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quarta-feira, novembro 29, 2017

AMOS OZ, ANTONIO CÂNDIDO, LUZILÁ GONÇALVES FERREIRA, JOSELY VIANNA BAPTISTA, MARIO CESARINY, PAULO BUSS, CAMILA MORITA, BARRA DE GUABIRABA, GLOBALIZAÇÃO & POBREZA

O CHÃO NA ALMA – Imagem: Batedor de caminhos (1968), do poeta e poeta e pintor surrealista português Mario Cesariny (1923- 2006). Os tempos são outros, eu que o diga e sem nostalgia. Sempre tive comigo que o melhor momento da vida era este, o presente – em todos os sentidos! E digo era porque sempre passa, zás, já foi, agora é outro. E quase não me dou conta, nem ninguém, avalie. Passou e como passou, vai se ver segundos, minutos, horas, só lembranças enchendo o baú da memória ou do esquecimento – tem quem sequer saiba que passou e como passou. Devo dizer, sem rigor e nem pedir licença, que a cada dia, em todo momento aprendo e como. Diga-se lá, como de sempre, a gente sempre aprende pelo modo mais difícil, quer queira, quer não, uma bofetada, um escorregão, um paradoxo. Mas, se aprende, mesmo que seja com amargas redescobertas, nenhuma frustração. Mesmo que seja no descompasso, eis a lição. O que dói não é ter perdido a oportunidade, não é ver que podia ter feito melhor, nada disso. Possivelmente o meu epitáfio não seria em cima de uma revista com meus fracassos, creio que não, possivelmente. Seria, acho que pelo menos seria, com o resultado dos meus aprendizados. É certo que o equívoco esteja pra lá de exorbitante, monstruoso – incluindo os meus que são tantos e nem sei -, constatação desagradável, quem não se engana na cor da chita em cima da bucha, oh, mediocridade, veleidade de sabichão. De minha parte, sempre me pego com uma ou outra implicância, coisa de engasgar e que poderia deixar correr, na maciota, ora, engolindo sem esforço nem polemizar, pois corre o risco de esbarrar em irredutíveis conduções sectárias, ou mesmo defesa do indefençável, quando não na inexorável incompreensão. Cá pra nós, falando sério: tudo muito embaraçado. Nem é fácil de entender. Que coisa! E a pretexto de nada nem convite de ninguém, presencio esse caleidoscópio como um arredio dissidente, sou arisco com ondas e modas, sempre um pé atrás. O que me entristece é sentir a cidade refém de interesses no açodamento de soluções escusas. Por onde passo, a cidade é só um cenário, pra mim não, é a casa em que habito e convivo na guarida de quem sabe bem o que é o abandono de insepulto, é a mulher amada, no dia a dia, lado a lado e que nem se dá conta à-toa no destino das ruas, no estresse dos semáforos, na tragédia invisível, nos fedores ultrajantes, na gente entediante, ela quase morta, é o meu país despedaçado ao rés do chão pisado e sambado. Só se vê que é linda na foto do cartão postal: a ingratidão assiste a tudo, justiça se faça. Corre para acodir, valha-me! De bombeiro e alheio, todos temos um bocado. A sensação que fica é que no ventre da noite não restou uma só estrela no céu, abominável escuridão no pino do meio dia. É isso que incomoda. Sinto a cidade na medula, saudade sem lágrima, afeto sem afago, encabulado e triste, porque sou coabitante em estado de graça até o último fôlego, porque ela está em mim como sempre esteve desde que nasci: chão que me acolheu, Terra que é mãe. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o guitarrista, cantor, compositor e produtor musical inglês George Harrison (1943-2011): Anthologu & Livin in The Alternate World; da cantora, escritora e doutora em Filosofia pela USP, Eliete Negreiros: Outros sons & Canções de tamanha ingenuidade; do guitarrista Heitor Pereira: Dueling guitars August Rush & Chucho Merchan Live Montreaux; e da cantora e compositora Livia Nery: Vulcanidades & Acasas. Para conferir é só ligar o som e curtir. 

