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sexta-feira, janeiro 25, 2008

MILLÔR, MÁRIO CHAMIE, RUSSEL, CAIO PRADO JUNIOR, ANTÓNIO DAMASIO,JEANNE LORIOZ, LOURENÇO LEITE, NEUROCIÊNCIAS & BIG SHIT BÔBRAS


 
A arte da artista plástica francesa Jeanne Lorioz.


BIG SHIT BÔBRAS: A CHEGADA, PRIMEIRA EMBOANÇA. - Arte: Derinha Rocha - Todos traziam a expectativa de se aboletarem numa mansão ou castelo, ou coisa desse porte. Nada, deram de cara com um sobradão esburacado, encardido e com um labirinto carregado de teia de aranhas, a ponto do Doro cantarolar “Saudosa maloca” em sua homenagem. - Ôxe, a gente pensa que vai prum porreta dum paraíso e chega num traste de inferno chocho desses, ora! -, queixou-se enfático Zé Bilôla. Ainda mais não havia ninguém na estréia para recepcioná-los com vivas e salvas. Entraram no recinto mais murchos que cravo em dia seguinte de enterro, parece que adivinhando a roubada em que se meteram. Cada qual foi se arranchando como podia, criando o seu próprio cafôfo. O padre Bidião não perdeu a oportunidade e, de sopetão, sacudiu a sua fiel escudeira, Prazeres-do-Céu, largando magriço imbróglio brabo no meio da sua onomatomania e com gestos de benzeduras e aleluias, santificou o ambiente com uma cerimônia demorada e um discurso inaugural da Igreja Bidiônica da Salvação Arretada! Todos se ajoelharam e cada qual, a seu modo, agradeceu aos céus e à vida a oportunidade daquilo. Até então, apesar do pesadume, todos estavam concordes e acolhedores. Foram se ajeitando nos cômodos do sobrado. Daí foram surgindo as tranqueiras, monturos, bocejos, pigarros, cuspidas, chulés, caçolas, trochas, nojeiras, arrotos, soluços, cochilos, peidos, espirros, coceiras, esfregões, gemidos, roncos, amolegamentos, alisados, halitoses, fungados, carniças, assoamentos, sovaqueiras, alisados, risadagem, resmungos, muxoxos, amundiçamento, fuxico, macacada, enredamento, presepada, fumaceiro, caboetagem, barroada, beliscão, cascudo, tapa-olho, desmunhecamento, tabefe, maloqueragem, umbigada, viadagem, pisada, munhecagem e muita mundiça. Lá pras tantas, cada um na sua, eis que Zé-Corninho aparece no salão com a sua tanguinha mamãe-quero-ser-gay que mais mostrava do que escondia suas partes pudendas, completamente engasgado com a sua perereca. Foi uma correria. Um bufe-bufe desgraçado nas costelas do obnóxio dele quase botar todos os bofes pra fora. Magoou a sua escoliose, agora além do quengo zonzo e engalhado, todo espinhaço empenado. - Ô, matchomen, tu quer morrer, desgraçado!? -, largou esculacho o Robimagaiver. Zé-Corninho não podia nem falar de tão estropiado. Quando o amontoado se desfez, cada qual procurou se enturmar. As mulheres mais gregárias, conferindo que não havia piscina no terreiro, se ajuntaram ao redor do cacimbão. Foi quando Vera teve um faniquito e tascou sua primeira convocação lubambeira: - Gente, como esse merdeiro mais parece o sonho de uma mula no cacimbão, vamos aproveitar o desacerto e organizar nossa sociedade feminista. Virou um sarrabulho da porra, maior estripulia. Como primeiro protesto ela fez com que todas a retirassem sutiã e calcinha propondo a liberdade sexual sem macho para azucrinar. Maior ovação. E sentenciou: - Aqui num vai ter sexo! Os machos que se virem! Enquanto do outro lado do terreiro a macharia estava coçando saco e jogando conversa fora, quando deram fé naquilo, foram unânimes em admitir que a roubada fez estrago e deu de feder virando maior gaveta-de-sapateiro. Aí, Doro, como sempre, teve uma luzinha acesa no quengo e achou de se aproveitar da ocasião para melhor embasar sua candidatura. Eis que ao vê-lo todo folgado, a Marcialita, zagueira vigilante com sua pogoniase, sacudiu maior carão dando uma beliscada na sua micula: - S´aquiete, estrabulega, sossegue esse facho sinão, sinão. Foi quando o patrocinador do evento, o FECAMEPA apareceu com brindes, comes & bebes, para anunciar as primeiras tarefas da trupe. E aí começa toda remoeta. Vamos nessa! Segura aí que vem mais. VEJA MAISBIG SHIT BÔBRAS


