segunda-feira, setembro 08, 2008

LITERATURA DE CORDEL - A HISTÓRIA DE JESUS E O MESTRE DOS MESTRES



A HISTÓRIA DE JESUS E O MESTRE DOS MESTRES

Manoel D´Almeida Filho

Quando Jesus Cristo andou
Neste mundo de miséria
Ele fez muitos milagres
Em transformar a matéria
Em sã, forte e sadia
Quando já estava funérea.

É por isso que eu conto
Esse drama verdadeiro
Que Jesus numa viagem
Encontrou um ferreiro
O qual hospedou Jesus
Por ser muito hospitaleiro.

Jesus viu na parede
Tinha visível um letreiro
Dizia por esta forma:
“Na arte sou o primeiro
Eu sou o mestre dos mestres
Nessa arte de ferreiro”

Jesus então perguntou-lhe
Se aquilo era verdade
O ferreiro disse: - Amigo
Tenho essa propriedade
Nesta arte que exerço
Faço o que tenho vontade.

Jesus nada disse a ele
Porque de tudo sabia
Dormiu muito sossegado
Quando foi no outro dia
Chegou uma pobre velha
E uma esmola lhe pedia.

Essa pobre peregrina
Vivia sempre esmolando
Quando pediu a esmola
Jesus lhe foi perguntando:
- Diga se quer ficar moça
Para viver trabalhando?

Disse a velha: - Quem me dera
Eu ser moça e de saúde!
Só meus Deus ou Jesus
Faziam-me essa virtude
Jesus lhe disse: - Pois agora
Encontraste quem te ajude.

Então pediu ao ferreiro
Com sua força divina:
- Quero a licença de vós
Para na vossa oficina
Fazer essa velha moça
Que esta peça é muito fina.

O ferreiro disse: - Faça
Seu serviço de apreço
Que eu quero apreciar
Como se faz no começo
Porque na arte de fole
Esta parte eu não conheço.

Jesus preparou a safra
E botou fogo no fole
Botou a velha na brasa
Urgente fez o controle
Quando puxou para safra
Todo osso ficou mole.

Jesus meteu-lhe o martelo
Fez o serviço à vontade
A velha soltando as casacas
E chegando à mocidade
Pronto ela apresentava
Uns doze anos de idade.

O ferreiro quando viu
O serviço que Jesus fez
Ficou dizendo consigo:
“Aprendi todo de vez
Se eu for fazer isto, faço
Inda com mais rapidez”.

Jesus então despediu-se
Sua viagem seguiu
O ferreiro orgulhou-se
Assim que Jesus saiu
Disse: - Agora faço cousa
Que o povo nunca viu.

Aí chamou a mãe dele
Que era uma velha insossa
Disse: - Velha ande ligeiro
Que eu vou fazê-la moça
Você vai ficar agora
Uma boneca de louça.

A velha inda era dura
Era muito sacudida
Com a voz de ficar moça
Tornou-se mais enxerida
Disse? – Assim eu faço cousa
Que até o diabo duvida.

Disse ela – Eu ficando moça
Diga que danou-se o jogo
Porque eu não mais
Inda havendo muito rogo
Eu quero é gozar a vida
E namorar de pegar fogo.

O ferreiro disse: - Velha
Deixe de conversa mole
Botou-a dentro do fogo
Disse: - Eu tocar o fole
Você agüenta a quentura
Fica quieta e não se bole.

A velha caiu na brasa
Danou-se para gritar
Disse o ferreiro: - Eu não sei
Como você quer gozar
Para poder ficar moça
Tem que gemer e chorar.

Aí foi numa garrafa
Botou e bebeu um porre
Disse: - Velha, cale a boca
Ninguém aqui lhe socorre
Agüente tudo calada
Quem não pode viver morre.

E tocou fogo na velha
A pobre velha calou-se
Ele botou-a na safra
Um pedaço incendiou-se
Ele disse: - Isso é o diabo
Minha mãe desmantelou-se.

Quando pegou o martelo
Disse: - Aqui ninguém contesta
Bateu logo na cabeça
Chegou afundar a testa
Disse: - E pelo que eu vejo
Essa porqueira não presta.

O ferreiro aperreou-se
Foi tomou outra bicada
Voltou a velha ao fogo
Que estava fogulada
Disse: - Hoje te faço moça
Nem que fiques alejada.

Tirou a velha do fogo
E botou água fria
Para ver se dava o ponto
Do jeito que ele queria
Mas sem a força divina
Nada o ferreiro fazia.

