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quarta-feira, junho 21, 2017

A ERA SECULAR DE CHARLES TAYLOR, A EDUCAÇÃO DE SCHILLER, BRAVA GENTE BRASILEIRA, BENJAMIN CASSIANO & SARAU POESIA REVISTA

EM CADA ESQUINA A VIDA PASSA - Em cada esquina uma surpresa e o agora é feito de perdas e ganhos, porque tudo pulsa, vibra e a todo o momento, em todas as direções. Há quem viva só pro umbigo, alguns outros nem tanto, ou aqueles que só se valem da sua barbárie interior. Em cada esquina todas as crenças e zis perjúrios na chuva das situações com suas máscaras pras escolhas no jogo de erros e acertos dos rios de lágrimas alma adentro no desamparo e é só o retorno do ponto de partida. Em cada esquina um olhar atento quando displicente por fraquezas e temores entre desatentos e buzuntões, e o obvio se esconde na novidade emersa dos fogos de artifícios, para que o certo seja o medo, mesmo que nada seja em definitivo. Ninguém é tijolo pra viver amontoado sustentando estrutura do vencedor, o coração pulsa, sentimentos e emoções, a vida não é só pra vencer, nem o mundo é só a lógica matemática, não é bem assim, há de enxergar por trás das coisas. Em cada esquina todas as expectativas de um mar aberto com todas as correntes pra se perder e se achar nos redemoinhos das direções. Diz-se o que se quer, diz-se por amor quando desama, diz-se por verdade quando mentira, a utilidade que perpetua o inútil só vendo o pronto, não enxerga o latente e ao brotar só percebe porque ali antes não estava. Em cada esquina todas as esperanças entre o herói e o derrotado e as estrelas caem restando apenas desejos e pedidos. Um botão de rosa não é ouro, um livro não é a peçonha pecaminosa, as cicatrizes negam o riso a culpar outras vítimas pela própria desgraça, as feridas não existiam no deleite do passado, só hoje o gosto de sangue na boca e a privação da felicidade. Em cada esquina encontros e despedidas, a vida passa, vou adiante. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

A ERA SECULAR DE TAYLOR
[...] Todos percebemos nossas vidas e/ou o espaço no qual vivemos nossas vidas como portadores de uma determinada forma moral ou espiritual. Em algum lugar, em alguma atividade ou condição reside uma plenitude, uma riqueza; ou seja, naquele lugar (naquela atividade ou condição) a vida é mais plena, mais rica, mais profunda, mais valiosa, mais admirável, mais o que deveria ser. Este é, talvez, um lugar de poder: geralmente experienciamos isso como profundamente tocante, inspirador. Talvez tenhamos apenas vislumbres muito tênues desse sentido de plenitude; temos uma forte intuição do que seria a plenitude, se tivéssemos naquela condição, por exemplo, de paz ou de completude, ou se fôssemos capazes de agir naquele grau de integridade, generosidade, desprendimento ou abnegação. Mas, às vezes, haverá momentos de plenitude vivida, de alegria e prazer, em que nos sentiremos lá. [...]
Trecho extraído da obra Uma era secular (Unisinos, 2010), do filósofo canadense Charles Taylor, tratando acerca das mudanças e modificações religiosas na sociedade ocidental, numa perspectiva história que aborda o cristianismo e a multiplicação de diferentes opções religiosas, antirrelogiosas e espirituais, desde a Reforma e o momento decisivo, o efeito das narrativas de secularização e as condições de crença.

Veja mais sobre:
O dia amanhece e é maravilhoso viver, Literatura no Brasil de Afrânio Coutinho, O chamado de Françoise Sagan, o pensamento de Aristóteles, a música de Bach & Maggie Cole, o cinema de Alain Chevalier & Catherine Deneuve, A sinfonia pornográfica de Charles Baptiste, Arte Yoga, a arte de Hannah Höch & Orly Faya aqui.

E mais:
A lenda curare aqui.
Vamos aprumar a conversa, A cartomante de Machado de Assis, Bagagem de Adélia Prado, o teatro de William Shakespeare, Nossa música de Jean-Luc Godard, Questão de método de Jean-Paul Sartre, a música de Eumir Deodato, a arte de Carlos Scliar & Ballet Stagium aqui.
Albert Einstein, Entre quatro paredes de Jean- Paul Sartre, A liberdade de pensamento de Fichte, Indícios de oiro de Mário Sá-Carneiro, a música de B. B. King, By by Brasil de Cacá Diegues, a pintura de Jacob Jordaens & Programa Tataritaritatá aqui.
Brincarte do Nitolino, O desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson, A mulher de trinta anos de Honoré de Balzac, Os doze gozos de Maria Teresa Horta, o teatro de Nelson Rodrigues, a música de Joe Cocker, a arte de Lucélia Santos, a pintura de Eugène Delacroix & Paul Nash aqui.
Vamos aprumar a conversa, A natureza do preconceito de Gordon Allport, Eloisa & Abelardo de Alexander Pope, Capital Federal de Artur Azevedo, Repertório selvagem de Olga Savary, a música de Naná Vasconcelos & Uakti, o cinema de Mike Nicholson & Natalie Portman, a pintura de Henri Rousseau & a arte de Ana Botafogo aqui.
Sou um pedaço de nada arrodiado de violência por todos os lados, Violência no mundo de Jean Baudrillard, Violência urbana de Régis de Morais, Canto vilano de Blanca Varela, a música de Pedro Jóia, Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, a arte de Flávio de Carvalho, Poemas à Flor da Pele & Soninha Porto aqui.
Pindura aí, meu! O negócio tá ficando feio, Cidadania insurgente de James Holston, a poesia de Sérgio Frusoni, Cidadania de Maria de Lourdes Manzine Covre, a música de Sol Gabetta, a fotografia de Mara Saldanha, a pintura de Fernando Rosa & a arte de Stanley Borack aqui.
Recomeçar do que vai e vem, A arte da poesia de Ezra Pound, Trajetória da juventude de Miriam Abramovay, Mangas verdes de Rui Knopfli, a música de Tanita Tikaram, a pintura de Aleksandr Gerasimov, a arte de Annette Kellerman & Luciah Lopez aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

A EDUCAÇÃO ESTÉTICA DE SCHILLER
[...] Todas as coisas que de algum modo possam ocorrer no fenômeno são pensáveis sob quatro relações diferentes. Uma coisa pode referir-se imediatamente a nosso estado sensível (nossa existência e bem-estar); esta é sua índole física. Ela pode, também, referir-se a nosso entendimento, possibilitando-nos conhecimento: esta é sua índole lógica. Ela pode, ainda referir-se a nossa vontade e ser considerada como objeto de escolha para um ser racional: esta é sua índole moral. Ou, finalmente, ela pode referir-se ao todo de nossas diversas faculdades sem ser objeto determinado para nenhuma isolada entre elas: esta é sua índole estética. Um homem pode ser-nos agradável por sua solicitude; pode, pelo diálogo dar-nos o que pensar, pode incutir respeito pelo seu caráter; enfim, independentemente de tudo e sem que tomemos em consideração alguma lei ou fim, ele pode aprazer-nos na mera contemplação e apenas por seu modo de aparecer. Nessa última qualidade julgamo-lo esteticamente. Existe, assim, uma educação para a saúde, uma educação do pensamento, uma educação para a moralidade, uma educação para o gosto e a beleza. [...].
Trecho extraído da obra A educação estética do homem (Iluminuras, 1989), do poeta, filósofo, dramaturgo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Veja mais aqui e aqui.