PENSAMENTO DO DIA – [...] Haverá sempre algo a dizer de algo que foi dito e do que não foi dito. Há sempre um dito e não dito [...]. Pensamento extraído da obra Ensaio sobre a mitologia grega como introdução à filosofia (SCT/FCE, 2001), do professor Lourenço Leite.

PALAVRAS E SIGNIFICADO - [...] Quando chegarmos à consideração de verdade e falsidade, veremos quão necessário é evitar supor um paralelismo muito estreito entre os fatos e as frases que os afirmam. Contra esses erros, a única salvaguarda é ser capaz, vez por outra, de descartar as palavras por um momento e contemplar os fatos mais diretamente através das imagens. Os progressos mais sérios no pensamento filosófico resultam dessa contemplação relativamente direta dos fatos. Mas o resultado temde ser expresso em palavrass, para ser comunicável. Os que têmuma vida relativamente direta dos fatos são com freqüência incapzes de traduzir a sua vsão em palavras, enquanto os que possuem as palavras perdem normalmente a visão. É em parte por esta razão que a mais alta capacidade filosófica é tão rara: ela implica uma combinação de visão com palavras abstratas, o que é difícil de conseguir e rapidamente se perde nos poucos que a conseguiram por um momento. [...]. Trecho extraído da obra Análise da mente (Zahar, 1976), do filósofo, matemático e pensador inglês Bertrand Russel (1872-1970). Veja mais aqui.

MILAGRE BRASILEIRO – [...] o que os dados de nossas contas externas evidenciam é a marcha cada vez mais acelerada para a insolvência [...] como suas graves conseqüências imediatas, entre as quais se destacam os “atrasados comerciais!” de que já tivemos no passado pequenas e momentaneas experiências [...] a perspectiva da perda do que ainda sobra de autonomia econômica e livre disposição de nossos recursos. [...] o que vai sobrar desse breve surto de atividades econômicas verificiado no decurso dos últimos anos é muito pouco, quase nada, em termos de contribuição efetiva e solidamente alicerçada para um real progresso e consistente desenvolbimento fututo do país [...]. Em conclusão, o “milagre” brasileiro não passou de breve surto de atividades estimulado por conjuntura internacional momentânea e fruto de circunstancias excepcionais. [...] o Brasil retorna à sua medíocre normalidade amarrada ao passado. Com a agravante agora de fazer frente ao oneroso cursto de seu instante de euforia e sonho de seus dirigentes com um Brasil “plenamente desenvolvido” e “grande potência” a curto prazo. Trechos extraídos de História econômica do Brasil (Brasiliense, 1979), do advogado, historiador, geógrafo, escritor, político e editor Caio Prado Junior (1907-1990). Veja mais aqui e aqui.

HIERARQUIA - Diz que um leão enorme ia andando chateado, não muito rei dos animais, porque tinha acabado de brigar com a mulher e esta lhe dissera poucas e boas. ( ou seja, muitas e más). Eis que, subitamente, o leão defronta com um pequeno rato, o ratinho mais menor que ele já tinha visto. Pisou-lhe a cauda e, enquanto o rato forçava inutilmente para escapar, o leão gritava: “Miserável criatura, ínfima, vil, torpe; não conheço na criação nada mais insignificante e nojento. Vou te deixar com vida apenas para que você possa sofrer toda a humilhação do que lhe disse, você, desgraçado, inferior, mesquinho, rato!” E soltou-o. O rato correu o mais que pôde, mas quando já estava a salvo, gritou pro leão: “Será que Vossa Excelência poderia escrever isso pra mim? Vou me encontrar com uma lesma que eu conheço e quero repetir isso pra ela com as mesmas palavras!” Moral: afinal ninguém é tão inferior assim. Submoral: nem tão superior, por falar nisso. 1 Quer dizer: muitas e más. 2 Na grande hora psicanalítica, que soa para todos nós, a precisão de linguagem é fundamental. Extraído de Fabulas fabulosas (Nórdica, 1985), do escritor, dramaturgo, tradutor, desenhista, humorista e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui.

