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quarta-feira, fevereiro 28, 2018

SIGRID UNDSET, MOLIÈRE, IVAN LINS, FLEW, JULIANA MERÇON, MÔNICA SALMASO, GAMEIRO & CARLA VAN DE PUTTELAAR

MAIS DIA, MENOS DIA E O AMOR VALEU – Imagem: arte da fotográfa & artista plástica holandesa Carla Van de Puttelaar - UMA: QUEM SABERIA PERDER - Desde menino cara pro vento vida solta que eu sei o tempo e o vento voam. Aprendi a crescer, mas não de todo, como fruta no pé, madurando. Hoje, como na canção, vivo do que faz meu braço e a Terra manda. Fui lá e fiz, antes tarde os meus desígnios, afianço que cumpri o meu dever até agora, conquanto não tenha mais nada pra dizer, tudo é relâmpago na escuridão, pisando em falso diante das emboscadas, espias de tocaia e desforras, sem âncora nem cais, as ciladas nas surdinas da morte, acossado pela urgência, a perder o eixo nos moldes da lógica diante da desconstrução de tudo e o eterno retorno. E de noite levanto insone entre estrelas de um céu que sequer existe e a errar dos pés os caminhos do chão, pisadas sem direção pra voar, voa vento, voa tempo, os segredos perdidos que se revelam na manhã esquecida. Vejo o que não existe, a Alfa Centauro e a humanimaldade de Cummings, o peito destroçado de amores escondidos que se perderam sem saudades nem lembranças, apenas uma, definitivamente apenas uma reina no meu coração de cavaleiro sem montaria, desmontado. E o mundo cheio de gente mal-agradecida a fazer da cidade o istmo de sempre arrodeado de canavial e meretrício por todos os lados, enquanto as pessoas vivem encapsuladas nas cavernas de si mesmo de não sair jamais das janelas sem vida nas paredes desbotadas pela fé e desavença, varrendo das ruas a sanidade de viver. Eu não sabia da dor, nunca soube, menino que era e ainda sou, crescido de nada. Ontem não sabia nada, hoje muito menos, sou labaredas mesmo que vulnerável, vou além dos extremos. Já fui longe demais, acho, tanto por fazer. De que outro modo eu poderia viver, quem saberia perder? OUTRA: TINO DE CAÇADOR – Nunca levei jeito pra caçadas, nem queria. Mas com a ruma de tios, um deles, me vendo menino taludo, já me queria com jeito de homem: Hoje vai caçar comigo, seu cabra! Todo sábado, meio dia, eu escapulia. Já vinha não sei quantas vezes eu enrolava e me esgueirava mundo afora. No entanto, neste dia, não deu. O compadre Jaime me aplacou a fuga: Vai pra onde menino? Hoje você não escapa, vai com a gente. E mostrava o risinho diabólico dele. Meu tio logo chegou: Ah, capturou o fujão. Vambora. A gente amontava no jipe e rumava pra mata pertinho. Pra quê tanta arma, tio? Cada espingarda dessa é prum tipo de bicho: uma pra paca ou tatu, outra pra veados e o que aparecer de graúdo, essas mais finas pros passarinhos. Caçar passarinho? Sim. Oxe, não era pra mim não. Eu já havia soltado os das gaiolas do meu pai, arengava com os meninos da rua por conta das suas petecas, coisa mais sem propósito, imagine caçar passarinho, astúcias dessas, era pra mim não. Destá. Meu tio e o compadre eram mateiros calejados, perseguiam impenitentes todos os bichos que aparecessem na frente, vigilantes, armados até os dentes, com todo tipo de cartucho no alforje e no cinturão, tudo muito extravagante e injusto, pareciam mais cangaceiros de Lampião. Eles subiam afoitos pelas capoeiras e eu atrás, arrastavam tudo nos peitos, mata escura, somente chiados, estalidos e zoadas das mais estranhas, coisa de meter medo num sujeitinho como eu não familiarizado com as surpresas da mata. Eu pensava em Cumadre Fulosinha e noutras abusões, coisas que metem medo, e meu tio e o compadre Jaime sorriam das minhas leseiras. Todavia, no meio da pisada, um canto estranho se fez ouvir e, ao que parece, amoleceu o coração da gente bulindo na superstição, bastante conhecido sinal de advertência, coisas das ocultas e sortilégios, parece, adiava a impiedade. O compadre Jaime fez sinal de silêncio, psiu, aguçou as ouças e disse: Tem coisa! Deitou os ouvidos no chão: É bicho grande, tomara que não seja onça. Ah! É menor, parece mais veado. E ficou atento, ouvido no chão, levantava e virava a cabeça para os lados. Por prevenção, vamos subir!, mandou, e subimos cada um em árvores – eu mesmo mais que amedrontado deslizava o pé no tronco, relei-me todo para conseguir me trepar no pé de não sei o quê, um toro roliço que não dava nem para abarcar com os braços. Fiquei lá no galho, balançando as pernas, atento ao que vinha. O barulho das patas nas folhas aumentava e a música era mais audível, até então eu nem ouvia, mas agora estava nítida: as pisadas e a música. Era coisa de veado, daqueles galhudos, com mais de vinte chifres ocos e furados feito flauta, pra quando o vento soprar sair aquela pungente sonoridade. Eu num disse! O compadre Jaime já acenava pro meu tio, apontando, eu não via, ouvi quando disseram: É veado mesmo! Melhor ir embora. Arrumamos as coisas e zarpamos pro jipe do lado de fora da mata. Bem na saída já respirando o ar livre, perguntei a razão da desistência, explicaram não ser dia apropriado para caça, era dia de reunião das proteções deles, dia que não se deve caçar. Não ousavam contrariar as forças da natureza, transgredir era arcar com consequências bastante funestas, coisas do encantado que nunca se sabe. De caso pensado, retornamos, ficou pro próximo sábado. Livrei-me mais uma pra nunca mais. (Historieta apresentada nas minhas atividades de contação de história, releitura das lendas do folclore, baseada em material recolhido por folcloristas brasileiros). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do cantor, compositor e pianista Ivan Lins: San Javier Jazz Live, Somos todos iguais nesta noite & Quem saberia perder; da cantora Mônica Salmaso: Voadeira, Iaiá & Alma Lírica Brasileira; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] algumas das coisas tidas previamente como característica do universo que nos rodeia são na verdade propriedades da nossa própria constituição interna. [...]. Trecho da introdução à obra On human nature and the undestanding (Macmillan, 1962), do filósofo e professor britânico Antony Flew (1923-2010).