BRAVA GENTE BRASILEIRA
O drama Brava Gente Brasileira (2000), dirigido por Lúcia Murat, a partir dos versos do jornalista Evaristo da Veiga escritos para o refrão do Hino da Independência brasileiro, que ganhou música do imperador Pedro I, contando a relação conflituosa entre os portugueses e os índios no século XVIII, quando um grupo de soldados acompanha o cartógrafo recém-chegado e enviado pela coroa portuguesa para fazer um levantamento tipográfico da região, descobrindo a caminho do forte, um grupo de índias tomando banho em um rio. Destaque para atuação da premiada atriz Luciana Rigueira, melhor atriz no Festival de Brasília.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 
A arte de Benjamin Cassiano.
Veja mais aqui.

SARAU POESIA REVISTA
Acontecerá no próximo dia 30;07, o Sarau Poesia Revista: poesia, música & cinema.
 

terça-feira, novembro 10, 2015

SALGADINHO, SCHILLER, MILLÔR, BOAVENTURA, MORRICONE, KERTÉSZ & MUITO MAIS NO PROGRAMA TATARITARITATÁ!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? SALGADINHO: DE RIACHO PRA ESGOTO – Em continuidade às atividades desenvolvidas no projeto de pesquisa Psicologia Ambiental: a arte na educação da comunidade do Riacho Salgadinho – Maceió, exigência da disciplina Estágio Básico, ministrada pela professora doutora Daniela Botti da Rocha, estivemos nesta segunda feira, na comunidade do Poço Azul, local onde havia a nascente do riacho em questão. Lá estivemos e procuramos pela referida fonte, até encontrar o morador João Felix da Silva, sentado no batente de sua casa, residente ali desde o ano de 1972. Em conversa conosco, ele fez questão de enfatizar que quando ali chegara, bastava pisar forte no chão que jorrava água em abundância, de surgir um olho d’água na hora, ou estourar dali a uns cinco metros de distância. Agua torrente, abundante. Mas um dia de poucos anos atrás a nascente do Poço Azul secou. Assim também se dera com a outra fonte, a Fonte da Correnteza. Agora, onde eram essas duas fontes, existem sítios com plantações e moradias. E ensinou-nos como chegar ao local onde existia a fonte do Poço Azul: só plantações, deveras. Disse ele que a Casal esteve no local e perfurou 200 metros, mas não dando a água qualquer sinal de vida. Do que podemos achar do que poderia ser a nascente do Salgadinho, hoje brota um esgoto a céu aberto que começa na comunidade de Poço Azul, que segundo o depoente, pertence à comunidade de Antares, mas tem outra parte que pertence ao bairro de Jardim Petrópolis, muito embora ele reafirme enfaticamente ser aquilo tudo ali mesmo do bairro de Tabuleiro dos Martins. Conversa concluída, descemos a ladeira e encontramos onde era situada a fonte do Salgadinho, hoje sítio com suas plantações. E logo após, o surgimento de esgoto que serve para escoar os dejetos das residências e depósito de lixo. Com consternação, imaginamos: o esgoto começa ali e finda lá na foz da praia da Avenida, no bairro de Jaraguá, em Maceió. Um imenso esgoto a céu aberto desde 2006. Agora precisamos saber o andamento do Inquérito Civil Público de nº 1.11.000.001.521/2010-25, publicado na Portaria nº 157, na edição 229, página 62, do Diário da Justiça, do dia 17 de novembro de 2010, instaurado pelo Procurador da República, Bruno Baiocchi Vieira e em diligência na Polícia Federal, a cargo do delegado Felipe Vasconcelos e do agente federal Carlos. O Salgadinho agora é só lembrança dos tempos em que a população se reunia em suas margens para se banhar de água doce depois da saída do mar. E vamos aprumar a conversa aqui e aqui.

 Imagem: A Supine Female Nude, with Drapery over her Head, do pintor do Romantismo inglês, Joseph Mallord William Turner (1775-1851)


Curtindo o álbum L'Umanoide - Amanti D'Oltretomba (1965/1992), do compositor, arranjador e maestro italiano Ennio Morricone.

ESTÁTUAS QUANDO OLHAM PARA OS PÉS – No livro Crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência (Cortez, 2002), do jurista e professor Boaventura de Sousa Santos, encontro o capítulo Epistemologia das estátuas quando olham para os pés: a ciência e o direito na transição paradigmática, do qual destaco o trecho: Há um desassossego no ar. Temos a sensação de estar na orla do tempo entre um presente quase a terminar e um futuro que ainda não nasceu. O desassossego resulta de uma experiência paradoxal: a vivência simultânea de excessos de determinismo e de excessos de indeterminismo. [...] Graças à investigação e à teoria feministas, sabe-se hoje que os espelhos, sendo um objeto de uso corrente desde há muitos séculos, são usados de modo diferente pelos homens e pelas mulheres e que essa diferença é uma das marcas da dominação masculina. Enquanto os homens usam espelho por raízes utilitárias, fazem-no pouco frequentemente e não confundem a imagem do que veem com aquilo que são, as mulheres têm de si própria uma imagem mais visual, mais dependente do espelho, e usam-no mais frequentemente, para construir uma identidade que lhes permita funcionar numa sociedade em que não ser narcísico é considerado não feminino [...] as sociedades são a imagem que têm de si vistas nos espelhos que constroem para reproduzir as identificações dominantes num dado momento histórico. São os espelhos que, ao criar sistemas e praticas de semelhança, correspondência e identidade, asseguram as rotinas que sustentam a vida em sociedade. Uma sociedade sem espelhos é uma sociedade aterrorizada pelo seu próprio temor. Há duas diferenças fundamentais entre o uso de espelhos pelos indivíduos e o uso dos espelhos pela sociedade. A primeira diferença é, obviamente, que os espelhos da sociedade não são físico, de vidro. São conjuntos de instituições, normatividades, ideologias que estabelecem correspondências e hierarquias entre campos infinitamente vastos de práticas sociais. São essas correspondências e hierarquias que permitem reiterar identificações até ao ponto de estas se transformarem em identidades. [...] A segunda diferença é que os espelhos sociais, porque são eles próprios processos sociais, têm vida própria e as contingências dessa vida podem alterar profundamente a sua funcionalidade enquanto espelhos. [...] Vejam mais aqui, aqui e aqui.

