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sexta-feira, junho 11, 2021

KAWABATA, CRISTINA AZUMA, LIA LETÍCIA, FELIPE VASCONCELLOS, PRIYA & CALEIDOSCÓPIO.

 

 

TRÍPTICO DQP – O que é e não mais... - Ao som do álbum Contatos (GSP Records, 1995), da violonista, compositora, professora e pesquisadora musical Cristina Azuma. – Nos últimos dias, como já havia vivenciado aventuras no espelho, a exemplo da experiência inicial com os relatos de Joãodito, pensei haver chegado a hora de uma trégua na loucura. Nada, Wang Tu apareceu assim do nada para esclarecer: Outora, o imperador Huang-ti mandou forjar quinze espelhos. O primeiro tinha a largura de um pé e meio e simbolizava a lua cheia. A largura dos demais ia aumentando, de um para outro, de uma polegada. O nosso é, pois, o oitavo dos espelhos de Huang-ti. Eita! E contou-me da família Yang que, premiada com anéis mágicos, prosperara assim do nada. Também a de Tchang que contemplada com uma espada enfeitiçada e, ao perdê-la, também perdeu a vida. E mais: certa noite de uma quinta de lua do ano sete de Tai-yei, uma linda escrava o recepcionara na pousada de Tchen Yong. Achegando-se a ela e mostrando-lhe o espelho, ela atirou-se trêmula e aos prantos para que fosse poupada. Atendendo ao seus pedidos, ela confessou ser uma velha raposa que, quando moça, desposou um camponês que a levou por uma vida infeliz e a abandonou ali, por isso suplicou clemência e que a deixasse, pelo menos por mais algumas horas, pela última vez, se embriagar entre os homens. Direito concedido, ela começou a cantar: Viver é felicidade; morrer não é tão lamentável assim... Então, interrompeu o canto, cumprimentou a todos e caiu morta em forma original. Como? Sim. Assustei-me com o relato e, ao fitá-lo, era ele Yasunari Kawabata: O tempo flui da mesma maneira para todos os seres humanos; cada ser humano flui através do tempo de uma maneira diferente. Talvez o sentimento do mal tivesse ficado anestesiado, confundido com costumes e ordens sociais. Depois de sua fala, não sei o que aconteceu: vi-me enredado por uma força que emanava do velho espelho, a me levar por situações nunca dantes experimentadas.

 


Duas no espelho de Priya – Perdido no tempo e no espaço, logo apareceu uma mulher para me recepcionar. Era Monica Singh, uma jovem que fora vitimada por ataque de um motoqueiro passante, jogando-lhe ácido às suas faces. O que houve? Contou-me em detalhes: ela tinha 19 anos e um amigo que lhe queria namorar, diante de sua recusa, tramou tudo. Por conta deste fato, tornou-se estilista e empresária, fundando a Mahendra Singh Foudation, com o fito de trabalhar no empoderamento de mulheres sobreviventes da violência. Reunida com Paromita Vohra e Ram Devineni, mais a ilustração de Dan Goldman, criou a HQ Espelho de Priya, em 2014, inspirada em uma das tantas filhas do rei Daksha, que tinha seu nome significando amada e, como qualquer mulher hindu sakti, expressava a mãe divina Terra. A história conta de uma adolescente que foi expulsa de casa depois de ter sido estuprada. Vagando sozinha, foi salva pela deusa e ganhou um tigre, afora superpoderes para combater estupradores capitaneados pelo rei-demônio tirânico Ahankar, salvando as vítimas. A segunda história é a de Anjali, que passa por situações cruéis e se revolta para luta contra o rei endemoniado cuspidor de ácido. Ao tomar conhecimento de seu trabalho, ela fitou-me e disse: Uma mulher vence seus medos e descarta o ridículo, falando como uma sobrevivente e tornando-se inspiração para milhares de mulheres na Índia que enfrentaram a mesma experiência – uma super-heroína feminina dos dias modernos. A sua dor fez eco dentro de mim, remexendo tudo a um ponto revoltante. Baixei a cabeça e pensei comigo como é que é possível ter a capacidade para atos tão abomináveis. Ao dirigir-me a ela, solidário, não mais ali e era a Barbara Bodichon: Para as mulheres, o casamento envolve uma grande mudança legal. Passou-me um dos braços sobre meus ombros e saímos cabisbaixos, assumindo as feições de Bertha von Suttner, a me dizer frases soltas do seu Abaixo as armas: A guerra é a negação da evolução em todas as direções... Uma imensa ofensa cometida pelo homem de hoje contra o homem de amanhã!... A organização militar da nossa sociedade foi fundada sob a negação da possibilidade de paz, desprezando o valor da vida humana e aceitando o desejo de matar... Abaixem suas armas: falem para todos, para todos! Já era tempo, eu mesmo já havia deposto há muito todas as armas das mãos e coração. Lá longe um brilho intenso e eu não sabia o que era.

