terça-feira, janeiro 08, 2008

TOLINHO & BESTINHA



III

Quando Bestinha enfiou-se na bronca da vida e num teve quem desse jeito


Bestinha ainda tartamudeava na vida quando começou por esgueirar-se nas estripulias. Pixote, ainda, pirrototinho de dá dó, o arteiro já aprontava das suas. E bote sustança na regalia para aperrear os mais velhos. Isso não era o de menos. Aos cuidados de um sujeito esquálido, um varapau mudo de nascença e pederasta, se iniciava nas safadezas. Era sua ama-seca, o Delito.
A mãe estava bastante de ocupada com as outras filhas mais novas, choronas e mijadeiras, de não poder sequer dedicar-lhe um só muxôxo, quanto mais atenção.
O viado véio, não, brincava, ajeitava, arrumava, deixava-lhe nos trinques para os outros e mais: ficava cheirando o dia todinho a bilonguinha do capeta, engolindo-a e sobejando-a - maior macacada de afago na púbis do destamaínho -, de jeito a querer, o bruguelo sonso, levá-la para a venta de todos.
- Óia, mama, chêra ati!
E invocava a mãe, o pai, a tia, a vó, o tio, aderentes, quem fosse, tava ele lá mostrando o pingulim pra todo mundo.
O pirôbo se ria, sozinho, da arteirice.
- Essa bicha véia tá ensinando coisa errada pro menino! -, reclamava dona Bebé Maria, mãe do pilantrinha.
- Num engasga mulé, o minino é home, já mostra logo cedo pro que veio -, aliviava o seu Bimbo-João, o pai do amolestado sem-vergonhinha.
Delito ensinou-lhe das muitas, afetividade, ternura, carinho, os perigos da vida, protegendo o pimpolho como se fosse um tesouro imaculado. Isto é, todo cheio de manha e cheio das pregas, Bestinha passava.
Era mesmo muita folgança do menino ir ficando taludo e afanando dinheiro fácil esquecido em lugar bem guardado. Vôte! Num podia ver trocado no bolso da camisa do pai, no cinzeiro do carro, nos jarros da sala, nas gavetas dos guardados - achado num é roubado! - se defendia, ôxe, onde desse sinal de vida qualquer vintém, ele embolsava se estragando nas maiores guloseimas: pão doce com caldo de cana; algodão doce; pamonha; rolete de cana; pirulitos, nego-bom, mata-fome com quisuco; brote com ponche; dida, picolé, pé-de-moleque; quebra-queixo; cavaco, chiclete, bolinho-de-goma, pastéis com cajuvita, rapadura, impada, salame com crushe. Era uma festa! Pagava pra todo mundo enquanto mentia como a peste, deslavadamente. Um mitômano de nascença. Enrolava todo mundo com a maior pabulagem que revestia sua empáfia. Brincasse não, ele demovia verdades inauditas como se desfiasse um rosário num piscar de olhos e reinventava verossimilhanças capazes de deixar nego crente daquilo. Era só puxar conversa que a peta nascia.
Um dia lá, depois de haver caído por cima de umas pratas desleixadas na algibeira paterna que dormitava no camiseiro, tomou pé de dar uma volta na roda gigante. Maior felicidade. O quê? Houve um curto circuito e a engrenagem deixou-lo pendurado lá em cima balançando as pernas por horas, no maior fogaréu. Pois é, fodeu-maria-preá. Que azarão! O susto dele foi tão grande de cagar-se e se mijar todo, além de estuporar os olhos, a ponto de deixá-los avermelhados como se tivesse pegando o maior morrão da paróquia. Nem via, nem piscava.
O Delito fez o maior estardalhaço envolvendo polícia, voluntários e curiosos no sentido de salvar o seu protegido que estava pendurado no alto da roda gigante.
Providências tomadas e apagaram o incêndio, mas nem a polia nem a catraca num deu para rodá-la até em baixo, passando por desmontá-la, horas a fio; ele lá, inerte.
Desceu depois da noite toda como se estivesse hipnotizado, um robô levado de tão transido. Disso, inda hoje apelidam-no de Ôio-de-fôia, vez que desconfiam que tal acontecimento é pura invencionice e que ele anda mesmo é se abastecendo dos braquearos e carburando as idéias nalgum lugar recôndito, alhures.
Delito deu-lhe mimo sempre. Até nos dias que saía de casa todo engomadinho e num podia ver uma bola que corria atrás driblando até o invisível, que o pirôbo torcia por seu gol.
A negada parece que por despeita ou mesmo para ver o circo pegar fogo, se encostava nele e dava aquele chega pra lá, vendo-lhe estatelar-se nos esgotos que haviam na beira das ruas. Ploft!
- Olhe, Dona Bebé, o menino tá todo meleguento de esgoto! -, era a denúncia dos presepeiros para ver-lhe a surra e os carões.
- O quê! Já prá dentro, minino -, e lá ía no meio de beliscões, puxado pelas orelhas para o banheiro.
A mãe dele, além do banho, jogava creolina, vinagre, soda cáustica, querosene e álcool e depois queria tocar fogo, não o fazendo por intervenção de Delito aos prantos. O maior escândalo!
- Eu tiro seu couro, minino safado! -, destemperava a mãe, largando umas boas lamboradas de deixá-lo dormir de couro quente. Ele e o Delito, apanhados, solidários.
O menino foi se avolumando e já pelos dez anos já fumava, bebia e lascava patranha cabeluda pra cima dos incrédulos. Arrotava e peidava cada pinóia de deixar o recinto arrepiado enquanto tomava um litro do vinho de jurubeba na maior folgança. E embeiçava bebidas de gengibre, aguardente, run, vermute, vinhos, tudo da marca peba de afoguear nego doido por tapa. Aos tombos de num saber nem onde morava, eis que Delito, o seu salvador, apeava para seu domicílio.
Dia seguinte, a munganga da mangação tava solta:
- Tá amigado com o veado mudo, né safado!
Ôxe, Bestinha injicou-se e ameaçou qualquer petulante de morte se alguém ventilasse aquilo. Num podia ver cochicho que encarava de frente a seboseira, todo desconfiado - tô vendo a cavilação! - e quando alguém de longe insinuava, a peixeira riscava fogo no chão.
Havia a cara de um crime por acontecer. Estava escrito.
Até que o pai, para sua salvação, resolveu se mudar da rua, dele eximir-se, por enquanto, da pecha que abominava.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui. 



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