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segunda-feira, outubro 05, 2015

CYRO, VIOLETA, MARIETA, DIDEROT, IDA, PUTZ & ENCONTRO DE SOMBRAS E OLORES!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O ENCONTRO DAS SOMBRAS E OLORES – Cada qual sua sombra, seu olor. A vida de cada um de nós poderia ser representada como uma vela: cada vivo é uma vela acesa, basta um vento forte para apagá-la. Tanto pode fenecer por tempestades que surgem das circunstâncias de desespero, como se extinguir por conta da normalidade do processo vital. O que se deve ter em mente, antes de tudo, é aquela máxima de Lavoisier: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Também, nem 8, nem 80. E que ventos e brisas, ou nos dão sentido de vida, ou nos levam a perder o caminho de si. Depende como cada qual usa seu livre-arbítrio. Contudo, enquanto velas, quando acesas irradiam vida; apagadas, efluem dos submundos das trevas da insatisfação. O certo é que há sempre uma sombra acompanhando a vida e todos os seus passos – o lado escuro, verdadeiro, o invisível e infinito; e os seus olores - a essência e seus matizes, o visível da expressão. Ambas dualistas, sombras escuras de negrume espesso, sombras de abrigo, refrigério; olores que vão desde a inhaca mais abjeta ao eflúvio do prazer mais profundo. Sombras e sombras; olores e olores. Uns, pavios altivos; outros, nem tão altivos assim, muitas vezes cabisbaixos e mascarados. As sombras espessas guardam em seus meandros inextricáveis o caos com todas as feridas dos infernos entranhadas nas unhas de criaturas envenenadas, menores que o seu próprio tamanho e com odores de terror aos berros pela teimosia e confusão do exótico hostil, apiedados no medo de morrer. A esses, os odores da desgraça com a lividez da dor e do esquálido no espelho – o aniquilamento fanático, o colapso de sectário, o desmanche do vital, o escapismo da terra sumindo sob os pés e com o desejo de sair voando pela janela. Enquanto outras, sombras de abrigo e fragrâncias multicores, aquelas que emanam a sensação de refúgio e exalam pra felicidade das narinas o aroma de cheiro de rosa no calor do decote, e uma nova investida com fôlego bastante para nos envolver nas essências do verdadeiro sentido da vida, no incenso da comunhão entre o íntimo e a imensidão do universo. É preciso encontrar o nexo entre as sombras e seus olores, como o amor e a solidão, a liga que distingue a homeostase yang e ying – ânima e animus - da conformação e da adaptação, e ter um mínimo necessário para a subsistência. Cada sombra o seu olor: ars longa, vita brevis – afinal, a arte despe o homem. Com o tempo todas as máscaras vão se superpondo umas às outras, até inevitavelmente revelar a face oculta. Ao se despir não há mais segredo capaz de ser contido e guardado numa gaveta: ninguém se esconde de si, mesmo que force o tempo inteiro se mostrar como se quer ser visto. Inadvertidamente, o escondido se desvela. E cada qual que assuma a sua nudez. E vamos aprumar a conversa aqui.

 Imagem: In der Badewanne (1911) do pintor do Impressionismo e Art Nouveau Leo Putz (1869-1940).


Curtindo o álbum Canto y guitarra - El folklore de Chile, vol. I (Odeon Records, 1957), da cantora, compositora, artista plástica e ceramista chilena Violeta Parra (1917-1967). Veja mais aqui.