LIQUIDAÇÃO – A obra Liquidação (Companhia das Letras, 2005), do escritor húngaro e prêmio Nobel de Literatura de 2002, Imre Kertész, conta a história um escritor húngaro que se suicida e deixa como legado uma peça de teatro intitulada Liquidação. Um dos personagens do manuscrito é o editor de B. Amargo, o protagonista que, analisando a peça e investigando o passado do amigo morto, descobre as causas mais profundas de um gesto tão radical. O suicida é uma das poucas crianças nascidas em Auschwitz, e o suicídio remete à condição individual possível em meio à armadilha histórica. Da obra destaco o trecho: Chamemos o nosso homem, o herói da história, de Amargo. Imaginamos um homem e, para ele, um nome. Ou, ao contrário: imaginamos o nome e, para ele, o homem. Embora isso tudo seja secundário, pois o nosso homem, o herói da história, chama-se, na realidade, Amargo. O pai dele se chamava assim. E o avô também. Por conta disso, Amargo foi registrado como Amargo no cartório: essa é, portanto, a realidade, a que - como cabe à realidade - Amargo hoje em dia não atribui muita importância. Nos últimos tempos - num dos anos derradeiros do milênio que se encerra, digamos, no início da primavera de 1999, num final de manhã ensolarado -, a realidade se tornara, para Amargo, um conceito problemático, e, o que era mais grave, um estado problemático. Um estado em que - segundo os sentimentos mais íntimos de Amargo - a realidade era o que mais faltava. Se de algum modo o obrigavam a usar a palavra, Amargo sempre acrescentava: "a assim chamada realidade". Entretanto, isso era apenas uma frágil compensação, que não o satisfazia. Amargo, nos últimos tempos, ficava muito à janela e olhava para a rua. A rua oferecia a visão comum e costumeira do cotidiano costumeiro das ruas de Budapeste. Junto da calçada imunda e manchada de lixo, óleo e sujeira de cachorros, havia carros, nos recessos de um metro entre as paredes leprosas, descascadas, das casas, os pedestres comuns e costumeiros perseguiam seus afazeres, e a expressão contrariada dos rostos refletia os pensamentos sombrios. Alguns deles, talvez na pressa, para se desviar da fileira de gansos rastejantes, desciam da calçada, e nisso o coro das buzinas rancorosas dos automóveis derrubava toda esperança irracional depositada no abandono da fila. Nos bancos da praça em frente que ainda conservavam o assento, sentavam-se à toa os desabrigados da redondeza, com os embrulhos, as sacolas, as garrafas plásticas. Acima de uma barba desgrenhada vibrava um gorro vermelho tricotado, e a borla pendente balançava alegre junto da pelugem repugnante. Um homem com o barrete puído de oficial de um exército inexistente vestia um sobretudo pesado de inverno, sem botões, desbotado, preso na cintura por um elegante cinto de seda, de flores coloridas, que lembrava o adereço de um robe de mulher. Numa perna feminina cheia de nódulos que emergia de uma calça jeans, um sapato de noite prateado com a sola gasta; mais adiante, no gramado estreito, ralo, jazia de joelhos encolhidos, numa imobilidade catatônica, como uma bola de trapos, uma figura indistinta, derrubada pelo álcool ou pela droga, quem sabe pelos dois. Enquanto observava os desabrigados, Amargo de súbito percebeu que uma vez mais observava os desabrigados. Sem dúvida, ultimamente Amargo dedicava muita atenção aos desabrigados. Era capaz de dissipar - na verdade, de seu tempo sem valor - até meias horas à janela, fascinado como um voyeur, que não consegue se desligar da visão obscena estendida em sua frente. Além disso, a posição de espreita sensual era acompanhada em Amargo de uma culpa, uma aversão enojada que por fim resultava num medo da existência, numa angústia nauseante. No instante em que a angústia ganhava contornos inconfundíveis, Amargo, como se tivesse alcançado o objetivo mais obscuro de seu ato obscuro, dava as costas à janela, satisfeito, e se dirigia à mesa, onde se espalhavam diversos papéis datilografados, revirados e dispersos, como pássaros mortos. O próprio Amargo sabia que, na ligação imperiosa que, ultimamente, a despeito de sua consciência e discordância, estabelecera com os desabrigados, havia alguma coisa de preocupante. Na verdade, sofria como se fosse de uma doença. Deveria decidir deixar de se aproximar da janela. Ou somente se aproximaria dela pela necessidade de arejar o quarto ou por uma razão assim prática. Porém, depois, de súbito se surpreendia de novo à janela a observar os desabrigados. Amargo desconfiava que por trás da estranha obsessão se escondia um significado apreensível. Ou melhor, sentia que, se conseguisse decifrar o significado, compreenderia melhor sua própria vida, que, ultimamente, não compreendia. Sentia que da continuidade palpável um dia conhecida como individualidade o separavam abismos. Para Amargo, a pergunta hamletiana não soava como ser ou não ser, mas como sou ou não sou. Amargo folheou distraído um dos escritos sobre a mesa. Tratava-se de uma pilha espessa de papéis, o manuscrito de uma peça de teatro. Na folha de rosto, o título, Liquidação, e o gênero, "Comédia em três atos". Embaixo, "Passada em Budapeste, em 1990". Pegou a folha de papel entre os dedos para seguir folheando, mas acabou por se entregar ao prazer discutível de ler os detalhes do cenário: (A sala sombria do editor numa editora sombria. Paredes gastas, estantes de livros decrépitas, entre os livros expostos faltas gritantes, abandono; embora não haja nenhum sinal de mudança, em tudo impera a provisoriedade desoladora das mudanças. Na sala, quatro escrivaninhas, quatro lugares de trabalho. Sobre as mesas, máquinas de escrever, manuscritos, dossiês. Janelas dando para um quintal. Uma porta no fundo, para o corredor. Em algum lugar, ao longe, o brilho do sol de um fim de manhã, na sala sombria da editora, iluminação sombria artificial. Na sala, Kürti, a esposa, Sára, e o dr. Obláth. Constrangidos, expectantes, sentam-se ao redor de uma mesa que mais tarde se revela pertencer a Amargo.) [...] Veja mais aqui.

