quinta-feira, maio 29, 2008

OSMAN LINS, MIGUEL ASTURIAS, LANGSTON HUGHES, MASTRO-VALERIO, LITERATURA & DORO

 
A arte do pintor italiano Alessando Mastro-Valerio


DORO: TESTAMENTO DE BOCÓ - O trio maloqueiro - Doro, Robimagaive e Zé Corninho -, passou pela maior humilhação. Já dá para se imaginar a besteirada. É o seguinte: por ser a única candidatura presidencial clandestina mas levada a sério pelos postulantes, possuía um candidato com dois vices e meio mundo de leseira, já se davam com mais votos nas pesquisas que o segundo colocado e menos que o primeiro. Quer dizer: garantidos no segundo turno onde iam deslanchar de vez. Bote pabulagem nisso. Esses parceiros das porcarias conseguiram, pasmem, ser a vitima do próprio feitiço: fecamepa! Ôxe, contavam com milhões mas chegando a ter apenas dois dos três votos certos. Resultado: - Aiguém de noisis num votô em noisis. Danou-se. Doro estava fulo. Os olhares de desconfiança pairavam sobre Zé Corninho, o mais broco da trupe. E a pressão? No grau. De Zé Corninho ter um troço: morre mas num morre. Vote! Robimagaive no pé da cama, vigilante. Maior esculacho. - Ocê vai ter que cuspir verdade, cabra-safado! Se morrê mordendo a língua eu te mato de novo, fi´-duma-égua! Aí era que Zé Corninho dava de morrer de verdade. Doro providente para matá-lo do coração insinuou fazer-lhe um testamento ainda em vida. Tomou de umas folhas de papel para que o de cujus redigisse a sua carta sigilada de próprio punho, voluntariamente compulsório, intato, sem vícios, sem suspeita, nulidade ou falsidade, depois autenticá-lo em lavratura de oficial público, devidamente registrado, arquivado e cumprido a sua última vontade. Como o Zé era desprovido de alfabetização, Doro mesmo garranchou sua vontade. - Como é mermo o nome desse apaideguado? - Quem sabe. Bota aí Zé Corninho mermo. - Pronto. - Afiliação? - Ôxe, tu inda qué saber da vida regressa desse sujeitim mais amaldiçoado. Bota aí, como é mermo? - Ingrinorados. - Isso, ingrinorados. F´io de chocadeira. - Bem, agora vumo dar uma partilhada nos bem dele -, asseverou Doro. - Agora é qui vai cumeçar o estrupício. Ele só tem dele mermo é muita gaia. Mais nada. Contudo, no levantamento constou dois penicos, um radinho de pilha mudo, uma prótese dentária rachada, um cachorro guenzo murcho e cheio de carrapato, meia bisnaga de dentifrício de marca nunca dantes descoberta, uma cueca samba-canção com um buraco enorme no furico, uma coleção de calendários de anos passados com mulheres nuas, um brasão com o escudo do Flamengo, um Padre Cícero impresso, três pule do bicho de anteontem, uma espingarda soca-tempeiro sem gatilho, um prato plástico, uma colher torta, um caneco de alumínio desgastado, um crucifixo envergado e sem corrente, um comprimido vencido, um farrapo de calção, duas camisas bufentas e uma carteira plástica com um ou dois documentos comprobatórios da existência dele. Isso sem contar com o sapo cururu véio de estimação coaxando nada. Vasculhado tudo, nenhum centavo nem mais teréns. - Vamo começá o serra-véia. Os penico fica com quem? - Essas coisa de nada de imprestáve devia de dá nem prá pobre de Jó. Só quem qué isso é o lixo! Joga fora essas catrevagem. Ôxe, Zé Corninho se agoniava. Dava ataques de quase num ter quem controlasse a apertura espremida do cara. - S´acalme, frebento, tu vai morrê pro bem ou pro mal. Diga logo sua vontade finá. As única coisa que tu tem demais é gaia, isso ninguém qué! Vamo repartir as tranqueiras bem certinho. Na verdade, além das gaias, Zé Corninho tinha uma coleção de mulher, ao todo catorze, ou melhor, dezesseis, com uma penca de menino buchudo, tudo filho dele - isto é, nunca se passou na sua cabecinha tola de fazer um teste de DNA. Melhor assim, com certeza, morreria do coração com a participação de anônimos muitos na confecção de sua prole. Robimagaive mesmo já dizia o resultado: pai não identificado. Como Zé Corninho num se pronunciava, Doro, de comum acordo com Robimagaive e na presença de mais três testemunhas catadas na rua, saiu presenteando alheios e, depois de lido, relido e confirmado à força, tascou a impressão digital do Zé, assinando ele e o Robimagaive a rogo, mais as três testemunhas. Pronto, testamento cerrado, foi aí que Zé Corninho botou prá chorar o maior pranto desolador. - Tome, disgraçado! Castigo em gente é pió do que em bicho. Isso é pr´aprendê! Se num morrê dessa, a gente interra vivo mermo. Num teve quem controlasse o desespero dele de se ver divorciado de seus preciosos e estimados teres. Nem as mulheres e nem os bruguelos todos doíam distanciar-se. Dos pertences? Ora, tudo tido na maior conta da sua estimação. Era como roubar a sua alma. Por isso fez um último esforço e se justificou: - Eu vortei, maisi a máquina lá do voto, cancelô tudo. Eu quiria era votá só n´eu. Num achei meu retrato lá. Danei o dedo nas tecras. A máquina imbucetô tudo. Num deu, bufe. Apagaru tudo e disseram que meu voto era de um tá de nulo, sei lá quem é esse fi´o-da-peste, fiquei brabo e fui ispulso do locá. A gente tem qi si vingá desse nulo, esse desaforado que votô pru eu. Héhéhéhéhéhé. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.
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PENSAMENTO DO DIASou latino-americano. Isso não significa que não me orgulhe do sangue indígena que herdei. Sou mestiço com muito sangue índio; pode-se perceber isso em meus traços. Mas me sinto mestiço porque o futuro da América Latina depende da mestiçagem. Que também significa equilíbrio, compreensão mútua. Pensamento do escritor, jornalista, diplomata guatemalteco Miguel Angel Asturias (1899-1974). Veja mais aqui

