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quinta-feira, janeiro 28, 2016

A MULHER NO CRISTIANISMO, SABINO, MIGNONE, LECOUVREUR, PARODI, ZANETTINI, MANOELA AFONSO & MUITO MAIS!!!

TODO DIA É DIA DA MULHER: A MULHER NO CRISTIANISMO - A fase em que se procedeu ao momento transitório, entre a família romana e a cristã, se caracterizou pela manutenção da prevalência do poder patriárquico com a unidade do culto cristão. A mulher foi, então, tratada por ideias como as de Pedro, Catão, Censor e Paulo, pelas quais ela havia sido criada para benefício do homem e deveria acatá-lo em todas as coisas. A ela jamais seria dada a condição de ensinar na igreja, vez que ela como filha de Eva, foi a responsável por induzir Adão à transgressão. Os argumentos contrários à sua condução, giravam em torno de que a mulher estava perdida por não ter o que esperar do céu, vez que o Criador não lhe reconhecia a face, afora o que expressava Tertuliano diante do fato de que só a beleza natural da mulher já é, em si, uma tentação, tornando-a perigosa para todo aquele que apenas a veja para desviar-se do caminho do céu. Essa lei moral pregada estava respaldava em uma série de fatos ocorridos, como a condenação de Madalena como prostituta, a trama de Herodias e Salomé exigindo a cabeça de João Batista, bem como a forma como Dalila descobriu o segredo de Sansão e o entregou para uma humilhante morte, as heresias pagãs de Hypatia tendo por castigo de ser apedrejada em praça pública, afora ameaças com o fogo do inferno, que só o fato de ser mulher levava a uma intimidação. Por consequência disso, proibira, primeiro por decisão de Papa Sirício, depois com o Gregório VII, o casamento entre presbíteros e diáconos, instituindo o celibato sacerdotal. Tal determinação levou os alemães, por exemplo, a preferirem desistir da vida do que das esposas. A continência sexual passou a ser a tônica vez que era um elemento importante do ascetismo, tornando o celibato superior ao casamento, sob o argumento de que tudo que provinha da carne era mau. Era vigente o argumento de Severiano de que a mulher como um todo e o homem da cintura para baixo, são criações do demônio. As mulheres, por conta disso, eram vistas como fracas e frágeis, lentas de entendimento, emocionalmente instáveis, fúteis, hipócritas e totalmente indignas de confiança. Tudo isso embasado nas interpretações bíblicas de que o sexo era uma experiência da serpente e o casamento um sistema de vida repugnante e poluído. Tal condução buscava persuadir sacerdotes, celibatários ou não, para abjurarem dos pecados da carne, reprimindo que as despudoradas cortesãs que viviam em suas moradias, partilhassem da comida e se mostrassem em público em sua companhia, devendo-se subjugá-las por seus encantos, não permitindo que ela dirijam seus lares e que possam constituir rendimentos para seus bastardos. Por conta disso, despojavam a igreja da presença feminina. Para se ter ideia, Agostinho defendia que o sexo era repulsivo; Arnóbio alegava que era sujo e degradante; para Metódio, indecoroso; para Jerônimo, imundo; para Tertuliano, vergonhoso; para Ambrósio, conspurcação. Chegaram ao ponto de questionar que Deus deveria ter inventado um modo melhor de resolver o problema da procriação. Porém, acharam uma saída: a culpa não jazia com Deus, mas com Adão e Eva. Agostinho logo defendeu que a transgressão original, transmitida pela herdada concupiscência dos descendentes de Adão e Eva, persistia ainda na humanidade, o que explicava a perversidade e independência dos órgãos sexuais, a natureza intratável do impulso carnal e a vergonha geralmente suscitada pelo ato do coito: o Pecado Original. Tem-se, portanto, que com o advento do Cristianismo, diversos clérigos combatiam a aura mágica e poderosa do feminino, alegando que essa suposta superioridade da mulher era falsa e se confrontava com a ação divina, muito embora houvesse uma parcela entre eles que reafirmavam a igualdade entre homens e mulheres pelo menos espiritualmente. Quando o celibato tornou-se uma exigência, identificou-se uma desvalorização feminina face às estratégias de manutenção da organização eclesiástica que evidenciava Eva como a grande responsável pelo pecado original e, ao mesmo tempo, ocorria a santificação de Maria, mãe de Jesus, consagrando-se à maternidade e à família o papel fundamental da sociedade e da ordem religiosa. Com o desenrolar histórico, principalmente quando o Império de Constantino se aliou à igreja cristã, a mulher passou a ser usada para os propósitos religiosos, a exemplo de Clotilda de Borgonha que foi despachada para o norte com o objetivo de converter Clóvis, rei dos francos, e também Berta, que foi usada com intuito de seguir para Inglaterra, a fim de casar com Etelberto de Kent. Eram as princesas cristãs casáveis, algumas delas especialmente entre os merovíngios e carolíngios, mulheres de personalidade forte que serviam para casamentos com estrangeiros poderosos, visando atender os interesses da igreja. Ademais, persiste até hoje o anátema que coloca a mulher em segundo plano, responsável pela queda do homem e promotora do pecado original. (Luiz Alberto Machado).