CARTA SOBRE OS CEGOS – O livro Carta sobre os cegos para uso dos que vêem (1749), do filósofo e escritor francês Denis Diderot (1713-1784), foi a obra que levou seu autor para a prisão no castelo de Vineennes, por causa da reação de uma dama ofendida em suas pretensões científicas, Sra. Dupré de Saint-Maur, por questões política e social da França de Luis XV, e por conter chocante sensualismo epistemológico. Da obra destaco o trecho: [...] Não conheço nada que demonstre tão bem a realidade do sentido interno quanto esta faculdade fraca em nós, porém forte nos cegos de nascença — de sentir ou de recordar a sensação dos corpos, mesmo quando eles se acham ausentes e não mais atuam por si. Não podemos explicar a um cego de nascença a maneira pela qual a imaginação nos pinta os objetos ausentes como se estivessem presentes; mas podemos muito bem reconhecer em nós a faculdade de sentir na extremidade de um dedo um corpo que não está mais aí, tal como ela existe no cego de nascença. Para esse efeito, apertai o índex contra o polegar; fechai os olhos; separai vossos dedos; examinai imediatamente após a separação o que se passa em vós, e dizei-me se a sensação não perdura muito tempo depois que a compressão cessou; se, enquanto a compressão perdura, vossa alma parece estar mais em vossa cabeça do que na extremidade de vossos dedos; e se essa compressão não vos dá a noção de uma superfície, pelo espaço que a sensação ocupa. Nós não distinguimos a presença de seres fora de nós, de sua representação em nossa imaginação, a não ser pela força e pela fraqueza da impressão: similarmente, o cego de nascença não discerne a sensação da presença real de um objeto na extremidade de seu dedo, a não ser pela força ou pela fraqueza da própria sensação. Se alguma vez um filósofo cego e surdo de nascença fizer um homem à imitação do de Descartes, ouso assegurar-vos, senhora, que colocará a alma na ponta dos dedos; pois é dali que lhe vêm as principais sensações, e todos os conhecimentos. E quem o advertiria de que a cabeça deste é a sede de seus pensamentos? Se os trabalhos da imaginação esgotam a nossa, é que o esforço que envidamos para imaginar é assaz semelhante ao que envidamos para perceber objetos muito próximos ou muito pequenos. Mas não sucederá o mesmo com o cego e surdo de nascença; as sensações que houver apreendido pelo tato serão, por assim dizer, o molde de todas as suas ideias; e eu não ficaria surpreso se, após uma profunda meditação, sentisse os dedos tão fatigados como nós sentimos a cabeça. Eu não temeria de modo algum que um filósofo lhe objetasse que os nervos são as causas de nossas sensações, e que todos eles partem do cérebro: ainda que as duas proposições estivessem tão demonstradas quanto estão pouco, sobretudo a primeira, bastar-lhe-ia fazer com que lhe explicassem tudo quanto os físicos sonharam a respeito, para persistir em seu sentimento. Mas se a imaginação de um cego não é mais do que a faculdade de recordar e combinar sensações de pontos palpáveis, e a de um homem que vê, a faculdade de recordar e combinar pontos visíveis ou coloridos, segue-se que o cego de nascença percebe as coisas de uma forma muito mais abstrata que nós; e que, nas questões de pura especulação, está talvez menos sujeito a enganar-se; pois a abstração consiste apenas em separar pelo pensamento as qualidades sensíveis dos corpos, ou uma das outras, ou do corpo mesmo que lhes serve de base; e o erro nasce da separação malfeita, ou feita fora de propósito: malfeita, nas questões metafísicas; e feita fora de propósito, nas questões físico-matemáticas. Um meio quase seguro de enganar-se em metafísica é não simplificar bastante os objetos de que nos ocupamos; e um segredo infalível para chegar em físico-matemática a resultados defeituosos é supô-los menos compostos do que o são. Há uma espécie de abstração de que tão poucos homens são capazes que parece reservada às inteligências puras; é aquela pela qual tudo se reduziria a unidades numéricas. Deve-se convir que os resultados dessa geometria seriam muito exatos, e suas fórmulas muito gerais; pois não há objetos, seja na natureza, seja no possível, que estas unidades simples não possam representar pontos, linhas, superfícies, sólidos, pensamentos, ideias, sensações e... se, porventura, fosse o fundamento da doutrina de Pitágoras, poder-se-ia dizer a seu respeito que ele malogrou em seu projeto, porque tal maneira de filosofar está muito acima de nós, e muito próxima da do Ser Supremo, que, segundo a engenhosa expressão de um geômetra inglês, geometriza perpetuamente no universo. [...] Veja mais aqui e aqui.

