quarta-feira, abril 08, 2009

A POESIA DO CORDEL DE CHICO PEDROSA, BOB MOTTA & JORGE FILÓ!



GENEALOGIA

O poeta já nasce destinado
Desde a hora de sua geração
Cada veia que sai do coração
É um verso a pulsar acelerado
Pela deusa da musa é coroado
Do castelo dos sonhos é o rei
Tudo quanto improvisa vira lei
Quando quer, tudo pode, tudo cria
Trago o gen imortal da poesia
Pela força do sangue que herdei.

Aprendi com meu grande professor
Que o xexéu o piston a tarde emuda
Que no mundo não há quem não se iluda
No caminho de pedras do amor
Aprendi os segredos que há na flor
E que tudo na vida quanto sei
Foi porque minha vida eu debrucei
Pra melhor entender FiloSOFIA
Trago o gen imortal da poesia
Pela força do sangue que herdei.

QUERO CESAR LEAL ME ABENÇOANDO PRA TORNAR IMORTAL MINHA GERAÇÃO

Quem desvenda as veredas da poesia
E a poetas imberbes abre espaço
Sem temer falatório ou embaraço
Sabe o peso que tem a sua cria
É Leal no caminho que inicia
Dando margem e voz à criação
De quem cedo, já diz com o coração
Tudo quanto o sentido vai criando
Quero César Leal me abençoando
Pra tornar imortal minha geração.

MARQUETINGUE FAMILIAL

Se você no fim do ano
Também tem esta mania
Se gosta de dar presentes
Dê livros de poesia.
Tenho três indicações
Poetas do mesmo pó
O meu pai, meu tio e eu
Todos da lavra Filó.
As curvas do meu caminho
Do meu pai, a grande obra
O mestre Manoel Filó
Que versos, tinha de sobra.
Versos em motes diversos
Retrata o grande poeta
Que é Gregório Filó
Trilhando na mesma meta.
A igreja do diabo
Ou a contradição humana
É o meu livro-cordel
Que aos outros se irmana.
Quem quiser adquirir
Sendo este seu desejo
Todos três estão à venda
Lá no Box Sertanejo.
O endereço do Box
Pra quem tá desavisado
Fica lá na Madalena
Mesmo dentro do Mercado.
Pode pedir pelo fone
Nove, nove, sete, cinco
Repetindo a mesma rima
Vinte e seis, quarenta e cinco.
O do meu pai custa 20
15 é o do meu tio
O meu custa 10 reais
Pra qualquer canto eu envio.
E como disse meu pai
Num autógrafo que deu
“Tô explorando os amigos
vendendo o que Deus me deu.”

TAMBÉM NÃO SEI O QUE É

Não consiste de matéria
Reside em todo ambiente
Até no vão da semente
Sua existência é etérea
Também está na artéria
Que espalha sangue num gato
Na faca de tratar fato
No gomo da poesia
No oco da melancia
Que a raposa deu um trato.

II

No solado de um chinelo,
No batente da calçada,
Em cima de uma latada,
No estrondo do martelo,
Pintado de amarelo,
Pode ter qualquer formato,
Tá na cidade e no mato,
No olhar frio da jia,
No oco da melancia,
Que a raposa deu um trato.

III

Não sei quem diabo já viu
Porém tá em todo canto
E pra me causar espanto
O danado hoje sumiu
Não sei por onde saiu
Pois ninguém tirou retrato
No sentido estrito ou lato
Às vezes ele se enfia
No oco da melancia
Que a raposa deu um trato

IV

Lhes digo sinceramente
Que eu nunca o avistei
Outro dia até pensei
Tê-lo inventado na mente
Mais nisso rapidamente
Ele veio em meu olfato
Trazendo seu cheiro inato
Que eu sei que já existia
No oco da melancia
Que a raposa deu um trato.

MEDIDA

Gente grande não se mede
Pelo volume da massa
O troço de medir gente
Também não é pela raça
Nem queira lograr pecúnia
Essa medida é de graça.