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PICADINHO

Imagem: a arte de Rodrigo Luff.


Curtindo o álbum Francisco Mignone: a integral para violino e piano (Independente, 2006), com a obra para violino e piano de Francisco Mignone (1897-1986), na performance do violinista Paulo Bosisio e a pianista Lilian Barreto.

EPÍGRAFE – No fim tudo dá certo [...] Se não deu certo, é porque ainda não chegou no fim. [...], extraído do conto Como dizia meu pai, incluído no livro A volta por cima (Obra Reunida – Nova Aguillar, 1996), do escritor e jornalista mineiro Fernando Sabino (1923-2004). Veja mais aqui e aqui.

A FAMÍLIA NA ROMA ANTIGA – No livro Responsabilidade civil nos relacionamentos afetivos pós-modernos (Russel, 2007), de Ana Cecília Parodi, encontro que: [...] A viga de sustentação da família romana – o culto aos antepassados, também o era das estruturas políticas, e por isso influenciava de forma direta a toda sociedade, inclusive em aspectos econômicos, a tal ponto que o status quo da Roma como se conhecia dependia do sucesso dos cidadãos a manter a prática dos rituais. Verdade bem corroborada pela perda do controle do Estado para a Igreja Católica Apostólica Romana, que substituiu a cultura pagã local, pelas suas próprias tradições. A família romana era assim considerada englobando os ascendentes e descendentes, membros em geral, ligados por sujeição inclusive de ordem patrimonial [...] Berço do pátrio poder, este era exercido com exclusividade pelo homem. [...] Chefe do lar, ele recebia poderes absolutos para dispor sobre a vida e a morte, tanto de seus escravos, quanto dos membros da família. Ele mantinha forte coesão da família romana. [...] As mulheres não eram titulares de direitos próprios, de qualquer ordem, fosse sucessórios ou espirituais. Apenas a fumaça dos direitos lhes cabia, por via indireta, alçados e exercidos por intermédio dos homens. Tanto que, ao se casarem, deixavam para trás a casa do pai e passavam a integrar ao culto da família do seu esposo, em status loco filiae – filha do marido, que detinha o poder marital – figura substituta, sobre as mulheres desposadas, do instituto do pátrio poder. A fraqueza feminina resta estampada na expressão de Ulpiano, imbecillitas sexus – o sexo imbecil, in verbis. A mulher casada recebia status superior, sendo agraciada com algum reconhecimento social. Mas, vale anotar, que essa dignidade advinha como reflexo do homem, a quem ela auxilia idoneamente. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O CASO DAS CAMAS – No livro A mulher do vizinho (Record, 1962), do escritor e jornalista mineiro Fernando Sabino (1923-2004), encontro que: Perdera emprego, chegara a passar fome, sem que ninguém soubesse: por constrangimento afastara-se da roda boêmia que antes costumava frequentar - escritores, jornalistas, um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas. De repente, a salvação lhe apareceu na forma de um americano, que lhe oferecia emprego numa agência. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade, vale dizer, ao americano, para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade. E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México, já distraídos de seus passados tropeços, mas, tropeçando obstinadamente no inglês com quem se entendiam - quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele. Era o sambista seu amigo. Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade, e mais tarde: incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. Por via das dúvidas, correspondeu ao cumprimento de seu amigo da maneira mais discreta que lhe foi possível, mas viu em pânico que ele atravessa a rua e vinha em sua direção, sorriso aberto e braços prontos para um abraço. Pensou rapidamente em se esquivar - não dava tempo: o americano também se detivera, vendo o preto aproximar-se. Era seu amigo, velho companheiro, um bom sujeito, dos melhores mesmo que já conhecera – acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto? Agora, com o gringo ali ao seu lado, todo branco e sardento, é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. Sendo assim, tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo, haveria de compreender. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsun, lidos depois do jantar, e sem credores à porta. Não teve mais dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via, que não era com ele. E não era mesmo com ele. Porque antes de cumprimentá-lo, talvez ainda sem tê-lo visto, o sambista abriu os braços para acolher o americano - também seu amigo.  Veja mais aqui e aqui.