PENSAMENTO DO DIA – [...] Porque há para todos nós um problema sério... este problema é o medo.[...] Pensamento extraído de Plataforma de uma geração (34, 2002), do poeta, ensaísta, professor universitário e crítico literário Antonio Cândido, extraído da obra Textos de intervenção, organizado por V. Dantas. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

BARRA DE GUABIRABA – O município de Barra de Guabiraba é formado administrativamente pelo distrito sede, o qual suas terras pertenciam ao sítio Guabiraba. O seu povoamento se deu pela produção da cultura canavieira, sendo inicialmente denominado de São João da Barra, distrito criado pela Lei municipal nº 59, de 25 de julho de 1915, passando a se denominar de Itapecó pelo Decreto-lei estadual nº 235, de 9 de dezembro de 1938, passando-se a denominar Guabiraba pelo Decreto-lei estadual nº 952, de 31 de dezembro de 1943. Pertencia ao município de Bonito e foi elevado à categoria de município com a denominação Barra de Guabiraba, pela Lei estadual nº 3340, de 31 de Dezembro de 1958. O topônimo atual se deve por uma frondosa guabiraba a confluência dos rios Sirinhaém e Bonito Grande, razão pela qual passou a denominar o local de Barra de Guabiraba, fazendo parte das superfícies retrabalhadas que antecede o Planalto da Borborema, inserido nos domínios da bacia hidrográfica do Rio Sirinhaém, tendo como principais tributários são o Rio Sirinhaém e os riachos Seco e Tanque de Piabas, todos de regime intermitente. Veja mais aqui.

A MULHER ABOLICIONISTA - [...] Condenada à reclusão no seio da família, na qual ela é ao mesmo tempo rainha e escrava, a mulher inreioriza, frquentemente, essa noção de minoridade, e assume as representações que se fazem dela: a ciência afirma que possui uma constituição menos resistente do que a do homem, que os fenômenos que ocorrem no seu corpo ao longo da existência – menstruação, gravidez, amamentação, menopausa – fragilizam-na e a tornam um ser perpetuamente enfermo. A religião lembra que ela deve ser amparada, vigiada, orientada, para não cair em tentação nem induzir outros à queda. E a lei, já o vimos, torna-a incapaz de decidir de sua vida. Com toda essa carga ideológica que lhes atribuía a sociedade e lhes conferia um estatuto de eternas menores, é de admirar que tantas mulheres tenham ousado romper as barreiras do silêncio, da apatia, e se lançar à luta, abraçando causas como a da Abolição, criando jornais, organizando-se em aasociações que promoviam conferencias e desfiles de protesto, escondendo escravos e propiciando sua fuga. [...]. Trecho de À guisa de introdução, da escritora e professora Luzilá Gonçalves Ferreira, na obra Suaves amazonas: mulheres e abolição da escravatura no Nordeste (EdUFPE, 1999), organizado por Luzilá Gonçalves Ferreira, Ivia Alves, Nancy Rita Fontes, Luciana Salgues, Iris Vasconcelos e Silvana Vieira de Souza. Veja mais aqui & aqui.

GLOBALIZAÇÃO, POBREZA & SAÚDE - [...] Um paradoxo da globalização contemporânea é que, numa fase da história da humanidade em que as tecnologias agrícolas disponíveis poderiam propiciar farta produção de alimentos, o fenômeno da fome esteja tão disseminado no mundo e açoite partes do planeta na forma de verdadeiro genocídio. [...] Trecho de Globalização, pobreza e saúde (Ciência & Saúde Coletiva, 2007), do pediatra e sanitarista Paulo Buss. Veja mais aqui, aqui & aqui.

POBREZA NO BRASIL – [...] A heterogeneidade da pobreza no Brasil decorre da dimensão territorial e demográfica do país, dos grandes desequilíbrios regionais e do modo como se foi historicamente configurando o complexo mosaico social brasileiro. [...]. Trecho de Geografia da pobreza extrema e vulnerabilidade à fome (José Olympio, 2004), de Sonia Rocha e Roberto Cavalcanti de Albuquerque, extraído da obra A nova geografia da fome e da pobreza, organizada por J. Vellozo e R. Albuquerque. Veja mais aqui & aqui.

UMA CERTA PAZ – [...] Para que visão? Para que ideais? Passei toda a vida aqui ao som de uma marcha entusiástica. Como se não houvesse mar e montanhas, nem estrelas no céu. Como se a morte já tivesse sido abolida e a velhice extirpada do mundo de uma vez [...]. Trecho extraído da obra Uma certa paz (Companhia das Letras, 2010), do escritor e pacifista israelense Amos Oz, contando as difíceis relações familiares com suas contradições e dificuldades políticas que o Estado de Israel enfrentava nos anos 1960, às vésperas da Guerra dos Seis Dias, revelando uma meditação sobre o poder, a decepção e os relacionamentos amorosos. Veja mais aqui.