APRENDIZADO ÉTICO-AFETIVO - [...] a coesão social e a submissão às regras do Estado resultam do medo que temos de vivenciar um mal maior e da esperança de um bem maior [...] Por serem as paixões constitutivas do nosso viver, ou, em outras palavras, por não podermos ser guiadas por um pensar constantemente ativo, haverá também, na organização e regulamento das associações sociais produzidas pela educação, elementos ligados ao medo de punições e à esperança de recompensas, cuja força varia conforme experienciemos ou não a potência de nosso próprio pensar. [...] embora paixões tristes participem da formação e exercício dos poderes da educação, é também para próprio beneficio do todo social que a educação venha a promover a ativação de nosso pensar. [...] O princípio que movimenta a educação, tanto no exercício de seu poder produtor de paixões alegres como de seu poder controlador por meio das paixões tristes, é conatus da coletividade. [...] A capacidade de agir com base no conhecimento e na virtude, e não no medo ou na punição, é o que distingue uma educação sábia de uma educação que exerce um poder que se mantém pela inadequação de suas paixões e de seus mecanismos opressores. [...]. Trecho extraído da obra Aprendizado ético-afetivo: uma leitura sponizana da educação (Alinea, 2009), da educadora, professora e filósofa Juliana Merçon. Veja mais aqui.

PRIMAVERA - [...] Via-se literalmente nua, debaixo de vestes invisíveis. Parecia-lhe que estava nadando sem rumor, e sem que ninguém pudesse vê-la, no fundo de um mar de nevoeiro misturado com fumaça. Que lhe importava todo esse vaivém de gente atarefada? E todas aquelas pessoas, nenhuma das quais lhe era conhecida? Esses também escondiam, debaixo da roupa, um corpo nu, esses também tinha um “eu” que para ela era invisível. Este pensamento parecia-lhe justificação o seu desejo de solidão. Tentara, lealmente e com a melhor disposição do mundo, fazer relaç~~oes, mas não o conseguira. Agora, quando descobria que todas essas criaturas, além doq eu via delas, tinham um corpo, uma individualidade, sentia-se justificada por ter tido aquela repulsa a quase todas as pessoas com quem topara... “Tenho todo o direito de evitá-las e de exigir delas que não se dispam diante de mim...” [...] “Sou excluída das alegrias dos outros”, dizia consigo... “Os outros, esses possuem alguem a quem amam, ou com quem privam, ouy de quem falam mal, ou com quem fazem o mal, dançam, saem à rua. Quanto a mim, tenho pequenas alegrias diferentes, só minhas, e protejo-as com estas mãos, como se fossem cálidos passarinhoas”. [...] Sentira-se profundamente humilhada ao saber que ele pudera, diante de uma oportunidade, introduzir outra mulher em sua vida. Sabia hoje que uma mulher, se nada concede, nem para o bem nem para o mal, àquele que a adora, não pode pretender continuar sendo sempre a única. Pouco lhe falava, agora, para lamentar haver-se esforçado por permanecer leal e honesta com ele, e não ter usado de coquetismo ou de outras armas femininas para cativá-lo definitivamente. [...] Soava como uma música uma música maravilhosa. Era pois isto, amar. Era isto, o amor. Tomou entre as mãos, num arremesso, o rosto de Torkild e o contemplou demoradamente. Sim, era ele, o amado; ele era assim. Atraiu para a cabeça dele e, desta vez, foi ela quem o beijou, enquanto das árvores da rua tranqüila, erma, uma poeira branca e fina caia sobre ambos. [...]. Trecho extraído do romance Primavera (Delta, 1964), da escritora norueguesa & Prêmio Nobel de 1928, Sigrid Undset (1882-1949).