A CARNE É CRÁPULAA carne é crápula / sob o olho cego / do desejo. / A carne é trôpega / se fala sob o pêlo / de outro desejo alheio. / A carne é trêmula / e fracta. / Crina de nervos, / veneno de víbora, / a carne é égua / sob o cabresto / de seus incestos / sem freios. / Fálica e côncava, / intrépida e férvida, / a carne é estrábica / nos entreveros / do sexo / com seus desacertos / conexos. / Sob o olho / sem mácula e cego, / a carne é crápula / nos arpejos / indefesos / de seus perversos / desejos. Poema extraído da obra Sábado na hora da escuta – antologia (Summus, 1978), do poeta e crítico Mário Chamie (1933-2011).

NEUROCIÊNCIAS: DESVENDANDO O SISTEMA NERVOSO – O livro Neurociências: desvendando o sistema nervoso, de Mark F Bear, Barry W. Connors e Michacl A. Paradiso, aborda temas como introdução às Neurociônclas, neurônios, membrana neuronal em repouso, transmissão sináptica, sistemas de neurotransmissores, a estrutura do sistema nervoso, sistemas motor e sensorial, os sentidos químicos, o olho, o sistema visual central, os sistemas auditivo e vestibular, o sistema sensorial somático, controle espinhal do movimento, controle encefálico do movimento, o encéfalo e o comportamento, o controle químico do encéfalo e do comportamento, motivação, sexo e sistema nervoso, mecanismos da emoção no encéfalo, os ritmos do encéfalo, linguagem e atenção, transtornos mentais, sistemas de memória, mecanismos moleculares do aprendizado e da memórias, entre outros importantes temas. REFERÊNCIAS: BEAR, Mark; CONNORS, Barry; PARADISO, Michael. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. Porto Alegre: Artmed, 2002. Veja mais aqui e aqui.

O MISTÉRIO DA CONSCIÊNCIA – O livro O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento em si, de António Damasio, trata na primeira parte do problema da consciência, mente, comportamento e cérebro, reflexão sobre dados neurológicos e neuropsicológicos e a busca do self. Na segunda parte aborda a emoção e o sentimento, excurso histórico, a função biológica das emoções, indução de emoções, a mecânica da emoção, o substrato para a representação de emoções e sentimentos, a consciência central, a música do comportamento e as manifestações externas da consciência, estado de vigília, atenção e comportamento intencional e o estudo da consciência por sua ausência, linguagem e consciência, ,emória e consciência e a consciência de David. Na terceira parte trata da biologia do conhecimento a partir do organismo e do objeto, o corpo como sustentáculo do self, a necessidade de estabilidade, o meio interno como precursor do self, a gestão da vida, a invariância do organismo e a impermanência da permanência, as raízes da perspectiva individual, da propriedade e da condição de agente, o mapeamento dos sinais do corpo, o self neural, estruturas cerebrais necessárias para implementar o proto-self, estruturas cerebrais que não são necessárias para implementar o proto-self, a produção da consciência central, a necessidade de um padrão neural de segunda ordem, as imagens do conhecimento, a natureza não verbal da consciência central, a naturalidade da narrativa sem palavras, palavra sobre o homúnculo, avaliação da consciência ampliada e seus distúrbios, amnésia global transitória, anosognosia, assomatognosia, o transitório e o permanente, a base neuroanatômica do self autobiográfico, identidade e individualidade, o inconsciente, o self da natureza e o self da cultura, a neurologia da consciência, os fundamentos para um papel das estruturas do proto-self na consciência, sono e coma, 5eflexão sobre os correlatos neurais do coma e do estado vegetativo persistente, a formação reticular ontem e hoje e a anatomia do proto-self da perspectiva de experimentos clássicos. Na quarta parte fala a respeito dos sentimentos, o substrato dos sentimentos de emoção, da emoção ao sentimento consciente, a relação obrigatória dos sentimentos com o corpo, emoção e sentimento após transecção da medula espinhal, lições da síndrome do encarceramento, a inconsciência e seus limites, mente e cérebro, entre outras importantes abordagens. REFERÊNCIA: DAMÁSIO, Antônio. O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento em si. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. Veja mais aqui e aqui.


