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sexta-feira, janeiro 19, 2018

BOOTSTRAP DE CHEW, LEMINSKI, SALMAN RUSHDIE,MAGDA TAGLIAFERRO, TURÍBIO SANTOS, VILMA CACCURI, LEWIS THOMAS, COACHING, SEVERINO, GIL & JUIZ.

A VIDA E A SORTE POR DOIS TOSTÕES - Imagem: arte da artista plástica e professora Vilma Caccuri. - A vida segue e tudo passa por um fio. Fé em Deus, pé no mundo. Dois tostões, apenas: um pra ida, outro pra volta. Mais nada. Em frente. Pra onde? Trapos todos, restinho de sobra à beira do precipício. Pra onde mesmo? Sei lá, seja o que Deus quiser. O centro é longe, bote lonjura nisso. Tenho de ir. Como? Vou. A ida, já era, só conta agora com o da volta. E foi: gente como a praga, pra lá e pra cá, vitrines, esbarrões, buzinadas, tá cego, é? Ah, meu, olha por onde anda! Pra lá ou pra cá, tanto faz. Na sorte: prali! Direção da venta. Um pé na frente, outro atrás, contando casa, passadas. Anda que só a má notícia. Volta. Não, melhor retornar. Pra onde é que eu vou, hem? Dobra esquina, apruma meio feio, uma topada, um safanão, na corda bamba, escorrega, mas não cai, se ajeite, vai e agora? Deu numa praça, ah, inda bem, um banco, melhor sentar pra aprumar as ideias. Sal na moleira, cheio de nó pelas costas. A existência toda revista, o que fez e o que deixou de fazer, os erros muitos, acertos, ah, isso é outra coisa, o que fazer agora é que é outra coisa, de mesmo não sabe, só que vai acertar em cheio, ah, se vai, tudo vai dar certo, não fosse um bêbado aparecer, atrapalhar tudo, sentar do lado e começar a falar num idioma estranhíssimo, coisa sem coisa, blábláblá, ih, só faltava essa, e tome lero de conversa oca, entendia nada, miolo de pote, até que passou uma bêbada com charminho provocante, dois ou três laralá e ele foi atrás, graças a Deus, agora podia retomar seus pensamentos e endireitar as ideias roubadas pelo intruso, ah, esqueceu um jornal amassado no banco, peguei, folheei, notícias, manchetes, fatos e páginas, ah, os classificados, deixe ver, hum, precisam disso, nada, aquilo, nada, mais isto, nada, vira a página, ah, tem vagas para isso, precisa-se de quê mesmo? Ah, vou nesse. Ei, moço, onde fica isso? Ei, sabe onde é isso aqui? Um, dois, quinze, vinte, muitos e uma alma perdida para, olha, pensa, imagina e diz: Tá de carro? Não. Vai de ônibus? Não posso, só tenho a volta, nada mais. Sabe onde é o fim do mundo? Sei, onde eu moro. É mais longe. Mesmo? Você pega ali, dobra acolá, depois pra direita, em frente, pega a esquerda, daqui mais ou menos umas duas horas indo reto, você chega lá. Duas horas? Sim, mais ou menos, talvez três. Eu vou. Obrigado. E foi mesmo. Léguas pra quem não sabe pronde ir é muito mais longe, a dobra de um beiço: ali. Andou, bote pé gastando solado, um dia chega. E tome chão. Meio dia em ponto, é ali, pronto, chegou, mais de duas horas e meia de caminhada, Sol na testa, o corpo lavado. Moça, é aqui que é aqui? É. Como faço? Tem hora marcada? Não. Trouxe currículo? Não. O que veio fazer aqui? Pelo anúncio. Tá, me dê os documentos dessa lista. Não trouxe. Volte amanhã. Não posso. Ah, meu senhor, assim não posso fazer nada. O senhor está vendo essa tuia de gente todinha aí sentada e aqueles todos lá fora em pé? Estou. É a fila que vai ser atendida. Eu topo. Topa o quê? Ir pra fila. Mas todos estão já agendados, com documentos acertados e prontos para serem testados. Estou pronto. O senhor não trouxe nada. Olhe eu aqui, estou pronto? Ah, meu senhor... Pelo amor de Deus, moça, me deixe ir pro final da fila, eu espero. Ah, vai lá, te vira! Obrigado. Fim da fila, trocentos na frente, 1, 2, 3, melhor não contar, deixa o barco correr, um dia chega a minha vez. Um por um, a vida toda, o primário, o ginasial, a merda que fez, o casório, as broncas, os negócios atrapalhados, o fim da picada, pegar o bonde, apostar o que tinha e o que não tinha, fé em Deus, pé na vida, e a tarde toda indo embora, lá pras tantas, chegou sua vez, a psicóloga: Cadê seu currículo? Não trouxe. Documentos da lista, não tenho, o que veio fazer aqui? Pelo anúncio. Tá, o que você sabe fazer disso aí, aprendi na escola. Experiência? Nenhuma. Tá. Pode ir. E o emprego? Vamos avaliar e a gente entra em contato. Mas sem anotar nada meu? A gente lhe encontra. Como? A gente usa o satélite, gravei sua cara e a gente lhe encontra e avisa o resultado. Mas dona psicóloga... o próximo... sou o último. Então, passe bem e até. Saiu e teve de sair, também. E agora? Já na rua, parou na calçada, a volta pronta no bolso, uma mão na frente e outra atrás. Futuro nenhum, desculpa nenhuma. O que vou dizer em casa? Oxe! Vou nada. Voltou, chegou à secretária: O senhor de novo? Minha senhora, por favor, deixe eu falar com o chefe! Você foi pra psicóloga? Fui. E ela não disse quando voltar? Disse. Então, atenda. Não, por favor, deixe eu falar com o chefe, é só uma pergunta e não lhe importuno mais. Eu tenho o que fazer. Eu sei, é só uma pergunta, não importuno mais, não posso, pelo amor de Deus, uma só, só essa vez, não posso, pelo amor dos seus pais, filhos, parentes ou aderentes que a senhora tiver, não posso, só dessa vez, mais nunca, só dessa, que peitica, é só dessa vez, por favor, tá. E discou: ã-ram, sim, hum, certo, sim, não, ok. Desligou e virou-se pra ele: ele virá. Aguarde. Chá de cadeira. Um tempo depois e bote tempo, um senhor de idade finalmente apareceu, tranquilamente: Quem quer falar comigo? Ele olhou pra recepcionista e perguntou: É ele? É. Sou eu. Pois não. Sabe, meu senhor, eu cheguei por esse anúncio, sou do Nordeste e estou em São Paulo sem saber o que fazer da vida e blábláblá. Tá. O que você sabe fazer? Bem, o que sei aprendi na escola. Tem experiência? Não. O senhor sabe que muitos foram testados, uma fila enorme, todos dispensados, não serviam. Sei, eu era o último da fila. E aí? Estou aqui. Â-rã! E o que você quer? O emprego. E não sabe nada, nem tem experiência. Sim. Venha cá, como é mesmo seu nome? Severino. Ah, tá, vamos tomar um cafezinho. Agora mesmo. Foram pra lanchonete do lado, sentaram numa mesa, o senhor de branco pediu dois cafezinhos, olhou pra ele: Como é mesmo seu nome? Severino. Ah, mais um dos de João Cabral. Hem? Nada. Vá, me conte a sua história. Ah, tá, eu sou e blábláblá, mais dois cafezinhos e blábláblá, o senhor com a maior paciência, ouviu tudo, rosário debulhado, vida toda contada, situações toda mostrada e ele com a maior paciência disse: Fui com a sua cara. Vamos ali. Braço sobre os ombros do solicitante, seguiram por um corredor, dois, três, dobraram, contornaram, retomaram, seguiram e chegaram a um local depois de passar por onde Judas perdeu as botas e o diabo esqueceu de voltar, no qual outras dúzias de pessoas estavam todas ocupadas, quando o senhor de idade disse: Atenção todos! Este aqui é Severino, não sabe nada, não tem experiência e quer trabalhar! O emprego é dele, ensinem a ele o que fazer! E virou-se pro Severino: Bem, são 18:30hs, pode ficar até às 20 horas? Ajoelhou-se, ergueu as mãos pros céus e disse: Posso, o senhor manda. Ficou até às 23 horas. Até amanhã. Usou a volta, contou as novas, ninguém acreditou. Às 6 da matina, embecou-se, pegou o dinheiro emprestado que lhe deram os parentes, pegou a condução e foi trabalhar. Até hoje e a sensação de que Deus e também pessoas boas ainda existem nesse mundão arrevirado e de porteira escancarada. Eita, bicho cagado de sorte! É a vida e vale mais que dois tostões, hem? (Homenagem do Severino pro doutor Biaggio Rivellino). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o violonista Turíbio Santos Violão Sinfônico & Orquestra de Violões, a pianista Magda Tagliaferro com recitais da obra de Heitor Villa Lobos; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Dentre todas as criaturas existentes na Terra, somos, talvez, o único animal que sente preocupação. Passamos a vida temendo o futuro, descontentes com o presente, incapazes de aceitar a morte, incapazes de descansar. Pensamento do médico, poeta, etimologista, ensaista, administrador, educador, conselheiro de política, e investigador estadunidense Lewis Thomas (1913-1993).

