sábado, abril 28, 2012

LAURA RIDING, JARAUTA, PHILIP ROTH, HINDMAN, SAVAGE LANDOR, LUST & PASSANDO A LIMPO



PASSANDO A LIMPO - Lembro bem, mas nem tanto que foi um dia lá de não sei quando dos anos 1970 – na verdade, cá pra nós, eu não tinha tirado ainda a catinga do mijo -, do momento em que se deu a minha primeira arteirice pública no palco da quadra do Colégio Diocesano.

Foi neste espaço que eu me apresentei na III Feira de Música, promovida pelo Fernando Pinras, cantando duas tranqueiras que denominei de músicas e que ousei ser da minha própria autoria: Escalavros e outra que nem sei nem mesmo o título que tinha, nem me peçam pra tocar por que eram garranchuras de tons e versos que nem eu mesmo sei como tive coragem de inscrever e, ainda, me apresentar. Valha-me.

Pronto, foi nesse exato momento que bati o centro levado por toda bola cheia que eu estava pela publicação dos meus poeminhas fajutos de infância, todo sábado no suplemento infantil Junior, do Diário de Pernambuco.

Na minha cabeça eu era o autor mais famoso do planeta, hehehehe, quando não passava de um ilustríssimo desconhecido que não era nem levado em consideração nem mesmo dentro de casa, avalie. Entretanto, esse foi o momento que me consagrou para mim mesmo. Verdade.

Até então, eu só tocava de fato uma guitarra invisível no bucho, vociferando sucessos do momento e solando ao mesmo tempo, enquanto desafinava na música e rasgava os solos vocais como se fosse o mais exímio dos guitarristas.

Nesse tempo a plateia era grande: a namorada e uns dois ou três gatos pingados pacientes e mangadores.

Ah, lembrei da Biuzinha, uma já senhora que servia na casa da namorada, que ficava batendo palma e apoiando as minhas baboseiras artísticas. Na verdade, ela era muito paciente para ver no que ia dar aquele despropósito e depois caía na maior das gargalhadas.

Enquanto eu pensava comigo mesmo que estava abafando, imaginando estar num palco engalanado e cheio do glamour para uma plateia duns dois milhões de gente (tudo isso na minha cabeça, ora), a namorada se ria, a Biuzinha mangava e outros iam embora mandando eu me lascar.

Mesmo assim, isso tudo era um incentivo.

Tanto que aprendi na marra amontado no meu bigodin ralo de dez anos de idade, a mandar ver blem-blem telengotengo no violão, até compondo algumas coisas que eu chamava de música sem mesmo ainda saber dominar o instrumento.

A determinação foi tanta que aprendi os acordes, saí ajeitando um ao outro numa coisa que se podia chamar de ritmo e danava-me a abrir o peito e soltar a voz de qualquer jeito. Dias, tardes e noites até ficar rouco mesmo. Mas, tá!

Quando eu via o Marco Ripe tocando no banco da praça, eu ficava de mutuca espiando cada detalhe dos dedos dele em cada corda do violão. Filei, copiei, imitei, fiz de tudo e na minha cabeça eu já era um astro quando, pra meu desencanto, era um dos mais estrondosos desastres em qualquer hora que eu quisesse mostrar que eu sabia tocar violão.

Por meus próprios esforços, enfim, tropeçando nas notas, desafinando na voz, trejeitando o tempo todo, aos trancos e barrancos, vai que ia, voltava que não fui, meio lá e meio cá, enfim, dei por composta a primeira música.

Oxe, fiquei mais que envaidecido e queria mostrá-la de qualquer jeito. Ninguém queria ouvir, pois quando eu começava a trastejar no violão e destabocar a voz, a turma botava o rabo entre as pernas e se danava para conversar, nem aí pro meu grandioso sucesso universal. Destá.

Não me abati e dessa mesma atrapalhada forma, compus a segunda coisa que denominei de música. Juntei palavras mesmo que desarrumadas, ajustei tons mesmo que jamais harmônicos, e disse pra mim mesmo: - Essa está melhor que a outra. Um horror.

Foi aí que ouvi o anúncio no som volante de Help Baterista, dando conta da abertura de inscrições para uma Feira de Música que iria acontecer dali uns dias. Na hora corri para encontrar o parceiramigo Fernandinho Melo e o primartista Marquinhos Cabral que me deixaram a par de tudo. Oxe, era a hora.

Apois, providenciei tudo e como não tinha banda com coragem suficiente para se apresentar comigo (claro, os caras não eram bestas de levar vaia na cara assim de graça), acertei na inscrição que seria apresentação solo. Arrepara só.

Na minha cabeça eu era um violonista maior que Paulinho Nogueira e Laurindo Almeida juntos. Também era um cantor maior que Nelson Gonçalves e Luis Gonzaga. Claro, depois que ouvi João Gilberto e o estouro do sucesso de Roberto Carlos, nossa, eu disse pra mim mesmo: - Oxe, isso eu também faço. Chegou a minha hora. Insana ignorância.

Na verdade, o que me deu mais entusiasmo foi ouvir Desafinado com João Gilberto. Não sabia eu, na minha mais aguda ingenuidade de bestão do mijado fedido, que pra arte precisa ser bom. E eu me tinha como o bom dos bons, danou-se! Pois inventei de tentar executar essa música Desafinado, resultado: fui pro palco sem ainda saber nem pra onde iam os acordes dessa magistral canção.

