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sexta-feira, janeiro 19, 2018

BOOTSTRAP DE CHEW, LEMINSKI, SALMAN RUSHDIE,MAGDA TAGLIAFERRO, TURÍBIO SANTOS, VILMA CACCURI, LEWIS THOMAS, COACHING, SEVERINO, GIL & JUIZ.

A VIDA E A SORTE POR DOIS TOSTÕES - Imagem: arte da artista plástica e professora Vilma Caccuri. - A vida segue e tudo passa por um fio. Fé em Deus, pé no mundo. Dois tostões, apenas: um pra ida, outro pra volta. Mais nada. Em frente. Pra onde? Trapos todos, restinho de sobra à beira do precipício. Pra onde mesmo? Sei lá, seja o que Deus quiser. O centro é longe, bote lonjura nisso. Tenho de ir. Como? Vou. A ida, já era, só conta agora com o da volta. E foi: gente como a praga, pra lá e pra cá, vitrines, esbarrões, buzinadas, tá cego, é? Ah, meu, olha por onde anda! Pra lá ou pra cá, tanto faz. Na sorte: prali! Direção da venta. Um pé na frente, outro atrás, contando casa, passadas. Anda que só a má notícia. Volta. Não, melhor retornar. Pra onde é que eu vou, hem? Dobra esquina, apruma meio feio, uma topada, um safanão, na corda bamba, escorrega, mas não cai, se ajeite, vai e agora? Deu numa praça, ah, inda bem, um banco, melhor sentar pra aprumar as ideias. Sal na moleira, cheio de nó pelas costas. A existência toda revista, o que fez e o que deixou de fazer, os erros muitos, acertos, ah, isso é outra coisa, o que fazer agora é que é outra coisa, de mesmo não sabe, só que vai acertar em cheio, ah, se vai, tudo vai dar certo, não fosse um bêbado aparecer, atrapalhar tudo, sentar do lado e começar a falar num idioma estranhíssimo, coisa sem coisa, blábláblá, ih, só faltava essa, e tome lero de conversa oca, entendia nada, miolo de pote, até que passou uma bêbada com charminho provocante, dois ou três laralá e ele foi atrás, graças a Deus, agora podia retomar seus pensamentos e endireitar as ideias roubadas pelo intruso, ah, esqueceu um jornal amassado no banco, peguei, folheei, notícias, manchetes, fatos e páginas, ah, os classificados, deixe ver, hum, precisam disso, nada, aquilo, nada, mais isto, nada, vira a página, ah, tem vagas para isso, precisa-se de quê mesmo? Ah, vou nesse. Ei, moço, onde fica isso? Ei, sabe onde é isso aqui? Um, dois, quinze, vinte, muitos e uma alma perdida para, olha, pensa, imagina e diz: Tá de carro? Não. Vai de ônibus? Não posso, só tenho a volta, nada mais. Sabe onde é o fim do mundo? Sei, onde eu moro. É mais longe. Mesmo? Você pega ali, dobra acolá, depois pra direita, em frente, pega a esquerda, daqui mais ou menos umas duas horas indo reto, você chega lá. Duas horas? Sim, mais ou menos, talvez três. Eu vou. Obrigado. E foi mesmo. Léguas pra quem não sabe pronde ir é muito mais longe, a dobra de um beiço: ali. Andou, bote pé gastando solado, um dia chega. E tome chão. Meio dia em ponto, é ali, pronto, chegou, mais de duas horas e meia de caminhada, Sol na testa, o corpo lavado. Moça, é aqui que é aqui? É. Como faço? Tem hora marcada? Não. Trouxe currículo? Não. O que veio fazer aqui? Pelo anúncio. Tá, me dê os documentos dessa lista. Não trouxe. Volte amanhã. Não posso. Ah, meu senhor, assim não posso fazer nada. O senhor está vendo essa tuia de gente todinha aí sentada e aqueles todos lá fora em pé? Estou. É a fila que vai ser atendida. Eu topo. Topa o quê? Ir pra fila. Mas todos estão já agendados, com documentos acertados e prontos para serem testados. Estou pronto. O senhor não trouxe nada. Olhe eu aqui, estou pronto? Ah, meu senhor... Pelo amor de Deus, moça, me deixe ir pro final da fila, eu espero. Ah, vai lá, te vira! Obrigado. Fim da fila, trocentos na frente, 1, 2, 3, melhor não contar, deixa o barco correr, um dia chega a minha vez. Um por um, a vida toda, o primário, o ginasial, a merda que fez, o casório, as broncas, os negócios atrapalhados, o fim da picada, pegar o bonde, apostar o que tinha e o que não tinha, fé em Deus, pé na vida, e a tarde toda indo embora, lá pras tantas, chegou sua vez, a psicóloga: Cadê seu currículo? Não trouxe. Documentos da lista, não tenho, o que veio fazer aqui? Pelo