quarta-feira, novembro 07, 2018

LIMA BARRETO, GUILHERME RIPPER, ELENA ZOLOTNITSKY, VALE DO UNA & FESTIVAL EM LIBRAS


VALE DO UNA - Imagem da série Extinct, da artista russa Elena Zolotnitsky. - Finquei os pés no chão de Palmares – minha terra, meu torrão. Timbunguei no Velho Una e me danei rumo Oeste não sei para onde, no meio da Mata Meridional. Deixei calunga e cheleleu, fiz pernoite em Xexéu depois voltei atrás, estava todo errado, desencontrado como sempre, se não sabia lá pra onde ia, seguia pra Belém de Maria e lá me livrei das rezadeiras findando por Batateiras do outro lado do mundo. Fui feito carrapeta, rodando todo arraial pra chegar em Maraial e ir direto pro Sul esquisito pelas mãos de São Benedito até ficar aflito, pronde mesmo que eu queria ir, hem? Não sei, seguia. Ah, me livrei do revestrés nas esquinas de Caetés, tinha cotoco pirrototinho enfiado no terreiro de Canhotinho, eu mais que perdidinho num medonho panapaná que esvoaçava em Quipapá, levado pelo vento que suspira nas terras de Cupira. Foi então que fiz então canção pra ela na boca da noitinha de Panelas, descansar a carcaça e as mazelas pra de manhã chupar muita manga e mangaba na Barra de Guabiraba e, depois de acertos e erros, dei de cara com Bezerros e fui me arranchar. Onde mesmo é que estou, não sei mesmo. Por não ser nada taful, olhei pro céu azul, oxe, isso aqui é Caruaru, danou-se tudo: o mundo de cabeça pra baixo! Ou tudo endoidou comigo. Andejo que só fulano, descobri o que é ter tutano encarando a vida em São Caetano, onde dei voltas sem fim. Já que nada mais me vinha na poeira, só o aconchego em Cachoeira era pra me redimir, pra levar o maior catabi de quase rolar todo em Jucati e ficar sabendo: o fim do mundo não é aqui, depois que é Jupi, lá do beiço virado, longe que só. Foi então que perdi o verbo e o poema, estava só em Jurema juntando os trapos defronte, ainda ontem eu vi enfim São Joaquim do Monte quando arrastava o solado pelo oitão de Calçado e me vi só todo acabrunhado: é que não era confeito nem jujuba, ali é Ibirajuba, pro outro lado o chão de Tacaimbó. Mas o melhor mesmo foi que uma forrozeira dançando xote em Pesqueira me fez seguir apertado até no osso, a me danar por Venturoso e cair morto porque o pencó estava solto na calçada de Sanharó. Perdi-me de tanto gritarem: Febrento! Isso aqui é São Bento. Vixe! Tô pior que toupeira! Aí cheguei na maior carreira na nascente de Capoeiras – eita o Una miudinho, nascendo e seguindo sua rota pra minha terra. Segui firme o meu caminho pela estrada de Altinho e amanheci com a estrela matutina nos céus de Agrestina. Dali pela estrada de Camocim de São Félix eu saí do meu agito ao me deparar com Bonito, depois desvendei todo segredo, tomei rumo pra Lagedo e fui danado pra Catende com vontade de chegar. Fiz a volta na carreira pra bater lá em Jaqueira, tirei a poeira dos sapatos quase perto de Lagoa dos Gatos, rasguei estrada de quase levar um tombo, logo fui acolhido em Pombos, eita! Me assuntei do azarão, era então Vitória de Santo Antão e soube: não tem mais lobisomem ou boitatá nos domínios de Glória do Goitá. Não dei moleza a pacutia, segui pra Chã de Alegria, voltei tal qual errante por Chã Grande, foi ali que me vi na praça de Amaraji, oxente, não sabia nem que eu era nos arredores de Primavera, só fiquei de alma lavada pelas ruas de Escada. Aí sem jumento e sem pedrês no acesso de Cortês, abri o peito e o coração caminhando por Ribeirão. Lá longe a maior gemedeira, uma volta que dei em Gameleira, de não sobrar garrucha nem trabuco, era só Joaquim Nabuco, até um boi fazer careta num cercado de Água Preta. Aí fiquei o tempo todo de mutuca com a cacunda em Ipojuca, não tinha nada nem vintém, pisando firme em Sirinhaém, tinha que ficar jeitoso, afinal era Rio Formoso e o que é que é? Era a praia de Tamandaré, bêbado de volapuque e noigrandes na praia de São José da Coroa Grande, aprumando no lajeiro pra singrar lá por Barreiros, enfim errando de tudo antes que a vida puna arriar ao mar na Várzea do Una. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Tubiacanga era uma pequena cidade de três ou quatro mil habitantes, muito pacífica, em cuja estação, de onde em onde, os expressos davam a honra de parar. Há cinco anos não se registrava nela um furto ou roubo. As portas e janelas só eram usadas... porque o Rio as usava. O único crime notado em seu pobre cadastro fora um assassinato por ocasião das eleições municipais; mas, atendendo que o assassino era do partido do governo, e a vítima da oposição, o acontecimento em nada alterou os hábitos da cidade, continuando ela a exportar o seu café e a mirar as suas casas baixas e acanhadas nas escassas águas do pequeno rio que a batizara. Mas, qual não foi a surpresa dos seus habitantes quando se veio a verificar nela um dos repugnantes crimes de que se tem memória! Não se tratava de um esquartejamento ou parricídio; não era o assassinato de uma família inteira ou um assalto à coletoria; era cousa pior, sacrílega aos olhos de todas as religiões e consciências: violavam-se as sepulturas do "Sossego", do seu cemitério, do seu campo-santo. Em começo, o coveiro julgou que fossem cães, mas, revistando bem o muro, não encontrou senão pequenos buracos. Fechou-os; foi inútil. No dia seguinte, um jazigo perpétuo arrombado e os ossos saqueados; no outro, um carneiro e uma sepultura rasa. Era gente ou demônio. O coveiro não quis mais continuar as pesquisas por sua conta, foi ao subdelegado e a notícia espalhou-se pela cidade. A indignação na cidade tomou todas as feições e todas as vontades. A religião da morte precede todas e certamente será a última a morrer nas consciências. [...] E a vila vivia em sobressalto. Nas faces não se lia mais paz; os negócios estavam paralisados; os namoros suspensos. Dias e dias por sobre as casas pairavam nuvens negras e, à noite, todos ouviam ruídos, gemidos, barulhos sobrenaturais... Parecia que os mortos pediam vingança... O saque, porém, continuava. Toda noite eram duas, três sepulturas abertas e esvaziadas de seu fúnebre