Mas como desafinado descarado que se preze não corre da raia, chegou o dia da apresentação e eu lá: sozinho no palco, violão na caixa dos peitos (imitando, claro, Chico Buarque), tremendo que só vara verde, abri a boca, mandei no recado e num instante terminei. Pronto: esperei a vaia comer no centro. A minha surpresa foi que aplaudiram, claro, plateia generosa, todo mundo conhecido. Mesmo assim, saí mais vermelho que morango maduro no galho do pé do quintal. Queria era me esconder, mas tinha que esperar para a segunda apresentação. Ué, nunca fui covarde!

Lá estou eu de novo sendo anunciado, subindo ao palco, sem nem olhar pro júri nem pra plateia, tasquei os dedos na corda e abri o berreiro. Tão rapidamente começou, assim mesmo terminou. Outros aplausos e eu procurando um buraco no chão pra me socar de morto de vergonha.

Pronto, tirei o cabaço. Nem esperei o resultado nem sei até hoje que classificação ficaram as músicas (acredito que viraram lanternas na lista, arengando as duas músicas para qual ficaria no último lugar). O que valia de mesmo era que eu tinha tirado o cabaço e a culpa é do Pinras que permitiu que músicas tão trejeituosas fossem apresentadas, e da plateia que ainda tiveram o desplante e a complacência de aplaudir o que não deveria ser nem executado. O júri está poupado do meu escárnio porque, claro, devidamente deram a nota acertada para que eu desistisse de ter a cara de pau de inventar de cantar um dia. Mas como não tomei conhecimento da manifestação do júri, sigo incólume até hoje abusando da paciência e da boa vontade alheia. Ainda hoje passo por esse vexame.

Depois disso, todo dia é uma surpresa para mim. Até mesmo hoje, a querida Meimei Corrêa acha de fazer um registro de comemoração desses meus trinta e dois anos de tentativa, contando, ainda, com a generosidade dos amigos Ricardo Machado e da Mônica Brandão. Mesmo sabendo quem sou, obrigado. Minha gratidão eterna procês. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Não devemos ceder a visões desfavoráveis da humanidade, pois fazendo isso, fazemos os homens maus acreditarem que eles não são piores que os outros, e ensinamos aos bons que eles são bons em vão. A solidão é a sala de audiência de Deus. Pensador do escritor britânico Walter Savage Landor (1775-1864).

 

ALGUÉM FALOU: A biblioteca não é apenas um lugar, mas também uma instituição. Sua função não é outra senão a de um projeto utópico de fazer coexistir, no mesmo espaço, todos os momentos do saber humano, o traço de seu pensamento nas suas formas mais variadas e plurais. Pensamento do filósofo espanhol Francisco Jarauta. Veja mais aqui e aqui.

 

O MITO DA DEMOCRACIA DIGITAL – [...] Os impactos políticos da Internet têm sido frequentemente avaliados por meio de lentes providas por democratas deliberacionistas. A esperança tem sido que a Internet iria expandir a esfera pública, ampliando tanto o alcance de ideias discutidas quanto o número de cidadãos cuja participação é permitida [...] A abertura da Internet permitiria aos cidadãos competir com jornalistas pela criação e disseminação de informações políticas [...] ao considerar discurso político online, devemos ter em vista a diferença entre falar e ser ouvido [...] Do ponto de vista da política de massa, preocupamo-nos mais não com quem posta, mas com quem é lido — e há várias barreiras formais e informais que obstam a capacidade de cidadãos comuns atingirem uma audiência. A maior parte do conteúdo online não recebe links, não atrai olhares e tem mínima relevância política. Reiteradamente, este estudo encontra poderosas hierarquias moldando um meio que continua a ser celebrado por sua abertura. Essa hierarquia é estrutural, tecida nos hyperlinks que compõem a Internet; é econômica, sob domínio de corporações como Google, Yahoo! E Microsoft; e é social, no pequeno grupo de profissionais homens brancos, altamente instruídos que são vastamente super-representados nas opiniões online. [...]. Trechos extraídos da obra The Myth Of Digital Democracy (Princeton, 2009), do professor e pesquisador estadunidense Matthew Hindman, defendendo que a Internet está apenas reforça as vozes da elite política ao invés de abrir o processo político para uma diversidade maior de vozes, ao advogar que vivemos em um "Googlearchy" governado por motores de busca que concentram a atenção em apenas um punhado de sites "winner-take-all", sites “vencedores que levam tudo”, ao considerar que se trata de um mito a ideia de que a Internet pode abrir espaço para as pessoas comuns se tornarem participantes mais ativas nos processos políticos.

 