O AMOR – O amor é sempre avesso às leis da observação. / Gaba o amante na aleita os dons do coração, / nada sua paixão lhe acha de censurável. / Tudo, no amado ser, se lhe afigura amável. / Os defeitos que tem, conta-os por perfeições, / tornando-lhes gentis as denominações. / A pálida é ao jasmim, na alvura comparada; / é uma boa morena a negra desbeiçada; / a magra tem, grácil, talhe e desenvoltura; ] a que é desmazelada, imunda e displicente, / é, por atenuação, beleza negligente; / a que é alta é uma deusa aos olhos dos mortais; / a anã resume em si as graças celestiais; / faz jus a uma coroa a fonte da orgulhosa; / a hipócrita é engraçada; a idiota é generosa; / a faladeira tem agradável humor / e a muda, a sonsa, guarda um honesto puder. / Quem sente no seu peito arder do zelo a chama, / amara os erros, até da pessoa a quem ama. Poema extraído da peça O Misantropo (Zahar, 2014), cena IV, do ato I, da fala de Eliente a Celimène, do dramaturgo, ator e encenador francês Molière (Jean-Baptiste Poquelin – 1622-1673). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

INSTITUTO EDUCACIONAL SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Recepcionando a garotada estudantil do Instituto Educacional São Francisco de Assis, com as professoras Rosilda dos Santos Silva & Nataly Neves, na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares – PE.

Veja mais:
Quando a folia é maior em mim!, A árvore de Tamoromu & a música de Antúlio Madureira aqui.
O lobisomem de Alagoinhanduba aqui.
Biritoaldo: a vingança no formigueiro aqui.
Ferreira Gullar, Oscar Wilde, Lisztomania, Michel de Montaigne, Louis Malle, Luhan Dias, Juliette Binoche, Virginia Lane, O Morto & A Lua, Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva aqui.
Crimes contra a pessoa aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a adversidade aperta, o biltre bota o rabinho entre as pernas aqui.
As trelas do Doro: o escambau aqui.
Antígona de Sófocles, Gradiva de Freud, Seminário As Psicoses de Jacques Lacan & Cronquetas Tataritaritatá aqui.
Charles Baudelaire, Bem na Hora & Noveletas Tataritaritatá aqui.
Jean-Paul Sartre aqui.
Francesco Petrarca, Adrian Pãunescu, Erik Axel Karlfeldt, Carlos Santana, László Modoly-Nagy, Max Liebermann, Luiz Edmundo Alves & Psicologia da Gestalt aqui.
Walter Benjamin, Philippe Ariès, Isaac Stern, Charlotte Gainsbourg, Emil Orlik, Ruy Jobim Neto, Marco Leal, Neuropsicologia & Educação Sexual aqui.
Basílio da Gama, Silviane Bellato, Odete Maria Figueiredo, Edward Hopper, Mentes & Máquinas, Gerontodrama & Neurociência, Zacarias Martins & Programa Tataritaritatá aqui.
Gaston Bachelard, Steven Pinker, Holística, Renato Borghetti, Antonio Rocco, Menalton Braff, Diego Lucas & Mácia Malucelli aqui.
Carlos Drummond de Andrade, Antônio Cândido, Adolphe-Charles Adam, Antonio Bedotti Organofone, Ana Mello & Benedito Pontes aqui.
Aldous Huxley, Terceira idade & envelhecimento, Jean-Baptiste Camille Corot, Armando José Fernandes, Ivaldo Gomes, Monica & Monique Justino aqui.
Elias Canetti, Alfredo Casella, Gestão de Pessoas, Paula Valéria de Andrade, Célia Mara & Lou Albergaria aqui.
Passando a Limpo & Zygmunt Bauman aqui.
Carl Gustav Jung, Ariano Suassuna & Programa Tataritaritatá aqui.
O retorno da deusa de Edward C. Whitmont aqui.
A troça do Fabo aqui.
Folia Tataritaritatá & o Recife do Galo da Madrugada aqui.
Caboclinhos aqui.
O Frevo aqui.
Auto Maracatu aqui.
Baile de Carnaval aqui.
Bacalhau do Batata aqui.
Os assassinos do Frevo aqui.
A folia do prazer na ginofagia aqui.
Padre Bidião, o retiro & o séquito das vestais aqui.
Aijuna, o mural dos desejos florescidos aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.

A ESCULTURA DE RUY ROQUE GAMEIRO
A arte do escultor português Ruy Roque Gameiro (1906-1935).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa & artista plástica holandesa Carla Van de Puttelaar.
Veja mais aqui.

