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quarta-feira, julho 11, 2018

TCHÉKOV, GÓNGORA, PÊCHEUX, MCLUHAN, FÁTIMA GUEDES, LOURDES SANCHEZ, HISTÓRIA DA HUMANIDADE & ZÉ CORNINHO


A ZOADA DO PADROEIRO – Imagem: arte da artista visual Lourdes Sanchez - Quando Zé-Corninho resolveu contrair núpcias pela primeira vez na vida, a escolhida foi Maria Fulustreca. Depois de muito escolher, tirar no ímpar ou par, jogar nas cartas, atirar na sorte, decidiu-se pela contemplada: uma reboculosa barraqueira de marca maior. Ele nem aí. Foi providenciar o casório, porém, a cidade estava sem pároco. Teve que esperar. O padre Quiba deu então as caras e assumiu a paróquia com um grande problemão: não tinha padroeiro. Um escândalo. Como é que pode? A chegada do eclesiástico causou uma revolução, convocando todos os fieis depois de duzentas baladas nos sinos da matriz, para eleger aquele que representaria a cidade dentro da hagiologia, tudo como manda o figurino. Todas as outras atividades estavam suspensas, não haveria missa nem batizado, muito menos casamento. Virou uma celeuma. É que o anterior vigário, adepto das ideias do papa João XXIII, preferiu manter a cidade em paz com pastores, espíritas, catimbozeiros e afins. Tanto que ele ia pros cultos todas terças e quintas, botava mesa branca na quarta, batia bombo todas as sextas, afora ser maçom de toda segunda ir pra loja e ligado às escolas de mistério e ocultismo nos finais de semana, realizando, ao mesmo tempo, as missas que contavam com a presença de todos os representantes das outras religiões locais e da região. A cidade de Alagoinhanduba, até então, um exemplo de concórdia, tanto que tinha o menor índice de violência do país, nem morria gente, não havia doente, nem ninguém se queixava disso ou daquilo, todos participavam tanto dos clubes de serviço, como de todas as entidades religiosas. Com a morte do clérigo quando ele estava de férias na Itália, o padre Quiba viera substituí-lo e embroncou com essa promiscuidade, exigindo não só a adoção de um padroeiro, como acabar de vez com esse conluio religioso. Virou um escarcéu. Fiéis convocados e, como não entravam em acordo por um ou outro santo, decidiu-se na marra que seria São Benedito por ser dia 05 de outubro. O padre Quiba recusou-se ser pároco de um representante preto e que já fora preso numa cidade da vizinhança, pois, isso seria um vitupério. Logo Bidião que à época era marido das freiras, ao ver o santo enjeitado, acoloiado com os da sua laia, desenvolveu campanha ruidosa pró São Benedito, tendo o bode Frederiko como cabo-eleitoral. A coisa pegou fogo, até segurarem o sacerdote pela beca, encostaram-no a um canto da parede com ameaças ao calão e ficou tudo dito pelo não dito. Era hora de organizar a festa, a mundiça tomou conta, aos rojões e outros pipocos mais exagerados, coroando tudo com o casamento do Zé-Corninho e Maria Fulustreca. O religioso botou o pé atrás e, sob a mira das iras mais cabeludas, fez discurso destemperado com os mais veementes protestos e, no maior das risadagens e magações, consagrou furiosamente os nubentes a serem infelizes para todo o sempre com um eu te benzo, eu te curo e sai pra lá comboio de pecadores, cruz-credo. Pronto, Alagoinhanduba tinha pela primeira vez um padroeiro e um casamento de verdade que não durou nem três meses, porque a esponsal fugiu com o primeiro que lhe deu a mão numa boleia de caminhão. O padre revoltado sumiu, só retornando cagando-raio e invocando a inquisição para moralizar aquela perdição toda. Mas isso é outra história que passa de ganso pra pato, daí pra marreco e cobra pra cachorro, de gato pra jumento e todos os bichos, inté mais ver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais  aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e compositora Fátima Guedes: Muito intensa, Grande Tempo, Pra bom entendedor & show ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] É a ideologia que fornece as evidências pelas quais “todo mundo sabe” o que é um soldado, um operário, um patrão, uma fábrica, uma greve, etc., evidências que fazem com que uma palavra ou um enunciado “queira dizer o que realmente dizem” e que mascaram, assim, sob a “transparência da linguagem”, aquilo que chamaremos o caráter material do sentido das palavras e dos enunciados[...]. Trecho extraído da obra Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio (EdUnicamp, 1995), do filósofo francês Michel Pêcheux (1938-1983).

A HOMOGENEIZAÇÃO DA ATUALIDADE - [...] a homogeneização dos homens e dos objetos vai se tornar o grande objetivo da era de Gutenberg, como fonte de uma riqueza e de um poder que não conheceram nenhuma outra época e nenhuma outra tecnologia. [...]. Trecho extraído da obra A galáxia de Gutenberg: a gênese do homem tipográfico (Galimard, 1967), do educador, filósofo e teórico da comunicação canadense Marshal McLuhan (1911-1980), que em outra de suas obras, Laws of media (The New Science, 1988), expressou que: [...] Não faz qualquer diferença se consideramos como artefatos ou como objetos midiáticos coisas de natureza tangível “hardware” como tigelas e tacos ou garfos e colheres, ou ferramentas e aparelhos e máquinas, ferrovias, naves espaciais, rádios, computadores, e assim por diante; ou coisas de natureza “software” como teorias ou leis da ciência, sistemas filosóficos, remédios ou mesmo doenças na medicina, formas ou estilos na pintura, ou na poesia, ou na dramaturgia, ou na música, e assim por diante. Todos são igualmente artefatos, todos igualmente humanos, todos igualmente suscetíveis à análise, todos igualmente verbais nas estruturas [...] Então, as costumeiras distinções entre artes e ciências, coisas e idéias, entre físico e metafísico são dissolvidas. [...]. Veja mais aqui.