anúncio. Tá, o que você sabe fazer disso aí, aprendi na escola. Experiência? Nenhuma. Tá. Pode ir. E o emprego? Vamos avaliar e a gente entra em contato. Mas sem anotar nada meu? A gente lhe encontra. Como? A gente usa o satélite, gravei sua cara e a gente lhe encontra e avisa o resultado. Mas dona psicóloga... o próximo... sou o último. Então, passe bem e até. Saiu e teve de sair, também. E agora? Já na rua, parou na calçada, a volta pronta no bolso, uma mão na frente e outra atrás. Futuro nenhum, desculpa nenhuma. O que vou dizer em casa? Oxe! Vou nada. Voltou, chegou à secretária: O senhor de novo? Minha senhora, por favor, deixe eu falar com o chefe! Você foi pra psicóloga? Fui. E ela não disse quando voltar? Disse. Então, atenda. Não, por favor, deixe eu falar com o chefe, é só uma pergunta e não lhe importuno mais. Eu tenho o que fazer. Eu sei, é só uma pergunta, não importuno mais, não posso, pelo amor de Deus, uma só, só essa vez, não posso, pelo amor dos seus pais, filhos, parentes ou aderentes que a senhora tiver, não posso, só dessa vez, mais nunca, só dessa, que peitica, é só dessa vez, por favor, tá. E discou: ã-ram, sim, hum, certo, sim, não, ok. Desligou e virou-se pra ele: ele virá. Aguarde. Chá de cadeira. Um tempo depois e bote tempo, um senhor de idade finalmente apareceu, tranquilamente: Quem quer falar comigo? Ele olhou pra recepcionista e perguntou: É ele? É. Sou eu. Pois não. Sabe, meu senhor, eu cheguei por esse anúncio, sou do Nordeste e estou em São Paulo sem saber o que fazer da vida e blábláblá. Tá. O que você sabe fazer? Bem, o que sei aprendi na escola. Tem experiência? Não. O senhor sabe que muitos foram testados, uma fila enorme, todos dispensados, não serviam. Sei, eu era o último da fila. E aí? Estou aqui. Â-rã! E o que você quer? O emprego. E não sabe nada, nem tem experiência. Sim. Venha cá, como é mesmo seu nome? Severino. Ah, tá, vamos tomar um cafezinho. Agora mesmo. Foram pra lanchonete do lado, sentaram numa mesa, o senhor de branco pediu dois cafezinhos, olhou pra ele: Como é mesmo seu nome? Severino. Ah, mais um dos de João Cabral. Hem? Nada. Vá, me conte a sua história. Ah, tá, eu sou e blábláblá, mais dois cafezinhos e blábláblá, o senhor com a maior paciência, ouviu tudo, rosário debulhado, vida toda contada, situações toda mostrada e ele com a maior paciência disse: Fui com a sua cara. Vamos ali. Braço sobre os ombros do solicitante, seguiram por um corredor, dois, três, dobraram, contornaram, retomaram, seguiram e chegaram a um local depois de passar por onde Judas perdeu as botas e o diabo esqueceu de voltar, no qual outras dúzias de pessoas estavam todas ocupadas, quando o senhor de idade disse: Atenção todos! Este aqui é Severino, não sabe nada, não tem experiência e quer trabalhar! O emprego é dele, ensinem a ele o que fazer! E virou-se pro Severino: Bem, são 18:30hs, pode ficar até às 20 horas? Ajoelhou-se, ergueu as mãos pros céus e disse: Posso, o senhor manda. Ficou até às 23 horas. Até amanhã. Usou a volta, contou as novas, ninguém acreditou. Às 6 da matina, embecou-se, pegou o dinheiro emprestado que lhe deram os parentes, pegou a condução e foi trabalhar. Até hoje e a sensação de que Deus e também pessoas boas ainda existem nesse mundão arrevirado e de porteira escancarada. Eita, bicho cagado de sorte! É a vida e vale mais que dois tostões, hem? (Homenagem do Severino pro doutor Biaggio Rivellino). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o violonista Turíbio Santos Violão Sinfônico & Orquestra de Violões, a pianista Magda Tagliaferro com recitais da obra de Heitor Villa Lobos; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Dentre todas as criaturas existentes na Terra, somos, talvez, o único animal que sente preocupação. Passamos a vida temendo o futuro, descontentes com o presente, incapazes de aceitar a morte, incapazes de descansar. Pensamento do médico, poeta, etimologista, ensaista, administrador, educador, conselheiro de política, e investigador estadunidense Lewis Thomas (1913-1993).