conteúdo. Toda a população resolveu ir em massa guardar os ossos dos seus maiores. Foram cedo, mas, em breve, cedendo à fadiga e ao sono, retirou-se um, depois outro e, pela madrugada, já não havia nenhum vigilante. Ainda nesse dia o coveiro verificou que duas sepulturas tinham sido abertas e os ossos levados para destino misterioso. Organizaram então uma guarda. Dez homens decididos juraram perante o subdelegado vigiar durante a noite a mansão dos mortos. Nada houve de anormal na primeira noite, na segunda e na terceira; mas, na quarta, quando os vigias já se dispunham a cochilar, um deles julgou lobrigar um vulto esgueirando-se por entre a quadra dos carneiros. Correram e conseguiram apanhar dous dos vampiros. A raiva e a indignação, até aí sopitadas no animo deles, não se contiveram mais e deram tanta bordoada nos macabros ladrões, que os deixaram estendidos como mortos. A notícia correu logo de casa em casa e, quando, de manhã, se tratou de estabelecer a identidade dos dous malfeitores, foi diante da população inteira que foram neles reconhecidos o Coletor Carvalhais e o Coronel Bentes, rico fazendeiro e presidente da Câmara. Este último ainda vivia e, a perguntas repetidas que lhe fizeram, pôde dizer que juntava os ossos para fazer ouro e o companheiro que fugira era o farmacêutico. Houve espanto e houve esperanças. Como fazer ouro com ossos? Seria possível? Mas aquele homem rico, respeitado, como desceria ao papel de ladrão de mortos se a cousa não fosse verdade! Se fosse possível fazer, se daqueles míseros despojos fúnebres se pudesse fazer alguns contos de réis, como não seria bom para todos eles! [...] Às necessidades de cada um, aqueles ossos que eram ouro viriam atender, satisfazer e felicitá-los; e aqueles dous ou três milhares de pessoas, homens, crianças, mulheres, moços e velhos, como se fossem uma só pessoa, correram à casa do farmacêutico. A custo, o subdelegado pôde impedir que varejassem a botica e conseguir que ficassem na praça, à espera do homem que tinha o segredo de todo um Potosi. Ele não tardou a aparecer. Trepado a uma cadeira, tendo na mão uma pequena barra de ouro que reluzia ao forte sol da manhã, Bastos pediu graça, prometendo que ensinaria o segredo, se lhe poupassem a vida. "Queremos já sabê-lo," gritaram. Ele então explicou que era preciso redigir a receita, indicar a marcha do processo, os reativos—trabalho longo que só poderia ser entregue impresso no dia seguinte. Houve um murmúrio, alguns chegaram a gritar, mas o subdelegado falou e responsabilizou-se pelo resultado. Docilmente, com aquela doçura particular às multidões furiosas, cada qual se encaminhou para casa, tendo na cabeça um único pensamento: arranjar imediatamente a maior porção de ossos de defunto que pudesse. O sucesso chegou à casa do engenheiro residente da estrada de ferro. Ao jantar, não se falou em outra cousa. O doutor concatenou o que ainda sabia do seu curso, e afirmou que era impossível. Isto era alquimia, cousa morta: ouro é ouro, corpo simples, e osso é osso, um composto, fosfato de cal. Pensar que se podia fazer de uma cousa outra era "besteira". Cora aproveitou o caso para rir-se petropolimente da crueldade daqueles botocudos; mas sua mãe, Dona Emilia, tinha fé que a cousa era possível. À noite, porém, o doutor percebendo que a mulher dormia, saltou a janela e correu em direitura ao cemitério; Cora, de pés nus, com as chinelas nas mãos, procurou a criada para irem juntas à colheita de ossos. Não a encontrou, foi sozinha; e Dona Emília, vendo-se só, adivinhou o passeio e lá foi também. E assim aconteceu na cidade inteira. O pai, sem dizer nada ao filho, saía; a mulher, julgando enganar o marido, saía; os filhos, as filhas, os criados—toda a população, sob a luz das estrelas assombradas, correu ao satânico rendez-vous no "Sossego". E ninguém faltou. O mais rico e o mais pobre lá estavam. [...] evolvia a sânie das sepulturas, arrancava as carnes, ainda podres agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o seu regaço até ali inútil. Era o dote que colhia e as suas narinas, que se abriam em asas rosadas e quase transparentes, não sentiam o fétido dos tecidos apodrecidos em lama fedorenta... A desinteligência não tardou a surgir; os mortos eram poucos e não bastavam para satisfazer a fome dos vivos. Houve facadas, tiros, cachações. Pelino esfaqueou o turco por causa de um fêmur e mesmo entre as famílias questões surgiram. Unicamente, o carteiro e o filho não brigaram. Andaram juntos e de acordo e houve uma vez que o pequeno, uma esperta criança de onze anos, até aconselhou ao pai: "Papai vamos aonde está mamãe; ela era tão gorda..." De manhã, o cemitério tinha mais mortos do que aqueles que recebera em trinta anos de existencia. Uma única pessoa lá não estivera, não matara nem profanara sepulturas: fora o bêbedo Belmiro. Entrando numa venda, meio aberta, e nela não encontrando ninguém, enchera uma garrafa de parati e se deixara ficar a beber sentado na margem do Tubiacanga, vendo escorrer mansamente as suas águas sobre o áspero leito de granito—ambos, ele e o rio, indiferentes ao que já viram, mesmo à fuga do farmacêutico, com o seu Potosi e o seu segredo, sob o dossel eterno das estrelas.
Trechos do conto A nova Califórnia, extraído da obra Clara dos Anjos (Mérito, 1948), do escritor Lima Barreto (1881-1922). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista russa Elena Zolotnitsky.
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AGENDA:
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E isso é tudo a vida toda no caos, Gustave Flaubert, Somerset Maughan, Sophia de Mello Breyner Andresen, Sonia Fátima da Conceição, Kenneth Burke, Elza Barroso, Itinerário Musical do Nordeste, Cambão Torto de Amaraji, Marlos Nobre, Galina Ustvolskaya, Gilberto Mendes & Miriam Ramos aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do compositor e maestro João Guilherme Ripper: Jogos Sinfônicos, Piedade, Concertino para viola e orquestra & Concerto Duplum & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.


