagando o preço para se libertar dos modelos políticos, religiosos e familiares de seu tempo. Da obra destaco o trecho inicial: No chão, num canto do meu escritório, saliente sob a pilha de papéis diversos, há uma pasta verde velha e surrada que contém o texto capaz de, suponho, revelar muita coisa a respeito de meu pai e de meu próprio passado. Desde que o descobri, porém, fico olhando para ele, depois desvio a vista para me concentrar em outra coisa, pensando nele sem fazer nada a respeito. Recebi o original há poucas semanas, reaparecido depois de mais de onze anos. É um romance escrito por meu pai, um legado de palavras, um testamento prolongado, talvez - ainda não sei o que contém. Como o restante de sua obra de ficção, nunca foi publicado. Acho que devo lê-lo. Quando comecei a pensar no livro que estou escrevendo, deitado à noite na cama - antes de acharem o texto de meu pai - eu pretendia que a obra começasse com outros livros. Refletia sobre o passado, como agora faço frequentemente, recuando mais e mais nos devaneios, e pensava que reler os autores que apreciava na juventude talvez fosse um modo de captar meu jeito quando jovem. Retornaria, por exemplo, a Kerouac, Dostoiévski, Salinger, Orwell, Hesse, Ian Fleming e Wilde, para ver se conseguiria habitar novamente os mundos que um dia eles criaram em minha mente, e me reconhecer dentro deles. Além de tratar dos escritores mais importantes para mim, o livro deveria versar sobre os anos 1960 e 1970, postos ao lado do presente, incluindo material sobre o contexto no qual a leitura e depois a releitura ocorreram. Cada livro, eu esperava, reacenderia lembranças das circunstâncias em que fora lido. Isso faria então com que eu pensasse no que cada livro específico passara a representar para mim. Independentemente de quem mais constasse no livro, decidi desde logo concentrar o foco na obra de Tchecov, em suas cartas, peças e contos. Ele era um dos escritores favoritos de meu pai, e o discutíamos com frequência, o médico e o homem. Todos os livros contêm alguma atitude perante a vida, mas com o tempo abandonamos a maioria dessas abordagens; como relacionamentos extintos, elas não têm mais nada a nos oferecer. Mas ainda sinto curiosidade a respeito de Tchecov e das numerosas vozes que sua obra consegue sustentar, penso com freqüência em retornar não apenas a seus escritos mas a ele como homem, retornar ao modo como ele pensava e sentia e às questões que propunha. Atingi uma espécie de consciência pessoal e política nos anos 1970, uma época particularmente ideológica de auto-representação agressiva. Mulheres, gays e negros começavam a divulgar uma versão nova ou inédita de sua história. Para alguém que pretendia trabalhar no teatro, como eu, era impossível escapar ao argumento de que a cultura era inevitavelmente política. Depois de Trotsky ter dito que "a função da arte em nossa época é determinada por sua atitude perante a revolução", as únicas questões que restavam aos escritores eram: onde você se encontrava? O que você estava fazendo? (Ninguém poderia dizer: que revolução? sem ser excluído da conversa.) Quando eu não sabia qual era o objetivo de minha arte, ou quando queria pensar no que fazia como uma exploração de idéias e personalidades, eu me lembrava de Tchecov. Era um escritor sutil, o poeta supremo da desilusão, do sofrimento e da impotência; e, a exemplo de Albert Camus, um homem capaz de ver que ser empurrado para um nicho ideológico não beneficiava ninguém. O livro que eu pretendia escrever originalmente teria uma forma "livre", mais para o diário do que para a crítica, e trataria do modo como se lê ou se faz uso da literatura, tanto quanto de outras coisas. Afinal, é raro - para mim - ler um livro de ponta a ponta numa tacada. Leio, vivo, retorno ao livro, esqueço quem são os personagens (principalmente se eles têm nomes russos), pego outro livro, deixo de lado, saio de férias, e talvez chegue ao final sem me lembrar do começo. [...] Veja mais aqui.