BOOTSTRAP: FILOSOFIA DE REDE – [...] dada a longa tradição da ciência ocidental, a concepção bootstrap ainda não goza de boa reputação entre os cientistas, não sendoreconhecida como ciência precisamente por sua falta de uma base firme. Toda a ideia de ciência, num certo sentido, está em conflito com a abordagem bootstrap, pois a ciência quer perguntas expressas com clareza e que possam ter uma verificação experimental isenta de ambighuidades. Faz parte da concepção bootstrap, no entanto, que nenhum conceito seja considerado absolito, havendo sempre a expectativa de eencontrarmos falhas nos conceitos antigos. Estamos a todo instante rebaixando ou desacreditando conceitos que no passado recente teriam sido considerado fundamentais e usados como linguagem para a formulação de perguntas. [...] quando formulamos uma pergunta, estamos aceitando conceitos básicos para podermos formulá-la. No entanto, na abordagem bootstrap, em que o sistema todo representa uma rede de relações sem nenhum fundamento firme, a descriçãode akgo pode começar numa enorme variedade de pontos diferentes. Não há ponto de partida claro e definido. E da maneira como nossa teoria vem se desenvolvendo nesses últimos anos, é muito comum nãos abermos quais perguntas fazer. Orientamo-nos pela consistência do sistema; cada aumento dessa consistência sugere algho que ainda está incompleto, embora isso raramente assuma a forma de uma pergunta bem definida. Estamos indo além de toda estrutura de perguntas e respostas [...]. Pensamento do professor e físico teórico PhD estadunidense Geoffrey Chew, extraído da obra Sabedoria incomum: conversa com pessoas notáveis (Cultrix, 1995), do físico e escritor austríaco Fritjof Capra. Veja mais aqui e aqui.

A CORRUPÇÃO DE UM JUIZ – Fosse o Brasil um país sério, e, livros como este, não seriam apresentados em edição, por existir honorabilidade o homem e seriedade no Juiz, função que faz do homem um ser inatacável. Mas, o Brasil que, também, é o país mais sem memória deste mundo, está precisando que mais se escreva assim, para se mostrar que nem tudo é retidão na magistratura brasileira [...]. Trecho da obra A corrupção de um juiz (Patativa, 1998), do controvertido advogado criminalista Gil Teobaldo de Azevedo (1932-2017). Veja mais aqui.

