quinta-feira, fevereiro 16, 2017

NA VIDA, COMO NO SONHO, NÃO HÁ LÓGICA!

NA VIDA, COMO NO SONHO, NÃO HÁ LÓGICA! - Imagem: Étude pour un portrait de Van Gogh (1957), do pintor abglo-irlandês Francis Bacon (1909-1992). - Naquela noite Gesildo sonhara. Coisa tão absurda, que nem se lembrava direito. Dizia pra si: a gente sonha cada coisa, mais sem pé nem cabeça. Tem lógica um negócio desse? Só pra quem vive no mundo da lua. Riu-se, meio atarantado. Levantou-se como de costume, fez o que devia e foi trabalhar. Envolvido nos afazeres, finalmente esquecera de tudo, se sonho ou pesadelo, não soubera. A manhã inteira, vez ou outra, passava-lhe à cabeça o ocorrido. Ora, coisa de pouca monta não merece gastar neurônio. Principalmente o que não sabia o que era, nem o que entendia disso. Almoço servido, dera tudo por perdido. Veio a tarde, concentrado nas tarefas, deixou-se levar sem pensar em nada. Quando a sirene tocou, correu pro ponto e esperou a condução. Olhou pro céu carregado de nuvens escuras, deu-se consigo: uma chuvada boa estava prestas a desabar do céu. Convinha buscar abrigo. A condução chegou e aboletou-se logo fechando as janelas. Cochilou por instantes e tudo lhe veio à mente. Acordou assustado com uma movimentação barulhenta: o ônibus havia quebrado. Olhou em volta, tudo escuro. Choviscava. Desceu para aguardar o próximo transporte quando o toró despencou. Foi surpreendido com a falta de espaço na marquise. Procurou refugio, só havia uma craibeira do outro lado da rua. Não pensou duas vezes, livrou-se do tráfego dos automóveis e serviu-se do valhacouto. Sem iluminação, apesar de resguardado da bátega, viu-se inseguro. Não havia muito o que fazer no meio daquela procela. Percebeu apoio para sentar-se nas raízes, na verdade, não era pau o assento, eram pedras, conferiu ao tato. Um relâmpago e a quimera ficou real, lembrava-se. Uma mulher numa túnica transparente, esbelta e nua, apontava-lhe o lugar. Intrigado, seguia o indicador dela: as pedras? Ela em nuto afirmativo. Remexeu entre elas com a mão e viu a mulher sorrir-lhe com isso. O sorriso e o sonho todo na cabeça por instante. É isso. Pegou uma pedra, duas, muitas, o quanto pôde. Olhou pra ela, um riso lindo confirmando tudo. Olhou pra elas, parecia seixos em suas mãos, não era. Pedregulho estranho. Procurou a bela, não mais estava, sumira. Outro relâmpago e o sonho se esclarecera: com essas pedras ficarei rico, foi o que ela mesma dissera no sonho, muito embora, agora só sorrisse, nada dissesse. O trovão estremeceu a terra e ele saiu como louco atrás de um ourives. Não havia ali, talvez um joalheiro. Nada, àquela hora tudo já estava fechado. Pensou ir pra casa e foi. Andou que só a má notícia, ensopado, nem sabia onde estava, tudo como no sonho: as pedras aos bolsos, três ou quatro, parece mais. Já alta madrugada, chegou à sua residência, sacou dos bolsos e fitou direito: nada mais que pedras. Despiu-se jogando as vestes molhadas do lado enquanto mantinha conferindo cada uma delas, abriu umas gavetas, agasalhou-se, tremia de frio e não tirava os olhos daquelas pedras. Sem saber se cochilara ou dormira, percebeu o dia amanhecido. Embecou-se e foi pra joalheria mais próxima. Chegando lá, mostrou ao primeiro que encontrou, pra conferência especializada. Hum. São pedras. Pedras? Pedras. Comuns? Sim. Não pode.Ué? Algo me diz que vou ficar rico com elas. O homem riu da sua leseira e indicou uma consulta com um ourives ou gernólogo, ou lapidário, ou galvanoplasta, uma coisa dessa. Como? Ah, só na capital, se desconfia que tem algum valor, vá pra capital, pra mim é pedra, se acha que é ouro ou coisa que valha, pra mim se for alguma coisa é o mesmo que ouropel. Como? Vá lá, confira, é