A DIGNIDADE DAS MULHERES – No livro A poesia magistral de Schiller, do poeta, dramaturgo, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805), destaco o poema A dignidade das mulheres: Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem / Rosas sublimes na vida terrena, / Entrançam do amor o venturoso laço / E, através do véu casto das Graças, / Alimentam, vigilantes, o fogo eterno / De sentimentos mais belos, com mão sagrada. / Nos limites eternos da Verdade, o homem / Vagueia sem cessar, na sua rebeldia, / Impelido por pensamentos inquietos, / Precipita-se no oceano da sua fantasia. / Com avidez agarra o longe, / Seu coração jamais conhece a calma, / Incessante, em estrelas distantes, / Busca a imagem do seu sonho. / Mas, com olhares de encanto e fascínio, / As mulheres chamam a si o fugitivo, / Trazendo-o a mais avisados caminhos. / Na mais modesta cabana materna / Foram deixadas, com modos mais brandos, / As filhas fiéis da Natureza piedosa. / Adverso é o esforço do homem, / Com força desmesurada, / Sem paragem nem descanso, / Atravessa o rebelde a sua vida. / Logo destrói tudo o que alcança; / Jamais termina o seu desejo de luta. / Jamais, como cabeça da Hidra, / Eternamente cai e se renova. / Mas, felizes, entre mais calmos rumores, / Irrompem as mulheres, num instante de flores, / Propiciando zelo e cuidadoso amor, / Mais livres, no seu concertado agir, / Mais propensas que o homem à sabedoria / E ao círculo infindável da poesia. / Severo, orgulhoso, autárcico, / O peito frio do homem não conhece / Efusivo coração que a outro se ajuste, / Nem o amor, deleite dos deuses, / Das almas desconhece a permuta, / Às lágrimas não se entrega nunca, / A própria luta pela vida tempera / Com mais rudeza ainda a sua força. / Mas, como que tocada ao de leve pelo Zéfiro, / Célere, a harpa eólica estremece, / Tal é a alma sensível da mulher. / Com angustiada ternura, perante o sofrimento, / O seu seio amoroso vibra, nos seus olhos / Brilham pérolas de orvalho sublime. / Nos reinos do poder masculino, / Vence, por direito, a força, / Pela espada se impõe o cita / E escravo se torna o persa, / Esgrimem-se entre si, em fúria, / Ambições selvagens, rudes, / E a voz rouca de Éris domina, / Quando a Cárite se põe em fuga. / Porém, com modos brandos e persuasivos, / As mulheres conduzem o ceptro dos costumes, / Acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama, / Às forças hostis que se odeiam / Ensinam a maneira de ser harmoniosa, / E reúnem o que no eterno se derrama. Também o poema Ectasy por Laura: Laura, se você olhar com ternura / Para o raio deslumbrante / Meu espírito a vida, feliz de novo, / Explosão ligada / Desliza com o sol de maio. / E se eu olhar em seus olhos plácidos / Sem sombras e sem véus, / Respiração em êxtase, / Auras do céu. / Se o som acento / Ao ar livre dá o seu lábio com um suspiro / E doce harmonia / De estrelas douradas; / Eu ouço o coro de anjos, / E absorveu minha alma / No amor transparente em êxtase. / Se na dança harmoniosa / Seu pé desliza como a onda tímido, / Ama a tropa misteriosa / Agita o olhar de asa; / A árvore de jogadas, atrás de você, seus ramos / Ouviram-se como só a lira de Orfeu, / Minhas plantas e da terra andamos / Turbilhão em turbilhão. / Se os seus olhos, o flash puro, / Amar o fogo inflamado, / Bate o mármore duro árido / E dá chamadas interurbanas vitais. / A fantasia sonhada no prazer / Contempla o presente já segura / Quando eu li nos seus olhos, a minha Laura! Veja mais aqui e aqui.

COMPUTA, COMPUTADOR, COMPUTA – Na peça teatral Computa, computador, computa (Nórdica, 1972), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012), destaco o trecho inicial: BLACK-OUT (Luz que se acende lentamente, em resistência. Cenário todo branco, vagas coisas pintadas de cores violentas. Atriz, deitada no chão, em posição fetal, cabeça para baixo em direção à platéia. Imóvel. Música de fundo, em crescendo.) VOZ MASCULINA (Off, em tom de comunicado noticioso) Temos o triste dever de comunicar o nascimento, hoje, às três horas da manha, do cidadão dois bilhões quatrocentos e cinqüenta e cinco milhões, setecentos e oitenta e sete mil, trezentos e vinte e dois. O nascituro, do sexo feminino, veio ao mundo a pesar das providencias das autoridades e de todos os esforços da ciência, que tentaram evitar por todas as maneiras o odioso acontecimento. Vítima de um ato criminoso de dois cidadãos de sexos opostos que se entregaram a práticas sexuais há muito condenadas, o cidadão em questão foi gerado pelos processos mais obsoletos, trazendo dores e aflições durante nove meses a uma cidadã prestante, e ingressou – completamente despreparado – num meio ambiente impróprio, numa ecologia à qual dificilmente se adaptará. Os médicos constataram condições intelectuais especulativas que... (Voz baixando, se afasta, tornado-se inaudível. A atriz vai se mexendo lentamente ate nascer. Durante todo o inicio se esforça violentamente para sair, ate que sua cabeça salta de dentro do plástico no qual está envolvida. Ela sai da concha. Esfrega os olhos. Olha em volta, tudo muito lentamente, ad libitium.) ATRIZ Olá, classe média. (Procura. Faz como quem abre janela.) (Acende e apaga a luz.) É. Bom. Aqui estou eu. Eu estou aqui. O fundamental é saber que é que eu vim fazer aqui? Bem. Vamos ver. Alguém vai me dizer. Vai aparecer alguém. (Procura. Depois:) Hei! Tem alguém aí? (Continua procurando, levanta papeis imaginários.) Vai ver que não tem nenhuma Seção de Informações. (Procura mais.) Nenhuma mensagem. Quer dizer, vou ter que descobrir sozinha. Passo a passo, gesto a gesto, vou Ter que descobri tudo sozinha. Será que a idéia geral é essa? Vou Ter que inventar o meu lugar, o que fazer, palavra por palavra? A! ( Escuta.) B! ( Escuta.) C! ( Escuta.) Abecedê. (Escuta. Ri.) Estou começando a inventar o alfabeto. Daqui pra inventar a comunicação é só um passo. Problema é com quem comunicar. (Olha em volta.) Imaginem se eu tiver que inventar meu próprio enredo. Imaginem se eu tiver que improvisar. A casa cheia e eu tendo que improvisar. (Discursiva.) Meus amigos, não há amigos. Senhores e senhoras, cheguei e, para provar estou aqui. (Ri.) Não está mal. Sou obrigada a reconhecer que tenho um certo talento. Meus senhores, tudo é igual mas a distancia é grande. Todo homem tem direito a sessenta anos de cadeia. Se eu fosse o papa vendia tudo e ia embora. Pois Roma não se desfez num dia. O silencio é de prata, tempo é dinheiro, mas nem tudo que reluz é ouro. O homem só está fora de perigo quando bate as botas. O dinheiro compra o cão, o canil e o abanador do rabo. “Não sou um tarado sexual”, dizia o outro, “mas quando eu nasci já tinha uma mulher na cama. Pior, era minha própria mãe.” Errar é humano. Botar a culpa nos outros também. A Semântica é o ópio dos psicanalistas. Os homens não fervem à mesma temperatura. Os limites de cada um terminam onde terminam os limites da autoridade. (Pensa.) Estou ficando mais audaciosa. Será que tudo é permitido? O lar é inviolável mas é bom cada cidadão usar cadeados e trancas bem resistentes. Indultar eles não indultam mas todo ano botam mais um elo na corrente. Viram? Acho que sou uma vocação filosófica desagregadora. O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria-prima. (Pensa. E, com orgulho diz:) Vejam essa: Todo homem é criminoso até prova em contrario. Não sou bacana? Não sou corajosa? Não sou...eficaz? (Se eintusiasmando.) O pensamento é totalmente livre. Exprimi-lo, porém, é toda uma outra conversa. O poder público fica dividido em executivo, exercicutivo e executado. A justiça será igual para todos, sendo que para os ricos um pouco mais igual do que pros pobres. É garantida a liberdade de cátedra. Cada um pode comprar quantas cadeias quiser. Boa, heim? Eu acho que vou dar certo. (Entra homem policialesco, se coloca no fundo do palco, não diz nada, mais vai grilando a atriz. Com um papel e um lápis toma nota do que ela diz. A atriz vai murchando, desconfiada.) Há certas testemunhas que justificam qualquer crime. Uma coisa, amigo, eu posso lhe garantir. O seu complexo de inferioridade não é inferior ao de ninguém. Todo homem tem direito de torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo. (Homem no fundo, bate palmas mandando parar. Entra outro homem.) HOMEM II Temos ordem de interromper sua representação. (Os homens falam sem agressividade mas seguros na sua autoridade.) [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