HAROUM – Era uma vez, no país de Alefbey, uma triste cidade, a mais triste das cidades, uma cidade tão arrasadoramente triste que tinha esquecido até o seu próprio nome. Fica va à margem de um mar sombrio, cheio de peixes — peixes queixosos e pesarosos, tão horrí veis de se comer que faziam as pessoas arrotarem de pura melancolia, mesmo quando o céu estava azul. [...] Haroun costumava pensar que seu pai era um malabarista, pois cada história era, na verdade, uma porção de histórias diferentes entremeadas uma na outra, e Rashid as mantinha todas sob controle, numa espécie de rodamoinho estonteante, e nunca se atrapalhava. [...] de onde vinham essas histórias todas? Parecia que bastava a Rashid abrir a boca, com um sorriso rosado e rechonchudo, e lá vinha uma saga novinha em folha, completa, com bruxarias, inte resses amorosos, princesas, tios malvados, tias gordas, gângsteres de bigodinho e calça xadrez amarela, lugares fantásticos, covardes, heróis, batalhas, e meia dúzia de canções cativantes, fáceis de cantar. “Tudo vem de algum lugar”, raciocinava Haroun, “portanto, não é possível que essas histórias sejam feitas assim, só de ar...” [...] Haroun, esforçando-se para ouvir pela janela, resolveu que não gostava do Sr. Sengupta, esse homem que odiava histórias e contadores de histórias; não gostava dele nem um pouquinho mesmo. Pra que servem essas histórias que nem sequer são verdade? [...] “Mas porque você odeia tanto as histórias? As histórias são divertidas...”. O Mestre do Culto responde: “O mundo não é feito para ninguém se divertir. O mundo é para se Controlar”. [...] “Todos os mundos existem para serem Dominados. E dentro de cada história, dentro de cada Fio do Mar de Histórias, existe um mundo, um mundo de histórias, que eu não consigo dominar. Esta é a razão”. [...].Trechos extraídos da obra Haroun e o Mar de Histórias (Companhia das Letras, 1998), do escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie. Veja mais aqui.

TRES POEMAS – Carrego o peso da lua: Carrego o peso da lua, / Três paixões mal curadas, / Um saara de páginas, / Essa infinita madrugada.Viver de noite / Me fez senhor do fogo. / A vocês, eu deixo o sono. / O sonho, não. / Esse, eu mesmo carrego. 2: à noite / fantasmas das coisas não ditas / sombras das coisas não feitas / vêm / pé ante pé / mexer em seus sonhos. 3: Dor elegante / Um homem com uma dor / É muito mais elegante / Caminha assim de lado / Com se chegando atrasado / Chegasse mais adiante / Carrega o peso da dor / Como se portasse medalhas / Uma coroa, um milhão de dólares / Ou coisa que os valha / Ópios, édens, analgésicos / Não me toquem nesse dor / Ela é tudo o que me sobra / Sofrer vai ser a minha última obra. Poemas do poeta, critico literário, tradutor e professor Paulo Leminski (1944-1989). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

ATITUDES SIMPLES, RESULTADOS EXTRAORDINÁRIOS
A psicóloga Lia Helena Giannechini & outros escritores da área de Coaching apresentam o e-book Atitudes Simples Resultados Extraordinários, trazendo ações práticas para resolver os problemas cotidianos e alcançar o sucesso na vida. O livro fala sobre oito áreas para uma existência feliz: Saúde e bem estar, Relacionamento, Financeiro, Profissional, Desenvolvimento pessoal, Espiritualidade e Realizações e propósitos. São artigos que falam de finanças através de personagens, mostrando fraquezas, como o pica-pau que se mete em confusão o tempo todo ou o Popeye que aprende a dar os passos certos para conquistar vitórias, propondo oferecer ferramentas que possibilitem encarar o crescimento como pessoa e profissão, ligando o motor do navio rumo aos sonhos onde quer navegar, além de tratar sobre resiliência, a profundidade do ser e do se portar, potencialidade, espiritualidade, sucesso, relacionamento, sentido da vida, liderança, negociação e administração de conflitos, entre outros assuntos. Veja detalhes aqui.