O VINGADORLogo depois de haver surpreendido sua mulher no lugar do delito, encontrava-se Feodor Fedorovich Sgaev na loja de armas de Schmuks & Cia., a escolher o revolver que melhor lhe pudesse servir. Seu rosto expressava ira, dor e decisão irrevogável. [...] Não havia ainda escolhido o revolver e nem sequer assassinara alguém, mas na imaginação já se lhe apresentavam três cadáveres ensanguentados, de crânios triturados, os miolos a flutuarem... [...]. Isto é o que farei – pensou. – Matarei a ele e a mim em seguida, porém ela... deixarei viver. Que morra de arrependimento e do desprezo dos que a cercam! [...] Devo imaginar algo mais prudente e sentimental. Castigá-los-ei com meu desprezo e encetarei escandaloso processo de divórcio. [...] uma vez tomada aquela decisão, Sigaev não mais necessitava de revolver. Em compensação, o empregado cada vez mais inspirado, não cessava de mostrar-lhe os artigos, que tanto elogiava. O marido ofendido envergonhou-se de que, por sua causa, o sujeito estivesse trabalhando em vão, a entusiasmar-se e a perder tempo. – Bem – balbuciou. – Será melhor que eu volte mais tarde ou mande alguém... Conquanto não visse a expressão do rosto do empregado, compreendeu que, para suavizar a violência da situação, não havia outra saída que comprar algo. Porém, o quê? Seus olhos percorreram as paredes da loja, em busca de uma coisa barata, e se detiveram numa rede de cor verde, pendurada junto à porta. -  É isso? Que é isso? – perguntou. – É uma rede para caçar codornas. – Qual é o preço? – Oito rublos, “Monsieur”. Por pode embrulhar. O marido ofendido pagou os oito rublos, passou a mão na rede, para levá-la e cada vez mais ofendido, saiu da loja. Conto do dramaturgo e escritor russo Anton Tchékov (1860-1904), extraído da coleção Maravilhas do conto humorístico (Cultrix, 1969), organizada por Mariano Torres. Veja mais aqui e aqui.

ROSA VÃ - Ontem nasceste, e morres amanhã. / A teu ser tão fugaz quem lhe deu vida? / Para viver tão pouco estás luzida, / e para não ser nada, tão louçã? / Se te enganou a formosura vã, / bem depressa a verás desiludida, / porque em tua beleza está escondida / a ocasião de morte temporã. / Quando te corte uma robusta mão, / que é lei da agricultura permitida, / grosseiro alento acabará tua sorte. / Não saias, rosa, aguarda-te um vilão. / Adia teu nascer para esta vida, / que teu ser antecipas para a morte. Poema

HISTÓRIA DA HUMANIDADE
Como hoje é o Dia Mundial da População, lembrei-me dum filme que assisti trocentos anos atrás: o drama fantasia A história da humanidade (The Story of Mankind, 1957), dirigido pelo produtor estadunidense de cinema e televisão, Irwin Allen (1916-1991), contando a história de um conselho de anciões que estão deliberando se a humanidade deverá sobreviver ou não, com enfrentamento entre um anjo e um demônio debatem sobre a raça humana, com apresentação de uma série de episódios da história da humanidade. No elenco constam os irmãos Marx, Virginia Mayo, Marie Windsor, Hedy Lamarr, entre outros.

III Congresso de Filosofia da Educação - Escola: problema filosófico & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual Lourdes Sanchez
Veja mais aqui.
&
As muitas outras do Zé-Corninho aqui, aqui e aqui.
&
O rato, a cotia e o cachorro, Elogio ao ócio de Bertrand Russel, a coreografia de Doris Uhlich, a arte de Laura Knight, a música de Leila Pinheiro, Luiz Melodia, Marisa Monte & Jards Macalé aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