sexta-feira, setembro 29, 2017

THIAGO DE MELLO, HANS BELLMER, MARIO SETTE, SÉRGIO AUGUSTO, RONILDO MAIA LEITE & SIDNEY WANDERLEY

LINGUA FALOU, CU PAGOU! - Denilzinho era um arretado: servidor, jeitoso, estibado. Precisasse, pau pra toda obra; solidário até com morte de formiga. Diziam: esse vive de cara pra lua! Isso porque ninguém nunca via nele cara feia ou dizer não: sempre pronto para ajudar e resolver o que fosse para o bem de quem chegasse. E o melhor: com o maior dos sorrisos. Dinheiro? Sacava dos bolsos: tome! Carro emprestado, chaves dispostas na hora! Adoeceu? Estava pronto para palavras amigas e providenciar remédios, indiferente de quanto custassem. Eu num disse? Um sujeito pra lá de gente boa mesmo. Mas... Ninguém é perfeito: quando virava um copo, vixe! O cabra se transformava no pior cricri dos chatos de galochas. Era só às gaitadas: fulano? Aquilo é um corno safado da gaia mole! Sicrano? Aquilo é uma pestilência da mais gangrenosa! Beltrano? Um viado safado do cu afolosado! E mulher? Ah, a mulher de casa é feito galinha de granja: cheirosinha, limpinha, toda jeitosinha, mas insossa, aguada; já a mulher da rua, a puta nojenta, oxe, é feito carne de galinha de capoeira: fedorenta de inhaca da peste, melada, cagada, mijada, fodida, cuspida e mal paga, mas, ainda assim, é a maior sustância, suculenta, vixe! Chega dá vontade de comer de se empanzinar todo! Ô coisa boa! E repetia isso até diante da sua distinta senhora que, pudica das mais religiosas, abria um sorriso amarelo por educação e fazia que nem ouvia, resignada, serviçal pra tudo a bem do marido, vivia só pra ele providenciando iguarias e bebidas, o rei da casa que ela obedecia e devotava toda sua vida, arrumando da varanda à cozinha, ajeitando do jardim ao quintal, roupa engomada, tudo pronto antes mesmo dele pedir, e nos trinques todo dia e o dia todo. Isso até o dia que Denilzinho, depois de muitas e tantas, tomou uma de emborcar trocando as pernas na beira da cama, resmungando o flagra da infidelidade marital: ué, mulher, o que é que é isso? E ela, sem fazer a menor cerimônia, cuspiu na lata dele com a cara mais lisa: Oxe, homem, de tanto você dizer, eu fui fazer um teste pra vê se era mesmo galinha de granja, ora, pra seu governo o macho aqui me certificou que sou mesmo é galinha de capoeira. E das boas! Gostei e quero mais! Tai, língua falou, cu pagou! Teibei! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o compositor, músico e cantor Ivan Lins ao vivo + Quem saberia perder + Java Jazz; aa premiada violinista alemã Viviane Hagner interpretando Grétry Violon Concert Henri Vieuxtemps & Israel Philharmonic with Zubin Mehta; o violonista e compositor Nando Lauria interpretando músicas dos  álbuns Novo Brasil & Points of view; e a belíssima cantora Julya Cristal interpretando música do seu álbum A journey to Shamnalla &  Forever more. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Glamour não é um dote natural, mas um artifício burilado pela pericia de técnicos em plástica, elegância, iluminação e marketing. Glamour, portanto, se adquire – mas nem todos podem comprá-lo. Sua aquisição exige sacrifícios, sobretudo de ordem física [...] Não é menos árdua a sua conservação. [...] As recompensas são tais e tantas que poucos atores se confessaram arrependidos das concessões a que se sujeitaram, trocando de cara, nome e, não raro, até de biografia. [...]. E entendemos o desespero daquela personagem da peça Angel City, de Sam Shepard, que a certa altura desabafa: “Eu odeio minha vida. Queria que ela fosse um filme. Eu odeio o que sou. Eu queria estar vivendo um filme, mas não estou e nunca estarei”. Trechos do ensaio Minha tela tem estrelas (Bravo, abril/2004), do escritor e jornalista Sérgio Augusto. Veja mais aqui.

AS MULHERES DE IGARASSU – Duarte Coelho [...] donatário da capitania de Pernambuco, fundara à margem de um rio do mesmo nome a vila de Igarassu [...] Ali vinham ter as embarcações que chegavam de Portugal, trazendo colonizadores, mercadorias, víveres, e, pouco a pouco, a localidade crescia. [...] Os gentios, porém, que de começo se haviam mostrado cordatos, auxiliadores, deram em se insurgir contra os portugueses, declarando “guerra aos brancos”. [...] Durava já dois anos o assedio e, por isso, andavam os homens fatigados das vigílias sempre receosos de um ataque súbito dos indígenas. As mulheres, então, ofereceram-se para substituí-los nas sentinelas, durante as longas noites, e foram aceitas nesse arriscado mister, sem que dessa medida o inimigo viesse a ter mínima ciência. E afinal, uma vez, quase pela madrugada, sorrateiramente os índios ensaiaram tomar a vila de assalto, atacando o forte que defendia do lado do rio. As mulheres avistando aqueles vultos que escalavam as muralhas, rojaram-se sobre eles de espadas em punho, acutilando, ferindo, matando, com todo animo. Todavia, mais fracas e em menor numero, iam sendo subjugadas. E foi quando uma delas, por dar aviso aos homens que dormiam, teve uma fuzilante ideia. Apoderou-se de um tição, chegou-o ao ouvido de uma peça e disparou-a. o tiro reboou no silêncio da noite. Os soldados despertaram, correram aos seus postos, salvando a vila de uma capitulação. Trechos extraídos da obra Terra pernambucana (FCCR, 1981), do professor, jornalista e escritor Mario Sette (1886-1950). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A GUERRILHEIRA & O MAGRICELA BARBUDO - [...] Entre um gole e outro, costumava dizer, já agora aos berros: - Mulher casada que faz amor somente com o marido, para mim não passa de uma virgem... E dava cafunés dengosos na cabeça da esposa, que os olhos abaixava em sinal do mais bíblico respeito. Numa almofada distante, um magricela barbudo acompanhava o baixar de olhos, como na missa. Noite alta, até o gogó ele encheu o copo do uísque. Sem gelo, engoliu à maneira dos caubóis. Claro, entrou em coma profundo. Quando voltou a si, todos estavam ao redor das coloridas almofadas. Menos o magricela barbudo. Dirigiu-se ao quarto. Foi quando descobriu que, toda sexta-feira, o barbudinho se entregava ao dialético prazer de desvirginar a guerrilheira amada. Trecho extraído da obra A guerrilheira perfumada: crônicas do amor diário (Raiz, 1990), do jornalista e escritor Ronildo Maia Leite (1930-2009).