RESTIS - Um vento anima os panos e as cortinas oscilam, / fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol passeia / a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz / vai desenhando as coisas: tranças brancas no espelho, / relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus volteios / curvos, vidros ao rés do chão reverberando, réstias. / Filamentos dourados unem o alto e o baixo / – horizonte invisível, abraço em leito alvo: / velame de outros corpos na memória amorosa. Poema extraído do livro Ar (Iluminuras/Fundação Cultural de Curitiba, 1991), da poeta, tradutora e editora Josely Vianna Baptista.

TODO DIA É DIA DE DIREITOS DA MULHER
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte Quando durmo, da artista plástica Camila Morita.
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quinta-feira, fevereiro 12, 2009

RUBEM FONSECA, MARIO CESARINY, NIETZSCHE, JOHANNA DÖBEREINER, STEFAN ZWEIG & LITERÓTICA


 

LITERATURA ERÓTICA - BIBLIOTECA EROTOLÓGICA: O SÉCULO XX - O escritor e critico de arte francês Guilhaume Apolinnaire (1880-1918), nascido em Roma como Wilhelm Albert Vladimir Apollinaris de Kostrowitzky, se dedicou profissionalmente à literatura erótica, tarduzindo Aretino, Sade, Crébilon e organizando bibliografias e antologias de autores libertinos, além de outras obras licenciosas saídas de sua propria pena como “La fin de Babylone” e “Les trois Don Juan”. O ensaista e poeta francês Benjamim Péret (1899-1959) foi um destacado militante trotskista e importante poeta do Surrealismo francês, que possuía um humor sarcástico, erótico e bufo que está expresso em poemas como “Le grand jeu” e “Je ne mange pás de ce pain-là”, entre outros. O poeta e ficcionista francês Raymond Radiguet (1903-1923) foi um talentoso jovem poeta que se destacou como um importante escritor do pós-guerra em 1918. Dedicou-se ao jornalismo e à literatura, além de ter documentado relacionamentos com mulheres, virando piada de Ernest Hemingway por saber usar bem a caneta como o pênis. Publicou em 1923 o seu famoso romance “Le diable au corps” contando a história de uma mulher casada que tinha um romance com um rapaz de 16 anos de idade, enquanto seu marido lutava no front, provocando escândalo no país. O seu segundo romance “Le bal du Comte d´Orgel” também tratava sobre adultério. Frank Harris (1856-1931), pseudônimo do jornalista e editor irlandês, naturalizado norte-americano James Thomas Harris, publicou o livro de memórias “My life and loves”, em 1922 e 1927, proibido em vários países do mundo por sua explicitação sexual. Apesar de ele atrair muita atenção por sua forte personalidade agressiva na editoria de revistas famosas, foi com este livro que ele sempre foi lembrado pelas descrições gráficas dos seus supostos encontros sexuais. Ele escreveu outros contos e romances, dois livros sobre Shakespeare e outros esboços biográficos. O escritor e tradutor David Herbert Lawrence (1885-1930) traz temas controversos envolvendo sexualidade e relações humanas nos seus romances, contos, poemas, peças teatrais, livros de viagens e cartas pessoais. A sua obra "O Amante de Lady Chatterley" foi proibido na época e passou a circular clandestinamente. "O Arco Íris" foi considerado obsceno. E "Mulheres Apaixonadas" foi recusado pelos editores de Londres, sendo só foi publicado cinco anos depois em Nova Iorque. Nas décadas de 20 e 30, Henry Miller escandaliza com suas obras “Tropic of Cancer”. “Tropico of Capricorn” e a trilogia “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”, com descrições despudoradas sobre o amor e narrativas de suas experiências. Também a francesa Anais Nin (1903-1977), nascida Angela Anais Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, ficou famosa por seu romance com Henry Miller publicado em diários pessoais impregnados de conteúdo erótico, destacando-se “O delta de Vênus”, de 1977. Pablo Neruda (1904-1973) nome literário do poeta e diplomata chileno Neftali Ricardo Reyes, prêmio Nóbel de literatura de 1971, cultivou o gênero lirico amoroso no seu livro de 1924, “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”. A poeta do Surrealismo inglês de nacionalidade egipcia, Joyce Mansour (1928-1986), nascida Joyce Patricia Ades, dedicou-se ao erotismo com seu livro “Gritos”, em 1953, onde encontra-se o poema: “Eu quero dormir com você lado a lado Nosso cabelo entrelaçadas Nossos sexos juntou-se com sua boca por um travesseiro...” Nas décadas de 40 e 50, o escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980), que às vezes se assinava Suzana Flag, escandalizou a sociedade brasileira com sua obra literária e teatral, assumindo publicamente que: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico(desde menino)”. Também a escritora lésbica e livreira Cassandra Rios (1932-2002), nascida com o nome de Odete Rios, é autora de uma série de livros pornográficos, tornando-se uma das mais