BOOTSTRAP: FILOSOFIA DE REDE – [...] dada a longa tradição da ciência ocidental, a concepção bootstrap ainda não goza de boa reputação entre os cientistas, não sendoreconhecida como ciência precisamente por sua falta de uma base firme. Toda a ideia de ciência, num certo sentido, está em conflito com a abordagem bootstrap, pois a ciência quer perguntas expressas com clareza e que possam ter uma verificação experimental isenta de ambighuidades. Faz parte da concepção bootstrap, no entanto, que nenhum conceito seja considerado absolito, havendo sempre a expectativa de eencontrarmos falhas nos conceitos antigos. Estamos a todo instante rebaixando ou desacreditando conceitos que no passado recente teriam sido considerado fundamentais e usados como linguagem para a formulação de perguntas. [...] quando formulamos uma pergunta, estamos aceitando conceitos básicos para podermos formulá-la. No entanto, na abordagem bootstrap, em que o sistema todo representa uma rede de relações sem nenhum fundamento firme, a descriçãode akgo pode começar numa enorme variedade de pontos diferentes. Não há ponto de partida claro e definido. E da maneira como nossa teoria vem se desenvolvendo nesses últimos anos, é muito comum nãos abermos quais perguntas fazer. Orientamo-nos pela consistência do sistema; cada aumento dessa consistência sugere algho que ainda está incompleto, embora isso raramente assuma a forma de uma pergunta bem definida. Estamos indo além de toda estrutura de perguntas e respostas [...]. Pensamento do professor e físico teórico PhD estadunidense Geoffrey Chew, extraído da obra Sabedoria incomum: conversa com pessoas notáveis (Cultrix, 1995), do físico e escritor austríaco Fritjof Capra. Veja mais aqui e aqui.