SAMICO

Eu vim aqui poetar
Sobre esta bela figura
Que é a xilogravura
Deste artista sem par
Quero lhe homenagear
Pois seu ofício é sagrado
Um artista renomado
Gilvan não é brincadeira
Que na gravura em madeira
Esse Samico é um danado.
Marco Pólo já versou
Bráulio e Cida Pedrosa
Eu vou entrar nesta prosa
Pois poeta também sou
Acho até que demorou
Mas o meu tempo é chegado
Quero me ver enquadrado
Neste time de primeira
Que na gravura em madeira
Esse Samico é um danado.
Tem um ente que não sei
Se está na água ou no céu
E vem estendendo um véu
Foi logo o que avistei
Eu também observei
Um casal apaixonado
Um pavão pra cada lado
Numa simetria inteira
Que na gravura em madeira
Esse Samico é um danado.

NO TERREIRO DA PAZ SALU DESCANSA SILENCIA A RABECA GENIAL

O Cavalo Marinho silencia
O Ambrósio, o Mateus, o Bastião
A rabeca saiu da entonação
A cultura do povo, perde o guia
Toda Zona da Mata em nostalgia
Dá adeus a seu mestre colossal
Sua imagem agora é imortal
Para sempre guardada na lembrança
NO TERREIRO DA PAZ SALU DESCANSA
SILENCIA A RABECA GENIAL.

Foi o Mestre maior da nossa arte
Respeitado em todos os recantos
Pelo mundo artistas vertem prantos
Pois seu nome soou em toda parte
Dos brincantes foi grande baluarte
Com seu estro singelo, madrigal
O seu gênio, de forma magistral
Perpassou pela vida numa dança
NO TERREIRO DA PAZ SALU DESCANSA
SILENCIA A RABECA GENIAL.


JORGE FILÓ - Jorge Renato de Menezes nasceu em Recife em 1969. Poeta cordelista e produtor cultural. Viveu a infância entre as cidades de Recife, Tuparetama, São José do Egito e Arcoverde. Nesta última, viveu da adolescência a fase adulta, quando mudou-se para o Recife, onde reside até hoje. Membro daUnicordel - União dos Cordelistas de Pernambuco. Produtor da banda Vates e Violas. Como gosta de dizer, Jorge Filó é neto, filho, sobrinho, irmão e amigo de poetas e toca sua vida “respirando e transpirando poesia”. É filho de um grande nome da poesia popular nordestina, Manoel Filó, que faz parte da família poética do Pajeú, região do Sertão pernambucano farta em bons poetas e repentistas. Além de escrever cordéis Jorge é um hábil sonetista e escreve seus sonetos sob o pseudônimo ou quem sabe heterônimo de Anacreonte Sordano. Poeta antenado com seu tempo edita com regularidade o blog No Pé da Parede com o qual se articula na internet e divulga a pluralidade da cena literária nordestina. Transita nas diversas cenas literárias de Recife e foi um dos percussores em unir as manifestações da poesia alternativa e da poesia popular, transitando com igual desenvoltura em eventos culturais dos mais diversos gêneros, tendo seus poemas publicados pelos fanzines alternativos em circulação. Livro: A igreja do diabo ou a contradição humana - Editora Coqueiro, 2004. Alguns cordéis: A medusa moderna ou besta fera da televisão - Editora Coqueiro, 2005; Dois dedim de prosa entre Jesus e Lampião - Prefeitura do Recife, 2007. Participação em coletâneas: Petrus Apostolus Princeps Apostolorum – Um mote santo e algumas sacras glosas – Organizada pelos Autores, 2006; Amores Perfeitos na Beira do Mar (organizada por Marcos Passos) - Edições Bagaço, 2007. Em CD: A revolução dos pebas – como recitador, em parceria com a banda Fim de Feira, 2008. Links relacionados: cardápio de poesia figura da vez entrevista corda virtual. blog do poeta nopedaparede.blogspot.com
 

BRIGA NA PROCISSÃO



Chico Pedrosa



Quando Palmeira das Antas

Pertencia ao Capitão

Bento Justino da Cruz

Nunca faltou diversão:

Vaquejada, cantoria,

Procissão e romaria,

Sexta-feira da paixão.