A DONZELA ARABELA – No livro O amanuense Belmiro (1937-José Olympio, 1971), do escritor, jornalista, professor e advogado Cyro dos Anjos (1906-1994), encontro a narrativa A donzela Arabela, a qual transcrevo a seguir: Aconteceu-me ontem uma coisa realmente extraordinária. Não tendo conseguido conter-me em casa, desci para a Avenida, segundo habito antigo. Já ela estava repleta de carnavalescos, que aproveitavam, como podiam, sua terceira noite. Pus-me a examinar colombinas fáceis, do lado da Praça Sete, quando inesperadamente me vi envolvido no fluxo de um cordão. Procurei desvencilhar-me, como pude, mas a onda humana vinha imensa, crescendo em torno de mim, por trás, pela frente e pelos flancos. Entreguei-me, então, aquela humanidade que me pareceu mais cansada que alegre. Os sambas eram tristes e homens pingavam suor. Um máscara-de-macaco deu-me o braço e mandou-me cantar. Respondi-lhe que, em rapaz, consumi a garganta em serenatas e que esta, já agora, não ajudava. Imagino a figura que fiz, de colarinho alto e pince-nez, no meio daquela roda alegre, pois os foliões e engraçaram comigo, e fui, por momentos, o atrativo do cordão. Tanto fizeram que, sem perceber o disparate, me pus a entoar velha canção de Vila Caraíbas. Uma gargalhada espantosa explodiu em torno de mim. Deram-me uma corrida e, depois de me terem atirado confete à boca, abandonaram-me ao meio da rua embriagado de éter. Novo cordão levou-me, porém, para outro lado, e, nesse vaivém, fui arrastado pelos acontecimentos. Um jato de perfume me atingia às vezes. Procurava, com os olhos gratos, a origem dessa caricia, mas percebia, desanimado, que aquele jato resvalara de outro rosto a que o destinara uma boneca holandesa. Contudo, aquelas migalhas me consolaram e comoviam. Dêem-me um jato de éter perdido no espaço e construirei um reino. Mas a boneca holandesa foi arrastada por um príncipe russo, que a livrou dos braços de um marinheiro. Bebendo aqui, bebendo ali, acabei presa de grande excitação, correndo atrás de choros, de blocos e cordões. Não sei como, envolvido em que grupo, entrei no salão de um clube, acompanhando a massa na sua liturgia pagã. Lembra-me que homens e mulheres, a um de fundo, mãos postas nos quadris do que ia à frente, dançavam, encadeados, e entoavam os coros que descem do Morro. Toadas tristes, que vêm da carne. A certo momento, alguém enlaçou o braço, cantando: “Segura, meu bem, segura na mão, não deixes partir o cordão...” O braço que se lembrou do meu braço tinha uma branca e fina mão. Jamais esquecerei: uma branca e fina mão. Olhei ao lado: a dona da mão era uma branca e doce donzela. Foi uma visão extraordinária. Pareceu-me que descera até a mim a branca Arabela, a donzela do castelo que tem uma torre escura onde as andorinhas vão pousar. Pobre mito infantil! Nas noites longas da fazenda, contava-se história da casta Arabela, que morreu de amor e que na torre do castelo entoava doridas melodias. Efeito da excitação de espírito me que me achava, ou de qualquer outra perturbação, senti-me fora do tempo e do espaço, e meus olhos só percebiam a doce visão. Era ela, Arabela. Como estava bela! A música lasciva se tornou distante, e as vozes dos homens chegavam a mim, lentas e desconexas. Em meio dos corpos exaustos, a incorpórea e casta Arabela. Parecia que eu me comunicava com Deus e que um anjo descera sobre mim. Meu corpo se desfazia em harmonias, e alegre música de pássaros se produzira no ar. Não me lembra quanto tempo durou o encantamento e só vagamente me recordo de que, em um momento impossível de localizar, no tempo e no espaço, a mão me fugiu. Também tenho uma vaga idéia de que alguém me apanhou do chão, pisado e machucado, e me pôs num canapé onde, já sol alto, fui dar acordo de mim. O mito donzela Arabela tem enchido minha vida. Esse absurdo romantismo de Vila Caraíbas tem uma força que supera as zombarias do Belmiro sofisticado e faz crescer, desmesuradamente, em mim, um Belmiro patético e obscuro. Mas viviam os mitos, que são o pão dos homens. Nesta noite de quarta-feira de cinzas, chuvosa e reflexiva, bem noto que vou entrando numa fase da vida em que o espírito abre mão de suas conquistas, e o homem procura a infância, numa comovente pesquisa das remotas origens do ser. Há muito que ando em estado de entrega. Entregar-se a gente as puras e melhores emoções, renunciar aos rumos da inteligência e viver simplesmente pela sensibilidade — descendo de novo cautelosamente, a margem do caminho, o véu que cobre a face real das coisas e que foi, aqui e ali, descerrado por mão imprudente — parece-me a única estrada possível. Onde houver claridade, converta-se em fraca luz de crepúsculo, para que as coisas se tornem indefinidas e possamos gerar nossos fantasmas. Seria uma fórmula para nos conciliarmos com o mundo. Veja mais aqui.