A CORRUPÇÃO DE UM JUIZ – Fosse o Brasil um país sério, e, livros como este, não seriam apresentados em edição, por existir honorabilidade o homem e seriedade no Juiz, função que faz do homem um ser inatacável. Mas, o Brasil que, também, é o país mais sem memória deste mundo, está precisando que mais se escreva assim, para se mostrar que nem tudo é retidão na magistratura brasileira [...]. Trecho da obra A corrupção de um juiz (Patativa, 1998), do controvertido advogado criminalista Gil Teobaldo de Azevedo (1932-2017). Veja mais aqui.

HAROUM – Era uma vez, no país de Alefbey, uma triste cidade, a mais triste das cidades, uma cidade tão arrasadoramente triste que tinha esquecido até o seu próprio nome. Fica va à margem de um mar sombrio, cheio de peixes — peixes queixosos e pesarosos, tão horrí veis de se comer que faziam as pessoas arrotarem de pura melancolia, mesmo quando o céu estava azul. [...] Haroun costumava pensar que seu pai era um malabarista, pois cada história era, na verdade, uma porção de histórias diferentes entremeadas uma na outra, e Rashid as mantinha todas sob controle, numa espécie de rodamoinho estonteante, e nunca se atrapalhava. [...] de onde vinham essas histórias todas? Parecia que bastava a Rashid abrir a boca, com um sorriso rosado e rechonchudo, e lá vinha uma saga novinha em folha, completa, com bruxarias, inte resses amorosos, princesas, tios malvados, tias gordas, gângsteres de bigodinho e calça xadrez amarela, lugares fantásticos, covardes, heróis, batalhas, e meia dúzia de canções cativantes, fáceis de cantar. “Tudo vem de algum lugar”, raciocinava Haroun, “portanto, não é possível que essas histórias sejam feitas assim, só de ar...” [...] Haroun, esforçando-se para ouvir pela janela, resolveu que não gostava do Sr. Sengupta, esse homem que odiava histórias e contadores de histórias; não gostava dele nem um pouquinho mesmo. Pra que servem essas histórias que nem sequer são verdade? [...] “Mas porque você odeia tanto as histórias? As histórias são divertidas...”. O Mestre do Culto responde: “O mundo não é feito para ninguém se divertir. O mundo é para se Controlar”. [...] “Todos os mundos existem para serem Dominados. E dentro de cada história, dentro de cada Fio do Mar de Histórias, existe um mundo, um mundo de histórias, que eu não consigo dominar. Esta é a razão”. [...].Trechos extraídos da obra Haroun e o Mar de Histórias (Companhia das Letras, 1998), do escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie. Veja mais aqui.

TRES POEMAS – Carrego o peso da lua: Carrego o peso da lua, / Três paixões mal curadas, / Um saara de páginas, / Essa infinita madrugada.Viver de noite / Me fez senhor do fogo. / A vocês, eu deixo o sono. / O sonho, não. / Esse, eu mesmo carrego. 2: à noite / fantasmas das coisas não ditas / sombras das coisas não feitas / vêm / pé ante pé / mexer em seus sonhos. 3: Dor elegante / Um homem com uma dor / É muito mais elegante / Caminha assim de lado / Com se chegando atrasado / Chegasse mais adiante / Carrega o peso da dor / Como se portasse medalhas / Uma coroa, um milhão de dólares / Ou coisa que os valha / Ópios, édens, analgésicos / Não me toquem nesse dor / Ela é tudo o que me sobra / Sofrer vai ser a minha última obra. Poemas do poeta, critico literário, tradutor e professor Paulo Leminski (1944-1989). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

ATITUDES SIMPLES, RESULTADOS EXTRAORDINÁRIOS
A psicóloga Lia Helena Giannechini & outros escritores da área de Coaching apresentam o e-book Atitudes Simples Resultados Extraordinários, trazendo ações práticas para resolver os problemas cotidianos e alcançar o sucesso na vida. O livro fala sobre oito áreas para uma existência feliz: Saúde e bem estar, Relacionamento, Financeiro, Profissional, Desenvolvimento pessoal, Espiritualidade e Realizações e propósitos. São artigos que falam de finanças através de personagens, mostrando fraquezas, como o pica-pau que se mete em confusão o tempo todo ou o Popeye que aprende a dar os passos certos para conquistar vitórias, propondo oferecer ferramentas que possibilitem encarar o crescimento como pessoa e profissão, ligando o motor do navio rumo aos sonhos onde quer navegar, além de tratar sobre resiliência, a profundidade do ser e do se portar, potencialidade, espiritualidade, sucesso, relacionamento, sentido da vida, liderança, negociação e administração de conflitos, entre outros assuntos. Veja detalhes aqui.