O COMPLEXO DE PORTNOY - [...] Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. Assim que tocava o sinal ao fim das aulas, eu voltava correndo para casa, na esperança de chegar ao apartamento em que morávamos antes que ela tivesse tempo de se transformar. Invariavelmente ela já estava na cozinha quando eu chegava, preparando leite com biscoitos para mim. No entanto, em vez de me livrar dessas ilusões, essa proeza só fazia crescer minha admiração pelos poderes dela. Além do mais, era sempre um alívio não surpreendê-la entre uma e outra transformação - muito embora eu jamais deixasse de tentar; eu sabia que meu pai e minha irmã nem faziam ideia da natureza real de minha mãe, e o peso da traição que, imaginava eu, recairia sobre meus ombros se alguma vez a pegasse desprevenida seria de mais para mim, aos cinco anos de idade. Creio que eu chegava a temer a possibilidade de ser eliminado caso a flagrasse ao entrar voando pela janela do quarto, vindo da escola, ou então surgindo pouco a pouco, um membro de cada vez, emergindo do estado de invisibilidade, com avental e tu do. Claro que, quando ela pedia que lhe contasse como tinha sido meu dia no jardim de infância, eu obedecia sem hesitação. Não tinha a menor pretensão de compreender todas as implicações de seu dom de ubiquidade, mas que ele ser via para descobrir que espécie de menino eu era em sua ausência - disso não havia dúvida. Uma consequência dessa fantasia, que sobreviveu (dessa forma específica) até a primeira série, foi que, julgando não ter alternativa, me tornei um menino honesto. Ah, e brilhante, aliás. A respeito de minha irmã mais velha, uma menina gorda, de tez amarelenta, minha mãe costumava dizer (mesmo na presença da própria Hannah, é claro: também minha mãe adotava a honestidade como política): "A menina está longe de ser um gênio, mas a gente não pede o impossível. Que Deus a abençoe, ela é esforçada, dá tudo o que pode, e assim o que ela conseguir está mais do que bom". De mim, que herdara dela o nariz egípcio afilado e a boca inteligente que jamais se calava, de mim ela dizia, com sua moderação característica: "Esse /bonditt/? Esse não precisa nem abrir o livro - é dez em tudo. É o Albert Einstein Segundo!". E como meu pai encarava tudo isso? Ele bebia - claro que não uísque, como faria um gói, e sim Nujol e leite de magnésia, e mastigava pastilhas laxantes; e comia All-Bran de manhã à noite; e consumia quilos e quilos de frutas secas. Sofria - e como! - de prisão de ventre. A ubiquidade de minha mãe e a prisão de ventre de meu pai, minha mãe voando pela janela do quarto adentro, meu pai lendo o jornal da tarde com um supositório enfiado lá naquele lugar... São essas, doutor, as primeiras impressões que guardo de meus pais, de seus atributos e segredos. Ele preparava chá de folha de sena seca numa panela, e a isso, junto com o supositório que se derretia invisível em seu reto, se resumia toda a bruxaria dele: fervia aquelas folhas verdes cheias de nervuras, mexia com uma colher o líquido fedorento, coava cuidadosamente e por fim ingeria a beberagem, na tentativa de desbloquear o organismo, com uma expressão de cansaço e sofrimento no rosto. E então, debruçado em silêncio sobre o copo vazio, aguardava o milagre... Quando era bem pequeno, às vezes eu ficava sentado a seu lado na cozinha, esperando também. Mas o milagre nunca acontecia, pelo menos não do modo como imaginávamos e rezávamos para que acontecesse - a suspensão daquela pena, a libertação final daquela praga. Lembro que, quando deu no rádio a notícia da explosão da primeira bomba atômica, ele disse em voz alta: "Quem sabe isso não resolvia meu problema". Mas, para aquele homem, toda e qualquer catarse era inútil: suas /kishkas/ viviam comprimidas pela mão de ferro da indignação e da frustração. Entre outros infortúnios seus, eu era o favorito de sua mulher. Para complicar ainda mais as coisas, ele me adorava. Também ele via em mim a oportunidade de que a família se tornasse "tão boa quanto qualquer outra", de que conquistasse honra e respeito - se bem que, quando eu era pequeno, toda vez que ele falava sobre as esperanças que depositava em mim, praticamente só se exprimisse em termos de dinheiro. "Não seja burro como seu pai, não", ele gracejava, com o menino no colo, "não case por beleza, não case por amor - case por dinheiro." Não, não, ele não gostava nem um pouco de ser encarado com desprezo. Trabalhava feito um camelo - para um futuro que estava destinado a jamais atingir. Ninguém jamais lhe proporcionou a satisfação que ele desejava, que estivesse à altura do que ele lhes dera - nem minha mãe, nem eu, nem mesmo minha irmã, que o adora, e cujo marido ele até hoje considera um comunista (embora tenha se tornado sócio de uma lucrativa fábrica de refrigerantes e seja proprietário da casa em que mora, em West Orange). E por certo nem aquela bilionária empresa (ou "instituição", o termo preferido dentro da própria empresa) protestante que o explorava até não poder mais. "A Instituição Financeira Mais Benévola dos Estados Unidos", meu pai proclamou, ainda lembro, quando me levou pela primeira vez para conhecer o quadrilátero exíguo de mesa e cadeira que ele ocupava nos amplos escritórios da Boston & Northeastern Life. Sim, diante do filho se referia com orgulho à "Companhia"; não faria sentido se humilhar falando mal dela em público - afinal de contas, ela pagara seu salário durante a Depressão; dava papel timbrado com o nome dele impresso abaixo do desenho que representava o /Mayflower/, a insígnia da empresa (e, por extensão, dele, ha ha); e todos os anos, na primavera, num requinte de benevolência, a empresa presenteava a ele e minha mãe com um fim de semana gratuito em Atlantic City, num hotel chiquérrimo de góis, onde ele (junto com todos os outros agentes de seguros atuantes nos estados da região do Meio Atlântico que haviam ultrapassado a expectativa média de vendas daquele ano) se sentia intimidado pelo recepcionista, pelo garçom e pelo mensageiro, para não falar nos perplexos hóspedes pagantes. [...]. Trecho extraído da obra Complexo de Portnoy (Companhia das Letras, 2004), do escritor Philip Roth, contando a história de um personagem que se masturba obsessivamente, ao ponto de usar um fígado cru, compreendendo a narrativa uma confissão do protagonista no divã de seu terapeuta. Veja mais aqui e aqui.