segunda-feira, fevereiro 26, 2018

ELIOT, ROMAIN ROLLAND, GUATTARI, CARLOS MALTA, ROBERTO CREMA, CAGLIARI, KAREN MENATTI, NATASHA KORSAKOVA & ALYSSA MONKS

LENDAS, FACÉCIAS & LOAS DE ALUMBRAMENTO – Imagem: arte da artista plástica e visual estadunidense Alyssa Monks. UMA: O MALOGRO DA PRINCESA DE BAMBULUÁ – Tantas diziam da Gruta da Pedra que, de tanto ouvir, um dia fui tirar a limpo. Não pensei que fosse tão longe, andei que só, o dia pela tarde e já escurecendo cheguei ao local. Estava tão cansado que resolvi tirar um cochilo para me refazer da caminhada. Acordei no meio da noite escura com uma visagem: o rosto de uma linda mulher me pedindo socorro. Eu me assustei, ora, não era pra menos, só via-lhe o rosto, mais nada, pedia-me para salvá-la. Isso é coisa doutro mundo, só pode. O medo me paralisou, não tinha pra onde correr. Segurei na coragem e perguntei: Como posso salvá-la? Entre na gruta e lá tem tudo que precisa. Hum, hum. Entrar na gruta, essa não estava nos meus planos, pensei que fosse coisa mais fácil. Destá. Já que estava ali, resolvi atender, entrei na gruta e logo divisei um banquete com tudo do bom e do melhor. Tomei um banho morno que já estava pronto, jantei uma ceia das mais lordes e me deitei na rede esperando o que poderia acontecer. Logo ela reapareceu e me disse que à meia-noite eu deveria subir a serra e me deitar embaixo da árvore que tem lá. Ih, está piorando. Aí ela falou, contou disso e daquilo e me convenceu. E aconselhou que lá, ao me deitar, eu não deveria fazer nada, nem me defender, deixasse acontecer, não gritasse, não me levantasse, nem fizesse nada, haja o que houver, deixe que lhe empurrem rolando até embaixo, chegando aqui estará a salvo. Arrepara só a roubada! Pensei desistir, porém ela aparecia chorosa com minha covardia: Você não é homem não? Olhei pra ela, pronto pra desistir, mas não sei o que me deu, sustentei na vera. Eu me arrependi duzentas e cinquenta mil vezes, porém minha boca dizia outra coisa, acho que eu estava enfeitiçado por ela, só sendo. Assim foi, cumpri à risca: à meia-noite deitei-me embaixo da árvore da serra, mal cochilava e logo ouvi uma zoada de vozes e risadas, tremi que só vara verde e não demorou muito fui açoitado, espancado, empurrado, aguentei tudo calado até ver-me salvo diante da gruta. Vitimado pela sova, passei uns dias sendo cuidado não sei por quem, sei que me deram de comer e beber durante toda convalescença. Restabelecido, a visagem reapareceu: Está pronto pra hoje de novo à meia-noite? Claro que não, eu queria era arredar dali, mas o que eu disse: Estou. Pode? E assim fui mais uma vez escorraçado por espíritos malignos e zombeteiros. Por três vezes fui desmantelado pelo abuso desses malefícios e quase desfalecido, finalmente, a linda princesa apareceu desencantada: de corpo inteiro. Confesso que já estava desenganado, pedindo penico e pronto pra morrer. Era muito linda, e como era. Tem jeito? Eu pensava não e só dizia sim. E depois que ela me paparicou foi que eu percebi que valeu a pena todo sofrimento. Será? Ela, então, me disse: Você agora é o meu noivo. Amanhã vou para Bambuluá fazer os preparativos pro nosso casamento. Daqui um ano eu volto para lhe buscar. Você ficará com a idosa professora para aprender a língua dos pássaros e o que for necessário para você se tornar um príncipe. Como é? Explicou, repetiu e eu com a maior cara de besta: Acha que vou cair nessa? Caí. E assim ela foi, estudei com afinco – língua de pássaros, pode um negócio desse? Não tem coisa mais difícil não? É tudo só pra me lascar mesmo! -, e lá estava eu no meu aprendizado, firme e determinado. Não sei o que houve, no dia aprazado pro retorno dela, eu dormi três dias e três noites. A velha professora me disse que ela não me queria mais. Fiquei abatumado com tudo aquilo, chapéu de otário é marreta, mas não desisti, bicho besta que sou, até hoje espero pelo retorno da princesa do Bambuluá. (PS: Historieta apresentada nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore brasileiro, baseadas em material recolhido por folcloristas brasileiros). DUAS: REVELAÇÃO DA QUEDA - Pra quem for primeiro, me chama que eu vou. Pra quem ficou, já fui. Há tempos apostei o coração à própria sorte, lugares que nunca estive, vozes que nunca ouvi. De resto a minha carne cansada entre a carga e o alívio, o sacrifício e o prazer, a fortuna e a miséria, cacos de vidro, vísceras, talhos, calafrios, eu só tenho a palma da mão exposta para nada, a planta dos pés sem ter para onde ir, os poros da pele sem saber o que fazer. Entre ignaros e incautos eu me fiz pedaços e perdi as estações, os pontos cardeais, nunca se sabe, deixei para trás a promessa do amanhã inventando asas teimosas, um dia pra ir e nunca mais voltar. Amei demais da conta, caí e me destrocei, refiz tudo e me remendei para desencalhar pessoas, como quem dispensa as paixões obsidentes, como quem releva o conspícuo para singrar o mistério. Foi na minha primeira morte a cada dia que ouvi a alma falar coisas incomuns, obscuridades interiores, simplesmente absurdas, a descoberta de ter estado sempre engaiolado na minha finitude, exposto ao fracasso e à falibilidade, na aflição da minha inutilidade diante de tudo. A voz anímica me ensinou a ir além das lonjuras oceânicas e siderais, além das profundezas do ser e da Terra, a correr o risco da errância, assim ressuscitei no primeiro instante, cônscio de que nada sou, pronto para ser feito. Perdi o medo e era como se o caroço desabrochasse na procriação dos ossos e eu me refizesse para ser outro em mim mesmo, o brotar da alteridade no que me tinha por solidário. Tornei-me inteiro, assim me senti apesar dos meus múltiplos fragmentos perdidos pelos quatro cantos do mundo. Os dias passaram e eu vou em frente pro que vier e seja. TRÊS, A SAIDEIRA: É SEGUNDA, PÉ NA TÁBUA - O que passou, passou! Agora é outra vez, assim, tipo ano novo, vida nova. Pouco importa o já feito, agora é só o que há pra fazer e de novo refazer o que sobrou, se é que algo ainda reste depois de tudo. Agora sorrio a memória esvaziada pela contaminação do esquecimento. Mergulhei na água e o meu batismo na purificação do fogo, valho-me apenas da intuição. Aceno pra todos que ficaram e saúdo os que estão embaixo da terra gozando a paz na salvação da chatura de carteiros, intimações, credores e de toda doideira que é este mundo de meu Deus. Agora sorrio plenamente, aprendi com as minhas calamidades: o poeta que nunca fui me ensinou a olhar para as coisas e ações, desde a alvorada ao crepúsculo e da noite pra madrugar novo amanhecer, tudo passa, ficam lições aprendidas ou não. Não mais cair e chorar, eu próprio construí o meu destino entre escolhas pensadas e açodadas. Tudo é muita coisa, eu mesmo faço parte dessa rede de intermináveis ramificações que nem sei onde vai dar, pouco importa. Dou-me bom dia pra sair pro mundo, boa tarde pra prosseguir meu caminho, boa noite pra que tudo renasça amanhã. Vamos, inté. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do multi-instrumentista, composutor, orquestrador, band-leader e educador musical Carlos Malta: Tudo coreto com Coreto Urbano, Tupyzinho com Pife Muderno & Instrumental Sesc Brasil ao vivo; da violinista russa Natasha Korsakova: Autunm and winter Astor Piazzolla, Porgy and bess fantasy Gershwin & Romance Dvorak; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAA felicidade é uma função natural da nossa capacidade de ser inteiros, de ser verdadeiros, de ser tudo o que somos. A tarefa da educação é facilitar que a pessoa seja tudo o que ela é, nem mais, nem menos. Pensamento do antropólogo e psicólogo Roberto Crema. Veja mais aqui e aqui.

