quarta-feira, agosto 09, 2017

JOAQUIM CARDOZO, ROGERS, BORNHEIM, O FUTEBOL DE GALEANO, FARNESE DE ANDRADE, PSICOLOGIA & EDUCAÇÃO AMBIENTAL

DESMANTELOS SEM REMISSÃO – Imagem do pintor, escultor, desenhista, gravador e ilustrador Farnese de Andrade (1926-1996) - João tinha muitos amigos, de copos e de farras. Era amável, afobado sim, raivoso nunca, exceto com pusilanimidade, grosserias, palavras desastrosas. Zangava-se vez ou outra, raramente, tinha lá seus motivos. Era comum nem se atormentar com nada, levava a vida na prosa, às risadagens. Não tinha inimizades, caçoava de todos, estreitos laços de amizade. Uma censura aos seus modos, relevava com muxoxo e saía qual raio, para se render ao perfume cativante das saias femininas, a sua perdição. Tinha lá suas extravagâncias, nem parecia haver um inferno em ebulição dentro dele, mar agitado de águas pútridas fervendo no peito, fera indomável. Coisa de amor desfeito, paixão recolhida envenenando seu ser. Ninguém sabia, vaidade ferida, destronado, coisa só dele. Disso nem falava, só dizia que coração de mulher era terreno de areia movediça, coisa que esconde o reino das traições. Ele se ria e mudava de assunto, coisa de se vingar com o pé no acelerador do automóvel na maior das carreiras, ou na montaria de um cavalo zarpando terra afora, ou na pesca de mão de peixes no rio ou no mar, força brava no roçado, levando mata nos peitos, tudo aos extremos, violência do muque na força do pulso, coisas de derrotar. Era assim que se vingava de dele só. Fosse longe, vencia em instantes; fosse firme, derrubava toras; fosse pedra, arrancava com brutalidade. Era como se vingava do amor perdido. Corria mundo e em alta velocidade: um dia tu te estupora, João. Ele, nem nem. Houvesse limite, era pra superar. Invencível, desconhecia adversário, fosse quem viesse, sempre campeão de si. Dava vazão ao seu orgulho, diligente, perdia as estribeiras, desafiava a si de nem ser indulgente e se esforçava para ser o melhor, efeitos devastadores. Até que uma curva, um seixo, o inopinado: estrepou-se de quase se desmanchar carcaça toda. Não havia osso que não fosse fraturado, face irreconhecível, corpo destroçado, tudo rendido e inutilizado. Cadeira de rodas, imóvel. Quase nem batia os olhos, não falava, vegetava. Hoje só tem olhos pra chorar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RECIFE – VÁRZEA: ÚLTIMO RETORNO
 
Joaquim Cardozo

Terra macia, formada de muitos longes
Trazidos pelas águas.
- Essa terra do meu nascer alhures
Que seja, e seja, e seja, no fim, no sempre,
A minha terra de morrer.
Entre as bátegas de chuva:
- Das suas chuvas de junho até setembro...
- (Depois... Depois.... Quando depois...) – talvez se ouça ainda
O meu bater de coração.
Entre palmas e franjas de espuma branca,
Entre ramos de renda verde,
Um pouco do ar, que nessa terra respirei,
Passará, sem que ninguém disso se aperceba,
Na aragem das manhãs.
E os meus pés sepultados,
Meus pés, e o percorrido por meus pés,
Mergulhados, confundidos, sedimentados
Na espessura desses longes,
- Tímidos, incertos, sem destino –
Por baixo do chão dos seus caminhos
Continuarão a caminhar.
Poema extraído de Réquiem por uma vida desnecessária, das Poesias Completas (Civilização Brasileira/MEC/INL, 1971), do poeta, dramaturgo, engenheiro civil, desenhista, professor e editor Joaquim Cardozo (1897-1978). (Imagem: Visão Romântica do Porto de Recife (1930), do artista plástico Cícero Dias). Veja mais aqui.