ECSTASY – O drama romântico Ectasy (Êxtase, 1933), dirigido pelo cineasta, roteirista e ator checo Gustav Machatý (1901-1962), escrito por František Horky, Gustav Machatý, Jacques A. Koerpel, e Robert Horky, conta a história de uma jovem que se casa com um homem rico, e que depois de abandonar seu breve casamento sem paixão, ela conhece um jovem engenheiro viril que se torna seu amante. O filme é maravilhosamente encatador e foi bastante ousado para época por causa das cenas da belíssima e encantadora atriz austríaca Hedy Lamarr (1914-2000), nadando nua e abordando temas como orgasmo feminino e trazendo cenas fascinantemente lindas de entregas corporais. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
As mulheres nas esculturas de Emílio Fiaschi (1858-1941)
Veja mais aqui.
Veja mais no MCLAM: Hoje é um dia especial! É dia do programa Tataritaritatá, um programa diferente, especial e que será como se fosse pra nunca mais. Acontecerá a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial, inesquecível e apaixonante de Meimei Corrêa, essa grande mulher que brindou meu coração e minha vida. Por isso mesmo, o programa hoje é só gratidão: obrigado, Meimei, obrigado por tudo, obrigado, obrigado, obrigado. Na programação, os meus amigos e parceiros: Sonia Mello, Ricardo Machado, Mazinho, Jarbas Barros, Wilson Monteiro, Cikó Macedo, Sonekka, Zé Linaldo, Santanna o Cantador, Félix Porfírio, Ozi dos Palmares & Daniel Pissetti Machado. Obrigado pra vocês, também. E com meus reiterados agradecimentos, desejo para Meimei - a eterna e maravilhosa parceira que faz feliz meu coração - toda felicidade do universo! E que a sua caminhada seja repleta de alegria, sucesso e realizações com tudo que você merece. Para conferir online acesse aqui .


quarta-feira, maio 13, 2015

SCHILLER, ROUGEMONT, LIMA BARRETO, RAIMUNDO CORREIA, WONDER, GRAHAM, MURILO MENDES, NELSON PEREIRA & BRAQUE.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Tenho me dedicado já há algum tempo aos estudos sobre o papel e responsabilidade dos pais, da família e da sociedade com relação ao desenvolvimento das crianças. Isso desde que escrevi meu primeiro livro para o público infanto-juvenil. Esse foi o momento do meu primeiro estalo: como cuidar, orientar, acompanhar e promover o desenvolvimento adequado na infância. Eu me vi criança e não sabia nada. Meu olhar voltou-se para os meus pais. E como é fácil atirar pedras, vou falar por mim. Fui uma criança convencionalmente feliz e problemática: presepeiro em todos os sentidos. Tagarela, inquieto, inventivo, dentro dos padrões de normalidade da época (muito embora não saiba eu o que seja essa normalidade e até me recuso a aceitá-la; leia-se Caetano Veloso: “De perto ninguém é normal”). Ah, minha mãe, avós, tias, professoras, coitadas – Que o diga Carma! Com certeza, eu seria enquadrado dentro de um perfil patológico desses que são inadvertidamente prescritos nesses tempos dos CIDs e DSMs de hoje. Alcancei a adolescência com as broncas da idade: queria que meus pais fossem outros, mas ao mesmo tempo, falasse mal do meu pai ou da minha mãe, eu brigava – contradições próprias da idade. Tornei-me pai ainda adolescente: uma felicidade para lá de incontida, uma vaidade desproposital não recomendável para ninguém. Quando tomei ciência do que fui como pai, vi que tudo que eu detestava nos meus, era talqualmente revelado em mim com relação aos meus filhos. Ou seja: como diz Belchior na sua canção “Como nossos pais”. Dormir com um barulho deste me fez ter maior dedicação aos estudos tanto na área da Educação, como na área do Direito, do Teatro, da Literatura, da Música e, nos últimos anos, da Psicologia. Usei o meu exemplo de pai e me descobri verdadeiramente irresponsável. Primeiro com a constatação de mero fabricador de filhos (esse tipo incluído entre os Fabos do Fecamepa) e de que o tempo passou e não vi que a criança cresce absorvendo os exemplos dados pelos pais, pela família e pela sociedade. Os erros que eu julgava serem dos meus pais estavam, inconsciente e multiplicadamente, reproduzidos por mim na minha ingênua ilusão de que eu jamais daria a um filho o mesmo tratamento que recebi. Isso era o que eu pensava até o momento em que me vi responsável por tudo que um filho passa pela maneira como os pais, se achando dono da verdade, imprimem, reprimem e deixam colados na personalidade do filho. Acredito que eu tenha dado o primeiro passo: reconheço que ser pai começa quando cai a ficha de que muitos filhos nasceram pela busca irrefreável de desfrutar do prazer de amar e sair copulando a torto e a direito pela necessidade premente de autoafirmação e satisfação plena (e depois a mãe que se vire com a gravidez e o filho), estourando a bomba na catástrofe do remorso, quando terá de dar uma de bombeiro na tragédia, tentando consertar tudo. A responsabilidade de ser pai vai muito mais além do simples bancar educação e sustento, mostrar o que é certo ou errado, e de chegar junto ou com afeto ou censura nas horas que julgamos adequadas. Ser pai é muito mais. E vamos aprumar a conversa! Ah, já ía me esquecendo, um lembrete: hoje é dia da reprise do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, com apresentação da Isis Corrêa Naves, de manhã às 10hs e, de tarde, às 15hs, no blog do Projeto MCLAM. Para conferir online é só clicar aqui.