A arte da artista plástica francesa Jeanne Lorioz.




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E mais:
Os perós do achamento e invasão de Pindorama, João Ubaldo Ribeiro, Constança Capdeville, Alcmeón de Crotona, Eleonora Duse, Alexander Sokurov, Ignacio Zuloaga y Zabaleta, Mariya Kuznetsova, Caroline Corr, Fred Moore & Marco Polo Guimarães aqui.
Libambo na Maxambeta, Stéphane Mallarmé, Érico Veríssimo, Hegel, Jean Cohen, Terêncio, Phillip Noyce, Linda Lepomme, Do Thi Hai Yen, Lesley-Anne Down & Steve Hanks aqui.
Bambaquerê no elastério, Arthur Schopenhauer, Comenius, Luís da Câmara Cascudo, Brian De Palma, Malcolm Liepke, Júlia Lemmertz, Rebecca Romijn, Edward Hopper, Sandra Duailibe & Wanderlúcia Welerson Sott Meyer aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora parabenizando o Tataritaritatá.
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA

Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.

quinta-feira, novembro 01, 2007

PAULO FREIRE, JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA, OCTAVIO IANNI, SAINT-AMANT, IBERÊ CAMARGO, MOIRAS, CIGANOS & BIRITOALDO


PROEZAS DO BITIROALDO - IV - Quando o bicho é sonso tira fino até na beira do abismo - Tanta presepada aprontou Biritoaldo de deixar muita gente roxa de raiva, a ponto de se querer sapecar umas lamboradas boas na moleira dele para endireitá-lo duma vez. - Eu sou a bola que ninguém nunca chutou! -, insultava, chistoso e todo linguarudo, o bocório-mirim! - Num tem pantim que uma boa pisa num tire! -, ameaçava os indignados parentes, injuriados propínquos e encolerizadas vítimas de suas astúcias. Pode? Não é pra menos e dá logo para se prever o entortamento: tendo como teve um nascimento tão estapafúrdio quanto um batizado tão vexatório, logo ganhou notoriedade suas estripulias nas fofocagens das línguas ferinas e, não obstante, na antipatia popular, não podendo jamais ficar no desconto do desprezível suas pirraças. Se podia? Nunca, nem que a vaca tossisse ou o gato voasse. Era futuro nefasto, mesmo. - Sou uma criança, num entendo nada! -, eximia-se cheio das mungangas. Não bastando as façanhas estropiadas e as gabolices desajeitadas, o pirralho foi crescendo de jeito e botando as manguinhas de fora. Quanto mais taludo ficava, mais cara sem-vergonha exibia. Era aquela índole de cabra fuleiro reinando sem a mínima prudência. Vejam só a petulância: namorou com a tia Nevinha, com empáfia de noivado sério - somente ela não sabia de tal idílio ousado. Bem, o cabra patusco ia crescendo e despertando seu apetite sexual já aos cinco ou seis anos, sei lá, por aí, com namorico sério, segundo ele, com a própria tia, só dormindo a coçar o umbigo da sóror materna, ou seja, só seguia para cama acompanhado de milhões de acalantos para o peralta cerrar as pestanas e dormir. Que ela contava histórias, contava; ele é que não dormia enquanto não amolegasse nas carnes adormecidas dela. Moral: ela pregava no sono e ele no maior vasculhado por debaixo dos panos, conferindo os guardados secretos dela. Isso não era pouco, mais desavergonhado que nunca, não passava em branco com a chegada das amigas da mãe, encostasse tititi de qualquer delas na casa dele, o descaradinho inventava tudo para ver a calcinha da visita e, depois, sair gritando a cor que vira. Astuto, só se via ele estirado no chão brechando tudo. - Êi, ela tem um buraco na caçola! U-ru! Quantos beliscões, cascudos, descomposturas e corretivos ressoavam e o menino era mesmo perdido e não se emendava engrossando o caldo da arteirice pra banda dos outros. Visando salvar o futuro dele, a santa materna do sapeca achou de matriculá-lo num educandário público para ver se corrigia o ímpeto do safado, vez que a vitalidade para peraltices mais parecia pilha alcalina, daquelas sem exaustão. Pior