Veja mais:
Com a perna na vida foi ser feliz como podia, Anastasia Eduardivna Baburova, a música de Rachel Kolly d’Alba, a pintura de Rui Carruço & Alina Percovich aqui.
Cobiça na Crônica de amor por ela, Buda, Miguel de Cervantes y Saavedra, Montesquieu, Magda Tagliaferro, Ciro Alegría, Lucrécio, Charles Robert Leslie, Emerico Imre Toth, Millie Perkins & Jussanam Dejah aqui.
Edgar Allan Poe, Paul Cézanne, Magda Tagliaferro, Jacques Lacan, Nara Leão, Janis Joplin & Miguel Paiva aqui.
As trelas do Doro aqui.
Émile Durkheim, Paul Niebanck, Mauro Cappelletti, Juliette Binoche, Rodolfo Ledel, Samburá, Intrépida Trupe, Micahel Haneke, Ernesto Bertani, Janaína Amado, O direito como linguagem e decisão aqui.
Quando Ciuço Pacaru embarcou no maior revestrés aqui.
Pra vida ofereço a outra face aqui.
Canto paródia de mim aqui.
Candidato faz tudo cara de pau na maior responsa aqui.
Alagoas e o império colonial português aqui.
A viagem de Joan Nieuhof & Pernambuco nos séculos XVI e XVII aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

SEVERINO MANOEL DA SILVA FILHO
Recepcionando o palmarense historiador e servidor público em São Paulo, Severino Manoel da Silva Filho, na Biblioteca Fenelon Barreto, em Palmares (PE).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

sexta-feira, novembro 10, 2017

TRANSTRÖMER, HESSE, RUBEM BRAGA, LEWIS CARROLL, NINON DE LENCLOS. EDUCAÇÃO DE SAVATER, CARLO MOLLINO & CAMOCIM

A SEXTA É O DIA! – Pra José Zé a sexta sempre era o dia! Até sua vida descambar, a sexta sempre foi o seu dia preferido. O sábado não, pois era dia de feira e de afazeres domésticos. Logo cedo pegava as sacolas e se mandava pra feira com os trocados nos bolsos, arengar com feirantes, justando o preço do inhame, pechichando os tomates, especulando pelas cebolas, regateando por tudo, galinhas, cenouras, feijão, arroz, queijo de coalho, bananas, disputando frutas, legumes, raízes e verduras – o preço da carne de boi estava pela hora da morte, de porco muito menos, bode não dava, peixe só se fosse cundunda -, basta, pra quem levou quatro sacolas, voltar com uma e meia de mantimentos, já estava no lucro: foi o que o dinheiro deu mesmo. Em casa todo pavoneado, exibindo as compras como troféu: tem que dar pra semana toda! Aí ia se dedicar aos afazeres domésticos: consertar a descarga do banheiro que vazava por todo lado, o chuveiro que tinha água pela parede e não pingava água no banho, as caqueiras da varanda, o varal despencado, as telhas pras pingueiras, a lavanderia entupida, os rebocos da parede, almoçava a comida misturada a cimento e cal, voltava pros consertos, se danava na faxina, uma lapada da pinga, uma louraça suada lavando tudo, banho meticuloso, jantava aos peidos e arrotos, caía na cama que amanhã é domingo. O domingo também não, era dia de missa logo cedo na matriz, reza pro devotado, atualizar os pedidos de perdão com seus protetores pelos pecados que escapuliram quando nem queria mesmo pecar, a confissão nos pés do padre, a hóstia e calado pra casa pagar as penitências. Depois disso, aboletava-se no sofá que precisava duns ajeitados, mas deixara para o próximo sábado, agora era hora de ver a corrida de Fórmula 1 e sonhar piloto nos circuitos automobilísticos para orgulhar a nação brasileira como Fitipaldi, Piquet e Senna, seus heróis. Com isso, entornar duas lourinhas suadas, ficar todo ancho, comer de tudo sem culpa nem arrependimento, deitar-se na rede e roncar a tarde toda até a hora do futebol na tevê. Nem devia ter assistido, o jogo foi uma droga, seu time de coração perdeu de feio, melhor comer alguma coisa e ir pra cama que amanhã é de branco. A segunda também não, dia de batente e de ficar esperto, todo mundo dava nó em pingo d’água e ele tinha que obrar milagres: do nada arrancar alguma moeda pro sustento. Ao meio dia, a marmita e uma passada rápida no barbeiro: E aí, Ocride, sexta? Sexta está de pé. Já mandou a carta? Ainda estou escrevendo. Inté mais. Inté. A tarde passa num pulo e a gororoba do domingo faz efeito no bucho, desanranjo, cama, amanhã é terça. A terça também não, dia de cumprir a obrigação à noite com a matriz do seu coração: a madame está no quarador só olhando pros pés dele de soslaio. É hoje, mulher! A manhã passava rápido com a ocupação, no almoço o de sempre na marmita, uma passada no Ocride: E sexta, barbeiro? Sexta está marcada, não se atrase. Inté. Inté. A tarde foi-se como num pinote, chegou ao lar, pegou o calção, a bola e gritou pra esposa: É hoje, mulher! Chego já. Depois da pelada no campinho, lá vem ele todo destroçado, banho demorado e correndo pra cama cair na função. Um ajeitado com um beijo estalado, encarca as carnes, abre caminho e manda ver! Ufa! Vira do lado e ronca a madrugada toda. A quarta também não, serviço, almoço, Ocride: Até sexta! Inté. A tarde voa, corre pra casa, liga a tevê pra ver o noticiário, enquanto sonha um dia poder comprar uma tevê a cabo, se contenta com a pé de galinha e os quatro canais disponíveis. Enrola o tempo enquanto o jogo não começa, cutuca a mulher, faz uma boquinha e corre pra ver o apito do juiz. Melhor nem tivesse assistido, perde de novo: Esse time ainda me mata do coração. O pior era a gozação no dia seguinte. A quinta, também não, logo cedo a agonia da véspera, a mangação com o resultado do jogo. Fazia tudo atrapalhado, olhando pro relógio, conferindo o celular pé duro chingling que só liga e recebe, nada mais funciona; o almoço, a passada no barbeiro: É amanhã, Ocride! É, amanhã. Inté. Inté. A tarde logo escurece e depois das voltas na mesa, resolve dormir cedo pra sexta chegar mais depressa. Enfim, a sexta: É hoje! Mais atrapalhado que o dia anterior, nem trabalha direito, pois tudo que faz dará retorno na próxima semana, ah, nem aí, sem ligar pra nada, almoço, barbeiro: É hoje, Ocride! É hoje. Inté. Inté. Olha tanto pro relógio que reclama: Hoje chega sábado, mas não chega sexta de noite. Bate o pé, zanza de lado, dá voltas, arruma o que fazer, juízo não funciona, tudo dele, corpo, alma, pensamento e astucias tudo só no seu desejo. Quase tem um troço de agonia quando vê Ocride vindo ao seu encontro: Vamos? Vamos. Saem juntos, vão pro carteado, leva toque e perde a partida, pouco importa, Ocride pigarreia, olha pro lado, confere tudo e se vira pra ele: Vamos! Seguem juntos. Ao se aproximar ouvem os tambores, Ocride manda que ele aguarde do lado fora e entra no recinto barulhento, mais de hora em pé na porta, esperando, quando aparece de repente aquela morenaça escorreita, assanhada, bem feita, risonha e reboladeira que vai fazer sua vida valer por muitas outras no maior dos chambregos até altas horas da noite. É hoje que vou lavar a égua! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o violonista Turíbio Santos: Violão Sinfônico & Orquestra de Violões; a pianista Magda Tagliaferro com recitais da obra de Heitor Villa Lobos; o violonista Álvaro Henrique com a Suíte Candanga & Villa Lobos; e a pianista Anna Stella Schic com prelúdios & infantis de Villa Lobos. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - O amor é um sentimento tirânico e zeloso, que somente se satisfaz quando a pessoa amada lhe sacrifica todos os seus gostos e todas as suas paixões. Nada se faz, se não se faz tudo. [...] O amor sem desejo é uma ilusão, não existe na natureza. Pensamento da escritora, cortesã e patrona das artes francesa Ninon de Lenclos.