FADISTA: VIAGEM NAS PRIMEIRAS HORAS – O poeta e dramaturgo nigeriano Wole Soyinka foi o primeiro africano a ser contemplado com o Prêmio Nobel em 1986, autor de obras como Idanre and Other Poems (1967), Poems from Prison (1969), A Shuttle in the Crypt (1972), Poems of Black Africa (1975), Ogun Abibiman (1976), Mandela’s Earth and Other Poems (1988). Entre seus poemas destaco Viagem: Mesmo chegado ao fim da viagem, / jamais senti que tinha chegado. / Peguei a estrada / lentamente a subir a encosta das perguntas, e que me leva / inclusive a descer à terra que conduz a casa. Sei / que a minha carne está claramente mordiscada, perdida / para o perturbado peixe entre as vagas sussurrantes – deixei-os para trás em minha rota / E assim também com o pão e o vinho / necessito a partilha da derrota e da carestia / deixei-os para trás em minha rota / jamais senti que tinha chegado. / Embora amor e boas vindas me acolham em casa / os usurpadores gastam o meu copo em cada / banquete como se fosse a última ceia. Outro de seus poemas que merece destaque é Fadista: A minha pele está puída em demasia / De mim restam apenas as raízes capilares, os filtros fibrosos / Do nervo do tabaco puro / A tua rede está urdida com cordas de sitar / Para conter as mágoas dos deuses: muito deambulei / Em abóbadas de lágrimas da sublime / Rainha dos tormentos noturnos, tu tensas / suturas de música para suportar a imposição dos ritos / De vivos e mortos. Tu / Arrancas prantos estranhos da trovoada / Peneiras pedras raras das cinzas lunares, e elevas / Recados noturnos para o trono da angústia / Ai, há pétalas de mais machucadas / Para perfume, pesa de mais o passo do ar na asa da mariposa / Para uma xícara de pó de arco-íris / Dor de mais, ai, parteira no grito / Da ruptura, dedilha no cordão cósmico, imensas de mais / As dores pascais para um triz do eterno / Livrar-me-ia da tua tirania, livrar-me-ia / De súbitos mergulhos da carne no terremoto / Além de todo o abatimento de juízo / Livrar-me-ia de passeios precipitados / Em resmas de rochas e veias vulcânicas, puxado por corcéis escuros / sobre melódicas rédeas cinzentas. Por fim o poema Nas primeiras horas: Azul diáfano, o fumo do tabaco / Serpentine em filme molhado e esmalte de madeira, / Silencia cromo, grinaldas cortinas de veludo, / Escurece a caverna de espelhos. Dedos fantasma / Algas cabelo pente, veias Acquamarine derrame / Marooned de marinheiros, prisioneiros / De notas sensuais de Circe. O barman / Dispensa ígneas poções? / Somnabulist, a banda toca por diante. / Misturador cocktail, peixe prateado / Danças para clientes limpet. / Aplausos está mergulhada na lassidão, / Emaranhadas em teias de sussurros dos amantes / E cílios artful do andrógino. / O pairando carícia notas da noite / Mellowed índigo profunda? Ainda jogam. / Linger partidas. Ausências não / Empobrecem a taverna. Eles pairam sobre a neblina / Como exalações de margens recuaram. Em breve, / Noite retomar a posse do silêncio, mas até o amanhecer / As notas de dominar, smoky / Epifanias, possessivo das horas. / Perdoa essa música queixa, redime / A surdez do mundo. Noite se transforma / Para casa, envolto em notas de consolo, pregas / O silêncio quebrado do coração. Veja mais aqui.

O SIGNIFICADO DA TÉCNICA TEATRAL – No ensaio Linhas Fundamentais da dramatologia sociológica (Estética Teatral, 1980), do diretor, produtor teatral e um dos expoentes do teatro épico alemão, Erwin Piscator (1893-1966), ele trata do significado da técnica assinalando que: [...] A economia e a política são o nosso destino, e como resultado de ambas a sociedade, o social. E é somente quando reconhecemos esses três fatores, por consentimento, pela luta contra eles, que estabelecemos ligações entre a nossa vida e o histórico do século vinte. Logo, quando apresenta a elevação das cenas particulares ao histórico como ideia fundamental de toda a ação cênica, não se pode entender outra coisa senão a elevação ao politico, ao econômico e ao social. É por eles que unimos o palco à nossa vida. Quem à arte do nosso tempo apresenta outras exigências, faz, consciente ou inconscientemente, que se verifique o desvio ou o entorpecimento de nossas energias. Não podemos deixar que irrompam na cena impulsos ideais, éticos ou morais, quando as suas molas verdadeiras são políticas, econômicas e sociais. Quem não quer ou não pode reconhecer isso, não vê a realidade. E igualmente não pode o teatro dar vazão a outros impulsos, se pretende ser realmente o teatro atual e representativo da nossa geração. [...] O teatro atual, como a mim se apresente e como eu o dirijo, não pode limitar-se a agir sobre o espectador apenas artisticamente, isto é, esteticamente, sob a forte acentuação do sentimental. A sua missão consiste em intervir ativamente no curso do fato histórico. E ele só cumpre a missão mostrando a história em seu curso. O teatro não pode aceitar nenhuma limitação a isso. Tem de reivindicar o direito de, no curso histórico de um determinado período como expoentes de forças sociais e políticas. A única limitação que o teatro atual reconhece, na representação de tais personalidades, é a verdade histórica [...]. Veja mais aqui.