 


Três caleidoscópios e um reflexo do vazio – Imagem: Espelho d’água, da artista performática Lia Letícia – O que é aquilo, um homem-espelho? Apertei a vista e se aproximava. Lá estava eu diante do ator e artista visual Fe Vas - Felipe Vasconcellos com o seu Reflexos: Ensaio sobre o vazio (2013), uma proposta da pesquisa Corpos poéticos: a relação entre a obra, o espectador e o ambiente urbano. Com a sua aproximação tentei me esquivar e me alcançou em cheio: vi-me num Espelho d’água. Temi me afogar, mas tudo parecia uma ilusão de águas, ondas e correntezas. Ou um Caleidoscópio: o experimental, o gesto, o lúdico, trajetórias, experiências, similitudes, distâncias, experiências, múltiplas visões - obras de Daniel Santiago, Gil Vicente e Marcelo Silveira. Onde estou, não sei, sigo adiante: reinvento a vida e o mundo, se for possível viver neste genocídio, todas as formas de amar. Até mais ver.

 

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quinta-feira, maio 16, 2019

STRINDBERG, RUBEM FONSECA, LYNN MARGULIS, ESTHER TEICHMANN & NÃO É MENTIRA NÃO!


NÃO É MENTIRA NÃO! - Joãodito contava das suas pabulagens, petas a granel. Dizia lá das suas sem maledicências. Só que Sinedônio, um ricaço de maus bofes encarava tudo aquilo de soslaio. Já tinha ouvido tantas do gabola, de prestar atenção amiudada, desconfiando das narrações. Só que ao final da patranha, Joãodito sempre dizia: Só Deus e nada mais. Aquilo foi enchendo o saco, quase esborrando da paciência do Sinedônio e demais presentes que queria pegá-lo na virada, desmascarando-o. Bastou Joãodito contar que, um dia, ansioso por mel, bastou dar um tiro a mesmo, dele entrar no pé do maluvido do tijolo, sair no mocotó da parede, tirar um fino na placa da academia, atravessar o toitiço do poste e bater no pé da goiabeira de varar o enxame e cair o delicioso líquido bem no copo em que segurava. Ah, não faltou apupo no recinto. Todos levavam na conta da charlatanice E ele: Só Deus e nada mais! Daí dizer que isso não era nada perto do tempo que bateu um liseu, dele ter que fazer um trato com o diabo, de vender a alma num acertado com prazo e tudo para xis tempo depois. Na véspera do vencimento, ele sem saída, coçando o quengo, contou tudo pra mulher dele, dona Maricotilda, dela providenciar uma pintura de piche por todo corpo e ficar nua, toda escancarada esperando o tinhoso. Quando o coiso apareceu, assustou-se: Já vi de tudo, mas dessa é a primeira vez! O maldito olhou, tocou, conferiu, foi provar e se envultou de nunca mais aparecer para atanazar o coitado depois que ela se mexeu e fez o sinal da cruz. Joãodito não pestanejou: Só Deus e mais nada. Ninguém entendeu direito, mas o burburinho das mangações não parou, deixando a coisa por suspeita, maior patranha. Foi aí que Sinedônio encarou Joãodito em riba da fivela: Olhaqui, seu fiduma lasqueira, tome aqui esse anel, dezoito quilates, guarde-o até eu pedi-lo, se não tiver com ele, eu vou matá-lo, seu paidégua. Podexá, guardo pra você. Apalavrado. Joãodito foi, chegou em casa e mandou a esposa guardar para ele, para o dia que o Sinedônio pedisse, jurado de morte se não tivesse mais com o utensílio para devolvê-lo. Isso foi. Dias depois, Sinedônio armou das suas: mandou um capataz procurar Maricotilda para comprar o anel com uma fortuna em dinheiro vivo. Foi lá e pelejou, ela nada. Mostrou a dinheirama toda, ela cresceu os olhos, arredia, findou cedendo e entregou. O capataz voltou pra Sinedônio que saiu para o meio do rio numa canoa, sacudiu o anel lá, na parte mais funda da correnteza, e voltou para mandar ver no caviloso. Agora queria ver, cruzeta da peste. Aí Sinedônio foi lá, chamou todo mundo, contou tudo e mandou buscar Joãodito que apareceu tão logo recebeu o aviso. Diga lá. Dê-me cá meu anel! Agora mesmo. Foi em casa pediu a esposa, ela entrgou-lo e ele assim o fez, devolvendo ao seu dono. Peraí, rapaz! Só Deus nada mais. Como é que pode? Pode o quê? Mande chamar dona Maricotilda aqui. Ela veio. Sinedônio começou o inquérito na frente de todo mundo: Ô dona Maricotilda, a senhora