RETRANCAS DO FUTEBOL E DECEPÇÕES - Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau que já passou pelos campos do meu país. [...] Os anos se passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre – sem me importar com o clube ou o país que o oferece. [...] foi uma Copa sem surpresas. Um espectador a resumiu assim: - Os jogadores têm uma conduta exemplar. Não fumam, não bebem, não jogam. Os resultados recompensaram isso que agora chamam de sentido prático. Viu-se pouca fantasia. Os artistas deram lugar aos levantadores de peso e aos corredores olímpicos, que ao passar chutavam uma bola ou um adversário. Todos atrás, quase ninguém na frente. Uma muralha chinesa defendendo o gol e algum Cavaleiro Solitário esperando o contra-ataque. Até poucos anos atrás, os atacantes eram cinco. Agora só resta um, e nesse ritmo não ficará nenhum. Como comprovou o zoólogo Roberto Fontanarrosa, o atacante e o urso panda são espécies em extinção. Trecho extraído da obra Futebol ao sol e à sombra (L&PM, 2009), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRISE & EDUCAÇÃO AMBIENTAL - Torna-se necessário introduzir, nos processos de planejamento, estratégias participativas que venham a se apoiar nas forças utópicas da democracia radical e nas forças distópicas de destruição não pacifista, provocada pelos inconciliáveis antagonismos, sócio-politico-culturais, entre indivíduos, grupos e sociedades. Ou seja, a participação passa a ser vista, assim, como uma forma estratégica de interrelacionar – através da critica, técnico-política, das ações de planejamento – “kultur” e “zivilization”, harmonizando-se na direção de um bem-comum, como um futuro compartilhado possível. Sob tal perspectiva, o impacto “mundializado” da crise ambiental origina-se em conflitos racionais advindos da aplicação de referências da realidade baseadas nas teorias científicas da natureza, mas propaga-se mobilizando-se sobre provocações de cunho ético-humanístico – sobre uma crítica latente do “ocidente” como civilização, abrindo-se como ponto de cisão entre alternativas de futuro no confronto cultura-natureza e suas interações. A crise ambiental é, portanto, uma crise política da razão, que não encontra significações dentro do esquema de representações científicas existentes para o reconhecimento da natureza social do mundo, que foi histórica, técnica e civilizatoriamente produzida. Uma crise política da razão frente à não explicação da natureza social da natureza e de suas implicações sobre o conhecimento e suas relações com a sociedade e o futuro. [...] Trecho do ensaio O pensamento contemporâneo e o enfrentamento da crise ambiental: uma análise desde a psicologia social, da física e pós-doutora em Ciências Sociais, Edla Terezinha de Oliveira Tassara, extraído da obra Pensar o ambiente: bases filosóficas para a educação ambiental (MEC/SECAD, 2009), organizado por Isabel Cristina de Moura Carvalho, Mauro Grün e Rachel Trajber. Veja mais aqui, aqui & aqui.

O SISTEMA & O FILOSOFAR - O comportamento originante do filosofar e a possibilidade de esclarecer a problemática que tal comportamento coloca [...] parte do pressuposto de que a coloração fundamental de uma filosofia já se determina, em certo sentido, a partir mesmo da atitude inicial assumida por todo filósofo. Trata-se, portanto, de problemática implicada no ponto de partida do filosofar. Referimo-nos ao filosofar. [...] A atitude inicial do filósofo determina o caráter último de sua filosofia. Mas esta determinação, profundamente enraizada no ato de filosofar, não deve ser confundida com o problema do primeiro princípio filosófico, com a primeira afirmação, a partir da qual um determinado filósofo poderá alicerçar e desdobrar o todo de seu pensamento, obediente à incoercitível tendência para a sistematização, que é inerente à natureza mesma da filosofia. [...] Em verdade, a ideia de sistema traz consigo todos os quesitos do que deva ser um problema: responde a um anseio legitimo e inscreve-se na própria natureza do real. O que deve ser repensado é o sistema, não enquanto decorrência do processo entificador do ser, e sim enquanto abertura para a diferença ontológica. Não se trata, pois, de fundar o sistema dedutivamente em um ente determinado, mas de pensar a sua possibilidade a partir da diferença ontológica. Trechos extraídos da obra Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais (Globo, 1978), do filósofo, professor e crítico de teatro brasileiro Gerd Bornheim (1929-2002). Veja mais aqui, aqui e aqui.

ADAPTAÇÃO DO INDIVÍDUO - O interesse constante e crescente pelo indivíduo e sua adaptação é talvez um dos fenômenos mais importantes do nosso tempo. Mesmo a guerra e a propaganda serviram para pôr em evidencia a ideia fundamental da importância do individuo e do seu direito a uma adaptação satisfatória como um dos elementos dos nossos objetivos bélicos. [...]. É absolutamente vital reconhecer que o processo que ocorre na entrevista é tão delicado que as suas potencialidades de desenvolvimento podem ser inteiramente destruídas pela manipulação forçada que caracteriza a maior parte das nossas relações. Compreender as forças sutis que atuam, reconhecer e cooperar com elas exige a máxima concentração e o maior estudo, e o caráter integral dos relatórios que descrevem o processo. Trechos extraídos da obra Psicoterapia e consulta psicológica (Martins Fontes, 1987), do psicólogo norte-americano e criador da abordagem psicoterapeuta Terapia Centrada na Pessoa, Carl Rogers (1902-1987). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

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Imagem: arte do pintor, escultor, desenhista, gravador e ilustrador Farnese de Andrade (1926-1996).


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