QUE EDUCAÇÃO É ESSA? – [...] A educação está orientada a ensinar-me a reprimir nossos desejos incontrolados. Se você mesmo não o faz, há toda uma legislação destinada a reprimi-lo [...]  educação implica limitação do ser humano como base de uma determinada cultura. Quer dizer, o que a própria cultura considera que pode ser criativo ou não. Tem inicio, então, as decisões ideológicas individuais, que se referem a como lidar com os limites sociais dentro de certa cultura. A educação é, por excelência, a arma da censura. É a forma que a sociedade tem para indicar o que não deve ser feito. A palavra em hebraico para educação é jinuj, que pode implicar educação ou em seu extremo, afogamento, sufoco. [...]. Trecho extraído da obra Os sete pecados capitais (Ediouto, 2006), do escritor e professor catedrático espanhol Fernando Fernández-Savater.

CAMOCIM DE SÃO FÉLIX - Camocim era inicialmente distrito de Bezerros. Depois passou-se a denominar Camocituba por conta do Decreto-Lei estadual 952, de 31 de dezembro de 1943, e município pela Lei municipal 02, de 20 de abril de 1993. A Lei estadual 1818, de 29 de dezembro de 1953, criou o município de Camocim de São Felix, tendo sido instalado em 15 de julho de 1954. Anualmente, no dia 29 de dezembro, o município comemora sua emancipação política. Administrativamente é formado apenas pelo distrito-sede e pelo povoado de Santa Luzia, em conformidade com a Enciclopedia dos Municipios do Interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

CHAGRIN D’AMOUR - [...] Fez uma profunda reverencia e aceitou, vacilante, o alaúde que lhe trouxeram. Enquanto dedilhava agilmente as cordas do instrumento, não tirava os olhos da rainha. Cantou então uma canção de amor que, há anos compusera em sua pátria. Depois de cada sextilha havia um refrão de dois versos simples, que soavam melacolicamente e brotavam do coração magoado do trovador. É esses dois versos, que foram ouvidos nessa noite pela primeira vez, logo se tornaram conhecidos e muito cantados por toda parte. Assim diziam: O prazer do amor dura apenas um momento, / As mágoas de amor duram a vida inteira. [...] Não voltou para o acampamento e caminhou em outra direção, para fora da cidade, noite adentro, decidido a renunciar aos ideais de cavalaria andante e a levar uma vida sem pátria, como trovador. [...] Através dos séculos, nada sobrou senão um punhado de nomes de arrevesada pronuncia e sabor antigo. Mas aqueles versos do jovem cavaleiro e trovador são cantados ainda hoje. Trecho de Chagrin D’Amour, extraído da obra O livro das fábulas (Civilização Brasileira, 1975), do escritor alemão Hermann Hesse (1877 – 1962). Veja mais aqui e aqui.