 

UM POEMA - A necessidade nos acossa como acusação de impotência: / Você pode ou não falar mais alto, / Provar que está presente? / O que você precisa encontrar para dizer, / Para passar o saber que você existe / À revelia dos crentes ou descrentes / Da nossa espécie em cada um, / Você pode chegar junto ao chegar perto deles / E deixar o assunto de aceitação / Suspenso entre sua oferta / E seu destino com eles no tempo. / (Isto se chama "prosà'!) / Ou você pode convidar ouvintes, / Sem esperar por eles ─ / Fazendo do que você acha para dizer / Um testemunho de si, se ausente de ouvintes. / (Assim o poema se constrói: / Para ser entregue numa distância curta. / Mesmo sem platéia, fala.) / A realidade num poema é inextensível. / Abrange a vontade de falar mais alto, / Mas, se presume incluir / A vontade visitante de ouvir o que é dito, / Finge ser uma / Presença além da sua mesma. / o que mais pode ser feito? / Não falamos mais um com o outro? / Pomos palavras no ar e no papel / Que viajam entre nós como se o real, / Sob a proteção do tempo, / Com nem tudo perdido entre uma e outra, / Estas, aquelas e suas outras, / Ou perdidas de uma vez? / Não fosse isto um poema / Eu falaria sobre o falar, / Escreveria sobre o falar (e sobre o escrever), / Que se guardaria para o outro, outros, / Se construiria para todo mundo, / Ou para ninguém, contendo em si sua força viajante, / Sem precisar de uma graça de tempo para resgatá-lo / De uma perda total. / Ou eu falaria, escreveria, assim, / Esforçando-me para construir, quero dizer, / Algo ligando nossos entendimentos / Numa realidade de palavras, de eus, de outros, / Mais dizível, mais penetrável, habitável, aberta. Poema da poeta estadunidense Laura Riding (1901-1991).Veja mais aqui.

 


LUST EROTIC ART – O volume Lust Erotic Art (VAMzzz Sweet Rebel Magazine), organizado por Sylvia Carrilho e Benjamin Adamah, reune centenas de obras de autores geniais, desde Egon Schiele, obras de Friedrich Wilhelm Kleukens, as bruxas alemãs de Baldung-Grien, obras menos conhecidas de Franz von Bayros, o satânico Félicien Rops e o fetichista Bruno Schultz, aos esboços clínicos de Tom Poulton, dos desenhos de dominatrix de Montorguiel e German Jim, ao erotismo gótico masoquista de Henry Fuseli. Dezenove artistas diferentes são retratados em seus estilos característicos, abrangendo cinco séculos de criatividade, com Lust como o leitmotiv atemporal. Veja mais aqui e aqui.

 


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30 anos de arte cidadã aqui, aqui e aqui.

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Sanha, a história da canção, Bronislaw Malinowski, Wolfgang Amadeus Mozart, Paul Gustave Doré, Sharon Bezaly, Anna Wakitsch, Lendas Africanas, Jaci Bezerra, Silvio Rabelo, Bertrand Bonello, Clara Choveaux, Ivoneide Lopes, Ju Mota & A história de dois moços e quatro moças aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!!
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NÚRIA AÑÓ, WANG WEI, JEAN-LUC NANCY, LEMINSKI, YONAMINE & EDUCAÇÃO

 

A arte do artista angolano Yonamine, autor de obras em pintura, desenho, grafite, fotografia, serigrafias, colagens e vídeo.

 


OUTRA FILHA DA DOR – À memória de Walquíria Afonso Costa (1947-1974). – Aquela menina meiga e inteligente era Walk, a que era de Uberaba, da família andeja de Patos de Minas, Bom Jesus de Itabapoana, Pirapora. Tornou-se professorinha dos grupos escolares e, depois, prestou concurso para lecionar em colégios de Belo Horizonte, enquanto iniciava a militância estudantil. Foi quando teve sua casa invadida pela polícia por causa dos envolvimentos políticos. No afã da militância guerrilheira seguiu pro Araguaia e se estabeleceu em Gameleira, até julgada à revelia pela Auditoria Militar, em Juiz de Fora, quando foi absolvida. Desde então não tive mais notícias dela por bocado de anos, até saber que o governo Geisel havia mandado executar opositores do regime ditatorial. Foi no Natal de 1973 que fiquei sabendo dos ataques da operação Marajoara, das Forças Armadas, e que ela havia se refugiado nas matas e que foi presa como indigente com uma sacola e, dentro dela, um revolver velho, um pouco de sal com farinha e cera para fazer fogo. Como ela estava sendo caçada há meses, a recompensa era vultosa para sua captura, logo enviada para a base militar de Xambioá, prisioneira amarrada com cordas de paraquedas, em uma cama de campanha. Dissera que ela cheirava mal, vestida apenas de uma camisa velha e uma bermuda jeans, muito doente, magra, manca e com marcas de picada pelo corpo. Daí desaparecera e já era 1974 quando soube que fora capturada, torturada e executada com três tiros de espingarda cano logo, sendo enterrada numa cova rasa atrás do refeitório da base. Seus restos mortais jamais encontrados, “não há mais onde procurar”. No seu túmulo imaginário, um epitáfio de Edwin Costa: Pensam que me mataram? Ressuscitaram um ideal. Pensam que me enterraram? Plantaram uma semente. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOSA arte para reencontrar o sentido. A arte se coloca ao lado da linguagem, ou é atravessada pela linguagem (literatura, poesia), para expor o sentido, fora da significação. A linguagem nos leva à borda extrema onde não podemos mais nomear. A arte está ali e pode nos levar para além. Ela mostra que há uma dimensão fora da linguagem. Pensamento do filósofo francês Jean-Luc Nancy (1940-2021), autor de obras como Le titre de la lettre (1973), La remarque spéculative (1973), Le Discours de la syncope (1976) e L’Impératif catégorique (1983), entre outros.