foi o susto que a coitada teve ao saber das últimas na escola. Tam, tam, tam, tam! Pois bem, nem se passou alguns tantos meses, a professora Ilmena teve de deitar reclamações ásperas às ouças maternais. Qual não foi o arrepio ao saber das sandices praticadas pelo desgovernado presepeiro. A docente, pudica e recatada, iniciou as incriminações em tom ameno, alegando ser seu filho responsável por puxar sutiãs das garotas, levantar a saia da merendeira e jogar insetos e excrementos nos colegas. Ainda era capaz de enrolar o troco do picolezeiro, ficar bisbilhotando a fechadura do banheiro feminino e passar xêxo na cantina do saldo deixá-lo insolvente. - Doutra feita - continuava a douta em tom pormenorizado -, entrando de supetão na sala de aula, flagrei o discrepante precoce expondo o pingulim para as alunas da primeira série. Que rebu! Isso só no de menos, ainda, porque o pior mesmo ainda estava por vir. Atenta às narrações da reclamante, a mãe, adivinhona que só ela sabe ser, já previa onde aquilo tudo tenderia a finalizar. Já desconfiava da paixão avassaladora que o filho dedicara à sua mestra e descortinava, mediante o relato, o emaranhado de aberrações que iriam emergir por conclusão. Pois bem, Biritoaldo era afeiçoado pelas formas generosas da educadora, admirando seus peitões volumosos, as ancas avantajadas, a ponto de desenhá-la em todas as folhas do caderno. O dever de casa era colorido com todas as cores e formas de sentar, de falar, exprimir, explicar e até do se ajeitar dela. Quantas vezes não fora visto de olho revirado, alisando seu caceitinho, a sussurrar: - quero chupar os peitões dela, tenho sede, sou um menino fraco, quero o peitão, o bundão, as coxonas, as pernonas, ai, Ilmena! Até aí, tudo bem, mas provou toda impostura quando tomou posse de um espelhinho e, na ocasião que ela passava entre as carteiras durante o ditado, magistralmente colocava por sobre o seu sapato para ver a cor da calcinha da dita. A desconfiança só surgiu porque ele sempre entregava no final da aula uns versinhos para ela combinando sempre com a cor que vestia. - O mundo é azul, como azul é o céu e o mar! - Obrigado, filhinho. - De nada, fessôra. No dia seguinte outro versinho e, assim, todos os dias repousavam os versos às suas mãos com a denúncia que vira suas intimidades. - Uma rosa pra fessora ficar mais bonita! Ilmena já estava intrigada, começou com investigação no birô que mandara trocar já por mais de dez vezes, nenhuma fresta, nenhuma rachadura, tomava cuidado com os requebros, algum buraco na saia, nem cruzada de pernas, nada. Procurou permanecer sentada, com as pernas cruzadas e no final da aula: na batata! Ela então resolveu vestir biquínis da mesma cor a semana inteira. Entregou-se de bandeja. A coincidência era tanta, mas como ocorria? Como? Foram dias, semanas, três meses para descobrir a artimanha, até que um dia, lendo uma história encantada a caminhar pela classe, tropeçou no pé do menino, estilhaçando o espelhinho, produto do crime. Não deu tempo nem de passar um carão, fugira desembestadamente. O menino semanas sem dar o ar de sua graça na classe. A mãe agora estava sabendo o motivo dele não querer ir mais para escola. Quer mais? Só na outra! Hehehehehehehehehehe! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Proezas do Biritoaldo aqui



PENSAMENTO DO DIAA verdade da obra de arte é a expressão que ela nos transmite. Nada mais do que isso. Pensamento do pintor Iberê Camargo (1914-1994), Veja mais aqui.

ENSINO & PESQUISA - [...] Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo, buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade. Trecho de Pedagogia da autonomia: saberes necessário à pratica educativa (Paz e Terra, 1995), do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui.