VOTOS PARA O ANO NOVO – [...] Dizem que o crime não compensa. E a virtude, compensará? Espero que sim; mas talvez só outro mundo. Neste aqui não sei; mas conheço pessoas virtuosas que me parecem tão azedas, tão infelizes, tão entediadas, tão sem graça com a própria virtude que dão vontade da gente dizer: - Está muito bem, nossa amizade, você é formidável. Mas assim também enjpa. Pegue pelo menos uma vezinha, sim? É bom para relaxar. [...] Desejo a todos, no Ano Novo, muitas virtudes e boas ações e alguns pecados agradaveis, excitantes, discretos,e, principalmente, bem sucedidos. Trecho do Votos para o Ano Novo, extraído da obra As coisas boas da vida (Record, 2010), do escritor Rubem Braga (1913-1990). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PRESENTE DE AMOR – Criança da pura fronte sem névoas / e sonhadores olhos de espanto! / Embora o tempo seja veloz / e meia vida separa você e eu / seu adorável sorriso bem certo saudará / o presente de amor de um conto de fadas. Trecho extraído da obra Através do Espelho (Circulo do Livro, 1983), do escritor, desenhista, fotografo e matemático Lewis Carroll (1832-1898). Veja mais aqui.

PÁSSAROS MATINAIS DE TOMAS TRANSTRÖMER
Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.
Poema extraído da obra 50 poemas (Relógio D’Água, 2012), do poeta, psicólogo e tradutor sueco, Prêmio Nobel de 2011, Tomas Tranströmer (1931-2015).

Veja mais:
Outras de José Zé aqui.
A arta do barbeiro Ocride aqui.
A poesia, a filosofia e o teatro de Friedrich Schiller aqui, aqui e aqui.
A poesia de Arthur Rimbaud aqui, aqui e aqui.
A poesia de Georg Trakl aqui e aqui.
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Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotografo, arquiteto e designer Carlo Mollino (1905-1973).
Veja mais aqui.



segunda-feira, outubro 23, 2017

ERNESTO SÁBATO, EDWIGES DE SÁ PEREIRA, MARIA FIRMINA DOS REIS, ADMAURO, LUCIAH, FENELON & PNTANDO NA PRAÇA

PINTANDO NA PRAÇA - Manhã ensolarada de sábado, nuvens em trânsito e chuva passageira para amainar o calor, olhares dispersos, muita conversa, afagos, afetos, telas, sons e solidariedade. Gente de muito tempo aos abraços e apertos de mãos se perdia entre esboços de mãos inquietas na imageninação dos cavaletes. Gente da mais profunda estima, parceiros, amigos, irmãos que são e outros que se achegam entte coqueiros, bancos, flores de outubro, transeuntes que não sei. Gente que nunca vi por ali entre livros de Hermilo, de Ascenso, de outros palmarenses de ontem e de hoje: livros da Biblioteca que é minha e de todos. A praça estava em festa, trânsito de idas e vindas. Ali acontecia o mundo margeado pelo comércio alheio, passos incertos por direções opostas, passando, chegando e indo embora. Gente que ia e vinha, algumas interrogativas com toda movimentação: que droga é nove? Gente curiosa que queria saber o que era aquilo, ugnorando as doidices estranhas de outros doidos que vão além de ver e passar, comprar e vender. Gente do passado ressuscitada, gente que sequer poderia ser gente, gente que veio doutras cidades e até de longe para bulir lindamente no coração, mas gente, muita gente. No anfietatro eu me esgoelava no palco cantando das coisas coração: Pirangi, Martelada, Nina do Ripe, Severina de Acioly, Nunca chore por mim e Desejo. Saudava quem chegava, assistia a tudo, a arte, na verdade, estava da outro lado, bem na minha frente: a arte na plateia. Pincéis, lápis, tintas, espátulas, riscos, brebotes, garatujas, cores, contemplação, paisagens, inspiração, estalos, transpiração. O Sol dava o tom do que fervia na cabeça de pintores, desenhistas, faz de conta e tudo o mais. Linaldo fez festa com um jeito todo seu de cantar e tocar. Depois chamou Marquinhos e fizeram um duo no mormaço da manhã. O que antes indecifrável nos rascunhos das telas, agora tomava corpo: dava pra se ter ideia o que queria dizer cada um dos artistas na moldura da vida. Zé Ripe deu show com coro da plateia e aplausos muitos: coisas da terra e de poesia que nem devia mais sair mais do palco. Pintou-se o sete e o escambau por toda a manhã pra mais de meio dia, coisas e ideais: a vida pintou na praça e a gente passou a viver mais. Parabéns Paulo Profeta. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Vital Farias: Sagas brasileiras, Taperoá & solo; da pianista Magda Tagliaferro (1893-1986): Rosa Amarela, Saudade das selvas brasileiras & Impressões seresteiras, todas de Heitor Villa-Lobos; do pianista Rogerio Tutti: Sonata ao luar do sertão, Deep in your soul & Libertango de Astor Piazzolla; da cantora Mônica Salmaso: Voadeira, Iaiá & Noites de gala, samba na rua. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] romance é algo mais que uma sucessão de aventuras: é o testeminho trágico de um artista diante do qual ruiiram os valores seguros de uma comundiade sagrada. [...] pavoroso processo de desmistificação do mundo [...] Os homens escrevem ficções porque estão encarnados, porque são imperfeitos. Um Deus não escreve romances. Trechos extraídos da obra O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras, 2003), do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui e aqui.
 Poema do dramaturgo, advogado, professor e poeta palmarense Fenelon Barreto, em placa na Praça Paulo Paranhos – Palmares - PE. Veja mais aqui e aqui.