vendeu ou não vendeu o anel? Vendi. E como é que ele está aqui? Ah, eu não te conto, foi assim: meu marido me deu o anel para guardar e foi pescar. Aí apareceu esse seu moço aí querendo comprar, eu não queria vender, mas ele insistiu tanto com um molho de dinheiro de cair de costa, depois de muito peiticar, findei e vendi. Fiquei cheia de remorsos e quase tenho um troço quando vi o Joãodito chegar com um peixe grande, bonitão, para eu tratar e saiu. Mal comecei a passar a faca no bichão, meu marido chegou pedindo o anel de volta, oxe, só deu tempo de eu passar a peixeira e o anel pular de dentro do peixe na minha mão, pronto, entreguei-lo, tá aí na sua mão e fim de papo. Ah. Ovação geral. Aí Joãdito não deixou por menos: Só Deus e mais nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] a terra é, de fato, um sistema vivo, um amálgama globalmente pulsante de organismos e do mundo físico “inanimado” [...] O que é vida? Esta é, sem dúvida, uma das mais antigas perguntas que existem. Nós vivemos. [...] A vida – desde as bactérias até a biosfera – mantém-se ao produzir novas quantidades dela mesma. [...] a vida – não só a humana, mas a vida em geral – tem liberdade de ação e desempenhou um papel inesperadamente grande em sua própria evolução. [...] A vida – tanto no aspecto local, como corpo de animais, plantas e micróbios, quanto no plano global, como a biosfera – é um fenômeno material sumamente complexo. Ela exibe as propriedades químicas e físicas habituais da matéria, ma com um toque diferente. [...] A vida se distingue não por seus componentes químicos, mas pelo comportamento desses componentes. Assim, a pergunta “o que é vida?” é uma armadilha linguística. Para responde-la de acordo com as regras gramaticais, devemos fornecer um substantivo, uma coisa. Mas a vida na Terra assemelha-se mais a um verbo. Ela conserva, sustenta, recria e supera a si mesma. A visão autopoética da vida difere dos ensinamentos padronizados da biologia. [...] os seres orgânicos e o meio ambiente acham-se entrelaçados. [...] a vida não existe na superfície da Terra, mas é a superfície da Terra. A vida estende-se sobre o planeta como uma cobertura contígua mas móvel, que assume a forma da Terra subjacente. [...] a vida aviva o planeta; a Terra, num sentido muito real, é viva. [...] Os organismos são [...] comunidades de corpos que trocam matéria, energia e informações entre si. Cada inalação de ar nos liga ao restante da biosfera, que também “respira”, embora em ritmo mais lento. Considerada em sua extensão fisiológica máxima,a vida é a superfície planetária. [...] Portanto, o que é vida? É um processo material, que peneira a matéria e desliza sobre ela como uma onda estranha e lenta. É um caos artístico controlado, um conjunto de reações químicas desnorteantemente complexo, que produziu, há mais de 80 milhões de anos, o cérebro mamífero que hoje, sob a forma humana, redige cartas de amor e usa computadores de silício para calcular a temperatura da matéria na origem do universo. A vida, além disso, parece estar prestes a perceber, pela primeira vez, seu lugar estranho mas verdadeiro num cosmo em inexorável evolução. A vida fenômeno local da superfície terrestre, na verdade só pode ser compreendida em seu meio cósmico. [...] Para funcionar, a biosfera requer a diversidade microbiana; para nos sentirmos inteiros e à vontade, quase todos nós ansiamos pela variedade da natureza. [...] Os seres humanos atuais estão claramente ameaçados pela extinção de muitos de nossos companheiros de planeta, antes mesmo que a ciência consiga descrevê-los. [...] Que o excesso é natural, mas perigoso, nós aprendemos com os ancestrais fotossintéticos das plantas. [...] Os seres humanos não são espécies e independentes, mas parte de um continuum de vida que circunda e abarca o globo. [...].
Trechos extraídos da obra O que é vida? (Jorge Zahar, 2002), da bióloga e professora Lynn Margulis, autora da teoria da endossimbiose, segundo a qual a mitocôndria, um organismo separado que teria entrado em simbiose com células eucarióticas.