CRISE ECOLÓGICA - [...] Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais. Esta revolução deverá concernir, portanto, não só às relações de forças visíveis em grande escala, mas também aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo. [...]. Extraído da obra As três ecologias (Papirus, 1990), do filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês Félix Guattari (1930-1992). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA DO MUNDO - [...] A atividade fundamental desenvolvida pela escola para a formação dos alunos é a leitura. É muito mais importante saber ler do que saber escrever. O melhor que a escola pode oferecer aos alunos deve estar voltado para a leitura. Se um aluno não se sair muito bem em outras atividades, mas for um bom leitor, penso que a escola cumpriu em grande parte sua tarefa. Se, porém, outro aluno tiver notas excelentes em tudo, mas não se tornar um bom leitor, sua formação será profundamente defeituosa e ele terá menos chances no futuro do que aquele que, apesar das reprovações, se tornou um bom leitor. [...]. Trecho extraído de Alfabetização e lingüística (Scipione, 2004), do professor universitário Luiz Carlos Cagliari. Veja mais aqui.

COLAS BREUGNON [...] Os negócios não vão bem. É bobagem se fatigar. Já trabalhei muito na vida. Agora vamos folgar um pouco. Cá estou à mesa, um copo de vinho à minha direita, um tinteiro à esquerda; à minha frente, um caderno novinho em folha me abre os braços. [...]. Sou um bom tratante! Quanto menos tenho, mais tenho. E o sei muito bem. Encontrei um meio de ser rico sem nada possuir, rico dos bens dos outros. Tenho poder sem responsabilidade. Quem falou desses velhos anciãos, que ao serem despojados, depois de darem tudo a seus filhos ingratos, até a camisa e as calças, ficam desamparados, parados, a verem todos os olhares empurrarem-nos para a cova? Isso são os pobres infelizes. Nunca fui, palavra de honra, tão amado, tão mimado quando na minha pobreza. É que não fui idiota de me despojar de tudo, sem nada guardar. É somente a bolsa o que se pode dar? Eu, mesmo dando tudo, guardo o melhor para mim, guardo a minha alegria, o que ajuntei em cinqüenta anos de caminhada, de um lado para outro da vida, o bom humor e a malicia, a loucura ajuizada e o juízo louco. E a provisão está longe de acabar. Abro-a a todos, que todos dela se sirvam! Isso não vale nada?  se recebo dos meus filhos, também lhes dou, estamos quites. E se acontece que um dá mais que o outro, o afeto concorre para equilibrá-los; e no fim ninguém se queixa. Quem quiser ver um rei sem reino, um João sem terra, um feliz tratante, quem quiser ver Breugnon da Gália, que venha ver-me hoje em meu trono, presidindo o festim fervente! É hoje a Epifania. [...]. Trechos extraídos de Colas Breugnon (Delta, 1963), do novelista, biógrafo e músico francês e Prêmio Nobel de Literatura de 1915, Romain Rolland (1866-1944). Veja mais aqui.

SEIS POEMAS1 - O mundo cochila.Dentro de mim. Meu caminho de mato, terra e mar. Quando pequena tinha galinha de estimação. Gato do mato comeu. Noite de tempestade. Mãe ouviu barulho na cozinha, os olhos brilhantes do bicho, relâmpago. ficaram só os dois pezinhos da galinha. Não lembro seu nome. ciscava pelo quintal e bicava a gente. A gente corria. A gente ria. Meus irmãos comiam formiga. Nunca comi.Gostava não.comia fruta colorida do mato e imaginava mundos. Agora adormecem aqui dentro. Depois da tempestade sopra vento pra descanso. 2 –  Antes sofria de poetização crônica. Hoje apenas sofro. / Aqui dentro habita um hiato. Que seja breve. / (Sê) mínima. / Minha secura é tua:se áspero te arranho. 3 - Lá fora céu virou prata, / Cá dentro tinta secou. 4 - Descia pela grama. Ignorava o aviso. Saia e cabelos. Voavam. 5 - Mordeu. Feito manga fiapo nos dentes. / Lambuzou-se rosto, pescoço, mãos. / Escorreu. Peito, barriga, sexo. / Pés inundados. 6 - Poça de gozo-fruta. / Bruta. / Enfim... chão. Poemas da atriz, cantora e poeta Karen Menatti.