 

ALGUÉM FALOU: Os acontecimentos da vida assemelham-se às imagens do caleidoscópio, no qual a cada volta vemos algo diferente, mas em verdade temos sempre o mesmo diante dos olhos. Pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), autor de obras como O Mundo Como Vontade e Representação (UNESP, 2005) e Sobre o fundamento da moral (Martins Fontes, 2001).Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU2: Você pode não achar a cultura interessante. Hoje em dia, seus hormônios monopolizam todos os seus interesses. Trecho do livro Els nens de l'Elisa (Omicron, 2006), da premiada escritora espanhola Núria Añó, conta a história de uma professora que é atraída por adolescentes e se vê envolvida com o um jovem que se encontra em situação familiar dificílima.

 

VERDADE & MÉTODO – [...] Por mais que alguém se desloque a uma forma espiritual estrangeira, nunca chega a esquecer sua própria acepção do mundo e inclusive da linguagem. Ao contrário, esse mundo diferente que nos vem ao encontro não é somente estranho, mas também distinto numa infinidade de relações. Não somente tem sua própria verdade em si, mas também uma verdade própria para nós [...]. Trechos extraídos da obra Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica (Vozes, 1997), do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002). Veja mais aqui e aqui.

 

ASCESE & ESCASSEZ – [...] Um eremita das vastidões da Tebaida, um dos chamados Padres do Deserto, era alimentado miraculosamente por um corvo, que lhe trazia, todo dia, uma maca no bico. Perto da gruta do monge, corria um riacho onde ele jogava a casca da maca trazida pelo corvo. Assim foi por muitos anos. Um belo dia, o monge achou que tinha atingido o cumulo da santidade e partiu do lugar. Descendo ao longo do riacho, encontrou outra gruta, habitada por um monge da sua idade. Na conversação sobre as coisas do céu, o primeiro monge mencionou, com uma ponta de orgulho, a graça singular com que o Senhor reconhecera sua perfeição: durante 70 anos, um corvo lhe trouxera, todo dia, uma maca. O outro monge disse que, em matéria de favores divinos, não ficava atrás: ele se alimentara, por 70 anos, de uma casca de maca que, miraculosamente, vinha boiando no riacho, todos os dias. Temos sido o primeiro monge. Vamos, logo, ter que ser o segundo. [...]. Trecho do ensaio Ascese e escassez (Diário do Paraná, 30 jun. 1977), do escritor, critico literário, tradutor e professor Paulo Leminski (1944-1989). Veja mais aqui e aqui.

 

UM POEMA - Oferecendo beber a Pei Ti” / Vem beber um copo e descansar, / Os homens mudam sempre, como as ondas do mar. / Nós dois temos envelhecido juntos, / apesar dos reveses, continuamos vivos. / O primeiro a habitar uma casa de portões escarlates / pode sorrir, ao olhar os outros de chapéu na mão. / Tu sabes, basta um pouco de chuva / para reverdecer a erva dos caminhos. / O vento da Primavera é ainda frio / mas os botões das flores quase desabrocham. / Por que tanta pergunta, tanta luta, / os negócios do mundo, as nuvens flutuantes? / Descansa, deixa fluir a vida, / e vem jantar comigo. Poema do poeta, pintor e calígrafo chinês Wang Wei (701-761), o Poeta de Buda.

 


