quarta-feira, fevereiro 13, 2008

TOLINHO & BESTINHA - CAPÍTULO IV



TOLINHO & BESTINHA

IV

Quando a lei do semideus é cachaça, tapa e gaia


Tolinho nunca foi de na hora agá do pega-pra-capar dar uma de ré-pra-trás, tá doido? Farrapar não fazia parte do seu glossário, podendo, no máximo, tapiar, enrolar, mas abrir-da-vela, ôxe, nem morto. Ele sempre foi do tipo de se atolar cobrindo até o cardan numa areia movediça, dando um boi para não se meter em bronca e uma boiada quando fosse compelido a se enfincar nela, num saindo sem antes fazer imensuráveis estragos na reputação dos envolvidos. Daí dizer que ele já cagou-fora-do-caco, nem mesmo o seu primo, o Lombreta-boca-de-frô, desde os tempos fagueiros da infância, seria capaz de conferir por elucidação.

Agora, excetuando-se o pipôco de arrancar um colhão e a fuga de medo da feiosa, até então Tolinho nunca desfez palavra de rei. Tinha lá suas pacutias, mas dissesse o dito, tava feito.

- Quando deus dé bom tempo e vergonha nos homens, eu indireito o rumo da venta na minha vida! -, arremedava todo azuretado.

O Lombreta mesmo se ria e dava a maior corda para as pabulagens do alesado de quando vitimado dalgum enredo desproposital de abelhudo funesto, desbragava-se na maior das gargalhadas mangadeiras. Este testemunhou tantos infortúnios quanto presepadas malévolas que o fuleiro impunha aos de sua convivência de quase pocar o tampo do bucho de tão risível que resultava. É que Tolinho, quer queira, quer não, apesar de tudo, tinha lá seus códigos de honra um tanto reprováveis pela conduta usual. E enumerava um a um arrotando probidade:

- Pirôbo é raça que mereci arrespeito, num inxeste na face da terra coiteiros meiores pra se fazer boi-de-fogo! Qué encrenca? Boate pra eles quaiquer enredo que o negoço fica dum jeito que o diabo gosta. Adispois, é só esperá a parma da mão e o couro ficar quente numa bravata! Outra? Muié é a meiór e a pió coisa que inxeste no mundo! A de casa é feito galinha de granja: insossa, chêrosinha e cheia de bronca; as da rua, feito galinha de capoeira: come merda, nojenta e tem uma carne boa, suculenta e tome-lá-dê-cá. Família? só presta pra tirar retrato, se der trela se mete até onde num é chamado e cheio de direito, tudo sócio nas benesses e pinoteiros na hora do vamos ver. Home só se tem dois tipos: os amigos pra gente caçoar, tirar proveito e tratar por camarada; e os inimigos, pra gente esfolar o gogó até num prestar mais pra nada num descarte.

Pelo visto, o bicho era ineivado, viesse do jeito que fosse ele traçava no peito e na raça. Lombreta lá, só atocaiando o desfecho.

Isso tudo Tolinho aprendera na escola da vida e no meio da safadeza até a metade do ginasial, vez que ele abominava o inventor de estudo, coisa que ele achava a mais sem graça de todas as coisas inventadas, desinventadas e por inventar na face da terra.

- Estudá pra quê? A vida é a maior escola pra dar folgança na costela de quaiquer vivente!

E nessa escola deu-se de enganchar as pernas nas coxudas insones mais desditosas das paragens. Era uma macacada triste a chavecada do sujeito no juízo das mariposas. Ôxe, parecia mais o Don Juan senão Casanova de sustância irrepreensível. Num tinha dia dele num bater umas três bronhas e ainda deixar umas cinco sedentas pulando de gôzo com a mão na cabeça, sem contar os pederastas destrambelhados que dormiam com o aro do bozó dilatado. Era. Tinha ocasião até dele se amigar com umas seis ao mesmo tempo, dando conta do recado sem pestanejar. E avalie que o cara era rancôlho, imagine se...

Certa feita, a tuia de mocréias deu uma reviravolta na sua vida, uma ingrisiou com a outra, ficaram de mal, juraram desforra e ele costurando tudo na conversa. Nem diga: as seis, mais trombudas que barangas injuriadas, se juntaram num motim e, armadas de penico, bobes, lancheiras, tamancos, frasqueiras, prochetes, berilos, atacas, tarraxas, flandres, pinças, frascos, brebotes e tranqueiras, deixaram-no no canto da parede, exangue e com os olhos prontos para pular fora de tanto medo, findando entrincheirado a todo tipo de beliscada e sapecada de utensílios no quengo, do cara endoidar-se e aboletar-se numa maca hospitalar compulsoriamente por breves oito meses, estatelado. Sofreu na pele a desforra delas, jurando num querer vê-las nem pintadas em noite de correr bicho. Mas essa não foi a primeira e nem seria a única a desandar na sua vida. Ainda hoje o bicho anda enovelado com umas broncas assim de arrepender-se desde o dia que nasceu macho.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.



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