Veja mais:
Com a perna na vida foi ser feliz como podia, Anastasia Eduardivna Baburova, a música de Rachel Kolly d’Alba, a pintura de Rui Carruço & Alina Percovich aqui.
Cobiça na Crônica de amor por ela, Buda, Miguel de Cervantes y Saavedra, Montesquieu, Magda Tagliaferro, Ciro Alegría, Lucrécio, Charles Robert Leslie, Emerico Imre Toth, Millie Perkins & Jussanam Dejah aqui.
Edgar Allan Poe, Paul Cézanne, Magda Tagliaferro, Jacques Lacan, Nara Leão, Janis Joplin & Miguel Paiva aqui.
As trelas do Doro aqui.
Émile Durkheim, Paul Niebanck, Mauro Cappelletti, Juliette Binoche, Rodolfo Ledel, Samburá, Intrépida Trupe, Micahel Haneke, Ernesto Bertani, Janaína Amado, O direito como linguagem e decisão aqui.
Quando Ciuço Pacaru embarcou no maior revestrés aqui.
Pra vida ofereço a outra face aqui.
Canto paródia de mim aqui.
Candidato faz tudo cara de pau na maior responsa aqui.
Alagoas e o império colonial português aqui.
A viagem de Joan Nieuhof & Pernambuco nos séculos XVI e XVII aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

SEVERINO MANOEL DA SILVA FILHO
Recepcionando o palmarense historiador e servidor público em São Paulo, Severino Manoel da Silva Filho, na Biblioteca Fenelon Barreto, em Palmares (PE).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

terça-feira, janeiro 26, 2016

A MULHER NA ROMA ANTIGA, FAULKNER, SHORT, HUGO, SAFFIOTI, DU PRE, PALMA, HELENA GIANNECHINI, LENITA ESTRELA & MUITO MAIS!!!!!

