
RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: especiais com o
compositor alemão Carl Orff e a sua cantata Carmina Burana & Streetsong; a
violinista britânica Chloë
Hanslip interpretando Mozart, Cinema Paradiso de
Ennio Morricone & Fantasy de Franz Waxman; o
pianista Nelson Freire interpretando obras de Villa-Lobos & Debussy In
Recital; e da pianista e maestro japonesa Mitsuko
Uchida interpretando estudo de Debussy & concerto de Beethoven. Para
conferir é só ligar o som e curtir.
PENSAMENTO DO DIA – Quem precisa de braços e pernas para levar
uma vida rica e atarefada? Não me interessa o que vocês pensam, deixem que eu
me arranjo socinha! Eu vou para mesa sem a ajuda de ninguém! - Palavras da
escritora e pintora de boca francesa Denise
Legrix (1910-2010), que nascera com dismelia – Transtorno do
desenvolvimento das extremidades, considerada como doença congênita que não há
tratamento possível. Por não possuir nem braços nem pernas, desde criança ela
começou a pintar e desenhar com a boca, passando a ser, mais tarde, pintora
profissional, tornando-se membro da Associação de Pintura de Artistas de Boca e
Pé (AAPBP) e fundadora da Associação para Auxílio Mútuo para Crianças e Adultos
Dismélicos (ANEEAD). Ela também é escritora autora da autobiografia em três
volumes Née comme ça (Minha alegria
de viver – Segep-Kent, 1962).
O CORAÇÃO: ANTIGA LENDA AFRICANA DE UGANDA – [...]
o deus superior, Kabeyza-Mpungu, tinha
quatro filhos: o Sol, a Lua, a Escuridão e a Chuva. Não havia nem terra, nem
céu, nem animais, nem seres humanos. Um belo dia Kabeyza-Mpungu criou o céu e a
terra. Criou os muitos animais e criou o homem e a mulher. O ser humano se
assemelhava muito aos animais, exceto por ser dotado de razão. Kabeyza-Mpungu
chamou seus quatro filhos para lhes dizer que em breve os deixaria, e
aconselhou-os a serem ponderados enquanto estivesse fora. Ele não queria que
nenhum mal ocorresse ao homem e aos animais. Mas, enquanto estivesse ausente,
enviaria à Terra, em seu lugar, Mutima – ou o coração – uma parte dele mesmo
para cuidar de suas criaturas. Kabeyza-Mpungu então partiu. Tudo o que dele
ficou na Terra foi Mutima ou coração, um pedaço de Deus não maior que a palma
da mão. Entretanto, não durou muito para que Mutima sentisse saudades de
Kabeyza-Mpungu. “Onde está Kabeyza-Mpungu nosso Pai?”, perguntou Mutima ao Sol,
Lua, Escuridão e Chuva. Tudo o que podiam responder era: “Nosso Pai foi embora,
e não sabemos para onde”. Mutima lamentou, “ah, como eu gostaria de voltar a
ser um com ele outra vez”. Então Mutima voltou-se a seus protegidos, o homem e
a mulher – as criaturas que Kabeyza-Mpungu dotara de razão e intelecto. Tomou
uma decisão. “Vou entrar neles”, disse, “e através de sua capacidade de
raciocínio procurarei regressar a Deus, de geração em geração”. E isso
exatamente foi o que Mutima fez. Desde aquela época, o homem tem em seu peito
Mutima, ou coração, um pedaço de Deus. Agora, com Mutima neles, todos os seres
humanos anseiam por Deus e procuram meios de encontrar Deus. Trecho da
lenda africana de Uganda, registrada na obra African Folk Tales (The Peter Pauper Press, 1963), de Charlotte
Leslau & Wolf Leslau, recolhida do artigo O despertar do coração psíquico do homem (O Rosacruz, jan/fev,
1986), do médico quiroprático estradunidense John Palo.