UM TRIPLO TIBUNGO HERÁCLITO – Três meninos mergulharam no rio / o rio mergulha na tarde / a tarde mergulha no tempo / que envelhece os meninos / que engole os sonhos e os que sonham / que altera o curso do rio / para que três outros meninos / em outra tarde, outro rio / renasçam em outros mergulhos. Poema extraído de Artesanias da palavra (Grafmarques, 2001), do professor e poeta Sidney Wanderley. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EPITÁFIO DE THIAGO DE MELLO
O canto desse menino
Talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
Lhe mandava o coração.
Poema recolhido da obra Faz escuro mas eu canto (Civilização Brasileira, 1985), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais:
A literatura de Cervantes aqui, aqui e aqui.
A pintura de Caravaggio aqui.
A música & entrevista de Ivan Lins aqui, aqui e aqui
O pensamento de Miguel de Unamuno aqui e aqui.
A arte musical de Viviane Hagner aqui.
O cinema de Michelangelo Antonioni aqui.
A arte musical de Nando Lauria aqui.
O teatro de Plinio Marcos aqui, aqui e aqui.
A arte da cantora Julia Crystal aqui, aqui e aqui.
O teatro de Mário Bortolotto aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e gravurista alemão Hans Bellmer (1902-1975).
Veja mais aqui.

sábado, outubro 01, 2016

ÉRICO VERÍSSIMO, PETER HALL, NIETZSCHE, GOTTSCHALK, IVAN LINS, WERNECK SODRÉ, ÁLVARO MACHADO & ALBERTO SANTOS

INEDITORIAL: PARA FAZER DO BRASIL UM PÁIS MELHOR TEM QUE COMEÇAR TUDO EM CASA!!! - Salve, salve, gentamiga do meu Brasilsilsilsilsilsilsil!!! A gente arreia a lenha, esculhamba no mais baixo calão & condena desde a mãe do guarda até a quinta geração dos políticos corruptos que lesam a patriamada! Sim, claro, não é pra menos! Tem gente até que quer pena de morte presses fidapeste, ou mesmo ao extremo de pedir a volta da ditadura! Cruzcredo! Como tem gosto pra tudo, também tem insensatez além da conta! Mas vamos deixar uma coisa às claras: a corrupção e a dilapidação do erário público não são de hoje, vem desde antes de 1500. A diferença é que dessa data até 1988, a gente não sabia de nada: o conluio era tão grande que ficava tudo abafado. Até 1988 havia apenas dois lados: de um, os donos com o poder e seus apaniguados; do outro, a gente – que eles chamavam de mundiça. Agora, ou seja, da Constituição Federal de 1988 pra cá, continua do mesmo jeito: os donos & os seus de um lado; e a gente, do outro, agora chamado de cidadão. Nada mudou. A diferença é que agora não há mais limite pros litígios: o privado publicizou-se e o público privatizou-se, maior melecada. Ninguém segura a onda quando a bronca estoura, todo mundo bota a boca no trombone e o meladeiro ganha proporções imprevisíveis de cair o queixo do mais seguro incrédulo. Nada de simancol, vale o espetáculo: a guerra midiática - coisa de ficar de boca aberta sem bater as pestanas de tão hipnotizado por dias, meses, semanas, meses, anos, décadas até. Ora, ora. Prest’enção! Vamos aprumar a conversa! De que adianta a gente ficar o tempo todo xingando tudo na maior desconfiança geral, se a gente, cada um de nós, não muda um centímetro de atitude? A gente não largou mão do jeitinho brasileiro: a gente não deixou de dar ou pegar toco pra facilitar a emperrada burocracia pública ou burlar autoridade ou conseguir o que quiser de caprichoso; não deixamos de querer privilégio ao invés de direito, sempre o melhor e o primeiro fora da fila e a usar de todo tipo de expediente escuso pra conseguir vantagens não menos escusas e meio mundo de coisa que a gente fala e reclama e pei&buft talquazinho Belchior cantando Como nossos pais. Uma coisa aprendi: se a gente quer um Brasil melhor, o primeiro passo é a gente fazer uma faxina em casa, sacar sério diante do espelho pra flagrar a nossa cara de pau e dizer: vou começar por mim a fazer do Brasil um país melhor. Tem coragem? Vamos juntos! Enquanto isso, as novidades do dia: Incidente em Antares de Érico Veríssimo, a cidade no simbolismo de Álvaro Manuel Machado, o desenvolvimento das cidades de Nelson Werneck Sodré, as cidades do amanhã de Peter Hall, o Curta 8 e o Monumento à Justiça de Curitiba, a Gaia ciência de Nietzsche, a Grande Fantasia do Hino Nacional de Louis Moreau Gottschalk, Depende de nós da dupla Ivan Lins-Vítor Martins & a croniqueta da cara de pau do candidato Zé Peiúdo. No mais, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá. Veja mais aqui.