terça-feira, novembro 06, 2018

SOPHIA DE MELLO BREYNER, ANITA MALFATTI, LÍGIA MORENO & COLÓQUIO TEORIA DA HISTÓRIA


A RUA DAS VIÚVAS – Anita Malfatti (1889-1964). - Nada mais sombria paisagem do que aquela quase rua mal iluminada e tão estreita de parecer um beco sem saída, mais vai dar noutros tantos acessos de avenidas e estrada afora com seus murmúrios baixinhos e sussurros espremidos, pela qual quantas Atalantas haviam perdido a soberba da juventude de princesas, tão altivas beldades de rejeitarem pretendentes por serem consagradas a Ártemis, a grande deusa lunar rebelde das florestas e animais selvagens, libertárias e independentes, e tão capazes de competir em verdade com todos os Hermes de então, agora viúvas trancadas da vida. Elas que então se esquivavam dos assédios como até hoje, jovens robustas a brincar de bem-me-quer e malmequer com as pétalas de rosas, até a chegada do sapo próspero príncipe de reinados e posses na engalanada festa de véus e grinaldas na matriz, chuva de arroz e presentes dos padrinhos e convidados, para nas núpcias se entregarem aos seus maridos escolhidos a dedo e com eles correrem com a leveza dos deuses a se comprazerem enredados nas teias das paixões violentas, a ponto de se esquecerem da gratidão devedora à Afrodite. Essa ingratidão dita como sempre o destino dos infelizes por provocar a fúria da deusa e dela emanam castigos de toda sorte. Não sabiam sequer do esquecimento e hoje pagam todas órfãs do dia a esperarem a qualquer momento pelas maçãs dos Hipomenes, colhidas do Jardim das Hespéridas ou da Discórdia ou da Árvore do Conhecimento no Jardim do Éden, ou mesmo as presenteadas com o perdão de Afrodite. Desoladas, refugiam-se em rezas de joelhos na sua solidão ou no culto do templo mais próximo, em orações muitas de todos os arrependimentos e culpas. E choram desconsoladas não mais Esqueneu para repudiá-las ao nascimento e abandoná-las nas montanhas, até se arrepender e trazê-las do Monte Partênio para o lar e, diligentemente, protegê-las das ruínas e libertar suas almas apenas pros bons partidos. Não mais noites de boas conversas ou mesmo de algumas contrariedades alimentadas pelos desentendimentos inerentes a qualquer casal, não mais pés para esquentar no frio os seus embaixo do cobertor, nem finais de semana aos passeios, nem filhos prometidos, muito menos promessas de paz na velhice. Todas as noites ali elas se deitam solitárias com seus sofrimentos, padecem de quantas angústias, fobias, medos e depressões que povoam do crepúsculo à aurora sua clausura, quando não se valem da maldição da Mulher da Sombrinha ou daquelas que saem de suas lápides para enfeitiçarem os notívagos às portas do cemitério ou nas esquinas movimentadas acenando ao primeiro passante a gentileza de pagar ou não um momento de prazer nos escuros dos quartos. Ninguém me vira por Hesíodo naquela via da Arcádia e meus olhos de Higino flagraram aquela via da Beócia, todas elas, inclusive aquelas que também são viúvas de maridos vivos - sobreviventes reféns das safras canavieiras em todo o território brasileiro. Pra elas minha solidária emoção de estrelas que alumiam o caminho a seguir. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina. Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho. Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada. E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas. Assim foi durante várias gerações. Mas, com o passar do tempo, surgiu um problema terrível, e por mais que todos meditassem e discutissem, ninguém era capaz de arranjar uma boa solução. Porque, ao longo dos anos, a árvore tinha crescido tanto, os seus ramos tinham-se tornado tão compridos, a sua folhagem tão espessa e a sua copa tão larga que, durante o dia, metade da ilha ficava sempre à sombra. De maneira que metade das casas, das ruas, das hortas e dos jardins nunca apanhava sol. E, na metade ensombrada, as casas estavam a ficar úmidas, as ruas tinham-se tornado tristes, as hortas já não davam legumes, os jardins já não davam flor. E a gente que ali morava andava sempre pálida e constipada. E, à medida que a sombra da árvore crescia, crescia também a perturbação. As pessoas gemiam: — Que havemos de fazer? Que havemos de fazer? Até que foi decidido a população reunir-se toda em conselho para examinar bem o problema e decidir o remédio que devia dar-lhe. Discutiram durante muitos dias e, depois de todos terem falado, chegou-se à triste conclusão de que era preciso cortar a árvore. Houve choros, lamentações, gemidos. A árvore era bela, antiga e venerável. Fazê-la desaparecer era um ato que não só entristecia os habitantes da ilha mas que também os assustava. Mas não havia outro remédio e quase todos acabaram por concordar com o corte. No lugar onde antes ela se erguia, plantaram um pequeno bosque de cerejeiras, pois as cerejeiras nunca crescem muito. Abater a árvore foi difícil e toda a gente teve de ajudar. Mas, depois de cortada, ela ocupava tanto espaço que a ilha ficou quase sem lugar para mais nada. Por isso começaram a desfazê-la: primeiro cortaram os ramos e as pernadas e a sua madeira foi distribuída entre todos, para que cada um pudesse fabricar alguma coisa que lhe lembrasse a árvore tão amada. Alguns fabricaram pequenas mesas, outros, varandas para as suas casas, outros, caixilhos para os biombos, outros, caixas, tabuleiros, tigelas, colheres, pentes e ganchos para as mulheres espetarem no cabelo. No fim ficou só o enorme e grosso tronco nu, deitado através da ilha. Então começaram a chegar viajantes e armadores que queriam aquela ótima madeira para fabricar barcos. Mas a população não quis. Reuniram todos outra vez em conselho e decretaram: — Os habitantes desta ilha não querem separar-se da sua árvore que, antes de crescer demais, lhes deu tanta alegria. Vamos nós próprios construir o nosso barco. E assim foi. Depois da chuva do Outono, deixaram o tronco secar durante longos meses e, logo que viram que a madeira já estava bem seca, meteram mãos à obra. E, como são um povo