perseguidas pela censura com 33 livros proibidos pela liberdade, sensualidade, homossexualismo e relações entre religião, política, sexo e cultos umbandistas. Ao seu lado, a escritora Adelaide Carraro (1936-1992) que deixou uma obra extensa com mais de 40 livros publicados sobre sexo e violência. Em 1954, a francesa Anne Declós (1907-1998), que se assinava sob os pseudônimos de Dominique Aury e Paulione Réage publica o polêmico “Histoire d´O”, acusado de obsceno e sadomasoquista. Em 1955, o escritor russo Vladimir Vladimirovich Nabokov (1899-1977) publica o polêmico romance Lolita, popularizando a expressão ‘ninfeta’. O texto se caracteriza como um ‘voyeurismo pedófilo’ por narrar a atração do personagem Humbert Humbert por Lolita, sua enteada de doze anos. Em 1959, a francesa de origem tailandesa Marayat Bididh (1932) que se assinava Marayat Rollet-Andriane e Emmanuelle Arsan, publica a estrondosa autobiografia Emmanuelle, onde narra o seu envolvimento com a exploração da própria sexualidade. A mulher no Brasil, segundo Parodi (2007) já alçava alguma emancipação legal, deixando de ser relativamente incapaz, por força do Estatuto da Mulher Casada, pela Lei 4121/62. Em 1972, o médico gerontólogo, anarquista, pacifista e escritor Alex Comfort (1920-2000), autor de vários livros de literatura e não-ficção, publica o seu livro “The Joy of Sex”, causando uma revolução polêmica na área sexual. Em 1976, a feminista Shirley Diana Gregory, mais conhecida por Shere Hite lança o “Relatório Hite”, sobre a sexualidade feminina, quando era diretora do projeto feminista de sexualidade da National Organization for Women – NOW. Posteriormente ela publicou “The Hite Report on Male Sexualitty”, em 1981, sobre os segredos, preferências, medos e práticas sexuais masculinas. Depois publica em 1987 o “As Mulheres e o Amor: uma Revolução Cultural em Progresso”, concluindo que 70% das mulheres casadas são infiéis. No Brasil, mesmo com a Emenda Constitucional de 1977 que licitou o divorcio como remédio hábil ao desfazimento do vinculo conjugal, a mulher, conforme Parodi (2007) continuava a ser considerada como sexo frágil, também afetada pelas normas positivadas que lhe retiravam muitas das garantias pessoais. A resignação da mulher casada somente foi abolida com a edição do Código Civil de 2002, virtude da luta própria dos movimentos feministas, cujos ganhos, conquanto paulatinos, se tornaram fenômeno irreversível, tanto no mundo, quanto nas relações amorosas e familiares. Em 1992, surgem os poemas eróticos do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), reunidos pelo autor sob título “O amor natural”, publicados postumamente e que, conforme Oda (2010), já reverberava o erotismo drummondiano de outras obras anteriores, reconhecidas por Houaiss e Antonio Candido desde “Alguma poesia”, o que, segundo o autor mencionado, o livro O Amor Natural revelou as poesias eróticas/pornográficas que Drummond manteve ocultas. Salienta ele que “(...) O fato que torna esse livro polêmico não são apenas suas poesias obscenas ou eróticas – podemos encontrá-las em qualquer um de seus livros, desde Alguma Poesia até Farewell – mas o próprio tema do livro que é apresentado despido de pudores poéticos e se inscreve dentro de uma tradição filosófica e poética do erotismo e da obscenidade. É o poeta gauche que vai nos apresentar novamente o nosso mundo com suas mudanças, transformações”. A escritora, dramaturga, poeta, ficcionista e advogada Hilda Hilst (1930-2004), foi agraciada por diversos prêmios literários que comprovam sua grandiosidade artística. Destaca-se de sua obra os “Poemas malditos, gozosos e devotos”, de 1984; “O caderno rosa de Lori Lamby”, em 1990 e “Contos d´escárnio/textos grotescos e alcoólicos”, “Do desejo”, “Bufólicas”, entre outros. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOSO amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são. Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal. Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura. Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas. As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar. A vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo. A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez. O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte. Querer a verdade é confessar-se incapaz de a criar. Temos a arte para não morrer da verdade. Sem a música, a vida seria um erro. É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante. A vida mais doce é não pensar em nada Pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Pensar no futuro, pensar no presente. Cada criação, ela tem consequências, então, se nós tratamos bem a natureza, se nós desenvolvermos bem a agricultura, que ela seja sustentável, isso tem futuro. E nós precisamos do futuro. Pensamento da engenheira agrônoma teuto-brasileira Johanna Döbereiner (1924-2000). Veja mais aqui.