POESIA DA PELE & OUTRO POEMA – Entre os poemas da poeta, tradutora e jornalista Germana Zanettini, destaco inicialmente um dos que integram a série Poesia da Pele: coração: / pedaço de carne / cercado de você / por todos os lados. E também Leia antes de usar: não, aqui não há lugares reservados / [de antemão já lhe adianto: / nem adianta olhar para os lados] / o ambiente não é climatizado / os assentos não são flutuantes / e máscaras de oxigênio / não cairão / sobre suas cabeças / para sua segurança e conveniência / informamos que a vida / não vem equipada / com saídas / de emergência. Veja mais aqui.

A ARTE E O MISTÉRIO DA MORTE - A atriz francesa Adrienne Lecouvreur (1692-1730), foi uma atriz dramática por excelência e a mais completa do seu tempo. Estreou na Comédie Fraçaise, em maior de 1717, protagonizando Eléctre, de Crébillon, tornou-se bastante popular. Sua personalidade impôs-se aos preconceitos da época, bem como suas inovações, tendendo à naturalidade e à simplicidade, nas tragédias de Racine. Voltaire, de quem foi também grande interprete, exaltou-a em versos comovidos, censurando o ostracismo contra os atores. Teve um envolvimento com Maurice de Saxe e, misteriosamente, presume-se que foi assassinada pela sua rival, Maria Karolina Sobieska, a duquesa de Bouillon. Por não ter renunciado à profissão, não recebeu enterro cristão. Sua história inspirou dramaturgos, compositores e poetas que criaram peças teatrais, poemas e roteiros para cinema. Veja mais aqui.

FILME DE AMOR – O longa-metragem Filme de Amor (2003), dirigido por Júlio Bressane, traz o mito da três graças – o Amor, A Beleza e o Prazer, onde duas mulheres e um homem dão um intervalo em suas vidas de cotidiano medíocre para um hiato de alegria, paixão, libertação e transcendência. No mito original são três mulheres, Tália, Abgail e Eufrosina, mas o diretor optou por escalar um homem levando em conta esses “novos tempos híbridos e heterogêneos”; e no filme eles encarnam os personagens Hilda, Matilda e Gaspar. São três amigos que vivem no subúrbio e que decidem se encontrar em um pequeno apartamento num final de semana, com o objetivo de beber, conversar, sentir prazer e, principalmente, estarem juntos. Lá eles entram num estado de sonho, devido à embriaguez, que os leva a esquecer o que ocorre fora do apartamento. O destaque do filme é para a atriz e diretora Bel Garcia (1967 - 2015). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Teodora & Marózia, mãe e filha. A mãe, a aristocrata romana, senatrix e sereníssima alteza Teodora, que junto com seu marido Teofilato I, controlava a cidade de Roma e o papado no século X, considerada por Liutprando como uma "prostituta sem vergonha ... [que] exerce poder sobre os cidadãos romanos como um homem." e descrita como amante do então arcebispo de Ravena que se tornaria posteriormente o Papa João X. A filha, a nobre toscana Marózia que influenciou decisivamente na eleição de papas como Leão VI, Estêvão VIII e João XI – este último seu filho -, assim como na morte de João X, sendo a suposta amante de Sérgio III – dando início ao período conhecido como o governo das prostitutas -, tornando-se senatrix e patrícia durante o papado de João X. As duas nobres dominadoras e desacreditadas do séc. X, tornaram-se virtuais ditadoras em questões de designações papais.