Na quinta-feira maior,

Dona Maria das Dores

No salão paroquial

Reunia os moradores

E ao lado do Capitão

Fazia a seleção

De atrizes e atores

O papel de cada um

O Capitão que escolhia

A roupa e a maquilagem

Eram com Dona Maria

O resto era discutido,

Aprovado e resolvido

Na sala da sacristia.

Todo ano era um Jesus,

Um Caifaz e um Pilatos

Só não faltavam a cruz,

O verdugo e os maus-tratos

O Cristo daquele ano

Foi o Quincas Beija-Flor

Caifaz foi Cipriano,

Pilatos foi Nicanor.

Duas cordas paralelas

Separavam a multidão

Pra que pudesse entre elas

Caminhar a procissão

Cristo conduzindo a cruz

Foi não foi advertia

Pro centurião perverso

Que com força lhe batia.

Era pra bater maneiro

Mas ele não entendia

Devido a um grande pifão

Que bebeu naquele dia

Do vinho que o capelão

Guardava na sacristia.

Cristo dizia: ôh, rapaz,

vê se bate devagar!

Já estou todo encalombado,

assim não vou aguentar,

tá com a gota pra doer,

ou tu pára de bater

ou a gente vai brigar!

O pior é que o malvado

Fingia que não ouvia

E além de bater com força

Ainda se divertia,

Espiava pra Jesus

Fazia pouco e dizia:

Que Cristo frouxo é você,

que chora na procissão?

Jesus pelo que eu saiba

não era mole assim não.

Eu tô batendo com pena,

tu vai ver o que é bom

na subida da ladeira

da venda de Fenelon.

O couro vai ser dobrado

daqui até o mercado

a cuíca muda o som!

Naquele momento ouviu-se

Um grito na multidão

Era Quincas que com raiva

Sacudia a cruz no chão

E partia feito um maluco

Pra cima de Bastião

Se travaram no tabefe,

Ponta-pé e cabeçada.

Madalena levou queda,

Pilatos levou pancada

Deram um bofete em Caifaz

Que até hoje não faz

Nem sente gosto de nada.

Desmancharam a procissão,

O cacete foi pesado.

São Tomé levou um tranco

Que ficou desacordado

Deram um cocorote

Na careca de Timóti

Que até hoje é aluado.

Até mesmo São José,

Que não é de confusão

Na ânsia de defender

O filho de criação

Aproveitou a garapa

Pra dar um monte de tapa

Na cara do bom ladrão.

A briga só terminou

Quando o Doutor Delegado,

Interviu e separou:

Cada Santo pro seu lado!

E desde que o mundo se fez,

Foi essa a primeira vez

Que Cristo foi pro xadrez,

Mas não foi crucificado.



CHICO PEDROSA - Chico Pedrosa é um poeta paraibano radicado no Recife (PE), com 71 anos de idade vendendo seus livros e cds de mão em mão ou em apresentações organizadas por amigos.



O MATUTO E A REVISÃO DO PORTUGUÊS - REVISÃO ORTOGRÁFICA DA LÍNGUA PORTUGUESA






Dotô, eu tô incucado;

num vô me acustumá, não.

Cum essa nova ortografia,

adispôi da revisão.

P’rum matuto qui nem eu,

a mióra num se deu,

gerô mais cumpricação.



Derna de doze de ôtubro,

do ano da graça noventa,

qui a língua portuguesa,

sua unificação, tenta.

O acôrdo é um tratado,

agora oficializado,

qui a um tempão qui se tenta.



Cumeçando cum o aifabeto,

arrelembro pra vocêis,

sôbre o número dais letra,

qui era de vinte e trêis.

O K, o W e o Y entraro,

cum ais ôta se ajuntaro,

e agora é vinte e seis.



Sigundo o anunciado,

in tudíin qui é de recinto,

trema, aquêles dois pontíin,

do português foi ixtinto.

Sem o dito, referido,

ninguém mais vai tá perdido,

naquêle véi labirinto.



O tá do acento agudo,

caiu nuis ditongo aberto.

Meio mundo de palavra,

num tem mais êle, nem perto,

A todo e quaiqué momento,

pode iscrevê sem acento,

cuntinua tudo certo.