AS MOIRAS – [...] Moiras – as fianderiras responsáveis pelo destino; filhas de Thêmis (deusa da justiça divina) com Zeus ou de Nix com Zeus. O destino humano é filho da Noite porque nasce do simbólico. Essas entidades são assim caracterizadas: a primeira, Cloto, é responsável por preparar o fio. É aquela que segura o fio e o puxa. Preside o nascimento dos homens. A segunda, Láquessis, é a que estende o fio e deixa-o retilíneo. É também aquela que sorteia o nome de quem vai morrer, porém sem definir quando. Ela é identificada também como aquela que preside o casamento. A terceira, Átropos, é quem corta o fio da vida. É chamada de inflexível porque preside a morte. Essas entidades, na inconografia mítica renascentista, são identificadas como mulheres majestosas, belas, formosas, inteligentes, e que sabem perfeitamente o que querem. Então, as Moiras, se são responsáveis pela tessitura da existência humana, irão ter a responsabilidade – aparente – de traçar todo o destino. Mas o tecem à medida em que percebem que não há consciência da existência. Ou seja, enquanto a razão não tomar corpo, não evidenciar, não eluciar a existência, elas estarão presentes e tecerão a existência dos mortais e dos imortais. [...]. Trecho extraído da obra Do simbólico ao racional: ensaio sobre a gênese da mitologia grega como introdução à filosofia (SCT/Fundação Cultural/EGBA, 2001), do professor universitário Lourenço Leite. Veja mais aqui, aqui e aqui

A MULHER, AS PESSOAS - [...] Na dialética das relações sociais, as pessoas formam-se no contraponto das imagens recíprocas, como em um jogo de espelhos, compreendendo-se ou opondo-se, contemplando-se ou estranhando-se. Aí se revelam identidades e alteridades, diversidades e desigualdades, acomodações e oposições. [...] Trecho de A figura da mulher (SENAC, 2004), do sociólogo e professor Octavio Ianni (1926-2004). Veja mais aqui.

CIGANA - [...] Todo cigano tem uma história para contar. Mas é aquese sempre a mesma história. [...] É difícil ver um cigano que não saiba fazer uma arte. A gente nunca esquece nossa tradição. [...] O povo cigano é um povo que Deus escolheu para ser livre. Quando Ele subiu ao céu, deixou os ciganos para continuarem os sofrimentos dele. [...] Para todos existe um dia, mas os ciganos eram esquecidos do mundo, viviam na Terra só por viver. [...] A gente é um povo inteligente e honesto, que só precisa de oportunidade. [...]. Depoimento de Rejane Soares Cavalcanti, extraído da obra Caderno de narrativas da cultura pernambuca: Série Festival Pernambuco Nação Cultural 2012/1 (Secretaria de Cultura, 2013), organizado por Olivia Mindêlo e Chico Lidemir.

MEMÓRIA –[...] Um dia trepei na mangueira monstro, de uma cabeleira de erva-de-passarinho, à única que ainda frutificava. Lá de cima, ouvi um grito esganiçado e, espiando para baixo, distingui um vulto que sópodia ser a velha. Bracejava e bradava. Fui subindo até o olho e a voz gritante, cortando as palavras, parecia chicotear-me. Pulei para outro galho que vergou, se quebrou e despencou comigo daquela altura, como um pára-quedas. Larguei-me de cima abraçado com os ramos que amorteceram a queda. Ia levando a breca. Desmenti um pé no tombo; e, debaixo de gritos, chispei, a manquejar. Quanto mais corria, mais ouvia a fala fina, a praguejar. Trechos extraído de Memórias: antes que me esqueça (Francisco Alves, 1976), do escritor, advogado, professor, folclorista e sociólogo José Américo de Almeida (1887-1980).

O FUMONas horas de descrença ou triste desengano, / meu cachombo a fumar, bem junto da lareira, / às vezes permaneço, abstrato, a noite, / justo prêmio a gozar, após labor insano. / No dia de amanhã, no eterno anseio humano, reflito, penso e, ao fim, numa ilusão fagueira, / eu me vejo senhor de uma nação guerreira, / forte como o mais forte imperador romano. / Mal em cinza, porém, eis se desfaz o fumo, / recaio no torpor, retomo o antigo rumo, / novam,ente me abismo em meu velho tormento. / Nenhuma diferença a minha mente alcança / e fumar o tabaco ou viver de esperança: / um é simples fumaça, a outra apenas vento... Poema do poeta francês Marc-Antoine de Saint-Amant (1594-1661).



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