DEDICATÓRIA
 A edição de hoje é dedicada à artista plástica Manoela Afonso.

 Veja aqui & aqui.

 Veja as homenageadas aqui.

E veja mais Seca no Brasil, Rainer Maria Rilke, Gaston Bachelard, Maria de Medeiros, Kees van Dongen, Wolfgang Amadeus Mozart, Michel de Montaigne & muito mais aqui.


quinta-feira, setembro 03, 2015

GALEANO, ALDIR, HEGEL, MIGNONE, GISELE, WERTMÜLLER, EDWIN, FEIRA LITERÁRIA DE CAMBUQUIRA & RAÍZES & FRUTOS.



VAMOS APRUMAR A CONVERSA? RAÍZES & FRUTOS – Em 1972, eu tinha doze anos de idade, quando tive às mãos a antologia Poetas de Palmares, organizada pelo poeta Juareiz Correya. Lá constavam dois sonetos do meu pai, Rubem de Lima Machado. O primeiro Meu Orgulho: Alimentei em mim uma paixão: orgulho. / Vivi sonhando a zombar de tudo quanto / era sublime. Jogando ao pedregulho / o Bem, e transformando o diabo em santo. / Quis demais. Vaguei... Toquei o infinito. / Revolvi as trevas, transpus o pensamento / e junto ao Deus desabrochou meu peito num grito / de amor que hoje transborda sofrimento. / Que diabo! Inferno vivo a recompensa / do mal que fiz a mim, a ti, a todo mundo. Fui mal, sou mal, desafiei a Deus a crença. / Entre os imundos fui e sou o mais imundo / o descarado vilão mais presunçoso / o perigo e puro suco da ofensa. O segundo denominado de Soneto: Tantos dias passados, tantos anos. / Sei lá quando... os dias já passaram. / Fiz tanto mal, dia a dia causei danos / e meus dias, outros dias trucidaram. / E este mal que ainda me acompanha / me enoja. Deturpa minha vida. / Fui mal, sou mal, o mal em mim se entranha, / tenho existência d’alma pervertida. / Veja estes meus olhos: outros se comparam? / Veja meus lábios: por mim escancarados? / Veja minhas mãos que outras mãos esbarram. / Não são olhos nem lábios, só amaras / de coração e mente endiabrados / que fizeram-me das mãos temíveis garras. Esses dois sonetos viraram minha cabeça. Se ele já era o meu herói da infância, transformava-se no meu ideal. E não resisti à arte, já era muito achegado para fazer-me indiferente. Eu já me insinuava desde menino a fazer umas quadrinhas para a professora do primário, quadrinhas essas, algumas delas, publicadas no suplemento infantil Júnior do Diário de Pernambuco. E por causa dela, sempre rabisquei versinhos infantis que, depois dos Sonetos do meu pai, tomaram vulto e danei-me a encher cadernos e mais páginas com as minhas garrancheiras manuscritas em supostos poemas infindos. Até inventei de musicá-los por canções inauditas e desafinadas, até aprumá-los, segundo meu juízo de então, em dois livros: Para viver o personagem do homem (1982) e A intromissão do verbo (1983). Mas meu pai sempre fora um sonetista boêmio de virar noites recitando e construindo versos com causos e lorotas, até poemas carregados de sentimentos admiráveis. Foi então que fazendo parte das Edições Bagaço à época, resolvi desafiar-lhe a publicar um livro. De pronto ele respondeu: - Só se você dividir comigo. Resisti à ideia porque já preparava o meu Canção de Terra e não tinha nada de novo para publicar, mas mantive a cobrança. Até depois de muita insistência ceder-mos numa parceria. Foi então que nasceu Raízes & Frutos, lançando em 1985, com apresentação do Juhareiz Correia e Arnaldo Afonso Ferreira, com capas e orelhas de Ângelo Meyer. A primeira parte, Raízes, só poemas do meu pai; a segunda, Frutos, os meus poemas. Uma parceria de pai e filho que muito me envaidece. E lançamos numa festa muito bonita no Teatro Cinema Apolo – depois conto como foi esse lançamento. E vamos aprumar a conversa aqui.