minha palavra final. Saiu cabisbaixo, desanimado, nem se lembrou de trabalhar. Foi até um negociador de pedras preciosas, o mesmo diagnóstico. Ah, dali foi prum velho pai de santo que soubera: o ancião pegou, conferiu, ronronou e falou prele procurar um velho pajé numa tribo distante que só ele daria o veredicto. E foi, andou como a praga, o dia todo e mais meio, nem quisera comer e, depois do meio dia, estava às portas da tribo procurando pelo tal pajé. Depois de muito puxa e encolhe, levaram-no à presença dele. De tão velho nem enxergava, abriu um riso enorme quando as teve na mão e começou a falar coisas incompreensíveis. Um índio traduziu: ele está perguntando onde encontrou. Por que? É uma pedra rara e antiga cujo nome se perdeu. E o que tem? O pajé disse que o possuidor dessas pedras é um homem muito venturoso, feliz e rico, nunca será acometido por doença grave, nem será atacado por qualquer ser vivo. Gesildo não quis mais saber de nada, tomou de volta e sacou as pedras nos bolsos, dali saindo sem saber nem pra onde ia. Tentou voltar ao local onde as encontrara e se perdera. Seguiu aleatório, ora ia, ora voltava, anoitecera e a fome consumia o tino. Nada além das pedras nos bolsos, tentou vendê-las para comer, ninguém queria. Oferecera a tantos, maior desinteresse, davam-no por birutado. Chegou ao ponto de gritar bens tão valiosos e ignorados por todos. Ao cabo de dias, sucumbiu inane. Nessas horas, deu-se uma enchente do rio invadir a cidade e toda rodovia, trazendo prali um arqueólogo que viajava em férias, completamente aborrecido por ter que desviar seu trajeto. O doutor esbravejou com todos, amaldiçoou sua sorte e só faltou desafiar deus e o mundo de tanta raiva. Sem ter o que fazer, restou-lhe apenas sentar e esperar pacientemente as águas baixarem. Foi de relance que viu uma das pedras caídas do Gesildo e saiu perguntando a todos onde tinha mais daquela, resposta obtida que só um doido que vagava que tinha umas delas. Cadê-lo? Procuraram que só. Ao achá-lo, já agonizava com três pedras nas mãos, outras duas no bolso, umas outras espalhadas ao chão. Isso é quase ouro, disse o arqueólogo, valiosíssimo! Tentou recobrar os ânimos de Gesildo, de nada adiantara, perguntou pra um e para outro, virou-se pra todos: onde tem dessas pedras? Ninguém sabia, só ele que finalmente morrera acreditando que estava rico e não sabia mais nada. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns do grupo Algaravia, formado pelo quinteto Eloá Gonçalves (piano/acordeon), Ricardo Lira (baixo), Rafael Thomaz (violão/guitarra), Fabio Augustinis (bateria/percussão) e Bruno Cabral (saxofones), propondo a reflexão sobre as fronteiras entre a música erudita e a popular, por meio de arranjos de obras do repertório camerístico erudito para a formação de quinteto de música popular instrumental e interpretando compositores como Villa Lobos, Marlos Nobre, Debussy, Paizzolla, Ravel, Camargo Guarnieri, entre outros.

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[...] As mensagens das mídias voltam-se mais e mais para as mensagens da mídia cuja origem tornou-se crescentemente difícil de discernir. Filmes transformam-se em metafilmes, romances viram metarromances, nas artes visuais, o artista e seu eu encarnado tornaram-se tópicos centrais de sua arte, a televisão faz da televisão seu tema nuclear e a publicidade começa a perpetuar os mitos de sua própria criação sobre os valores insuperaveis de seus produtos em vez de informar ou apresentar o que é novo no mundo das mercadorias. [...].
Trecho extraídos de Máquinas semióticas (Galáxias, 2001), do linguistica e semiótico alemão Winfried Nöth.

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