DE SENTIR & VIVER - [...] – Que ventura! = então disse ele, erguendo as mãos ao céu – que ventura podê-lo salvar! O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco anos,e que na franca expressão de sua fisionomia, deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano refervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que herdara de seus pais, e que o nosso clima e a servidão não puderam resfriar, embalde – dissemos – se revoltava; porque se lhe erguia como barreira – o poder do forte contra o fraco!... Ele entanto resignava-se; e se uma lágrima desesperação lhe arrancava, escondia-a no fundo de sua miséria. [...]. Trecho extraído da obra Úrsula (Presença/INL, 1988), da escritora Maria Firmina dos Reis (1825-1917), considerada a primeira romancista brasileira.


Coqueiros no céu de Palmares: Praça Paulo Paranhos, Palmares – PE.

MULHER
De ser não sei, na seriação dos seres,
Que mais preocupa e que se estuda tanto:
Alma, razão de agir, paixões, misteres,
A essência do teu riso e do teu pranto!
Magos, poetas, filósofos, no entanto,
Mergulhando-as na orgia dos prazeres,
Ou elevando nas palmas como a um santo,
- Controversos que são quanto às mulheres!
Dessas vacilações, desses enganos
Surge o dogma, imutável, transcendente
Que ao homem sagra “senhor” entre os humanos...
E o dono, e chefe, e rei – por que padeces,
Ó forte, ó sábio, e vives tão somente
Na razão desse mal que mal conheces?!
Poema extraído da obra Horas inúteis (Imprensa Oficial, 1960), da educadora, jornalista, poeta e ativista feminina Edwiges de Sá Pereira (1884-1958).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

A poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez, participando do evento Pintando na Praça – Palmares – PE. Veja mais aqui & aqui.

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ADMMAURO GOMMES
Recepcionando o poeta e professor Admmauro Gommes na exposição do projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto, Palmares – PE. Veja mais aqui.
 

segunda-feira, julho 10, 2017

VILLA-LOBOS, MAFFESOLI, TURÍBIO SANTOS, MAGRITTE, MAGDA TAGLIAFERRO, EVELYN BENCICOVA, ÁLVARO HENRIQUE, ANNA STELLA SCHIC & CURTA DE FLÁVIO LEANDRO