Imagem: Female nude, do pintor e gravurista galês Augustus Edwin John (1878-1961).


Curtindo o álbum tripo A música para Flauta de Francisco Mignone (2010/2011), com obras do pianista, regeste e compositor erudito Francisco Mignone (1897-1986), com o flautista professor da UniRio, Sérgio Barrenechea, a pianista Lúcia Barrenechea e outros músicos convidados.

A FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO – A obra A fenomenologia do espírito (1807 - Vozes, 1992), do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), trata de temas como a certeza sensível ou o isto e o visar, a força e entendimento, fenômeno e mundo suprassensível, a verdade da certeza de si mesmo, a independência e dependência da consciência de si, liberdade da consciência-de-si: Estoicismo versus Cepticismo, a percepção ou a coisa e a ilusão, dominação e escravidão, consciência infeliz, certeza e verdade da razão, razão observadora, observação da natureza, a observação da consciência-de-si em sua pureza e em referência à efetividade exterior: leis lógicas e leis, observação da consciência-de-si em sua efetividade imediata, a efetivação da consciência-de-si racional através de si, a lei do coração e o delírio da presunção psicológica, fisiognomia e frenologia, o prazer e a necessidade, a virtude e o curso do mundo, a individualidade que é para si real em si e para o reino animal do espírito e a impostura, ou a razão examinando as leis, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho A Percepção ou: a coisa e a ilusão: A certeza sensível não se apossa do verdadeiro, já que a verdade dela é o universal, mas a certeza sensível quer captar o isto. A percepção, ao contrário, toma como universal o que para ela é o essente. Como a universalidade é seu princípio em geral, assim também são universais seus momentos, que nela se distinguem imediatamente: o Eu é um universal, e o objeto é um universal. Para nós esse princípio emergiu [como resultado]; por isso, nosso apreender da percepção não é mais um apreender aparente, [fenomenal], como o da certeza sensível, mas sim um apreender necessário. No emergir do princípio, ao mesmo tempo vieram-a-ser os dois momentos que em sua aparição [fenomenal] apenas ocorriam fora, a saber - um, o movimento do indicar; outro, o mesmo movimento, mas como algo simples: o primeiro, o perceber, o segundo o objeto. O objeto, conforme a essência, é o mesmo que o movimento: este é o desdobramento e a diferenciação dos momentos,  nquanto o objeto é seu Ser-reunido-num-só. Para nós - ou em si -, o universal como princípio é a essência da percepção, e frente a essa abstração os dois momentos diferenciados - o percebente e o percebido - são o inessencial. De fato porém, por serem ambos o universal ou a essência, os dois são essencialmente. Mas enquanto se relacionam como opostos um ao outro, somente um pode ser o essencial na relação; e tem de se repartir entre eles a distinção entre o essencial e o essência, indiferente a ser ou não percebida; mas o perceber, como o movimento, é o inconsistente, que pode ser ou não ser, e é o inessencial. A esta altura, é mister determinar mais de perto esse objeto; determinação que se deve brevemente desenvolver a partir do resultado conseguido, pois aqui não seria pertinente um desenvolvimento mais completo. O princípio do objeto - o universal - é em sua simplicidade um mediatizado; assim tem de exprimir isto nele, como sua natureza: por conseguinte se mostra como a coisa de muitas propriedades. Pertence à percepção a riqueza do saber sensível, e não à certeza imediata, na qual só estava presente como algo em-jogo-ao-lado. Com efeito, só a percepção tem a negação, a diferença, ou a múltipla variedade em sua essência. Assim, o isto é posto como não isto, ou como suprassumido; e portanto, não como nada, e sim como um nada determinado, ou um nada de um conteúdo, isto é, um nada disto. Em conseqüência ainda está presente o sensível mesmo, mas não como devia estar na certeza imediata - como um singular visado -, e sim como universal, ou como o que será determinado como propriedade. O suprassumir apresenta sua dupla significação verdadeira que vimos no negativo: é ao mesmo tempo um negar e um conservar. O nada, como nada disto, conserva a imediatez e é, ele próprio, sensível; porém é uma imediatez universal. No entanto, o ser é um universal, por ter nele a mediação ou o negativo. À medida que exprime isso em sua imediatez, é uma propriedade distinta determinada. Dessa sorte estão postas ao mesmo tempo muitas propriedades desse tipo, sendo uma o negativo da' outra. Enquanto expressas na simplicidade do universal, essas determinidades - que só são a rigor propriedades por meio de uma determinação ulterior que lhes advém - relacionam-se consigo mesmas, são indiferentes umas às outras: cada uma é para si, livre da outra. Mas a universalidade simples, igual a si mesma, é de novo distinta e livre dessas determinidades: é o puro relacionar-se consigo ou o meio, onde são todas essas determinidades. Inter-penetram-se nela como numa unidade simples, mas sem se tocarem; porque são indiferentes para si, justamente por meio da participação nessa universalidade. Esse meio universal abstrato, que pode chamar-se coisidade em geral ou pura essência, não é outra coisa que o aqui e agora como se mostrou, a saber: como um conjunto simples de muitos. Mas os muitos são, por sua vez, em sua determinidade, simplesmente universais. Este sal é um aqui simples, e ao mesmo tempo múltiplo; é branco e também picante, também é cubiforme, também tem peso determinado etc. Todas essas propriedades múltiplas estão num aqui simples no qual assim se interpenetram: nenhuma tem um aqui diverso do da outra, pois cada uma está sempre onde a outra está. Igualmente, sem que estejam separadas por aquis diversos, não se afetam mutuamente por essa interpenetração. O branco não afeta nem altera o cúbico, os dois não afetam o sabor salgado etc; mas por ser, cada um, simples relacionar-se consigo, deixa os outros quietos, e com eles apenas se relaciona através do indiferente também. Esse também é portanto o puro universal mesmo, ou o meio: é a coisidade que assim engloba todas essas propriedades. [...] Veja mais aqui.

AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA – O livro As veias abertas da América Latina (L&PM, 1971), do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), trata de uma análise sobre a história da América Latina desde o período da colonização europeia até a Idade Contemporânea, argumentando contra a exploração econômica e a dominação política do continente, primeiramente pelos europeus e seus descendentes e, mais tarde, pelos Estados Unidos. A exploração do continente foi acompanhada de constante derramamento de sangue índio e devido à exposição de eventos de grande impacto para o conhecimento da história do continente, o livro foi banido na Argentina, Brasil Chile e Uruguai durante as ditaduras militares destes países. Da obra destaco o trecho inicial: A divisão internacional do trabalho significa que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder. Nossa comarca no mundo, que hoje chamamos América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se aventuraram pelos mares e lhe cravaram os dentes na garganta. Passaram-se os séculos e a América Latina aprimorou suas funções. Ela já não é o reino das maravilhas em que a realidade superava a fábula e a imaginação era humilhada pelos troféus da conquista, as jazidas de ouro e as montanhas de prata. Mas a região continua trabalhando como serviçal, continua existindo para satisfazer as necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, de cobre e carne, frutas e café, matériasprimas e alimentos, destinados aos países ricos que, consumindo-os, ganham muito mais do que ganha a América Latina ao produzi-los. Os impostos que cobram os compradores são muito mais altos do que os valores que recebem os vendedores. Como declarou em julho de 1968 Covey T. Oliver, coordenador da Aliança para o Progresso, “falar hoje em dia de preços justos é um conceito medieval. Estamos em plena vigência do livre-comércio”. Quanto mais liberdade se concede aos negócios, mais cárceres precisam ser construídos para aqueles que padecem com os negócios. Nossos sistemas de inquisidores e verdugos não funcionam apenas para o mercado externo dominante, também proporcionam caudalosos mananciais de lucros que fluem dos empréstimos e dos investimentos estrangeiros nos mercados internos dominados. “Já se ouviu falar de concessões feitas pela América Latina para o capital estrangeiro, mas não de concessões feitas pelos Estados Unidos para o capital de outros países (...). É que nós não fazemos concessões”, advertia o presidente norteamericano Woodrow Wilson, por volta de 1913. Ele estava convicto: “Um país”, dizia, “é possuído e dominado pelo capital que nele foi investido”. E tinha razão. Pelo caminho perdemos até o direito de nos chamarmos americanos, embora os haitianos e os cubanos já estivessem inscritos na História, como novos povos, um século antes que os peregrinos do Mayflower se estabelecessem nas costas de Plymouth. Agora, para o mundo, América é tão só os Estados Unidos, e nós quando muito habitamos uma sub-América, uma América de segunda classe, de nebulosa identidade. É a América Latina, a região das veias abertas. Do descobrimento aos nossos dias, tudo sempre se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal se acumulou e se acumula nos distantes centros do poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar foram sucessivamente determinados, do exterior, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo. Para cada um se atribuiu uma função, sempre em benefício do desenvolvimento da metrópole estrangeira do momento, e se tornou infinita a cadeia de sucessivas dependências, que têm muito mais do que dois elos e que, por certo, também compreende, dentro da América Latina, a opressão de países pequenos pelos maiores seus vizinhos, e fronteiras adentro de cada país, a exploração de suas fontes internas de víveres e mão de obra pelas grandes cidades e portos (há quatro séculos já haviam nascido dezesseis das 20 cidades latino-americanas atualmente mais populosas). Para os que concebem a História como uma contenda, o atraso e a miséria da América Latina não são outra coisa senão o resultado de seu fracasso. Perdemos; outros ganharam. Mas aqueles que ganharam só puderam ganhar porque perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos. Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno. Potosí, Zacatecas e Ouro Preto caíram de ponta-cabeça da grimpa de esplendores dos metais preciosos no fundo buraco dos socavões vazios, e a ruína foi o destino do pampa chileno do salitre e da floresta amazônica da borracha; o nordeste açucareiro do Brasil, as matas argentinas de quebrachos ou certos povoados petrolíferos do lago de Maracaibo têm dolorosas razões para acreditar na mortalidade das fortunas que a natureza dá e o imperialismo toma. A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema. Do mesmo modo, e simetricamente, o bem-estar de nossas classes dominantes – dominantes para dentro, dominadas de fora – é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga.A diferença se acentua. [...] Veja mais aqui e aqui.