MORTE NO PARAÍSO - [...] Precisamente o indivíduo sem pátria, em um novo sentido, se torna livre – e só quem já não está preso à coisa alguma, não necessita mais respeitar coisa alguma. [...] Por isso já não pertenço a lugar algum, em toda parte sou estrangeiro e na melhor das hipóteses hóspede. [...] tenho de me lembrar de que para os seres humanos da minha pátria há muito tempo tão pouco pertenço a ela como para os ingleses ou norte-americanos pertenço a seus países, tenho de me lembrar de que a terra onde nasci já não me acho organicamente preso e nestas outras nações nunca estou inteiramente incorporado. Pensamento do escritor, dramaturgo, jornalista e biografo austríaco Stefan Zweig (1881-1942), extraído da obra Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig (Rocco, 2012), biografia escrita por Alberto Dines. Veja mais aqui e aqui.

POEMA - Em todas as ruas te encontro / em todas as ruas te perco / conheço tão bem o teu corpo / sonhei tanto a tua figura / que é de olhos fechados que eu ando / a limitar a tua altura / e bebo a água e sorvo o ar / que te atravessou a cintura / tanto tão perto tão real / que o meu corpo se transfigura / e toca o seu próprio elemento / num corpo que já não é seu / num rio que desapareceu / onde um braço teu me procura / Em todas as ruas te encontro / em todas as ruas te perco. Poema do poeta e pintor surrealista português Mario Cesariny (1923- 2006). Veja mais aqui.


Imagem: Liberati

VASTAS EMOÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS DE RUBEM FONSECA