Tirou a velha da água
Viu que de nada valeu
Foi de novo na garrafa
E disse quando bebeu:
- Quero ver se aquele homem
Trabalha mais do que eu.

Bateu tanto e pelejou
Que ficou desenganado
A garrafa estava seca
Este muito encachaçado
Vendo que não dava jeito
Ficou chorando humilhado.

A pobre velha virou-se
Numa pedra de carvão
O ferreiro disse: - Agora
Só tem uma solução
Vou chamar aquele homem
Pra vê se ele dá jeito ou não.

Correndo encontrou Jesus
Em um lugar hospedado
Quando o ferreiro chegou
Disse chorando cansado:
- Se o senhor não me valer
Eu sei que estou desgraçado.

- Fui fazer minha mãe moça
O ponto desmantelou-se
Ou foi de mais ou de menos
Em carvão ela tornou-se
Se o senhor não der um jeito
Minha mãe foi quem danou-se

Jesus disse: - Meu amigo
O erro já vem de atrás
O senhor é bom artista
Conhece tudo o que faz
E sendo mestre dos mestres
O que é que eu faço mais.

O ferreiro ajoelhou-se
Pediu com a fronte vencida:
- Peço que vá dá um jeito
À minha mãe querida
Porque eu perdendo ela
Perco gosto da vida.

Sendo assim disse Jesus:
- Eu vá já com rapidez
Porem lhe digo a verdade
Aviso por minha vez
Não garanto fazer nada
Diante do que você fez.

O ferreiro chegou adiante
Jesus vinha mais atrás
Chegando, o ferreiro disse:
- Está aí veja o que faz
Jesus disse: - Está queimada
Agora não presta mais.

- Do jeito que ela está
Não dá mais uma mulher
Mas ainda tem um jeito
Se acaso você quiser
Dela eu faço uma macaca
Diga se assim você quer.

O ferreiro disse: - Amigo
Eu quero é que dê um jeito
Já conheço seu trabalho
Sei que o senhor faz direito
Faça lá de qualquer forma
Que ficarei satisfeito.

Jesus fez logo o serviço
Isso sem haver demora
A macaca estava pronta
Em menos de uma hora
Entregou-a ao ferreiro
Despediu-se e foi embora.

Para quem tem consciência
Exemplo maior não há
Sempre nos diz o rifão:
“Veja o orgulho em que dá
Quem quer ser mais do que é
Fica pior do que está”.

O ferreiro ainda disse:
- Agora estou convencido
Mestre dos mestres é aquele
Fez o serviço polido
Minha mãe só ficou feia
Com este rabo comprido.

- Minha mãe velha ficou
Magra igual uma faca
Fazendo muita careta
Fedendo que só tacaca
Mas eu dou graças a deus
Ter por mãe essa macaca.

Eu peço a todos amigos
Ajudem um brasileiro
Cada um compre um folheto
Que é pequeno dinheiro
Quem não comprar vai ficar
Igual á mãe do ferreiro.

MANUEL D´ALMEIDA FILHO – o poeta e cantador paraibano Manuel D´Almeida Filho (1914-1995),publicou diversos folhetos de cordel, entre eles A Menina que Nasceu Pintada com as Unhas de Ponta e as Sobrancelhas Raspadas (1936), Vicente, o Rei dos Ladrões (1957), Vida, Vingança e Morte de Corisco (1986 ), Os Amigos do Barulho e o Bandido Carne Frita (1991), A Afilhada da Virgem da Conceição (1995), A Princesa que não ria e as Proezas de João Tolo, este o último dos seus romances de cordel. Ainda são de sua autoria os folhetos A Sorte do Amor, Rufino, O Rei do Barulho, Padre Cícero, o Santo do Juazeiro, Os Quatro sábios do reino, A Vitória de Floriano e a Negra Feiticeira, Vicente, o Rei dos Ladrões, Jesus e o Mestre dos Mestres, Josafá e Marieta, O Monstro Misterioso, O Feitiço Por Cima de feiticeiro, O Lobisomem Encantado, A Noiva do Diabo, Os Três Conselhos da Sorte, entre outros tantos títulos. Segundo o cordelista e pesquisador da cultura popular brasileira, Marco Haurélio, as obras de Manuel S´Almeida Filho ocupam lugar privilegiado na poesia popular destacando na sua extensa bibliografia Os Cabras de Lampião, a obra-prima do autor e, indubitavelmente, a melhor biografia em versos sobre o famoso cangaceiro. Com 652 estrofes, enumera os feitos do Rei do Cangaço e prima pela objetividade e riqueza na descrição dos fatos.


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