Imagem: Figure double with marine background, do pintor francês Georges Braque (1882-1963)

Curtindo o dvd Stevie Wonder Live at Last (2009), do cantor, compositor e ativista estadunidense de causas humanitárias e sociais Stevie Wonder.

EROS OU O DESEJO SEM FIM – No livro O amor e o Ocidente (Guanabara, 1988) do escritor e ambientalista suíço Denis de Rougemont (1906-1985), trata acerca de temas como o mito de Tristão, Ágape ou o amor cristão, o amor cortês, heresia e poesia, os místicos árabes, o romance bretão, paixão e mística, as místicas ortodoxas e a linguagem da paixão, crepúsculo do amor-paixão, sobre a influencia precisa da literatura nos costumes, a evolução da cavalaria até Cervantes, Romeu e Julieta, Astréia: da mística à Psicologia, Don Juan e Sade, o instinto glorificado, a paixão em todos os domínios, paralelismo das formas, linguagem guerreira do amor, a paixão levada à política, o mito contra o casamento, da anarquia ao eugenismo, sobre a fidelidade, os paradoxos do ocidente, canções de gesta e romances corteses, concepções orientais do amor, Freud e os surrealistas, paixão e ascese, sobre o sadismo, entre outros interessantes assuntos. Da obra destaco o trecho Eros ou o desejo sem fim (Platonismo, druidismo, maniqueísmo): Em Fedro e O Banquete, Platão fala de um furor que vai do corpo à alma para perturbá-la com humores malignos. Não é o amor que ele louva. Mas há outra espécie de furor, ou de delírio, que não se engendra sem a intervenção de alguma divindade, nem se cria na alma a partir de nós mesmos: é uma inspiração inteiramente estranha, uma atração que age externamente, um arrebatamento, um rapto indefinido da razão e do sentido natural. Será chamado, a justo título, entusiasmo, que significa, "endeusamento", pois esse delírio procede da divindade e nos impulsiona para Deus. Tal é o amor platônico: "delírio divino", arrebatamento da alma, loucura e suprema razão. Por conseguinte, o amante está junto do ser amado "como no céu", pois o amor é a vida que ascende por degraus de êxtase para a origem única de tudo o que existe, longe dos corpos e da matéria, longe do que divide e distingue, para além da infelicidade de ser o que se é e de ser dois no próprio amor. Eros é o Desejo total, é a Aspiração luminosa, o impulso religioso original elevado à sua mais alta potência, à extrema exigência de pureza que é extrema exigência de Unidade. Mas a unidade última é a negação do ser atual em sua sofredora multiplicidade. Assim, o impulso supremo do desejo conduz àquilo que é o não-desejo. A dialética de Eros introduz na vida algo totalmente estranho aos ritmos da atração sexual, um desejo que não decresce jamais, que nada mais pode satisfazer, que até mesmo desdenha e foge à tentação de se realizar em nosso mundo, porque só deseja abraçar o Todo. É a superação infinita, a ascensão do homem para o seu deus. E esse movimento é sem retorno. [...]. Veja mais aqui.

RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA – A obra Recordações do escrivão Isaías Caminha (Ática, 1995), é o primeiro romance do escritor Lima Barreto (1881-1922), narra a história de um jovem provinciano que vai menino para o Rio de Janeiro, pensando em fazer a vida e virar doutor. Contudo, tudo lhe parece impossível, não reage, vende os livros para poder pagar o hotel e o aluguel da casa de cômodos, passando a comer apenas quando não podia suportar a fome, até alcançar a vida de repórter e se transformar num boêmio. Esse romance pré-modernista faz uma crítica ao racismo e ao preconceito, além de satirizar a imprensa de que fazia parte, retratando a realidade social com uma linguagem acessível e clara. Do livro destaco esse trecho: [...] IV - Se os senhores algum dia quiserem encontrar um representante da grande nação brasileira, não o procurem nunca na sua residência. Seja a que hora for, de manhã, ao amanhecer mesmo, à hora do jantar, quando quiserem enfim, se o procurarem, o criado há de dizer‑lhes secamente: Não está. Falo‑lhes de experiência própria, porque, durante as inúmeras vezes, a toda a hora do dia, em que fui ao Hotel Términus procurar o Deputado Castro, apalpando a carta do coronel, tive o desprazer de ouvir estas duas palavras do porteiro indiferente. Nas últimas vezes, antes mesmo de acabar a pergunta, já o homenzinho respondia invariavelmente da mesma desesperada forma negativa. É bem fácil de imaginar com que sorte de cogitações eu ia passando esses dias. O meu dinheiro dentro em breve, pago o hotel, ficaria reduzido a alguns mil‑réis insignificantes. Não conhecia ninguém, não tinha a mínima relação que me pudesse socorrer, dar‑me qualquer coisa, casa ao menos, até que me arranjasse. Saíra de meus penates, cheio de entusiasmo, certo de que aquela carta, mal fosse apresentada, me daria uma situação qualquer. Era essa a minha convicção, dos meus e do próprio coronel. Tinha‑se lá, por aquelas alturas, em grande conta a força do doutor Castro nas decisões dos governantes e a influência do velho fazendeiro sobre o animo do deputado. Não era ele o seu grande eleitor? Não era ele o seu banqueiro para os efeitos eleitorais? E nós, lá na roça, tínhamos quase a convicção de que o verdadeiro deputado era o coronel e o doutor Castro um simples preposto seu. As minhas idas e vindas ao hotel repetiam‑se e não o encontrava. Vinham‑me então os terrores sombrios da falta de dinheiro, da falta absoluta. Voltava para o hotel taciturno, preocupado, cortado de angústias. Sentia‑me só, só naquele grande e imenso formigueiro humano, só, sem parentes, sem amigos, sem conhecidos que uma desgraça pudesse fazer amigos. Os meus únicos amigos eram aquelas notas sujas encardidas; eram elas o meu único apoio; eram elas que me evitavam as humilhações, os sofrimentos, os insultos de toda a sorte; e quando eu trocava uma delas, quando as dava ao condutor do bonde, ao homem do café, era como se perdesse um amigo, era como se me separasse de uma pessoa bem amada... Eu nunca compreendi tanto a avareza como naqueles dias que dei alma ao dinheiro, e o senti tão forte para os elementos da nossa felicidade externa ou interna... A minha ignorância de viver e falta de experiência quase deixavam transparecer a natureza das minhas preocupações. O gerente do hotel pareceu‑me que as farejava. De quando em quando, procurava na conversação amedrontar‑me com o seu poderio, proveniente de estreitas relações que mantinha com as autoridades. Assim entendi ser o sentido das anedotas que contava. Uma vez — narrou ele — depois de uma longa hospedagem, um hóspede quisera furtar‑se ao pagamento. Não tivera dúvidas, fora ao delegado auxiliar, um seu amigo, o doutor Felício, contara‑lhe o caso e o homem teve que pagar, se quis tirar as malas. Com ele, era assim; não dormia. Nada de justiça, de pretorias... Qual! Com a polícia a coisa vai mais depressa, a questão é ter amigos bons e ele tinha‑os excelentes; e, em seguida, interrogando‑me diretamente: O senhor não viu, ontem, aquele homem gordo que jantou na cabeceira? É o escrivão da “X”. Os escrivães, fique o senhor sabendo, é que são as verdadeiras autoridades. Os delegados não fazem senão o que eles querem; tecem os pauzinhos e... E o italiano rematou com um olhar canalha aquela sua informação sobre a onipotência dos escrivães. Foram de imensa angústia esses meus primeiros dias no Rio de Janeiro. Eu era como uma árvore cuja raiz não encontra mais terra em que se apóie e donde tire vida; era como um molusco que perdeu a concha protetora e que se vê a toda a hora esmagado pela menor pressão. Oprimido com sua antevisão de misérias a passar, de humilhações a tragar, o meu espírito deformava tudo o que via. Os menores fatos que lhe caíam ao alcance, eram aumentados de um lado, diminuídos de outro; fazia‑se outra coisa muito diversa para minha sensibilidade enfermiça, que a imaginação guiava para sentir todos os terrores e ameaças. Perdia a realidade da vista e vivia subdelirante num mundo de coisas grotescas, absurdas e não existentes. Punha‑me a apelar para o Acaso, como se tivesse predileções. Esperava encontrar fortunas perdidas, imaginava impossíveis combinações de acontecimentos que me favorecessem e cheguei mesmo, por instantes, a supor que atos de generosidade de minha parte bem podiam trazer‑me o favor de gênios benfazejos. Pelo correr do dia, depois do almoço, quando me vinha o pensamento da minha situação, entrava no jardim, dia alto e morno. Aqui e ali, gozando o viço educado do parque, encontrava fisionomias fatigadas, tristes, tendo estampada na comissura dos lábios sem forças a irreparável derrota na vida. Ao sol do meio‑dia, dormitavam pelos bancos, sob a sombra de árvores vigorosas. Sentava‑me por minha vez, sonhava alguns minutos, em seguida catava com o olhar o chão, esquadrinhava‑o bem. Era então com o coração palpitante que me abaixava junto à relva para levantar do chão uma velha caixa de fósforos, lavada e desbotada pelas chuvas, já sem rótulo, humilde objeto que tenazmente resistira às vassouradas e às intempéries para atrair o meu olhar maravilhoso. Como se fosse um furto, um crime, apanhava‑a a medo e, depois de inspecionar com cuidado os arredores, abria‑a com respeito, comovido, trêmulo, esperando — oh! meu Deus! — que dentro dela houvesse uma nota de quinhentos mil‑réis. Oh! quantas vezes não apelei para o Acaso, para o Milagre! Quantas! Os deuses vinham‑me ao pensamento com o seu indispensável cortejo de fadas e de anjos... Uma noite, andando eu deambulando por umas ruas desertas do interior da cidade, fui dar não sei a que praça, em que havia ao fundo uma grande casa; ia distraído, completamente entregue às minhas preocupações, cabisbaixo, quando alguém me tomou os passos e me falou com uma voz de apiedar. Era uma mulher andrajosa; parei e ouvi‑a. Balbuciante, contou‑me misérias, a fome dos filhos, moléstias, por fim, não pôde mais falar — prorrompeu em choro... Evoquei logo aquelas histórias de fadas e gnomos, aquelas histórias morais em que os gênios misteriosos vêm pela terra em disfarce, para experimentar os corações dos mortais e eu... e eu dei uma nota de esmola, uma nota graúda que me sangrou fortemente a algibeira linfática. Mesmo depois que sai daquela praça erma, e que de mim se foi a comoção da surpresa, eu esperei a recompensa, a recompensa dos céus para aquele meu ato generoso. Alternativamente apelava para o Mistério e para as potências terrestres. Aferrara‑me a duas amarras, uma no Mistério e outra nas coisas do mundo. Todo o dia ia ao hotel, cheio de alacridade, figurando comigo mesmo ao encontro com o deputado, imaginava‑lhe a bondade do acolhimento, a piedade e a simpatia pelo meu estado e pelos meus desejos. Imaginava‑me daí a dias empregado, num lugar modesto, de renda certa, dentro de um mês indo à faculdade, as atribuições do trote, os apertos do exame, os anos seguindo‑se, as notas, os lentes, a tese, a formatura... [...] Veja mais aqui.

AS POMBAS & MAL SECRETO – No livro Vida e obra de Raimundo Correia (MEC/INL, 1960), biografia e reunião da produção poética do poeta parnasiano Raimundo Correia (1860-1911), encontrei um dos seus melhores poemas. O primeiro, Mal secreto: Se a cólera que espuma, a dor que mora / N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, / Tudo o que punge, tudo o que devora / O coração, no rosto se estampasse; / Se se pudesse o espírito que chora / Ver através da máscara da face, / Quanta gente, talvez, que inveja agora / Nos causa, então piedade nos causasse! / Quanta gente que ri, talvez, consigo / Guarda um atroz, recôndito inimigo, / Como invisível chaga cancerosa! / Quanta gente que ri, talvez existe, / Cuja a ventura única consiste / Em parecer aos outros venturosa! Também o seu belíssimo As pombas: Vai-se a primeira pomba despertada... / Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas / De pombas vão-se dos pombais, apenas / Raia sanguínea e fresca a madrugada... E à tarde, quando a rígida nortada / Sopra, aos pombais de novo elas, serenas, / Ruflando as asas, sacudindo as penas, / Voltam todas em bando e em revoada... / Também dos corações onde abotoam, / Os sonhos, um por um, céleres voam, / Como voam as pombas dos pombais; / No azul da adolescência as asas soltam, / Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam, / E eles aos corações não voltam mais... Veja mais aqui.