POEMAS CORONÁRIOS - No livro Poemas Coronários (1964), do escritor, jornalista, professor e advogado Cyro dos Anjos (1906-1994), reúne os poemas do autor depois das obras reunidas, da qual destaco o poema que segue: Não quero o Deus de Aristóteles nem de Espinosa. / Quero o Deus de grandes barbas repartidas ao meio / que eu via nas estampas da História Sagrada, / sujeito a zangas e birras tal qual meu pai, / mas infinitamente bom e justo. / É no regaço desse Deus que hei-de ser acolhido. / Ele me puxará as orelhas, brincalhão: Vai, Belmiro, / perdoados são os teus pecados! / Fique naquela nuvenzinha cor de laranja / a ver os anjinhos brincarem de roda. Além dos livros aqui destacados, ele é autor dos romances Abdias (1945) e Montanha (1956), do ensaio A criação literária (1954), das memórias Explorações no tempo (1963) e A menina do sobrado (1979), bem como das cartas que trocou com Carlos Drummond de Andrade. É considerado o romancista mais sutil e poético da geração de 30, possuindo um conjunto de obras de denúncia social e registros das contradições brasileiras, seus romances destacam-se pelo lirismo e pela delicadeza de traços. Veja mais aqui.

O SONHO DO BALÉ PRO TEATRO - A trajetória da atriz de teatro, cinema e televisão, Marieta Severo, começou com os estudos e sonhos de balé clássico, mudando de ideia ao participar do curso de teatro do Tablado, de Maria Clara Machado. Ela estreia no teatro em 1965, com a peça Feitiços de Salém, seguindo-se Se correr o bicho e se ficar o bicho come (1966), Onde canta o sabiá (1967), Roda viva (1968), Jorginho, o machão (1970), O segredo do velho mundo (1972), Bordel da salvação (1972), Desgraças de uma criança (1973), O casamento do pequeno burguês (1974), Ttus Andronicus (1975), Os saltimbancos (1977), Ópera do malandro (1978), Sinal de vida (1979), No natal a gente vem te buscar (1980), Amadeus (1982), Aurora da minha voda (1982), Um beijo, um abraço, um aperto de mão (1985), Ligações perigosas (1987), Cenas de outono (1988), A estrela do lar (1989), Antígona (1992), Torre de Babel (1995), A dona da história (1998), Quem tem medo de Virginia Woolf (2000), Os solitários (2002), Sonata de outono (2005) e As centenárias (2007). No cinema, estreia com Society em Babu Doll (1965), seguindo-se Todas as mulheres do mundo (1966), Quatro contra o mundo (1970), Roleta russa (1972), Crueldade mortal (1976), Gente fina é outra coisa (1977), Chuvas de verão (1977), Bye bye Brasil (1979), Sonho sem fim (1985), Com licença eu vou à luta (1986), A espera (1986), O homem da capa preta (1986), Leila Diniz (1987), Por dúvida das vias (1987), Sonhos de menina moça (1987), Mistério no colégio Brasil (1988), Faca de dois gumes (1989), A porta aberta (1989), O corpo (1991), Vai trabalhar, Vagabundo II: a volta (1991), Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), Guerra de Canudos (1997), Castelo Rá-tim-bum (1999), Um copo de cólera (1999), Outras estórias (1999), The emperor’s new groove (2000), Villa-Lobos, uma vida de paixão (2000), As três Marias (2002), Janela da alma (2001), A dona da história (2004), Cazuza, o tempo não para (2004), Quase dois irmãos (2004), Irma Vap, o retorno (2006), A grande família (2007), Pequenas histórias (2007), Sonhos roubados (2010), Quincas Berro D’Água (2010) e Vendo ou alugo (2012). Na televisão, ela começou em 1966 com O sheik de Agadir, na Rede Globo, prosseguindo até hoje. Ela foi casada com Chico Buarque com quem teve três filhas: Helena, Luisa e a atriz Silvia Buarque. Desde 2004, mantem um relacionamento com o direito teatral Aderbal Freire Filho. Em 2005 ela fundou o Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, com Andrea Beltrão, foi premiada duas vezes com o Mambembe e Moliére como melhor atriz e, também, ganhou um Prêmio Shel por sua trajetória de mais de 40 anos de palco.Veja mais aqui.


ATRÁS DA PORTA – O drama Atrás da porta (Hinter Der Tür, 2012), dirigido pelo cineasta húngaro István Szabó é baseado no romance autobiográfico homônimo da escritora húngara Magda Szabó (1917-2007), conta uma história ocorrida nos anos 1960, envolvendo uma escritora com uma trama cheia de contratempos e desconfiança de segredos guardados. O filme é encantador e merece ser apreciado e curtido por todo aquele que se diz cinéfilo. O destaque do filme é para a participação da bela atriz húngara Erika Marozsán.  Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz e bailarina russa Ida Rubinstein (1885-1960).


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de amor, a partir das 21 hs meio dia, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, janeiro 11, 2012

STRINDBERG, MARINA TZVIETÁIEVA, MURILLO LA GRECA, CYRO DOS ANJOS, FERNANDO TUDE, HISTÓRIAS ZEN & GALDINO VIVE

GALDINO VIVE



Há muitos anos, o menino não era um homem só.