Veja mais sobre
Todo dia é dia do idoso, Darcy Ribeiro, Annie Besant, Stephen Spender, Rita Cléos, Prosper Mérimée, Nicolaes Berchem, Alessandro Stradella, Paz Vega, Hanz Kovacq & Literatura Infantil aqui.

E mais:
Junichiro Tanizaki, Asha Bhosle, Sandra Werneck, Márcio Baraldi, Louis Jean Baptiste Igout, Vilmar Lopes, Luis Francisco Carvalho Filho, A mundialização da cultura, Internet & Inclusão, Gestão do capital humano, Lucy Lee & Raimundo Fontenele aqui.
A aventura do Zé Bilola pra vereança aqui.
Por um novo dia, Herminio Bello de Carvalho, Brian Friel, Julia Lemmertz, Paolo Sorrentino, Ismael Nery, Bruno Steinbach, J. R. Duran, Iremar Marinho de Barros, Rachel Weisz & O papel do professor e a sua formação na prática pedagógica aqui.
Doro Presidente aqui.
Tolinho & Bestinha: Quando Bestinha enfiou-se na bronca da vida e num teve quem desse jeito aqui.


Curtindo álbum da Grande Fantasia Triunfal com Variações sobre o Hino Nacional Brasileiro (CID-VOX, 1985), do pianista e compositor estadunidense Louis Moreau Gottschalk (1829-1869) – baseada no original de Francisco Manoel da Silva foi dedicada à Condessa d’Eu, a Princesa Isabel, filha de D. Pedro II que, que assinou a Lei Áurea, acabando com a escravidão no Brasil -, com o pianista Eugene Liszt & Orquestra Sinfônica de Berlim, sob a regência Samuel Adler.

Tem mais, confira:
A praga do voto vendido aqui.
Voto Moral aqui.
Pelo jeito a campanha do Doro agora vai aqui.
Horário Eleitoral Big Shit Bôbras puto da vida aqui.
Horário Eleitoral puto da vida & outras presepadas aqui.
Horário Eleitoral puto da vida com a campanha do Zé Bilola aqui.
Com quantos desaforos se faz uma eleição aqui.
Quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
Probidade administrativa aqui.

DESTAQUE:
Desde Babel, a cidade tem sido comparada ao sonho, com toda a carga psicanalítica que, desde Freud, a palavra sonho implica. Ou seja: ela é o lugar privilegiado da completa relação entre o espaço (o espaço como imagem de nós próprios e da sociedade em que vivemos) e o tempo, sendo este entendido nas suas paragens, nas suas acelerações, nos seus recuos, conforme os mecanismos da memória. Por outras palavras: a cidade, a grande cidade (num sentido que se enraíza na sua origem babilônica), concentra em si, como espaço duma totalidade cósmica imaginaria, todos os fascínios e todos os medos, todos os esplendores e todas as misérias. Consequentemente, como espaço privilegiado de múltiplos e sempre renovados paradoxos, ela vive essencial duma intemporalidade mítica que se alimenta da própria temporalidade histórico-social. Ela exerce, assim, uma poderosa função simbólica a nível cultural, função de que a literatura desde sempre se aproveitou, mas que, para falarmos da Europa, tomou proporções particularmente complexas ao longo do século XX. [...].
Eça e a mitologia da cidade, extraído da obra A Geração de 70― Uma Revolução Cultural e Literária (Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1986), do escritor e ensaísta português Álvaro Manuel Machado.