BAILE DE FORMATURA, ANGÚSTIA DE INFLUÊNCIA & HEFESTO – No livro A poesia de Aldir Blanc (Irmãos Vitale, 2001), do compositor e escritor Aldir Blanc, destaco inicialmente Baile de Formatura: Eu não sonhei / que você estava linda. / Eu realmente fui ao baile / e vi você de relance, linda, / de uniforme de normalista, / e seus olhos eram olhos / de uma mulher enamorada, / parecida com a Malu Mader. / Sentindo frio em minhalma, / procurei o bar / pra tomar cuba-libre e coragem. / Quando voltei pro salão / você não estava. / Tinha casado e mudado. / Ainda havia flamingos, / viagens sentimentais, / encantamentos, convites, / damas apaixonadas, / sofisticadas e vagabundas, / a quem amei, mesmo sabendo / que isso não pode ser amor. / Não adianta me chamar / de irresponsável. / Eu estava me sentindo um tolo / por querer você. / Ainda assim, tive luas azuis, / luas pálidas, / luas brilhando sobre / cidades desconhecidas / e um caso para relembrar / e esquecer, / e novo tempo de partir / e o que será, será, / as luzes da cidade / refletindo / um sorriso na lembrança, / um certo sorriso de verão, / cerca de meia-noite, / um sorriso de velhos amigos / embora estranhos no paraíso, / e esse sorriso reacendeu / minha velha chama: / eu dançaria a noite inteira / de rosto colado, / dançando no escuro / canções de setembro, / dançando na chuva, / nas areias da maré baixa, / mas você ainda não estava / dançando a melodia imortal, / você era uma estrela / piscando acima do arco-íris, / e de repente havia fumaça / em seus olhos, / amores clandestinos, / minha garota melancólica, / até nosso reencontro, / mas depois daquela última dança, / corpo e alma, / nunca mais seremos os mesmos. / Hoje a canção é você / e eu estou feliz / por ser infeliz nessa fascinação / entre folhas mortas, / gardênias azuis, / serenatas ao luar, / canções da Índia, / cartas de amor... / With a song in my heart / eu te esperei vinte anos, / acordado e triste, / no salão silencioso e apagado. / Você mudou, noite e dia, / mudou suave e adoravelmente, / e ainda tem os mesmos olhos, / olhos de mulher apaixonada, / olhos de Malu Mader, / e agora, por causa de você, / por tudo que você é, / eu posso finalmente sonhar / que durante todo esse tempo / você não flertou com ninguém, / e que olha só para mim, / meu amor, / meu par. Também Angústia de Influência: A mulher e o toureiro têm em comum o cheiro / de sangue no esmero da roupa / têm em comum a graça / com que transpassam / a besta com a capa e a espada / têm em comum o estro / poético do gesto antes da / morte, os olhos de martírio / o homem-fera / babuja a bainha da Valquíria / quando / o infinito / lavra no lacre / seu sinete: / a besta expira, atônita / diante da verônica / de Manolete. Por fim o poema Hefesto: Um dia inteiro / para / em queda livre / beijar o solo. / No tempo mitológico / o dia é a vida. / Os filhos que ficam / grudados na mãe / passam toda a vida / caindo. Veja mais aqui.