O TEATRO DE STRINDBERG
[...] CRISTINA - E perdeu alguns milhares de ducados, não é? Permita-me cobrir suas perdas... KLAS TOTT - Não, Majestade, eu não posso! -Não posso aceitar dinheiro de uma mulher... CRISTINA - Eu não sou mulher... KLAS TOTT - Sim, e nem mesmo de uma rainha... CRISTINA - Eu não sou rainha também, pois não sou de nenhum rei; eu fui proclamada rei, Tott não se recorda? [...]
Trecho da cena do I Ato da peça Cristina (Cone Sul, 2001), do dramaturgo, escritor e ensaísta sueco August Strindberg (1849-1912), contando sobre a rainha sueca Cristina (1626 -1689), peça escrita em 1901, seria recusada de teatro em teatro para apenas estrear em 1908, no Intima Teater. Em suas Cartas Abertas para o Teatro Íntimo, Strindberg escreve: “uma mulher criada para ser um homem, lutando por sua sobrevivência, contra sua natureza feminina e por fim sucumbindo a ela”. Outras peças teatrais traduzidas do autor: Crimes e Crimes (Edusp, 1999), Dança da Morte (Veredas, 2005), Sagas (Hedra, 2006), Gente de Hemsö (Hedra, 2009), Senhorita Júlia e Outras Peças (Hedra, 2009), Inferno (Hedra, 2009) e A Sonata dos Espectros (L-Dopa, 2010). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa e artista visual alemã Esther Teichmann. Veja mais aqui & aqui.
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A OBRA DE RUBEM FONSECA
O pecado é mais saudável e alegre do que a virtude. Aqueles que trocam o vício pela beatice tornam-se velhos feios e desagradáveis.
A obra do escritor e roteirista de cinema Rubem Fonseca aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, novembro 14, 2018