EDUCAÇÃO
A educação tem assumido importante papel nas pautas de discussões mundiais, a ponto de Ozmon & Craver (2004:350) assinalarem que: Os interesses atuais que dominam a educação pressupõem que a ordem educacional existente é necessária e que professores e intelectuais devem servir ao status quo e contar com a previsibilidade e a medida científica para realizarem políticas e práticas educacionais. Tal evidência se dá depois, principalmente, da Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Março de 1990, em Jontien, na Tailândia, onde foram debatidas as necessidades de se compreenderem tanto os instrumentos fundamentais da aprendizagem, como a alfabetização, a expressão oral, a aritmética e a solução de problemas; quanto o conteúdo básico da aprendizagem nos conhecimentos, capacidades, valores e atitudes de que necessitam os seres humanos para sobreviver, desenvolver plenamente suas possibilidades, viver e trabalhar dignamente, participar plenamente do desenvolvimento, melhorar sua qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas e continuar aprendendo. Neste sentido, Delors (1999:56), observa que: Para dar à educação o lugar central que lhe cabe na dinâmica social, convém em primeiro, salvaguardar a sua função de cadinho, combatendo todas as formas de exclusão. Há que conduzir, ou reconduzir, para o sistema educativo, todos os que dele andam afastados ou que a abandonaram, porque o ensino prestado não se adaptar ao seu caso. Isto supõe a colaboração dos pais na definição do percurso escolar dos filhos e a ajuda às famílias mais pobres para que não considerem a escolarização dos seus filhos como um custo impossível de suportar. Com isso, essa importância da educação se reproduz no reencaminhamento de propostas, revalorização e restauração de realidades, possibilitando um refazer paradigmático adequado às novas realidades proporcionadas pela pós-modernidade, no sentido de acompanhar a velocidade transformadora que caracteriza o tempo presente com as suas mutações constantes e peculiares, exigindo de cada um que se encontre antenado com a habilidade especializada, para que o indivíduo possa agir tanto na direção de metas individuais, quanto na coletividade e no seu meio (Dalma, 1994; Delors, 1999; Gagotti, 2000). Neste tocante, observa Arroyo (1999:36) que A educação moderna vai se configurando nos confrontos sociais e políticos, ora como um dos instrumentos de conquista da liberdade, da participação e da cidadania, ora como um dos mecanismos para controlar e dosar os graus de liberdade, de civilização, de racionalidade e de submissão suportáveis pelas novas formas de produção industrial e pelas novas relações sociais entre os homens. Desta forma, a educação se reposiciona no sentido de alcançar uma amplitude multicultural, se propondo a analisar, criticamente, os currículos monoculturais atuais e procurando formar criticamente os professores, para que mudem suas atitudes diante dos alunos mais pobres ou com problemas de aprendizagem, e elaborem estratégias instrucionais próprias para a educação das camadas populares, procurando, antes de mais nada, compreendê-las na totalidade de sua cultura e de sua visão de mundo. Ou seja, como bem diz Gadotti (2000:42) “uma estratégia de alfabetização, numa concepção multicultural, deveria partir do relato da experiência do trabalho e de vida deles mesmos, isto é, da biografia dos próprios educandos e não do desenho das letras que é uma técnica anticientífica". Além disso, a educação se articulando com uma política de formação para os direitos humanos, inicialmente centrada no mero estudo e conhecimento dos direitos humanos e em sua difusão, derivando posteriormente para uma necessidade de aprofundar na matéria (Arroyo, 1999; Gadotti, 2000).  É conveniente observar mais ainda que a educação se evidencia na ampliação do debate de sua função para a igualdade, na necessidade de propor mudanças mais profundas, que partam da aceitação do próprio sexo, dos diferenciais raciais, das potencialidades e das limitações pessoais, do conhecimento do outro e a convivência enriquecedora de ambos, em condições reais de igualdade de oportunidades, enfim, levando a um processo que se destine ao desenvolvimento, inicialmente ligada ao âmbito da cooperação, que não se isole dos problemas mais diretamente e amplamente observados, na tentativa de compreender os conflitos se socorrendo de uma explicação global, o que demanda uma resposta cultural diferente, um novo comportamento de indivíduos e sociedades em relação a outras culturas, opondo-se a toda manifestação de discriminação e violência, em favor da justiça (Gadotti, 2000; Yus, 1998; Bordenave & Pereira, 1977; Delval, 2001). É com isso que Delors (1999:57) observa que: O ensino deve, também ser personalizado, esforçar-se por valorizar a originalidade, apresentando opções de iniciação às diversas disciplinas, atividades ou artes, confiando esta iniciação a especialistas, que possam comunicar aos jovens o seu entusiasmo e explicar-lhes as suas próprias opções de vida. Para criar modalidades de reconhecimento de aptidões e conhecimento tácitos e, portanto, para haver reconhecimento social, é bom, sempre que possível, diversificar os sistemas de ensino e envolver nas parcerias educativas as famílias e os diversos atores sociais. Assim, a escola, neste sentido abordado e reiterado na observação de Gaddotti (2000:41) "(...) precisa atuar num cenário policultural numa época de globalização da economia e das comunicações, de acirramentos das contradições inter e intrapovos e nações, época do ressurgimento do racismo e de certo triunfo do individualismo" necessitando, portanto, de uma educação, uma ética e uma cultura da diversidade. Tal colocação chama a atenção para que nesse contexto global, duas dimensões devam ser destacadas, dentre as quais, a dimensão interdisciplinar experimentando a vivência de uma realidade global que se inscreva nas experiências cotidianas do aluno, do professor e do povo, articulando o saber, o conhecimento, a vivência, a escola, a comunidade, o meio ambiente, que é o objetivo da interdisciplinaridade traduzida na prática por um trabalho escolar coletivo e solidário; e, também, uma dimensão internacional engajando as crianças e adolescentes para viver no mundo da diferença e da solidariedade entre diferentes, preparando o cidadão para participar de uma sociedade planetária, sendo local, como ponto de partida, internacional e intercultural como ponto de chegada (Gadotti, 1998; Gadotti, 2000). Neste sentido, defende-se que a escola não deve apenas transmitir conhecimento, mas, também, preocupar-se com a formação global dos alunos, numa visão onde o conhecer e o intervir no real se encontrem. Ou seja, como se manifesta Delors (1999:60): A educação não pode contentar-se em reunir as pessoas fazendo-as aderir a valores comuns forjados no passado. Deve, também, responder à questão: viver juntos, com que finalidades, para fazer o quê? E dar a cada um, ao longo de toda a vida, a capacidade de participar, ativamente, num processo de sociedade. Para isso é preciso saber trabalhar com as diferenças, isto é, é preciso reconhecê-las, não camuflá-las, e aceitar que para se conhecer, precisa-se conhecer o outro. Assim, a escola precisa fazer a síntese entre continuidade e ruptura em relação à cultura de massa, partindo para respeitar a identidade cultural das crianças e adolescentes populares (Morin, 2001; Gadotti, 2000; Giroux, 1986; Gofredo, 1999). É nesta direção que, conforme defendido por Giroux (1999b), se encaminha o processo educacional para exercício da cidadania, na aquisição de uma consciência de direitos e deveres consignados no processo democrático, construída como um processo oriundo da prática social e política das classes.  