SOBREVIVENDO À NOSSA BARBÁRIE - Imagem: La condition humaine, do pintor do Surrealismo belga René Magritte (1898-1967). - É com frequência aqui, ali ou acolá, alguém indagar que tempo é este! Esse questionamento invariavelmente surge diante de situações catastróficas, paradoxais ou de extrema violência. Há um amontoado de respostas imediatas, preponderando o dito dos fervorosos religiosos com a afirmação simplista de que é o fim do mundo! E o eco escatológico é reproduzido de forma alarmista como que prevendo a nossa desgraça iminente. Não obstante, é palpável a constatação de que algo está mesmo fora da ordem, como também é quase unânime a grita protestando contra a tragédia, quando pouco ou quase nada se tem feito para mudar esse quadro, encontrando-se até resistências irredutíveis que são mantidas para que nada saia do controle e do previsível. Cada qual seu sectarismo, contradições explícitas se avolumam. Há quem diga que seja a aguda ampliação do fosso entre pouquíssimos privilegiados e a esmagadora maioria escanteada pela exclusão, criando o descompasso que leva ao ápice do que Freud atribuiu ser o conflito entre o princípio do prazer e o princípio de realidade. Bem, opiniões à parte, é inegável que contemplando o passado, a condição de vida melhorou no planeta, malgrado os problemas ambientais crescentes. Entretanto, se a qualidade de vida melhorou, não quer dizer que o ser humano tenha evoluído, o que há de gente ofendida e infeliz gratuitamente distribuindo maledicências nas suas exasperadas expressões, quando não socos e pontapés para rechaçar o oponente ou impor seu poder, não desdiz em nada o desequilíbrio. É flagrante a cotidiana situação de sentimentos feridos, golpes duros do ódio e da indiferença, a feroz competição, na qual a ignorância e emoções indisciplinadas ditam o curso sob pisoteados, configurando o tanto de pequenez danosa e mesquinharia dolorosa caracterizadas pela fúria do hedonismo descartável, do consumo de simulacros, das ameaças e pontos de ruptura entre uns e outros. De um simples aceno ou choque inadvertido, a geração de conflitos e rotas de colisão que comprovam uma carga de negatividade sem precedentes. Aliás, desajustes são visíveis desde que o ser humano começou a intervir na Natureza para o seu sustento e prosperidade há milênios, quando então surgiram maniqueísmos que simularam impérios, discórdias territoriais e religiosas, agressões, consensos e dissensos conforme os interesses de uns em detrimento de muitos, senão todos; imposições e totalitarismos atravessaram eras, a ponto de cada um se ver hoje sob tensões que se revelam tanto por temores crônicos oriundos da insegurança, do medo, da vulnerabilidade; como por terrores incontroláveis nascidos da ambição do umbigocentrismo, do conluio por poder e da necessidade de supremacia sobre o outro: a barbárie da pós-modernidade. Com isso, torna-se visível a condição de sem saída, potencializando o pânico. Diante de situação grave, pungente e funesta tal como a que se vive hoje em dia nas casas com seus altos muros e janelas e portas gradeadas, da atenção redobrada nas saídas pros afazeres diários, da desconfiança generalizada, pergunta-se o que se há de fazer a não ser levar a vida como der ou puder. Pois é, ao centralizar tudo no umbigo, nada mais resta que a solidão e o abandono: não há como firmar bases sólidas nas pressas dos modismos, quando vai ver tudo passou, ficou só lixo pro terreno baldio ou pra debaixo dos tapetes – o que dá no mesmo: o que se esconde, reaparece; o que bota de lado, volta ao ponto de partida. A terra é redonda ou quase; tudo que vai, volta. Pra mim, o que nos resta é enfrentar com discernimento e compreensão, viver e ver as coisas lindas que estão visinvisíveis. E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A BARBÁRIE HUMANA DE MAFFESOLI
As tribos pós-modernas fazem parte, agora, nos dias atuais, da paisagem urbana. Isso, após terem sido objeto de uma conspiração silenciosa das mais estritas – quanta tinta elas fizeram correr! Tudo de uma vez, para relativizá-las, marginalizá-las, invalidá-las depois de denegri-las. Coloquemos uma questão simples. Essas tribos, não são elas a expressão da figura do bárbaro que, regularmente, retorna a fim de fecundar um corpo social, um pouco debilitado? O que há de certo é quando uma forma do laço social se satura e que uma outra (re)nasce – isso se faz, sempre, com temor e vacilação. É o que faz com que certas boas almas se choquem por essa renascença, porque ela desloca um pouco a moral estabelecida. Do mesmo modo, certas belas almas podem se ofuscar, pois essas tribos não fazem senão privilegiar a primazia do Político. [...] Da minha parte, de diversas maneiras, analisei a centralidade subterrânea, a socialidade obscura e outras metáforas, pontuando a retirada do povo sobre seu Aventino. Orfandade da tradição mística, retornando, subrepticiamente, ao gosto do dia! Um tal tecido repregueado é frequente nas histórias humanas. E ele é sempre o indicador de uma demanda de reconhecimento. Contra o patriciado romano, o povo se refere a seus direitos. Isso se dá igualmente em nossos dias. E a demanda implícita, silenciosa, que tem dificuldade em se formular, necessita que se saiba fazer uma espécie de geologia da vida social. E, na maneira de ser, uma pesquisa das estruturas heterogêneas que a constituem. Mas fiquemos nesta ambivalência. Esta bipolaridade entre isto que é retraído e o que se mostra. Ainda mais hermético que em evidência. Salvemo-nos aqui do comentário que fez Lacan do conto de Edgar Poe, “a carta roubada”. É porque ela está aqui, sob o manto da chaminé que o comissário que está à sua procura não a vê. E como em eco, ouçamos o conselho de Gaston Bachelard: “não há ciência fora do obscuro”. Dizendo com clareza esse escondido nos arruína os olhos. E por pouco que se tome seriamente a teatralidade dos fenômenos, este theatrum mundi, de antiga memória, se saberá aí ver os novos modos de vida em gestação. Para além de nossas certezas e convicções: políticas, filosóficas, religiosas, científicas, convém se por em acordo simplesmente, humanamente, ao que se dá a ver. Procurar o essencial no inaparente das aparências. Estas da vida cotidiana. Estas desses prazeres miúdos e de pouca importância, constituindo o humano onde cresce o estar-junto. Não será isso a cultura? “Os aspectos os mais importantes para nós estão escondidos por causa de sua banalidade e de sua simplicidade” (Wittgenstein). Talvez a partir de um tal principio de incerteza se será capaz de fazer um bom prognóstico. Quer dizer, ter a intuição dos fenômenos, esta visão do interior, fazendo tanta falta à paranóia tão frequente nas elites. A partir do olhar penetrante nos será permitido ver o núcleo fatíco das coisas. Fatídico, porque nos falta ser mestres. Isso vem de bem longe, e não se deixa dominar pela pequena razão instrumental peculiar à modernidade. Núcleo arquetípico, no qual é importante localizar a fecundidade.
Trechos do artigo A barbárie em face do humano: as tribos pós-modernas (Z Cultural, 2015), do sociólogo francês Michel Maffesoli. Veja mais aqui & aqui.

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A CONDIÇÃO HUMANA DE FLÁVIO LEANDRO
O curta metragem de animação A condição humana (2006), dirigido por Flávio Leandro, conta a história de um artista de rua entretendo transeuntes nas praças publicas do centro do Rio de Janeiro, para levar o pão de cada dia para a mulher e o casal de filhos. Em sua atuação de rua, o artista mambembe se questiona se deve ou não continuar a fazer esse tipo de trabalho. No dia do aniversário do casamento o destino lhe reserva uma surpresa.

RÁDIO TATARITARITATÁ: RECITAL VIOLÃO & PIANO
Hoje é dia de especial com o violonista Turíbio Santos Violão Sinfônico & Orquestra de Violões, a pianista Magda Tagliaferro com recitais da obra de Heitor Villa Lobos; o violonista Álvaro Henrique com a Suíte Candanga & Villa Lobos; e a pianista Anna Stella Schic com prelúdios & infantis de Villa Lobos. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Ecce Homo, projeto da artista e fotógrafa alemã Evelyn Bencicova. 
Veja mais aqui, aqui & aqui. 

ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...