Tem mais uma ruma de regra,

prá êsse acento qui caiu.

Se atiro no qui se oiava,

e acertô no qui num viu.

Duis grupo gue e gui,

mode o cabra se intupí,

o bicho tombém sumiu.



O acento circunfrexo,

qui é aquêle chapéuzíin,

palavra finda in hiato,

tombém perdêro o bichíin.

De regra, quage uma centena,

vai me dá sodade e pena,

do chapéu tão bunitíin.



Essa nova ortografia,

faiz o matuto indoidá.

Cum meus sessenta e um ano,

num vô mais me acustumá.

De um pra ôto momento,

tombém tiraro uis acento,

chamado diferenciá.



In Portugá, coitadíin;

tombém fôro retirada,

ais tá “consoante muda”,

qui nais palavra, era usada.

Intonce, digo a você,

qui tanto o C cuma o P,

tão de fora da jogada.



O hífen qui antigamente,

era o traço de união,

tombém disapariceu,

prá mim, gerô cunfusão.

Pois o bicho num morreu,

mode cunfundí mais eu,

a regra tem exceção.



Ainda sobre o tracíin,

é bem cumprido, o assunto.

Dêxa o cabra cunfundido,

ô abestaiádo, e munto.

Num sei mais dá meu recado;

Tudo-junto é separado ?

Separado é tudo junto ?



Mais num quero me metê,

se isso é ô num é bem feito.

Nuis cuncurso, nuis colégio,

muda intêríin, uis cunceito.

Mais vô, meus verso matuto,

de linguajá puro e bruto,

iscrevê do mêrmo jeito.



Esse acôrdo entre uis País,

donde a língua é o Português,

mudo, mais eu num me avéxo,

no verso, juro a vocêis;

qui acredite quem quizé;

mais eu cuntinuo fié,

ao meu véio MATUTÊS.



Eu lhe juro qui num é,

resistença àis mudança.

Sô puta véia na zona,

num sô mais uma criança.

Prá aprendê tudíin de nôvo,

juro, meu querido povo:

Num tenho mais isperança.



Eu sô um poeta véio,

qui de iscrevê, num se acanha

Mêrmo disatualizado,

no seu versá, se assanha.

Pru mais qui pareça incríve,

eu acho quage impossíve,

qui argúem tire ais minha manha.



Num preciso de tratado,

prumode falá de amô.

Dais coisa do meu sertão,

de Jesus Nosso Sinhô.

Da nossa mãe natureza,

de tôda sua beleza,

feita pelo Criadô.



Mais antes qui in Portugá,

venha cuntecê o pió,

o poeta caririzêro,

de pertíin do Siridó;

pregunta, sem fazê zôrra;

cumo s’iscreve ora pôrra;

é cum Agá ô cum Ó ?



Mais uma ôta pregunta,

eu quero aqui fóimulá.

Parece, mais eu num quero,

a ninguém, iscandalizá.

Bob, a preguntá, s’axtreve;

Chibiu, cuma é qui s’iscreve ?

É cum xis ô cêagá ?



Se seu Português num é rim,

me arresposte no momento.

Sem zuada, sem pantíin,

sem ninhum cunstrangimento.

Me diga, Seu Niculau;

na palavra pica-pau,

tu bota ô não, teu acento ?



Sobre a nova ortografia,

taí, apôis, meu paricê.

Num sô dono da verdade,

mais afirmo prá você;

p’ru poeta véio, idoso,

qui nem burro véi, manhoso,

num dá mais mode aprendê.



Pode sê, mais é difíce,

o poeta assimilá,

essas modificação,

qui acabaro de entrá.

Mêrmo me achando feliz,

cumo um eterno aprindiz,

da curtura populá...



BOB MOTTA – o poeta Roberto Coutinho da Motta é membro da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, da União Brasileira de Trovadores-UBT-RN, do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da comissão Norte-Riograndense de Folclore, da União dos Cordelistas do Rio Grande do Norte-UNICODERN, da Associação dos Poetas Populares do Rio Grande do Norte-AEPP e do Instituto Histórico e Geográfico do Cariry-PB. 



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