muito inteligente, os japoneses, que trabalham muito bem, muito depressa, com muito esmero e são ótimos carpinteiros, construíram rapidamente uma grande e linda barca toda esculpida e pintada de muitas cores. Então houve uma grande festa e a barca foi lançada ao mar. À noite houve fogo de vista e em todas as ruas e praças se acenderam balões de papel, azuis, amarelos e vermelhos. Daí em diante a vida do povo daquela terra passou a ter uma vida muito mais animada e variada e quase todos se tornaram muito mais ricos. Antes, como a ilha era tão pequena, os seus habitantes só possuíam pequenos barcos de pesca e só podiam navegar até às ilhas vizinhas. Quando alguém precisava de ir mais longe tinha que arranjar um lugar em certos barcos maiores que de vez em quando por ali passavam. Agora tudo tinha mudado. Agora, graças à grande barca, navegavam constantemente de ilha em ilha davam grandes passeios pelo mar e faziam ótimos negócios. Às vezes nas noites calmas de Verão ou de Outono grupos de pessoas embarcavam e iam até ao largo ver a lua cheia sobre o mar. Ou então rondavam a ilha junto à costa, até ao extremo sul, para irem ali admirar os recortes negros dos rochedos sobre a claridade clara e azulada do luar. Depois, no Inverno seguinte comentavam estes passeios, comparavam tudo o que tinham visto, discutiam qual fora a mais bela noite, a mais bela paisagem. Entretanto, à medida que o tempo ia passando, as cerejeiras que tinham plantado iam crescendo e embelezando. Por isso a gente da ilha passou a celebrar, todos os anos, a festa da cerejeira em flor. Quando acabava o Inverno e começava a surgir a Primavera tudo se animava. Os pedreiros, os tanoeiros e os carpinteiros vinham trabalhar para o ar livre e riam e cantavam enquanto esculpiam, serravam, martelavam. Havia grande azáfama e pelas ruas passavam pessoas muito apressadas: iam a correr às lojas de tecidos comprar kimonos de Primavera para vestirem quando chegasse o dia em que já pudessem ir admirar o primeiro desabrochar das flores. E nas ruas, nos jardins, nos campos, os marmeleiros, as macieiras, as cerejeiras já estavam carregadas de botões fechados. No centro da povoação aparecia então o macaco amestrado, vestido com um casaquinho azul e acompanhado pelo seu dono. E em redor juntavam-se as crianças e adultos para admirarem as habilidades do animal sábio. E as crianças ficavam mudas de espanto quando aparecia um grande leão de papel que vinha pela rua fora num andar baloiçado, acompanhado por dois homens vestidos com kimonos amarelos. Passavam por todas as ruas e por fim paravam debaixo dos ramos das cerejeiras. Então os homens do kimono amarelo começavam a rufar os tambores e o leão começava a dançar. E um dos homens cantava: Já dança o leão / Debaixo da cerejeira / Ao som dos tambores / O seu bailar faz abrir / Mais depressa as flores. E, no dia seguinte, nos ramos das cerejeiras, as pequenas flores cor de rosa estavam todas abertas. Assim, durante muitos anos, a vida naquela ilha correu com muita alegria e animação. Mas apesar dessa alegria, apesar dos bons negócios e dos grandes passeios, todos se lembravam com saudade da velha árvore. — Como era alta e bela! — diziam. — Como a sua sombra era perfumada! — Como era doce e leve o sussurrar da brisa nas suas folhas! — Como a sua copa era redonda e bem formada! — Como as suas folhas eram verdes e bem desenhadas! — Como era tão suave a frescura debaixo dos seus ramos, nas manhãs de Verão! E, assim, entre palavras e pensamentos, a árvore nunca era esquecida. E os anos foram passando. Até que os marinheiros e os calafates descobriram que estava a acontecer uma grande desgraça: A madeira da quilha da grande barca tinha começado a apodrecer. — Ai de nós! — choravam os habitantes. — Não vamos dar mais passeios pelo mar. Nas noites de lua cheia, não vamos visitar mais as outras ilhas, não vamos fazer mais negócios. Mas os comerciantes sossegaram-nos. — Durante estes anos — disseram eles — graças à nossa grande barca, andámos a navegar de ilha em ilha, de porto em porto, a comprar e a vender, e fizemos negócios tão bons que juntamos muito dinheiro. Por isso, como aqui não há outra árvore enorme, e as árvores que agora temos fazem muita falta se forem cortadas, estamos dispostos a ir às outras ilhas comprar boa madeira. E todos juntos podemos construir outra grande barca. A população aplaudiu o discurso e concordou com o projecto e daí a poucos meses a barca nova ficou pronta e logo a puseram a flutuar. Então, a barca velha foi arrastada para a praia. O povo cercou-a em silêncio com grande tristeza, e os carpinteiros e os calafates examinaram-na tábua por tábua. A madeira do casco, do convés e dos bancos estava quase toda semiapodrecida e só servia para queimar. Mas o mastro grande, que tinha sido tirado do cerne da velha árvore, continuava são e bem conservado. — Temos que fazer com este mastro alguma coisa que nos lembre a nossa árvore antiga e a nossa barca — disse o chefe da ilha. Depois de muito pensar resolveram fazer uma biwa, que é uma espécie de guitarra japonesa. Quando a obra ficou pronta, a população reuniu-se na praça principal e sentaram-se em silêncio em redor do melhor músico da ilha para ouvirem o som da biwa. Mas, mal os dedos do músico fizeram soar as cordas, de dentro da biwa ergueu-se uma voz que cantou: A árvore antiga / Que cantou na brisa / Tornou-se cantiga. Então, todos compreenderam que a memória da árvore nunca mais se perderia, nunca mais deixaria de os proteger, porque os poemas passam de geração em geração e são fiéis ao seu povo.
Conto A árvore (Figueirinhas, 1987), da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AGENDA:
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Viúvas de maridos vivos aqui
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RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da pianista Lígia Moreno: Concerto nº1 em Lá menor de Grieg, Jeux d’Eau de Ravel e Sonata nº 2 de Beethoven & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