CRIME NA CATEDRAL
[...] Côro (Enquanto um Te deum em latim é cantado na distância) Louvamos-te, Senhor, pela tua gloria manifestada em todas as criaturas da terra. Na neve na chuva, no vento e na tempestade; em todas as tuas criaturas, as que perseguem e as que são perseguidas. Porque todas as coisas existem apenas na medida em que as vês, na medida em que as conheces; tudo existe apenas em Tua luz, e Tua glória se manifesta mesmo naquilo que Te nega; como as trevas manifestam o esplendor da luz. Os que Te negam não poderia negar-Te se não existisses; e sua negação não é completa, pois se o fosse eles não existiriam. Vivendo eles te afirmam; tudo o que é vivo te afirma; o pássaro no ar, seja o falcão ou o pardal; os animais da terra,seja o lobo ou o cordeiro; e o verme na terra e o verme nas entranhas. Assim o homem, que criaste para te conhecer, deve conscientemente louvar-te em palavras, pensamentos e ações. Mesmo com a vassoura nas mãos, ou inclinadas sobre a lareira, ou de joelhos lavando o chão, nós, as pobres, as pobres mulheres de Cantuária, curvadas ao peso da labuta, vergadas ao peso do pecado, velando o rosto com o medo, inclinando a cabeça sob a dor, mesmo em nós, os ruídos das estações, o fungar do inverno, o cantar da primavera, o zumbir do verão, as vozes dos bichos e das aves, cantam os Teus louvores. Nós te damos graças pelos Teus dons do sangue, por Tua redenção pelo sangue, porque o sangue de Teus mártires e santos fertilizará a terra, criará lugares sagrados. Pois o lugar onde um santo viveu, onde um mártir deu o seu sangue pelo sangue de Cristo, esse é o chão consagrado, cuja santidade não se apagará. Ainda que exércitos o pisem, ainda que os visitantes venham, munidos de guia, examiná-lo; desde as praias da Iônia que o mar ocidental corroi, até a morte no deserto, às preces em lugares esquecidos, junto das colunas imperiais quebradas, desse chão brita aquilo que eternamente renova a terra, apesar de sempre ser negado. Assim, oh! Deus, Te agradecmos por teres concedido uma tal graça a Cantuária. Perdoai-nos, Senhor, confessamos ser gente comum, da raça dos homens e das mulheres que cerram a porta e se sentam à lareira; que temem a benção de Deus, a solidão da noite de Deus, o abandono exigido, a privação infligida; que têm mais medo à justiça de Deus que à injustiça dos homens; que temem menos a mão forçando a janela, o fogo no colmo do telhado, a rixa na taverna, o empurrão dentro do rio, menos do que temem o amor de Deus; confessamos nossas ofensas, nossa fraqueza, nossa culpa; confessamos que o pecado do mundo recai sobre nós, que o sangue dos mártires e a agonia dos santos recaem sobre nós. Senhor tende piedade de nós. Cristo tende piedade de nós. Senhor tende piedade de nós. Bem-aventurado Tomás, orai por nós.
Trecho extraído da cena final da peça teatral em dois atos Crime na catedral (Delta, 1966), do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
A folia do frevo no meu coração, a música de Nelson Ferreira, a arte de Jae Ellinger, o Frevo & o Galo da Madrugada aqui.
Folia & Frevo, Galo da Madrugada, Mário Souto Maior, Roberto DaMatta, Mauro Mota, Valdemar de Oliveira, Capiba, Orquestra Contemporânea de Olinda, Márcio Melo, Zsa Zsa Gabor & Helena Isabel Correia Ribeiro aqui.
Folia Tataritaritatá, Cecília Meireles, Gregório de Matos Guerra, Camargo Guarnieri, Heitor Shalia, Albert Marquet, Sarah Siddons & Graciela Rodriguez, Priscila Almeida & Lei Maria da Penha aqui.
Folia Caeté, Ascenso Ferreira, Nelson Ferreira, Baco, Frevo, Chiquinha Gonzaga, Teatro & Carnaval, Dias de Momo, Adolphe William Bouguereau, Peró Batista de Andrade & As Puaras aqui.
Quando o sonho é uma canção de amor aqui.
Eu nasci entre um rio e um riso de mulher aqui.
Santa Folia & Cikó Macedo, James Joyce, Charles Darwin, Marilena Chauí, Henri Matisse, Auguste Rodin, Frank Capra, Arto Lindsay, Donna Reed, Mademoiselle George, Acervum, Irina Costa & Graça Graúna aqui.
Amor Imortal, Carnaval, Pedro Nava, Manuel Bandeira, Arlequim & Carlo Goldoni, Carybé, SpokFrevo Orquestra, Luís Bandeira, Hugo Carvana e Chico Buarque, Tatiana Cañas & Claudia Maia aqui.
Alvorada, Capiba, Pablo Neruda, João Ubaldo Ribeiro, Egberto Gismonti, Ricardo Palma, Fernanda Torres, Tsai Ming-liang & Chen Shiang-Chyi, Cristiane Campos, Digerson Araújo, Asta Vozondas, O cérebro autista & Germina aqui.
A troça do Fabo aqui.
Folia Tataritaritatá & o Recife do Galo da Madrugada aqui.
Caboclinhos aqui.
O Frevo aqui.
Auto Maracatu aqui.
Baile de Carnaval aqui.
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Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Slavoj Zizek, Victor Hugo, Martin Baró, Pier Paulo Pasolini, Altay Veloso, Agildo Ribeiro, Silvana Mangano, Maria Creuza & Honoré Daumier aqui.
Murilo Mendes, António Damásio, Benedetto Croce, Pierre-Auguste Renoir, George Harrison, Bigas Luna, Mathilda May & Joyce Cavalccante aqui.
Aijuna, o mural dos desejos florescidos aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica e visual estadunidense Alyssa Monks.
Veja mais aqui.