No horizonte do sol, era Galdino, pataxó solidário.

Na madrugada meeira, sem relicário, a brincadeira era um susto ufano, extraordinário, dava sem beiras pra cinco fulanos dali, salafrários pro suplício daqui, sem dó, a besteira de pró no ofício de reduzir nossa vida a pó.

Hoje, o meu diário triste, ainda resiste no quinhão fundiário.

Meu coração é vário, e eu vou como um beija-flor que trissa, insubmisso e real, que alça bem alto, alheio à justiça na Praça do Compromisso, Planalto Central.

 
DITOS & DESDITOS - Tudo é possível e provável. Tempo e espaço não existem. Sobre a frágil base da realidade, a imaginação tece novas formas. Pensamento do dramaturgo, escritor e ensaísta sueco August Strindberg (1849-1912). Veja mais aqui.

A LIBERDADE: [...] A liberdade era alguma coisa que devia nascer como as coisas naturais. Naturalmente. Mas as ambições, os interesses individuais, as vaidades, a atração do poder, tudo perturba o crescimento da liberdade como se fossem pedras no seu caminho. [...]. Pensamento extraído do livro Jornalismo e educação (MEC, 1955), do médico, jornalista e educador Fernando Tude de Souza (1910-1949).

CRIAÇÃO LITERÁRIA - [...] Toda invenção nasceu de uma necessidade particular da natureza humana, que atuou em sua esfera, para seu próprio fim. [...]. Trecho extraído de Criação literária (MEC, 1956), do escritor, jornalista, professor e advogado Cyro dos Anjos (1906-1994). Veja mais aqui.

NAS MÃOS DO DESTINO – Um grande guerreiro japonês chamado Nobunaga decidiu atacar o inimigo, embora tivesse apenas um décimo do número de homens que seu opositor comandava. Ele sabia que venceria, mas seus soldados estavam em dúvida. No caminho, ele parou num santuário Shinto e disse aos seus homens: “Depois de visitar o santuário, vou jogar uma moeda. Se der cara, nós ganharemos; se der coroa, nós perderemos. O destino nos tem nas suas mãos”. Nobunaga entrou no santuário e ofereceu uma oração silenciosa. Saiu e jogou uma moeda. Deu cara. Seus soldados estavam tão ávidos para lutar que venceram a batalha facilmente. “Ninguém pode mudar a mão do destino”, disse-lhe um de seus assistentes após a batalha. “Não mesmo”, disse Nobunaga, mostrando uma moeda que havia sido duplicada, mostrando cara em ambos os lados. Extraído da obra Histórias Zen (Teosófica, 1999), organizada por Paul Reps. Veja mais aqui e aqui.

MADRUGADA SOBRE OS TRILHOS - Antes que o dia adentre / com mil paixões convulsas, / de trilhos – de relento, / refaço toda a Rússia. / De estacas – de relento, / de gris – de orfandade, / antes que o dia adentre / ou sinaleiro brade. / A névoa paira infinda, / envolto em lona, enorme / granito aguarda ainda / e o prado xadrez dorme./ De pássaros – relento... / aço murzelo mente / ainda um louco alento – / Moscou: ainda em frente! / E sob o olhar-minúcia, / com seu domínio etéreo, / como esbordou a Rússia / em três linhas de ferro! / Vou espraiá-la além! / No trilho inviso estendo, / relento adentro, um trem / com vítimas de incêndio. / (Com tantos quantos somem / sem gente ou Deus notá-los. / Sinal: quarenta homens / e mais oito cavalos!) / E onde as distâncias entre / dormentes são entraves, / de orvalho – de dormentes, / de orvalho – de orfandade. / Antes que o dia aponte / com mais paixões convulsas, / ao longo do horizonte / refaço toda a Rússia. / Nem falsa, nem mesquinha: / e olhem, ao longe, o brilho / azul de um par de trilhos! / Nas linhas, lá, nas linhas... Poema da poeta e tradutora russa Marina Tzvietáieva (1894-1941).

A ARTE DE MURILLO LA GRECA
A arte do premiado pintor e professor Vicente Murillo La Greca (1899-1985), que se dedicou aos estudos dos afrescos que, alguns deles, se encontram na Basílica da Pena (PE), desenvolvendo uma arte nos padrões clássicos com temas históricos. Foi professor da Escola de Belas Artes (RJ) e manteve amizade com Cândido Portinari. Sua obra está reunida no Museu Murillo La Greca, em Recife (PE).





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  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...