YOURCENAR, HAN-NA CHANG, AMADEO DE SOUZA CARDOSO, CAOS 2018 & JOÃODITO


O ESPELHO DE JOÃODITO - Arte do pintor português Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918). - Por muito tempo o espelho ficou virado pra parede. As mortes da casa haviam se ocupado disso. Dessa vez, pela primeira vez em anos, Joãodito o colocou no lugar devido e fitou-se, limpando a superfície, contemplando a moldura. Há quanto tempo não vira seu semblante, quase nem se reconhecia ali. Viu-se ali refletido e entressorriu. Fitou-se por um logo tempo até percerber que sua feição começara a mudar. Como pode? Assustou-se, distanciando-se. Que coisa! Arrepiou-se dos pés à cabeça, não era ele ali refletido, as feições mudavam de instante a instante. Não conseguia acreditar no que via. Apanhou de uma toalha e o cobriu. E passou a noite sem conseguir conciliar o sono, olhos no teto, luz acesa. Criou coragem, tocou o interruptor e desligou a lâmpada do quarto, podia ser que na escuridão adormecesse. Pelo contrário, ouvia ruídos nunca percebidos, pisadas, chiados, movimentações sutis dentro e fora do ambiente. Cadê coragem de se levantar para uma apurada investigação a respeito. Ficara deitado, atento a tudo. Assim, o dia amanheceu finalmente, tudo às claras, saiu para conferir dentro de casa, tudo no devido lugar, o espelho coberto pela toalha. Aliviado com o que constatara e pelo resto do dia ocupou-se com os seus afazeres, embora aquelas imagens não lhe saíssem da mente. Comprou, vendeu, passou troco, negou, assentiu, coisas do cotidiano. A cada sim e não, uma pancada forte no coração. Deu conta das escolhas inconscientes cometidas a todo instante. Tomou água, ia para o escritório e não foi, resolveu voltar e sair dobrando a direita e ao se dar conta, retornou, devia ter virado à esquerda. Não, melhor meditar enquanto não fazia nada que tivesse que optar, apenas sentar e pensar. O dia entrou pela tarde e só pensava chegar em casa e encarar tudo de novo. Ao anoitecer, retornou para o lar e foi diretamente ao espelho. Hesitou. Hoje não. E foi deitar-se, sem pregar os olhos. Três dias seguidos e se arrependia, preferia tentar dormir, tantas noites em claro não lhe fariam bem. Decidiu-se, enfim, removeu a toalha e ficou fitando sua imagem refletida por longo tempo. Estava disposto a isso, determinado. Não vacilaria dessa vez. Então, depois de um longo tempo, olhar fime, uma luz começou a brilhar no interior e a tomar conta de toda superfície do espelho. Transformou-se lentamente em uma lua, inicialmente diminuta, até tornar-se gigantesca dentro da moldura. Dentro da esfera lunar as coisas se distorciam como um eco interminável. Viu-se duplicado no centro das imagens, a si e o outro sendo ele mesmo, consumidos por chamas dentro de um palácio de cristal que emergia de dentro do satélite. Surgiu um Aleph que girava no meio das transformações e passou a reviver ali toda a sua vida por instantâneas visualizações expressas da infância, a família, os momentos, a escola, as festas, a bicicleta, a adolescência, o namoro, sandices, ignominias, tentações, tudo misturado atemporalmente, coisas vividas e revistas desordenadamente. No meio do caleidoscópio foi aparecendo lá do fundo uma vela com uma aura forte e multicor na chama a se transformar em movimentadas ebulições. De repente, um vulto insinua-se, não sabe ao certo, algo próximo de uma monstruosidade. Afastou-se e conseguiu identificar a Medusa que lhe falou com uma voz rouca tonitruante: Não tema, você já é de pedra, a sua indiferença, a sua insensibilidade, o seu egoísmo, já me apoderei de você, ser petrificado e desprezível, não me escapará. Estou avisando: você não me escapará. E sumiu no negrume feito para reluzir sua própria efigie escurecida. Não, não era ele. Era Narciso e pode ver quantas vezes se fizera de si em nome da vaidade, do orgulho, da soberba. O que fiz da minha vida? Negou-se a si e a tudo. Como poderia? Não havia como se salvar e chorou a sua sorte, perdido no tempo e no espaço. Sentia-se pronto, não mais vivo, apenas presente e humano, era tudo ilusão, a vida pelos poros. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] O cônego explicava que o homem, ao infligir aos perversos o suplício das chamas, que dura apenas um momento, não faz senão conformar-se à lei de Deus, que os condena ao mesmo castigo, só que para sempre [...] Quando afinal Joana falou, o que lhe saiu dos lábios foi uma torrente de torpezas e obscenidades que sabiam ao mesmo tempo a esgoto e a Bíblia. O Rei (de Münster – Cidade de Deus) não fora jamais para a velha hussita senão um indigente a quem se concedia comer na cozinha e que ousou dormir com a mulher do patrão [...] Tais males, no entanto, nada mais eram do que a antecipação de uma calamidade infinitamente mais terrível. Vinda do Oriente, a peste entrara na Alemanha pela Boêmia. Viajava sem pressa, ao som dos sinos, como uma imperatriz. Debruçada sobre o copo do beberrão, soprando a vela do sábio recolhido entre seus livros, ajudando o sacerdote na missa, escondida como uma pulga sob a blusa da prostituta, a peste trazia à vida de todos um fator de insolente igualdade, um acre e perigoso fermento de aventura [...] Sua mulher era igualmente culpada, mas, como se considerasse indecente que uma criatura do belo sexo ficasse dependurada em pleno céu com as saias drapejando sobre a cabeça dos transeuntes, decidiu-se pelo antigo costume de enterrá-la viva. Essa brutal estupidez horrorizou Zênon, que, aliás, disfarçou a repulsa por detrás de uma impassível máscara facial, pois tinha por regra jamais deixar transparecer seus sentimentos relativamente a tudo o que se referisse às disputas entre o Missal e a Bíblia [...] A rigor, quase a contragosto, esse peregrino ao fim de um percurso de mais de meio século obrigava-se pela primeira vez n a vida a recompor em pensamentos os caminhos palmilhados [...] empenhando-se em fazer a escolha entre o pouco que parecia advir de si e o que pertencia ao acervo comum da sua condição humana [...].
Trechos extraídos de A obra em negro (Nova Fronteira, 1981), da escritora francesa Marguerite Yourcenar (1903-1987). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor portugues Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918).
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AGENDA:
CAOS 2018 – Arte e Tecnologia nas questões sociais & muito mais na Agenda aqui.
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Livros pras crianças neste final ano aqui.
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Praia da coroa grande, Osman Lins, João Ubaldo Ribeiro, William Shakespeare, Leibniz, Hegel, Heather Jane Wallace & Janet Mayled, São José da Coroa Grande, Mulheres & Desigualdade, Jayme Griz, Tom Jobim, Guiomar Novaes, Sebastião Tapajós & Teca Calazans aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cellista e maestrina sul-coreana Han-Na Chang: Cello Concert Haydn, Cello Concert Dvorak, Symphonie nº 5 Tchaikovsky & Adagio and allegro Robert Schumann & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...