TODO DIA É DIA DA MULHER: A MULHER NA ROMA ANTIGA – Com base na revisão da literatura efetuada, encontrou-se que na Roma antiga, as influencias etruscas, gregas e cartaginesas permearam a moralidade objetiva que se voltava exclusivamente para a dedicação integral desse povo para a terra e a família, o que não diferenciava, porém, de outros povos, nas condições em que as esposas e filhos constituíam o bem dos homens, quando a grande maioria das mulheres pretendia viver no casulo familiar, sob as formas do casamento que se efetivava sob três formas: conferratio, coemptio e usus. O primeiro modelo, conferratio, conferia um casamento com todo aparato cerimonioso para a construção de uma união indissolúvel entre os nubentes. No segundo modelo, ocorria a compra da noiva, ou seja, tanto no conferratio como no coemptio, a noiva saía da posse do pai com todos os seus bens e dotes para ser, a partir de então, posse do marido. Já a terceira modelagem, usus, seria um tipo de experiência entre o casal, mantendo-se a esposa pertencente à família dela e, só depois de decorrido um prazo experimental, é que passava a pertencer legal e totalmente ao marido. Entretanto, a mulher romana nesse período além de cuidar dos filhos e manter a família, deveria, também, ter papel ativo nos negócios familiares, adquirindo, por isso, uma consciência mais ampla sobre o seu papel na sociedade, vigiadas e monitoradas pelo conselho de família. Para se ter ideia, foi editada nessa época a lei oppiana que limitava os gastos das mulheres com brincos pulseiras e carruagens, visando reprimir as suas extravagâncias. Como havia constantemente guerras, elas se sujeitaram; todavia, depois da guerra, elas protestaram ruidosa e persistentemente contra o que diziam delas: teimosas e descontroladas. Cabiam aos maridos domá-las. Anos depois é que a lei foi derrubada. E mesmo que elas gozassem de uma ampla liberdade, só o podiam desde que não fizessem nada de construtivo: só gastar dinheiro, embelezar-se para os amantes, adotar religiosidade ou processar divórcio. Ou como dizia Sêneca: elas são mestras na arte laboriosa de fazer nada, vez que administravam o espelho, as criadas e os potes de cosméticos, trabalhando em pentear os cabelos ou colocar/retirar os cremes faciais ou cabelos importados da Índia para seus penteados pela ornatrix, suas joias e liteiras. O símbolo cultuado era Vesta, a deusa guardiã da lareira e do lar. As vestais eram arregimentadas com nove ou dez anos de idade, garantida a virgindade, com a promessa de mantê-la por mais trinta anos, passando os seus bens para o Estado. Houvesse qualquer derrota nas guerras ou prejuízos nos negócios do Estado, as vestais eram culpadas e condenadas porque, com certeza, haviam perdido a virgindade antes do trato. No panteão das deusas, o culto romano à Vênus, deusa da agricultura e das prostitutas que frequentavam o Circus Maximus na busca por homens excitados pelos jogos, dos bordéis ou do acampamento da Guarda Pretoriana, incluía, também, as mulheres casadas que adoravam a deusa no dia primeiro de abril de cada ano, enquanto as prostitutas no dia vinte e três de abril.  Há registro também de participação das mulheres nos ritos báquicos, como cultuando outras deusas estrangeiras que também se fizeram presentes na cultura feminina romana. Entre essas deidades estava Cibele, por conta da profecia dos Livros Sibilinos, dando conta de que Roma só se salvaria da guerra com a Grande Deusa, a Magma Mater, passando a ter uma cerimonia cuidada por sacerdotes eunucos que usavam estranhas roupagens orientais e desfilavam ao som da música de címbalos e pandeiros, flautas e cornetas. Seguiu-se o culto à deusa Ísis, uma das favoritas das mulheres romanas, até o dia que uma jovem e crédula matrona, Paulina, acreditando ter passado a noite em sagrado intercurso com o deus Anubis no templo de Ísis, descobriu que na verdade fora seduzida por um dos admiradores, resultando com a descoberta da verdade, na crucificação dos sacerdotes e a deportação de adoradores para a Sardenha. A prática do divórcio entre as romanas se dava por conta de maridos que causavam tédio às suas esposas, comprovando a difícil convivência entre eles naquela época. Exemplo disso é a conduta de Lívia que era casada com um político e que, ao se divorciar dele, casou-se com o irmão depois de uma briga entre eles. Augusto sobrinho e filho adotivo de César, divorciou da esposa Scribônia por perversidade moral sob a alegação de ela se antipatizara com uma das suas amantes, casando-se posteriormente com a adolescente e já grávida de seis meses, Lívia Drusila. Foi o imperador Augusto que introduziu penas severas contra a ofensa do adultério e, sempre, aplicadas às mulheres, com banimento, despojada dos bens que possuísse e se tornando uma ofensa criminal. Entre as mulheres de forte temperamento, registram-se os nomes de Sempronia que se envolveu na conspiração Catilina; a bela, educada e fiel Cornélia, esposa de Pompeu, e Lívia a consorte de Augusto que ajudou a estabilizar uma nova ordem. Enfim, os romanos não se importavam com o que as suas esposas fizessem, contanto que não os perturbassem. Nesse época as práticas contraceptivas utilizadas pelas mulheres envolviam resina de cedro, opobálsamo e gálbano, no hético intervalo entre o primeiro beijo e a consumação final. Como esses produtos eram bastante caros, essas práticas fracassavam e as mulheres inevitavelmente engravidavam, recorrendo à prática de aborto com poções nauseantes e contorções físicas recomendadas pelos médicos de então. Por conta disso, atribui-se aos romanos o invento do condom, usando bexigas de cabra para tal finalidade. (Luiz Alberto Machado).

Veja mais:

PICADINHO
Imagem: a arte da artista plástica britânica Carmen Tyrrel.


Curtindo o dvd A Celebration of Her Unique Enduring Gift (2007), da violoncelista britânica Jacqueline Du Pre (1945-1987).

EPÍGRAFE – Per angustia ad augusta, frase recolhida da cena do quarto ato do drama Hernani (1830), do escritor, dramaturgo e ativista dos direitos humanos francês, Victor Hugo (1802-1885), de uma frase latina que era baseada num jogo de palavras que significa por estreitos caminhos rumo às culminâncias. Veja aqui.