A LITERATURA – [...] a literatura é fonte de si mesma enquanto escrita de uma sensibilidade, enquanto registro, no tempo, das razões e sensibilidades dos homens em um certo momento da história. Dos seus sonhos, medos, angústias, pecados e virtudes, da regra e da contravenção, da ordem e da contramão da vida. A literatura registra a vida. Literatura é, sobretudo, impressão de vida. [...]. Trecho extraído de História & Literatura: uma velha-nova história (Debates, 2006), de Sandra Jatahy Pesavento.

OS GESTOS – [...] Para sempre exilado – pensou. Minhas palavras morreram, só os gestos sobrevivem. Afogarei minhas lembranças, não voltarei a escrever uma frase sequer. Igualmente remotos os que me ignoram e os que me amam. Só os gestos, pobres gestos. Os pensamentos fatigaram-no. Veio, como de outras vezes, a idéia de que tudo aquilo poderia cessar, restituindo-o à companhia dos seus, mas ele recusou a esperança. “Nunca mais”, insistiu. “Nunca. Essa é que é a verdade.” Súbita, febril impaciência fê-lo agitar-se, trazendo-lhe à mente o seu despertar um mês antes e o horror ao perceber que estava sem voz, mas ele tentou afastar a lembrança. “Esquecer todas as palavras. Resignar-me ao silêncio”. [...] De olhos cerrados, ouviu-as murmurar. Três mulheres espantadas queriam que lhes dissesse algo. Deviam saber que isso era impossível: sua voz estava morta. Quando pereceriam os olhos? Quando seria a morte da memória? Afastaram-se os passos, confusos, entrelaçando-se como os fios de uma trança. Mariana, Lise e a mulher fundiram-se numa sombra vaga, dispersaram-se e mergulharam na chuva que as dissolveu. Ele corre na manhã invernal, os pés descalços cortando poças de água. A prima chama-o à janela; voam cabelos sobre o rosto infantil, que sorri. A viagem do barco de papel repousa nas mãos da menina. Ele toma-o, curva-se, entrega-o à enxurrada. Nascem veleiros, alvíssimos, libertos no mar. [...]. Trecho da obra Os gestos (Moderna, 1994), do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS - CANÇÃO DE AMOR NA VITROLA - Pegaria o Harlem à noite / pra torcê-lo a teu redor, / Pra fazer uma coroa pegaria luz de neon, / Pegaria carro e Avenidas, / E os táxis, e o metrô, / E por tua canção de amor à surdina iria o tom / E do Harlem o rubor / Pulsaria como tambor, / Que gravado em rodopio, / A girar e a ser ouvido, / Faz dançar o dia nascido / Com você, mulata doce, que no Harlem acaricio. EU, TAMBÉM - Eu, também, canto a América / Eu sou o irmão mais preto. / Quando chegam as visitas, / Me mandam comer na cozinha. / Mas eu rio / E como bem, / E vou ficando mais forte. / Amanhã, / Quando chegarem as visitas / Me sentarei à mesa. / Ninguém ousará, / então, / me dizer, / “Vá comer na cozinha”. / Além do mais, / Eles verão quão bonito eu sou / E se envergonharão – / Eu, também, sou a América. Poemas do poeta, ativista social, novelista e dramaturgo estadunidense Langston Hughes (1902-1967).


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