O TEATRO CONSIDERADO COMO UMA INSTITUIÇÃO MORAL – O texto O teatro considerado como uma instituição moral (Estética Teatral, 1980), do poeta, filósofo e historiador alemão Friedrich Schiller (1759-1805), expressa que: Doi uma inclinação geral e irresistível para o novo e extraordinário, uma ânsia de se sentir num estado de paixão que, como observa Sulzer, deu origem ao teatro. Esgotado pelas exigências eleadas do espirito, esmorecido pelos afazeres monótonos, muitas vezes deprimentes, da profissão e farto de sensualidade, o homem tinha necessariamente que sentir um vazio no seu ser que repugnava ao seu eterno impulso de atividade. A nossa natureza, tão incapaz de permanecer mais tempo no estado intermédio que unisse os dois polos opostos, moderasse a tensão demasiado violenta, transformando-a em doce harmonia, e facilitasse a transição alternativa de um estado para o outro. Ora, esta função só o sentido estetico ou o sentimento do belo a pode desempenhar. Como, porém, o primeiro feito de um legislador prudente deve ser selecionar de entre dois efeitos o maior, ele não se contentará com ter simplesmente desarmado as inclinações do seu povo; utiliza-la-á também, sempre que possível, como instrumento de planos superiores e esforçar-se-á por as transformar em fontes de felicidade. Por isso ele escolheu, antes de tudo, o teatro, que abre o espírito sedento de atividade um domínio imenso, de alimento a todas as faculdades da alma, sem exigir demasiado de uma só, e concilia a educação da razão e do coração com o mais nobre dos passatempos [...] A jurisdição do teatro começa onde termina o domínio das leis humana. Quando a justiça se deixa cegar pelo ouro e engorda a soldo do vicio, quando os crimes dos poderosos escarnecem da impotência dela e o medo dos homens até a mão da autoridade, o teatro toma a espada e a balança e arrasta o vicio até aos pés de um tribunal terrível. Todo o reino da fantasia e da história, do passado e do futuro, está cegamente à suas ordens. Audaciosos criminosos que há muito tempo já se desfazem em pó são agora convocados pela voz toda-poderosa da poesia e repetem, para medonha lição à posteridade, uma vida infame. Impotentes, como sombras num espelho côncavo, os que foram os terrores do seu século perpassam diante dos nossos olhos e é com um horror voluptuoso que amaldiçoamos a sua memória. Quando já nenhuma moral for ensinada, quando já nenhuma religião encontrar crédito, quando já não houver leis, Medeia ainda nos fará estremecer quando desce cambaleando as escadas do palácio e o infanticídio já é um fato. Um horror salutar sempre se apoderará dos homens e, em segredo, todos louvarão o valor de uma consciência tranquila quando Lady Macbeth, terrível sonambula, lava as mãos e conjura os perfumes da Arábia para desfazer o horrendo odor do assassínio. Tão certo como uma representação visível produzir um efeito mais forte que uma letra morta e uma narração fria é o teatro agir de maneira mais profunda e duradoura que a moral e as leis. [...] Veja mais aqui.

UMA MULHER & A ESFINGE – Na Antologia Poética (Cosac Naif, 2014) do escritor do Surrealismo brasileiro Murilo Mendes (1901-1975), destaco inicialmente o poema Uma Mulher: Ela estava no círculo familiar como as outras, / Folheando um livro de gravuras: / A noite nos cercava com seus abismos azuis / E a ideia de quase uma floresta próxima. / Alguém acendeu um candeeiro de petróleo, / As pessoas presentes recuaram no tempo. / Ela se levantou para abrir uma vidraça, / E muito branca, toda vestida de preto, / Seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes, / Fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota, / Hélices mexendo, mãos a correr no teclado. / Quando sentou-se era outra vez a mulher. Também o ótimo A Esfinge: Ó Deus / Eu nasci para ser decifrado por ti. / Com um pé no limbo, o coração na estrela Vênus e a cabeça na Igreja / Espero tua resposta desde o princípio do mundo. / Também tu nasceste para mim: / Com tua medalha ao peito, para não esquecer minha origem, / Percorro arfando este deserto. / A palavra definitiva deverá surdir de teus lábios / Ao menos no instante. Por fim, merece destaque o seu poema O homem, a luta e a eternidade: Adivinho nos planos da consciência / dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos / mundo de planetas em fogo / vertigem / desequilíbrio de forças, / matéria em convulsão ardendo pra se definir. / Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades, / o mundo ainda é pequeno pra te encher. / Abala as colunas da realidade, / desperta os ritmos que estão dormindo. / À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando! / Um dia a morte devolverá meu corpo, / minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins / meus olhos verão a luz da perfeição / e não haverá mais tempo. Veja mais aqui.


COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS – O excepcional filme Como era gostoso o meu francês (1971), do cineasta brasileiro e um dos precursores do Cinema Novo, Nelson Pereira dos Santos, conta a história de um aventureiro francês conhecedor de artilharia, que no ano de 1594, é capturado e se torna prisioneiro dos Tupinambás. Confinado na tribo ele estava condenado a ser devorado pelos índios como condição de que devorando o inimigo a tribo adquiria todos os seus poderes que eram a utilização da pólvora e os canhões. O filme é ótimo e o destaque dessa vez vai para a atriz e cineasta Ana Maria Magalhães. Veja mais aqui.















IMAGEM DO DIA
Lamentation nº 6, da dançarina e coreógrafa estadunidense Martha Graham (1894-1991)


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Juramento, O passado e o futuro de Hannah Arendt, a poesia de Federico Garcia Lorca, Memorável viagem ao Brasil de Johan Nieuhof, a música de Gabriel Pareyon, a pintura de Leonid Afremov & Vera Rockline, a fotografia de Lionel Wendt, a arte de Rufino Tamayo & Sergio Ramirez aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa, A Divina comédia de Dante Alighieri, Ensaios de Ralf Waldo Emerson, a música de Mikko Härkin, o teatro de Luigi Pirandello, Macunaíma de Mário de Andrade, a pintura de Mark Gertler & a arte de Guido Crepax aqui.
Os amores de Edneimar, a viúva negra, o cinema de Edward Yang & Elaine Jin, A pintura de Pino Daen & Norman Lindsay, a música de Iara Rennó & Tudo quanto pode o sonho, pode o amor provar aqui.
Se essa rua fosse minha, Manuscrito de Felipa de Adélia Prado, a música de Chiquinha Gonzaga & Clara Sverner, a arte de Luciah Lopez & Quem sabe a vida o amor que nos faz vivo aqui.
Quem vê cara, não vê coração, a música de Fany Solter, a fotografia de Jack Mitchell, a pintura de Fabien Clesse, a arte de Valmir Singh & Entre tombos & topadas a gente leva a vida aqui.
Erotismo & pornografria, o tamanho da hipocrisia, O Sartor Resartus de Thomas Carlyle, a poesia de Ferreira Gullar, a música de Maria Gadú, a gravura de Edmund Joseph Sullivan, a arte de Nadir Afonso & A alegria imensa para um, dois, ou mais, todos aqui.
A ansiedade, a depressão & a medicalização, a  literatura de José Cândido de Carvalho, a música de Schuman & Maria Clodes Jaguaribe, a arte de Shirley Paes Leme & Aldemir Martins, Na festa das vitrines, tudo é do umbigo e o bolso furado no âmago aqui.
E se vem ou vai, eu voou, a música de Jehane Saade, a arte de Manuel Pereira da Silva & Paula Rego aqui.
Festa do dia 8 de dezembro, lavando a jega, a poesia de Florbela Espanca, a escultura de Camille Claudel, a música de Alaíde Costa, a arte de Militão dos Santos & Tatiana Grinberg, Quando tudo se desapruma a farra é só pro desgoverno aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...