A MULHER, O PATRIARCADO E A ESCRAVIDÃO – No livro A mulher na sociedade de classes: mito e realidade (Quatro Artes, 1969), da socióloga, professora e militante feminista Helena Iara Bongiovani Saffioti (1934-2010), encontro que: [...] Historicamente, nas antigas guerras do patriarcado e do racismo, os vencedores, em suas conquistas no sistema dominação-exploração, as mulheres dos vencidos eram transformadas em parceiras sexuais de guerreiros vitoriosos ou por estes violentadas. Anda na época atual isto ocorre. Quando um país é ocupado militarmente por tropas de outra nação, os soldados servem-se sexualmente de mulher do que povo que combatem. [...] Na gênese do escravismo constava um tratamento distinto dispensado a homens e a mulheres. Eis por que o racismo, base do escravismo, independentemente das características físicas ou culturais do povo conquistado, nasceu no mesmo momento histórico em que nasceu o sexismo. [...] As mulheres eram preservadas, pois serviam a três propósitos: constituíam força de trabalho, importante fator de produção em sociedades sem tecnologias ou possuidoras de tecnologias rudimentares; eram reprodutoras desta força de trabalho, assegurando a continuidade da produção e da própria sociedade; prestavam (cediam) serviços sexuais aos homens do povo vitorioso. Aí estão as raízes do sexismo, ou seja, tão velho quanto o racismo. Veja mais aqui.

UMA ROSA PARA EMILY – No conto Uma rosa para Emily (Cultrix, 1962), do escritor estadunidense e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1949, William Faulkner (1897-1962), destaco os trechos: Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro. Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870 [...] A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. [...] Viva, Miss Emily fora uma tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que a Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as ideias do Corornel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado. [...]. Veja mais aqui e aqui.

METABÓLICO – Entre os poemas do livro Reflexo (Sioge, 1977), da premiada escritora, dramaturga e roteirista Lenita Estrela de Sá, destaco o poema Metabólico: Me recuso a deglutir aquela mágoa / se me apaixono pela ideia do texto. / Prefiro sair por aí / mirar brincos africanos nas vitrines / marcar o chope, planger bandolins: / “descobrir que as coisas mudam / e que tudo é pequeno / nas asa da Pan-Air” / ou ler escritos da poeta urbana / feroz, finesse e fissura / a cabeça no punho da rede e além da calçada / Só não quero desaprender a espera / de uma alegria capaz de me prostar. Veja mais aqui.

NO PALCO A PAIXÃO: CECÍLIO SÁ 50 ANOS DE TEATRO – No livro No palco a paixão: Cecílio Sá 50 anos de teatro, da premiada escritora, dramaturga e roteirista Lenita Estrela de Sá, é desenvolvida uma pesquisa e iconografia do trabalho teatral de Cecílio Sá, diretor de teatro popular, agraciado com a Medalha do Mérito Timbira por sua relevante contribuição cultural ao Estado do Maranhão, tendo dirigido quatro grupos teatrais – Grupo Ateniense, Grupo Arthur Azevedo, Grupo Teatral renascença e Grupo Teatro Recreativo Amador do Maranhão – GRUTRAM. A obra serve como importante documento histórico acerca da atividade teatral desenvolvida no estado do Maranhão. Veja mais aqui.

THE BLACK DAHLIA – O filme The Black Dahlia (2006), dirigido pelo cineasta Brian De Palma, é baseado no romance homônimo do escritor James Ellroy, conta a história da atriz estadunidense assassinada em 1947, Elizabeth Short (1924-1947), mais conhecida como a Dália Negra, morta por razões e assassino desconhecidos. Seu corpo foi encontrado mutilado e esquartejado em um terreno baldio na cidade de Los Angeles, num crime que ficou eternizado não apenas pela brutalidade, mas principalmente por permanecer até hoje sem solução. Ela era uma jovem bonita, que estava determinada a ser famosa. O destaque do filme vai para a atriz canadense Mia Kirshner. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do escultor francês Jean-Baptiste Pigalle (1714-1785).

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à escritora, psicóloga, psicoterapeuta e especialista em desenvolvimento humano em empresas Lia Helena Giannechini & Além do Oceano.

 Veja aqui & aqui.


Veja as homenageadas aqui.

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...