segunda-feira, novembro 05, 2018

ANDRÉ BRETON, BRUNA RAFAELLA, MANU CHAO, ÁLBUM DE ONTENS & CULTURA NEGRA


O ÁLBUM DOS ONTENS - Imagem da série Arqueologias do presente (2009), da artista visual, produtora cultural e pesquisadora Bruna Rafaella. - Lá foi um dia, aquele instante perdido enquanto memória nas molduras inesquecíveis, paisagens de não mais e fragmentos figurativos de ilustrações das reminiscências, tudo suspenso nas paredes ou pregados nas páginas plastificadas do pretérito, como trens que vinham com todas as notícias e alvoroços, montaria de léguas, rangido de rodas na passagem dos bois, os goles do presente com as cinzas invisíveis de nem sei onde, com seus tetos desabados, vãos em ruínas, rachaduras, destroços, pedaços de chão que nunca pisei, cenários que nunca vi, caminhos que nunca passei, fisionomias que jamais conheci de bisavós no flerte, afetos tímidos de outra época de ontem distante que diziam do namoro e das núpcias, filhos e netos, quantos noivados desfeitos, cônjuges separados, viúvas sem vínculos por fotos desbotadas, álbuns amarelados, cadernos encardidos com parentescos que jamais reconheci, famílias de vento e de ouvir dizer, os que são porque nunca tive. Eram os avós de relembranças com tataravós que nunca soube e nem poses tinham, só o que inventei na cabeça como poderiam ter sido. Os pais que me falavam e outras dos tios, disso e daquilo, a efígie sem perfil, a face do desconhecido, o que sabiam dos antecessores sequer dos antes deles sepultados avoengos sem nenhum instante para vê-los e que me tinham por neto e em duas vezes mais asas para voar, reinava incólume. Meus filhos não deram continuidade e me perguntavam daqueles da infância, dos que sobreviveram à minha adolescência e conto das recordações dos que foram caros, o paparicado, a manha, o dengo, o que eu sabotava ou mantinha por primazia, sem me deixar mentir, pelo menos ali, o que olvidava ou nem revelava dos jardins das praças, do pé de goiaba lá no quintal, do arruado que virou matagal, do que era sítio e findou canavial terreiro adentro, do que era do bem e não mais por favor, os da ousadia e ficaram pra trás, os da covardia e seus reinos algozes, os mansos das feras escondidas e os que se denunciavam por si compadres de juras e pactos, padrinhos de conveniência, interditos, falácias, hipocrisia, pusilanimidade, coisas que o tempo devora e a gente quase nem se dá conta de gente de prato e colher ou do portão pra fora, os que privavam da escuridão e do medo, os que já não falam por serem jamais, os dos abraços pra virada das costas, os dos olás e que vão até já, os que nem chegaram de tão tarde, os que se diziam achegados de tão estranhos quanto os da rua que quase nem se via; os de cumprimentos e até logo, os que nem os olhos ergueram para me perceber, os da fadiga de horas a fio e os insuportáveis cantiga de grilo; os que passaram de janeiro a dezembro, os que não resistiram sequer ao verão, os que fizeram apenas um outono, os que se marcaram no inverno tenebroso e duradouro, os que roubaram a primavera, de quem tinha e os de nada, do que foi pra não mais, do que é sem ter sido e de quantos ficaram entre os que já foram; os sem laços e os que seguiram e se perderam, os que ficaram para serem injuriados, os que serviam para mangação, os descartados, os que colhiam antipatias, os que se aproveitavam das horas e os que sequer eu sabia de tão longe, parentescos de afeto, primos de vigésimo grau, compadrio de coração, gente de outros tão próximos ou do outro lado das avenças, quantos sobrenomes, gente que nem existe mais, árvore genealógica imprecisa. São retratos erodidos por olhos de décadas e séculos, risos de festa e solidão. Coisas que nem dá pra irrigar de tanto desdém, nem rejuvenesce, nem ressuscita. Ali o passado ficou, datas de calendário perdido no meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Sempre desejei incrivelmente encontrar à noite, num bosque, uma mulher bela e nua, ou antes, já que um desejo assim, uma vez expresso, perde o sentido, lamento incrivelmente não tê-la encontrado. Supor um encontro desses não é tão delirante, afinal de contas: seria possível. Parece-me que tudo iria deter-se de repente, ah! E eu não estaria escrevendo o que escrevo. Adoro essa situação em que eu provavelmente teria, mais que em todas, faltado com a presença de espírito. Não teria nem mesmo, creio, a ideia de fugir (os que riem desta última frase são porcos). Num fim de tarde, no ano passado, nas galerias ao lado do Eletric-Palace, uma mulher nua, que só deve ter precisado se desfazer de um casaco, andava de um extremo ao outro, muito branca. Já era perturbador. Longe, no entanto, de ser muito fora do comum, pois aquele canto do Eletric era um lugar de depravação sem maior interesse. Mas, para mim, descer verdadeiramente o bas-fond do espírito, lá onde já não importa que a noite caia e se levante (então é o dia?), é volta à Rue Fontaine, ao Théatre des Deux-Masques, que pouco depois se transformou num cabaré. Enfrentando meu pouco gosto pelo palco, fui lá no passado, na convicção de que a peça que estava em cartaz não poderia ser má, tanto a crítica se mostrava escarniçada contra ela, a ponto de pedir sua interdição. Entre as piores do gênero Grand-Guignol, que constituíam o grosso do repertório da sala, esta pareceria gravemente deslocada: o que, convenhamos, recomenda. [...] Acrescentarei apenas que o papel era desempenhado pela mais admirável e sem dívida a única atriz daquele tempo, a quem vi representar no Deux-Masques em várias outras peças, em que não estava menos bela, mas de quem, talvez para minha grande vergonha, no entanto, nunca mais ouvi falar: Blanche Deval. [...].
Trecho extraído da obra Nadja (Cosac Naify, 2007), do escritor francês André Breton (1886-1966). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A ARTE DE BRUNA RAFAELLA
A arte da artista visual, produtora cultural e pesquisadora Bruna Rafaella.