AUTOCONHECIMENTO, FANTASMAS & TEMORES
HUMANOS - [...] Dois grandes obstáculos, entretanto, dificultam este autoconhecimento,
que Sócrates já reclamava como princípio de toda atuação: o primeiro deles
consiste na própria proximidade, que dificulta enormemente todo intento introspectivo
(do mesmo modo que quanto mais aproximamos um objeto de nossa vista pior o
vemos); o segundo deriva das modificações constantes de nosso tonus vital —
refletidas em nosso humor e em nossa autoconfiança — que nos levam a tingir
sempre o autojuízo estimativo, dando-lhe uma exagerada coloração rósea ou um
injustificado tom de obscuro pessimismo. De fato, o homem, depois de
considerar-se o ‘Rei da Criação’, passa, quase que sem meio-termo, a julgar-se
‘simples barro’; umas vezes se considera como espírito ‘próximo de Deus’ e
outras como ‘máquina de reflexos’. [...] Por que até os mais valorosos guerreiros,
capazes de lançar-se a descoberto contra uma muralha de fogo ou de lanças,
retrocedem espavoridos ante a suspeita de um inimigo tênue e invisível. É assim
que os “mortos” assustam mais que os “vivos”; os fantasmas angustiam e torturam
as mentes ingênuas muito mais que um bandido de carne e osso; em suma, o que
não existe oprime mais do que aquilo que existe. Não obstante, seria injusto
negar existência a isso que não existe, no sentido comum do termo, pois a
verdade é que existe na imaginação, ou seja, criado por quem o sofre e,
justamente por isso, não lhe pode fugir pois seria necessário fugir de si
próprio para conseguir safar-se de sua ameaça. [...] Trechos extraídos da
obra Quatro gigantes da alma: o medo, a
ira, o amor, o dever (José Olympio, 1994), do sociólogo, psicólogo e
psiquiatra cubano Emílio Mira y López
(1896-1964), refletindo com rigor científico sobre a origem biológica e social
de cada manifestação que leva a vítima a ter de elaborar uma verdade e a estratégia
bélica para enfrentamento das batalhas individuais contra os gigantes criados
pelo próprio ser humano.
ZANONI - [...] Ali, entre aquelas
lúgubres paredes, o astro matutino brilhava por entre as barras da grade sobre
aqueles três seres, nos quais estava concentrado tudo o que os laços humanos
podem oferecer de mais misterioso e encantador; tudo o que há de mais
misterioso nas combinações da mente humana; a Inocência entregue ao sono; a
Afeição confiante que, contentando-se com um olhar e um contato, não prevê as
mágoas; e a fatigada Ciência que, depois de penetrar todos os segredos da
Criação, vem, por fim, achar na Morte a solução desses segredos, e
aproximando-se já da tumba, ainda se abraça com o Amor. Assim, lá dentro viam-se
as tristes paredes de um calabouço; e, no exterior, cheio de mercados e salões,
palácios e templos, reinava a Vingança e o Terror, forjando negros projetos e
contra-projetos; de um lado para outro, flutuando sobre a crescente maré das
agitadas paixões, oscilavam os destinos dos homens e das nações; e a estrela d’alva,
desvanecendo. Se no espaço, fitava com olho imparcial a torre da igreja e a
guilhotina. Radiante, começa a aparecer a luz do dia. Lá, nos jardins, as aves
renovam seus cantos favoritos. Os peixes saltam brincando nas frescas águas do
rio Sena. A alegria da divina natureza e o buliçoso e discordante ruído da vida
mortal, novamente despertam: o comerciante abre as suas janelas; as raparigas,
ornadas de flores, dirigem-se para as suas lides; operários correm, com passes
ligeiros, aos trabalhos diários nas oficinas, que as revoluções, derribando os
reis e os imperadores, deixam, como herança de Caim, aos pobres e rústicos; os
carros gemem debaixo do peso das mercadorias; a tirania sobressaltada madruga e
se levanta com o rosto pálido; a Conspiração, que não dormiu, escuta atenta o
relógio murmurando no coração: “Aproxima-se a hora”. Nas avenidas do salão da
Convenção vão-se formando grupos, em cujos semblantes se vê pintada a
ansiedade; hoje se decide a soberania da França! Nos arredores do Tribunal,
nota-se o ruído e movimento do costume. Não importa o que o Fado está
preparando; neste dia cairão oitenta cabeças! [...] Assim terminou o Reinado do
Terror. A luz do novo dia iluminou o calabouço. A gente corria, de cela em
cela, a levar a feliz notícia. Os alegres presos se mesclavam com os
carcereiros, os quais, de medo, também mostravam ar alegre. Os presos corriam
embriagados de prazer, por aquelas espeluncas e por aqueles corredores da
terrível casa que, em breve, iam deixar. Entraram numa cela, esquecida desde a
manhã anterior. Ali acharam uma mulher ainda moça, sentada sobre a sua
miserável cama, com os braços cruzados sobre o peito, a face levantada para o
céu os olhos abertos e um sorriso nos lábios, que revelava não só serenidade,
mas até felicidade. A gente, ainda no tumulto de sua alegria, retrocedeu cheia
de respeito. Nunca, na vida, haviam visto tanta beleza; e quando se aproximaram
silenciosamente, ao lado daquela formosa mulher, viram que os seus lábios não
respiravam, que o seu repouso era o de mármore, e que a beleza e o êxtase eram
de morte. Trechos extraídos do romance Zanoni (Zéfiro, 2009), do escritor e dramaturgo inglês Edward Bulwer-Lytton (1803-1873),
contando a história vivida por um conde, uma cantora de ópera e um aprendiz de
pintor na busca pelos ideais e a compreensão da alma.
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