CANDIDATO FAZ TUDO CARA DE PAU NA MAIOR RESPONSA - Ninguém sabe como, mas a Justiça Eleitoral aprovou a candidatura do Zé Peiúdo às eleições majoritárias de Alagoinhanduba – diga-se de passagem, saber o que houve todo mundo sabe, mas ninguém é doido de ousar sequer pensar em delatar. Pois bem, devidamente legendado por partido numa frente suprapartidária que ele gastou mundos e fundos para sufocar o candidato oponente, Zé Peiúdo que andara desaparecido há bom tempo da cidade, depois das rasteiras eleitorais no Zé Corninho e de outras descobertas que só os cochichos ousam alertar – para queimar o filme do caga-raio, as más línguas arregaçam que ele já torou no gatilho uns dez desafetos, outros tantos às peixeiradas, afora uns putrefatos irreconhecíveis encontrados nas capoeiras e nos canaviais, de se perder a conta do tanto que ele já aprontou pras bandas de viventes que foram removidos da vida por causarem empecilhos aos seus propósitos. Como ele retornara cheio das gaitas e fazendo graça pro povaréu, logo ele achou por bem de passar uma borracha na imagem que faziam dele, oferecendo de tudo por presente, desde cachete de bulas várias, confeitos, placebos, dentaduras, pince-nez de todos os graus, maço de cigarros e tora-peito, santinhos, merenda, Bíblias e outras tranqueiras para distribuir gratuitamente ao eleitorado. Enfrentava todos com a maior cara-de-pau de gente boa, salvando-se por andar com uns cinco frascos de óleo de peroba nos bolsos, já consumindo pra mais de umas dez caixas, e prometendo mundos e fundos pra todos. Bastava um gritar inclemente: só dou meu voto se me dé uns tanto! Oxente, seu minino, na hora, diga lá o que quer, vá! Quero um chão! E com escritura no cartóro! Quero os óio! Um rim! Um pulmão! As placa do meu carro! Querosene pra lambreta! Era um peditório da praga e lá ia ele ter com despachante do Detran, com tabelião, com boticário, oculista, até emburacar no meio uns guardas da PM, de todo mundo ficar amedrontado, confidenciando pra ele: e aí, chefe, e o gás? Metendo a mão bolso, puxa umas cédulas graúdas que foram entregues com aperto de mãos e abraços: qualquer coisa, chefe, é só apitar que a gente remove os obstáculos. A bronca era que quanto mais ele distribuía coisas no comitê, mas davam conta de que sua candidatura não decolava. Estava ma hora de realizar uns comícios ineivados pra balançar as estruturas da cidade: Meu bom povo de Alagoinhanduba, irmãos e irmãs do meu bem-querer, foi Deus que me mandou, Jesus está comigo pra governar Alagoinhanduba! Conto com o voto de todos e vamos fazer dessa cidade a melhor do mundo! Aplausos e muito fuzuê começado pela claque, logo o povo todo estava envolvido nos goles da teibei distribuída de graça para todo mundo se esquecer dos problemas e votar nele no dia da eleição. A coisa ia nos conformes, até o dia que estoura a bomba e Zé Peiúdo vê-se em maus lençóis: a polícia federal coloca as botica sobre ele com suspeitas de uns assaltos aos caminhões de cargas que andavam sucedendo na BR, devido prisão duns que foram pegos e deram com a língua nos dentes acusando-o. Zé Peiúdo deu pinote, fez zoada, apelou pros sentimentos se dizendo injustiçado tanto pelo adversário político, como pelos que estão levantando falso sobre sua ilibada conduta. As investigações demoraram e o cerco foi se fechando pra banda dele que desapareceu às vésperas das eleições, poupando a sua decepção de amargar uma derrota das brabas. Mesmo assim, o cabra ainda teve mais de trinta por cento dos votos e, de quebra, conta com uma galera a favor que santifica o melepeiro todo dia e o dia todo. Pois é, a gente se depara com cada uma. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

UMA MÚSICA: DEPENDE DE NÓS (Ivan Lins-Vítor Martins)
 Depende de nós
Quem já foi ou ainda é criança
Que acredita ou tem esperança
Quem faz tudo pra um mundo melhor
Depende de nós
Que o circo esteja armado
Que o palhaço esteja engraçado
Que o riso esteja no ar
Sem que a gente precise sonhar
Que os ventos cantem nos galhos
Que as folhas bebam orvalhos
Que o sol descortine mais as manhãs
Depende de nós
Se esse mundo ainda tem jeito
Apesar do que o homem tem feito
Se a vida sobreviverá.

PESQUISA: O DESENVOLVIMENTO DAS CIDADES - A formação da cidade obedeceu, no Brasil, a injuções peculiares à estrutura colonial dominante em três séculos. Ela não surgiu, aqui, naquele quadro, que foi normal na Europa, em que se concentraram populações e técnicas ao impulso de transformações profundas da estrutura da produção, primeiro sob o influxo comercial, depois sob o influxo industrial. No Brasil colonial, sob regime de monopólio das trocas, a cidade foi apenas, ou principalmente, um centro administrativo e uma área de reunião periódica, na oportunidade das grandes festas coletivas, que eram as festas religiosas. Foi também, desde os primeiros tempos, ponto de transbordo de mercadorias, que vinham do interior e se destinavam aos mercados europeus. Não perdeu, assim, na fase colonial, o aspecto provinciano, morno, plácido, que as deixou em segundo plano, submissas ao domínio rural, dele dependentes. [...] Na segunda metade do século XIX, elas recebem novo impulso,a gora proveniente do aparecimento de algumas técnicas, como as de iluminação, de transportes e poucas mais, que alteram a fisionomia urbana, técnicas estreitamente ligadas ao esboço industrial que aparece. [...] Na fase republicana, com o desenvolvimento das indústrias e, consequentemente, da classe operaria, a evolução urbana se completa, no Brasil.  Algumas, entretanto, que tinham tido momentos de fastígio, descaem de sua grandeza – ficam como testemunhas de fases históricas superadas. Outras, alteram de tal forma a fisionomia que parecem recentes – depois de um longo período vegetativo, tomam considerável impulso. [...] a cidade é a moldura necessária e imprescindível, aquela que condiciona um sem-numero de manifestações, particularmente de ordem cultural, que deixam vestígios e que asseguram a perenidade desses vestígios. A cidade permite, por outro lado, os contatos, a audiência, a comunicação agremiando e aproximando os que se interessam por determinada atividade ou arte. Ela gera as instituições que recolhem, mantêm e difundem a cultura. [...]. Trechos extraídos da obra O que se deve ler para conhecer o Brasil (CBPE-INEP, 1960), do historiador Nelson Werneck Sodré (1911-1999). Veja mais aqui, aqui e aqui.