sexta-feira, agosto 11, 2017

SARAMAGO, FRITJOF CAPRA, HERMILO, INCLUSÃO, ENTRE VERSOS, FLÁVIO MIRANDA & VILMAR CARVALHO

BRINCANDO DE MORRER – Zé-Corninho deu uma banguela na vida e logo engatou primeira numa paixonite nova pra cima duma reboculosa que revirou o seu quengo de pernas pro ar. Oxe, o cabra amorcegou as abundâncias colossais da distinta, de quase vê o tampo voar de tanto alvoroçamento da gamação. Coisa mais parecida com a primeira vez, abestalhado de ficar com os bicos dos beiços às beijocas pra ela. Coitado, logo ele já casado e ajuntado de muitas mancebias tortas e desajeitadas, o que tinha de tapeado na leseira de corno, tinha de bruguelo chamando pai prali e pracolá, douto de safadeza, sobrecarregado de todo tipo de moléstia, fosse blenorragia, gonorréia, cancro, abscessos nos testículos, afora furúnculos e perebas a fole distribuídas a granel do pau da venta ao solado dos pés, coisa de fazê-lo já inoculado para se remediar. Mas lá estava ele no cangote dela, quando, na horagá, o cabra começou a deslizar o disco de embreagem, envernizou e não deu prosseguimento, coisa de incapaz de cumprir seu dever. A mulher abusou-se, chamou na grande e reclamou como é que é. O cara lá, em cima no maior impado, dela perder a paciência e cuspir: ou fode, ou sai de cima! A coisa engrossou dela sair virada na pata choca, ele todo macambúzio, desconfiado e sacando todo mundo só de esguelha pra banda dele. Sai pra lá comboio de enxeridos, sou homem muito machão. Hummmm. Ainda dou no couro, magote de fresco. Hummmm. Um mês, dois, os familiares dela: e aí, quando vai aparecer o neto? Seis meses, um ano, como é, esse neto sai ou não sai? Ih! Pra emprenhar, mô fio, tem que dá umas três peiadas boa por dia. Ou você virou gala rala, hem? Sei não... a desconfiança já andava na geral. Ah, está caiando, é? Vem cá, desgraçado, você tocou na intimidade de mulher menstruada, foi? Se tocou, está impuro, aí nem Jesus do céu que dará jeito nocê, meu amigo. Que nada! Tenho certeza que isso é coisa da mulher, ela nunca me cheirou bem, toda avançadinha! Esse negócio de trabalhar, não dá pra mim, todas são muito donas do nariz e isso é meio caminho andado pra dor de cabeça e pro trupé dar errado. Vá ver, é isso mesmo. Como dizia minha mãe: a boa mesmo, pra valer, tem que se sujeitar ao marido, senão vira titia, uma vitalina de ninguém querer nem pra brincar. Já dizia Catão: mulher é um animal teimoso e descontrolado, tem partes com o diabo, tem que ser mantida na rédea curta, ali, no certinho e apurado, caqueou, pau no lombo ou deixa pra lá que serve mais não. Além do mais, mulher que não embucha, não presta! Mulher pra mim tem que ser virtuosa, casta e sensata. Mas me diga uma coisa: era virgem? Sangrou? É aquela é? Aquilo é um súcubo! Cruz-credo! Pior que Xantipa! Os pecados daquilo não tem penitência, chicoteado ou autoflagelo que dê jeito! Ligue pr’ele não, isso gosta de enredar, vá me conte. Sim? Ah, meu amigo, tome garrafada de melancia triturada com leite de mulher parida de filho homem. Dê pra ela também, se ela vomitar, conceberá; se arrotar, aí, meu, só com outro serviço que esse gorou. E onde achar leite de mulher parida numa hora dessas, hem? Tô frito! O negócio é sério, olhe só: coloque sementes de trigo e cevada em bolsos separados e depois mande a mulher passar nas partes pudendas dela. O que? Isso mesmo, lá nela. Se dois dias depois germinar, ela dará à luz. É tiro e queda. E se o trigo brotar, é menino; cevada, menina. Danou-se! Nem reza forte, despacho, mesa branca, catimbó dos brabos, cueca na caçola pela encruzilhada, não havia jeito. Quando alinhou as ideias, foi providenciar solução definitiva: Ah, doutor Zé Gulu, o senhor que sabe de tudo, pelo amor de Deus, me alumia que estou todo entronchado numa quizília que não tem mais fim. O que já tomei de cachete, chá de todo tipo de coisa que presta e imprestável, já tive troço e num só dia tive dois infartos, afora outros três que quase me mata de morte morrida assim no desassossego. O que o senhor me diz, hem, doutor? Zé-Corminho, se assunte, você tá brincando de morrer, desgraçado? Parece né, doutor? Tome tento, seu menino, isso é lá coisa que se faça! Pois é, doutor, eu não durmo mais, é um azucrinamento dos infernos no meu juízo, passou a fome, num cago mais, mijar até esqueci, estou encruado, enturido e com todo mundo dando pitaco na minha vida, sem falar na desgraçada da mulher assanhada como a praga a praguejar porque o brinquedo aqui não quer dar sinal de vida pra banda dela, como posso com tudo me azoando, me diga, como posso? Ou você manda tudo pra puta que pariu ou vai morrer de tanto azuretamento! Juízo, moço. Sorria, penteie as gaias e vá ser feliz, se puder. Segura a onda, Zé-Corninho, senão o pencó pega e aí babau! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Com o Diretor da Pública Municipal Fenelon Barreto, João Paulo e alunos da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) João Vicente de Queiroz – Água Preta – PE, conversando sobre Hermilo Borba Filho.