DE SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO À ESPERANÇA VEM DO LIXO – A trajetória da bela atriz Gisele Fróes seguiu-se logo depois que ela se formou no curso para atores da Cara das Artes de Laranjeiras (CAL), estreiando no teatro com a peça teatral Sonho de uma noite de verão (1985), seguindo-se de Olho de gato (1985), Nosferatu (1986), Ataca, Felipe! (1986), Lampião (1991), O tiro que mudou a história (1991), Tiradentes, inconfidência no Rio (1992), O congresso dos intelectuais (1993), Senhora dos afogados (1994), Don Juan de Molière (1997), A alma boa de Set-Suan (1998), Cabaré 3: para quem gosta de mim (1999), Carícias (2001) e A prova (2002), quando em 2004 ela ganha o Prêmio Shel de melhor atriz por Deve haver algum sentido em mim que basta, da Companhia de Teatro Autônomo do Rio, seguindo-se outros espetáculos teatrais como E agora nada é mais uma coisa só (2005), Divã (2005), O mundo dos esquecidos (2007) e Oréstia (2012). No cinema ela estreou com o filme Riscado (2010), seguindo-se Vips (2011), Boa sorte (2014) e Trash: a esperança vem do lixo (2014). Daqui os nossos aplausos e desejo de sucesso para esta maravilhosa e bela atriz. Veja mais aqui.

FERDINANDO E CAROLINA – A comédia histórica Ferdinando e Carolina (1999), dirigido pela cineasta italiana Lina Wertmüller, é ambientada no Palácio Real de Caserta e em locais que lembram os esplendores dos tribunais de Bourbon do século XVIII, contando a alegria contagiosa, explosiva e incontrolável de um homem e as loucuras da juventudo pelo amor de uma mulher que é uma princesa de Medina com quem pretende se casar, quando seu pai já o tenha arranjado para outro casamento com uma filha da imperatriz, passando para uma historia para lá de interessante e sobrecarregada de uma sensualidade muito envolvente. Veja mais aqui.

 

II FEIRA LITERÁRIA DE CAMBUQUIRA – Está prevista a abertura para esta sexta, dia 4 de setembro, da II Feira Literária de Cambuquira (MG), coordenada por Olga Nunes e Maria Cecília Santos Carvalho. A feira se prolongará até o dia 7 setembro e na programação do evento, quando ocorrerá uma homenagem ao saudoso poeta Argemiro Corrêa, pai da nossa querida Meimei Corrêa que fará parte da mesa literária no último dia, a partir das 16:30hs. Mais detalhes da feira confira aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagens de Diana de Poitiers (1499-1566), a preferida de Henrique II.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa SuperNova, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. E para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...