quinta-feira, julho 18, 2013

ZÉ RIPE ENTRE AMIGOS EM PÉ DE SERRA


ZÉ RIPE ENTRE AMIGOS & PÉ DE SERRA


Em quase meados da década de 1970 (acho, não lembro bem se 72, 73 ou 74), conheci José Rodrigues Filho, já apelidado de Ripe à época. Estudávamos no Colégio Diocesano onde engrossávamos uma trupe de fazedores de versos, de músicas, de pintura, doidices e artes (isso pela corda que a gente levava de professores como Erivan Félix, Inalda, Zé Pedro, João da Silva, Pedro Victório, entre outros).

A gente se reunia para bolar jograis, melodramas e musicais que eram apresentados aos alunos depois do recreio na quadra do colégio, com a anuência do bispo Dom Acácio Rodrigues Alves e, posteriormente, com a complacência do amigo José Durán y Duran, então diretor do educandário.

Lá estávamos eu, ele, Ozi, Gulú, Mauricinho Melo Junior, Célio Carneirinho e outros achegados que compunham nossa patota de arteiros. E foram tantas apresentações que a gente já sonhava ser artista famoso.

Nessa recada o Ripe era percussionista, vocal e responsável pelos cenários e organização de palco. O Ozi na viola de 10 cordas, Gulu no violão, Célio na percussão e voz, Mauricinho era o desafinado que só batucava ou ficava nos bastidores bolando as coisas comigo, eu na voz e concepção do roteiro e textos, além de outros amigos que se dispunham a figurar no ritmo da arteirada.

Depois o Ripe aprendeu a tocar violão e foi logo compondo maravilhas que ainda hoje embala a ruma de gente toda da terrinha e de outros rincões.

Lembro duma vez quando ensaiávamos nossa batucada numa sala de aula do colégio, empolgados com nossa desenvoltura musical, o negócio estava tão ineivado que até a natureza quis participar. É que no epílogo do arranjo, todo mundo tocando em êxtase sem a conclusão que era adiada por falta de um tom e porque a gente não sabia mais como parar, aí, de repente, um trovão daqueles dos mais estrondosos, deu por sacramentada toda tocada. Teibei. Ficamos arrepiados da cabeça aos pés, entreolhando-nos de espantados. Nessa hora o Ripe olhou pra gente e cochichou amedrontado:

- Gente, como é que a gente vai convocar esse trovão para fechar na hora?

Doutra feita, promovi a IV Feira de Música que também foi apresentada na quadra do mesmo colégio. Havendo um empate entre as finalistas na escolha do júri, o apresentador, poeta Juareiz Correya, solucionou o embate com voto popular. As finalistas eram músicas de Mazinho, Ripe e Fernando Melo (este último com duas músicas de parceria comigo que omiti do júri por questões éticas). Na hora de levantar os braços, eu saí cutucando todo mundo pra votar nas minhas porque eu queria minimizar os gastos que já redundavam no prejuízo, quando cutuquei Ripe e ele bronqueou:

- Oxe, bicho, eu também sou concorrente!!!!!

Resultado: em primeiro lugar Mazinho, segundo Fernandinho Melo e em terceiro o Ripe com a sua inesquecível Mata Sul, parceria dele com Célio Carneirinho.

Terra que o diabo vadeia
Mulher tira homem pra dançar pra dançar pra dançar
Coragem não existe nessa terra
Urubu quer uma cana pra almoçar
A carniça já tá toda ocupada
Em contrato com tudo que é doutô
O pior é que a coisa sempre cai
Na mesa do trabalhadô, sim, sinhô, sim, sinhô.

Depois dessa, o Ripe começou a compor coisas inesquecíveis como Monte Alegre, Ciganada, Predestinação, Morena (essa que eu adoro e que um dia aprendo a cantá-la de tão linda que é) e outras tantas que nem sei o nome, mas se tocar um acorde de qualquer uma, eu ouso desafinar com minha mania de berrar do começo ao fim, pois sei de cor e salteado um montão das coisas belíssimas que ele compôs.

O Ripe que já tinha virado o artista Zé Ripe, sempre esteve comigo nas biritas, no cotidiano, nos acochos da vida, nas comemorações das derrotas e vitórias inglórias, na minha primeira peça teatral O Prêmio (que na época tinha um título horrível de grande), no Circo Itinerante, nos recitais, apresentações, fuleragens e o escambau.

Depois ele compôs um bocado de frevo para o desfile do bloco carnavalesco As Puaras.

Lembro-me que participei do show dele A resistência dos versos, quando fui convocado a tocar teclado numa apresentação que ele faria em Catende. Ôxe, me agarrei com o meu Digitone, ensaiamos e lá estávamos no palco do Leão XIII no maior arrasta-pé. No final, eu todo cheio das vaidades por tocar com um artista como ele, chegou perto de mim e bafejou:

- Ouvi tudo, menos o seu teclado.

Rimos muito e tomamos de todas as misturas etílicas noitedia tardes adentro, madrugada afora, amigos de fé, de copo, de vida e de coração. Estávamos sempre juntos com toda rapazeada do nosso time, fumaçando, bebericando, rindo e mangando pelas ruas, pelas estradas que nos levaram um dia numa caminhada até a base da Serra da Prata, pelos matos até Água Preta, versando, dedilhando e pintando o sete. Até ousamos compor umas músicas que não deram certo: a música dele, um primor; minhas intervenções, um desastre. Foi quando descobri que ele é o maior poeta dele mesmo. Até arengamos algumas vezes por causa disso que eu falava, entretanto, acho que ele entendeu que não era mangação, era que eu assumia minha completa incapacidade de fazer algo que prestasse e que servisse para ser parceiro nas coisas bonitas e boas que ele sempre fez e fará.

Depois disso resolvi convocá-lo pra tocar percussão no meu show Por um novo dia. Também não deu certo, é que ele possuía o vício feio de só se acordar depois de meio dia e eu ensaiava com a banda a partir das sete da manhã. Não me fiz de rogado e convoquei-lo para uma participação especial no meio do show. Foi bonito de se ver, quase que a plateia não deixava ele sair, vez que a apresentação dele foi melhor que tudo que eu fiz na apresentação toda. Até eu esqueci que o show era meu e queria mesmo era assisti-lo com a moçada que o acompanhava.

Os anos se passaram e nunca mais nos encontramos. Hoje ele é um artista feito: poeta, cantador, violeiro, compositor múltiplo de pé-de-serra, maracatus, bumba meu boi, frevos, xotes, forrós e canções, premiado em festivais, gravado por Alcymar Monteiro, Santanna o Cantador, Cikó Macedo, ZéLinaldo, Marcos Catende, Wilson Monteiro, entre outros, artesão dos bons, gente da melhor cepa e sujeito meritório de aplausos e de boa amizade.

Quando vejo agora os seus vídeos na rede, digo cá comigo como a gente diz na terrinha: - Esse cara é bom c´a porra! Eita cabra bom medonho!!!! E tenho orgulho de nossa amizade. Tanto é que me inspirei nele para compor Desnorteio, que foi gravada por meu amigo Wilson Monteiro. Procê, Ripe amigo, meu abração fraterno e desejo de sucesso!


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