POR UMA PALMARES SEM TRABALHO INFANTIL - Quanto mais oportunidade o aluno tiver de ouvir, ver, sentir e escrever, maior será o seu repertório e a sua sensibilidade para compreender o mundo em que vive. Essas produções, sejam elas um poema, um conto de fadas com príncipes, princesas e castelos, uma noticia de jornal, uma reportagem, uma prosa, etc., são experiências fundamentais par a formação do leitor, base para o exercício da cidadania e também para a construção de valores indispensáveis para a vida em sociedade. Ao relembrar Paulo Freire, que nos chamou atenção para a “leitura do mundo”, que antecede a leitura da palavra, podemos afirmar que é por meio da linguagem que o indivíduo reconhece os significados da cultura em que vive, estabelece relações entre as informações e constrói sentido para si e para o mundo [...]. Trecho da apresentação escrita pelo Professor Flavio Miranda de Oliveira para o livro Por uma Palmares sem trabalho infantil: coletânia de poesias de crianças e adolescentes (Instituto Brasileiro Pró-Cidadania/Tenda da Cidadania, 2015).

A TEIA DA VIDA - [...] Defrontamo-nos com toda uma série de problemas globais que estão danificando a biosfera e a vida humana de uma maneira alarmante, e que pode logo se tornar irreversível. Temos ampla documentação a respeito da extensão e da importância desses problemas. Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. Por exemplo, somente será possível estabilizar a população quando a pobreza for reduzida em âmbito mundial. A extinção de espécies animais e vegetais numa escala massiva continuará enquanto o Hemisfério Meridional estiver sob o fardo de enormes dívidas. A escassez dos recursos e a degradação do meio ambiente combinam-se com populações em rápida expansão, o que leva ao colapso das comunidades locais e à violência sistêmica e tribal que se tornou a característica mais importante da era pós-guerra fria. Em última análise, esses problemas precisam ser vistos, exatamente, como diferentes facetas de uma única crise, que é, em grande medida, uma crise de percepção. Ela deriva do fato de que a maioria de nós, e em especial nossas grandes instituições sociais, concordam com os conceitos de uma visão de mundo obsoleta, uma percepção da realidade inadequada para lidarmos com nosso mundo superpovoado e globalmente interligado. Há soluções para os principais problemas de nosso tempo, algumas delas até mesmo simples. Mas requerem uma mudança radical em nossas percepções, no nosso pensamento e nos nossos valores. E, de fato, estamos agora no princípio dessa mudança fundamental de visão do mundo na ciência e na sociedade, uma mudança de paradigma tão radical como o foi a revolução copernicana. Porém, essa compreensão ainda não despontou entre a maioria dos nossos líderes políticos. O reconhecimento de que é necessária uma profunda mudança de percepção e de pensamento para garantir a nossa sobrevivência ainda não atingiu a maioria dos líderes das nossas corporações, nem os administradores e os professores das nossas grandes universidades. [...] Nos ecossistemas, a complexidade da rede é uma consequência da sua biodiversidade e, desse modo, uma comunidade ecológica diversificada é uma comunidade elástica. Nas comunidades humanas, a diversidade étnica e cultural pode desempenhar o mesmo papel. Diversidade significa muitas relações diferentes, muitas abordagens diferentes do mesmo problema. Uma comunidade diversificada é uma comunidade elástica, capaz de se adaptar a situações mutáveis. No entanto, a diversidade só será uma vantagem estratégica se houver uma comunidade realmente vibrante, sustentada por uma teia de relações. Se a comunidade estiver fragmentada em grupos e em indivíduos isolados, a diversidade poderá, facilmente, tornar-se uma fonte de preconceitos e de atrito. Porém, se a comunidade estiver ciente da interdependência de todos os seus membros, a diversidade enriquecerá todas as relações e, desse modo, enriquecerá a comunidade como um todo, bem como cada um dos seus membros. Nessa comunidade, as informações e as idéias fluem livremente por toda a rede, e a diversidade de interpretações e de estilos de aprendizagem - até mesmo a diversidade de erros - enriquecerá toda a comunidade. São estes, então, alguns dos princípios básicos da ecologia - interdependência, reciclagem, parceria, flexibilidade, diversidade e, como consequência de todos estes, sustentabilidade. À medida que o nosso século se aproxima do seu término, e que nos aproximamos de um novo milênio, a sobrevivência da humanidade dependerá de nossa alfabetização ecológica, da nossa capacidade para entender esses princípios da ecologia e viver em conformidade com eles. Trechos extraídos do livro A teia da vida: uma nova compreensão científico dos sistemas vivos (Cultrix, 1996), do físico e escritor austríaco Fritjof Capra. Veja mais aqui e aqui.

INCLUSÃO E TRANSVERSALIDADE - [...] Ao falarmos de inclusão social, portanto, não estaremos nunca nos referindo apenas a um dos lados desta moeda de inestimável valor. A inclusão é dirigida a todos – abolidos aí os “normais” e os “diferentes”. A inclusão é direcionada aos seres humanos. Até porque, os denominados “normais” e “diferentes” possuem os mesmos direitos perante a sociedade, catalogados por leis e declarações universais. Mas a inclusão, como todas as transformações sociais em torno dos direitos humanos que ganharam corpo principalmente a partir da segunda metade do século XX, não pode ser assimilada e assegurada apenas por fatores externos. Ela deve nascer da conscientização, da mobilização e da sensibilização de cada um. Então, o primeiro passo é dentro de nós mesmos. E começa pelo questionamento do que consideramos normal e diferente, para chegarmos ao essencial – o ser humano. Trecho extraído da obra Transversalidade e inclusão: desafios para o educador (Senac, 2009), organizado por Nely Wyse Abaurre, Mônica Armon Serrão et al. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