AGENDA:
Semana de Ciência, Tecnologia, Arte & Cultura Negra do GEPAR – 19 a 23/11, UTC – Centro de Educação da UFPE – Recife – PE & muiro mais na Agenda aqui.
&
Álbum de fotografias aqui.
&
Poesia Vital Absoluta, Herbert de Souza – Betinho, Henry Miller, Abelhas Cupira, Alzira Rufino, Hermeto Pascoal, Jocy Oliveira, Laurie Anderson, Orquestra Armorial & Quinteto Armorial aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do músico francês Manu Chao: Estacion México, Live Moscou, Cladestino & La Radiolina & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, novembro 02, 2018

ODYSSÉAS ELÝTIS, JOYCE MORENO, WIFREDO LAM, COLETIVO LITERARTE & DOUTOR ZÉ GULU


O TESTAMENTO DO DOUTOR ZÉ GULU – Imagem: arte do artista cubano Wifredo Lam (1902-1982). - O doutor Zé Gulu andara sumido por bastante tempo de quase ninguém reconhecê-lo nem mesmo se lembrar mais dele. Contudo, com os resultados do primeiro turno eleitoral, o homem reapareceu azoadíssimo e todo afoito: Num pode! Num pode! Era outro completamente diferente: Que danado foi que dele nele? Para quem conheceu aquela sapiência tranquila de pessoa, imperturbável e aquiescente de sempre, vê-lo agora inheto tagarela, nervoso de berrar com todos os pulmões e de não parar quieto a cuspir desaforos aos discordantes, isso deixou muita gente boquiaberta. Só se via ele agora às carreiras a distribuir panfletos e às conversas com a sua aflição sobre países que ninguém nunca tinha nem ouvido falar e de coisas do fim do mundo, e ele reiterando a todos o movimento crescente nos USA, na França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Hungria. Itália, Polônia, Áustria e se estendendo de forma global atualmente – os que ouviam, entreolhavam-se com cara de e eu com isso e ele no maior teitei -, reiterando a produção em escala industrial de neoconservadores reacionários e ególatras com sua agenda moralista e antidemocrática – ele disparava seu discurso carregado de fôlego e a plateia entendendo nada: Do que mesmo ele tá falando, hem? -, e arriando a lenha naqueles que ele chamava de revestidos de um nazifacismo raivoso de intransigentes extremistas que vivem do passado nostálgico da força pelo autoritarismo com sua base econômica tradicional e intolerância das ideologias de ódio, sobrecarregadas de preconceito e discriminação para tornar o mundo ameaçador e caótico. Isso não pode jamais! – quem ouvia só balançava a cabeça em tom afirmativo para não vê-lo decepcionado e como forma de respeito pela erudição daquele que era o maior intelectual da cidade, mas entender de mesmo, ninguém estava sequer sabendo que droga era nove que ele esbravejava. Se normalmente ninguém sequer compreendia nada do que ele falasse, imagine agora ele afobado metralhando blablablás ininteligíveis – Esse hômi tá falando grego, é? -, diziam uns aos outros ao vê-lo às gesticulações de aperreio, tentando explicar a situação atual e o perigo iminente que se encontrava prestes a contaminar a todos no segundo turno. Chegava aos extremos com ternura expondo exemplos históricos desde a antiguidade até o momento atual, repetindo com a fúria dos profetas, casos e situações adversas que culminaram com desastres e atrasos para a humanidade – os assistentes com seus olhos esbugalhados assistiam a sua performance, cochichando entre eles: Será que ele se autoendoideceu? Menino, parece mesmo que autoenlouqueceu-se mesmo! Por causa dessa sua militância, ele não mais dormia nem se alimentava, atravessava a noite pelo dia, num corpo a corpo engajado em reverter o quadro em que se encontravam os índices eleitorais, de tão adverso que achava para um hecatombe sem precedentes, não poupando em gastar saliva com as explicações aos mínimos detalhes ao primeiro transeunte que encontrasse e bastava o ouvinte perguntar alguma coisa que não tinha nada a ver com a falação dele, ele reexplicava tudo de quase chorar e pedir pelo amor de Deus que não se sufragasse numa desgraça que botaria tudo a perder, findando aos choros e a pedir solidariedade a todos. Foram quinze dias de penosa obstinação em dizer a cada um dos munícipes a gravidade da situação, dele emagrecer tanto de quase ficar irreconhecível faquir tão afônico de inaudível a definhar com gestos mórbidos, olhos fundos, raquítico das costas ocas, prestes a desaparecer com a primeira ventania de primavera: Esse vai morrer de doideira mesmo, comentavam. Só conseguiu parar para comer e descansar quando fecharam os portões dos locais de votação no domingo, dele quase nem conseguir chegar à mesa e cair agonizante, de só acordar dez dias depois dos resultados. Ao despertar assustado, saiu à rua ainda convalescente famélico a perguntar agoniado a um e a outro o resultado do segundo turno. Ao tomar ciência da primeira resposta, não acreditou e insistiu na pergunta a quem passasse: Não é possível, não é possível! Isso não pode ter acontecido! Uma tragédia! Não pode! Ainda foi visto noite adentro a desaparecer entre as sombras da madrugada e só retornar ao lar três dias depois, para arrumar as coisas dentro de casa e tacar fogo em tudo, sumindo para, novamente, nunca mais vê-lo. Tudo naquela casa, os montes de livros, materiais de pesquisa, instrumentos musicais, móveis e utensílios, tudo reduzido às cinzas. No muro uma inscrição agarranchada: meu testamento. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
Tens um gosto de tormenta nos lábios
— Mas por onde andaste
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
— Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos
— Mas por onde andaste
Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.
Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.
Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste
De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
Poema Marinha das rochas, do poeta grego e Prêmio Nobel de Literatura de 1979, Odysséas Elýtis (1911-1996).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista cubano Wifredo Lam (1902-1982).
Veja mais aqui.