“Eu possuo o saber, sem os sentidos, o conhecimento, sem percepções visuais. Meu sonho é feito de idéias”
“Não gosto de televisão. Admito que talvez a televisão seja o meu futuro e os de todos os cineastas, lamentavelmente. Cenário sombrio: a televisão, depois de assegurar a sua posição de principal veículo de lazer e informação, torna-se o único meio de comunicação de massa, mantido por cretinos e/ou aproveitadores sinistros, que produzem uma gratificação espúria e emocionalmente deletéria para um publico passivo e apático, de todas as classes sociais (os ricos usando telas imensas, do tamanho das telas dos antigos cinemas, que não existem mais, viraram farmácias, agencias de bancos) vêem televisão durante a maior parte do tempo, uma média de doze horas por dia – muitos deixam a televisão ligada até para dormir”.
“(...) Estou nervoso pois tenho que faze e desfazer malas, fazer e desfazer amizades e também porque perdi minha por não querer dar um tiro de misericórdia na nuca das pessoas que amo”.
“(..) A religião era um grande negócio dirigido por estelionatários”.
“(...) o verdadeiro artista odeia o país que nasceu...”
“(...) O mal do nosso mundo é que as pessoas cada vez pensam menos”.
“(...) Que sensação ambígua de medo e euforia, saber que alguém o está perseguindo para matá-lo! Como é bom ter uma base real para a própria paranóia!”
“(...) cada geração que surge é pior que a outra”.
“(...) A idéia da perfeição, tanto quanto a sua busca, é uma utopia de sonhadores”.
“(...) Houve época em que pensei em me tornar escritor, mas verifiquei que não era louco o suficiente para tanto. Acho que o sujeito que é escritor, em principio, não é muito bom da cabeça”.
“(...) O arrependimento nunca é um gesto espontâneo, há sempre alguma coerção por trás dele”.
”(...) A dublagem de filmes, como regra geral, foi feita pela primeira na Itália de Mussolini. Uma coisa fascista”.
“(...) O homem necessita purgar os horrores que comete e umas das maneiras de fazer isto é não esquecê-los”.
“Lembre-se da lei da implicância universal: se você não quer ser visto, será – e vice-versa”.
“(...) ao enviuvar descobrira que não podia mais manter sua vida fútil e dissipada, a menos que se desfizesse de parte dos seus bens.assim, vendeu as jóias, as propriedades e, por fim, a filha”.
“Certamente haveria escorpiões naquele porão. Quando eu era criança, minha mãe, para me afastar do porão da casa, vivia contando histórias sobre pessoas que morreram picadas pelo aguilhão dos escorpiões. Sempre brinquei com eles de maneira cautelosa. Vi muitas fêmeas parirem bebes escorpiões vivos e andarem pelo chão com as costas cheias deles,a te que fossem cortados os laços de família e os jovens, já cheios de venenos em seus aguilhões, saíssem pelo mundo solitariamente. Porque o escorpião é um solitário, o mais misantropo dos animais, só se aproxima do seu semelhante para foder ou para lutar até a morte. (...) A fêmea mataria o macho, caso ele não conseguisse fugir, o que era muito raro, e depois iria devorá-lo, ou melhor, sugá-lo. Os escorpiões matam sua presa, ferindo-a e inoculando-lhe uma neurotoxina que causa um envenenamento parecido com o da estricnina. Em seguida injetam nos ferimentos que causaram umas enzimas digestivas, que fluidificam o tecido interno da presa. Após o que, sugam-na até deixá-la apenas um invólucro seco. (...) Enquanto a fêmea punha-se a devorá-lo, a sorvê-lo, eu olhava fascinado e ela me olhava de volta, eu sabia que me olhava de volta, desde criança eu sabia que os escorpiões me olhavam também, principalmente quando eu lhes falava no porão da minha casa: os escorpiões podem ter até doze – doze! – olhos, e quem tem tantos olhos assim tem que ser muito perspicaz. (...) o escorpião é apresentado como um personagem ignóbil, capaz de muitas traições. Pobres animais. Até inventaram que eles se suicidam quando ameaçados, o que é uma sórdida aleivosia”.
“(...) Os melhores curandeiros, classicamente, são os aleijados, os cegos, os padres e as virgens histéricas”.
“(..) Eu não queria renunciar ao mundo, mas o mundo havia se tornado uma coisa cansativa”.
RUBEM FONSECA – O premiadíssimo escritor, roteirista e advogado mineiro, Rubem Fonseca, foi comissário de polícia no Rio de Janeiro, chegando a se aperfeiçoar na área e a estudar Administração de Empresas na New York University. Depois trabalhou na Light quando, por fim, dedicou-se exclusivamente à literatura sendo agraciado com inúmeros prêmios literários por seus escritos literários e roteiros cinematográficos. Entre as suas obras está “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, um romance que foi publicado em 1988 que traz a sensação de se estar no cinema assistindo a uma colagem de questões intelectuais, angústias humanas, romance policial, cenas da guerra fria, loucuras do sonho. Talvez seja o melhor da obra de Rubem Fonseca porque ler Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos significa não conseguir parar um minuto sequer. É enxergar a vida e as situações cotidianas do homem dentro de uma ótica cinematográfica, na qual é necessário que haja uma lógica concisa e eficiente. Os personagens devem ser sempre muito bem definidos, suas ações delimitadas, seus sentimentos delineados para que o público capte "o quê o diretor quis dizer". E é aí que se encontra a confusão. A história de um cineasta-narrador que se envolve com uma história de pedras preciosas e assassinato, ao mesmo tempo em que começa a ler os contos do judeu soviético Isaak Bábel. A tentativa de transformar tais contos em roteiro para sua nova produção, junto aos seus confusos sentimentos e amores acaba em uma mistura da lógica racional da linguagem cinematográfica, à completa falta de lógica da linguagem inconsciente dos sonhos e a tentativa de adaptar a linguagem literária à uma realidade. E então, qual a mensagem que deve ser passada? Há algo que deve ser passado? Como organizar as vastas emoções sem deixar com que se percam em pensamentos imperfeitos? Rubem Fonseca não fornece respostas, mas incita questões - questões essas que valem muito a pena. Veja mais Rubem Fonseca.
FONTE:
FONSECA, Rubem. Vastas emoções e pensamentos imperfeitos. São Paulo: Planeta De Agostini, 2003.
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