UMA LEITURA:
[...] Durante dias Antares esteve em pé de guerra. Mulheres e crianças foram proibidas de sair à rua. Na praça trocaram-se insultos e tiros. As vidraças do prédio do Grêmio Republicano foram partidas a pedradas e balaços por monarquistas enraivecidos. Um petardo explodiu contra a porta da residência dos Vacarianos. Houve cabeças quebradas e outros ferimentos corporais, leves uns, graves outros; morte, porém, nenhuma. [...] a Matriz de Antares, cuja construção sido iniciada havia vinte anos, foi inaugurada por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo. Benjamim Campolargo, Imperador Festeiro, mandou carnear seis de suas reses para dar churrasco ao povo, organizou uma quermesse e fez queimar fogos de artifício vindos da capital do Estado. Os Vacarianos, que tinham prometido dar um sino de bronze para o novo templo, recusaram cumprir a promessa. Quando o vigário os interpelou, alegando que a Igreja nada tinha a ver com a política, Antão retrucou truculento: “Padre, nesse assunto nem Deus pode se dar o luxo de ser neutro!”. [...].
Trecho extraído da obra Incidente em Antares (Globo, 1971), do escritor Érico Veríssimo (1905-1975). Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA: CIDADES DO AMANHÃ - [...] Para o futuro, a questão fundamental estava em saber o que um dia iria reerguer as economias urbanas. A maioria dos especialistas pareceram concordar em que os anos 80 não se repetiriam: desta próxima vez, os serviços financeiros não constituiriam a força fundamental; em lugar disso, esse papel poderia ser desempenhado por novos setores, tais como as artes, o entretenimento cultural, os serviços de educação e saúde, e o turismo. Particularmente, a perspectiva era de que a alta tecnologia fundir-se-ia com os setores criativos para gerar novas industrias: multimedia, novas combinações de educação e entretenimento, realidade virtual, todas elas viabilizadas pela digitalização total da informação e a consequente fusão de tecnologias outrora isoladas – radiodifusão, computação, telecomunicações – em uma só. [...] A questão crucial, segundo os planejadores, dizia respeito ao impacto sobre as cidades. Uma ideia, muito em moda, era de que o fluxo de informações finalmente acabaria com a necessidade de cidades: qualquer um poderia desempenhar qualquer atividade em qualquer lugar, desde que as conexões digitais corretas fossem acessíveis. O ensino a distância substituiria as universidades tradicionais, o comercio na telinha poderia substituir o chão da Bolsa de Valores, e cirurgiões poderiam até mesmo, de suas casas, operar pacientes a milhares de milhas de distância. [...] Observadores otimistas encontraram uma prova anedótica confortadora, sugerindo que algumas atividades artísticas – música, projeto visual – poderiam empregar talentos informais, intuitivos, artísticos, que outros setores não poderiam, provando, assim, serem uma força integradora mais do que divisora; os pessimistas observaram que as nova atividades artísticas como a multimídia estavam realmente na fronteira mesmo da sofisticação tecnológica. O veredicto ainda não foi pronunciado; e dele pode depender todo um futuro urbano. [...]. Trechos extraídos da obra Cidades do amanhã (Perspectiva, 2005), do professor, urbanista e geógrafo inglês Peter Hall. (1932-2014). Veja mais aqui.

UMA IMAGEM: MANIFESTAÇÃO POPULAR

AGENDA: CURTA 8 – Acontecerá entre os dias 06 e 09 de outubro, no Teatro da Caixa Cultural de Curitiba, o Curta 8 – Festival Internacional de Cinema Super-8 de Curitiba, que chega à sua 12ª edição em 2016. Veja mais aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] Todos os pregadores morais, assim como também todos os teólogos, têm um mau hábito em comum: todos procuram persuadir os homens de que estariam passando muito mal e de que uma dura, última, radical cura seria necessária. E porque os homens em conjunto deram ouvido a esses professores com demasiado zelo e ao longo de milênios inteiros, algo daquela superstição, de que vão muito mal, acabou passando efetivamente para eles: de tal modo que agora estão prontos e dispostos demais a suspira e não encontrar mais nada na vida e fazer uns para os outros caras consternadas, como se, de fato, fosse bem difícil tolerar. Na verdade, estão irrefreadamente seguros de sua vida e enamorados dela – e cheios de indivizíveis astucias e refinamentos para vencer o desagradável e extrair da dor e da infelicidade seu espírito. [...] O que fantasiaram os pregadores morais sobre a “miséria” interior dos homens maus! O que mentiram diante de nós sobre a infelicidade dos homens apaixonados! – sim, mentir é aqui a palavra certa [...].
Os médicos de almas e a dor, trecho extraído do Livro IV, da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Monumento à Justiça, Centro de Curitiba, Alberto Santos.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...