AGENDA:
Coletivo Literarte, 17/11, das 14 às 20hs, no TUC – Travessa Nestor de Castro – Centro – Curitiba – PR & muiro mais na Agenda aqui.
&
Mais doutor Zé Gulu aqui, aqui, aqui e aqui.
&
Aos vivos que restam dos mortos, George Bernard Shaw, Ismael Nery, Odette Aslan, O Trem de Bonito, Paulo Dantas Saldanha, As sucatas de Ana Tatit & Maria Silvia Monteiro Machado, Lia Vieira, Maurício Melo Júnior, Poesia Revista, Márcio Montarroyos, Ana Rucner, Roberto Szidon & Natalia Gutman aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora, compositora e instrumentista Joyce Moreno: Cool, Tardes Cariocas, Bossa Nova no Cena Musical & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, novembro 01, 2018

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO, JEAN ABSIL, JEFF KNECHT, VELÓRIO POÉTICO & RISADINHA


A FELICIDADE INCOMODA – Imagem: Laughter, do artista estadunidense Jeff Knecht - Risadinha ria à toa, até no nome: Zé Riso – nome que a mãe lhe dera logo ao nascer: Esse menino já nasceu sorrindo. Para os pais era uma desgraça, mas ele mudou a sorte de todos ali, não fosse algum tempo depois consumidos pelas labaredas do canavial. De vera a criança era uma simpatia, mesmo órfão, sem parentes nem aderentes, nunca fizera questão por nada. Adorava brincar e se o enrolavam, ele ria; se tomavam seu brinquedo, brincava de outro jeito na maior alegria; e brincava com todos, até ninguém querer mais nada com ele, cheios da sua hilaridade. Sempre animado na vida, lá estava ele adolescente numa sala de aula. Uma professora inchada não foi com a sua cara: Está mangando do quê? Nada. Deixe de ser debochado com essa cara lisa! Mas professora... Mas nada, de castigo. Palmatórias, ajoelhado em milhos secos, face para a parede. E lá ia ele todo contente no fim da aula, assobiando. Isso quando não era suspenso pela reincidência e findar expulso duma vez por todas, abrigando-se noutra escola. A injustiça causou revolta na turma: O que deu da professora perseguir Risadinha? Isso se repetia de sala em sala, onde fosse estudar. Com o tempo, os colegas deram-lhe as costas: Vai ser leso assim na China, desgraçado! Morava sozinho, preparava sua própria comida, arrumava a casa, ajeitava tudo. Entre a escola e o lar vivia ele, quando uma paquera que queria namorá-lo, resolveu abrir mão dele: não suportava aquela felicidade todo dia e o dia todo. Rejeitado para lá, achincalhado para lá, se alguém precisasse dele, estava ali prontinho para servir. Alguém chorasse, dava o que tivesse nos bolsos, a roupa do couro, o teto, a mesa, o que tivesse. No primeiro emprego, assim que começou todos achavam tão divertido: Você é leso? Não, sou feliz. Dizia ele, sempre fora feliz, chovesse canivetes ou fizesse Sol de rachar tudo. Acontecesse o que fosse, sempre às gargalhadas. Não havia tempo ruim pra ele. Fosse piada ou apenas um oi, de risota pras cascalhadas, folgado todo. As suas gaitadas incomodavam a muitos que o tacharam logo de cínico, ele nem aí. Outros tantos o odiavam, sempre sereno. Ô Risadinha, vai ver se estou lá na esquina! Ele ia todo folgazão, na maior. Diziam desaforos na cara dele, ele nem nem. Armavam de tudo: Quero ver esse traste lascado! Culpavam-no por tudo que acontecesse: Isso é um azarão desgraçado! E ele com a cara mais jocosa do mundo, como se nada tivesse acontecido. Ameaçavam: Vou encarcar nesse fidapeste, quero vê-lo motejar, vá! Tire esse cinismo da cara, vá! Ué? Você tem sangue de barata é? Foi aí que chegou o tempo que todo mundo queria encrencar com ele: Larga de ser abestalhado, cara! Deixa pra lá, isso é uma toupeira de tão idiota. Até o delegado invocou-se mesmo e prendeu-lo por desacato: Enquadra esse meliante por desacato, estava mangando da minha cara! Um escrachado sem-vergonha. Você é um dissimulado! Sou não, senhor. Lascaí nesse apenado: palhaço! Quero ver ele sair da cadeia nem tão cedo. Passava um gritava: Cadê o cômico? Outro: Burlesco fi-duma-égua! Ele era só risonho, ninguém entendia que ele era só feliz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Todos os rios levam ao mistério. Do Aar ao Zweitt. Do Orinoco ao Deseado, passando pelo Oiapoque e pelo Chuí. Do Negro ao Branco. Do Madeira ao Prata. Do Grande ao Chico, o das Antas, o das Velhas, o dos Macacos, o das Mortes. O rio da vida, senhoras e senhores. Segurem-se até passarmos as