FATAL CHARM – O suspense Fatal Charm (1977), dirigido por Stelvio Massi, tem uma bela imagem e uma razoável história sobre o desaparecimento de mulheres bonitas, até que um detetive passa a investigar o caso para descobrir o mistério por trás desses desaparecimentos. A película traz muita ação, aventura e suspense, culminando com a destacada atuação da atriz e escritora britânica Joan Collins que ficou famosa com a série Dynasty e pela sua participação especial na série A cidade a beira da eternidade. Em 2014 ela revelou que foi violada aos dezessete anos pelo ator Maxwell Reed, que viria a ser o seu primeiro marido. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do gravador tcheco Václav Hollar (1607-1677).

Veja mais sobre:
O passado escreveu o presente; o futuro, agora, Sociolinguística de Dino Preti, o teatro de Bertolt Brecht, Nunca houve guerrilha em Palmares de Luiz Berto, a música de Adriana Hölszky, a escultura de Antonio Frilli, a arte de Thomas Rowlandson, a pintura de Dimitra Milan & Vera Donskaya-Khilko aqui.

E mais:
A liberdade de expressão, A filha de Agamenon de Ismail Kadaré, A natureza de Parmênides de Eléia, Poema sujo de Ferreira Gullar, O teatro essencial de Denise Stoklos, a música de Badi Assad, o cinema de Ingmar Bergman & Liv Ullmann, a escultura de Emilio Fiaschi, Programa Tataritaritatá, a pintura de Gustav Klint & Vera Donskaya-Khilko aqui.
O discurso do método de René Descartes, a música de João Bosco, o teatro de Denise Stoklos, o cinema de Ingmar Bergman, a pintura de Gustav Klimt, Sandra Regina, Bernadethe Ribeiro & Danny Calixto aqui.
Literatura de cordel: História do capitão do navio, de Silviano Pirauá de Lima aqui.
Preconceito, ó! Xô pra lá, Diários de viagem de Franz Kafka, A revolta de Atlas de Ayn Rand, A lua e o infinito de Giacomo Leopardi, a música de Leoš Janáček & Cheryl Barker, o cinema de Alessandro Blasetti & Sophia Loren, Maguerite Anzieu & Jacques Lacan: caso Aimée, a arte de Liliana Castro, a pintura de Helmut Breuninger & Hermann Fenner-Behmer aqui.
Os vexames dum curau no sul, O absurdo de Thomas Nagel, Voragem de Junichiro Tanizaki, Pretidão de amor de Emílio de Meneses, Mão na luva de Oduvaldo Vianna Filho, o cinema de Olivier Assayas & Maggie Cheung, a música de Rosalia de Souza, a pintura de Pierre-Auguste Renoir & Suzanne Frie aqui.
Quadrilha das paixões mais intensas, Vaqueiros & cantadores de Luís da Câmara Cascudo, Terra de Caruaru de José Condé, a música da Orquestra Armorial & Cussy de Almeida, A Setilha de Serrador, O casamento de Maria Feia de Rutinaldo Miranda Batista, a arte de Roberto Burle Marx. a xilogravura de Severino Borges, J. Miguel & Vermelho aqui.
Entre nós, vivo você, as gravuras de Lasar Segall, a música de Sivuca, Cartilha do cantador de Aleixo Leite Filho, Cancão de fogo de Jairo Lima, a poesia de Belarmino França, a arte de Luciah Lopez, a xilogravura de J. Borges & José Costa Leite aqui.
Dos bichos de todas as feras e mansas, Cantadores de Leonardo Mota, O Romance da Besta Fubana de Luiz Berto, O martelo alagoano de Manoel Chelé, a música do Duo Backer, a escultura de Antoni Gaudí, a militância de Brigitte Mohnhaupt, a arte de Natalia Fabia & a xilogravura de J. Borges aqui.
Quem desiste jamais saberá o gosto de qualquer vitória, A linguagem & as ciências de Roman Jakobson, Nos caminhos de Swan de Marcel Proust, a arte de Regina José Galindo, a fotografia de Thomas Karsten, a pintura de Henry Asencio, a música de Secos & Molhados & Luiza Possi aqui.
Tudo em mim, mestiço sou, O povo brasileiro de Darcy Ribeiro, A história da minha vida de Helen Keller, Anarquismo & ensaios de Emma Goldman, a escultura de Luiz Morrone, a fotografia de Pisco Del Gaiso, Os Fofos Encenam & Viviane Madu, a música de Guilhermina Suggia & a pintura de Martin Eder aqui.
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Imagem: Lezend naakt, do artista plástico holandês Isaac Lazarus Israels (1865-1934)
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

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