ECONOMIA DO BRASIL - [...] O Brasil estará incluído, como não podia deixar de ser, entre as vítimas dessa brusca reviravolta da conjuntura internacional. Vã0-lhe faltar os recursos suficientes de créditos e inversões externas que vinham estimulando e assegurando o processamento normal de suas atividades econômicas. E o pais se verá na iminência de situação gravíssima, de conseqüências finais ainda imprevisíveis, mas que começam a despontar e de que já estamos sofrendo o antegosto. Será o resultado de uma inconseqüente política econômica – em termos das reais necessidades do país e da massa de seu povo – que iludida com as facilidades proporcionadas pelo abundante afluxo de recursos externos que uma conjuntura internacional muito mais especulativa que outra coisa qualquer tinha determinado, julgou – ou quis julgar, preferivelmente – que o Brasil entrara em nova etapa de sua evolução econômica, um take-of rostoviano, isto é, a decolagem descrita nos textos ortodoxos da teoria econômica, que em breve período elevaria o país à categoria de grande potência.... A dependência em que se encontrava e se encontra ainda o funcionamento normal da economia, tal como se acha estruturada, do financiamento do exterior, já não para alcançar qualquer coisa que mesmo longinquamente se assemelhe aos enganadores índices especulativa e artificialmente atingidos nestes últimos anos – pois isso nem pode entrar em cogitação -, mas simplesmente para subsistir normalmente, uma tal dependência do financiamento externo pode-se avaliar pela maneira como vem evoluindo e a situação a que chegaram nossas contas externas [...]. Trecho extraído da obra História econômica do Brasil (Brasiliense, 1979), do advogado, historiador, geógrafo, escritor, político e editor Caio Prado Junior (1907-1990). Veja mais aqui.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA – [...] Estavam muito perto do supermercado, em algum destes sítios se deixou ela cair, a chorar, naquele dia em que se viu perdida, grotescamente ajoujada ao peso de sacos de plástico por fortuna cheios, valeu-lhe um cão para a consolar do desnorte e da angustia, este mesmo que aqui vai rosnando às matilhas que se chegam demasiado, como se estivesse a avisá-las, A mim não me enganam vocês, afastem-se para lá. Uma rua à esquerda, outra à direita, e a porta do supermercado aparece. Só a porta, isto é, está a porta, está o edifício todo, mas o que não se vê são pessoas a entrar e sair, aquele formigueiro de gente que a todas as horas encontramos nestes estabelecimentos, que vivem do concurso das grandes multidões. [...]. Trecho extraído da obra Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras, 1995), do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui, aqui & aqui.

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PALMARES
 
Traça o tempo no teu rosto
esta ruga : velhos engenhos,
casarões e ruas são as marcas
da tua história centenária,
louvada incessantemente
por quem te vê,
pelo ângulo de teu suor e sangue,
pelo mistério de tuas entranhas
e simplicidade.
Soturna, tua voz grita de repente,
como num repente de viola,
a sábia rima popular.
Refugia-se o folclore
nas mãos estigmadas
de quem te faz continuar,
quando cultiva fazendo florescer,
quando da navalha busca a doçura
neste ofício tão anônimo
que alimenta tuas raízes mais profundas!
És teu próprio canto.
És tua própria poesia.
Tua rima mais concisa.
Tua consciência.
Teu povo mantendo,
nesta ruga do tempo,
a marca talvez triste,
mas legítima, pois se eterniza
no açúcar que tudo te custa :
paisagens, almas e crenças !
Poema do escritor e professor Vilmar Carvalho, autor dos livros Escritos: história, literatura e cultura letrada (Scortecci, 2008), Bordel Barroco: alegoria de Epicuro Soares (Bagaço, 2011), Letrados e ufanos: história do Club Litterario de Palmares 1882-1910 (Bagaço, 2011), O poeta que virou estante (Bagaço, 2011), entre outras obras, editor do blog História, prosa e poesia. Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
ENTRE VERSO DE LUCIAH LOPEZ
Também neste sábado, 12/08, das 15 às 17hs, no Solar do Barão, lançamento do livro Entre Versos: a palavra branca é nua, da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez, no sarau Café, poesia & canção, de Siomara Reis, em Curitiba - PR. Veja mais aqui, aqui & aqui.

domingo, fevereiro 14, 2016

BIG SHIT BÔBRAS, ZÉ-CORNINHO & MARK TWAIN



BIG SHIT BÔBRAS – Eita! Eis que Zé-Corninho viu-se desprezado. Pudera, a parelha das provas na clausura da mansão debandou prum dos cafofos num ménage a trois com o padre Bidião que aterrissou do seu disco voador nesse instante, deixando-o mais enjeitado e, ainda por cima, ressentido com as dores da mordida do guenzo no seu pingolin.

- Vô ficá cum capado agora, é? -, reclamou a catraia parceira dele: - O vira-lata comeu o consôlo! Num sô igreja pra vivê di caridade! Tô vivinha, morri não! -, e arribou pras bandas do padre.

Pois é. Vai brincar com quem está quieto, dá nisso. Nessa hora aparece o Doro com uma careta ocrídia por causa dum galo no quengo, provocado por uma pilãozada da patroa diante do seu atrevimento de soltar uma pilheria picante com uma das beldades que passava seminua nos corredores, perguntando ao desamparado solitário o que sucedia:

- Qué qui tais fazendo aí, rapaize?

- Mi deixe quéto! -, respondeu-lhe Zé-Corninho contrariadíssimo.

Robimagaive que vinha ajeitando a braguilha, virou-se pro Doro e tascou:

- Êssi hômi qué sê um sheik das Arábias pra se metê cum harém. Resultado: uma tuia de gaia que fica futucando e dando curto-circuito no juízo. É isso qui dá querê sê o calang0-fudedô.

- Dêxa o gaiudo em paz, rapaize! -, reprovou Doro.

- É isso qui dá tê amigo safado! -, reclamou Zé-Corninho arrematando: - Pruiso qui digu: amigo é só pra cu de outro.

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Quando você precisar de um amigo, já será tarde demais para arranjar um.
(Mark Twain).  Veja mais aqui, aqui e aqui.


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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...