pororocas. Aqui o Amazonas recebe as águas do seu maior afluente, o Atlântico. Aqui o Nilo muda de nome e vira Mediterrâneo. Por esta boca o Mississipi expeliu Cuba, Porto Rico e todas as ilhas das Caraíbas. Aqui termina o Tejo e começa o mundo, uma obra de Camões. Aqui começa o nosso tour. Rio acima. Observem como, de onde estamos, vemos passar as margens de ambos os lados... engano, somos nós que passamos. Protejam a cabeça do sol e meditem sobre a finitude humana. Será servido um lanche antes de passarmos a fábrica de celulose, porque depois ninguém conseguirá comer. À esquerda, uma usina nuclear. Vejam os peixes fosforescentes. Vejam os banhistas fosforescentes. Não ponham a mão na água se não quiserem perdê-la. À direita, boiando, alguns mendigos. Prisioneiros de mãos amarradas. Vários fetos. Sapatos. Urinóis. Pneus. Sinais de civilização. Uma nota pessoal, senhoras e senhores. Aquela casa na margem direita é minha. Tinha um coqueiro do lado que, coitado, de saudade, já morreu, e o videoshop do outro lado, claro, é novo. Aquela é a minha família, e aquele menino com água pela cintura, abanando para nós, sou eu. Mas isto também já passou. Rio acima! O garoto abandonado naquele barco é Huckleberry Finn. Abanem, abanem, aquela figura que acaba de mergulhar no rio do galho de uma árvore é Tarzan. Vejam como um jacaré se aproxima. Os dois se engalfinham. Não se preocupem, Tarzan vencerá. Na margem direita, um lobo e um cordeiro conversando. Da margem esquerda, João Guimarães Rosa contempla a terceira margem. O bebê flutuando dentro da cesta é Moisés. Estamos no Rubicão! Porcaria, pois não? Vocês notarão que muitos rios históricos não merecem o nome que têm. O Danúbio, veremos mais adiante, não é azul. O Vermelho é marrom. O Amarelo é cinzento. O Mekong é vermelho de tanto sangue. Rio acima. Estamos no Tâmisa. Agora no Avon. Aquele ali na margem, pensativo, é Shakespeare. Vejam, no meio do rio, rodeada de flores, mantida à tona pelas suas vestes infladas, a doce Ofélia. Abanem, abanem. Eu não disse que este tour tinha de tudo? Agora preparem suas câmaras. Aí vem, na sua barcaça imperial, Cleópatra descendo o Nilo. Rio acima. Estamos no Reno, no Yang-tze, no São Francisco, no Tigre, no Eufrates, no Volga, no Jordão. Aquela cena vocês realmente vão querer fotografar, João Batista batizando Jesus. Estamos no Ganges. Onde os vivos despejam os seus mortos e depois se lavam. O rio é sempre o mesmo e nunca é o mesmo. A água que purifica é a mesma que recebe o esgoto ácido. A água que mata a sede é a mesma que afoga, a que passa e não passa. O rio é a Portela. À direita, Paulinho da Viola. Aquela cabecinha de nadador ali é a do Mao. Galhos, troncos, casas, gado, canoas, viradas, quatro com timão e sem timão – e uma fábrica inteira rebocada do Japão! As águas começam a ficar lodosas. As grandes árvores se tocam sobre o rio. Estamos no Congo, a caminho do coração das trevas. Da fonte obscura de tudo. Mistah Kurtz, he dead. O cheiro azedo limo e fósseis. O horror, o horror. O mar está longe, chegamos à nossa vertente. E a origem de tudo não é mistério, é um buraco no chão. Há outros rios debaixo destes, e é para lá que vamos um dia. Rio abaixo. A gorjeta é voluntaria, obrigado.
Rio acima, extraído da obra Novas comédias da vida privada: 123 crônicas escolhidas (L&PM, 1996), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luís Fernando Veríssimo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista estadunidense Jeff Knecht.
Veja mais aqui.

AGENDA:
Velório Poético 2018 – ação cultural idealizada pelo artista Sílvio Hansen, com recital de poesia, artes plásticas e performances – Sexta, dia 02, das 17 às 18hs, Rua da União, 88 – Boa Vista – Jardim Interno do MAMAM & muiro mais na Agenda aqui.
&
O que sou de todas as coisas, Lima Barreto, Lampião & Luís da Câmara Cascudo, Geni Guimarães, A Praieira em Água Preta, Michel de Certeau, Luci Giard e Pierre Mayol, Pintando na Praça & Biblioteca Fenelon Barreto, Almeida Prado, Viviane Hagner, Hans-Joachim Koellreuter & Ophélie Gaillard aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do compositor e professor belga Jean Absil (1893-1974): Brazilian Raphsody for Orchestra, Suite for Guitar, Symphony 2 e 4 & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.


ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...