Neste sentido, Arroyo (1999:79) defende que "a luta pela cidadania, pelo legítimo, pelos direitos, é o espaço pedagógico onde se dá o verdadeiro processo de formação e constituição do cidadão. A educação não é uma precondição da democracia e da participação, mas é parte, fruto e expressão do processo de sua constituição". O que quer dizer que o conhecimento, a informação e uma visão mais ampla dos valores são a base para a cidadania em sociedades plurais, cambiantes e cada vez mais complexas, nas quais a hegemonia do Estado, dos partidos ou de um setor social específico tende a ser substituída por uma pluralidade de instituições em equilíbrios instáveis, que envolvem permanente negociação dos conflitos para estabelecer consensos. A necessidade de se voltarem as atenções para a cidadania frente a era de competitividade atual que provoca uma luta desigual entre os indivíduos, via aprimoramento, competência e qualificação, traz à lume uma série de questionamentos necessários ao resgate do cidadão mediante as mudanças implementadas pela política da nova ordem expressa através da globalização, uma vez que os mercados precisam de indivíduos preparados que sejam capazes de desempenhar todo o tipo de atividades e tarefas que definam as novas formas de trabalho, pelo fato que, indivíduos com um nível mais alto de formação, são os que melhores se adaptam às exigências de um mercado de trabalho mutante (Gadotti, 2000; Gofredo, 1999; Kuenzer, 1998). O compromisso com a construção da cidadania pede, necessariamente, uma prática voltada para a compreensão da realidade e dos direitos e responsabilidades em relação à vida pessoal inserida na coletividade e, consequentemente, com o seu meio. Isso se reflete de forma tal, no sentido de que o homem não pode mais pensar na vida ou no seu bem-estar, prescindindo de inerências fundamentais que estão peculiarmente interligadas ao seu convívio social, político, educacional, ambiental, dentre outras. E a educação tem sido fortalecida nessa busca de encontro entre a realidade e a consciência cidadã (Zabala, 1998; Kuenzer, 1998; Libaneo, 2001). Neste sentido, observa Bordenave & Pereira (1977:78) que: (...) a educação é um processo social indispensável à formação da mentalidade dos cidadãos de uma sociedade e, assim, inequivocamente, fundamental para a construção das estruturas cognitivas (no nível do indivíduo) e conceituais (no nível da produção social do conhecimento) que lastreiam o desenvolvimento de uma sociedade. Com isso, será necessário um redimensionamento na exploração das potencialidades produtivas individuais arregimentadas para uma consciência cidadã que qualifique a atual modelagem e consagre a liberdade e a igualdade como meio de alcançar o fim educacional no desenvolvimento almejado. E, diante desse fato, a educação é convocada, prioritariamente, para expressar uma nova relação entre o desenvolvimento e os diversos fatores que possam contribuir para associar o crescimento econômico à melhoria da qualidade de vida sem prejuízo à consolidação dos valores humanos (Bordenave & Pereira, 1977; Libãneo, 2001). A educação, portanto, vai se dirigindo a levar o ser a um ato cognoscente, tornando indispensável o diálogo, a crítica fundada na criatividade, estimulando a reflexão e ação verdadeira dos homens sobre a realidade, atenta às mudanças e que corresponda à condição dos homens no contexto do exercício da cidadania (Kuenzer, 1998; Moraes, 1997; Ozmon & Craver, 2004).  Assim, defende Ferreira (1993:221) que "a educação para a cidadania precisaria empenhar-se em expurgar de cada homem as crenças, as fantasias, as ilusões e, quem sabe, as paixões que em nada contribuem para o desenvolvimento de uma consciência crítica". Com isso, observa, então, que as pessoas precisam do conhecimento sistemático para chegar a ser cidadãos, tratando que a cidadania vai além da aquisição do conhecimento de conteúdos sistematizados, necessitando a racionalidade técnica, com o interesse de dominação, ligada aos princípios epistemológicos do positivismo, trabalhando com os pressupostos da predição e controle, com o pressuposto do consenso social; a hermenêutica, cujo interesse é a comunicação, filiada à perspectiva da fenomenologia, na qual o binômio intencionalidade/significação é o ponto fundamental; e a emancipatória, cujo interesse básico é a libertação do homem, e avança na crítica às relações sociais, nas quais se estabelecem os óbices à emancipação dos homens: as relações de poder, as normas e as significações elaboradas pelo próprio sistema (Ferreira, 1993; Arroyo, 1999; Gadotti, 2000). Assim, a cidadania aparece como o resultado da comunicação intersubjetiva, através da qual, indivíduos livres concordam em construir e viver numa sociedade melhor (Ferreira, 1993; Giroux, 1986). Mediante isso, destaca-se que educar o homem para a cidadania, significa, então, prepará-lo para viver em sociedade de classe, seguindo padrões de uma política necessária à existência de um mínimo de consenso social. Ou seja, como bem menciona Libâneo (2001:45): “Entre os ideais da escola pública destaca-se o da igualdade de oportunidades em geral e, em particular o da igualdade de direitos entre homens e mulheres”. Neste sentido, apreende-se que o homem precisará estar sintonizado de forma equilibrada consigo e com o seu ser, enquanto indivíduo coletivo, agindo interativamente e sendo co-responsável por seus aspectos positivos e negativos advindos das metaformoses da atualidade (Libâneo, 2001; Queluz, 1996; Saviani, 1996).
LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL (LDB) – A educação no Brasil, com a promulgação da Constituição Federal do Brasil de 1988, principalmente, a partir do seu art. 205º, que define as regras que regerão as coisas afeitas à educação, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade e visará o pleno desenvolvimento do cidadão, preparando-o para a cidadania e qualificando-o para o trabalho: Artº. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Tal fato se dá em virtude da educação ter assumido, conforme visto no capítulo anterior, importante papel nas pautas de discussões mundiais por causa da realização da Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Março de 1990, em Jontien, na Tailândia, ocasião em que foram debatidas as necessidades de se compreenderem tanto os instrumentos fundamentais da aprendizagem, participar plenamente do desenvolvimento, melhorar sua qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas e continuar aprendendo (Brasil, 1999). A Lei 9.394, de 20 de Dezembro de 1996, estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional, também denominada de Lei Darcy Ribeiro, proporcionou a criação das diretrizes curriculares nacionais, reafirmando que a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. Inspirada nos princípios da liberdade e nos ideais da solidariedade humana, a educação definiu-se como dever do Estado e da família e, por finalidade, desenvolver o educando de forma a prepará-lo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, em consonância com os ditames expressos na carta constitucional de 1988. Assim, os princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, a LDB em análise, passou a ter a finalidade de desenvolver o educando de forma a prepará-lo para o exercício da cidadania e sua qualificação para a vida e para o trabalho (BRASIL, 1999). A sua característica fundamental é tratar a educação delineando princípios norteadores suficientemente maleáveis para que o ensino aconteça em cada momento e em cada local de acordo com as condições necessárias e características próprias, valorizando a integração da escola com o mundo real e do trabalho, além do aproveitamento pela escola, de todo e qualquer conhecimento ou habilidade adquiridos pelo educando em sua vida (BRASIL, 1999). Tal lei, entretanto, conforme se apreende de Albuquerque (1999), Brzezinski (1998), Carneiro (1998), Demo (1997), Dornas (1997), Ranieiri (2000), Ribeiro (1998) e Saviani (1996), defende que a aprendizagem não esteja condicionada apenas a conteúdos específicos da pedagogia tradicional, mas que além da instrução conteudística de um currículo pré-estabelecido, estejam presentes, transversalmente, temas outros que possibilitem a formação do sujeito, a globalização do conhecimento, a preparação para o trabalho e o exercício da cidadania. Neste tocante, comenta Carneiro (1998:10) que: O texto da lei 9394/96 oferece um espaço de flexibilidade para que os sistemas de ensino operem, criativamente os seus ordenamentos. A lei respalda a prática da autonomia pedagógica e administrativa e da gestão financeira como condição para a escola executar, realmente, o seu projeto pedagógico. A lei abrangente como se constata, conforme Carneiro (1998) e Brasil (1999), trata dos princípios básicos, da estrutura do ensino, do calendário escolar, da incumbência de todos, da gestão democrática no ensino público, da competência do estabelecimento de ensino, da educação infantil, fundamental e média, passando pela educação especial, à distância e experimental, até o superior, calcada na estética da sensibilidade, na política da igualdade e na ética da identidade, orientando, assim, as escolas pelos valores apresentados nos fundamentos de interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, no respeito ao bem comum e à ordem democrática e no fortalecimento dos vínculos da família, os laços de solidariedade humana e tolerância recíproca. Com isso, em conformidade com o expresso em Brasil (1999), a escola proposta será aquela que se direcionará a formar cidadãos e cidadãs alfabetizadas na compreensão, na atitude crítica e no uso de linguagens várias, dentre elas as audiovisuais e as da informática, no contexto de indivíduos com um conhecimento cultural de base que lhes permita situar a informação e dar-lhe sentido, como, por exemplo, o de integrarem-se a um mercado de trabalho possibilitando o processo de inclusão, além de se tornarem mais solidários e tolerantes. Neste sentido, conforme anotado por Dornas (1997) e Brasil (1999), a LDB se organiza a partir dos princípios da estética da sensibilidade, que estimula a criatividade, o espírito inventivo, a curiosidade pelo inusitado, a afetividade para facilitar a constituição de identidades capazes de suportar a inquietação, conviver com o incerto, o imprevisível e o diferente; a política da igualdade, no reconhecimento dos direitos humanos e exercício dos direitos e deveres da cidadania como fundamento da preparação do educando para a vida civil com condutas de participação e solidariedade, respeito e senso de responsabilidade, pelo outro e pelo público; e a ética da identidade, que se constitui a partir da estética e da política, para o ideal do humanismo num processo de construção de identidades, pelo desenvolvimento da sensibilidade e pelo reconhecimento do direito à igualdade, além do reconhecimento da identidade própria e do outro. Vê-se, portanto, que a Lei nº 9.3394/96 que compreende a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB, dispõe nos seus artigos sobre a educação e a preocupação com o exercício da cidadania e o pleno desenvolvimento do educando que articula vários aspectos, como: a saúde, a sexualidade, a vida familiar e social, o meio ambiente, o trabalho, a ciência, dentre outros indispensáveis à formação integral do indivíduo, destacando no artigo segundo: " A educação, dever da família e do estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". A LDB e os Parâmetros Curriculares Nacionais, conforme Brasil (1997), preocupam-se, portanto, com o objetivo principal da educação na construção da cidadania. Isto quer dizer que, a partir de 1996, as escolas passaram a contar com a proposta inovadora em termos educativos, notadamente os PCN´s, elaborados pelo Ministério da Educação com apoio de diversos especialistas, sendo de grande utilidade não só para implantação dos conteúdos de sexualidade e saúde reprodutiva, mas também na discussão de princípios democráticos como a dignidade da pessoa humana, a igualdade de direitos, a participação e a co-responsabilidade social. Assim, a proposta é a de que os temas tais como meio ambiente, ética, pluralidade cultural, trabalho e consumo, educação sexual, devam ser tratados de forma transversal, isto é, poderão ser abordados a qualquer momento e por todas as disciplinas (Brasil, 1997; Yus,1998). Esses conteúdos apresentados pedagogicamente flexíveis, de forma a abranger as necessidades específicas de cada turma, a cada momento. Para tanto, o documento propõe que a relevância sociocultural deva ser um critério de seleção dos conteúdos e que os professores, ao abordá-los nas escolas, levem em consideração as dimensões biológicas, culturais, psíquicas e sociais, pois sendo a educação uma construção humana, esta se encontra marcada pela história, pela cultura, pela ciência, assim como, pelos afetos e sentimentos, expressados com singularidade em cada sujeito (Brasil, 1997; Yus, 1998). Veja mais aqui e aqui.
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